Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Só à estalada: uma história do tabefe em Portugal

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

O sucedâneo do 'Big Brother' ou da 'Casa dos Segredos', que está neste momento em cartaz televisivo, chama-se 'Quinta'. Já foi 'Quinta das Celebridades', e perdeu o sobrenome provavelmente pela falta de notoriedade pública dos actuais residentes. Mas o enredo continua a agarrar os telespectadores, se não já ao nível das audiências de antanho, pelo menos com uma capacidade de sobrevivência notável. Os 'happenings' sucedem-se a um ritmo ora produzido, ora espontâneo. Um dos mais impressivos dos tempos recentes foram as estaladas que o concorrente Pedro Capitão deu ao seu companheiro/antagonista Pedro Barros, numa altercação animada no passado mês de Janeiro.

 

O combate entre o efeminado agressor alentejano e o espadaúdo modelo - que o provocou vezes sem conta, a última das quais (a gota que terá que terá feito transbordar o copo) foi atirar-lhe água – saldou-se por uns tabefes na cara e no peito deste último. Pedro Barros, o provocador, foi, aliás, acusado de estar com os copos. Vai na volta, o Pedro Capitão dos trejeitos e voz afunilada deu-lhe uns safanões de menina que foram considerados bofetadas. O resto da história é que foi expulso – a agressão física é oficialmente proibida lá na 'Quinta' –, sendo reintegrado mais tarde, porque o sujeito tem imensa graça e é popular que se farta. O agredido é que não sobreviveu muito, e foi dos primeiros a fazer as malas do programa apresentado por Teresa Guilherme.

 

A história da estalada em Portugal tem passado por diversas vicissitudes, e entrou mesmo na cultura popular. A cantora Ruth Marlene teve, há anos, um consumado êxito com a canção 'Só à Estalada', cujos versos referem que, 'Quando os rapazes vêm com ela fisgada / Daqui não levam nada / E quando algum quer fazer logo marmelada / Então só à estalada/ Então só à estalada'. E, noutra parte do poema, pode ouvir-se que: 'Estou prevenida pois já sei como é que é / Por isso mesmo fui aprender karaté'. Uma defesa da honra e da integridade física que se aceita e à qual ninguém botará defeito.

 

O caso mais recente da lusitana história da estalada não tem, até ao momento, repercussões físicas de qualquer tipo. É sabido que, após um truculento e ácido artigo de Augusto M. Seabra no 'Público', em que o crítico atacava quer a competência de João Soares para o cargo de ministro da Cultura, quer os seus métodos - que envolveriam 'compadrio, prepotência e grosseria', adjectivando-o ainda de 'derrotado nato' -, João Soares reagiu na sua conta do Facebook. Afirmava a intenção de se encontrar com Seabra para lhe dar 'umas salutares estaladas', que aliás estavam 'prometidas desde 1999, altura em que, segundo o visado, o crítico terá dito sobre ele 'umas aleivosias e calúnias'.

 

De caminho, o ex-presidente da Câmara de Lisboa e filho do antigo Presidente da República, Mário Soares, recordava também que estava em falta com o mesmo tratamento a Vasco Pulido Valente, igualmente cronista do 'Público', que em Março se lhe referiu como 'lamentável personagem'. A propósito da demissão de António Lamas, o controverso gestor do Centro Cultural de Belém, VPV escrevia: 'não se percebe toda esta palhaçada, excepto se pensarmos que ele [João Soares] é no Governo um verbo de encher e que o PS o atura por simples caridade.

 

O duelo para defesa da honra e a eventual calúnia, ultraje ou infâmia a ele asociados vem dos primórdios da Idade Média, e resultou em Portugal em diversas cenas mais ou menos públicas até meados do século XX. De Afonso Costa a João Franco, de António Granjo a Eduardo Swalbach, do Conde de Penha Garcia a Francisco Solano de Almeida, de Caeiro da Matta a Anselmo Braancamp, muita foi a elite política urbana que sonegou aos tribunais as suas quezílias públicas ou privadas. Tratava-se de uma suposição de que os cavalheiros, como outrora os cavaleiros, tinham sobre as massas uma posição que lhes permitia tratar das questões da justiça pelas suas próprias mãos. O povo esmurrava-se na taberna, os senhores degladiavam-se com apertadas regras, casaca e chapéu alto. A testosterona tem luta de classes...

 

já o génio guerreiro Sun Tzu tinha sobre o duelo uma visão negativa. Criticava aos homens o 'orgulho e vaidade' a que, segundo ele, chamavam impropriamente 'defesa da honra'. Da França dos espadachins aos pistoleiros do far-west, dos duelos de chicote do sertão brasileiro às pistolas com testemunhas de Inglaterra, foi durante muito tempo através do derramamento de sangue que os nobres e outros titulares trataram dos seus problemas. António José de Almeida, o político republicano que foi Presidente da República, terá sido, segundo reza a História, o primeiro português a ser desafiado para um duelo e a não aceitar, sem que lhe tivesse caído a honra na lama. Um fenómeno de modernidade, na altura.

 

As excepções, já no tempo do Estado Novo, que, mais do que fechar os olhos aos duelos, como era uso da justiça mais branda da 1ª República, os criminalizou, são escassas. É de escola o exemplo de Francisco Sousa Tavares, que sendo oficial miliciano quis desagravar uma afronta de um seu superior hierárquico desafiando-o para um duelo; o qual nunca chegou a concretizar-se.

 

A espada e a pistola foram modernamente substituídos pela pena. E o interessante é que ambas andaram, desde os primórdios da Idade Média, casadas. Eggil Kalagensson foi um poeta e guerreiro viking que, no século X, primeiro terá lançado um código de conduta de duelos, bem a par das regras de cavalaria em uso no tempo. Mas não deixou de usar a escrita para afrontar os que se lhe opunham.

 

Mais prosaicamente – ou com menos pompa – vários escritores do século XIX, conhecidos pela pena afiada, não deixaram, no entanto, de usar as mãos e alguns esticadores de braço – a célebre bengala – para pedir contas a adversários e homens que lhes tinham lançado críticas mais ou menos ferozes.

Eça de Queiroz referia, em carta a Teófilo Braga, algumas das passagens da sua obra: 'A sociedade que cerca esses personagens - o formalismo oficial (Acácio), a beatice parva de temperamento irritante (D. Felicidade), a literaturazinha acéfala (Ernestinho), o descontentamento azedo e o tédio da profissão (Juliana), e às vezes, quando calha, um pobre bom rapaz (Sebastião). Um grupo social, em Lisboa, compõe-se com pequenas modificações, destes elementos dominantes. Eu conheço uns vinte grupos assim formados. Uma sociedade sobre estas falsas bases não está na verdade: atacá-las é um dever. [...] Merecem partilhar com o Padre Amaro da bengalada do homem de bem'.

 

Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Sampaio Bruno, Aquilino Ribeiro ou João Gaspar Simões foram alguns dos muitos que se envolveram em bengaladas, ou foram desafiados, no Chiado ou não só, à porta da Bertrand como em campo aberto.

 

A Idade das Luzes e o Iluminismo começaram, aos poucos, a tornar fora de moda os duelos e os desagravos  mais por armas que por palavras. A morte de Alexander Hamilton, que foi secretário de Finanças de George Washington, num duelo com o seu adversário Aaron Burr, 3º vice-presidente dos EUA, tomou repercussões tais que, a partir daí, a justiça começou a reprimir, de forma mais cerce, os habituais desaguisados resolvidos à pistola pelos politicos oitocentistas.

 

Mas Andrew Jackson, anos depois, ainda seria vítima de um tiro num ombro, apanhado num duelo que lhe provocou dores para o resto da vida. Alexandrer Pushkin foi morto em duelo, depois de ele próprio já ter descrito vários nos seus poemas. Coisas do destino da pena e da espada, mas também da tela – dos cowboys a Barry Lindon (filme icónico de Stanley Kubrick), a 'verdade' das armas, da honra e da cobardia têm sido alvo preferencial dos cineastas.

 

As paixões mortas em meio literário deram azo a grandes confrontações, como a que José Saramago e António Lobo Antunes protagonizaram durante anos. Rimbaud e Paul Vérlaine, Jean-Paul Sartre e Albert Camus, Mário Cesariny e António Pedro, foram outros tantos. Sobre o poeta-pintor do surrealismmo, escreveu Jorge de Sena umas quadras de uma truculência verbal a roçar a infâmia. A questão coimbrã deu espada entre Antero e Ramalho, e a verbalização do insulto ganhou foros de arte, com o 'Manifesto Anti-Dantas' de Almada Negreiros. Talvez a mais famosa de todas as 'punições' literárias terá sido a bengalada de Carlos Eduardo a Dâmaso Salcede, numa tarde do Chiado; mas foi apenas num livro, Os Maias.

