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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O espetáculo do medo. Mas continuamos a ter o comando para mudar de canal

Por: Francisco Sena Santos

 

Vivemos um tempo em que as tragédias nos chegam transformadas pelos media em espetáculo. Tivemos na última semana exemplos de sobra dessa exploração mediática da dor e da morte. Tanto com um desastre rodoviário numa estrada de França como com os atentados em Bruxelas.

 

 

Foquemo-nos nos atentados na capital europeia: sabemos que os terroristas contam com a ação dos media para amplificar a sua agressiva mensagem de terror e gerar a onda de medo. Os terroristas servem-se da lógica dos media, conhecem-lhes a gramática, exploram os mecanismos psicológicos. Questão: como pode o jornalismo tratar a informação sobre os ataques terroristas sem ao mesmo tempo servir a propaganda pretendida pela perversa agenda dos agressores?

 

Há alguns exemplos de práticas que são bons casos de estudo. Não estão vistas, não foram exibidas, imagens de corpos devastados no 11 de Setembro em Nova Iorque. Que imagens temos desse dia? Vimos um dos aviões a aproximar-se e a chocar com uma das twin towers. Vimos as explosões - e não podemos alguma vez esquecer essas imagens. Tal como as do aterrador desmoronamento das torres. Mas quase não vimos pessoas, os corpos não foram visíveis, o seu sofrimento não foi exposto. Há imagens de pessoas, homens e mulheres que, para escapar ao inferno das chamas, se atiraram sobre o vazio a partir de andares altos das torres. Mas nunca nos foram mostrados grandes planos dessas pessoas que saltaram para outro modo de morrer. Não as vimos de perto, não lhes vimos o rosto em sofrimento. Percepcionamos esse tremendo sofrimento, mas somente na nossa imaginação. Ele não nos foi mostrado. Não era preciso exibir em grande plano essa atrocidade a que cada pessoa foi submetida. É sabido que esta ausência de corpos das vítimas do 11 de Setembro alimentou polémicas, sobretudo a especulação de que os americanos ocultaram as imagens dos corpos porque quiseram evitar mostrar que deixavam de ser intocáveis. Mas é facto que as imagens (e a sua incessante redifusão) de corpos destroçados nada acrescentariam à compreensão do que estava em causa.


A guerra iniciada nesse 11 de Setembro de 2001 está repleta de momentos de tremenda atrocidade. Também houve pudor com as imagens do 11 de março de 2004 em Madrid. Ou com a decapitação, em 2014, do jornalista James Foley: então, os media de referência recusaram-se a exibir o chocante vídeo da execução realizado pelo autoproclamado estado islâmico. Aquele vídeo era a apresentação de um troféu como propaganda dos assassinos. Foi bem evitar a difusão do espectáculo do terror.


É facto que há imagens de violência que têm a virtude de serem reveladoras. São por isso necessárias. Os vídeos do espancamento de Rodney King, em 1991, por agentes da polícia de Los Angeles, ou o do assassinato de Walter Scott, em 2015, por um polícia de North Charleston, serviram para documentar a brutalidade de algumas práticas por polícias nos EUA.


Há muitos horrores que só realizamos terem acontecido por termos visto a prova em imagens. My Lai ou Abu Ghraib são exemplos clássicos. Mas não precisávamos de ver as imagens de corpos de turistas massacrados por terroristas na praia de Sousse, na Tunísia, no ano passado, para entendermos a monstruosidade daquela matança. Tal como outras praticadas pelas internacionais terroristas.
Sabemos que propaganda é informação que transmite de modo poderoso uma mensagem. Os terroristas que atacaram em Paris, em Istambul, em Ancara ou em Bruxelas contam com o efeito de ampliação da bomba mediática que aqueles lugares produzem e que não é atingida numa matança em Bamako ou em Lahore. O kamikaze que se fez explodir este domingo de Páscoa num parque frequentado por famílias na principal cidade do Punjab paquistanês levou pelo menos 72 vidas (entre estas, 30 crianças) e feriu 340 - "vil atentado", definiu o Papa. A dimensão do massacre é muito maior que a dos ataques em Bruxelas mas o tratamento mediático é quase passageiro. Em contraste com a exploração non stop no habitual loop catódico dos ataques em Bruxelas.

