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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Sangue novo em corpos velhos. Uma espécie de Drácula ou a fonte da juventude?

Por: Pedro Fonseca

 

Pode-se ser mais saudável no envelhecimento ao introduzir sangue jovem nas veias? O ressurgimento de um processo chamado de parabiose está a captar as atenções, assim como várias críticas. Mas a evolução demográfica poderá ditar um maior interesse - e investimentos - nesta técnica.

 

 

Porque estão as revistas de economia interessadas na transfusão de sangue? Apesar do potencial económico deste novo negócio, a razão deve-se às declarações de Peter Thiel sobre uma técnica que tem mais de 150 anos. O bilionário que ditou, na semana que passou, o fim do site Gawke, e que lidera vários investimentos no sector da tecnologia, tem aplicado "milhões de dólares em startups que trabalham em medicina anti-envelhecimento", segundo a revista Inc., mas o que o cativa actualmente é a introdução do sangue de jovens nas veias dos idosos, através de um processo denominado de parabiose.

 

Esta ideia de "fonte da juventude" é uma técnica com mais de 150 anos, teve interessados na Rússia e na Europa no século passado, foi praticamente abandonada nos anos 70 mas, mais recentemente, ressurgiu na Califórnia, na China ou na Coreia do Sul.

 

Uma das empresas envolvidas nestes testes é a Ambrosia, com os pacientes acima de 35 anos a terem de pagar 8000 dólares para conseguirem acesso a sangue de menores entre os 16 e os 25 anos. Na explicação dos testes, que devem estar terminados em Julho de 2018, a empresa afirma querer 600 interessados.

 

Liderada pelo médico Jesse Karmazin, este afirma que "os mecanismos em jogo não são totalmente percebidos" mas "o sangue dos organismos jovens não apenas contém todos os tipos de proteínas que melhoram a função celular como, de alguma forma, também induz o corpo dos recipientes a aumentar a sua produção dessas proteínas", com efeitos alegadamente permanentes.

 

Thiel contactou directamente a Ambrosia, através do seu "director pessoal de saúde" (e também de "outros proeminentes líderes de negócio e investidores de Silicon Valley") Jason Camm, que é igualmente o responsável do sector médico da Thiel Capital. O empresário explicou estar interessado na parabiose mais como um tratamento pessoal do que como uma oportunidade de negócio, salientando que o tratamento nem sequer precisa de ser autorizado por entidades como a Food and Drug Administration (FDA) por se tratarem "apenas de transfusões de sangue".

 

No entanto, e como o sangue humano não está disponível facilmente, é a FDA quem "regula a recolha e fabrico de sangue e de componentes de sangue", no sentido de garantir a sua segurança. As empresas também podem ter alguma dificuldade em obtê-lo de bancos de sangue não-lucrativos. Karmazin concorda e nota que "o plasma é relativamente abundante e tem uma duração de dois anos". Mas existe o potencial para um mercado paralelo ou mesmo ilegal de venda de sangue jovem.

 

 

Interesse milionário

No ano passado, a revista Forbes também analisou esta técnica, lembrando a incerteza de saber se ela prolonga a vida, desde que um estudo na Universidade da Califórnia, em 1972, com ratos em laboratório, lhes permitiu viver mais quatro a cinco meses relativamente a um grupo de controlo, que não receberam quaisquer transfusões. Aparentemente, os efeitos funcionam para neurónios, músculos, ossos e células nervosas.

 

Outra empresa, a Alkahest, acredita que o tratamento possa ser eficaz em doenças como a demência. Fundada por Tony Wyss-Coray e Karoly Nikolich, este responsável da empresa explicou à revista científica Nature, em Janeiro do ano passado, entender "os problemas de segurança, mas enfatiza que milhões de transfusões de sangue e plasma [já] foram efectuadas de forma segura em humanos".

 

Wyss-Coray explica que não é necessário mudar todo o sangue para aumentar níveis de aprendizagem e da memória. Este investigador interessou-se pelo assunto em Agosto de 2008, após ouvir o seu estudante Saul Villeda a falar em público sobre estudos efectuados na transfusão de sangue jovem de ratos para outros mais idosos, segundo o The Guardian.

 

Entre céptico e admirado, Wyss-Coray percebeu que podia ser algo "surpreendente". "Não acreditámos que isto funcionava", tal como sucedeu com revistas científicas a quem apresentaram o estudo, depois repetido durante um ano "num outro local, com diferentes equipa, instrumentos e ferramentas" para validar as conclusões. Os resultados foram semelhantes. Agora, "estou convencido que funciona", disse Wyss-Coray à Nature.

 

A investigação de Villeda apenas foi publicada em 2011 mas, no ano seguinte, a Nature rejeitou o estudo. Este acabou por ser aceite pela publicação Nature Medicine em Maio de 2014.

 

O trabalho chamou a atenção de vários milionários, incluindo da família do falecido chinês Chen Din-hwa. A sua família, com um historial de doença de Alzheimer, teve reuniões com Nikolich sobre o trabalho de Wyss-Coray e acabou a financiar a Alkahest, cujos testes com a Universidade de Stanford, iniciados em Setembro de 2014 em 18 pessoas com demência, devem ter resultados conhecidos nos próximos meses.

 

Wyss-Coray, que começou por estudar a demência relacionada com o HIV e depois com o Alzheimer (tendo criado a empresa Satoris para comercializar a investigação sobre a detecção precoce nesta última doença), assume que não faz transfusões de sangue jovem em si próprio.

 

John Hardy, investigador da doença de Alzheimer no University College de Londres, considera o trabalho de Wyss-Coray "interessante", mas é igualmente cauteloso, por outra razão: o plasma pode funcionar em ratos mas não em humanos, que "vivem mais tempo e em ambientes mais variados".

 

 

De fonte da juventude a marmelada de sangue

A aposta de Wyss-Coray na parabiose parece ser relativamente simples: "quando nascemos, o nosso sangue está repleto de proteínas que ajudam os tecidos a crescer e a curarem-se. Na idade adulta, os níveis dessas proteínas diminui. Os tecidos que as segregam podem produzir menos, porque envelhecem e se desgastam, ou os níveis podem ser suprimidos por um programa genético activo. De qualquer forma, dado que estas proteínas pró-juventude desaparecem do sangue, os tecidos no corpo começam a deteriorar-se. O corpo responde libertando proteínas pró-inflamatórias, que se acumulam no sangue, causando a inflamação crónica que danifica as células e acelera o envelhecimento". Assim, ao agir junto de um orgão, como o cérebro, percebe-se que este não está petrificado, mas é "maleável" ao longo da idade.

 

É assim que o conceito da parabiose parece fazer sentido, há séculos.

 

Em 1615, o alemão Andreas Libavius propôs ligar as artérias sanguíneas de velhos e novos para gerar uma "fonte da juventude". Em 1668, o viajante inglês Edward Browne assistiu em Viena (Áustria) a uma execução capital de um criminoso e, para seu espanto, um homem dirigiu-se ao executado com um recipiente, recolheu o sangue que lhe saía do pescoço decapitado e depois bebeu-o, contava a The Daily Beast.

 

Browne não se mostrou espantado, até porque aparentemente já ouvira falar do mesmo na Alemanha, como prática entre os mais pobres, sem dinheiro para pagarem a médicos.

 

Robert Boyle, um dos fundadores da Royal Society, criada em Londres em 1660, registou uma lista de projectos científicos a efectuar, sendo um deles "o prolongamento da vida" que, esperava ele, passava "pela substituição de velho sangue por novo", diz o The Guardian. "Sem conhecimento de grupos sanguíneos ou factores de coagulação, as experiências iniciais de transfusão foram mortais", sendo banidas em França e depois em Inglaterra, a que se seguiu uma decisão papal no mesmo sentido em 1679 - ano em que um texto de um farmacêutico franciscano já "providenciava instruções para fazer marmelada de sangue".

 

 

A parabiose, na sua forma mais moderna, iniciou-se em 1864 pelo francês Paul Bert, quando despelou dois ratos para criar um sistema circulatório conjunto, constatando que o sangue circulava realmente entre os dois animais, recorda a Nature. O trabalho científico de Bert pode ter estado na origem do livro "A Ilha do Dr. Moreau", de H. G. Wells, publicado em 1896 e onde se referem experiências científicas de fusão entre diversas criaturas.

 

O interesse na técnica chegou à Rússia, onde Alexander Bogdanov, "o pioneiro esquecido da transfusão de sangue", criou em 1926 um instituto para demonstrar como essa transfusão podia ser uma terapia e um "estimulante corporal". No caso dele, acabou por morrer após receber uma transfusão de um estudante que tinha sangue com vestígios de tuberculose e malária.

 

Três décadas depois, Clive McCay, gerontólogo na Universidade de Cornell em Nova Iorque (EUA), aplicou a técnica ao estudo do envelhecimento em ratos. Deste teste, em 1956, alguns morreram e deram origem à chamada doença parabiótica. Seguiu-se o estudo em 1972, na Universidade da Califórnia, que "sugeriu pela primeira vez que a circulação de sangue jovem pode afectar a longevidade".

 

Após um período de aparente desinteresse, uma investigação revelada em 2005 por Thomas Rando, do Stanford Center on Longevity, tentou dissipar a dúvida sobre a razão porque os tecidos num corpo envelhecem em simultâneo. A parabiose funcionou e alguns ratos mais velhos conseguiram melhorias ao nível dos músculos, fígado e células cerebrais. Wyss-Coray trabalhava então com Rando, após ser contratado por este em 2002.

