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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Um ano novo, mesmo?

Por: António Costa

 

O ano de 2016 não começou no dia 1 de Janeiro, na verdade, do ponto de vista político, económico e social, o ano começou em Outubro, mais precisamente no dia 4, quando as legislativas abriram um outro ciclo, alguns dizem que novo. Mas do que (já) sabemos, o que está para vir nos próximos doze meses está longe de nos trazer um ano mesmo novo.

 

Em primeiro lugar, a política. António Costa tomou o poder com a promessa de uma nova Esquerda, com a queda dos muros, com uma influência reforçada do Parlamento, mas a prática mostrou o contrário. Quando foi necessário, para aprovar o Orçamento Retificativo, voltamos ao centro, ao bloco central, porque essa nova Esquerda desfez-se. O que é que isso nos diz? Costa foi capaz de alargar o seu efetivo apoio parlamentar, e isso dá-lhe um novo fôlego, e talvez explique porque é que Paulo Portas foi embora.

 

Vamos ter momentos tensos em 2016 ao nível político, sim, o caminho será estreito para Costa, sobretudo quando prometeu quase tudo a quase todos. A realidade impõem-se sempre à ideologia, e Portugal ainda não tem condições para sobrepor a segunda à primeira. Se calhar, nunca terá. O Orçamento do Estado para 2016, o Programa de Estabilidade para os cinco anos seguintes e o Orçamento de 2017.

 

A estes três momentos, Costa e Centeno têm de executar as contas deste ano, e do seu sucesso depende o futuro do governo, e do país. Mais salários na Função Pública, menos sobretaxa de IRS, mais pensões. Quem está contra? Se passar o mês de Outubro, passa a estar sobretudo nas mãos do primeiro-ministro o calendário político, e o Governo cairá quando lhe der jeito.

 

Depois, já este mês, Marcelo Rebelo de Sousa vai ser eleito Presidente, provavelmente à primeira volta. Não é uma previsão difícil, mais difícil é saber o que será Marcelo Presidente? Igual a Marcelo-comentador, criador de fatos políticos? Será seguramente anti-Cavaco, vai dessacralizar a função, vai ser mais Soares, a todos os níveis. E isso vai também alargar o debate político. Da residência oficial em São Bento ao Parlamento, passando por Belém. Num equilíbrio ao centro. Outra vez.

 

Em segundo lugar, a economia e as contas públicas vão ditar o tom do andamento. Portugal estava a crescer, pouco, mas a crescer, depois dos anos da troika. A confiança tinha regressado. Tinha, porque agora, está abalada pelo que sucedeu no sistema financeiro, na queda controlada do Banif à custa dos contribuintes e na solução para salvar o Novo Banco que afetou os investidores internacionais. E em 2016, isto não vai parar por aqui. A digestão da crise, das cumplicidades, dos interesses, é difícil e demora tempo. Vem aí a Caixa Geral de Depósitos e, veremos, se vamos descobrir outros esqueletos.

 

Como é que uma economia pode crescer sem banca? Não pode, por causa do dinheiro e, sim, da confiança. É fácil hoje – e vende – insultar os banqueiros, são alvos de todos as críticas. Muitas injustas, porque cada caso é um caso, cada banqueiro tem a sua história. Para já, perderam a reputação, não a confiança. Mas têm de perceber que para manterem a confiança, têm de mudar de vida. Por sua iniciativa. As mudanças regulatórias, as novas regras, a supervisão europeia, são necessárias, mas não são suficientes. Sobra, aqui, claro, o Banco de Portugal, ele própria a precisar de uma resolução, que separe o bom do mau.

 

Costa e Centeno prometem muito, mais crescimento – veremos quanto já em Janeiro -, menos desemprego, e tudo com défice controlado e dívida pública a cair. Só possível porque nem tudo foi mal feito nos quatro anos anteriores, basta perguntar ao senhor Tsipras, agora desaparecido dos jornais. Gostava de acreditar. Sobretudo com tanta reversão anunciada, das leis laborais às privatizações.

 

Para já, os beneficiados por mais rendimento estão satisfeitos, e percebe-se, mas a que custo? Sobretudo, num contexto internacional que continuará difícil, apesar dos juros baixos, do euro desvalorizado e da queda do petróleo que é a maior transferência de riqueza internacional de que há memória, entre os países produtores e todos os outros.