 

Obviamente, há o efeito de proximidade. Bruxelas é uma nossa referência cultural, é a capital do que queremos que continue a ser a nossa Europa. Está lá uma parte substancial do comando administrativo da nossa vida. Estão lá dezenas de milhar de compatriotas. Morreram nos atentados de 22 de março 30 pessoas e ficaram feridas 300. É terrível, sim. Mas a cobertura exaustiva, muitas vezes tão especulativa quanto pouco profunda, tende a acabar por servir a instrumentalização desejada pelo inimigo que ataca. O apocalipse relatado, se levado ao extremo, tenderia a levar os cidadãos europeus a barricarem-se em casa e a só saírem à rua dentro de um blindado. Esta espécie de convergência entre  terroristas e sistema mediático gera uma onda de medo. O poder simbólico e emotivo dos atentados contra populações civis, relatados em emissões em contínuo e dramatizadas por um sistema mediático que sabe que o terror vende, torna-se cada vez mais gerador de ânsias e medos coletivos. Este espectáculo do medo é uma armadilha. Ainda que a nossa vida de todos os dias siga igual, embora, talvez, com acrescido sentimento de insegurança.

 

A estatística europeia apurou que ao longo do ano 2014, no conjunto dos 28 países da EU, morreram 25.896 pessoas em acidentes na estrada. A comparação com os efeitos, também devastadores, dos atentados terroristas, não pode deixar de nos fazer parar para pensar. Estamos numa guerra e até por isso não dá para que se instale o espetáculo do medo.

 

 


TAMBÉM A TER EM CONTA:
 


O Nobel turco Orham Pamuk constata no El País: “a crise migratória está a comer os valores da Europa”. É uma entrevista para ler aqui.


A reconquista de Palmira revela que a jóia arqueológica no deserto sírio não estará tão irremediavelmente devastada quanto se temia. A cidade antiga, apesar de profanada, sobrevive à barbárie.


Mick Jagger levou a Cuba a voz que canta the times are changing. Mas também mudam nos EUA: os êxitos de Bernie Sanders mostram como a política dos Estados Unidos tem novas regras. O senador progressista continua a seduzir eleitores e a encravar a prevista marcha triunfal de Hillary Clinton. Entre os republicanos, algumas elites moderadas estão a constatar que perdem o partido para Donald Trump. Vale lembrar que o democrata Michael Dukakis, no início do verão de 88, tinha 10 pontos percentuais de avanço sobre George Bush mas, em novembro, o republicano foi quem venceu. Pode estar no horizonte um regresso ao passado?

 

A pessoa que dá corpo à personagem do vilão Frank Underwood: Kevin Spacey, o ator que abre portas a jovens talentos.

 

A primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS. Luaty Beirão condenado a cinco anos e seis meses de prisão e outros 16 activistas enfrentam penas de dois a oito anos. "Só um regime covarde enjaula assim", comenta no Expresso o diretor, Pedro Santos Guerreiro. Em Angola, é mostrado assim. E assim.

publicado às 08:16

Bruxelas: todos os problemas da Europa concentrados numa cidade

Por: José Couto Nogueira 

 

Hoje, bombas em Bruxelas. Ontem, um terrorista apanhado e vários mortos num bairro babélico de Molenbeek. Anteontem, a polícia armada até aos dentes a entrar pela casa de famílias ilegais, marginalizadas e desempregadas. Todos os dias, circulam as limousines topo de gama dos burocratas mais bem pagos do mundo. Há dois anos, a Bélgica esteve sem governo durante dezoito meses. No norte do país fala-se uma língua medieval, no sul comunica-se em francês. É assim a Bélgica, um país refém de contrastes insolúveis e contradições aterradoras. Desde 1830.

