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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O reino deles por um Califado? O que move árabes, turcos e radicais

Por: José Couto Nogueira

 

Sultões há muitos - são como reis. Mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidades sagradas de Meca e Medina. É este título que o ISIS reclama para si e que muitos vêem o presidente turco, Repec Tayyp Erdogan, ambicionar. Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa.

 

 

Durante treze séculos, desde a morte do profeta Maomé até à deposição de Abdülmecid II, em 1924, o Islão foi dirigido, pelo menos teoricamente, por um Califa. Agora, no ano muçulmano de 1437, há dois pretendentes ao título. Um deles, Abu Bakr al-Baghadadi, está em Acqua e declarou oficialmente a sua pretensão, alegando pertencer à tribo de Moamé, a única donde pode vir um Califa verdadeiro. O outro, Repec Tayyp Erdogan, está na cidade histórica do Califado Otomano, Istambul. Os turcos são muçulmanos, mas não são árabes, o que levou a que os árabes não aceitassem o Califado Otomano como legítimo.

 

O ano zero dos muçulmanos é o ano 622 da Era Cristã (calendário Gregoriano), determinado pela ida de Maomé de Meca para Medina. A Hégira  - o ano muçulmano - começa e termina em Outubro, mas, fora isso,o ano nos dois calendários tem o mesmo número de dias.

Na Turquia usa-se um cálculo ligeiramente diferente, determinado pelo Presidência dos Assuntos Religiosos (Diyanet İşleri Başkanlığı), que os coloca no ano 1444. São sete anos de diferença para o calendário usado na Arábia Saudita, o Umm al-Qura e que é supostamente o utilizado pelas comunidades islâmicas do resto do mundo, inclusive Estados Unidos. Por este, os muçulmanos estão no ano 1437. 

 

Como seria de esperar, dado a divisão entre shiitas e sunitas e muitas outras quezílias entre sultões e chefes, esta unicidade de Califado nunca foi, nem é, reconhecida por todos os fiéis. O sultão é um rei e pode haver muitos no mesmo período, conforme os reinos, mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. O primeiro e o segundo califas, sogros de Moamé, foram aceites sem discussão, mas a partir do quarto as coisas complicaram-se. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidadãs sagradas de Meca e Medina. Essa linhagem termina em 1924, quando Kemal Ataturk institui a república laica da Turquia e acaba com todos os cargos e privilégios religiosos. As questões eclesiásticas passaram para um ministério próprio, a tal Presidência dos Assuntos Religiosos, com tutela limitada.

 

Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa, embora tenha motivos e meios para o fazer. Meca fica no seu território e dinheiro não lhe falta para possuir os atavios do título.

 

Quem se declarou Califa de pleno direito, em 2012, foi Abu Bakr Al-Baghdadi, o líder do chamado Daesh, ISIS (Islamic State of Iraq and Siria), ou ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant), que não pode ser considerado um país completo e estabelecido. A partir da Raqqa controla estradas e cidades na Síria, Iraque e Curdistão, sem fronteiras fixas, no meio dum deserto onde é difícil de estabelecer bases estáveis.

 

Segundo a filosofia do Daesh, que segue a estirpe salafita wahhabista – o islão mais radical, também seguido pela Arábia Saudita – Al-Bagdadi pertence à tribo Quraysh, o que lhe confere um direito nato de ser Califa. Apenas os doze primeiros califas eram da tribo Quraysh, e os otomanos seriam, nesta versão da história, falsos.

 

A Al-Qaeda, que anteriormente era considerada a mais radical facção muçulmana, considera que a vitória final dos muçulmanos será num futuro imprevisível (Bin Laden achava que já não seria na vida dele), depois de uma prolongada guerra com os infiéis, sobretudo americanos. O Daesh tem outra filisofia inspirada na interpretação à letra do Corão: o Armagedão, a luta final entre os crentes e os pagãos, vai acontecer em breve, na planície de Raqqa “contra as forças de Roma e de Espanha”. (Como se baseia à letra em textos originais do século VII, a terminologia do Daesh tem este sabor medieval.) Os principais inimigos não são os cristãos ou outras religiões, que podem ser escravizadas, mas sim os shiitas, que devem ser todos massacrados.