 

O resultado imediato da desbragada verve de João Soares é conhecido. O ministro demitiu-se, alegando por um lado não querer prejudicar o Governo, mas também a necessidade de manter intacto 'o direito à expressão de opinião e palavra'. A questão talvez ainda faça correr alguma tinta. Como o chefe do Executivo dizia ontem, 'um ministro tem de lembrar-se sempre que o é, mesmo à mesa do café'.

Qual o valor do Facebook e de outras redes sociais na opinião dos cidadãos que são, também, figuras públicas?

 

No Facebook, aliás, corre célere a piada, os ataques e os apoios a João Soares. Uma jurista conhecida pelo invulgar traço de ironia, de seu nome Alice Coutinho, lembrava ontem, sobre os titulares governativos da pasta da Cultura:

'O Santana Lopes batia com a porta, o Sousa Lara queimava livros, o Carrilho dava uns tabefes, o João Soares ameaça dar. Eu não quero nada com essa gente da cultura'.

Para logo, num comentário, ser recordada pelo jornalista e antigo membro da direcção do 'Público', Joaquim Vieira: 'E então o Francisco José Viegas, que mandou os inspetores tributários tomarem no pacote?' Vai linda a democracia, e a cultura é de uma gente outra...

 

Mas, nestas coisas da honra e da truculência, até o Papa Francisco tomou recentemente partido. 'A liberdade de expressão é um direito. Mas se alguém ofender a minha Mãe, de certeza que leva um murro', disse o chefe de todos os católicos. Está o ateu João Soares desculpado...

 

No meio de tudo isto, com certeza de forma involuntária, vai a família Soares escrever, na sua saga, o valor da bofetada. Se o pai virou uma campanha presidencial desfavorável após a estalada que levou na Marinha Grande, já o filho deitou a perder uma carreira como ministro, sem sequer ter levantado a mão mais do que lhe permitiu a palavra.

 

 

Torno público que apresentei esta manhã ao Senhor Primeiro Ministro, António Costa, a minha demissão do XXI Governo...

Posted by João Soares on Friday, April 8, 2016

 

 

publicado às 22:58

Lisboa: uma cidade de barbearias ou de sleep boutiques? (e a resposta é menos simples do que parece)

Por: José Couto Nogueira

 

Os clamores levantam-se um seguir ao outro: vão fazer um McDonald’s no Chiado, no mesmo prédio de uma vetusta barbearia! Fechou o sexagenário restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, para dar lugar a um edifício novo! Querem deitar abaixo a centenária Vila Martel, ali à Praça da Alegria, ninho de artistas históricos, para fazer o estacionamento dum hotel!

 

 

Estes são apenas três casos concretos, noticiados na comunicação social e largamente debatidos nas redes. Mas há mais, muitos mais, que o tempo já apagou mas que ainda são feridas abertas na memória colectiva da cidade, como a destruição da Livraria do Diário de Notícias no Rossio, uma loja modernista onde se vendia cultura, substituída por um espaço asfaltado a pladur, onde se vendem trapos. Ou a castiça pensão Ninho das Águias, na Costa do Castelo, transformada numa pós-moderna e deslavada Sleep Boutique.

Em termos gerais, o que se tem assistido nos últimos anos, desde que Lisboa se tornou um pólo turístico europeu de primeira grandeza (com mais de dois milhões de passageiros mensais na Portela), são duas alterações notórias: muitos encerramentos no comércio tradicional, substituído por lojas pseudo-históricas ou que vendem bric-a-brac de plástico feito na China; e a transformação de edifícios com várias ocupações em hóteis, hostels e sleep boutiques. Nesta última vertente, o que se tem como certo é a adaptação do edifício do Diário de Notícias a hotel de charme.

 

 

E não faltam histórias cheias de história, como a lista dos comensais do Palmeira, que incluía artistas, actores, advogados lendários, ministros, secretários de Estado, e até um Presidente da República. Ou os estúdios da Vila Martel, onde obras primas foram criadas por Columbano Bordalo Pinheiro, Francisco Franco, José Malhoa, Carlos Reis, Eduardo Viana e Nikias Skapinakis, entre outros. 

Brama-se contra os turistas, que só provocam congestionamentos (os tuc-tucs...), contra os proprietários, que só pensam nos lucros, e contra a Câmara, que “não faz nada”.

Mas pouco se fala em soluções. Ou, o que é quase a mesma coisa, em razões. Umas e outras merecem ser avaliadas, por ordem inversa – isto é, primeiro as razões, depois as soluções.

 

não chegar à situação em que as pessoas que ficam nos hotéis só têm hotéis para frequentar

 

Que o turismo é um benefício para a cidade, parece indiscutível. Não só pelo rico dinheirinho que traz, numa economia em que as tradicionais remessas dos emigrantes ficam com eles, como pela alegria e movimentação que anima a cidade. A Baixa, concretamente, que era um deserto onde só passavam alguns cabisbaixos funcionários a caminho dos transportes fluviais, transformou-se num permanente festival de rua, com esplanadas cheias e artistas alternativos a exibir as suas habilidades. As noites lisboetas, tanto nos restaurantes como em incontáveis propostas de bares e clubes, já se medem pelas famosas noites madrilenas, com multidões a cantar, a dançar e a consumir. Só mesmo os conservadores mais rezingas e os tugas mais tugas é que se podem queixar desta apropriação dos espaços públicos por gente nova, civilizada e bem disposta que, ainda por cima, respeita e venera as nossas características urbanas e culturais. Todos dizem que a cidade é linda e os alfacinhas uns amores de pessoas.

Onde é que está o problema? O problema está em equilibrar o tecido tradicional da cidade com o afluxo de pessoas que vem, precisamente, porque esse tecido existe. Ou seja, para por as coisas à maneira das redes sociais, “não chegar à situação em que as pessoas que ficam nos hotéis só têm hotéis para frequentar”.

Isso será verdade, mas apenas se se ultrapassar o ponto de equilíbrio. E a grande dificuldade está em definir esse ponto. Não é que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) não pense no assunto (já lá iremos); é que, para a CML, como para outros organismos que podem influenciar as decisões, como o IPAR, há constrangimentos de vária ordem que os impedem, até mesmo legalmente, de encontrar o tal equilíbrio que ninguém consegue definir quantitativamente. Quantos hotéis Lisboa precisa? Quando é que o número de hotéis chega ao ponto de reduzir sensivelmente a vida normal da cidade, tirando-lhe interesse e logo reduzindo as necessidades de hotelaria?

Quanto às lojas tradicionais, muitas delas desactualizadas, decadentes e que pouco vendem aos lisboetas e ainda menos aos turistas, de que modo se consegue mantê-las de porta aberta? Subsidiando-as com dinheiro do contribuinte? Compensando com isenções fiscais a falta de modernização? E as lojas novas, pseudo-tradicionais, como regulamentar o exagero do pseudo e com que direito definir que pastéis de bacalhau com recheio de queijo da Serra é uma horrível corrupção dos verdadeiros pastéis salpicados de salsa e do verdadeiro queijo a escorrer pelo prato? Porque não achar que, graças à inventividade estimulada pelos turistas, o pastel de bacalhau com recheio de queijo da Serra não é um avanço gastronómico e civilizacional?

Já lá vai o tempo em que os senhorios, justa ou injustamente, eram vistos como uns capitalistas gordos que exploravam os arrendatários. Hoje sabemos de incontáveis casos em que o que os proprietários recebem não chega para mandar pintar os espaços comuns. Para isso se mudou a lei do arrendamento. Só que essa mudança foi excessiva. Os inquilinos comerciais passaram de uma protecção impraticável, para uma exposição incomportável. Os senhorios, se querem reformar os seus edifícios, têm de aumentar as rendas, ou trocar de arrendatários. Ou será preciso inventar um mecanismo que torne esses custos possíveis e partilhados entre as duas partes. A Lei do Arrendamento carece de ser mudada, e essa mudança só pode vir do Governo ou da Assembleia da República. A Câmara, o mais que pode fazer é propor, sugerir, implorar.

 

o que define uma loja histórica?

 

Então, sendo assim, o que faz a Câmara no meio disto tudo? Preocupa-se, e não é de hoje. No verão de 2015, quando Graça Fonseca era responsável pelos pelouro Economia e Inovação e Catarina Vaz Pinto pela Cultura, criou-se o programa “Lojas com História” e foi nomeado um Conselho Consultivo constituído por trinta olissipólogos, lojistas, historiadores, jornalistas, etc. e um Grupo de Trabalho de três especialistas, recrutado no Departamento de Design da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Com a saída de Graça Fonseca para o Governo, houve um período de pouco movimento, mas, entretanto, o actual vice-presidente da autarquia, Duarte Cordeiro, já entrou em acção e o processo está em andamento. Mas o funcionamento enreda-se nas próprias indefinições de que falamos. Por um lado, a mudança na Lei do Arrendamento, indispensável, não depende da CML e, além do mais, há que definir como serão as mudanças para gerar o tal equilíbrio entre as duas partes e dar alguma protecção às lojas históricas.