 

Em 2014, a investigadora Amy Wagers, do Harvard Stem Cell Institute, registou que o sangue de ratos novos melhorava os músculos, coração e funções cerebrais em ratos mais velhos, dinamizando um novo interesse na parabiose, dizia a Technology Review, salientando que investigadores da farmacêutica Novartis tinham "contestado" o estudo de Wagers, seguindo-se outras contestações por parte de cientistas da GlaxoSmithKline ou da Five Prime Therapeutics. No entanto, para a revista, a investigação de Wagers "sugere que há algo no sangue jovem a promover o rejuvenescimento".

 

 

Desconfortável, demorada mas com demografia a favor

Na entrevista à Inc., Thiel reconhece o "desconforto" por esta prática na sociedade actual, mas há pressões demográficas que podem alterar o panorama. "Em 2030, 56 países terão mais pessoas com ou acima dos 65 anos do que menores de 15 anos", antecipa um ex-responsável de demografia das Nações Unidas. E "em 2050, dois mil milhões de pessoas terão 60 ou mais anos, quase duplicando o número actual", segundo o The Guardian.

 

Para Rando, a técnica não visa prolongar a existência de uma pessoa, mas proporcionar-lhe uma melhor qualidade de vida. A Nature apontava no mesmo sentido, em Janeiro de 2015, dizendo que, "por enquanto, quaisquer alegações de que sangue jovem ou plasma vão prolongar a vida são falsas: os dados simplesmente não existem", com qualquer experiência a ter de demorar mais de seis anos - o tempo dos ratos envelhecerem, morrerem e os dados serem analisados e publicados.

 

Mesmo o objectivo da Alkahest – "identificar as proteínas principais no plasma que rejuvenescem ou envelhecem os tecidos humanos", para depois criar um produto substituto - só deve estar concluído entre "10 a 15 anos", diz o The Guardian.

 

Perante a criação de empresas a oferecerem este tipo de serviços antes da investigação estar totalmente considerada segura, Sergio Della Sala, da Universidade de Edimburgo, clarifica a situação: "a ciência deve entender primeiro e depois vender", e não o inverso.

 

David Glass, director executivo da investigação de envelhecimento na Novartis, considera que os pacientes da Ambrosia não vão ter qualquer grupo de controlo, pelo que "será impossível decifrar quaisquer benefícios".

 

No início de Agosto, também a revista científica Science questionou os testes da Ambrosia, nomeadamente por se tratar de uma investigação em que 600 participantes pagam do seu bolso 8.000 dólares, um tipo de ligação entre resultados científicos e dinheiro "que tem levantado preocupações éticas".

 

Karmazin assegura estar a cumprir todas as regras éticas, mas um crítico especial declara "não existir qualquer prova clínica" do tratamento poder ser ou não benéfico, e que se "está a abusar da crença das pessoas e da excitação pública" sobre esta técnica. Esse crítico é Wyss-Coray.

publicado às 18:56

Quanto vale o mercado negro mundial?

Por: Pedro Fonseca

 

Para Portugal, os dados são reduzidos, mas há um site que retrata o que se passa ao nível global na economia paralela. Aquela que não é tributada e tem vencimentos de fazer inveja a qualquer trabalhador honesto. Onde é possível, por exemplo, saber quanto ganha um assassino na Colômbia, um vencedor de luta de galos em Los Angeles ou um traficante de droga no Rio de Janeiro.

 

 

Portugal ocupa a 69ª posição na lista dos negócios ilegais em todo o mundo, segundo o site Havocscope, que agrega informação sobre este sector paralelo a partir de dados recolhidos de "agências governamentais, estudos académicos, notícias e fontes próprias". Estamos atrás de Singapura, Honduras e Bélgica, e à frente da Áustria, Dinamarca e Finlândia.

 

No entanto, o valor referente aos crimes do mercado ilegal em Portugal está apenas indexado aos 245 milhões de dólares da pirataria de software, reportados pela Business Software Alliance (BSA ou actualmente denominada como The Software Alliance) em 2011. Ora, segundo o relatório mais recente da BSA, essa pirataria de software em Portugal caíu em 2013 para os 180 milhões de dólares e, no ano passado, para os 145 milhões de dólares - o que permitia "ganhar" apenas quatro lugares, para ficar na 73ª posição entre a Finlândia e o Equador.

 

Os dados não são apontados apenas numa única direcção sectorial. Ao contrário do nosso país, por exemplo, a preponderância nas Honduras está no contrabando de gás e de petróleo ou na exploração ilegal de produtos florestais.

 

Apesar destas limitações de um agregador de dados, o Havocscope tem algum mérito na divulgação do mercado de bens e serviços ilegais, assumindo e revelando as fontes de onde conseguem essa informação, permitindo aos "utilizadores verem de onde veio a informação, julgarem a credibilidade da fonte e fazerem uma nova pesquisa se necessário", diz o site, criado em Setembro de 2013.

 

Este permite ainda aos utilizadores submeterem informação que nem sempre é - ou pode ser - divulgada pelas fontes oficiais, como os preços de rua (para Portugal) da cocaína, ecstasy, heroína ou marijuana, assim como o custo de uma arma AK-47, que vai dos medianos 534 dólares em muitos países mas sobe para os 1500 dólares no Afeganistão.

 

Corrupção, lavagem de dinheiro ou crime organizado não são contabilizados

 

Além de penalizarem os países pela fuga aos impostos, estes negócios ilegais têm um impacto directo na vida de muitas pessoas. A lista de países mais afectados pelo mercado negro é liderada pelos EUA, com uns impressionantes 625 mil milhões de dólares, que incluem a pirataria de bens (225 mil milhões), tráfico de drogas (215 mil milhões) ou o jogo ilegal (150 mil milhões).

 

No grupo dos 10 países mais problemáticos seguem-se a China (261 mil milhões de dólares), o México (126 mil milhões), a Espanha (124 mil milhões), a Itália (111 mil milhões), o Japão (108 mil milhões), o Canadá (77 mil milhões), a Índia (68 mil milhões), o Reino Unido (61 mil milhões) e a Rússia, com pouco mais de 49 mil milhões de dólares de negócios ilegais contabilizados neste site.

 

O Havocscope lista ainda o impacto, riscos económicos e valores do mercado negro mundial (que nem sequer incluem valores directos sobre a corrupção, lavagem de dinheiro ou do crime organizado, por se considerar a sua potencial sobreposição com outros negócios).

 

Por exemplo, a combinação de jogos de futebol está indexada aos 15 mil milhões de dólares, enquanto os serviços de uma prostituta de luxo em Cannes (França) podem chegar aos 40 mil dólares por noite, subindo para os 100 mil no Brasil.

 

Este mercado negro global é liderado pela falsificação de medicamentos (um negócio que vale 200 mil milhões de dólares), seguindo-se a prostituição (186 mil milhões), falsificação de bens electrónicos (169 mil milhões), a venda de marijuana (141 mil milhões), o jogo ilegal (140 mil milhões) e o negócio relacionado com a cocaína, que vale 85 mil milhões de dólares.

 

O site permite ainda saber quanto ganha um assassino na Colômbia por cada morte (3000 dólares), um vencedor de luta de galos em Los Angeles (15 mil dólares), o rendimento anual de um traficante de droga no Rio de Janeiro (pode chegar aos 15 milhões de dólares), o valor de um hacker num jogo online (16 mil dólares mensais na China), o valor de um "like" no Facebook (15 dólares por milhar - o mesmo valor para se ter 10 mil falsos seguidores no Twitter) ou quanto pode ganhar um carteirista em Barcelona - mais de seis mil dólares por semana!

publicado às 10:11

A minha praia, a sua praia e as praias às quais regressamos sempre

Por: Miguel Morgado 

 

Há mar e mar, há ir e regressar às praias onde aprendemos a nadar, boiar, mergulhar, surfar e namorar. Aqui não se pretende copiar o “guia” de Ramalho Ortigão - não temos esse dom! - nem fazer um guião moderno sobre areia e sal. Queremos, no entanto, deixar breves apontamentos que fazem parte da memória coletiva. Da bola de Berlim na praia do Barril, Tavira, aos croquetes do Palma, em Moledo, às ilhas, águas quentes e frias, ondas, neblinas matinais, ventanias estivais e nortadas, as barracas e o casario, as camisolas de lã, os escaldões e muito mais.

 

 

“Com os primeiros dias de setembro, terminou o período consagrado pela moda à vilegiatura de Sintra. Desde que o mês de agosto finda, até que S. Carlos começa, prescrevem as praxes que a estação marítima suceda à estação de montanha. Enchem-se nesta época, até deitar por fora, as praias de banhos da saída do Tejo e do litoral desde Setúbal até Âncora. Lisboa inteira debanda. [...] Mas de todas as praias portuguesas, é principalmente Cascais a que herda de Sintra a elite do seu verão”. O texto é retirado de “As Praias de Portugal: Guia do banhista e do viajante”, escrito por Ramalho Ortigão, em 1876, referindo-se a Cascais, rainha das praias portuguesas, sob o alto patrocínio da Família Real.

 

O autor de “As Farpas” retratou minuciosamente a paisagem, os hábitos, as "acomodações turísticas", deixou conselhos e recomendações, fossem elas "precauções higiénicas", duração de mergulhos e "socorros aos afogados", assim como uma "reconstituição dos temperamentos e dos caracteres pelo banho frio". 20 locais, todos a norte de Setúbal: Foz, Pedrouços, Póvoa de Varzim, Granja, Espinho, Ericeira, Nazaré, Figueira da Foz e Setúbal, praias de Leça e Matosinhos, as praias "de Pedrouços a Cascais" e as "praias obscuras", Âncora, Apúlia, Furadouro, Costa Nova, S. Martinho do Porto, Assenta, Santa Cruz, S. Pedro de Moel, Porto Brandão, Alfeite e Fonte da Pipa.

