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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Uma sexta-feira como outra qualquer

Por: Rute Sousa Vasco

 

 “Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra.”

 

A notícia foi divulgada há exactamente uma semana. O astronauta Thomas Pesquet vai transportar para o espaço, no próximo ano, o texto do eventual acordo sobre as alterações climáticas que saia da cimeira de Paris, em dezembro. Agora é preciso é que haja acordo, porque esse ainda não é certo. Mas, se os líderes dos principais países poluidores conseguirem entender-se e comprometer-se, o presidente francês, Francois Hollande, entregará a Thomas Pesquet a prova do compromisso que ele levará consigo rumo à Estação Espacial Internacional, em novembro de 2016. “O ambiente é algo que sempre esteve próximo do meu coração. Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra”, realçou o francês, de 37 anos.

 

Fez também ontem uma semana que o Argentina-Brasil, da terceira jornada da qualificação sul-americana para o Mundial de Futebol de 2018, foi adiado para o dia seguinte. Choveu forte e feio em Buenos Aires e não houve outra hipótese que não cancelar o jogo.

 

Bem longe dali, e 24 horas depois, o partido de Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento da Birmânia. Foi um dia histórico! Apesar de um quarto dos assentos estar reservado aos militares, o partido da Nobel da Paz ultrapassou a barreira que lhe permite eleger o Presidente e formar governo. Foram as primeiras eleições livres na Birmânia em mais de 25 anos.

 

Isto aconteceu a 13 de novembro de 2015, um dia em que, aliás, aconteceu muita coisa. A Universidade de Coimbra, por exemplo, anunciou neste dia que conta atualmente com 3.769 estudantes de mais de 80 nacionalidades em regime de mobilidade e através do estatuto de estudante internacional. Também na mesma data, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve foi selecionado para um projeto europeu que pretende promover o aumento da aquacultura até 2020. E o Campo Arqueológico de Mértola, no Alentejo, recebeu o prémio deste ano das Academias Pontifícias do Vaticano, dedicado aos primeiros séculos do Cristianismo, pelas campanhas arqueológicas dos últimos anos e pelos "extraordinários resultados obtidos".

 

No dia a seguir, 14 de novembro de 2015, soubémos que o arquiteto Eduardo Souto de Moura criou um projeto para construir um auditório junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que, a ser aprovado, deverá tornar-se a grande obra do prémio Pritzker na capital do país. Que boa notícia para Lisboa.

 

E soubemos também que um conjunto de marcas de mobiliário, iluminação e decoração portuguesas se juntou para criar uma forma inovadora de promover os seus produtos no mercado britânico. Alugou um apartamento residencial que transformou em espaço de exposição em Londres, o Covet London. Aí estão marcas como as do grupo Menina Design, Boca do Lobo, DelightFULL, BRABBU, Koket, Maison Valentina e Luxxu. Que boa ideia...

 

Em Évora, arrancou um projeto-piloto, o Programa “Mais”, com o objectivo de promover o emprego partilhado de técnicos entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o recrutamento de profissionais desempregados para estas entidades. A iniciativa é da UNITATE – Associação de Desenvolvimento da Economia Social, uma IPSS sediada em Vila Viçosa (Évora), mas de cariz nacional, e dirige-se, nesta fase inicial, às 80 associadas da União Distrital das IPSS de Évora.

 

Quem passou por Lisboa foi Laurie Anderson que veio ao Lisbon & Estoril Film Festival estrear o seu último filme, Heart of a dog. Um filme sobre "liberdade e medo", num mundo criado por palavras. "Pediram-me para fazer um filme sobre a minha filosofia de vida. Disse logo que eu não a tenho e se tivesse não a punha num filme para toda a gente ver. Mas acabei por fazer uma coleção de histórias e, no final, é a minha filosofia de vida. Traiu-me.", contou. Ao longo de pouco mais de uma hora, Heart of a dog gira em torno de Lollabela, a cadela de Laurie Anderson.

 

O tenista português João Sousa subiu esta semana ao 33.º lugar do 'ranking' mundial de ténis, a melhor posição de sempre de um tenista português. E está confidante que "a época de 2016 vai ser ainda melhor".

 

No dia 16 de novembro, começaram os "Dias do Desassossego", uma iniciativa promovida, em Lisboa, pela Casa Fernando Pessoa e pela Fundação José Saramago para celebrar o livro e a leitura, com música, cinema e debates.

