Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Aqui mesmo ao lado

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

“Os canais e os meios mudam, mas o jornalismo continua a ser o mesmo: procurar a notícia, decidir da sua relevância, exercer o contraditório com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade”. As 34 palavras que fecham o editorial de ontem do diário espanhol El País, assinalando os seus 40 anos de vida, resumem o que fez deste jornal um dos mais respeitados do mundo, um dos maiores do mercado latino, e um exemplo de adaptação ao mundo digital e à informação nos tempos da tecnologia.

 

Baluarte da democracia que a Espanha viria a adoptar nos anos 70, o El Pais nunca escondeu a sua proximidade aos socialistas do PSOE, mantendo a tradição de boa parte da imprensa europeia (que em Portugal, lamentavelmente, não existe), de não esconder, antes assumir, as suas inclinações políticas. No caso espanhol, o jornal está bem acompanhado pelo concorrente El Mundo, próximo do PP, outro excelente exemplo de jornalismo, porventura mais ousado e moderno, mas não menos sério na abordagem da informação.

 

Ambos os diários enfrentam com ousadia o desafio das novas tecnologias, numa interacção cada vez mais dinâmica entre as edições impressas e as plataformas digitais - há reportagens do El Pais que ganham uma vida própria, complementar, enriquecida, nos videos que os leitores podem depois ver na Web -, enquanto perseguem um estilo de jornalismo que não exclui a informação dita mais popular, nem foge das matérias mais polémicas.

 

Num editorial recente no El Mundo, a respeito de uma entrevista que o jornal decidiu publicar com um preso, condenado a 40 anos de prisão pelo assassinato dos seus dois filhos em 2011, o director David Jimenez escrevia: “O jornalismo não é uma viagem à Disneylândia, porque a vida também não é; ignorar o mal não o faz desaparecer. Contá-lo e tratar de o desvendar perante a opinião publica é uma causa não apenas legitima, mas necessária”.

 

É esta abertura a todas as frentes da notícia que contribuem para que possamos olhar para El Pais e El Mundo como materiais que no futuro farão História. E é essa realidade que nos falta em Portugal.

 

Há amigos que estranham o facto de ser comprador habitual do “Público” e do “Correio da Manhã” (CM), e eu explico sempre a mesma coisa: se ler apenas um deles, fico com uma imagem distorcida da realidade - no CM, Portugal vive em estado de sitio, entre violações, catanadas, mortos, roubos, corrupção e Sócrates; pelo contrário, no “Público” praticamente não há criminalidade, a televisão não tem lixo nem reality-shows, há descobertas cientificas fascinantes e as pessoas que realmente marcam a nossa vida têm o obituário que merecem (exemplo recente: a morte do fotógrafo Pedro Cláudio ocupou duas páginas no “Público”, e não mais de 20 linhas no “Correio da Manhã”. Era o “Público” que estava certo, claro). Ou seja: no cruzamento da leitura dos dois jornais acabo por ficar diariamente com uma ideia do mundo em que vivo. Mas não é natural que tenha de ler dois jornais distintos para chegar a uma aproximação da realidade. E talvez esta obtusa circunstância explique o sucesso do “CM” e o declínio inexorável do “Público”: o primeiro por força do seu jornalismo popular, o segundo pelo desinvestimento claro na edição em papel e consequente fragilidade da plataforma online. Mas também pelo preconceito que o levou a ignorar meses a fio o caso Barbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho - ou, esta semana mesmo, a polémica biografia onde se acusa Emídio Rangel de ser “culpado” pelos presumíveis vícios da ex-mulher Margarida Marante (sem que o próprio se possa defender, sem factos, sem provas…).