 

Ora reconheçamos que não temos o dom literário de Ortigão. E acrescentamos que a ida a praia há muito que deixou de ser privilégio da aristocracia e de gente fina que se fazia acompanhar pela criadagem, assim como as justificações para por o pé na água vão muito além dos fins medicinais.

 

Muitas das praias atrás elencadas, ainda hoje, são paragens obrigatórias de verão que passa de geração em geração. Sem pretender apresentar um guia exaustivo sobre a areia e sal, de praias mais bonitas ou mais in, começamos de chinelos e creme de proteção elevada e terminamos de casaco de lã vestido numa seletiva viagem pela costa continental portuguesa para depois apanharmos o voo e barco até aos Açores e Madeira. Há seguramente outras praias para além das que se seguem, não duvidamos, pelo que citamo-las quase de memória, com a certeza que estão, seguramente, cada uma delas, na cabeça de cada um de nós. 

 

Apanhar o comboio para a praia e comer uma bola de Berlim no Barril

 

As âncoras alinhadas na Praia do Barril, em Pedras d’el Rei, Tavira, para onde se chega passando uma ponte provisória com décadas e saltando para bordo de um comboio que faz lembrar o mítico anúncio dos chocolates de leite “Fantasia de Natal” são postais da praia com as melhores bolas de Berlim de que há memória e que, ano após ano, o “senhor Guerreiro” vende às famílias que em cada verão se estendem num areal que, infelizmente, vai estreitando.

Começa aqui a nossa viagem, numa praia que me é familiar, para onde fui em pequeno, durante os tempos de faculdade e agora casado, bom rapaz e com filhos. Esta zona do Algarve tem ainda como referência a praias de Monte Gordo e a Praia Verde, numa tradição que nasce na era democrática. Seguindo, damos um salto até à praia da Falésia, Albufeira, deslumbramo-nos com a Praia da Rocha, o Alvor ou com o areal da Meia Praia, em Lagos. Chegados a Sagres, soprados pelo vento, entramos na água gelada nas praias lá em baixo e assistimos ao pôr-do-sol cá em cima, na ponta mais ocidental de Portugal continental.

 

Rumamos a norte. A costa vicentina, outra tradição bem recente, servirá, por certo, para formar novas gerações de veraneantes. Aljezur, Odeceixe, Zambujeira do Mar, que entrou no mapa muito por culpa dos festivais de música, até Vila Nova de Mil Fontes. E aqui, neste refúgio alentejano, a divisão familiar ganha vida no areal e ondas do Malhão, uma praia que se divide em três, ou na paisagem escarpada dos Aivados.

 

Novo pulo. Grândola é Vila Morena e nas suas praias convivem ditas elites e famílias do Alentejo profundo que têm nestas areias finas a praia mais à mão. Entramos em Tróia, em Setúbal, e no mar azul turquesa da Figueirinha e chegamos a Sesimbra.  

 

Na Ericeira o Mar é mais azul e o sol só depois do meio-dia 

 

Neste jogo da memória, e no caso com propriedade de conhecimento de 25 verões bem passados, passamos para norte de Lisboa e para um local com tradição secular já referenciado por Ortigão. A Ericeira, vila de pescadores e de surfistas, hoje transformada em condomínios com piscina e vista de mar. A Ericeira do mar batido, dos limos e pedregulhos que subiam e desciam o areal consoante a força do mar, da areia grossa, das crianças atiradas para dentro de água quase à sua sorte para aprenderem a dar as primeiras braçadas com a ajuda dos “banheiros”, nome hoje substituído por Nadadores-Salvadores, da primeira ida para dentro de água com pranchas, dos toldos às riscas, dos queques e dos biscoitos comprados na Casa Gama, das brincadeiras nas Furnas e as noites na discoteca Ouriço (sim, porque sítio de praia que é praia tem de ter alguma desculpa para se ver o nascer do sol), em suma, na vila que se arroga em que ali “o mar é mais azul”. Sim, é. Mas, acrescentamos que para ver a cor do céu, que se espera ser azul nesta época, só mesmo, muitas vezes, depois do meio-dia.

A neblina matinal é característica, aliás, de toda esta costa, começando antes na Praia das Maçãs, Praia Grande e estendendo-se por Santa Cruz, Peniche, Baleal, Foz do Arelho, São Martinho do Porto e São Pedro de Moel, com as rebentações na areia e a disposição e arquitetura das moradias de férias influenciadas pelo estilo modernista e marcadas pela personalidade dos projetos e em que, seguindo um roteiro pelas mesmas, deparamos com o nome das famílias, ou na Nazaré, outrora frequentada por gente fina acompanhada das suas empregadas que iam a banhos para tratar maleitas e cuja promoção externa alterna entre os gritos das peixeiras de “room, chambre e zimmer” e a praia do Norte com o “canhão” adormecido neste mês.

Seguindo a Costa de Prata, o extenso areal da Figueira da Foz e o Casino, local de muitos flirts, a Praia de Mira, única do país com Bandeira Azul há 30 anos consecutivos e a sua Barrinha, uma piscina gigante natural, local colocado no mapa com as “invasões francesas” de turismo, a Tocha, Quiaios ou Torreira e os fundões da Furadouro, já em Aveiro, é só repescar e refrescar a memória.

 

Os Casinos à beira-mar plantados nas águas que quebram ossos

 

Entrada na Costa Verde, às praias do Norte. Na Invicta, o copo de fim de dia nos Inglesinhos, Leme e Luz, a Praia de Leça, outrora a preferida da colónia inglesa que residia no Porto, com o Clube de Vela Atlântico e vista para o restaurante Brisa Mar ou para Marisqueira de Matosinhos, o areal de Espinho e da Póvoa do Varzim, com tradição cosmopolita e com Casinos à beira-mar plantados para animar os serões e Vila do Conde.

Para Esposende, se na Apúlia, dividida entre a pesca e a apanha do sargaço, colorida por toldos e barcos, com dunas que protegem do vento forte e águas pouco revoltas com iodo qb cujo efeito terapêutico está à vista, já em  Ofir com o seu Pacha, a cura é outra. 

Em Viana do Castelo, em Afife e a Praia do Cabedelo, spots da preguiça ao sol e das caminhadas nas dunas e do surf. Tal como Ramalho Ortigão escreveu, há também Vila Praia de Âncora, no Minho. Acrescentamos Moledo, em Caminha, rica em iodo, provavelmente uma das praias menos democráticas do país. As águas geladas, quebra-ossos, as ventanias estivais convidam mais às camisolas de lã do que a proteções solares. O mar aqui abraça o rio, namora a montanha e tem debaixo de olho o forte da Ínsua e Espanha, na outra margem. Este é o fim de linha na costa continental portuguesa de que nos despedimos em beleza alimentados pelo famoso croquete do “Palma”.

 

Águas quentes no meio do Atlântico

 

Voamos para as ilhas, a Madeira em primeiro lugar. Se a tradição de outrora muitos madeirenses faziam das Canárias, Espanha, a sua praia de eleição, o extenso areal da ilha de Porto Santo, as piscinas do Lido ou as piscinas naturais de Porto Moniz tem resistido no tempo neste paraíso de águas. Já os Açores, cada ilha, entre Fajãs, pedras e areia fina e escura, cada qual terá, com certeza, a sua história. Biscoitos e Prainha, na terceira, Almoxarife, no Faial e Ribeira Grande, em São Miguel, constituem exemplos que aqui destacamos.

 

Se começamos com o excerto de um clássico da literatura portuguesa, deixamos no final, como sugestão, em especial para uma nova geração, quiçá mais itinerante, o livro “Tanto Mar”, de Pedro Adão e Silva e João Catarino, escrito numa viagem num “Pão de Forma” pela costa continental portuguesa. Por certo, algumas das 10 praias descritas como as melhores para surfar lhe são familiares. Muitas outras poderíamos acrescentar. Para surfar, para nadar, mergulhar, bronzear ou namorar, umas fazem parte da nossa história e outras entrarão para memória futura.

publicado às 10:33

Desta vez, Trump escolheu como inimigos aqueles que a América nunca questiona

Por: José Couto Nogueira 

 

Os últimos dias têm sido dramáticos para o superlativo Donald Trump. Não admira, pois o candidato republicano, sempre pronto a atacar, desta vez meteu-se com um grupo sagrado para toda a sociedade americana: os veteranos de guerra.

 

 

Mesmo os liberais, os democratas e todos os perigosos esquerdistas que polulam nos Estados Unidos – segundo a opinião de Trump e os noticiários da Fox – respeitam os homens e mulheres das Forças Armadas que combateram nas guerras ou nos conflitos armados em que o país tem estado continuamente envolvido. Até os pacifistas, que acham a opção pela carreira militar uma péssima ideia, consideram que os militares que deram o corpo às balas transformaram a má escolha num acto que merece respeito. Quanto aos que morreram em combate, esses são os heróis, e as suas famílias recebem uma deferência muito especial. Nunca está em discussão a justeza ou justificativa dos conflitos; quem combate faz parte dos “nossos rapazes”, daqueles que se voluntariaram para o “último dos sacrifícios”.

Se é assim para os liberais, imagina-se como será para os conservadores, fundamentalistas, militaristas e de direita; os militares são a nata, a glória, os melhores dos melhores.

 

Tudo isto para mostrar a extensão da calamidade que foi a atitude de Trump, num país que possui uma enorme e poderosa máquina militar, com mais de um milhão e meio de voluntários (não há serviço militar obrigatório).

