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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Sei como jogaste no Verão passado

Por: Pedro Fonseca

 

O venerável bridge está sob acusações de batota. Análises das jogadas e vídeos permitem detectar as falcatruas - por enquanto. Mas mesmo quem acusa não quer ver este jogo de cartas numa versão mais electrónica.

 

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Créditos da imagem: L Ravenhill "Who doubled No Trumps ?" | http://www.haroldschogger.com/history.htm

 

Como se descobre a batota nos grandes campeonatos profissionais de bridge? A questão teve uma resposta recente: analisando as jogadas e os vídeos da competição. O bridge é um jogo de 52 cartas derimido a quatro, com dois parceiros colocados em posição frontal, sendo semelhante no posicionamento ao mais conhecido jogo nacional da sueca. As regras do bridge têm sido actualizadas desde as primeiras enunciadas em 1928, sem modificações radicais.

 

O "escândalo da batota no mundo do bridge profissional", como lhe chamou a The New Yorker, envolveu os israelitas Lotan Fisher e Ron Schwartz mas, perante este caso, surgiram mais acusados. Em 2010, eles triunfaram no World Junior Teams Championship, seguindo-se no ano seguinte o European Youth Bridge Team Championships e os convites para inúmeros torneios com os melhores jogadores.

 

O bridge é um jogo muito baseado na experiência, explicava Gavin Wolpert, profissional e co-fundador do site Bridgewinners, pelo que não é fácil jogadores jovens ganharem. "Quando se é novo, não se entra e de repente se começa a ganhar qualquer evento", disse. Mas foi isso que sucedeu com Fisher e Schwartz.

 

Boye Brogeland, um jogador da Noruega, desconfiou do par no Verão passado - a 15 de Agosto, quando perdeu para aquela dupla -, e analisou as jogadas dele e do seu parceiro Espen Lindqvist contra a dupla israelita, para considerar que eles faziam batota. "Só não sei como a faziam", disse, enquanto Fisher e Schwartz negaram estas alegações.

 

Brogeland foi "recrutado" em 2013 pelo seu ainda actual patrocinador Richie Schwartz e diz receber 50 mil dólares anuais, bem como despesas e bónus pelo desempenho nos torneios, segundo a revista Vanity Fair. Este jogador já estava na equipa de Richie Schwartz quando este contratou Lotan Fisher e Ron Schwartz, mas ele nunca os tinha defrontado anteriormente, apenas ouvido "rumores" sobre as suas prestações.

 

Entre 2014 e no ano seguinte, a equipa de seis - Brogeland, Lindqvist, Fisher, Schwartz, Allan Graves e Richie Schwartz (o patrocinador também pode jogar) - ganhou vários campeonatos de bridge.

 

"A maior falcatrua na história do bridge"

 

Após a separação no final do Verão de 2015, a Vanity Fair descreve como decorreu um desafio posterior em Chicago, em que os ex-parceiros se defrontaram, e não parece ter sido nada simpático. Brogeland triunfou, mas Fisher contestou essa vitória com base num pormenor técnico, tendo-lhe sido outorgada a vitória. Foi quando Brogeland tentou perceber como tinha perdido e começou a investigar a alegada batota de Fisher e Schwartz. Perante as descobertas, tentou sensibilizar as federações do bridge para o caso, mas sem resultados palpáveis e quando se aproximava um torneio importante (Bermuda Bowl).

 

A acusação era grave e Gavin Wolpert aconselhou Brogeland a não a fazer sem provas. Brad Moss, outro jogador norte-americano e que ajudou a obter provas contra Fisher e Schwartz, também o avisou, devido ao patrocinador da dupla israelita (Pierre Zimmermann, "a pessoa mais poderosa no bridge", segundo ele). Outros jogadores ouvidos pela Vanity Fair consideram que Brogeland não tem razão.

 

Mas este avançou com as acusações, criando o site Bridgecheaters e disponibilizando vídeos de partidas no campeonato europeu de 2014, ganho por Fisher e Schwartz. Ele descreve em várias páginas "a maior falcatrua na história do bridge", apontando algumas jogadas dos seus oponentes como "inexplicáveis".

