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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Se ao menos estivesse nu

Por: Rute Sousa Vasco

 

É uma grande sorte ou um enorme azar, é o que vos digo. Vários problemas da humanidade podiam resolver-se assim num piscar de olhos. Se pelo menos as estátuas, como a pintura e outras representações artísticas, colaborassem. Há que pôr esta gente na ordem. Mas vamos por partes.

 

Cecil Rhodes foi um grande imperialista, capitalista e, na pior acepção do ponto de vista dos próprios, africanista. Nasceu em Inglaterra, mas foi no continente africano que se tornou rico, tendo fundado a companhia de diamantes De Beers e também fundado, se assim se pode dizer, a região denominada então como Rodésia, hoje Zimbabwe e Zâmbia. Rhodes era um imperialista convicto e mais do que convencido dos méritos da raça branca, viveu profundamente embebido da superioridade da nação britânica. É dele a frase que “se se nasceu inglês, ganhou-se o primeiro prémio na lotaria da vida”.

 

Escusado será dizer que, com estes atributos, Cecil não é propriamente visto com ternura pelos africanos contemporâneos (e provavelmente ainda menos por aqueles com quem dividiu os seus dias). Mas, a sua visão da Grande Bretanha e a sua vontade de perdurar na História, levou-o a instituir a bolsa de estudo Rhodes, tida como a primeira a permitir um programa de estudos internacional (naturalmente, destinado àqueles que viviam nos territórios de lei britânica ou então oriundos da Alemanha).

 

Rhodes morreu em 1902 e em 1904 os administradores da sua fortuna fundaram também, cumprindo instruções suas, a Universidade de Rhodes, em Grahamstown, na África do Sul. A sua influência perdurou ao longo do século XX e de 1910 a 1984, a casa em que viveu na Cidade do Cabo foi a mesma que serviu de residência oficial aos primeiros-ministros sul-africanos, dando tecto a nomes como P. W. Botha e Frederik De Klerk.

 

E a aura do imperialista lá se foi perpetuando no tempo, como tinha ambicionado. Nos anos 50, com os temas raciais a começarem a marcar a atualidade, a estátua de Rhodes no campus da Universidade da Cidade do Cabo começou a ser questionada pelos estudantes. Não obtiveram sucesso e seguiram-se mais de duas décadas de apartheid.

 

Até que, no ano passado, ganhou forma o movimento Rhodes Must Fall, que em inglês até soa poético, mas que na realidade não é mais que um pragmático Rhodes tem de vir abaixo (ou simplesmente cair). E na era global, o protesto não se ficou pela África do Sul e atravessou continentes. Cumpriu o sonho do grande britânico e estourou em Oxford, na pátria-mãe onde, no Oriel College também se ergue um empedernido Rhodes. O argumento dos estudantes é simples: Rhodes é o Hitler de África (e temos de convir que parecenças físicas até existem, mas também era aquele estilo fim de século XIX que Adolf herdou). E ninguém quereria uma estátua de homenagem ao Hitler. O chanceler de Oxford não concorda e garante que não é apenas pelos 100 milhões de libras do Fundo Rhodes que a universidade perderia. Recomenda aos estudantes que vão estudar noutro sítio, se não conseguem ter liberdade de pensamento.

Tudo isto era facilmente resolvível com três premissas apenas: que a visita do líder iraniano à Europa incluísse Oxford, que os governantes ingleses estivessem nos antípodas do imperialismo do homem da estátua e, claro, que Cecil Rhodes estivesse nu. Isso, na realidade, é que resolvia praticamente tudo.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Depois da arte, os números. Alguns que fazem pensar:

 

O Facebook encerrou o ano de 2015 com um aumento de 44% nas receitas, totalizando 16,4 mil milhões de euros. Um número que resulta sobretudo da subida do valor embolsado com a publicidade. O quarto trimestre do ano passado foi mesmo o melhor de sempre. Há dinheiro para publicidade em media, só que não é bem para gastar em media.

 

E na semana em que soubemos que o IVA da restauração vai mesmo baixar para as refeições, ficamos também a saber que afinal de contas, mesmo sem um empurrãozinho dos impostos, os portugueses já estavam a regressar aos restaurantes e a deixar de lado a marmita. Os dados mais recentes da Kantar Worldpanel, empresa de estudos de mercado, revelam que o número de ocasiões de consumo dentro de casa (ou seja, os momentos em que confeccionamos e comemos alimentos) passou de 21 para 19. 