 

Tudo começou quando, no palco da Convenção do Partido Democrata,  se apresentou um casal, Khizr e Ghazala Khan, cujo filho, o Capitão Humayun Khan, morreu em combate no Afeganistão em 2004 e recebeu o “Purple Heart” e a “Bronze Star”. Os Khan vieram dar testemunho de que se pode ser muçulmano e patriota, uma tese defendida pelo Partido Democrata, em oposição à tese trumpista/republicana de que todos os muçulmanos são terroristas ou, pelo menos, suspeitos.

 

Humanayun veio dos Emirados Árabes com os pais quando tinha dois anos e é o mais graduado dos 14 militares muçulmanos mortos em combate na década seguinte ao ataque às torres gémeas. O pai, Khizr, falou do orgulho que a família sente pelo filho e terminou com a afirmação que o tinha levado ali: “Se fosse pelo Sr. Trump, o meu filho nunca teria vindo para América.”

 

A resposta de Trump não se fez esperar; numa entrevista radiofónica insinuou que a esposa, Ghazala, tinha ficado calada durante o discurso do marido “porque se calhar não tinha licença para falar”. No dia seguinte, uma carta assinada pelas famílias de onze mortos em combate considerou as considerações de Trump “repugnantes” e “moralmente ofensivas”. Ghazala Khan disse à ABC News que estava angustiada de mais para dizer alguma coisa: “(Perder um filho) é o maior sacrifício que se pode fazer por um país; Trump não sabe o que é um sacrifício desses”.

 

Donald, que tem por hábito ter sempre a última palavra, não desarmou: “Acho o Capitão Khan um herói, mas fui atacado com malícia, e nunca deixo de responder. E tenho feito muitos sacrifícios por este país”. Quais, perguntou o entrevistador. “Sempre trabalhei muito, criei dezenas de milhares de empregos, construí grandes estruturas”.

 

Hillary Clinton não podia perder esta deixa e não perdeu: “Donald Trump não é um candidato normal. Não está emocionalmente preparado".

 

Que os democratas aproveitem a crise provocada pela reacção de Trump, não surpreende. Mas as redes sociais começaram a fazer troça e, num outro sinal de debilidade, John McCain, ele próprio um veterano, Paul Ryan e outras eminências do partido criticaram a falta de sensibilidade do candidato.

 

Simultaneamente, Trump disse que não apoiaria Ryan para continuar a representar a maioria (republicana) do Senado, ao mesmo tempo que o seu vice-Presidente, Mike Pence, dizia precisamente o contrário.

 

Ainda não satisfeito, Trump veio dizer, na última entrevista até à data, que a acusação de falta de respeito por um soldado americano abatido era apenas um truque dos democratas para distrair de temas mais pertinentes para a campanha presidencial. E reforçou pelo Twitter: “Esta história não é sobre o Sr. Kahn, que anda a dar entrevistas em toda a parte, mas sim sobre o TERRORISMO ISLÂMICO RADICAL e os Estados Unidos estarem alerta!”.

 

Parece impossível a quem observa esta nova polémica que ninguém na campanha de Trump lhe tenha dito que quanto mais falar no assunto, pior. Aliás, nem era preciso dizer-lhe: nas sondagens de sexta feira estava dez pontos percentuais atrás de Hillary. 

publicado às 13:50

Lula, de rei a réu

Por: José Couto Nogueira

 

Há meses que a imprensa, televisões e redes sociais anunciavam a prisão de Luís Inácio Lula da Silva como se estivesse iminente, fosse inevitável, ou até mesmo facto consumado. “Lula detido”, “Lula levado para a Polícia Federal”, “formalmente acusado”, etc. eram títulos tão frequentes que às tantas já não se sabia se acontecera, ia mesmo acontecer ou era o desejo dos desencantados e desafectos. Contudo, tanto a população como os operadores do Estado dos três poderes, tanto amigos como inimigos, sabiam que era uma questão de tempo até a Justiça “chegar” ao ex-Presidente.

 

 

Talvez estivesse à procura de casos mais graves, maiores montantes, provas mais contundentes. As diligências do Juiz Federal Sérgio Moro, de Curitiba, e os próprios jornalistas, levantavam casos suficientemente suspeitos e até com indícios muito fortes de que o homem que já foi o herói incontestado do Brasil teria cometido uma série de delitos de corrupção passiva – nomeadamente, a propriedade de uma casa de praia e de uma quinta – e até activa, com a apropriação de objectos preciosos pertença do Erário (escondidos num cofre) e recebimentos indevidos por conferências. Tudo delitos menores, em termos dos milhares de milhões de mega-corrupções imputados a muitas figuras públicas, algumas já a cumprir pena efectiva. Lula chegou a ser levado para depor perante Sérgio Moro, em Março, no âmbito da famosa Operação Lava Jato, que investiga esses tais crimes milionários. Poderia ter sido chamado a apresentar-se voluntariamente, mas Moro fez questão de o mandar buscar.

 

A iminência duma prisão preventiva chegou a tal ponto que, em Abril, Dilma Rousseff, ainda Presidente, enviou a Lula em um documento sem data que o nomeava Ministro-chefe da Casa Civil, o que lhe daria imunidade à prisão se a Policia Federal lhe batesse à porta. Dilma ligou a Lula a explicar o documento e a conversa foi gravada, o que configura o crime de obstrução de justiça. Moro, a precisar de apoio popular perante a enorme pressão de Brasília, forneceu a gravação à comunicação social, o que por sua vez levou os adversários a acusarem-no de fuga de informação.

 

Enquanto este vai-não-vai com Lula prosseguia, iam decorrendo processos contra outros acusados de corrupção (Lava Jato, Zelotes, etc) e ainda o impedimento de Dilma, entretanto afastada provisoriamente da Presidência. O consenso geral dos analistas é que Sérgio Moro quer ir por etapas, cercando Lula por todos os lados, até chegar finalmente a uma prisão que certamente levantará grandes ondas de choque no Brasil.

 

Os processos têm de passar por Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República, e ser aprovados pelo Supremo Tribunal Federal, cujos onze juízes são maioritariamente nomeados pelo PT, mas nem sempre decidem segundo a sua filiação, pois também eles recebem pressões por todos os lados. Mas toda a máquina do PT está permanentemente atenta às decisões de Moro, que vê como o grande inimigo que pode incriminar Lula.

 

Ora, o que aconteceu agora foi inesperado, apanhando os operacionais do Partido dos Trabalhadores desprevenidos. Rodrigo Janot recebeu uma acusação contra Lula relacionada com o processo Lava Jato. Nela se afirma que o ex-Presidente cometeu os crimes de tráfico de influência e obstrução de Justiça juntamente como o ex-Senador Delcídio do Amaral e o empresário José Carlos Bumlai. Os três tentaram pagar ao ex-Administrador da Petrobras, Nestor Cerveró, para que não declarasse os milhões de reais (ou de euros, ou dólares, são sempre dezenas de milhões) que a empresa estatal tinha pago ao PT e a várias pessoas. (Todos os aqui nomeados estão já presos, menos Lula.)

 

Esperava-se que Janot enviasse o processo para Moro, em Curitiba, no que certamente seria impedido pelo Juiz do Supremo Tribunal Teori Zavascki. Mas Janot, alegando que os delitos ocorreram em Brasília, mandou o processo para o Juiz do Distrito Federal, Ricardo Leite, que o aceitou imediatamente. Deste modo Lula passa a réu e poderá mesmo ser preso preventivamente, se o Juiz assim achar conveniente. As provas, provenientes de denúncia voluntária (“delação premiada”) de Delcídio e Cerveró, e de gravações, são muito robustas. Independentemente de outros processos que certamente virão a atormentar Lula, este é um caso concreto, com direito a prisão efectiva.

 

É interessante que Lula, prevendo mais ataques vindos de Curitiba, no dia 28 de Julho apresentou uma petição ao Comité de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, afirmando ser vítima das acções da Lava Jato. Segundo a petição, Lula se diz perseguido pelos “actos ilegais” praticados por Moro, entre eles a gravação e divulgação de conversas privadas com advogados e também a famosa conversa com Dilma Rouseff, além da condução coerciva para o depoimento no dia 4 de Março.

 

Não se sabe qual será a resposta do Comité. Os especialistas acham que não aceitará a queixa, uma vez que tudo tem decorrido dentro da lei do país, e a fuga de informação do telefonema com Dilma não é suficiente para considerar uma infracção aos Direitos Humanos.

 

Mas, qualquer que seja o desfecho da petição em Genebra, não cobre a decisão do Juiz Ricardo Leite, em Brasília. Desta vez Luís Inácio Lula da Silva vai mesmo ter de enfrentar a Justiça.

publicado às 08:44

O reino deles por um Califado? O que move árabes, turcos e radicais

Por: José Couto Nogueira

 

Sultões há muitos - são como reis. Mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidades sagradas de Meca e Medina. É este título que o ISIS reclama para si e que muitos vêem o presidente turco, Repec Tayyp Erdogan, ambicionar. Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa.

 

 

Durante treze séculos, desde a morte do profeta Maomé até à deposição de Abdülmecid II, em 1924, o Islão foi dirigido, pelo menos teoricamente, por um Califa. Agora, no ano muçulmano de 1437, há dois pretendentes ao título. Um deles, Abu Bakr al-Baghadadi, está em Acqua e declarou oficialmente a sua pretensão, alegando pertencer à tribo de Moamé, a única donde pode vir um Califa verdadeiro. O outro, Repec Tayyp Erdogan, está na cidade histórica do Califado Otomano, Istambul. Os turcos são muçulmanos, mas não são árabes, o que levou a que os árabes não aceitassem o Califado Otomano como legítimo.