 

 

Por outro lado, o Grupo de Trabalho está a tentar definir uma coisa bastante indefinível que é o conceito de Loja Histórica. Não pode ser apenas a antiguidade, há que avaliar o mérito estético das instalações. Assim como a possível rentabilidade. Digamos: uma drogaria, ainda faz sentido em 2016? Poderá evoluir para outro tipo de loja – uma perfumaria e para-farmácia, por exemplo? E o que fazer com uma carvoaria?

Isto, no que diz respeito às lojas. Quanto aos edifícios, o problema também está nas definições. Neste particular, talvez seja melhor estudar caso a caso, mas o caso-a-caso é a antítese duma legislação democrática. Voltando ao restaurante Palmeira: estava num edifício abandonado à sua sorte desde o incêndio do Chiado, entaipado e sem inquilinos. Era uma mancha de desleixo mesmo ao lado dos Grandes Armazéns do Chiado, sem utilidade para ninguém. A sua reconstrução – pois restauro não seria suficiente – exige que o restaurante encerre durante um ano ou dois e que depois, muito naturalmente, pague uma renda proporcional ao espaço que vier a ocupar. Aqui está um caso que não tem solução racional à vista.

Para este artigo consultamos inúmeras pessoas, entre elas Duarte Cordeiro, vice-Presidente da CML, Catarina Portas, membro do Conselho Consultivo e activa militante da ideia das Lojas Históricas, e Frederico Duarte, do Grupo de Trabalho das Belas Artes. Em todos eles se vê uma genuína preocupação pelos problemas e um evidente empenho em resolvê-los. Mas, pelo menos por ora, ninguém tem competência, legal ou moral, para impedir que uma barbearia se transforme num fast-food.

A modernização das cidades, benéfica ou maléfica, é um processo inexorável. Como resolvê-la de modo equilibrado, é a resposta de mil milhões de euros.

 

 

 

 

 

publicado às 14:07

Bruxelas: todos os problemas da Europa concentrados numa cidade

Por: José Couto Nogueira 

 

Hoje, bombas em Bruxelas. Ontem, um terrorista apanhado e vários mortos num bairro babélico de Molenbeek. Anteontem, a polícia armada até aos dentes a entrar pela casa de famílias ilegais, marginalizadas e desempregadas. Todos os dias, circulam as limousines topo de gama dos burocratas mais bem pagos do mundo. Há dois anos, a Bélgica esteve sem governo durante dezoito meses. No norte do país fala-se uma língua medieval, no sul comunica-se em francês. É assim a Bélgica, um país refém de contrastes insolúveis e contradições aterradoras. Desde 1830.

 

 

As autoridades belgas são ajudadas pelos serviços franceses, mas mesmo assim tem uma dura tarefa nas mãos. Bruxelas, sendo sede da NATO e dos órgãos de topo da UE, o Conselho da Europa e a Comissão Europeia, tem exigências de segurança acrescidas. Bruxelas abriga deputados e funcionários de topo à distancia de um tiro de bazuca de magrebinos revoltados e muçulmanos excluídos. Para não falar nos seus próprios problemas étnicos, uma vez que os flamengos se recusam a falar francês, mesmo com estrangeiros, e os valões não se querem misturar com ninguém, nem flamengos, nem estrangeiros.

 

A polícia não tem uma reputação cristalina; entre 2008 e 2014 houve vários escândalos sexuais, de pedofilia em escolas católicas a uma orgia numa esquadra de policia, sem que as autoridades conseguissem investigar a tempo inúmeras denúncias. O corpo de segurança das zonas da Flandres não se comunica com o da Valónia e Bruxelas é um enclave francófono na zona flamenga. Depois há as antipatias fronteiriças entre franceses e belgas.

 

Bruxelas foi escolhida para sede dos órgãos principais da UE segundo aquele princípio que tem norteado as decisões da União: dar importância aos insignificantes, facilmente manipuláveis, porque nenhum dos poderosos quer ficar sob a alçada de outro poderoso. Bruxelas, Estrasburgo (a outra sede do Parlamento Europeu) Durão Barroso, Van Rompuy e Jean Claude Juncker, são bons exemplos destas escolhas do menor denominador comum.

 

Aliás, a própria existência da Bélgica é uma espécie de equívoco criado pelas conveniências dos grandes. Até 1830, fazia parte da Holanda, juntamente com o Liechenstein. Nesse ano, uma revolta separou a Flandres e a Valónia, que formaram um país dividido linguística e etnicamente, sob a batuta de um rei alemão inventado para manter a coesão, Leopoldo I. (É interessante que anteriormente Leopoldo tinha recusado a coroa grega, por achar o país demasiado instável.) Os grandes poderes europeus consideraram que era uma boa ideia um estado-tampão entre a França e a Alemanha, como garante de que não se guerreariam. Claro que, quando a Alemanha decidiu invadir a França, em 1914 e 1939, passou por cima da Bélgica sem grandes problemas.

 

Na Conferência de Berlim, em 1885, ao fazer-se a divisão da África entre os europeus (Portugal incluído) aquele espaço inexplorado ao norte de Angola, que ninguém parecia querer, foi dado de presente a Leopoldo II – não à Bélgica, mas ao rei, como propriedade pessoal. No início do século XX a opinião pública mundial ficou chocada com as atrocidades que os belgas cometiam no Congo, inclusive amputações de trabalhadores considerados preguiçosos. Calcula-se que tenham morrido dez milhões de nativos em condições inenarráveis. A reputação de Leopoldo II, que até fez reformas trabalhistas inovadoras na Bélgica, nunca se recompôs dessa barbaridade.

 

O que lá vai, lá vai. Os problemas agora são outros. Os valões e os flamengos continuam a não se entender, mas pelo menos já conseguiram formar governo. Dos hábitos pedófilos, que provavelmente são iguais em toda a parte mas ficaram como uma espécie de estigma para os belgas, não se tem falado. Em compensação Bruxelas continua a ser um problema maior do que o país – são todos os problemas da Europa concentrados numa cidade.

 

Por um lado, é o centro nevrálgico da União Europeia e da NATO, o que a torna uma cidade caríssima e com permanente falta de alojamento; por outro lado tem uma população muçulmana que quer mais é que a Europa que a rejeita desapareça do mapa. As autoridades belgas, tão mal vistas internacionalmente, fazem o que podem para resolver problemas que, nitidamente, as transcendem. Por outro lado, não querem que a ajuda dos serviços de segurança estrangeiros os subalternizem na sua própria terra. Mas alguém tem de proteger os generais da NATO e os comissários da Europa. E é preciso urgentemente limitar os imigrantes e arranjar-lhes uma ocupação – em Molenbeek, o desemprego atinge os 50%. Salah Abdeslam, o homem mais procurado da Europa, escondeu-se mais de um mês em Moleenbeck, o bairro onde nasceu e cresceu, sem que a polícia desse com ele. E um dos que o acompanhava até conseguiu fugir. Outros, insuspeitos, colocaram agora as bombas de retaliação. Bem perto da classe superior que discute interminavelmente o que fazer com os refugiados sírios e os marginais de Moleenbeck.

 

O que está a acontecer por estes dias em Bruxelas é uma metáfora do estado a que a Europa chegou.

 

 

publicado às 13:17

Morreu o homem dos sete instrumentos

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Quando o autarca Carlos Meireles conheceu Maria, uma prostituta de alta roda que, mais tarde, viria a perceber-se que o levou à certa na triste sina da corrupção por chantagem, fez-lhe a seguinte pergunta: 'Diga-me uma coisa... O que é que você faz?' E ela respondeu: 'Tudo!' Nicolau Breyner também. O personagem que o actor interpretou no filme 'Call Girl', de António Pedro Vasconcelos, foi apenas mais um da multifacetada carreira de um homem que nos deixou ontem de surpresa - ele adorava pregar partidas.

 

Dele disse o crítico Eurico de Barros que não houve, em Portugal, cinema que chegue para o mostrar em toda a sua dimensão dramática. Os mais de 40 filmes que interpretou têm valores diferentes. E terá sido apenas já depois dos 50 anos que Nicolau brilhou, a espaços, no grande écrã.

 

'Anarquista de centro', como se denominou um dia em termos políticos, esteve nas eleições de 1969, como recordou ontem o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues; mas concorreu, já depois do 25 de Abril, com o apoio do CDS, à Câmara de Serpa, sua terra natal alentejana. 'Perdi para o candidato da CDU, de quem hoje sou grande amigo, e ainda bem, ele é um excelente autarca', afirmou Nicolau.