 

É interessante que a Al-Qaeda, que utiliza uma terminologia mais contemporânea e uma praxis mais afinada com as realidades estratégicas do nosso tempo, tenha passado a ser uma organização de homens maduros, antiquada, se comparada com os jovens e os métodos "modernos" do Daesh – redes sociais, propaganda no Youtube –, embora sigam princípios ideológicos mais antiquados. O facto é que os militantes da Al-Qaeda, que pareciam implacáveis há dez anos, foram completamente ultrapassados pela brutalidade inenarrável do Daesh. Além disso a Al-Qaeda continua a recrutar nos países muçulmanos mais carentes, como o Paquistão ou as Filipinas, enquanto o Daesh recruta nos países ocidentais que quer destruir, o que o torna mais imprevisível e letal.

 

O Daesh seria então o primeiro Califado da era contemporânea e, segundo, eles, o único legítimo depois da linhagem dos treze califas que se extinguiu no século XII. Mas o Califado Otomano também parece prestes a voltar. A mudança da Turquia, de país da NATO, laico e ocidentalizado, para um estado islâmico alinhado com o grande adversário da NATO, a Rússia, está a ocorrer à nossa frente, em tempo real, à medida que Tayyp Erdogan vai modificando as instituições turcas laicas a ataturkianas em estruturas ditatoriais e alinhadas com a sharia. E a Europa, que não tem sabido lidar com a Turquia, mostra-se impotente para impedir esta mudança telúrica, com implicações imprevisíveis e, certamente, terríveis.

 

Erdogan, que começou a carreira como um politico pró-europeu e democrático, está a passar por um processo de islamização progressiva com a chamada a si de poderes próprios dum Califa, ao mesmo tempo que se aproxima da Federação Russa com uma rapidez inesperada. Conforme o resultado das suas conversações com o amigo Putin, marcadas para uma visita a Moscovo em 8 de Agosto, a Turquia poderá ficar numa situação incompatível com a NATO, ao mesmo tempo que assume a postura tradicional otomana de dirigir, dominar ou prevalecer nos países muçulmanos do Próximo Oriente.

 

Internamente, com a prisão de toda a oposição e a instituição da pena de morte, pouco distinguirá Erdogan dos sultões do passado. Terá que competir com o Daesh, telecomandado pela Arábia Saudita, pela predominância no mundo árabe e o direito de usar o título de Califa. Essa disputa talvez seja a salvação da Europa. Ou a perdição.

 

Não deixa de ser interessante, assistir ao vivo a uma grande transformação histórica. O que não é nada tranquilizador é ter novamente um Califa com poder de vida de aplicar a sharia às portas do Continente.

 

publicado às 15:11

O ano do entusiasmo com a Web Summit de Lisboa

Por: Francisco Sena Santos

 

O vocabulário, ampliado com novas palavras que refletem as novas realidades, dá-nos uma medida da imensa aceleração que está a caracterizar esta primeira década e meia do século XXI. As redes sociais, nascidas com o novo milénio, tal como todo o sistema de comunicação, a economia, a alimentação ou até os modos de vida, engendraram um vocabulário inédito, expressões, anglicismos, acrónimos, que definem muitos dos recursos do nosso dia a dia.

 

Em 2000 ninguém sabia que estava para aparecer uma enciclopédia universal multilingue (funciona agora em 291 idiomas) e de acesso gratuito e instantâneo chamada Wikipédia. Ainda ninguém falava de Twitter ou de hashtag. Selfie, post, chat, emoji ou bitcoin são outros dos novos termos que passaram a ser banais. Tal como o prefixo E (e-book, e-commerce) ou acrónimos como COP21, LGBT, YOLO ou LOL. A quinoa alimenta a virtude dos alimentos sem glúten neste tempo de suplementos energéticos. E quem imaginaria que os Oxford Dictionaries escolheriam GIF (Graphic Interchange Format), palavra que irrompe como verbo para significar o intercâmbio de imagens em ficheiros na web.

 

Não podemos imaginar que novos termos vai introduzir 2016. Alguns poderão ser palavras-chave num grande acontecimento global que este ano se instala em Lisboa, com mais de 40 mil participantes, entre 7 e 10 de novembro: Web Summit 2016. É a grande cimeira da web e das startup. Há quem lhe chame o “Forum de Davos dos geeks”. É uma maratona onde são mostradas as novas tendências do empreendedorismo com base na web e onde milhares de startup vão mostrar as suas inovações.

