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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Quando chegares a casa, o jantar está pronto

Por: Márcio Alves Candoso

 

"Quando chegares a casa, o jantar está pronto", mas isto dito em tom estalo, de cabeça levantada, no meio da multidão que a observa. Como quem atira um 'digo que te sirvo mas não sou serva, sirvo-te mas porque eu quero, porque fizeste o que eu te mandava havia tempo, e só assim ficas comigo'. 

 Mary Kate Danaher, a personagem de Maureen O'Hara no filme "O Homem Tranquilo", de John Ford, 1952

 

Um fado irlandês, que desata em passo largo, rasgando a turba de basbaques quietos e mirones, com as saias irlandesas pelos tornozelos, atacando as relvas irlandesas que são os pastos onde levava as ovelhas no primeiro dia em que se olharam; e só pára – presume a gente, e constata vendo a cena que se segue a esta – diante do fogão de lenha da casa em que está casada.

Chamava-se Maureen O'Hara e essa interessa-me menos, apenas para que se perceba porque era parecida com quem lhe calhava nos filmes. É a personagem de Mary Kate Danaher, aquela que não morreu na semana passada, nem nunca andou de cadeira de rodas. Quando muito perdeu-se, mas isso foi há que tempos, e é toda uma outra história, a da mulher de 'Duke', o Homem Tranquilo que dizem que foi o primeiro que conseguiu domar a 'fera'. Não domou nada, digo eu, que vi o filme todo, para além mesmo da longa-metragem.

 

A vida de Maureen FitzSimmons, nascida na Irlanda logo depois da I Guerra, são os filmes que sonhava quando era criança, mais todos aqueles que fez a partir da idade em que uma mulher se entrega ao facto de ter crescido. E esses são duros, faíscam-lhe nos olhos e no cabelo, e criaram o mito da preciosidade que se tem em casa mas só se se souber mantê-la. Uma coisa antiga, que já não se usa...

 

Quando Charles Laughton descobriu Maureen, disse-lhe logo que o nome FitzSimmons era um desatino. Ela bateu o pé, e Laughton apreciou, condescendeu - até que ela tinha razão. Ficou 'O'Hara e não se falou mais nisso. Maureen preparou a ceia, mas só depois de ficar escrito que era como ela queria. Mesmo que fosse o contrário!

 

Em Dublin foi criada, com mais cinco irmãos, dois dos quais também agarraram na vida o papel que o cinema lhes deu. Com a ajuda dela. Só a mais velha é que não se meteu em artes, foi para freira. Era irlandesa, não era? Já ela, Maureen, tinha a mania de ser forte, com sentimentos à mistura. Como é que fazia as cenas perigosas? Não usava duplos e rezava antes. É fácil, para uma irlandesa! Pendurada no topo de Nôtre Dame, sem rede por baixo? Reza-se! Uns bons músculos que lhe sobraram da infância estouvada também ajudaram.

 

Tinha a melodia do descanso do guerreiro e o fogo bastante para o fazer ir atrás dela, e pô-la de rastos, e levar dela um estalo. E o amor tardou um tempo que um americano não percebia, mas que fazia parte da afirmação. Maureen, uma metonímia para a mulher que demora, conquista-se todos os dias e não se perde nunca. Porque ela não deixa, não quer. É preciso ver o filme, na parte em que faz rir e na parte em que se chora.

 

'It started with Eve'. Outra metáfora para o que se pode fazer com uma mulher, mas a léguas de Maureen O'Hara. Charles Laughton, sempre ele, sabia que Deena Durbin, a sua 'Danny Boy', o enganara, mas ele queria-a mesmo assim no filme. Depois descobriu 'the red' Maureen. Porque resolvi dizer isto? É que trata-se de um aperfeiçoamento masculino. Da primeira vez que te vi estavas mesmo à minha frente. Depois olhei tantas vezes e estavas sempre atrás de mim. Da última vez que te olhei, estavas onde?, - ao meu lado. E quase chegado aqui estavas já antes de mim.

 

Sempre entrou bem em personagens de mulheres fortes. No écrã, foi o génio – disse-o ela – Alfred Hitchock que lhe topou a façanha, depois de Laughton lhe ter visto os olhos, o cabelo e a boca tão dura para o berro como boa para beijos. Mas não fazia gala do corpo, e muito menos do 'glamour' da boca de cena. Não se metia com os actores, mas sabia o que é um homem. 'É John Wayne', disse ela. Mas nunca lhe partilhou a cama fora dos filmes irlandeses. E mesmo nesses, era peciso fazer o que ela mandava. Estão a ver o John Wayne?... Só ela!

 

 

Nunca ganhou um Óscar. 'Andei perdida no meio de gigantes, nunca chegava a minha vez', disse um dia, muito depois de ter deixado o écrã para se dedicar à família e aos amigos, que reunia todo o santo dia nos sítios vários onde morava. Apesar da nostalgia, sentia-se 'muito confortável' consigo mesma. A Academia fez mea-culpa quase em cima do dia em que morreu. E deu-lhe um Óscar pela carreira. Pela maneira de ser. Por ser quem era. Na sala onde reunia os netos com quem saía à noite a beber um copo, esse foi o 'homem' que faltava. 'My Oscar', dizia enamorada e trémula, enquanto ainda sorria com a alma toda.

 

Maureen O'Hara morreu na semana passada, com 95 anos. Com estilo, e um bom bocado de paixão para o resto da vida, mas tirada a ferros e a costumes que faz sentido seguir para depois os mandar às malvas. O resto é a lente de John Ford, a anca meio torta de John Wayne e os cabelos de fogo que lhe emolduravam os olhos.

Quem era ela? Não estou especialmente interessado. Quando a conheci era Mary Kate Danaher. Primeiro ela passa, depois leva limões à praça, e no fim caso com ela.

publicado às 14:35

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