 

 É difícil encontrar quem tenha criado e mantido inimizades com Nicolau Breyner. 'Nunca vi ninguém chatear-se com ele', disse ao SAPO24 o actor António Capelo, que com ele trabalhou, muito, na área da ficção televisiva. 'Nunca o vi pôr-se em bicos de pés, tentar roubar protagonismo fosse a quem fosse'.

 

'Representar, para ele, era como respirar', sustentou António Capelo. 'Não fazia esforço nenhum, saía-lhe de uma forma natural: e era escusado, nunca sabia o texto', lembra o colega de profissão. O que vai de encontro à ideia que o próprio tinha sobre si. 'Dizem que isto de ser actor é 75% de esforço e 25% de talento; eu acho que é precisamente o contrário', afirmou numa entrevista.

 

'Ele não gostava de repetir', relembra Virgílio Castelo. 'Dizia que saía sempre melhor à primeira, e até assegurava, com graça, e enquanto director de actores, que primeiro se grava e depois se ensaia', revelou o actor. O que é corroborado pelo cineasta António Pero Vasconcelos, que, para além de admirar essa capacidade, se queixava de que isso, por vezes, impedia os outros de evoluírem. 'Às vezes são precisos vários 'takes', e para ele isso não era necessário', recorda.

 

A sua generosidade e falta de noção do dinheiro é quase lendária entre os colegas de profissão. 'Cada vez que ganho muito dinheiro há em mim um sentimento de vergonha', adiantaria noutro espaço. 'Ele falou-me de querer comprar uma quinta no Brasil, e eu andei por lá a ver se arranjava algo', recorda Capelo, ele próprio um apaixonado pelo país e que lá detém propriedade. 'Mas depois nunca mais aparecia com o dinheiro; foi o Moita Flores que me disse para tirar daí a ideia, já que ele nunca tinha que chegasse, não poupava', revelou a mesma fonte.

 

 

Muitos recordam que, sem Nicolau, nem nunca na vida teriam chegado a ser actores. Como Nuno Homem de Sá, que está nas novelas televisivas pela mão de Nicolau Breyner, e que recorda que 'aos 18 anos andava sem saber o que fazer da vida, e foi ele que me trouxe para aqui, que me deu a mão'. Ele, Nicolau, soube cedo que queria palco, embora a veia lhe latejasse mais para a ópera. Um dia percebeu que os cantores líricos tinham de levar uma vida muito regrada. 'Não era para mim', confessou.

 

A positividade perante a vida é um traço que todos os que o conheceram realçam. 'Nunca remei contra a maré', afiançou já depois dos 70 anos. Mas pensou no que ainda havia para viver, quando há seis anos o cancro lhe bateu à porta. Aparentemente, não foi disso que morreu. Se bem que tenha frisado que, nessa altura, percebeu que tinha que pensar mais na sua mortalidade.

 

Nem naquele que foi, talvez, o maior papel da sua vida enquanto actor de cinema – o inspetor Joaquim Malarranha de 'Imortais' - deixou de ser, sempre e só, um extraordinário feitor de verosimilhança humana. A capacidade de identificar, aparentemente sem esforço, os traços dominantes dos papéis que lhe cabiam, fez dele, também, um dos actores mais populares do seu tempo e, eventualmente, mesmo o mais conhecido da sua geração. António Capelo costumava chamar-lhe 'Nossa Senhora de Fátima'. 'Onde ele aparecia, toda a gente o conhecia e queria vê-lo; era uma aparição', graceja.

 

Um talento que começou a revelar-se cedo. No Conservatório foi um aluno brilhante e, recém-formado, foi Vasco Morgado que o levou para a revista. A comédia é, aliás, o lado mais conhecido de um homem dos sete instrumentos. 'Andei vinte anos a fazer comédia e 20 anos a fazer drama', dizia como que em sumário. Mas 'fiz muitas coisas na vida que ainda hoje estou para perceber porquê'.

 

Boémio, lutador de pés e mãos pelos cabarets, coureur de femmes, Nicolau Breyner confessou que o pai o 'acusava' de fazer 'caridade sexual'. 'Não sabia dizer que não', revelou. Um dia, no meio de uma gravação de novela, o estúdio pára durante meia-hora. 'O Nicolau tinha ido divorciar-se', recorda António Capelo. 'Para ele, a conquista era um exercício lúdico permanente', recordou o actor Virgílio Castelo.

 

Carlos Matos Gomes, autor do livro Nó Cego (sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz) que levou António Pedro Vasconcelos a criar o argumento de 'Imortais', recorda ao SAPO24 que foi complicado encontrar o actor para a personagem do inspector Malarranha, que gostava de fados e tinha uma amante à moda antiga. 'Tinha de ser um tipo que gostasse de música', recorda o antigo coronel do Exército português. 'Foi o António Pedro [Vasconcelos] que se lembrou do Nicolau, e ele foi impressionante na interpretação que fez, até porque nunca tinha feito um papel daquele género', afirma.

 

'Ele olhou para o guião, leu uma parte do romance, e apanhou desde logo as características e todos os cambiantes do inspector', referiu Matos Gomes, que recorda com um sorriso a 'interpretação dele quando está com a Filó [a secretária de quem era amante no filme]'. Por curiosidade, conta que o mesmo esteve para ser rodado, em parte, em Moçambique, mas Samora Machel, então presidente daquele país africano, não deixou.

 

Do Nicolau Breyner precursor da indústria de ficção televisiva já toda a gente falou. 'Irritava-me que não fizéssemos coisas como os brasileiros', desabafou um dia, para justificar como, com Thilo Krassman e com o apoio da RTP, construiu 'Vila Faia', a primeira telenovela portuguesa. Anos mais tarde havia de montar a sua prórpia produtora, a NBP, que trouxe para o grande público um significativo número de novos actores, deu alento e visibilidade aos antigos e criou uma 'nova fórmula de fazer coisas com que o público se identificasse', como definiu ontem o actor Diogo Infante. A 'invenção' de Herman José, no 'Feliz e Contente' do ínício dos anos 80, terá sido certamente ao seu maior achado.

 

A televisão ficará sempre na história que todos contarão de Nicolau Breyner. O teatro não, 'aquela caixinha é muito pequena, muito fechada', dizia, como lembrou ontem a actriz Guida Maria, para quem Nicolau Breyner 'era desconcertante no seu humor; às vezes era preciso dizer-lhe para parar com as anedotas, porque antes de entrar em cena temos de nos concentrar; ele não, acabava de dizer uma graçola, entrava no palco e era um tipo completamente diferente e embrenhado no papel'.

 

'Tinha amigos de todos os géneros, sempre com grande calor humano; era impossível ficar-lhe indiferente', sustentou Virgílio Castelo. 'Era um menino de 75 anos', afirmou. Foi por ele que ontem, menos de uma hora depois da notícia da sua morte, Marcelo Rebelo de Sousa abandonou uma reunião para expressar a sua consternação, saudade e recordações ao país que recentemente o elegeu. 'Nunca tinha visto um Presidente da República fazer isto pela gente que pinta a cara', afirmou Simone de Oliveira.

 

Actor, cantor - chegou a concorrer ao Festival da Canção, em 1968, tendo arrancado o quarto lugar com 'Pouco Mais' -, produtor, realizador, professor – mantém uma escola de artes de palco, a NBA -, Nicolau Breyner fez de tudo um pouco.

 

Deixa saudades, ele que dizia que era 'o gajo menos saudosista do mundo'. Se não fosse católico praticante, seria 'adorador do sol', afirmou recentemente. Também por isso, gostava de ter morrido 'num daqueles dias chuvosos, frios, com vento, para não ter pena', dizia. Morreu num dia de sol. Ele não programava muito a sua vida, diz quem o conheceu.  

 

 

 

 

 

 

publicado às 08:09

Até tu, Nova Zelândia?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Quando se abre a Constituição da República Portuguesa, logo após o 'Preâmbulo', naquele capítulo que fala dos 'Princípios Fundamentais' – que vêm, note-se, ainda antes dos 'Direitos e deveres fundamentais' – dá-se de caras com 11-artigos-11 que descrevem as coisas básicas que há que saber e respeitar quando se é português. Está lá o território, a cidadania, a soberania, o hino... e a bandeira.

 

Diz lá que é a verde-rubra da República, com os castelos e as quinas ao centro, no meio de uma esfera dourada universal que, com seus arcos de metal, canta o meio-dia na Terra que lhe foi centro, entretanto substituída pelo Sol. Mais nenhum país do mundo ostenta tal ornamento no estandarte nacional. Dir-se-ia que o Mundo, e mesmo o Universo todo, é uma descoberta de Portugal. Que a esfera tenha sido inventada na China, antes ainda de Cristo descer à Terra, é coisa que não nos contaram na primária.