 

Quando em setembro passado Paddy Cosgrove, o fundador, em 2011, da Web Summit, anunciou a transferência do evento de Dublin (onde se realizou nos últimos cinco anos) para Lisboa, assumiu um duplo elogio a Portugal: à alta qualidade do acolhimento em Lisboa e à boa nova aventura que está a ser o empreendedorismo inovador de tantos portugueses. Os bons exemplos são múltiplos: da Unbabel que revoluciona os processos de tradução à Uniplaces, plataforma que ajuda os estudantes Erasmus a encontrarem alojamento, passando pela premiada Codacy, a empresa que Jaime Jorge fundou com o nome de Qamine e que desenvolveu um serviço destinado a empresas para rever automaticamente e encontrar falhas em códigos informáticos ou a Talkdesk, de Cristina Fonseca e Tiago Paiva, que permite criar um call-center em cinco minutos.. E há, com origem em Portugal, vários outros unicórnios, jargão utilizado para referir startup avaliadas em mais de um milhão de dólares. Há muito empreendedorismo português a conseguir resultados estimulantes na expansão internacional e a Web Summit, em novembro, vai ser uma grande montra global com alto potencial para gerar novos financiamentos.

 

UMA LINHA VERMELHA DESGRAÇADAMENTE ULTRAPASSADA

 

A Web Summit em Lisboa é uma boa expectativa para 2016. Mas este novo ano começou logo ao segundo dia com uma notícia que rompe as piores previsões: a Arábia Saudita, com um conceito de “justiça” semelhante ao da organização que se apresenta como Estado Islâmico (EI), depois de no ano passado ter executado mais de 158 pessoas, agora, no primeiro sábado do ano, voltou às execuções em massa, com o enforcamento ou fuzilamento de 47 homens que o regime saudita considera terroristas. Entre esses 47 executados está o clérigo Nimr al-Nimr, um pregador pacifista, líder religioso da comunidade xiita da Arábia Saudita – é uma minoria, representa cerca de dez por cento dos 18 milhões de naturais da Arábia Saudita. A população xiita concentra-se na região oriental, a mais rica do território saudita por ser a grande mina do petróleo. Nimr al-Nimr destacou-se ao liderar, em 2011, o segmento saudita da chamada “primavera árabe”. É decapitado por ter liderado um protesto democrático.

 

Esta execução é uma bomba contra o processo de estabilização que está a ser tentado no Médio Oriente e rebenta com a coligação regional oficialmente em campo contra o EI. Está desencadeada a rutura, simultaneamente religiosa e política, entre as duas principais confissões muçulmanas, entre sunitas e xiitas, e entre as potências confessionais rivais, Arábia Saudita e Irão, máximas zeladoras da ortodoxia de cada uma dessas comunidades. Estamos não apenas perante o mais recente capítulo da guerra secular entre sunitas e xiitas (a cisão vem do tempo da sucessão ao profeta Maomé no ano 632 D.C.) mas também perante um efeito da revolução energética desencadeada pelos avanços tecnológicos dos EUA e que fez tombar o preço do petróleo. A petro-monarquia saudita parece não estar capaz de conter o seu desespero e tenta assim, através de mensagens como esta, mostrar-se poderosa.

 

Junta-se a este inquietante cenário uma lástima ocidental: é uma desgraça que a Europa e o conjunto do mundo democrático, que sempre tem cultivado uma aliança acrítica com as monarquias do Golfo, continue estrábico frente à feroz e medieval ditadura saudita que oprime a oposição e os direitos humanos.

 

Com esta provocação saudita a procura da paz que se quer conquistar fica pior que antes. A área de conflito e guerra no Médio Oriente corre o risco de ficar ampliada.  Bem alerta o Washington Post para este risco de cenário de catástrofe. The Independent chega a perguntar se a estratégia saudita não passará por fazer destroçar o acordo nuclear conseguido com o Irão.

 

Por entre tudo isto, o Ocidente, que se fica pelos protestos de circunstância perante o desdém saudita, não só perde espaço de manobra para a pacificação, como perde mais no estatuto que reivindica de consciência humanista global.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o Charlie Hebdo, com a imagem de um deus assassino armado com uma kalachnikov, denuncia “os fanáticos embrutecidos pelo Corão” e puxa para título “um ano depois, o assassino continua em fuga”. O jornal está vivo mas os assassinos continuam por aí. Lá dentro desta edição há textos de Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Charlotte Gaingsbourg, Elizabeth Badinter, Ibrahim Maalouf e Taslima Nasreen. Tiragem: um milhão de exemplares. Riss, atual diretor do Charlie, clama que em 7 de janeiro do ano passado, com 60 disparos em três minutos, a eternidade caiu-lhes em cima. E continuam a ousar rir também do religioso, claro.