 

E agora, num país em permanente crise de lideranças, uma notícia que nos pode animar para efeitos futuros. Portugal é o 4.º país do mundo com mais qualidade nas escolas de negócios, revela o índice global da Competitividade e Talento. Este é o sector em que Portugal surge mais bem classificado neste relatório, que avalia 109 países, que representam 83% da população mundial e 96% do PIB do planeta. Pode ser que se traduza num país melhor, globalmente falando.

publicado às 10:26

O que procuram os turistas numa cidade? A resposta pode estar escrita nas paredes

O que procura um turista quando visita uma cidade? Vida cultural pulsante, gentes genuínas, monumentos, centros históricos ou uma boa gastronomia. A pergunta pode ter uma centena de respostas, mas há uma delas que está escrita nas paredes: a arte urbana.

Por: Alice Barcellos

 

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Mural sobre o fado, em Lisboa. Foto: AFP

 

Apesar de ainda existir em algumas cabeças a ideia de que a arte urbana é vandalismo ou uma expressão artística de menor valor, a verdade é que a maioria das pessoas já se deixa tocar e impressionar por este género de arte, conseguindo distingui-la bem do puro (e mau) vandalismo.

 

Quem nunca observou com cuidado um grande mural pintado num edifício ou guardou uma frase escrita naquela esquina a caminho do trabalho? Esse é um dos trunfos da arte urbana: passar mensagens e fazer-nos pensar. Quer seja em obras de maiores dimensões ou em pequenos stencils espalhados pela cidade.

 

De Inglaterra para o mundo, Banksy conseguiu pôr a arte urbana ao mesmo nível das obras mais conceituadas, presentes nas galerias, museus e leilões. Vários dos seus trabalhos foram vendidos por quase meio milhão de dólares. Com os seus desenhos provocativos e inteligentes, Banksy marca uma viragem na percepção que temos da arte urbana. Ao mesmo tempo, o artista continua a manter o anonimato, o que ajuda a adensar o mistério e a curiosidade sobre a sua identidade e, por conseguinte, as suas obras.

 

Por cá, os artistas que fazem das paredes e muros as suas telas têm cada vez mais visibilidade e cidades como Lisboa e Porto têm apostado numa crescente política “amiga” da arte urbana. A identidade de uma cidade também se desenha nas suas paredes. E as histórias que lá vão sendo contadas chamam a atenção de locais e turistas.

 

Em Lisboa, a arte urbana ganhou um novo impulso no início desta década com o programa Crono. Com o objetivo de dar uma nova a cara a zonas da cidade que estavam degradadas, artistas de renome, nacionais e internacionais, intervieram em vários edifícios. Algumas das obras deste projeto, pintadas na Avenida Fontes Pereira de Melo pelos artistas brasileiros Os Gémeos e pelo italiano Blu, ganharam visibilidade mundial através de fotos partilhadas na internet e entraram para o top 10 do The Guardian, entre os melhores trabalhos de street art do mundo.

 

Desde então, a arte urbana vem conquistando os lisboetas e não só. Prova disso, é o surgimento de empresas e serviços que organizam visitas guiadas às várias obras da capital. Aí, é possível ver trabalhos pintados em zonas menos turísticas e também conhecer um pouco da história do artista e da própria obra.

 

300 quilómetros mais acima, o Porto vive um período fértil neste campo. Após anos mais complicados, em que a câmara tanto apagava trabalhos de artistas de renome, como rabiscos sem valor, a cidade decidiu, agora, abraçar esta manifestação artística e facilitar o processo para quem queira expressar-se numa parede. O primeiro mural legal de arte urbana, junto à estação de metro da Trindade, pintado no ano passado pelos artistas Hazul e MrDheo, marca esta nova fase.

 

Depois disso, outras ações têm acontecido. Desde o primeiro festival de arte urbana e ilustração da cidade, o Push Porto, até ao mais recente projeto Locomotiva, que apoiou várias intervenções de arte urbana, entre elas o maior painel comunitário de azulejos da cidade – ideia do artista Miguel Januário, criador do maismenos.

 

São 3.300 azulejos, pintados por portuenses e turistas, de várias idades e quadrantes sociais, que foram afixados num edifício na Rua da Madeira, junto à estação de São Bento. O projeto foi o culminar de um trabalho de meses e tenta responder à pergunta “Quem és, Porto?”. E se os turistas interessam-se cada vez mais pelas histórias que contam as nossas paredes, também nós podemos encontrar respostas sobre a nossa identidade urbana nestas mesmas paredes. Basta olhar com cuidado e parar para pensar.

 

Alice Barcellos é jornalista de profissão e poeta de coração. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, mas trocou a cidade Maravilhosa pela cidade Invicta há 15 anos. Adora contar estórias, quer seja em texto, fotografia ou vídeo. Quando não está a trabalhar no SAPO (e em outros projetos que vai participando), gosta de ter a cabeça voltada para o mar e para os livros, para os seus gatos e cadela ou deitar conversa fora com amigos.

publicado às 10:17

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