 

Vamos falar de bandeiras. Não de todas, mas aquelas que as Nações, as Pátrias e os Estados – que às vezes, com muita sorte, são tudo uma mesma coisa – têm por símbolo distintivo. Um pano, não mais do que isso, ao lado do qual se perfilam militares, que se ergue quando ganhamos nos Jogos Olímpicos, se vê de longe nos edifícios públicos e por vezes até cobre caixões de heróis ou de simples mortais.

 

 

É de guerra que se fala quando se procura a aurora primeira da bandeira. Ao princípio, as cores que pintavam panos distinguiam batalhões e armadas. Se as flâmulas eram iguais, eram dos nossos; diferentes, do inimigo. Foi assim com os romanos e na Alta Idade Média. Começaram por roubar os símbolos aos escudos e a outros sinais de comando já existentes desde a Antiguidade. Foi só transformá-los em panos.

 

As bandeiras mudam com a circunstância. Mas não para os circunspectos dinamarqueses. Desde o século XIII que aquela gente vive debaixo da cruz branca sobre fundo vermelho. É, de longe e sem interrupções, a bandeira há mais tempo ao serviço oficial. O século XIII é, aliás, um tempo em que as bandeiras nacionais encontram lar. Foi Afonso X, o 'Sábio', rei de Leão e Castela que fazia cantigas de amor e missa na língua erudita da época – o galaico-português – que primeiro definiu o conceito e as regras das bandeiras. Um tipo decente – renunciou a ser rei do Algarve, em favor de Portugal.

 

As bandeiras contam histórias, mostram o País que representam ou os progressos que a eles estão associados. Prantam plantas, como a do Canadá ou do Líbano, tesouros nacionais, como o templo de Angkor na do Cambodja, ideologias, como as que têm estrelas amarelas de cinco pontas, típicas dos países comunistas que cantam a penta-unidade entre soldados, operários, camponeses, jovens e intelectuais, ou símbolos religiosos, como é exemplo a de Israel, ontentando a estrela de David.

 

Há as bandeiras pan-árabes, que têm a cor preta de Maomé, o branco do califado omíada, o verde dos fatimidas e o vermelho dos carijitas, uma espécie de protestantes do Islão. Há as eslavas, que torcem e retorcem o vermelho, branco e azul – a que a Ucrânia e a Bulgária fugiram – ou as africanas, com seu verde, amarelo, vermelho e até preto, unindo a tradição rastafari do Messias da Etiópia semi-cristianizada e desde sempre independente, com o negro da afirmação continental moderna.

 

Todas as bandeiras contam uma história. A da Índia tem o verde muçulmano ao lado do laranja hindu. A 'roda de bicicleta' ao centro tem 24 aros, que repesentam as 24 horas do dia. Diz-se que a da Áustria, com o duplo vermelho entrecortado de branco, nasceu quando Leopoldo IV, ao chegar de uma batalha, reparou que o seu uniforme alvo estava manchado de sangue; mas, na parte de dentro, tudo continuava branco. Por milagre, tratava-se do sangue de outro que não do arquiduque.

 

 

Há a bandeira do 'Decepado', Duarte de Almeida, que segurou o estandarte de Portugal mesmo depois de lhe cortarem as mãos, na malfadada batalha de Toro, era Afonso V rei de Portugal e pretendente de Castela. Há as bandeiras brancas da paz ou da rendição – que não são a mesma coisa - e as negras da miséria, que é sempre igual. Há as do arco-íris, adoptadas por aqueles que defendem a semelhança dos sexos na diversidade do amor. E há a bandeira hasteada ao contrário, que em termos militares simboliza a tomada do território pelo inimigo e um lancinante pedido de socorro; não era essa a ideia do Presidente cessante quando içou a verde-rubra de pernas para ao ar, comemorando a República, a 5 de Outubro de 2012. E no entanto...

 

Os impérios deixam marcas nas colónias. Não é por acaso que a bandeira de Ceuta tem os campos triangulares a preto e branco, como Lisboa, ostenta o escudo de armas do reino de Portugal e a cidade tem como lema 'sempre nobre, leal e fidelíssima cidade de Ceuta'. O mesmo ocorre em muitas possessões do antigo Império Britânico, que ainda hoje levam a 'Union Jack' – bandeira do Reino Unido – num dos cantos do rectângulo flamular.

 

Bandeira actual da Nova Zelândia, com a Union Jack

 

Os casos mais conhecidos de identificação britânica são, hoje em dia, a Austrália e a Nova Zelândia. Ou eram. A partir de hoje e até ao próximo dia 24 de Março, os neo-zelandeses são convidados a votar, através de referendo, na persistência da actual bandeira ou na sua substituição por outra, entretanto escolhida como possível alternativa.

 

É preciso perceber o que é a Nova Zelândia para comprender o porquê da possibilidade de mudança. Há uma piada recorrente que diz que a Nova Zelândia não existe. Na maior parte dos planisférios, que gostam de pôr o Oceano Pacífico nas pontas e a Europa e a África ao centro, a Nova Zelândia é aquela coisa retorcida, lá em baixo ao fundo à direita; às vezes nem sequer se vê, porque a partição do mapa corta os antípodas.

 

 

Mas o pior de tudo é que não é qualquer um que distingue a bandeira da Nova Zelândia da da Austrália. E, já se sabe, os pequenos é que têm de se pôr em bicos de pés, os grandes vêem sempre o espectáculo como se estivessem na primeira fila. A Nova Zelândia, coitada, além de ainda ficar mais longe do resto do planeta do que os seus vizinhos mais próximos – de Sidney a Wellington são uns 'meros' 2200 quilómetros, tantos como daqui à Holanda, pátria da velha Zelândia – tem como estandarte algo muito semelhante ao que se ergue na enorme Austrália.

 

Mas há mais. Ao contrário dos aborígenes australianos, cuja sorte malvada faz corar de vergonha os índigenas norte-americanos, os povos autóctones da Nova Zelândia têm vindo, paulatinamente, a afirmar os seus direitos. Desde o início do século XX, aliás, que as armas do brazão da Nova Zelândia ostentam, ao lado de uma mulher branca – a cara chapada de Alice Spragg, uma 'socialite' de Wellington – um guerreiro maori. Tanto ou tão pouco que os 'pakheas' – nome maori para os colonizadores brancos, mas que muitos descendentes de europeus assumem sem qualquer afronta, até para se distinguirem de imigrantes recentes, os 'tauiwi' – já começam, nas suas franjas mais conservadoras, a torcer o nariz. Há quem diga que ser maori, na Nova Zelândia, já é um privilégio.

 

Daí que manter as armas do Reino Unido esteja a ficar fora de moda. E há que inovar. Para isso, o Governo local lançou um concurso público de ideias, que pudesse trazer à estampa uma nova bandeira para ombrear com a velha. Foram exactamente 10.292 os desenhos que, ao longo do ano passado, deram entrada nos escritórios do comité oficial instalado de propósito para escolher a alternativa. Nesse caminho, o Executivo de Wellington já gastou 26 milhões de dólares locais (qualquer coisa como 16 milhões de euros) na empreitada.

 

O processo passou por diversas fases. Em primeiro lugar, foram escolhidos 40 desenhos, que foram postos à consideração dos 4,5 milhões de neo-zelandeses residentes, mais os cerca de um milhão de emigrantes. Depois foram escolhidas quatro possíveis bandeiras, três das quais muito parecidas. Uma ganhou. E é essa, a par da actual, que vai ser posta em referendo a partir de hoje.

 

Imagem da bandeira que a Nova Zelândia vai referendar em março de 2016. 

 

No fundo, trata-se de mandar, ou não, para os anais da História a Union Jack, substituindo-a pela folha de feto que é endémica na flora neo-zelandesa, e que já representa o país nas camisolas das selecções de vários desportos, e desde logo no mais importante, o râguebi. A 'silver fern' deverá aparecer sobre fundo negro e azul, de forma oblíqua na diagonal do rectângulo, acima das quatro estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul que já fazem parte da bandeira actual. Ganhou a uma outra em tudo igual, excepto na cor preta – tinha essa parte a vermelho.

 

Segundo as sondagens mais recentes, cerca de metade dos neo-zelandeses estão disponíveis para uma mudança; mas 24% adiantou que faz depender o seu voto da hipótese escolhida. Espera-se uma luta renhida, na terra planetária que mais tarde foi habitada. Só há sete séculos – o tal XIII desta história das bandeiras – é que chegou gente da Polinésia, da Malásia e, eventualmente, da China insular, à Nova Zelândia.