 

Obama, a um ano do final do mandato presidencial, reabre o combate pelo controlo da venda de armas de fogo nos EUA. Precisa de dar a volta ao Congresso para levar a melhor nesta luta impossível contra o flagelo da violência nos Estados Unidos.

 

Espanha e a Catalunha estão em impasse governamental após as duas eleições. O líder socialista basco já avisou que o espetáculo dado pelos barões do PSOE é lamentável: valem mais os interesses pessoais ou o interesse nacional? Mais explicações aqui. 

 

Capicua, “voz de todos nós”Aqui.

 

publicado às 07:14

A guerra que vem do deserto para as cidades. E que vai ser longa.

Bruxelas está a sentir, por causa do terrorismo, a ameaça de viver em semiliberdade. Temos de ponderar se esse é um preço que estaremos dispostos a pagar pela nossa segurança. Seja como for, há que combater quem ataca a nossa liberdade.

No dia de abril de 2013, quando uma criatura nos seus 40 e poucos anos, com ares de inflamado guerreiro religioso, que usa o nome de Abu Bakr al Baghdadi, se autoproclamou emir e anunciou a criação de um “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”(EI), poucos o terão levado a sério. Muitos até teremos troçado quando ele falou da reconquista do Mediterrâneo, com a intenção de tomar tudo até ao Al-Andalus, portanto com o atual Algarve incluído. O Al-Andalus tinha em Silves, na Taifa de Silves, no século XI, o seu emirato mais ocidental.  

 

Lembro-me de nessa ocasião da proclamação do EI ter lido um livro fascinante sobre o nosso passado árabe há dez séculos. O livro é escrito por uma investigadora em estudos islâmicos, Pilar Lirola, e tem por título Al Mutamid, El Esplendor del Reino de Sevilla (edição do Instituto de Cultura e Artes de Sevilha, de 2012). Trata a figura desse monarca, Al Mutamid, que se tornou um mito, não apenas por conseguir a extensão dos seus domínios, herdados do Califado de Córdova, de Múrcia até Silves, mas sobretudo por converter a sua corte em magnete para sábios, literatos, músicos e, especialmente, poetas. Ele, Al Mutamid, para além de guerreiro que a lenda diz ter sido fino com a espada, também era poeta, chegou a viver em Silves e até lhe dedicou um poema. Eram tempos de esplendor árabe no que é hoje o Algarve. Os relatos sugerem o culto de valores e prazeres muito opostos ao deste tal Baghdadi de agora.

 

Sabemos de Baghdadi que este clérigo guerreiro fez nome em 2010 pelo modo como enfrentou as tropas dos Estados Unidos no Iraque. Era a época em que a Al Qaeda começava a dissolver-se em múltiplos grupos e grupúsculos cujo nome parece ter sido cozinhado numa sopa de letras do terrorismo. Baghdadi tinha chefiado um braço iraquiano da Al Qaeda, mas, como descreve Rania Abouzeid na grande reportagem The Jihad Next Door, os planos dele eram muito mais ambiciosos: emergir como terrorista global em nome do califado e partir do controlo do Iraque e da Síria para fazer realidade a utopia de um vasto estado islâmico.

 

Baghdadi capitalizou, a partir de 2011, a queda das tiranias militares do Médio Oriente (derrube de Saddam e de Kadafi, debilidade de Assad), que instalava a anarquia no vazio de poder. Armado com um exército aguerrido consumou, em maio de 2014, a conquista de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque (milhão e meio de habitantes). No mês seguinte tomou Raqqa, na Síria. O mundo compreendeu então, brusca e brutalmente, que a ameaça do EI é mesmo para levar a sério. Estava criado um santuário terrorista num território com tamanho grande como o das ilhas britânicas. A fúria do EI passou a mover-se por um terço do Iraque, talvez mais de metade da Síria e chegou aos confins da Turquia. A Líbia, fogueira de instabilidade, parece à mercê. O EI controla um território com cerca de seis milhões de pessoas que submete à sua doutrina.