 

Mais coisas que aconteceram esta semana. Os 2.500 bilhetes que o Benfica tinha disponíveis para o jogo de sábado com o Sporting para a da Taça de Portugal esgotaram poucas horas depois de terem sido colocados à venda. No próximo dia 21, dez dos melhores pianistas nacionais e internacionais vão estar juntos em palco num concerto no centro cultural de Viana do Castelo, a maior sala de espetáculos do Alto Minho. E a revista médica The Lancet HIV revelou que um medicamento utilizado para tratar o alcoolismo associado a outras substâncias poderá contribuir para eliminar o vírus da sida em seropositivos (uma notícia conhecida no mesmo dia em que o ator Charlie Sheen contou no programa de televisão Today que é portador do vírus da sida).

 

Somos capazes de não ter reparado em várias destas notícias. Estas são as notícias da nossa normalidade.

 

Do direito que conquistámos – porque não foi sempre nosso e não é ainda um direito de todos – de usufruir simplesmente da normalidade. De sair de casa para ir trabalhar, trocar dois dedos de conversa no café da esquina, meter óculos escuros porque faz este fantástico sol de novembro e encontrar um lugar no metro onde possamos ler durante alguns minutos o livro que nos acompanha. Trabalhar, pensar em fazer coisas novas, combinar ‘comes e bebes’ com amigos, ir ao cinema ou simplesmente passear pela cidade.

Tudo isto sem termos de pensar duas vezes.

Isto é ser feliz sem saber.

Isto é aquilo de que não podemos abrir mão. Isto é aquilo que temos de reivindicar para quem não tem ainda. Apesar do medo. Apesar do horror. Apesar.

Todos os dias têm de ser uma sexta feira como outra qualquer. Em Lisboa, em Paris, em Beirute, em Lagos ou em Damasco.

 

Outras coisas sobre o direito à normalidade.

 

Normalidade é também igualdade. A igualdade dos géneros, nomeadamente no que respeita a salário igual para trabalho igual, ainda está longe e é preciso acelerar bastante o passo.

 

O que não é normal é que já se tenham passado 20 anos desde que este filme estreou. O Toy Story já tem 20 anos. O miúdo já está mesmo na faculdade. Mas que bom continua a ser sentarmo-nos no sofá e rever o filme.

publicado às 10:42

Guerra em tempo de paz

Por: Pedro Rolo Duarte

 

 Ontem à noite, enquanto na televisão se mostravam as imagens dos tiroteios em Saint-Denis, e se descrevia a meticulosidade com que os militares franceses foram directos à casa de quem sabiam que tinha qualquer coisa a ver com os ataques de sexta-feira passada (não foi por acaso, certamente, que uma mulher se fez explodir no apartamento cercado…), na tasca onde via aquele Telejornal havia uma voz que se levantava em revolta e dizia:

- Não percebo isto! Os gajos sabem onde estão os terroristas, mas em vez de lá irem antes, vão só depois dos atentados matarem umas dezenas…

 

O desabafo originou discussão - e como de costume, em todos nós há, além de um treinador da selecção nacional de futebol, um primeiro-ministro e um chefe de polícia. Neste caso foi o chefe de policia que veio ao de cima e deu para um debate onde, no limite, as autoridades prendiam todos os muçulmanos que encontrassem na rua - e depois iam-nos libertando à medida que provassem serem inocentes. Tudo ao contrário do que o nosso estado de Direito manda. Enfim, conversa de tasca…

 

Mas, mais a sério, vale a pena reflectir sobre as estratégias que têm sido aplicadas no combate - muitas vezes, tardia e infelizmente, já só na resposta… - a um novo patamar do terrorismo radical islâmico. É que este novo degrau na escalada do terror distingue-se pelo seu lado aleatório, pelo medo imposto pela incerteza, e por uma (provavelmente organizada) desorganização. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui a dez minutos - e é com essa venda nos nossos olhos que os terroristas contam. Eles querem-nos vencer pelo medo e pela insegurança. E numa primeira fase estão a conseguir - nem que seja por esta reacção de rua que pede sangue antes, ou em vez, de pedir justiça.

 

Todos sabemos que por cada ataque terrorista bem sucedido há muitos outros que as autoridades conseguem fazer abortar. Nessa medida, pôr em causa o trabalho dos serviços secretos e das forças de segurança, seja qual for o país ou a organização, pode ser tentador, mas não faz sentido. Mas talvez seja razoável seguir os passos firmes de François Hollande e aceitar que efectivamente “estamos em guerra”, e que as regras da guerra são bem diferentes daqueles que dominam a vida em paz democrática, mesmo sob ameaças potenciais. Estar em guerra não é matar a torto e a direito - mas é defender territórios, criar linhas de defesa, atacar com precisão. É responder ao medo sem medo. No limite, até sem medo de errar.