 

 

As autoridades belgas são ajudadas pelos serviços franceses, mas mesmo assim tem uma dura tarefa nas mãos. Bruxelas, sendo sede da NATO e dos órgãos de topo da UE, o Conselho da Europa e a Comissão Europeia, tem exigências de segurança acrescidas. Bruxelas abriga deputados e funcionários de topo à distancia de um tiro de bazuca de magrebinos revoltados e muçulmanos excluídos. Para não falar nos seus próprios problemas étnicos, uma vez que os flamengos se recusam a falar francês, mesmo com estrangeiros, e os valões não se querem misturar com ninguém, nem flamengos, nem estrangeiros.

 

A polícia não tem uma reputação cristalina; entre 2008 e 2014 houve vários escândalos sexuais, de pedofilia em escolas católicas a uma orgia numa esquadra de policia, sem que as autoridades conseguissem investigar a tempo inúmeras denúncias. O corpo de segurança das zonas da Flandres não se comunica com o da Valónia e Bruxelas é um enclave francófono na zona flamenga. Depois há as antipatias fronteiriças entre franceses e belgas.

 

Bruxelas foi escolhida para sede dos órgãos principais da UE segundo aquele princípio que tem norteado as decisões da União: dar importância aos insignificantes, facilmente manipuláveis, porque nenhum dos poderosos quer ficar sob a alçada de outro poderoso. Bruxelas, Estrasburgo (a outra sede do Parlamento Europeu) Durão Barroso, Van Rompuy e Jean Claude Juncker, são bons exemplos destas escolhas do menor denominador comum.

 

Aliás, a própria existência da Bélgica é uma espécie de equívoco criado pelas conveniências dos grandes. Até 1830, fazia parte da Holanda, juntamente com o Liechenstein. Nesse ano, uma revolta separou a Flandres e a Valónia, que formaram um país dividido linguística e etnicamente, sob a batuta de um rei alemão inventado para manter a coesão, Leopoldo I. (É interessante que anteriormente Leopoldo tinha recusado a coroa grega, por achar o país demasiado instável.) Os grandes poderes europeus consideraram que era uma boa ideia um estado-tampão entre a França e a Alemanha, como garante de que não se guerreariam. Claro que, quando a Alemanha decidiu invadir a França, em 1914 e 1939, passou por cima da Bélgica sem grandes problemas.

 

Na Conferência de Berlim, em 1885, ao fazer-se a divisão da África entre os europeus (Portugal incluído) aquele espaço inexplorado ao norte de Angola, que ninguém parecia querer, foi dado de presente a Leopoldo II – não à Bélgica, mas ao rei, como propriedade pessoal. No início do século XX a opinião pública mundial ficou chocada com as atrocidades que os belgas cometiam no Congo, inclusive amputações de trabalhadores considerados preguiçosos. Calcula-se que tenham morrido dez milhões de nativos em condições inenarráveis. A reputação de Leopoldo II, que até fez reformas trabalhistas inovadoras na Bélgica, nunca se recompôs dessa barbaridade.

 

O que lá vai, lá vai. Os problemas agora são outros. Os valões e os flamengos continuam a não se entender, mas pelo menos já conseguiram formar governo. Dos hábitos pedófilos, que provavelmente são iguais em toda a parte mas ficaram como uma espécie de estigma para os belgas, não se tem falado. Em compensação Bruxelas continua a ser um problema maior do que o país – são todos os problemas da Europa concentrados numa cidade.

 

Por um lado, é o centro nevrálgico da União Europeia e da NATO, o que a torna uma cidade caríssima e com permanente falta de alojamento; por outro lado tem uma população muçulmana que quer mais é que a Europa que a rejeita desapareça do mapa. As autoridades belgas, tão mal vistas internacionalmente, fazem o que podem para resolver problemas que, nitidamente, as transcendem. Por outro lado, não querem que a ajuda dos serviços de segurança estrangeiros os subalternizem na sua própria terra. Mas alguém tem de proteger os generais da NATO e os comissários da Europa. E é preciso urgentemente limitar os imigrantes e arranjar-lhes uma ocupação – em Molenbeek, o desemprego atinge os 50%. Salah Abdeslam, o homem mais procurado da Europa, escondeu-se mais de um mês em Moleenbeck, o bairro onde nasceu e cresceu, sem que a polícia desse com ele. E um dos que o acompanhava até conseguiu fugir. Outros, insuspeitos, colocaram agora as bombas de retaliação. Bem perto da classe superior que discute interminavelmente o que fazer com os refugiados sírios e os marginais de Moleenbeck.