 

Eu, por mim, cheguei mais tarde. Quando, em 1998, aterrei em Wellington, tinha a ideia de ir encontrar uma Austrália mais pequena. Vinha de Sidney, Melbourne e arredores e estava fascinado com a alegria, a liberdade, o mar surfista e as belezas naturais ou maquilhadas da ilha que é um continente. Nada mais falso. As neo-zelandeses de compridas saias pretas e golas até ao pescoço ficam coradas quando a gente as interpela nas ruas. Os homens pouco elegantes que povoam os bares às seis da tarde são de trato distante. Pode ter sido pouca sorte minha. Afinal, nem tive tempo de ver as ovelhas.

 

publicado às 15:21

O que é que fizeram ao Grand Old Party?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Nas primárias do Partido Republicano, realizadas esta semana no Iowa, muitos não se terão dado conta da importância da luta por aquilo a que os norte-americanos chamam o 'idiot vote'. Normalmente mais alinhado com as ideias de Donald Trump, a verdade é que a estratégia de Ted Cruz conseguiu dividir as hostes dessa importante facção de apoiantes do GOP.

 

O número crescente de cidadãos que não conseguem perceber palavras com mais de três sílabas, ou que não distinguem um facto de uma brincadeira, trouxe para os estados-maiores dos republicanos a necessidade de mudar um pouco o discurso e a estratégia de angariação de votos naquele que é, tradicionalmente, o primeiro 'caucus' estadual para indigitação do candidato à presidência dos Estados Unidos.

Segundo os observadores e a própria máquina de Ted Cruz, o senador do Texas começou recentemente a usar frases mais curtas e ideias sensacionalistas, não se coibindo de dizer algo e o seu contrário, numa tentativa de reganhar a liderança do seu eleitorado, que em parte estava a fugir para o lado de Donald Trump. Parece que está a conseguir – no 'caucus' de Iowa, Cruz bateu Trump e forçou até à desistência de Mick Huckabee, uma dos poucos pré-candidatos republicanos que é normalmente referido pelos comentadores e 'opinion makers' como moderado.

 

Mas não foi sempre assim. Longe de se bater pelo voto dos 'idiot', o Partido Republicano tem na sua história algumas das maiores façanhas e conquistas de que os Estados Unidos da América se podem orgulhar. Não sendo um partido fundador do País, ao contrário do Democrático, a verdade é que a partir do dia 20 de Março de 1854, data da sua fundação no Wisconsin, cobre de glória os herdeiros dos 'whigs' e dos 'free soldiers' que lhe deram vida.

 

O Grand Old Party (GOP), nome por que é conhecido desde há muito, teve como primeiro presidente eleito Abraham Lincoln. Nas suas hostes pioneiras acampavam os activistas da abolição da escravatura, os defensores das minorias e do primado da lei.

 

Algures no início do século passado, começou a ter à sua frente médios e grandes proprietários que, abolida a escravatura, reganharam ao sul latifundiário as prerrogativas de mais ricos da América. A alta finança do nordeste substituiu os 'land owners', os protestantes pietistas e radiciais afastaram muitos católicos e anglicanos, e a dada altura os republicanos confundiram-se com o proibicionismo dos anos 20.

 

Mas foi o 'new deal' do democrata Franklin Roosevelt que começou a afastar os moderados da mais alta hierarquia do Partido Republicano. Entre o liberalismo social e as prerrogativas dos trabalhadores, passando pelo aumento de impostos para as classes altas e a maior intervenção do Estado na economia, os defensores das minorias passaram a ser.... defensores da minoria mais abastada.

 

Dominados pelo puritanismo, desconfiados do Plano Marshall e do advento da NATO, os republicanos fecharam-se, e só o enorme carisma de Dwight Eisenhower lhes permitiu furar a primazia que os democratas tiveram, na Casa Branca, durante quase quarenta anos.

 

Mas se depois de Nixon e dos escândalos de corrupção – Watergate incluído – os liberais praticamente desapareceram do Partido Republicano, é com o advento de Ronald Reagan que a linha dura se impõe de forma definitiva. O partido de Abraham Lincoln e de Nelson Rockfeller – considerado o último 'gentleman' do GOP – perdeu para os Ron Paul, os George W. Bush, as Sarah Palin ou... os Donald Trump.

Em média, os eleitores republicanos estudam mais anos que os democratas. Mas nos graus mais elevados de ensino, incluindo licenciaturas, mestrados e doutoramentos, os democratas lideram. Há mais mulheres entre os 'dems', mais negros e... menos 'idiot votes'. Mas Barack Obama baralhou as contas no que concerne a este último item. Não foram encontrados estudos que expliquem porquê.

 

A força dos evangélicos radicais, a par com a influência do 'Tea Party' – muito para além do número, exclusivista, dos seus membros efectivos -, ultrapassou a perda gradual de penetração na classe média-alta, que costumava votar mais republicano. Não há inocentes neste palco – os abastados da Nova Inglaterra vivem bastante bem a coberto dos orçamentos federais altos que os democratas costumam instituir.

 

Nos anos mais recentes, contudo, os teóricos coincidem em afirmar que os 'parolos' passaram a perna aos 'requintados' e 'sofisticados' que costumavam dominar o Grand Old Party. A televisão – sempre ela – é apontada como um dos principais factores de substituição, ao alcandorar figuras como Donald Trump ou ao deliciar-se com as 'gaffes' de George W. Bush ou Sarah Palin. A ideia é que o 'idiot vote' se ri das bacoradas mas não as critica, antes tenta seguir-lhes os passos e fazer a sua vida de acordo com elas. O factor 'reality show' prospera.

Mas há coisas mais sérias. Pessoas como Mike Lofgren, um ex-congressista eleito pelo Partido Republicano, afirmam que há quem, do lado do GOP, tenha uma estratégia para denegrir as instituições democráticas da Nação, estando nomeadamente a pôr em causa uma tradição muita anglo-saxónica segundo a qual quem perde o faz com 'fair-play'. Na verdade, não era comum asssistir, como no caso recente de John Boehner, a afirmações de que a 'luta continua' após a derrota. O 'speaker' [presidente] da Câmara de Representantes referia-se ao 'Obama Care', após a sua passagem apesar dos votos contra da maioria dos republicanos.

 

E aqui chegamos àquilo que muitos consideram ser a maior viragem da história – fértil em volte-faces ela própria – do Partido Republicano. Populista em vez de conservador, alinhado pelos 'sound-bites' de Trump e Palin. Isto num país onde uma recente sondagem dava conta de que os eleitores republicanos ficaram defraudados por, num debate entre Ted Cruz e Donald Trump, os candidatos não terem andado à pancada.

 

Voltamos ao 'idiot vote'. Pouco antes de George W. Bush ter ganho as eleições a John Kerry, uma sondagem lembrou-se de fazer a pergunta: 'com qual deles gostaria de tomar uma cerveja?' Bush 'junior' ganhou por larga margem. Mas como avança Charles P. Pierce, no seu recente livro 'Idiot America – How Stupidity Became a Virtue in the Land of The Free', 'a quantos desconhecidos com quem tomou uma cerveja você entregaria os códigos de lançamento da bomba atómica?'

 

Mas não tiremos conclusões precipitadas, nem queiramos fazer paralelismos com o que acontece na Europa. Afinal, os norte-amercianos são tão diferentes que a cor dominante do Partido Republicano é o vermelho e a do Partido Democrático é o azul. Coisas deles...

publicado às 10:30

30 anos de Cavaco Silva, um momento: seis jornalistas e as memórias de um presidente

Cavaco Silva está prestes a afastar-se da ribalta da política nacional - ao fim de mais de 30 anos em que ocupou os mais importantes cargos da nação, como primeiro-ministro e presidente da república (com uma pausa entre ambas essas funções, do final de 1995 a 2006). Sendo o político que, desde o 25 de abril, mais tempo definiu os destinos do país, são inevitáveis os balanços.

O SAPO24 propôs a seis jornalistas que escolhessem, desses mais de 30 anos, um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco SIlva. Aqui ficam os testemunhos pessoais de Pedro Rolo Duarte, Márcio Candoso, Diana Ralha, Francisco Sena Santos, Pedro Fonseca e José Couto Nogueira.

 

 #1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

 #2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

As imagens que ilustram os seis momentos escolhidos:

 

publicado às 18:36

Bem-vindos ao admirável mundo do filantrocapitalismo

Por: Pedro Fonseca

 

Como é que os responsáveis de empresas tecnológicas aplicam os seus rendimentos na filantropia? Conheça três modelos pelos responsáveis do Facebook, Twitter e Gravity.

 

O filantrocapitalismo está a disseminar­-se nas empresas tecnológicas, mas será um simples interesse norte­americano ou pode ter impacto no resto do mundo? Mark Zuckerberg e a esposa Priscilla Chan resolveram criar uma empresa com fins filantrópicos, no início de Dezembro. O modelo que escolheram foi criar a Chan Zuckerberg Initiative (CZI), uma Limited Liability Corporation (LLC) ou corporação de responsabilidade limitada.