 

O ano zero dos muçulmanos é o ano 622 da Era Cristã (calendário Gregoriano), determinado pela ida de Maomé de Meca para Medina. A Hégira  - o ano muçulmano - começa e termina em Outubro, mas, fora isso,o ano nos dois calendários tem o mesmo número de dias.

Na Turquia usa-se um cálculo ligeiramente diferente, determinado pelo Presidência dos Assuntos Religiosos (Diyanet İşleri Başkanlığı), que os coloca no ano 1444. São sete anos de diferença para o calendário usado na Arábia Saudita, o Umm al-Qura e que é supostamente o utilizado pelas comunidades islâmicas do resto do mundo, inclusive Estados Unidos. Por este, os muçulmanos estão no ano 1437. 

 

Como seria de esperar, dado a divisão entre shiitas e sunitas e muitas outras quezílias entre sultões e chefes, esta unicidade de Califado nunca foi, nem é, reconhecida por todos os fiéis. O sultão é um rei e pode haver muitos no mesmo período, conforme os reinos, mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. O primeiro e o segundo califas, sogros de Moamé, foram aceites sem discussão, mas a partir do quarto as coisas complicaram-se. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidadãs sagradas de Meca e Medina. Essa linhagem termina em 1924, quando Kemal Ataturk institui a república laica da Turquia e acaba com todos os cargos e privilégios religiosos. As questões eclesiásticas passaram para um ministério próprio, a tal Presidência dos Assuntos Religiosos, com tutela limitada.

 

Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa, embora tenha motivos e meios para o fazer. Meca fica no seu território e dinheiro não lhe falta para possuir os atavios do título.

 

Quem se declarou Califa de pleno direito, em 2012, foi Abu Bakr Al-Baghdadi, o líder do chamado Daesh, ISIS (Islamic State of Iraq and Siria), ou ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant), que não pode ser considerado um país completo e estabelecido. A partir da Raqqa controla estradas e cidades na Síria, Iraque e Curdistão, sem fronteiras fixas, no meio dum deserto onde é difícil de estabelecer bases estáveis.

 

Segundo a filosofia do Daesh, que segue a estirpe salafita wahhabista – o islão mais radical, também seguido pela Arábia Saudita – Al-Bagdadi pertence à tribo Quraysh, o que lhe confere um direito nato de ser Califa. Apenas os doze primeiros califas eram da tribo Quraysh, e os otomanos seriam, nesta versão da história, falsos.

 

A Al-Qaeda, que anteriormente era considerada a mais radical facção muçulmana, considera que a vitória final dos muçulmanos será num futuro imprevisível (Bin Laden achava que já não seria na vida dele), depois de uma prolongada guerra com os infiéis, sobretudo americanos. O Daesh tem outra filisofia inspirada na interpretação à letra do Corão: o Armagedão, a luta final entre os crentes e os pagãos, vai acontecer em breve, na planície de Raqqa “contra as forças de Roma e de Espanha”. (Como se baseia à letra em textos originais do século VII, a terminologia do Daesh tem este sabor medieval.) Os principais inimigos não são os cristãos ou outras religiões, que podem ser escravizadas, mas sim os shiitas, que devem ser todos massacrados.

 

É interessante que a Al-Qaeda, que utiliza uma terminologia mais contemporânea e uma praxis mais afinada com as realidades estratégicas do nosso tempo, tenha passado a ser uma organização de homens maduros, antiquada, se comparada com os jovens e os métodos "modernos" do Daesh – redes sociais, propaganda no Youtube –, embora sigam princípios ideológicos mais antiquados. O facto é que os militantes da Al-Qaeda, que pareciam implacáveis há dez anos, foram completamente ultrapassados pela brutalidade inenarrável do Daesh. Além disso a Al-Qaeda continua a recrutar nos países muçulmanos mais carentes, como o Paquistão ou as Filipinas, enquanto o Daesh recruta nos países ocidentais que quer destruir, o que o torna mais imprevisível e letal.

 

O Daesh seria então o primeiro Califado da era contemporânea e, segundo, eles, o único legítimo depois da linhagem dos treze califas que se extinguiu no século XII. Mas o Califado Otomano também parece prestes a voltar. A mudança da Turquia, de país da NATO, laico e ocidentalizado, para um estado islâmico alinhado com o grande adversário da NATO, a Rússia, está a ocorrer à nossa frente, em tempo real, à medida que Tayyp Erdogan vai modificando as instituições turcas laicas a ataturkianas em estruturas ditatoriais e alinhadas com a sharia. E a Europa, que não tem sabido lidar com a Turquia, mostra-se impotente para impedir esta mudança telúrica, com implicações imprevisíveis e, certamente, terríveis.

 

Erdogan, que começou a carreira como um politico pró-europeu e democrático, está a passar por um processo de islamização progressiva com a chamada a si de poderes próprios dum Califa, ao mesmo tempo que se aproxima da Federação Russa com uma rapidez inesperada. Conforme o resultado das suas conversações com o amigo Putin, marcadas para uma visita a Moscovo em 8 de Agosto, a Turquia poderá ficar numa situação incompatível com a NATO, ao mesmo tempo que assume a postura tradicional otomana de dirigir, dominar ou prevalecer nos países muçulmanos do Próximo Oriente.

 

Internamente, com a prisão de toda a oposição e a instituição da pena de morte, pouco distinguirá Erdogan dos sultões do passado. Terá que competir com o Daesh, telecomandado pela Arábia Saudita, pela predominância no mundo árabe e o direito de usar o título de Califa. Essa disputa talvez seja a salvação da Europa. Ou a perdição.

 

Não deixa de ser interessante, assistir ao vivo a uma grande transformação histórica. O que não é nada tranquilizador é ter novamente um Califa com poder de vida de aplicar a sharia às portas do Continente.

 

publicado às 15:11

O Pokémon vai de férias para o Algarve. Vá com ele, por uma de quatro rotas alternativas

 

Por: Miguel Morgado

 

 

A realidade aumentada está na moda. Em agosto o país inclina a sul. Este ano o boneco virtual junta-se a todos aqueles que para aí rumam de férias. Ponto de partida? Imaginemos uma linha a sul de Lisboa que rasga horizontalmente o Alentejo e, em jeito de cascata, caça-Pokémons e automóveis percorrem as estradas nacionais. Sem portagens e com paragens sem preço, todas desaguam no mar, de Sagres a Vila Real de Santo António. Partamos, então, com mais de 30º à sombra.

 

Se é um leitor que tem sede de chegar ao seu destino de férias, no Algarve, e que se prepara para “voar” pela autoestrada, com uma breve paragem numa estação de serviço apinhada de gente com carros atolados de bagagem, bicicletas e alguns barcos de recreio, então as linhas que se seguem...são exatamente para si. Para si e para todos aqueles que decidiram, em agosto, rumar a sul, destino de eleição, há muito, de muitos de nós.

 

Este ano parece haver uma novidade: os Pókemon decidiram também ir de férias para o Algarve. No mundo da virtualidade imagine agora que são vários que se espalham todos para sul, à nossa frente. Por isso, siga-os e tente apanhar, pelo menos, aquele que vai de férias consigo. É este, o jogo que lhe propomos a seguir.

 

Para lá chegar podemos partir dos vários pontos cardeais do nosso rectângulo continental. Mas, para facilitar e porque não somos centralistas, a viagem aqui desenhada não se restringe a quem parte do Terreiro do Paço. Faz-se um pouco mais a sul de Lisboa, já do outro lado do rio Tejo. Sem ser a régua e esquadro, traçamos uma linha, mais ou menos horizontal e transversal, que rasga o Alentejo, partindo o país em dois.

Em jeito de cascata, o boneco virtual segue as rotas alternativas que o asfalto das estradas nacionais nos proporciona para chegar ao destino. De Sagres a Vila Real de Santo António, passando por Albufeira, no Barlavento ou Sotavento, na praia que escolheu estender a toalha ou numa qualquer vila na serra algarvia, se for esse o local eleito.

 

Por estas vias tudo será feito com tempo, aproveitando-o ao máximo. O imenso sol será nosso fiel companheiro, bem por cima das nossas cabeças ou do nosso lado direito. São também rotas para quem gosta e quer apreciar as várias e diversas paisagens que tem pela frente. Seja pelo litoral, interior ou a que segue o curso do rio Guadiana.

 

Há paragens obrigatórias. Canal Caveira a Alcoutim, praias no litoral alentejano, vilas alentejanas em que o tempo demora a passar, ou na estrada da serra do Caldeirão, onde cabines telefónicas da Portugal Telecom denunciam tempos de outrora. Pelo caminho, há nomes de terras de trazem à memória Minas de outros tempos que nos são familiares, umas encerradas outras recuperadas.

 

A paisagem é bucólica e diversificada. Há o amarelo torrado do Alentejo. O verde das serras e dos Parques Naturais. Observamos campos de milho, girassóis, olival, gado em pastagem e pás eólicas que com um toque de modernidade ajudam a pintar o quadro que nos espera. Há restaurantes de estrada e placas a anunciar fruta à venda. Há carros e camiões em movimento, estradas completamente vazias salpicadas por coelhos e gatos, sinais de limites de velocidade nas localidades que nos obrigam quase a parar no tempo e bicicletas com ciclistas que parecem terem perdido o pelotão da Volta a Portugal.

Nas vilas e aldeias, portas e janelas impedem o calor tórrido de entrar e as esplanadas de alguns cafés convidam viajantes e idosos locais a partilharem silêncios.

 

Comecemos então com a estrada nacional mais conhecida e frequentada. É um percurso que tem complementar no nome, mas que nesta altura tem estatuto de principal.

 

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IC1: Canal Caveira já tem minimercado

Em Alcácer do Sal, os ninhos que as cegonhas edificam servem de inspiração para a viagem que começou uns quilómetros mais atrás e nos guiará, em modo de voo plano pela planície, até ao Sotavento ou Barvalento algarvio.