 

A campanha mediática é essencial para o êxito de Baghdadi. Ele é hábil a usar tecnologias sofisticadas do século XXI, explora as redes sociais para propagar o seu desejo de nossa regressão arcaica e a sede que tem de poder e de mal. Conquista adesões e amedronta os inimigos ao difundir através da internet as suas atrocidades, sequestros, execuções e decapitações. A ofensiva do líder do EI desenvolve-se em torno de três eixos: para além da comunicação com vídeos eficazes, o controlo do território com abundantes poços de petróleo que lhe asseguram financiamento farto e a progressiva expansão do desafio jiadista para novas frentes, da Nigéria à Tunísia, do Paquistão ao Mali, da Argélia ao Líbano, do Iémen ao Egito ou Somália. E avança no desafio mais perverso, o de incutir o medo em nós, que na Europa nos julgávamos fora da ameaça terrorista. Os últimos dez dias em Paris e Bruxelas despertaram-nos para Bamako e outros lugares onde milícias jiadistas repetem matanças. Milhares de mortos e centenas de escolas fechadas pelo terrorismo na África Central - e nós quase nem ligamos a essas notícias.

 

O “Estado Islâmico” de Baghdadi, embora, como escreve Luis Bassets, não possa ser reconhecido como um Estado nem deva ser considerado islâmico, deseja uma sociedade retornada a um passado asfixiante. Prevalece a leitura anacrónica do Corão desgraçadamente instalada no século XVIII por Mohamed Wahab, o teólogo saudita que aplicou o dogma da sharia e introduziu um islão rígido e integrista. É uma versão que tem praça forte na Arábia Saudita. Vem a propósito olhar para a construção desta sociedade e deste país. Tudo muito bem relatado em vários livros, por exemplo The Rise, Corruption and Coming Fall of the House of Saud ou A Brutal Friendship, ambos de Said K. Aburish (livros publicados por St. Martin’s, NY).  

 

Neste caso da Arábia Saudita tudo começa com Abdelaziz Ibn Saud (1876-1953), definido por Aburish como “um déspota tão brilhante quanto diabólico”. É o chefe que em 1932 fundou, a partir de uma tribo guerreira que esmagou as rivais, um país que, em consonância com a realidade daquele poder, adota o nome da família: Arábia Saudita. Os reis sauditas costumam procriar com fartura – o fundador da dinastia, o tal Ibn Saud teve 44 filhos das 22 esposas oficiais - e assim preservam a continuidade do clã, embora por entre golpes palacianos.

 

A família Saud dirige, geração após geração, os ministérios e empresas principais não só no país como em muito do Ocidente mais rico. A fortuna jorra do dinheiro do petróleo que permite a uma tribo do Médio Oriente ter-se tornado um colosso de riqueza. Imagina-se que Baghdadi aspirará a um destino semelhante para o seu califado. Os sauditas têm gozado a complacência ocidental perante os fundamentalismos supostamente puritanos daquela sociedade que, entre outros abusos, submete as mulheres. Espera-se que a Baghdadi lhe seja barrado o caminho. Obviamente não basta, nem de perto nem de longe, para nos livrar da ameaça terrorista. Mas é um bom avanço para travar uma guerra que veio do deserto para as cidades e que tende a ser longa. Desconstruir a jiad obriga a estabilizar muitas vidas. Vai dar-nos um trabalhão para defender a nossa liberdade plena.

 

Também a ter em conta:

 

A multiplicação do perigo jiadista reforça o alto risco da visita de cinco dias, já a partir de amanhã, do Papa a três países de África: Quénia, Uganda e República Centro-Africana. Neste tempo de incertezas vale ouvir a palavra de um Papa que é um pastor revolucionário.

 

Na Argentina, um novo partido surge e chega ao poder. O liberal Macri está eleito presidente e as forças de oposição na América Latina, da Venezuela ao Brasil rejubilam com a viragem à direita. Estará a começar uma reviravolta conservadora no continente?

 

Há cinco equipas treinadas por portugueses que estão bem colocadas para entrarem no seleto clube das 16 melhores na Champions do futebol europeu. Mérito para André Villas-Boas, Marco Silva, Rui Vitória, José Mourinho e Nuno Espírito Santo.

 

Que guerra será esta? A escolha de hoje entre as primeiras páginas no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:03

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