 

O que está a acontecer por estes dias em Bruxelas é uma metáfora do estado a que a Europa chegou.

 

 

publicado às 13:17

Saint Denis

Por: Márcio Alves Candoso

 

"Na catedral dos franceses, ouço as balas repicar. Não se coroa Jeanne D'Arc. Prende-se quem me quer matar".

 

Há oito anos e alguns meses - era princípio de Verão - estive em Paris, por razões profissionais. Já o fizera várias vezes, e pelo menos duas mais, antes e depois, como turista.

 

Se lembro agora essa viagem é porque foi nessa altura que visitei a Catedral de Saint-Denis, nos arredores de Paris. Essa mesmo onde, reza a história bem ou mal contada, Joana D'Arc foi nomeada paladina de uma parte de França, na Guerra dos Cem Anos.

 

Num dia qualquer que não recordo - mas não será difícil situá-lo, já que ao mesmo tempo se disputavam as meias-finais de Rolland Garros, a alguns quilómetros de distância - fui convidado a assistir a um concerto que se realizava na referida catedral.

 

O maestro era Claudio Abbado, dirigindo a Orchestre National de France. O programa era uma chatice qualquer que não recordo, e a sonorização era um engodo terrível, feita de propósito para passar em directo na televisão, estragando todo o efeito que se espera obter quando se está numa catedral daquelas dimensões e época arquitectónica. Parecia que estava no Centro Cultural de Belém...

 

Às tantas saí. Não se sai a meio de um concerto gravado para a televisão. Mas eu não fico onde não gosto de ficar, onde sinto que estou a ser enganado e a ser usado como cenário. Um padre da Opus Dei deu-me uma reprimenda. Arrependeu-se logo de seguida, e esteve à beira de cumprir uma mortificação não ritual e infligida. Iconoclastias minhas...

 

Cá fora - não sei se conhecem - há um grande largo. A toda a volta de um dos símbolos de França, onde estão sepultados reis de mais de um milénio de história, onde as rainhas eram coroadas, numa devoção só interrompida durante a parte selvática da Revolução, estamos em território estrangeiro. Na praça de dimensões olímpicas, fazem-se os 'zidanes' e 'benzemas' do futuro, atrás de uma bola de couro velho.

 

A toda a volta, o kebab, as tajines e o couscous convivem com a Coca-Cola e a Kronenbourg, o cheiro a canela distingue-se e conjuga-se com o açafrão. Uma mulher de véu está parada ao lado de um homem que desfia o rosário que não é rosário, é misbaha, tão perto de mim na invocação de Deus.

 

Sentei-me sozinho na esplanada. Na Tunísia, uma década antes, senti-me mais à vontade. Mais em casa. Ali, o ambiente era hostil, até na cara do patrão da casa. Apeteceu-me voltar para dentro da grande abadia de França. Fui, meia refeição comida, procurar abrigo junto do brasileiro que conduzia o 'mini-bus' que nos tinha trazido, a mim e a mais alguns convidados, desde o hotel de 'charme' do Faubourg de Saint-Honoré até àquele lugar fora de portas.

 

Não me apetecia esperar, e pensei regressar mais cedo à noite de Paris daquele fim-de-semana festivo. Havia qualquer coisa na Pigalle e no Trocadero que eu não queria perder. Perguntei se havia metropolitano para o centro. Haver havia, mas não era aconselhável. De fato e gravata, botões de punho de ouro e lapis-lazuli, sozinho, branquela como vim ao mundo... 'É melhor não, 'monsieur''!