 

Já foi a principal paragem, já perdeu o estatuto, esteve quase a sair do mapa e voltou nos anos mais recentes a ser (quase) aquilo que foi. Falamos de Canal Caveira, uma reta de cafés, restaurantes e do minimercado, que se alinham no sentido norte-sul, isto é, inclinado só para quem desce para o Algarve. Do lado inverso um imenso parque de estacionamento e uma ponte pedonal que parece servir de decoração, tantos são aqueles que arriscam a travessia mais direta ao café que está à mão de semear. Com estômago atestado, cumpre-se uma tradição. Mas, se quer acrescentar algo mais profundo da região, a seguir a Grândola, antes de Ermida do Sado, faça um desvio até as Minas de Lousal (minas de Pirites, já extinta) e revisite a história da vila no Museu Mineiro e no Centro de Ciência Viva do Lousal ou coma no restaurante Armazém Central.

 

Rode a chave da ignição de novo que é tempo de acelerar, porque as férias não esperam. Com mais ou menos tráfego, siga até Ourique, suba até Santana e São Marcos da Serra, e em São Bartolomeu de Messines ou desvia para Silves (N124) ou segue a linha do comboio até Tunes, Ferreiras, Albufeira. O mar está ali à vista. Passou rápido.

 

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Seguindo o curso do Guadiana pela N122  

Para o Pókemon que vem de Évora, passando pelas terras de vinho – Portel e Vidigueira –, em direção a Beja, não apanha o avião, antes calcorreia o asfalto e faz o desvio para Mértola e para o Parque Natural do Vale do Guadiana, pisando, mais à frente, a N122. Um desvio às Minas de São Domingos poderá fazer parte da sua rota. Com os semáforos e sinais a obrigarem à velocidade de 50 km/h no concelho de Mértola, em Vale do Açor de Cima, as cabines telefónicas com a insígnia Portugal Telecom levam-nos a quase parar como a recuar no tempo. E por falar em passado, a seta Pulo do Lobo aviva a memória política de tempos passados escritos na então jovem democracia.  

 

A seguir a Santa Marta é merecido o desvio, e pausa, em Alcoutim. Dai, pela estrada 122-1, quase que basta esticar o nosso braço esquerdo e tocamos no rio Guadiana e na vizinha localidade espanhola de Sanlucar de Guadiana. Serpenteie por essa estrada fora até Castro Marim (retomando aí o IC-127) ou siga pelo Azinhal e Junqueira até Vila Real de Santo António, onde desagua em algumas rotundas que ligam à famosa nacional 125. Chegamos, então, à ponta mais a leste do sotavento algarvio.

 

 

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Por entre Minas na N2 

Montemor-o-Novo marca outro ponto de partida deste jogo real que lhe apresentamos de chegar às praias algarvias por estradas sem portagens e com (obrigatórias) paragens que não têm preço.

 

Pela N2 siga até Santiago do Escoural. Na N2 contabilize Alcáçovas, Torrão, Odivelas, Ferreira do Alentejo – zona do imenso olival com o cunho Oliveira da Serra –, Ervidel, até aterrar num famoso eixo de Minas, das de Almina às de Neves Corvo: Aljustrel, Castro Verde e Almodôvar. Por aqui há algumas áreas de descanso que parecem elas mesmas estarem a viver esse estado de espírito de uma aparente imutabilidade eterna.

 

Nas imensas retas que antecedem a Serra do Caldeirão, alguns ciclistas vestidos a rigor parecem saídos da Volta a Portugal, mas não passa de pura ilusão. E talvez só com um truque de magia, perto de Barranco-o-Velho e Vale das Três Marias, uma antiga “Casa de Cantoneiros” da Junta Autónoma de Estradas, datada de 1936 arranjará comprador. Se andava à procura de uma, bom já deu por bem empregue a viagem. E por falar em oportunidades, em Besteiros encontra uma seta com as palavras “licor de medronho”. É parar, comprar e beber, só depois de já sentadinho e bem instalado, se faz favor. São Brás de Alportel marca um triângulo de soluções. Para Loulé com passagem por Querença pela N396, seguir em frente até Estói e Faro ou virar à esquerda (N270), para Tavira, fazendo parte da Algarviana. E por aqui ligue-se, por via transversal, quase até ao mar da costa Vicentina.

 

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Pelo parque natural do sudoeste alentejano e Costa Vicentina

 Aqui chegados, já fomos para o Algarve por três estradas nacionais. Mas há ainda um último itinerário. Recuemos até ao rio Sado. Em Setúbal, podemos apanhar o barco e navegar até à Comporta. Daí seguir pela N261-1 até Grândola ou, junto à costa, saltar até Melides (N201) e daí até Santiago do Cacém para apanhar a N120, vinda da “terra da fraternidade”.

Nesta estrada nacional, o Cercal é o próximo ponto de referência geográfica. Aí, de novo, duas hipóteses: ou seguimos pela serra do Cercal ou apanhamos o ar marítimo de Vila Nova de Mil Fontes (N390), para depois seguirmos para Odemira (pela N393) e retomar a nossa rota que nos levará a Odemira. A partir desta vila, entramos no Parque Natural do Sudeste Alentejano e Costa Vicentina. Carros com pranchas de surf empilhadas, para cima e para baixo, saltitando pelas imensas e belas praias da Zambujeira do Mar, Odeceixe e Aljezur. Uns quilómetros mais à frente, as curvas e contra curvas da Serra Espinhaço de Cão curvas levam-nos até Bensafrim e terminam em Lagos. Se tiver tendência para enjoar e porque a viagem já está quase no fim, opte antes pela estrada junto ao atlântico, pise as encostas da Bordeira e Carrapateira, aviste as pás eólicas que denunciam que estamos a chegar ao nosso destino, faça o desvio em Vila do Bispo (N268) e desagúe em Sagres. A ponta mais ocidental de Portugal continental e do Barlavento.

 

Chegamos. Apanhamos o último Pókemon. Como prémio nada melhor que um mergulho nas refrescantes águas desta ponta do Algarve. Ponto final destas linhas que nos levaram ao Algarve.

 

Rebobine, agora o filme. Regresse ao ponto de partida e pense antes de optar. Poderá ir pela via mais rápida, a 120 km/h, com os olhos fixos no carro da frente ou seguir os quatro caminhos que lhe apresentamos, por estradas nacionais e alguns troços regionais, traços bem vivos do passado e do presente e que nada têm de virtualidade.

 

Para o fim, um conselho: deixe o boneco da realidade aumentada em casa e desfrute de tudo o que o rodeia até chegar ao seu destino de férias. E aí chegado, desligue a chave da ignição e aproveite os dias para carregar baterias. As suas baterias.

 

Boas férias.

 

 

 

 

publicado às 09:45

Hillary, a futura, não é a primeira

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo mal amada, Hillary Clinton tem uma boa parte do planeta a torcer pela sua vitória e, se tudo lhe correr bem, será a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos. Mas não é a primeira candidata. Já houve duas, no século XIX. Por acaso mulheres muito mais interessantes. Mas o ser interessante não é, definitivamente, uma qualidade necessária para ter poder de vida ou de morte nuclear sobre o planeta.

 

 

Hillary é detestada por muitos, mal vista por outros tantos, trapalhona, acomodada com os interesses instalados; contudo, nas voltas que a democracia permite, tornou-se uma tábua de salvação para o seu país e para tantos outros países interligados contra ou a favor do Império. Como esposa do 42º Presidente, ficou conhecida por ser publicamente traída. Como secretária de Estado do 44º Presidente, mostrou-se bastante inábil e meteu-se em algumas confusões que ainda a perseguem. Mas, do mal o menos; se for eleita, será a 45ª Presidente dum país onde as mulheres há muito que têm uma presença forte na política, mas sempre na segunda linha.

 

Há 144 anos, em 1872, outra mulher candidatou-se a Presidente: Victoria Woodhull. Ao contrário de Hillary teve uma infância difícil, meteu-se em vários negócios e assumiu posições politicas fortes, muito à frente do seu tempo. A América não estava pronta para ela, e muito menos para um vice-Presidente negro e ex-escravo, Frederick Douglass.

 

Filha ilegítima de uma mãe analfabeta e dum pai vendedor de banha da cobra – literalmente – Victoria nasceu em Homer, Ohio, no chamado Farwest, na época dos assaltos a diligências, corridas ao ouro e aquela truculência que vemos nos filmes de cowboys. Desde miúda que teve de lutar contra todos os preconceitos, estudou formalmente apenas três anos, e aos doze já estava casada com um pseudo-médico alcoólatra que lhe batia. Extremamente inteligente, estudou sozinha e desenvolveu os seus conceitos sociais. Era sufragista (pró voto feminino), igualitária e a favor do “amor livre”. Tinha tudo para ser considerada uma prostituta, que nunca foi, apesar de ter trabalhado como empregada em prostíbulos. O conceito de “amor livre” nesse tempo significava apenas o direito da mulher se divorciar, viver a sua vida com quem quisesse e eventualmente casar novamente. Também era espiritualista e acreditava ser guiada por Demóstenes.

 

No meio de aventuras que dariam um bom filme, chegou a Nova Iorque, onde abriu uma corretora de valores com uma amiga – a primeira no mundo a ser dirigida por mulheres - e posteriormente um jornal para espalhar as suas ideias. Em 1866 casou com um veterano da Guerra Civil. Conheceu e teve contactos tempestuosos com a mais famosa sufragista norte-americana, Susan B. Antony, que era menos radical do que Victoria.