 

Politicamente incorrecto me confesso - mas é humanamente impossível, a quem assistiu aos últimos 14 anos da vida no Ocidente, pensar de outra forma. Se é para vencer, às vezes vamos enganar-nos. Tomemos isso como parte integrante desta guerra. Quer queiramos, quer não, ainda há um lado certo da vida. E é este.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA…

 

Esta semana concretizou-se a passagem de testemunho da “Time Out Lisboa” para a casa-mãe inglesa, que até agora só controlava as edições de Londres e Nova Iorque. A mudança não se deve ao fracasso - pelo contrário, deve-se ao sucesso da edição portuguesa da revista e do excelente “negócio” do Mercado da Ribeira, agora rebaptizado “Time Out Market”. É um bom exemplo de um projecto que foi muito além das expectativas iniciais. E traz mais boas noticias: vem aí a Time Out digital…

 

Estamos em plena Semana Global do Empreendedorismo (começou a 16, vai até 22 de Novembro), considerada a “maior celebração do mundo orientada para as pessoas que inovam e geram emprego e dessa forma impulsionam o crescimento económico e aumentam o bem-estar humano”. A coisa envolve 10 milhões de seres humanos em 157 países do mundo. Alinhando nesse movimento gigante, sugiro que passem pelo site Empreendedor.com, onde podem, de forma simples e muito intuitiva, entrar e conhecer este mundo de novas ideias e projectos.

 

A moda/tendência das newsletter que nos escolhem boa informação, a comentam e analisam, não pára de crescer. Mão amiga passou-me este link, que assinei gratuitamente e tenho seguido diariamente. É assinado por Dave Pell, um jornalista que passa parte do dia a escolher, pensar e analisar para nós - e por nós… - notícias que às vezes nem sabíamos que queríamos saber. Experimentem…

 

 

 

publicado às 10:36

Não é religião ou ideologia. A escolha é entre o bem e o mal

Por: Paulo Ferreira

 

 É sempre assim. A cada bomba, a cada ataque, deitamo-nos no divã do psicanalista para saber o que se passa connosco, vítimas da atrocidade. Não faz sentido. Primeiro porque não se trata do Islão contra o Ocidente. Basta recordar Beirute na semana passada ou Bombaim há sete anos. Depois porque se alguém está profundamente errado não somos certamente nós.

 

Deixemo-nos de sentimentos de culpa. Sentimo-nos culpados por sermos prósperos e livres. Por respeitarmos os outros e sermos tolerantes com os que pensam diferente de nós. Por termos construído sociedades onde tentamos que todos caibam. Por tentarmos chegar à igualdade de género. Por tratarmos os animais como, noutras paragens, não se tratam os humanos. Por recebermos o outro e permitirmos que ele se integre. Por termos chegado a um nível de humanismo avançado.

 

Nada disto nos deve fazer sentir culpados. Devemos, antes, estar orgulhosos. Se o bem e o mal existem, não devemos ter dúvidas sobre onde está um e onde está o outro. Sempre cientes também dos nossos erros e do muito que há a mudar nas nossas sociedades. Mas isso não faz de nós culpados dos actos terroristas dos outros.

 

Deixemo-nos de contemplações. O que está em causa é a nossa forma de estar no mundo e das sociedades que construímos e queremos manter nos nossos países. Para alguns tiranos é inconcebível que não se apedrejem adúlteras, que as mulheres possam ambicionar ter os mesmíssimos direitos e deveres que os homens, que aos ladrões não se corte uma mão, que se beba álcool, que não se tenha fé ao mesmo Deus da mesma maneira. Para eles é inconcebível que a alguém seja permitido viver se forma diferente da que eles pregam. Para nós isso é intolerável. O alvo somos nós mas o objectivo é aniquilar a nossa liberdade e tolerância. Aquilo que aos olhos deles é a nossa estranha forma de vida.