 

O exemplo do El Pais e do El Mundo, aqui mesmo ao lado, deveriam inspirar e convocar os editores da nossa imprensa de referência. Mas não me parece que tal suceda. Este aniversário redondo do diário que nasceu para “ajudar” a democracia espanhola a caminhar, depois de gatinhar, prova que os 40 são mesmo os novos 30. Mas não para todos…

  

 

ESTA SEMANA NÃO PASSEI SEM…

 

Ir ao Museu da Electricidade ver a edição 2016 da World Press Photo, exposição que reúne 150 das melhores fotografias que o jornalismo nos deu no último ano. Realidades cruéis, aqui e ali apaixonantes, sofridas, sentidas, há de tudo, até mesmo um português premiado - curiosamente, foto-jornalista de uma agência nacional, mas que foi ao Senegal por conta própria, e de licença sem vencimento, para captar a imagem que acabou por ser premiada…

Quem não puder vir a Lisboa, tem a exposição toda na net, ao alcance de um clique.

 

A matéria já tem alguns dias, mas vale a pena recuperá-la. O premiado Chef Tom Colicchio escreveu na “Time” sobre o desperdício alimentar. E disse: “Quando eu descobri que a América desperdiça 40% da sua comida, fiquei chocado. Este é um país onde cerca de 50 milhões de pessoas não têm a certeza sobre como vão conseguir a sua refeição seguinte… Ainda assim, deitam fora milhões de toneladas de alimentos por ano”. E reflecte sobre este crime sem punição e paradoxo sem explicação…

 

Num tempo em que a imprensa diária vive mais online do que no papel impresso, não podemos considerar perder tempo dar uma vista de olhos regular pelos jornais que, em todo o Mundo, vão vivendo entre um mundo e o outro. Este portal é mesmo uma porta aberta, organizada por continentes e por línguas (português incluído), dos jornais de todo o Globo. Nem que seja por passeio, vale a pena navegar aqui…

 

publicado às 09:59

É isto a vida? É só uma fantasia? Realmente, não importa

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Começa de mansinho, como se fosse apenas mais uma. Não tarda e é uma balada e quase nos convence, pelo tom, de que se trata de um love affair, apenas mais um love affair, que, como todos os outros, pode acabar mal, mas também pode acabar bem.

 

Até que prestamos atenção às palavras, sílaba a sílaba, até que uma guitarra nos interrompe o interlúdio e nos atira água para a cara, antes de sermos lançados no mais excruciante drama. Com Scaramouche, Galileu, Fígaro e Bismillah. Bismillah, do árabe, o nome de Deus.

 

E não acaba aqui. Continua, continua, despeja tudo em modo hard rock. Até que enfim termina, até que enfim nos dá uma espécie de paz. Ou de resignação.

 

Podia ser uma banda sonora dos nossos dias. Dentro e fora do país. Podia ser e de certa forma é. Amanhã, dia 31 de Outubro, a Bohemian Rhapsody, dos Queen faz 40 anos. Podíamos dizer, a Bohemian Rhapsody de Freddie Mercury, mas seria uma injustiça com todos os outros que, como Brian May recordou esta semana à BBC, abraçaram esta música como se abraça uma graça que inesperadamente nos é dada.

 

A Bo Rap, como se tornou também conhecida, marcou a história, mudou a história. Tudo o que não era suposto acontecer, aconteceu.

 

Desafiou a tecnologia existente à época e não por acaso foi gravada em seis estúdios de som. É considerada a primeira música em videoclip – uma peça vista vezes sem conta e que os membros da banda encararam, à época, como pouco mais que uma foleirada destinada a passar num programa da BBC. E eles lá estavam, e ele lá estava, no seu fato colado ao corpo a evocar os Abba e o Mr Spock de Star Trek de uma só assentada. ”Foi filmado expressamente para o Top of The Pops. Para aqueles de nós que se lembram, não era um programa cheio de classe. O Top of the Pops não tinha boa reputação entre os músicos. Ninguém gostava, na realidade”, recordou Brian May.

 

A editora garantiu-lhes que era o tipo de música que nunca passaria na rádio. É na rádio que explode, depois de um homem da rádio ter oportunamente desviado uma cassete.