 

Na Vanity Fair, o profissional norte-americano de bridge Chris Willenken considera o caso como um "perfeito exemplo de desobediência civil", perante um "manto de silêncio" das autoridades do jogo e dos pares. Além de analisar as jogadas e disponibilizar vídeos (ou remeter para o YouTube), o norueguês pediu ajuda para confirmar as suas suspeitas - e os dados começaram a chegar.

 

O par tinha sido repreendido pela Federação de Bridge de Israel em 2003 por "violações éticas em eventos de juniores". Dois anos depois, Fisher foi apanhado com uma folha de papel sobre uma jogada que ainda não tinha sido efectuada à mesa de jogo, e acabou suspenso por vários anos. Na mesma altura, Schwartz também foi suspenso mas, "mesmo antes das penalizações terminarem, eles ressurgiram como um par". No entanto, desde o Verão de 2015, quando surgiram as acusações, não voltaram a jogar em grandes torneios, revelou a revista Rolling Stone.

 

O próprio Fisher diz sobre a dupla que "estamos conscientes de que a nossa forma de [ganhar] parece suspeita" mas "entre parecer suspeito e ter um sistema e enganar/transferir informações entre os dois lados... é como a diferença entre o preto e o branco".

 

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Quem é No Matter?

 

Com a cooperação internacional, o Bridgecheaters permitiu detectar como eles faziam a alegada batota no jogo, mas revelou igualmente outros jogadores que usavam truques pouco éticos no jogo - como o par italiano Fulvio Fantoni e Claudio Nunes, que foram contratados para a equipa do Mónaco e ainda estão em investigação, ou os alemães Josef Piekarek e Alex Smirnov, que confessaram sobre alegações à sua "conduta ética" conterem "alguma verdade", e concordaram não mais jogarem juntos em competições. Também os polacos Cezary Balicki e Adam Zmudzinski foram impedidos de participar no referido Bermuda Bowl do ano passado por alegações de batota e estão sob investigação.

 

Curiosamente, algumas das acusações a estes nomes no site surgiram de um utilizador com o nome No Matter, que se presume ser Lotan Fisher. Brogeland não sabe explicar a razão, excepto se for para afastar o "foco" das suas actividades. Fisher concordou ter ajudado o No Matter para "limpar o jogo" e também que pretendia limpar a sua reputação e a de Ron Schwartz.

 

As acusações estão feitas, mas os processos legais que estão a decorrer vão provar quem tem razão. "Fisher e Schwartz disseram a Brogeland que o não processavam se ele retractasse as acusações e lhes pagasse um milhão de dólares", o que Brogeland recusou. Eles estão igualmente a recorrer da decisão da federação israelita de bridge, tendo sido expulsos da equipa do seu patrocinador.

 

Embora haja prémios em dinheiro para os torneios de topo, a verdadeira atracção para os maiores profissionais do jogo é a oportunidade de estarem em equipas patrocinadas por fãs multimilionários. Por exemplo, Pierre Zimmermann é CEO da Zimmermann Immobilier, uma empresa imobiliária suíça, enquanto Richie Schwartz é um matemático e analista informático que fez fortuna nas corridas de carros nos anos de 1970.

 

Jogadores desse calibre podem ganhar centenas de milhar de dólares por ano a jogar em torneios de alto nível. E, explicava a Rolling Stone, "esse dinheiro, segundo alguns jogadores, incentiva ainda mais os concorrentes a fazerem batota". Willenken é claro: "há bastante dinheiro envolvido pelo que é fácil entender porque nem todos podem ser honestos".

 

"No futuro, apanhar batoteiros será provavelmente mais difícil", considera a The New Yorker (que lista antigos batoteiros, os truques que usavam, de como foram descobertos e o nível de segurança imposto nos torneios para os impedir). Isto porque, à medida que eles entendem o potencial das tecnologias como o vídeo, engendram formas de as contornar.

 

Mesmo Brogeland não considera a evolução do jogo do seu modelo analógico para uma versão mais electrónica, apontando antes um empenho numa maior cultura ética.

publicado às 17:15

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