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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Alívio? Qual alívio?

 Por: Pedro Rolo Duarte

No começo, também suspirei de alívio: um ecologista conseguira vencer a escalada, aparentemente imparável, da extrema-direita nas eleições austríacas, numa segunda volta renhida até ao último minuto. Mas foi só no começo.

 

Quando os números finais apareceram, os títulos dos jornais - Áustria rejeita Presidente de extrema-direita, ou Áustria derrota extremistas - eram mais desejo do que facto. Na verdade, foram apenas 31 mil votos que deram a vitória a Alexander Van der Bellen, numa eleição onde 86% dos operários votaram no extremista Norbert Hofer, permitindo-lhe fracturar ainda mais o país com a ideia de que o povo está com ele, e as elites com o Presidente eleito. Quanto aos partidos clássicos, melhor nem falar…

 

Qualquer que seja o ponto de vista, o caso austríaco veio confirmar a fúria populista, xenófoba e anti-europeia que grassa por toda a Europa, numa vaga de fundo que contraria todos os pressupostos que nos trouxeram até aqui no projecto europeu (com excepção de Portugal e Espanha, que preferem a extrema-esquerda para abrigarem as suas indignações e revoltas…). É um momento triste e lamentável, o que vivemos, por mais que o possamos querer entender.

 

Não me parece que seja uma questão eminentemente política - mas antes, uma revelação da raça tal e qual ela é, quando se sente ameaçada ou acossada por algo cujos contornos desconhece. Pode ser a complexa questão dos refugiados ou a simples aritmética de uma Europa onde os países ricos contribuem para que os países pobres deixem de o ser. Tanto faz. A cultura do individualismo é mais forte do que qualquer boa vontade. A sociologia e a psicologia talvez expliquem melhor a evolução política na Europa, e o estado a que chegámos, do que propriamente a falência dos modelos dos partidos clássicos do centrão, ou o cansaço que todos sentimos de governações mal sucedidas, muitas vezes corruptas, quase sempre ineficazes face às promessas do costume.

 

No Portugal brando e tranquilo, onde a revolução maior é um Governo sustentado numa maioria parlamentar que se parece mais com uma gelatina do que com um bolo, o que se passa no resto da Europa parece interessar pouco. Mas sou obrigado a confessar: não fiquei nada aliviado com os resultados das eleições na Áustria. E apesar de ter nascido bem depois de 1945, já acreditei mais que os europeus tinham aprendido de vez a lição - e, podendo não saber o que queriam, sabiam claramente o que não queriam. Hoje, já não digo nada. Ou digo: aliviado, não estou.

 

Mais leituras para esta semana…

 

É o momento de ouro do humor no Brasil dos dias que correm. Já saltou fronteiras, de tal forma que um dos seus principais autores (e actor), está em Portugal, numa digressão de enorme sucesso por todo país (ver programa e datas aqui…). Mas para conhecer bem a fundo esta equipa da “Porta dos Fundos”, nada como ir ao site oficial do grupo, e depois deixar deslizar o dedo pelos cliques nas dezenas de videos disponíveis no Youtube. Um deles, este, é tão actual que ficou a minha escolha desta semana…

  

O jornal digital Observador fez dois anos de vida e, numa manobra que alguns consideram genial, e outros uma espécie de rendição ao velho papel para efeitos de facturação, publicou uma edição impressa, de grande qualidade, muito bem desenhada por Jorge Silva. Quase todas as matérias constituem um “best of” do jornal, mas há alguns exclusivos (entretanto já disponibilizados online). De todos, destaco a excelente entrevista a Pedro J. Ramirez, o temido ex-director do espanhol El Mundo - e que, uma vez dispensado do cargo com uma indemnização milionária, decidiu investir todo esse dinheiro num novo jornal online, o El Español. Vale a pena ler a entrevista na íntegra.

 

O debate sobre o futuro da imprensa diária, em papel ou online, gratuita ou paga, não acaba. Tem já alguns dias aquela que considero talvez a melhor análise (e argumentação também…) sobre a matéria. Está assinada por Lydian Polgreen, editora do New York Times baseada em Joanesburgo, África do Sul, e pode ler-se aqui

 

 

publicado às 10:59

A extrema-direita esquiva-se ao velho estigma

 

 

 

 

Por: Francisco Sena Santos

 

“Que percentagem de votos para os populistas?” Esta passou a ser a pergunta recorrente no apuramento de resultados de qualquer eleição europeia. Quando se diz populistas, pensa-se em forças políticas (não apenas de extrema-direita) opostas aos ideais de solidariedade que levaram à criação de uma Europa unida. Agora, foi na aparentemente estável Áustria, um país vital nos campos da arte e do saber – mas que em 1938 abriu os braços a Hitler e que então votou a favor da anexação pelo Terceiro Reich.