 

Fiquei-me pelo brasileiro, que falava que nem um brasileiro. Recentemente solteiro, lembro-me que se queixava que em Paris não havia uma única casa de passe de jeito... Pensei para comigo: quem precisa disso quando se vive em pleno território da liberdade?

 

Quando acordei do bom sono de terça-feira, Saint Denis apareceu-me no écrã, sem Stade de France que lá fica na memória destes dias. E não havia Claudio Abbado nem bolas de couro velho, e não cheirava a açafrão ou canela. Havia polícias e bombas suicidas. Não me admirei nem um segundo. Lembrei-me apenas que devo ter feito bem em não ter apanhado o metro, nem sequer aquele último de Truffaut, teatro de vida da resistência francesa à ocupação, a outra, a da II Guerra.

 

Junto à Pigalle, ao sul da catedral e a oeste de La République, onde tudo se passou na sexta-feira passada, lembro o Montmartre de Deneuve no filme, quando teve de continuar a ensaiar a peça que o marido judeu deixou a meio, fugindo para a cave do edifício, fugindo da morte certa, fazendo uma pausa na vida. Tem pouco a ver com o tempo que é a nossa nova trova que passa? Tem de ter, creio!

 

Et toi, Jeanne d'Arc, qu'est-ce que tu en penses?

 

Créditos da fotografia: 

Saint-Denis - Basilique - Extérieur façade ouest" by Ordifana75 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons

publicado às 08:28

Paris: Os maus da fita

Por: José Couto Nogueira

 

Desde Janeiro, quando dois ataques da Al-Qaïda incluiram a redacção da revista Charlie Hebdo, que os parisienses não passavam por tão grande pânico – aliás, maior, uma vez que desta vez ocorreram sete ataques simultâneos e morreu mais de uma centena de pessoas.

 

 

Ainda os mortos e feridos não tinham sido identificados, já François Hollande aparecia na televisão a anunciar “medidas implacáveis”, a começar pelo imprescindível e inútil fechamento das fronteiras. Imprescindível porque a primeira coisa que se faz depois dum assalto é trancar as portas, inútil porque hoje em dia o terrorismo é sobretudo perpetuado por muçulmanos nascidos na Europa. É que, entretanto, numa mudança que parte da opinião pública europeia não conseguiu ou não quer compreender, o terror mudou de protagonistas e de modus operandi.

 

Quanto aos protagonistas: a Al-Qaïda, que era o enfant terrible desde o atentado do 11/Set/2001 em Nova Iorque, é um grupo de amadores, quando comparados com a nova entidade surgida do quinto dos infernos, o auto-intitulado Estado Islâmico, também conhecido como ISIS (Islamic State of Iraq and the Levant) ou Daesh (em árabe). A Al-Qaïda era (e ainda é) uma organização sem território (pode estar em toda a parte) dedicada a atacar os Estados Unidos e seus aliados, acreditando estar no começo de uma longa luta contra o Grande Demónio, sem fim à vista.

 

O ISIS é uma religião salafita baseada em predições da mitologia muçulmana, segundo a qual o fim dos tempos está para breve e colocará frente a frente os “cruzados de Roma” contra os exércitos do Califado, um estado territorial em expansão permanente, a começar por uma área da Síria e do Iraque, com capital na cidade sagrada de Raqqa. Até chegar essa batalha final, os principais inimigos – e aqueles que têm sido massacrados sem dó nem piedade – são os outros muçulmanos, os shiitas, considerados apóstatas e muito mais culpados do que os cristãos, ou outras religiões.

A guerra contra os ocidentais, provocada mais porque os ocidentais resolveram que tal aberração não pode subsistir, é apenas uma faceta do domínio do mundo e da extinção das centenas de milhões de apóstatas shiitas. Estranhamente, o ISIS tem recrutado milhares de jovens entre os muçulmanos europeus de segunda geração (isto é, nascidos na Europa) e católicos arrependidos. Quer dizer, a grande movimentação de pessoas dispostas a lutar nesta “guerra santa” têm sido para entrar no Califado, e não para sair do Califado para a Europa. Isto significa que as polícias europeias têm prendido sobretudo jovens que querem fugir para o Iraque, e não que vêm do Iraque para a Europa.