 

Deixemo-nos de procurar explicar o inexplicável. A guerra pode ser hedionda, injusta ou desnecessária. Mas a maior parte das vezes conseguimos entendê-la, mesmo discordando totalmente dela. A guerra tem regras e é um processo frontal: sabe-se quem são os beligerantes e qual é o campo de batalha, há uma ideia sobre as forças em confronto, conhece-se o objectivo dos vários lados. Na guerra feita dentro das regras os objectivos primordiais são militares. Sabe-se quando se ganha e quando se perde e antecipam-se as consequências desses desfechos. Pelo contrário, o terrorismo é, na sua essência, de uma total cobardia. É uma guerra travada sem a declarar. O alvo prioritário são inocentes. Quanto maior a chacina de inocentes, mais eficaz ele é. Estes terroristas não pretendem conquistar territórios ou aniquilar forças militares adversárias. Pretendem tão só intimidar, espalhar o terror junto de quem pensa e vive de forma diferente apenas porque pensa e vive de forma diferente, ainda que aceite a diversidade do outro. E isto é inexplicável. A culpa é do desemprego e da pobreza, diz-se. Ou da cimeira das Lages. É da intervenção no Iraque. É da falta de intervenção na Síria. É porque se abrem as fronteiras. É porque se fecham as fronteiras. É porque acolhemos toda a gente nas nossas cidades. É porque não acolhemos toda a gente nas nossas cidades. É porque não integramos. É porque queremos integrar à força. 

 

Mas alguma vez a barbaridade precisou de bons motivos para ser exercida? O fanatismo não é, pela sua própria natureza, intrinsecamente avesso à racionalidade, ao diálogo e ao bom senso? Vá lá. O fanatismo e, pior do que ele, as tentativas de o impor aos outros combatem-se, não se justificam.

 

A mais absoluta intolerância, capaz dos mais horrendos actos terroristas - sejam em Nova Iorque, Madrid, Paris, Beirute, Bombaím, Síria ou Iraque - não pode ser combatida com tolerância. O combate é desigual e beneficiará sempre o infractor. Os limites da tolerância e da democracia atingem-se no momento em que a tolerância e a democracia ficam elas mesmo ameaçadas e em perigo.

 

A tolerância deve ser total para acolher o arco-íris das religiões, das ideologias, das formas de estar na vida e das organizações de sociedade que homens e mulheres livres decidirem. Mas a intolerância só pode ser também total perante radicais que em nome de uma religião ou ideologia as querem impor por força da chacina premeditada de inocentes. Se a escolha for entre estes e nós não devemos nunca duvidar da resposta. A escolha não é entre uma religião ou outra. Não é entre uma ideologia ou outra. Não é entre uma forma de estar na vida ou outra. A escolha é apenas entre o bem e o mal. E nesta escolha nunca podemos enganar-nos.

 

Outras leituras

Não sabemos qual vai ser o desfecho da nossa crise política. Mas uma coisa sabemos de fonte segura há várias semanas: a escolha será feita numa base de "menor dos males". O Governo de gestão é só um deles.

 

Paredes de Coura venceu o Portugal Festival Awards. São três boas notícias numa só: 1- há vida para lá de Lisboa e Porto; 2- os festivais não são só Álvaro Covões e Luís Montez; 3- a vontade não paga contas mas vale muito.

 

 

publicado às 09:25

Que forças temos para enfrentar esta ameaça?

Por: Francisco Sena Santos

 

 Os bárbaros do “Estado Islâmico” (EI), de facto um bando de criminosos que se autoproclama califado e que controla um território com o tamanho das ilhas britânicas, não gostam que a gente se divirta, ria e cante e dance em bares. Era só o que faltava cedermos, seja na mais romântica capital europeia ou onde quer que seja, perante a sua ameaça. Mas também é necessário que os Estados democráticos estejam fortes e competentes para defender os seus cidadãos, ou seja, para nos defender.

 

Armaram-nos uma guerra, é um facto. Também é inquestionável que há que ir lá onde eles estão e destruir-lhes as bases para esse poder terrorista. Mas, mais ainda do que bombardeamentos, são necessários 007 que saibam infiltrar-se no inimigo, antecipar as ações terroristas em preparação e desmontar a cadeia do terrorismo. Esta é uma cadeia com muitos elos e demasiadas ambiguidades.

 

Esta guerra tem no lado inimigo, para além dos soldados, os guerrilheiros urbanos, adormecidos, que são matadores à espera de ordem para atacar, e que estão no meio de nós. A monstruosa chacina da noite de 13 de novembro está a mostrar como o bairro de Molenbeek, em Bruxelas – fica a uns minutos da Grand Place – aparece como um viveiro de terroristas. É um bairro que tem quarteirões tranquilos e outros com má reputação, droga, delinquência, islamismo radical, que não é seguro percorrer. Vivem hoje em Molenbeek umas 100 mil pessoas, grande parte formada por segundas e terceiras gerações de emigrantes de África e do Médio Oriente. A taxa de desemprego está acima dos 30%, sendo que ultrapassa os 40% para os jovens. É gente que vive no limbo, estigmatizada.