 

Neste domingo, na Áustria, os eleitores deram o triunfo à extrema-direita (36,4%) na primeira volta da eleição presidencial que eliminou, com dura derrota, os candidatos dos tradicionais partidos maioritários, o SPO dos social-democratas e o OVP dos conservadores, que entre ambos só conseguiram juntar ao todo 22% dos votos. O declínio destes partidos oficialistas tem em contraponto a escalada dos extremistas ultranacionalistas do FPO e o crescimento dos verdes. Toda a coligação xenófoba europeia exulta com estes resultados austríacos, vê-se no twitter como se congratulam o holandês Gereret Wilders ou a francesa Marine Le Pen.

 

A Europa festeja o seu dia em cada 9 de maio. Desta vez, quando o que se vê na Áustria como nos governos da Polónia e da Hungria, também em outros países, é uma não-Europa, será melhor que a celebração seja mobilizada para debates sobre como podemos enfrentar as ameaças e retomar a coesão em torno dos valores essenciais da Europa.

 

São várias as crises com as quais a Europa se confronta, sendo que duas são principais. Uma é a crise gerada por movimentos humanos – centenas de milhar de refugiados de guerra e de migrantes económicos – que tentam entrar no continente europeu pelo sul. A outra crise é política, em grande parte dos países europeus, onde os partidos convencionais do centro-esquerda ou do centro-direita, estão a ser desafiados por partidos contra o sistema. Muitos deles, com discurso de intolerância, que tem terreno fértil quando a vida é o desemprego e a ausência de futuro nesta Europa que está politicamente débil.

 

Os partidos tradicionais começaram a ficar tolhidos pela submissão ou falta de alternativas às impostas receitas da austeridade. Depois, deixaram-se cair no prato envenenado de não desmontarem preconceitos e medos em torno de refugiados e migrantes. Deixaram que se instalasse o temor de ameaça civilizacional com a chegada maciça de muçulmanos, eslavos e outros.

 

Na Áustria, os partidos clássicos, juntos em grande coligação de bloco central no governo em Viena, perante a pressão contínua da extrema-direita, assente na questão dos refugiados, perderam a cabeça e tentaram passar a ser eles a encabeçar a onda populista: fecharam fronteiras e chegaram ao absurdo de fazer construir um muro anti-imigrantes na fronteira entre Itália e o Tirol austríaco. O muro, obviamente, não trava nada a não ser a confiança, é apenas um lastimável símbolo. O governo de Viena travestiu a sua acção com o discurso da extrema-direita, esqueceu que a cópia fica sempre abaixo do original, chegou às eleições presidenciais e foi estrondosamente derrotado. Pela primeira vez na história da Áustria os candidatos dos grandes partidos que antes costumavam superar juntos a fasquia de 80% dos votos, agora, ficam excluídos da ronda decisiva da eleição. A escolha dos austríacos, em 22 de maio, vai ser entre o ultra-direitista Norbert Hofer (36,4% dos votos), um pistoleiro candidato anti-imigrantes e eurocéptico (diz-se “um protector da Áustria, quer que o país não seja segurança social para estrangeiros” e defende o direito de cada austríaco a armar-se) e o veterano economista ecologista Alexander van der Bellen (20,4%).

 

O que está a acontecer na Áustria, tal como em outros países europeus, merece ser ponderado. Há um dado relevante: pesquisas mostram que o voto na extrema-direita tem grande base nos eleitores jovens. Significa que o estigma que marcou a extrema-direita nas gerações das décadas seguintes à Segunda Grande Guerra está agora a ficar esbatido. Para isso contribui o facto de o discurso desses partidos extremistas se ter modernizado e ter descolado de seduções pelo nazismo ou pelo fascismo. Os eleitores jovens, revoltados com a incapacidade dos partidos tradicionais, escolhem votar fora do sistema. É a expressão da contestação ao fracasso de quem tem governado. Há quem opte por votar na esquerda do leque político (Podemos em Espanha, BE em Portugal, Die Grunen/Os Verdes na Áustria e na Alemanha), mas o movimento na Europa central e de leste vira-se sobretudo para a direita extrema. É uma onda nacionalista, intolerante, egoísta, contrária aos valores fundadores da Europa. Por isso, há que enfrentar esta nova realidade que se instala. Há uma atmosfera que assustadoramente faz lembrar o que lemos sobre a Europa no começo dos anos 30 do século XX.

 

 

VALE LER:

 

A Europa observada pelo historiador Ian Kershaw: “O que tínhamos por estável agora treme”.

 

Zona nuclear de exclusão: 30 anos depois, o que resta de Tchernobil? A lição da catástrofe está aprendida?

 

Os destinos europeus mais em conta para uma escapadela estão a leste. Mas também vemos que o mapa da Trivago coloca Lisboa com preços razoáveis.

 

Que porção de alimentos devemos comer? Convém controlar este desejo.

 

Hoje há um mini-Tuesday nos EUA: cinco estados a votos em primárias. A santa aliança republicana contra Trump pode funcionar? Pouco provável.

 

À espera do regresso de Twin Peaks.

 

As primeiras páginas do Brasil no SAPO Jornais mostram como o impeachment de Dilma avança imparável. Mas a vaga está para continuar.

publicado às 08:35

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