 

Isto só para esclarecer – e é muito importante que se esclareça – que os milhões de sírios e que estão a fugir por terra e a nado para a Europa não vêm fazer terrorismo; estão precisamente a fugir dos massacres do ISIS, das forças do ditador sírio Bashar Al Assad, dos kurdos, e dos vários grupos de insurgentes que transformaram as cidades sírias em montes de entulho. Os terroristas do ISIS ou já nasceram na Europa, ou vêm de avião com bilhete pago e passaporte.

Agora, quanto ao modo de operar: a Al-Qaïda ataca alvos militares, ou inimigos específicos, como o Charlie Hebdo. O ISIS, agora em Paris, atacou alvos civis, indiscriminadamente escolhidos – inclusive em bairros classe-média baixa, onde vivem imigrantes. A ideia é semear o terror, fazer com que qualquer pessoa se sinta a perigo, mesmo que não tenha qualquer actividade a não ser viver o seu dia-a-dia pacatamente. Tanto faz se são americanos ou vietnamitas, ricos ou pobres, novos ou velhos; não são os fieis, não seguem os preceitos específicos das escrituras e ainda se atreveram a bombardear as terras sagradas do Califado.

Daí que este ataque de Paris, o primeiro organizado pelo Califado no estrangeiro, represente uma mudança radical, e para pior, do terror terrorista. Utiliza pessoas de nacionalidade europeia, recrutadas, por exemplo, entre os dez milhões de muçulmanos (e muitos não muçulmanos) que nasceram em França ou os muitos milhões que nasceram na Bélgica, na Holanda e na Grã Bretanha – jovens sem desígnio na vida e sem futuro para lá do salário mínimo, a quem a doutrinação dá um sentido à vida e permite ventilar as frustrações de uma sociedade de abundância que que só lhes dá miséria e exclusão.

 

É verdade, Paris ardeu na sexta-feira passada. Já Madrid tinha ardido em Atocha em 2004, e Londres em 2005 – nesses, ainda era a Al-Qaëda, mas já com os métodos do ISIS. Maiores deflagrações já estão prometidas para outras cidades europeias e americanas. Outras operações – dezenas, segundo os relatórios – têm sido evitadas pelas forças de segurança.

A Europa tem uma difícil tarefa pela frente; precisa manter as liberdades individuais que levaram séculos a conquistar e são a essência da vida ocidental; não pode descriminar os muçulmanos que fogem aos milhões do inferno sírio; e tem de descobrir uma maneira de eliminar o Califado sem se meter na tal batalha final na planície de Raqqa.

Paris não pode arder mais.

 

publicado às 10:17

E agora?

Por: Francisco Sena Santos

 

Tivemos a confirmação de que agora os terroristas matam também em Paris tal como fazem em Bagdad ou em Beirute. Já tinham atacado em Londres e em Copenhaga, como em Ankara ou em Tunes.

 

 

Os jihadistas que executaram, com máxima crueldade, demoradamente, a sangue frio, a carnificina no Bataclan e em outros cinco lugares na noite de barbárie em Paris, gritavam Allahu Akbar, literalmente Deus é Grande em árabe. São guerreiros kamikaze pela expansão de um califado que invoca abusivamente uma religião que nada tem de terrorista. Estes fanáticos que manipulam a religião como ideologia querem fazer vergar e submeter o mundo tolerante que é o nosso e que eles consideram de pecaminosos infiéis.

A motivação destes matadores é certamente a mesma dos que na véspera, em dois atentados, tinha causado a morte de 41 pessoas e ferimentos em mais de 200, em Beirute.

Também a dos assassinos que há dois sábados fizeram abater no Sinai egípcio um Airbus russo com 224 pessoas a bordo.

Ou a dos bombistas que há cinco sábados mataram 99 pessoas frente à gare ferroviária de Ankara.