 

O ano de 2016 será, por isso, menos novo e mais do mesmo ciclo que vivemos em 2015. Poderia ser diferente, mas não era a mesma coisa.

 

A escolha para 2016

 

Em 2015, levámos um murro no estômago, daqueles que ficam. Os refugiados que chegaram, a pé e de barco, à Europa, em condições desumanas e com uma Europa a discutir números. A fugirem à guerra, ao terrorismo. Imagens brutais, que, banalizadas, desapareceram do nosso dia-a-dia. Mas só as imagens desapareceram, os refugiados continuam a chegar, e muitos a morrer às portas da nossa Europa. A TVI convidou João Gil e o coro da Gulbenkian a comporem uma música que não nos deixe esquecer. Que nos atormente, para obrigarmos quem decide a decidir.

publicado às 10:14

Ano novo, o mesmo planeta: comemorações da chegada de 2016 em todo o mundo

Há uma coisa que nunca muda, ano após ano: os australianos são sempre os primeiros a chegar ao ano novo... Os australianos e as ilha do Pacífico Sul. Mas as comemorações não perdem por esperar - e muitas começam mesmo antes da noite de 31 de dezembro. Aqui ficam algumas imagens para começar 2016 em beleza.

 

Ao longo dos dias de hoje e de amanhã iremos atualizando esta galeria.

publicado às 14:05

12 perguntas de 2015 para 2016

Por: Francisco Sena Santos 

 

Estamos a sair de um ano que fica marcado por alguns episódios que dão fôlego à esperança mas também pela proliferação do medo. Um 2015 que começou e terminou com as atrocidades em Paris, em que a organização com o nome mais pronunciado é a do autodesignado estado islâmico, e um ano que nos deixa num areal de inferno da nossa memória a imagem atroz do pequeno Aylan Kurdi, naufragado quando julgava fugir do calvário na Síria - retrato para nossa vergonha, e que resume todo o pesadelo dos que buscam refúgio com a aspiração de se livrarem da guerra e da pobreza. Mais de um milhão de refugiados nas portas da Europa. A solidariedade europeia de muitos chocou com a indiferença de tantos e até a vil perseguição pretendida por outros. Jóias arqueológicas como as de Palmira foram devastadas por mãos jiadistas.

 

É o ano em que com a chacina no centro social de San Bernardino subiu para 355 o número de matanças com armas de fogo num mesmo ano nos Estados Unidos da América – causaram mais mortes do que o número de baixas de soldados americanos nas guerras na frente externa. É o ano com temperaturas mais quentes desde que há registos, mas em que pela primeira vez há um acordo universal para proteger o clima do planeta. E tivemos a NASA Curiosity a mostrar-nos selfies de Marte que revelaram indícios de água líquida no planeta vermelho, portanto a possibilidade de algumas formas de vida. Temos um Papa, o mais revolucionário no topo da igreja católica, e uma referência moral neste nosso tempo. A Europa segue incapaz de dar boas soluções mas o espaço público está repolitizado. As eleições estão a virar a governação, tanto na Europa do Sul como na América do Sul. Cuba ficou menos ilha e o Irão volta a ser parceiro global. Em Portugal, os prejuízos da má banca continuam a ser socializados e pagos pelos contribuintes enquanto o lucro é privatizado. Os jornais, como as rádios e as televisões, precisam de excelência editorial e gente culta e inovadora para conquistar mais leitores que passem mais tempo a desfrutar informação com o contexto indispensável à compreensão do que está a acontecer, mas o que sai deste 2015 é o enfraquecimento das redações.

Os tempos que vivemos estão cheios de histórias dramáticas, em muitos casos trágicas, mas há que não desesperar, há que lutar por melhor. É assim que ficam 12 perguntas de 2015 para 2016