 

Chegou à televisão pelo Natal de 1975, no programa The Old Grey Whistle Test, gravado integralmente no Hammersmith Apollo, em Londres, e que terá agora um DVD de celebração dos 40 anos também. Para música que nem passaria na rádio, não correu nada mal: um milhão de cópias vendidas em Inglaterra até Janeiro de 1976, depois de nove semanas seguidas no top.

 

Uns anos mais tarde, em 1992, a Bo Rap voltou a fazer história. Desta vez nos Estados Unidos. Desta vez, por culpa de Mike Myers e do filme Wayne's World. Freddie Mercury recuperava assim, à distância, a sua América perdida.

Numa edição ainda posterior, no Irão, incluída nos Greatest Hits da banda, a Bohemian Rhapsody é apresentada como a história de um homem que acidentalmente matou outro homem e que, tal como Fausto, vendeu a sua alma ao diabo. Até ao dia … até ao dia antes da sua execução, em que chama por Deus (Bismillah) e recupera a sua alma.

 

Is this the real life?

Is this just fantasy?

Caught in a landslide

No escape from reality;

 

A Rapsódia Boémia, agora sim, em português, é tão portuguesa. Tão portuguesa como de qualquer outra parte onde as pessoas realmente vivam vidas, se apaixonem, sejam traídas, se arrependam e recomecem, tudo outra vez.

 

É uma excelente banda sonora para estes dias que vivemos, dos revivalistas do PREC àqueles rapazes e raparigas da minha criação, que ainda nem na escola primária estavam em 1975, mas que cruzam os dedos e dizem jamais esquecer a Fonte Luminosa. É verdade que a célebre manifestação da “maioria silenciosa”, organizada por Guterres e com Soares no discurso provavelmente mais memorável da sua vida, também fez 40 anos em Julho, mas, tal como a Bo Rap, só seria escutada por esses rapazes e raparigas uns 10 anos depois, quando já andavam pelo liceu e, pasme-se, Portugal já se preparava para ser outra coisa qualquer, na antecâmara do cavaquismo que tomaria o país por 20 anos.

 

Talvez também por isso é uma banda sonora igualmente perfeita para quem, embalado na ideia de que tudo, afinal, lhe vai correr bem, pode tão simplesmente estar na antecâmara de um exílio prolongado de poder. António Costa, sim, o PS, sim, arrastando ou não consigo a esquerda com a qual não consegue um acordo efectivo de governação. Um homem temporariamente só, aos comandos de um país que em poucos meses o poderá executar, como ao personagem da rapsódia. Na vida dos países, como das pessoas, e das músicas, há momentos em que se mudam as regras do jogo, em que se cria algo de novo. E até se pode começar por uma estreia em programas foleiros e de pouca reputação. Mas tem de existir algo de fundamentalmente verdadeiro, uma vontade efectivamente nova. Se não, apenas se vende a alma ao diabo e a redenção chega tarde e, na realidade, não chega para mudar nada.

 

Se não, "nothing really matters...".

 

“It's one of those songs which has such a fantasy feel about it. I think people should just listen to it, think about it, and then make up their own minds as to what it says to them... Bohemian Rhapsody didn't just come out of thin air. I did a bit of research although it was tongue-in-cheek and mock opera. Why not?”

—Freddie Mercury

 

Outras coisas com 40 anos, ou quase

 

Depois de 36 anos de imposição da lei do filho único, a China anunciou que os casais “já” podem ter dois filhos. Também por lá, pelo maior país do mundo, a demografia do envelhecimento começa a estar na ordem do dia. Cerca de 30% dos chineses têm mais de 50 anos e os 400 milhões de nascimentos que a lei do filho único impediu começam a fazer toda a diferença.

 

Às 22h30 do dia 29 de outubro de 1969, nos Estados Unidos, era feita a primeira ligação ARPANET, no momento em que dois computadores separados por mais de 500 km comunicaram. Ou seja, há 46 anos, a nossa vida mudou e nunca mais seria a mesma.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 10:54

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D