Na declaração entregue às autoridades financeiras pelo Facebook, a empresa explica que o seu fundador vai, "durante a sua vida, dar ou de outra forma dirigir substancialmente todas as suas acções no Facebook, ou o resultado líquido após impostos dos rendimentos das vendas de tais acções, para desenvolver a missão de avançar o potencial humano e promover a igualdade por meio de actividades filantrópicas, de advocacia pública e outras para o bem público".

 

Zuckerberg irá controlar a votação e a alienação de quaisquer acções detidas pela iniciativa, tendo revelado que "pretende vender ou dar não mais de mil milhões de dólares em acções do Facebook a cada ano nos próximos três anos". Zuckerberg tem cerca de 4 milhões de acções da chamada Class A e cerca de 419 milhões de acções Class B, doando 99% dessas acções que, com a mesma percentagem de Chan, podem totalizar 45 mil milhões de dólares. Os "cínicos", como lhes chamou a Quartz, questionaram o modelo da entidade, ­uma LLC e não uma fundação. As vantagens financeiras são diversas e o controlo da entidade também. De qualquer das formas, neste modelo a CZI não irá fugir ao pagamento de impostos e mantém o controlo de investir tanto em entidades com fins lucrativos como não-lucrativos. Mas os seus financiadores continuarão ricos.

 

A decisão de Zuckerberg surge numa altura de "ansiedade sobre o crescimento do chamado filantrocapitalismo", como dizia a revista The New Yorker. No entanto, e apesar da proporção da transferência dos resultados accionistas do Facebook para a CZI, a decisão não é inovadora em termos de doações.

 

Na grande lista de filantropos de empresas tecnológicas, percebe­-se a existência de diferentes modelos.

Em Outubro passado, o recém-­nomeado director-­geral do Twitter resolveu dar aos funcionários um terço das suas acções na empresa, então avaliadas em cerca de 197 milhões de dólares.

 

As acções disponibilizadas por Jack Dorsey ­- o equivalente a 1% do valor da empresa ­- serviriam segundo alguns "cínicos" para acalmar e segurar as equipas internas, após a empresa ter anunciado pouco antes o despedimento de 300 funcionários. E Dorsey manteve ainda assim 2% das acções do Twitter, rede social avaliada recentemente em 17 mil milhões de dólares.

 

Assim, tanto Facebook como Twitter indexam os seus modelos filantrópicos aos resultados do valor das acções das empresas: quanto mais estas se valorizarem, mais o resultado será interessante para os beneficiários das doações.

 

O caso da Gravity Payments: calculismo, ou apenas a ideia dum tolo bem intencionado? 

 

Mas há ainda um outro modelo dentro das empresas, como revela a fantástica história do CEO que queria pagar 70 mil dólares a todos os seus funcionários. Daniel Price, director­-geral da empresa de processamento de cartões de crédito Gravity Payments, anunciou em Abril passado que o ordenado mínimo na empresa seria de 70 mil dólares anuais, revelando também que iria diminuir o seu vencimento de 1,1 milhões de dólares para 70 mil dólares, por forma a concretizar essa ideia.

Dan Price, fundador da Gravity Payments. Licença CC-SA 3.0, via Wikimedia Commons. 

 

A empresa tinha então cerca de 120 funcionários, com uma média anual de vencimentos de 50 mil dólares. O plano, na realidade, apenas duplicava o valor do vencimento a 30 pessoas e aumentava­-o a 40 que ganhavam abaixo desses 70 mil dólares. Não implicava despedimentos, subida de preços nas ofertas comerciais ou cortes nos vencimentos dos outros executivos, porque "mais de metade do custo seria assegurado pelo corte" no vencimento de Price ou pelos lucros da empresa.

 

A revelação da proposta fez aumentar o interesse mensal de clientes de 30 para 2.000 em duas semanas  -­ um impacto enorme no chamado custo de aquisição por cliente ­-, levando à contratação de mais 10 pessoas.

 

Apesar da apresentada visão de combate à desigualdade interna, Price foi processado pelo irmão Lucas, que detinha 30% da empresa, alegando que Price recebia demasiado em vencimentos da Gravity (50 mil dólares anuais em 2011 e um milhão no ano seguinte, segundo várias notícias, tendo recusado uma proposta de consultores da empresa para receber acima dos 1,1 milhões de dólares em 2013).

 

O vencimento de Price era "atípico" para este tipo de empresa, quando o próprio revelou que o lucro da empresa em 2014 foi de 2,2 milhões de dólares. Mas ele também declarou que o seu vencimento obtinha uma "aprovação unânime e total" do conselho de administração, apesar da objecção de Lucas a estas declarações.

 

O anúncio da empresa gerou um enorme envio de currículos.­ 4.500 só na primeira semana após as notícias iniciais,­ mas Price foi também inundado com convites para artigos noticiosos, por agentes para escrever um livro (uma alegada proposta de 500 mil dólares, que irá ser concretizada) ou "cortejado por mulheres nos media sociais", onde conseguiu mais de meio milhão de interacções. Alegadamente, terá contratado a agência William Morris Endeavor Entertainment para fazer discursos  a 20 mil dólares cada um.

 

Como é que ele se lembrou desta generalização de um elevado ordenado para os seus funcionários? Após ler um artigo de 2010, dos prémios Nobel Daniel Kahneman e Angus Deaton, que mostraram como o bem-­estar emocional melhora à medida dos vencimentos, até chegarem aos 75 mil dólares anuais.

 

Mas também pelo funcionário Jason Haley, que ganhava em 2011 cerca de 35 mil dólares anuais. Em tempos, Price confrontou­-o e obteve uma respostainesperada: "Estás a roubar-­me". Isto porque, na opinião de Haley, os resultados de Price na empresa estavam correlacionados com o facto de ele, enquanto funcionário, "não ganhar o dinheiro suficiente para ter uma vida decente".

 

Price poderá ter tido outra visão. O irmão Lucas apresentou uma queixa judicial "duas semanas após o anúncio de Price" à empresa, mas este terá tido conhecimento do processo duas semanas antes. Em resumo: a proposta "magnânima" terá ocorrido um mês após Dan Price saber que "o irmão o processou por, no substancial, ser ganancioso".

 

O processo deve ir a tribunal em Maio de 2016, mas "70 empregados da Gravity ganham agora mais do que antes. Foi o altruísmo ou um caro processo judicial que motivou isso?"

 

Meses depois, dois funcionários deixaram a empresa (Haley não foi um deles) e esta duplicou a facturação e os lucros, ainda segundo a Slate. A Gravity "perdeu alguns clientes: uns objectaram quanto ao que parecia uma declaração política que os pressionava a aumentarem os ordenados" dos seus próprios funcionários, enquanto "outros temeram um aumento de preços ou reduções de serviço".

 

Vários empresários vão estar atentos a esta questão. A experiência de Dan Price "irá ser saudada seja como um golpe de génio mostrando que os empresários têm pago mal a sua força de trabalho, em detrimento das suas empresas, ou como uma prova positiva de que a Gravity está a ser gerida por um tolo bem intencionado".

 

Há diferentes modelos para a filantropia, como se pode ver. O que interessa são os resultados. Nestes três casos, isso está por provar. Anne Petersen, presidente da Global Philanthropy Alliance, explicava à The New Yorker, que a filantropia americana costumava ser sobre a doação local, mas que "houve uma tendência evidente em direcção à doação internacional", tendência que acredita continuar como dominante. A opção da CZI vai nesse sentido, ao contrário dos outros dois exemplos.

publicado às 14:54

Uma gota no Oceano. Mas ir.

Por: Pedro Ribeiro

Nota do SAPO24: este texto foi publicado originalmente no blog do Pedro Ribeiro, Os dias úteis. Agradecemos ao Pedro a autorização para o republicarmos aqui, no SAPO24.

Ajuda a refugiados no campo de Gevgelija, Macedónia.

Quero falar-lhes de Kemal.

 

" i am just simple bosnian man my brother who want to others that what i want for myself"

 

Há ali um país, que é uma bomba relógio de tensões étnicas, e que um dia explodirá. Chama-se Macedónia, e a capital, Skopjie, está dividida entre uma parte mais moderna, macedónia, e uma mais desordenada e menos geométrica, de vielas e mesquitas, a parte albanesa. Ali a uns duzentos quilómetros, em direcção à Grécia, há uma deslumbrante estrada de montanha, com um rio em baixo, coisa de postal. Vai dar à cidade de Gevgelija, onde está instalado um campo de refugiados, gerido pela ACNUR, pela Cruz Vermelha, e por um exército de boa vontade formado por voluntários que decidiram estender a mão aos grupos, cada vez maiores, de pessoas que vinham a pé, da Grécia e do Inferno de países em guerra, países de pobreza extrema, estado islâmico assassino, à solta, cidades arrasadas, toda a esperança negada.