  1. Vamos continuar a confrontar-nos com a ameaça de atrocidades terroristas? Provavelmente, quase de certeza, sim. As organizações terroristas associadas ao chamado estado islâmico(EI) ainda estão a ampliar táticas e recursos para o ataque em curso: da guerra convencional ao terrorismo urbano, passando por operações de guerrilha. Por mais intelligence que seja envolvida é muito difícil que possamos ter, nos próximos meses, um escudo que nos defenda com eficácia e elimine o risco desses ataques.
  2. Há fim à vista para a guerra na Síria? Ainda vai demorar. A entrada em ação, em 30 de setembro, dos caça-bombardeiros russos alterou o mapa da guerra e ajuda as tropas sírias a recuperar algum terreno perante o EI. Mas o exército sírio apenas controla cerca de 25% do território do país, que é em grande parte de deserto. A Rússia está a dar a mão ao presidente Assad e a barrar a transição política que o Ocidente pretende, embora, neste momento, a prioridade seja eliminar o EI. Por agora, Moscovo está ao lado dos EUA, França e outros europeus contra a tomada de território da Síria pelo EI. Quando a mudança de regime voltar ao centro da discussão, Moscovo terá a chave. Até lá, muita vida vai continuar a ser perdida neste país que, há cinco anos, quando a guerra começou, tinha 23 milhões de habitantes. Com o êxodo de refugiados, agora, tem cerca de 16 milhões. Mas do Iraque vem, com a reconquista de Ramadi, um outro exemplo de como é possível fazer recuar o EI.
  3. Que resposta vai dar a Europa aos que aqui buscam refúgio? Tem sido e tende para continuar a ser um fracasso. Já está perdida a possibilidade de pôr a funcionar um sistema de asilo e refúgio eficaz conforme aos valores europeus. A Alemanha chegou-se à frente com atitude solidária e isso deu crédito a Merkel, mas não foi capaz de fazer valer uma resposta unificada europeia. A União Europeia está fragmentada, com países abertos à integração e outros a levantarem muros. Não é uma Europa à altura do Nobel da Paz que a distinguiu em 2012. E a Europa ainda tem pela frente a ameaça de crise grave com o referendo sobre a permanência britânica na União. A discussão sobre a União Europeia é fulcral e está estupidamente ausente no debate político português. A Europa, para que seja uma potência global neste século XXI, precisa de se impor como estado único, estado federal. Não se vê nas atuais elites dirigentes europeias alguém capaz para conduzir a renúncia necessária a uma quota de soberania nacional preservando o essencial na independência de cada nação.
  4. O preço da gasolina vai continuar por baixo? A revolução das fontes não tradicionais, liderada pelos EUA nos últimos seis anos, fez duplicar as alternativas energéticas norte-americanas. Má notícia para as oligarquias do Golfo, para a Rússia, Venezuela, Nigéria, México e outros grandes produtores. O barril de petróleo era negociado a 115 dólares no verão de 2014. Neste natal de 2015 vale à volta de 45 dólares. A retirada do embargo ao Irão vai alagar a oferta com mais um milhão de barris por dia. Há quem fale de barril de petróleo a 10/15 euros neste 2016. O mercado de futuros aponta para o barril a 60 dólares em 2020. Mas a queda do preço do petróleo ainda não está a ter um efeito tão estimulante sobre a economia dos países compradores quanto o efeito depressivo nos produtores. 
  5. O táxi tradicional vai sobreviver à entrada em cena da Uber? Vai ser difícil travar a coexistência. De certo modo, a Uber está para o táxi como as low cost para as companhias de aviação tradicionais. Embora a oferta Uber até contemple o padrão luxo. A sociedade Uber, nascida em Silicon Valley, propõe aos utilizadores de transporte público em automóvel uma alternativa, frequentemente mais barata, assente numa aplicação móvel. A chave para a operação rápida está na geolocalização dos nossos smartphones. O telemóvel está a mudar tudo na vida das pessoas. Há 7,3 mil milhões da assinaturas de telemóvel pelo planeta. Ainda estamos no começo da revolução smartphone que vai repercutir-se em todos os domínios. No século XVII, Christian Huygens inventou um motor para puxar água para a rega dos jardins do palácio de Versalhes. O desenvolvimento desse conceito de motor mudou a velocidade do mundo. O avanço da tecnologia do telefone móvel tem um impacto que não fica atrás do que foi gerado pela invenção do motor. A UBER tende a funcionar para o transporte em automóvel tal como a Airbnb para o aluguer de apartamentos. Ou a Amazon com os livros e tudo o mais.