 

Sabe-se que há ali, camufladas, várias mesquitas com imãs fanáticos que alimentam a propaganda contra o modo de vida dos europeus, a quem chamam cruzados. São imãs fundamentalistas que facilitam nesses santuários o recrutamento dos que são educados para nos destruir, inclusive através do sacrifício kamikaze. Não esqueçamos que muitos comunicados do “EI” terminam com a proclamação “vocês vão perder porque nós amamos a morte mais do que vocês amam a vida”. Progressivamente, o espaço público, em França como na Bélgica e em Inglaterra, foi sendo ocupado por franjas do Islão em deriva sectária, gente que foi puxada para um modelo de sociedade ao mesmo tempo retrógrado e violento.

 

Fica evidente que a par da chamada intelligence, espécie de 007 infiltrados entre os que estão em deriva radical no meio de nós, é vital, para responder a este muito complexo desafio, a ação política e cultural. Não só para explorar hipóteses eficientes de integração e convivência mas também para valorização do nosso agora tão desqualificado sistema democrático. 

 

A desvalorização quotidiana da vida política, aqui como em quase toda a Europa, é destrutiva. Faz o jogo do inimigo. Falta-nos quem apareça com audácia à altura das aspirações, é uma queixa que todos repetimos. Bem andou o presidente François Hollande ao proclamar, ontem, no discurso de resistência e de guerra perante o Congresso, em Versalhes, que, nas atuais circunstâncias “le pacte de sécurité l’ emporte sur le pacte de stabilité”, ou seja: o pacto de segurança dos cidadãos sobrepõe-se ao pacto europeu de estabilidade. Aí está uma recomendação essencial aos dirigentes políticos europeus: quando estamos, como está assumido, em estado de guerra, os apertados constrangimentos impostos às finanças públicas dos países europeus não podem ser a prioridade. Estamos perante conflitos até aqui desconhecidos, é preciso que haja a sabedoria para alargar a malha nos orçamentos, e com sensatez viabilizar os recursos necessários. Que a Europa aprenda a ser, de facto, uma união, solidária.

 

Meteram-nos numa guerra que é, ao mesmo tempo, militar, cultural, teológica, ideológica, psicológica e económica. Evidentemente, como tantos especialistas têm repetido, é preciso fazer rebentar os fluxos financeiros que alimentam os vários anéis da cadeia do terrorismo. Fechar-lhes a torneira do dinheiro do petróleo e bloquear o circuito do armamento. Quantos dos investidores nos mercados financeiros internacionais serão também financiadores deste terrorismo?

 

Também é uma guerra de propaganda. Os terroristas do “EI” dominam com eficiência um vasto território virtual na internet. Usam fortemente a liberdade das redes sociais para fazer campanha contra a liberdade. Como se faz a contrainsurreição? Anonymous promete meter-se na primeira linha.

 

O que temos pela frente é uma guerra longa perante um inimigo que está numa lógica política com vista ao nosso extermínio. E é de prever que o necessário combate iniciado aos terroristas que ocuparam o vazio no Iraque e na Síria e ali montaram bases para o alargamento do califado do terror vá exacerbar os jiadistas que estão entre nós.

 

É precisa vontade otimista para enfrentar a imprevisibilidade de um quadro geral que, tal como está, puxa para o pessimismo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

José Manuel Rosendo é um grande repórter das guerras do nosso tempo. Esta reportagem é essencial para, com rigor, sem efeitos especiais, compreendermos a complexidade do que está a acontecer no norte da Síria onde os curdos peshmergas mostram como é possível bater o inimigo. Não fosse a contínua ambiguidade de Erdogan (ele é mais hostil ao IS ou aos curdos?) e talvez os terroristas já tivessem menos espaço.

 

A poesia de Adonis, poeta sírio com passaporte libanês, é um fogo-de-artifício de ideias filosóficas e profecias, com escrita puríssima. Ele tem sido várias vezes citado para o Nobel e é reconhecido como o grande poeta árabe vivo. Vale ler esta entrevista.