 

Esta cidade, em tempos chamada de Las Vegas dos Balcãs, por ter tantos casinos, tem um campo onde ninguém dorme. Está 24 horas seguidas a receber refugiados e a indicar-lhes o caminho para o comboio, os autocarros ou os táxis, que depois os levam mais para Norte, para o próximo campo, já na Sérvia. E daí hão de avançar sempre mais para norte: Croácia, Áustria, Alemanha. Talvez Noruega ou Suécia. O sonho de paz segue o sentido da bússola: é algures a Norte. 

 

No dia que lá passámos, no campo de Gevgelija, a ajudar como pudemos e soubemos, entraram neste campo mais de 10 mil refugiados. Da Síria, mas também da Somália, Eritreia, Sudão do Sul. E também Egipto. Sim. E Bangladesh, Paquistão, Irão e Afeganistão. Há de tudo. Um professor catedrático de História e História da Arte, que dava aulas numa universidade em Damasco e agora está ali, com a mulher e os dois filhos. A explicar que não entende como a Hungria fechou as fronteiras se, de 1946 em diante, assistiu a uma fuga em massa de refugiados que fugiam do controlo soviético e procuravam abrigo e futuro no ocidente europeu. "They must have forgotten", dizia ele, enquanto recebia a sandes, o sumo, as passas e, à entrada do campo, apresentava a mulher e os dois filhos. "If not Hungary, maybe Germany".

 

Um outro casal sírio perguntava-me, enquanto recebia a comida que nós tínhamos ali para lhes dar, acompanhada de um "welcome": de onde eu era. Portugal, respondi.

 

De trás dos pais, descobre-se um miúdo, 8/10 anos, que exclama, sorrindo "Portugal? Me too!", e aponta para a t-shirt onde está a foto e o nome de Cristiano Ronaldo.

 

Uma outra criança, esta de dois anos, com o pé ferido, chora, enquanto a minha mulher lhe limpa esse pé. Depois calçamos-lhe umas meias e uns ténis. E ilumina-se aquele rosto, um olhar de súbito conforto e o aconchego de uns pezinhos enfim quentes.

 

Uma mulher da Somália, com dois filhos pequenos, explica que perdeu marido, pais e sogros na travessia do mar que desaguou neste caminho das pedras, literalmente. E pergunta, na ingenuidade que diz muito sobre muitas destas pessoas e as expectativas que têm: "Germany, one day walk?

 

Não, minha senhora, ainda tem muito caminho de pedras para andar.

 

Fomos à Macedónia com a ideia de ajudar a descarregar as mais de 30 toneladas de ajuda que milhares de portugueses reuniram, para minorar o sofrimento destes refugiados em fuga. A associação "It's Our problem" e "A Solidariedade não conhece Fronteiras" lançaram esta iniciativa, as companhias de transportes TorresTir e Garland ofereceram os camiões e os serviços dos motoristas. A burocracia e a falta de um papel (parece um sketch, mas não) mantiveram os camiões, motoristas e carga humanitária retidos na alfandega da Macedónia primeiro e depois na da Sérvia. Dias de angústia, frustração e a constatação de que estes países estão prisioneiros de uma lógica de exercício do pequeno poder, corrupção latente, uma cortina de ferro que vive dentro das cabeças de funcionários mal pagos e sem mundo nem vontade de facilitar um milímetro. 

 

A ajuda do ACNUR em português foi decisiva e a carga humanitária foi enfim entregue a quem precisa, já na Croácia. Os milhares de portugueses que deram roupa, brinquedos e comida podem ficar descansados: a ajuda chegou. E, daquilo que vi, pode mesmo fazer a diferença. 

 

Mas gostava que conhecessem Kemal. 

 

"Leave emotions out of the camp", recomendava ele, de olhos cheios de lágrimas, perante uma mulher em pânico porque de repente não sabe da família, naquela confusão de gente e tendas com letras que ela não conhece, numa língua que não é a sua, num chão que lhe é tão estranho como seria Marte. 

 

Kemal é um bósnio que é o mais próximo que conheço de santidade em forma humana. Altruísmo, desapego a valores materiais, entrega total à causa da ajuda ao próximo. E gentileza em todos os momentos. Um exemplo que me ficará, para a vida. Um dia quero mostrar-lhe a minha terra, os nossos filhos, e explicar-lhes que foi este senhor de barba rala e olhos profundos que ficou com as mochilas da Maria, do Francisco e do Miguel cheias de brinquedos que foram deles e agora estão nas mãos de outras crianças, para quem um Capitão Gancho, um Dinossauro, um Homem Aranha são um tesouro e uma espécie de portal da imaginação de novo aberta para a infância, que está a acontecer e tem de acontecer, mesmo no meio deste pesadelo. 

 

Ter ido com a minha mulher, num labour of love, até este campo de refugiados. (Obrigado, Rita, por seres a minha Angelina Jolie. Gosto de pensar que isso faz de mim um bocadinho Brad Pitt. :-)) A sério, ter lá estado. E trabalhado para minorar o sofrimento daquela gente. Ter conhecido o Kemal, mas também a Mariana, a Cláudia, a Sandra e a Ana. O nosso improvisado guia que nos mostrou a cidade velha e nos deixou numa casa de chá turco, e nos ofereceu umas uvas sem graínha, enquanto ia fazer a sua reza do meio dia à mesquita. O Mohamed que tem uma loja e gasta boa parte do lucro a ajudar refugiados. 

 

Ter ido foi ter encarado de frente a diferença, e ter confirmado, uma vez mais, que mesmo nas mais extremas diferenças, somos mais parecidos do que pode parecer. Just people, não é?

 

Não sei como vai a Europa lidar com o que está a acontecer. Mas sei que ter o gesto de ajudar o próximo é um legado que se deixa. Todo o tempo da viagem pensei muito no Gonçalo, na Maria e na Mafaldinha. Da sorte que todos temos por nos termos a todos. Por termos nascido aqui e vivermos neste país. 

 

Esta viagem e esta experiência ficam para sempre, na pele e na memória. Como as experiencias da vida que marcam a fronteira entre um antes e um depois. 

 

Que tenha servido para ajudar, mesmo sendo uma gota no oceano como sabemos que foi. Oxalá. In sha Allah, como diria Kemal.

publicado às 15:05

O último reduto dos orangotangos está a arder

Os orangotangos da selva indonésia estão doentes, famintos e traumatizados pelas chamas que devoraram parte do seu habitat e pelos fumos tóxicos que contaminam o sudeste asiático.

 Orangotango sedado e recolhido na floresta indonésia.

 

No centro de recuperação de Nyary Menteng, na província de Kalimantan, a parte indonésia da ilha de Bornéu, 16 bebés orangotangos com infecções respiratórias provocadas pelos fumos espessos estão de quarentena. Um empregado do centro tenta entreter com brinquedos os mais jovens, que têm febre e tosse. Noutra jaula, vários macacos estão caídos, esgotados pela busca, dias a fio, de água e comida na selva, arrasada pelas chamas que os forçaram a sair.

Alguns orangotangos saltam de barra em barra, na jaula, fazendo estalidos com os lábios, um som que preocupa os cuidadores. "É como um beijo rápido. Quando fazem isso, significa que estão stressados", explica à AFP o funcionário Hermansyah.

A selva da Indonésia é um santuário ecológico, servindo de habitat a inúmeras espécies em vias de extinção, que se veem assim expulsas daquilo que ainda resta dos seus territórios.

 

A técnica agrícola de terra queimada, utilizada para limpar e fertilizar as zonas tropicais, e os incêndios intencionais para expandir os cultivos de palmeiras destruíram em alguns meses 1,7 milhão de hectares nas ilhas de Kalimantan e Sumatra. O óleo de palma é o principal produto extraído destas plantações - intensamente usado pela indústria alimentar e a cujo boicote várias associações ambientalistas têm apelado nos últimos anos. As autoridades indonésias já fizeram algumas detenções relacionadas com os incêndios – nomeadamente, de executivos de empresas suspeitas de mandar atear incêndios.

Os fumos persistentes têm causado infecções respiratórias em dezenas de milhares de pessoas, levando ao encerramento temporário de escolas, e provocaram problemas de tráfego aéreo e protestos de países vizinhos, como a Malásia e Singapura. Há já navios de Guerra prontos para a eventual necessidade de evacuar crianças.

Os incêndios são comuns, mas foram acentuados este ano pelo fenómeno meteorológico El Niño, uma corrente quente que está a provocar mais seca que o habitual.

 

Com AFP.

publicado às 18:42

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D