(Tivemos em Portugal, com o habitual atraso de 50 anos, duas figuras parecidas, Angelina Vidal e Carolina Beatriz Ângelo, mas isso é outra história.)

 

Em 1870 esteve na fundação do Partido dos Direitos Iguais (Equal Rights Party), basicamente uma plataforma politica para a emancipação feminina. Mas, entretanto, uma disputa à volta da história do amor livre custar-lhe-ia a candidatura. Um ministro protestante, proeminente em Nova Iorque, opôs-se publicamente ao conceito defendido por Victoria e ela publicou no jornal que o senhor era contra, mas tinha uma amante. Daí resultou um processo judicial, em que foi detida e, embora não condenada, perdeu o período eleitoral. Claro que a coisa cheirava a marosca política, mas o mal estava feito. Contudo, não é de supor que uma candidatura com uma libertária e um ex-escravo, ainda por cima casado com uma branca – na altura a miscigenação era muito mal vista... – tivesse alguma hipótese real.

 

Victoria participou na formação da Primeira Internacional, mas a associação de sindicatos dividiu-se em 1871, quando os alemães, com a aprovação de Marx, expulsaram os ingleses e os americanos. Perdida a oportunidade da presidência, Victoria divorciou-se e foi para Inglaterra com a sua sócia no jornal, Tennie Claflin. O multimilionário William Vanderbilt, cujo pai fora um amigo de sempre e apaixonado por Tennie, deu-lhes uma boa quantia para recomeçar a vida. Mas Victória não queria parar; começou a dar conferências – a mais famosa tinha como tema “O corpo humano, templo de Deus” – e casou com um banqueiro britânico. Ainda publicou um jornal, até se retirar para o campo, em 1901. Uma rica vida, cheia de peripécias.

 

Em 1884 o Partido dos Direitos Iguais concorreu novamente à Presidência, com uma candidata completamente diferente, Belva Ann Lockwood, e outra mulher para vice-presidente, Marietta Stow. Ambas sufragistas e defensoras dos direitos das mulheres, se bem que muito mais conservadoras do que Victoria Woodhull. Belva era advogada – numa época em que poucos juristas formados havia, e muito menos mulheres – e directora dum colégio prestigiado de Washington.

 

Em 1888, o Partido concorreu uma última vez. Inicialmente o vice-presidente era para ser um homem, o líder da União para a Paz Universal, Alfred Love, mas não aceitou a vergonha de ser segundo para uma mulher … Finalmente outro homem, Charles Weld, filho de um casal muito progressista, aceitou fazer uma figura que todos consideravam vexatória.

 

Como as mulheres não tinham direito a voto, as possibilidades da dupla eram muito reduzidas. Ficaram registados apenas 4.200 votos, o que mesmo assim é surpreendente, dado que toda a comunicação social era contra o sufrágio feminino. Até ao fim da vida Belva escreveu sobre as suas bandeiras, paz universal e igualdade de género, alem de continuar a dirigir o colégio.

 

O voto das mulheres foi uma das grandes questões do século XIX e na realidade só se resolveu em meados do século XX – no tempo das nossas mães e avós, não mais cedo. Nos Estados Unidos, vários Estados deram direitos parciais, lentamente, até à emenda da Constituição de 1920 que resolveu o problema definitivamente. Na Europa, o primeiro pais foi a Finlândia, em 1907. Em Portugal, a Constituição de 1911 não previa tal modernidade, porque os constituintes jacobinos achavam que o voto feminino seria influenciado pelos padres ...  Só na Constituição de 1933 é que as mulheres puderem votar e ser votadas.

 

A assim chegamos a Hillary, a grande esperança da eleição do fim do ano, a 8 de Novembro, nos Estados Unidos. Uma mulher que se espera que tenha o apoio maioritário não só das mulheres, mas também dos hispanos, dos negros e, até, de muitos republicanos. O mundo vai assistir de coração na boca e braços virados ao céu.

publicado às 14:09

Uma selfie de Paul Ryan diz mais que mil palavras de Trump

Por: José Couto Nogueira

  

A questão do racismo sempre foi uma questão nos Estados Unidos. (Não quer dizer que não seja noutros países, mas cada um tem a sua maneira de não saber lidar com ela.) Nos EUA o problema nem cresce nem decresce – rola como uma onda, com altos e baixos. Ultimamente, a onda está em alta. Porque a polícia anda a matar muitos negros, o que é terrível. Porque o candidato republicano é, entre outras inconveniências, racista, o que não é menos grave. E agora, por um pormenor que poderia ter passado despercebido mas que, por causa das outras causas, explodiu como fogo de artifício nas redes sociais, na comunicação, em toda a parte. Do que se trata? Uma selfie.

 

 

Uma simples selfie publicada por Paul Ryan, o republicano que, por vias da maioria do partido é o Presidente da Câmara dos Representantes. Ryan está em Cleveland, para a Convenção partidária que irá certamente eleger Donald Trump como a aposta do partido à Presidência. Resolveu fazer uma grande selfie, à frente de dezenas de “pagens” (os chamados “interns”, jovens que prestam serviço nos gabinetes dos representantes e senadores.) Todos sorridentes, felizes e bem vestidos – e todos brancos. É verdade, entre os pagens republicanos, rapazes e raparigas, não há sequer um tom mais escuro, muito menos um negro.

 

O Estados Unidos têm um Presidente negro, como todo o planeta sabe. Têm membros do Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) negros, ministros negros e uma boa parte dos cargos de topo no executivo são exercidos por negros. Mas são todos democratas. O Partido Democrata não é historicamente o partido do integracionismo, ao contrário do que muita gente supõe por causa da presidência de John F. Kennedy, altura em que supostamente todos os racismos foram legalmente eliminados. Historicamente, basta lembrar que o Presidente Abraham Lincoln, que se meteu numa guerra civil para libertar os escravos, era republicano. Mas, o Partido Democrata é o partido das liberdades, várias, favorável aos imigrantes de todas as cores e, em geral, menos discriminatório nas questões ditas fracturantes.

 

Em compensação, o Partido Republicano, por albergar as forças políticas e sociais mais conservadoras, há décadas que tem uma certa dificuldade em ser visto como equitativo nestas questões, mesmo quando teve um secretério-geral negro. Desde os Bush, pai e filho, que o partido tem vindo a puxar à direita e a ficar mais radical. Os dez candidatos a candidatos presidenciais para a próxima eleição eram todos extremamente conservadores – a única coisa que variava era a religiosidade maior ou menor. Trump, que nem sequer era um militante dedicado com uma folha de serviços que se visse (Trump só se dedica a ele próprio) acabou por afastar todos os outros, inclusive Paul Ryan, com um discurso que, aqui na Europa, nem o UKIP ou o Front Nacional se atrevem.

 

Na política, os lugares eleitos obedecem forçosamente a uma série de critérios, e hoje em dia a imagem será dos mais importantes. Desde o candidato a vereador municipal até ao presidente, passando pelas assembleias e governadores dos Estados, tentam sempre apelar a um eleitorado o mais abrangente possível, mesmo que o façam desastradamente. Quer isto dizer que ser negro, ou hispano, ou asiático, pode ser uma vantagem para ir buscar essas minorias que, em muitos círculos eleitorais, afinal são maiorias.

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Agora, quando se trata de lugares que não são eleitos, ou seja, todos os cargos de gabinete e administrativos, já estas restrições não são tão importantes, e aí é que se vê quem é o quê. No caso dos pagens do Capitólio, como são normalmente chamados, trata-se de pessoas invisíveis. São jovens, escolhidos por influências e contactos pessoais, que assim começam a sua carreira política ou de funcionários públicos. Nunca ninguém se lembraria se verificar se respeitam os equilíbrios considerados politicamente correctos de cor ou de género. Durante muito tempo eram sempre rapazes, mas essa barreira foi ultrapassada há décadas. Pelos vistos a barreira da cor, no que diz respeito ao Partido Republicano, não foi. E esta infeliz grande selfie de Paul Ryan mostra exactamente isso.

 

Resta perguntar: terá isto alguma influência nas eleições, quer dentro do Partido, quer nas Presidenciais? Provavelmente, não. No fundo já toda a gente sabe como está o Grand Old Party. É só ver a escolha de um candidato que quer fazer um muro entre os Estados Unidos e o México, expulsar todos os muçulmanos e recusar vistos aos filhos de hispanos nascidos no país. (Se alguma destas propostas é exequível, não parece preocupar os republicanos por ora).

 

Muito mais efeito nas eleições terão os constantes assassinatos de cidadãos negros pela polícia, um pouco por todo o país. Contudo, a selfie de Paul Ryan ficará para a História por representar numa só imagem milhões de opiniões.

publicado às 12:06

O dia em que a Turquia sonhou e a França chorou

Por: Márcio Alves Candoso

 

O jornalismo é uma actividade perigosa. Porque se pode ser preso ou atingido num país que não preza a liberdade de expressão ou ser apanhado pelas balas numa frente de guerra? Também. Mas há outro perigo, muito mais presente, embora felizmente bem menos grave. Chama-se realidade e, na semana que passou, a Turquia e a França lembraram-nos do que isso significa.

 

 

Sexta-feira, final da tarde. Nas redacções ultimam-se os preparativos de fecho de jornais. Nas rádios e televisões confirmam-se os convidados e o alinhamento noticioso é, em todo o lado, aquele que é óbvio. Atentados em Nice matam dezenas de pessoas e ferem centenas. Mais uma vez a França de luto e o terrorismo a bater à porta.

 

Sexta-feira, princípio da noite. Um grupo não identificado de militares anuncia um golpe de Estado na Turquia. Um comunicado lido pelas forças revoltosas na televisão pública, acusa o presidente Recyp Erdogan de perverter a democracia e de inverter o - velho de quase cem anos - secularismo da lei e do poder público.