É o mesmo terrorismo que em 26 de junho matou 38 turistas na praia de Sousse e que em 18 de março também levou 24 vidas no museu do Bardo em Tunes, estes dois ataques na Tunísia.

 

Estes são apenas alguns dos infames atentados que marcam este ano que começou com o ataque em 7 de janeiro ao Charlie-Hebdo. Aqui, o alvo eram os valores da França: a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Alvo específico: a liberdade de expressão, a liberdade de denunciar pelo riso quem cultiva a intolerância. Já tinha sido um ato de guerra que nos fez a quase todos proclamarmos que também somos Charlie.

 

Agora, a frente de guerra amplia o seu alvo: todos passamos a estar na linha de mira desta barbárie. Os massacrados nesta noite de novembro em Paris são sobretudo rapazes e raparigas, jovens que tinham procurado o prazer de uma noite a ouvir música numa célebre sala de espetáculos de Paris, são os também jovens que petiscavam na esplanada de uma pizaria e os não tão jovens clientes de um restaurante asiático na zona da République, uma praça parisiense muito associada a manifestações pela liberdade. Eles tinham saído na noite que parecia amena desta sexta-feira para viver, beber e cantar. De facto, não imaginavam que lhes tinham declarado guerra.

Os passageiros do avião russo abatido há duas semanas no Sinai eram, a maioria, cidadãos russos de São Petersburgo que tinham ido em férias em Charm Al-Cheikh, praia no mar Vermelho.

 

Há um ponto comum a estas duas matanças nas últimas duas semanas: tanto a França como a Rússia iniciaram no final de setembro raids de bombardeamento sobre abrigos e campos de treino, na Síria, dos terroristas que pretendem devastar o Ocidente. Estamos em guerra e o campo de batalha não é apenas nos terrenos do Médio Oriente onde, com fatal precipitação, as potências ocidentais patrocinaram os ditadores em funções. Obviamente, eles mereciam ser combatidos, mas era preciso assegurar que a alternativa não seria uma terra de outros gangues ainda mais nocivos.

Este jihadismo do auto-proclamado califado islâmico está a ocupar esse espaço e tem sabido catequisar e converter jovens europeus para a sua guerra santa contra o Satã ocidental. Ou seja, o inimigo nem precisou de cavalos de Tróia para se infiltrar dentro da Europa. O inimigo nesta guerra também já está dentro da Europa, com passaporte europeu. Quantos serão os jihadistas nascidos, crescidos e residentes em França, à espera de serem ativados para o combate e prontos para o sacrifício em nome do que consideram ser a vontade de um deus? Muitos deles são jovens de segundas e terceiras gerações, descendentes de imigrantes chegados no século passado de África e do Médio Oriente. Tornaram-se combatentes ao serviço da causa terrorista e estão dentro da casa europeia.

 

E agora? Esta é a pergunta que costumava colocar Paulo Cunha e Silva ao juntar gente de múltiplas origens e saberes a quem desafiava para construir pontes que fizessem avançar soluções. Os líderes das maiores potências mundiais reúnem-se em cimeira G-20 este domingo em Antalya, na Turquia, com uma agenda que vai da economia ao clima, mas passando muito pela crise dos refugiados (tantos, tantos em espera de desesperar, da Turquia aos Balcãs, passando pelas ilhas gregas) e a guerra contra o terrorismo. Vão ter de pensar nas duas frentes desta guerra: a que está na Síria e no Iraque e a que está a avançar na Europa. Sendo que, frente ao ódio, importa que triunfe a liberdade, o que implica unidade, clareza e democracia. Os valores da França, liberdade, igualdade e fraternidade são a referência. Os ataques em Paris são ataques à liberdade, ao nosso modo de vida, são ataques a todos nós. Têm por alvo a alma da nossa sociedade.  Apetece clamar Je Suis Français e colocarmo-nos mobilizados ao lado dos cidadãos de um país que nos habituámos a sentir terra de asilo.

publicado às 09:54

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