  6. A TAP vai voltar a ter controlo acionista pelo Estado português? Há que esperar para saber. A determinação exibida por António Costa leva a crer que assim vai ser. A operação de reversão do negócio é mais um teste, também crucial, ao engenho negociador do primeiro-ministro. Costa vai conseguir envolver Neeleman (com Pedrosa) e mantê-lo como parceiro, embora minoritário? Negociação de alto voo.
  7. O governo do PS, suportado pelas esquerdas, vai atravessar todo o ano de 2016? Provavelmente, sim. O PCP, mesmo que proteste muitas vezes, vai cumprir o que ficou acordado. E nem PCP nem Bloco de Esquerda terão algum interesse, por agora, em novas eleições. De resto, a nova presidência da República (Marcelo, anunciam todas as sondagens) tenderá a ajudar.
  8. Com a saída, parece que agora mesmo irrevogável, de Paulo Portas da liderança do CDS/PP, com a coligação PàF onde o PP diluiu muito da sua identidade agora desfeita, que rumo vai tomar este partido? Mais PP com Nuno Melo ou mais CDS com Assunção Cristas ou Pedro Mota Soares? Vale ler esta análise. E também esta.
  9. Depois de um negro, uma mulher: Hillary Clinton vai ser eleita em 8 de novembro para suceder a Obama como presidente dos EUA? Salvo qualquer surpresa, sim. Sobretudo se o rival republicano tiver o absurdo folclore de Donald Trump. O multimilionário lidera as sondagens republicanas com 36 a 39% dos votos. Mas o sobrante eleitorado republicano não-Trump (60%) tende a unir-se em torno de uma alternativa: Marco Rubio, por seduzir o voto latino, poderia ser um adversário difícil para Hillary. Tal como Ted Cruz, tribuno poderoso e chefe da nova versão do tea party. Mas há que não negligenciar Trump. Em 1980, Jimmy Carter, candidato à reeleição, celebrou na sala oval quando soube que o rival seria um velho ator de Hollywood. Mas Ronald Reagan ganhou com 50,7% dos votos; campeão na comunicação, tornou-se uma figura marcante e ficou oito anos na Casa Branca.
  10. Há algum António Costa em Espanha? Há alguém que tenha engenho para juntar apoio parlamentar suficiente para formar governo numa Espanha política de pernas para o ar? Vários barões regionais socialistas estão a barrar opções ao seu líder, Pedro Sanchez. Parece mais provável que os espanhóis voltem a eleições que poderão conduzir ao mesmo impasse. Também impasse em volta da governação da Catalunha. Tudo bem explicado aqui. E aqui.
  11. Vamos ficar em 2016 com menos jornais que cultivem um serviço jornalístico de qualidade, pertinente e que nos lancem luz sobre o que é obscuro? É de recear que sim. Esta análise (artigo exclusivo para assinantes) é preciosa para entendermos o que está em causa.
  12. O que é que nos vai entreter, divertir ou fazer rir em 2016? Vamos vibrar com alguns jogos do Europeu de futebol (em França, de 10 de junho a 10 de julho) e com o espetáculo dos Jogos Olímpicos (Rio de Janeiro, 5 a 21 de agosto). No futebol português, o campeonato promete luta cerrada até ao fim. Federer e Djokovic vão continuar a encher os courts com o melhor ténis de sempre e Nadal talvez ressurja. Para ler, entre tanta coisa, é muito esperado Zero K de Don de Lillo. Já aí está a História das Terras e dos Lugares Lendários, de Umberto Eco. Será que vamos poder ler em português o regresso de Gay Talese a The Bridge? Ou Zona de Obras, de Leila Guerriero? Nos cinemas, Silence, de Scorsese, Julieta, de Almodovar, Ave Cesare, dos irmãos Coen, BFG, de Spielberg, e Hateful Eight, de Tarantino. Vai apetecer ver o que o cineasta Pedro Costa prepara para apresentar na Gulbenkian, juntando música e cinema. Há para ver em Serralves os 85 Mirós que antes do furacão da crise eram do BPN. Nas músicas há os Muse em maio, U2 em julho, e há Rock in Rio Lisboa que promete o pop de Taylor Swift. E quando será que o génio Chico Buarque volta a Portugal?

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

O relatório anual de Repórteres sem Fronteiras revela que 110 repórteres foram mortos em 2015. Mortos pelo seu trabalho. Dois em cada três não estavam em teatro de guerra declarada, o que induz que foram mortos em lugares onde a criminalidade, seja de que tipo for, teme a imprensa. Altíssimo número de jornalistas sequestrados (54) e na prisão (153).

 

Quatro primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e também esta, que nos remete para o smog que está a deixar Milão (e também Roma) sem carros. Já agora, também esta que vê Mourinho, algum dia, de volta ao Real Madrid.

publicado às 09:47

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