 

Alguns jornais já não vão a tempo de mudar as primeiras páginas. Resta o on-line que todos praticam há vários anos. As televisões têm mais sorte. Os convidados são, quase todos, peritos em ambos os assuntos. Terrorismo e Turquia, temas parecidos. É só dar a volta ao texto - primeiro a Turquia, porque está a acontecer, e logo depois Nice, com os corpos e os choros ainda bem quentes na rua.

 

Ana Santiago e Ricardo Nunes foram apanhados numa quase lua-de-mel em Istambul - de facto, foram assistir a um casamento de amigos locais que já não vai realizar-se, pelo menos na data aprazada. Desde sexta-feira à noite mudaram um bocado de vida. Metidos num bairro ’fancy’ da zona asiática da cidade, vão dando conta dos tiros que ouvem e dos helicópteros que os sobrevoam. Os amigos, nas redes sociais, vão-lhes pedindo que contem ao mundo o que mundo quer saber mas desconhece. O que é que se passa?

 

Ricardo desdobra-se a falar para as televisões e jornais. Ana conhece bem umas boas dúzias de jornalistas, já que trabalha há anos na área da comunicação - agora na ‘Start Up Lisboa’, uma incubadora de empresas. Dizem o que vêem e sobretudo o que os amigos turcos, em casa de quem estão hospedados, lhes contam. Estes, ocidentalizados, muçulmanos pouco ou nada praticantes, têm receio. "Os meus amigos turcos estão em choque, ninguém esperava isto. Não gostam do governo, mas também não confiam nos outros. Eles nem sabem quem são os outros", desabafou Ana Santiago, horas depois de iniciado o golpe.

 

Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro

 

Do lado de cá, já se fala em cravos e em revolução. "Que sorte que tens, estás a viver um 25 de Abril", exclama um amigo. Ana nem idade tem para se lembrar desse dia. "Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro. Na rua ouvem-se buzinas, que vêm de longe e orações/preces/exortações das mesquitas", escreveu no FaceBook pouco depois. Deitaram-se por volta das seis da manhã…

 

Mais do que um contra-golpe de grande eficácia, é agora seguro que, para além de algumas traições de última hora, quem parou os rebeldes foram os imãs das mesquitas e os líderes dos partidos tradicionalistas - Erdogan está longe de ser o chefe dos radicais islâmicos no país. O golpe final veio das potências ocidentais e da Rússia. Quer Barack Obama quer Vladimir Putin sustentaram que salvar a democracia na Turquia era apoiar o governo estabelecido contra os revoltosos. Quanto à parte do Exército e da Força Aérea que se sublevou, é evidente que deixou de lutar quando viu milhares de pessoas a barrar os carros de combate e a rodear os soldados de infantaria. O ’25 de Abril’ acabava ali. O povo não apoiou nenhum Salgueiro Maia, antes marchou contra ele. Se é que havia um Salgueiro Maia…

 

"Os secularistas são ainda muitos, vê-se na rua. Mas poucos em força, acho que pouco afeiçoados à política e à luta", refere Ana Santiago em declarações ao SAPO24. "Essa é a mágoa deles, sentem que falharam", sustenta a portuguesa. Durante a tarde, passeando pelas ruas calmas da parte europeia de Istambul, "parece algo entre a Avenida de Roma e o Parque das Nações, gente a passear, carros de bebés… não há mais polícia do que é costume", revela-nos.

 

É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma

 

Na velha cidade, ali mesmo no centro histórico asiático, ao lado da torre de Gálata, Ana e Ricardo vêem estranhas confluências de culturas. "Mulheres de mini-saia e lenço na cabeça, dizem-me que é de propósito, uma espécie de ‘statement’ (afirmação)", conta Ana Santiago. "E uma de preto, cabeça coberta, a fumar", aduz a mesma fonte. "É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma".

 

Mas todo este ‘melting pot’ poderá ter os dias contados. "Ergodan só vai sair mais forte disto tudo porque quem está na rua são apoiantes dele", sustenta Ana. "Os meus amigos não gostam deste presidente, mas também não sabem quem está do outro lado e se podem confiar. Desde o início disto (golpe), nunca os ouvi contentes por estarem a tentar derrubar o presidente", revela. "Acima de tudo estão confusos e com receio do futuro… Temem que a liberdade já não dure muito". "Os meus amigos sentem-se culpados e tristes, por nada terem feito até hoje para combater o que temem. «Eu falhei», diz-me o meu querido S." (nome retirado por razões de segurança). É esta a tristeza de gente normal que Ana traz de Istambul. "Mas não vi burkas", relata.

 

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"Se de agora em diante as mulheres não tomarem parte da vida social da nação, jamais conseguiremos atingir o nosso desenvolvimento completo. Permaneceremos irremediavelmente atrasados, incapazes de sermos tratados de igual para igual pelas civilizações do Ocidente". Palavras do ‘pai da Pátria’, Kamel Ataturk, proferidas em 1927. Há uma foto do próprio, rodeado de mulheres de cabeça descoberta e blusa de botão aberto. Data de 1931.

 

"Democracia, liberdade, primado da lei… para nós, estas palavras já não têm nenhum valor. Quem ficar do nosso lado na luta contra o terrorismo são nossos amigos. Quem ficar do lado contrário são nossos inimigos". Palavras de Recyp Erdogan, proferidas na manhã de sábado, após a vitória sobre o golpe. Os ‘terroristas’ a que se refere são os nacionalistas curdos do PKK. Do Daesh, dizem as más-línguas e algumas imagens dispersas que nunca os hostilizou. Horas antes do discurso, o presidente turco pedia asilo político em Itália e na Alemanha. Diz-se que lhe foi recusado, e que terá tentado o Irão. Ninguém confirma. Mas já de madrugada a sorte da batalha virou. E ele ficou.

 

Na noite de sábado, pouco restava da revolta. Em Ancara, a capital do país, Paulo Pedroso, ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social, atarefava-se no aeroporto para arranjar bilhete de volta. Está a trabalhar num projecto da União Europeia em conjunto com a Turquia. O barulho à sua volta impediu-o de atender a primeira chamada. Respondeu à segunda.

 

"Acabo de atravessar Ancara de táxi. Apenas em frente ao Parlamento há vestígios sérios do enfrentamento. A avenida Ataturk está parcialmente cortada em vários sítios. Num dos sentidos os carros circulavam pelo passeio. O túnel perto do Parlamento está obstruído por camionetas do município. Na minha zona residencial todo o dia esteve tudo calmíssimo", assegurou ao SAPO24. "A mercearia do bairro, o barbeiro, tudo estava normal", afirmou.

 

fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo

 

Os apoios ao Governo, vindos de largas camadas da população, ainda tinham vestígios à hora tardia em que conversámos. "Assim do género do fim das manifestações, pessoas dispersas pelas ruas, algumas embrulhadas em bandeiras turcas, outras agitando bandeirinhas nacionais", descreveu o ex-governante. Tropa na rua nem vê-la, polícia mais que muita, "mas aqui é sempre assim desde o último atentado", adiantou.

 

Enquanto mais de 2000 juízes - a Turquia é um país grande e populoso… - eram demitidos e presos, e dos cerca de ‘meio milhar’ de soldados oficialmente envolvidos na revolta mais de três mil eram detidos, as especulações sobre a ‘culpa’ da revolta e a culpa do seu fracasso são mais que muitas. Para Paulo Pedroso, para além da versão oficial de envolvimento de Fethulah Gullen – um antigo aliado de Erdogan que se auto-exilou da Turquia – "fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo".

 

A mesma fonte dá conta de outra versão, "um golpe militar à egípcia, de militares laicos". O que até faria sentido com a oposição do Egipto, ainda ontem no Conselho de Segurança da ONU, a um voto de confiança no regime de Erdogan. Militares "enganados, que esperavam uma grande mobilização, popular que não ocorreu", é também outra hipótese credível. Mas no fundo está sempre o mesmo problema: "A mobilização através das mesquitas (de oposição à revolta) foi muito intensa", explica Paulo Pedroso.

 

A 2260 quilómetros de Istambul - e mais uns quantos de Ancara -, há flores na rua, na Promenade des Anglais. Um soldado de Alá ou um simples louco - ou uma clara mistura de ambas as doenças – puxou da sua profissão para matar pessoas. Ao volante e aos ziguezagues com um camião de entregas – a sua ocupação definida -, por uma das artérias mais conhecidas do planeta Terra, foi matando os ‘enfants de la patrie’ que encontrava pela frente, alguns mesmo crianças, que comemoravam a dia nacional de França. Por alguma razão desconhecida, todos os tiros disparados pela polícia e que pontificavam o pára-brisas do veículo, estavam do lado errado e tardaram em atingi-lo. No caminho para o paraíso, matou pelo menos 84 cidadãos, e deixou entre a vida e a morte mais de 50. Pelo menos uma das vítimas era uma muçulmana.

 

E prometo que esta será a última citação deste texto. É um comunicado difundido pelo alegado ‘estado islâmico’, alguns dias antes de Mohamed Bouhlel, tunisino com autorização de residência e trabalho em França, ter dado à chave de ignição da camionete da morte. "Se não tiverem engenhos explosivos ou balas para matarem infiéis americanos e infiéis franceses, ou os seus aliados, esmaguem as cabeças deles com pedras, chacinem-nos com uma faca, atirem o vosso carro contra eles, atirem-nos de um sítio qualquer, sufoquem-nos ou envenenem-nos".

 

Bouhlel era um homem que "cuidava dos seus filhos". Palavra de vizinhos.

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publicado às 10:06

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