 

Um só infiltrado entre centenas de milhar de refugiados sírios não pode ser argumento para que a Europa renuncie à sua matriz de terra generosa de acolhimento. Já havia muitos europeus a clamarem que é levantando muros e fechando fronteiras que se estanca a ofensiva dos terroristas. Um passaporte sírio, afinal falso, em um dos kamikaze de Paris e a revelação de que ele passou pela Grécia a declarar-se refugiado está a servir de munição para esses que querem barricar-nos. Como recomenda o ex-primeiro-ministro centrista italiano Enrico Letta não nos enganemos sobre quem são os inimigos: os refugiados são vítimas dos terroristas, não são os terroristas.

 

O julgamento dos 17 ativistas angolanos é também um exame ao regime angolano. A imprensa internacional não vai estar distraída. Como se vê aqui.

 

Uma primeira página escolhida hoje entre as mostradas no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:20

E os refugiados?

Por: António Costa

 

 Deixemos a política doméstica por momentos. Já passaram mais de 48 horas sobre os horrendos atentados de Paris, os piores em solo francês desde a 2ª guerra mundial. Não é o tempo suficiente para conclusões sobre o estado de guerra em que todos nós, os ocidentais, vivemos, provavelmente sem nos darmos disso conta, mas já é possível identificar focos de risco. Há vários: onde é que o radicalismo jiadista e o islamismo se tocam, como é que o Ocidente responde ao terrorismo do Estado Islâmico, a política de segurança, por exemplo. Há um que, por estes dias, nos toca mais: os refugiados.

Era inevitável que o longo braço armado do jiadismo chegasse ao mesmo tempo que a Europa é invadida por refugiados que também fogem a este terror sob a forma de perseguição, violação, bombas, suicídios e medo. Medo é, talvez, a palavra mais forte, aquela que está por detrás de todas estas ações que, nos últimos anos, já tingiram vários continentes. E de mãos dadas com o medo está uma forma de vida que os jiadistas nos querem impor.

Ainda se sabe pouco sobre a extensão da rede que montou e executou os atentados de Paris – deixemos a contagem das vítimas para depois, já vai nas 129, isto já é suficientemente duro para nos atormentarmos a cada minuto que passa, e apoiemos as famílias dos que partiram – mas há suspeitas de que um dos terroristas teria passaporte europeu ‘arranjado’ na entrada de refugiados na Europa. Devemos, por isso, olhar duas vezes para cada um dos refugiados que já está na Europa ou para cada um que ainda quer entrar? Não e não e não.

Em primeiro lugar, há europeus seduzidos pelo Estado Islâmico, uma coisa absolutamente incompreensível, à qual temos de dar, e ter, uma resposta. Há franceses nestes atentados, com vida e mundo ocidental, portanto. Nem todos são muçulmanos que nasceram e viveram no médio oriente.

Depois, é fácil dizer que os refugiados são os menores dos culpados, claro; o mais difícil é fazer, como sempre. Há uma condição essencial para que os europeus, a maioria, pelo menos, mantenha os braços abertos aos refugiados. As autoridades europeias têm de garantir que a entrada é organizada e que os que entram são de facto identificados e registados. Em condições dignas e humanas. É a única solução, a que defende os refugiados da desconfiança dos europeus, e dos que querem aproveitar a sua entrada para se infiltrarem na Europa para executarem atentados.

É claro que a linha que separa uma estratégia securitária do respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos refugiados é muito ténue, mas não é possível fugir a isto, a esta escolha. No equilíbrio entre segurança e liberdade individual, onde está a virtude? Não há uma resposta única, nem fácil, mas tem de ser dada, porque a outra vai ser pior, e será sempre no sentido de fecharmos as fronteiras a quem foge do terrorismo, de nos isolarmos, como se isso resolvesse o problema. Não resolverá, claro, mas a consequência imediata, de defesa, será essa, se os europeus não se sentirem seguros nos seus próprios países.

 

As escolhas

 

O mundo está a olhar para Paris, e para os atentados, enquanto em Lisboa domina a política, e não se pode dizer que seja a alta política. Cavaco Silva tem uma visita de dois dias à Madeira – pode acompanhar as últimas aqui no Sapo24 - e isso indica que não está com pressa para ouvir António Costa. Na verdade, já saberá o que o líder do PS lhe vai dizer, e o (não) acordo que lhe vai levar. O silêncio do Presidente é também uma forma de falar e de aumentar a pressão sobre os socialistas, mas também sobre o BE e do PCP. E se exigir mesmo um acordo, Catarina vai aproximar-se, mas dificilmente Jerónimo dará mais do que já deu. E depois?

 

publicado às 10:46

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