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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O carro do "rei" esteve desaparecido 50 anos. Até que Jack lhe deu uma nova vida

 Por: Paulo Rascão

 

Todos os anos na praia de Pebble Beach, na Califórnia, mais concretamente ao buraco 18 do Pebble Beach Golf Links, tem lugar uma das mais sérias competições automóveis do mundo. Ao contrário de Le-Mans ou do Mónaco, não ganha o mais rápido, mas sim o mais bonito. Entre os mais bonitos deste ano, está o carro do "rei" Elvis, que esteve desaparecido quase 50 anos e que é uma história de verdadeira dedicação de um coleccionador chamado Jack Castor.

 

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O “Pebble Beach Concours d’Elegance” reúne 200 dos coleccionadores de automóveis mais premiados, do mundo que todos os anos vão orgulhosamente mostrar ao publico e ao exigente júri as suas “jóias” do restauro automóvel. Os proprietários gastam anos de trabalho e autênticas fortunas para conseguirem ter um carro premiado.

E será depois do desfile no 18º buraco do campo de golfe (apelidado pelos concorrentes como “the best finishing hole in golf”) que hoje será conhecido o vencedor deste ano.

 

Competindo com as vedetas habituais - Ferraris, Lamborghinis, e uma reunião de modelos do Ford GT - a BMW leva este ano ao desfile um carro muito especial.Trata -se de um singelo roadster dos anos 50, o BMW 507. Dois lugares, “apenas” 150 cavalos de potência debitados por um motor V8 de 3.2 litros e 205 kms hora de velocidade máxima. Mas estes não são os números que interessam. Neste carro em concreto o número mágico é o 70079, e está escrito no chassi. E o que é que tem de especial?

 

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Pois bem, o BMW modelo 507 com o número 70079, pertenceu a Elvis Presley. Comprado na Alemanha no tempo em que o rei ali cumpriu o serviço militar obrigatório e também conheceu a sua futura mulher, Priscilla, que acompanhava a mãe e o padrasto, um oficial da força aérea americana. O carro do rei do rock esteve desaparecido quase 50 anos até que foi descoberto na garagem de um coleccionador na Califórnia. Depois de quase dois anos de restauro no departamento de clássicos da BMW, volta a rodar para se estrear no “Pebble Beach Concours d’Elegance”.

 

 

O “BM” do Jack que o rei usou na tropa

 

A BMW só produziu 254 automóveis do modelo 507, entre os anos de 1955 e 1959. O que fazia do carro já por si uma raridade. O 507 de Elvis Presley foi comprado em Frankfurt por impulso depois de fazer um test drive. O carro  tinha sido usado em competições por  um corredor conhecido na altura como “hillclimb champion” de seu nome Hans Stuck, que tinha feito algumas modificações ao modelo original, nomeadamente uma caixa de velocidades nova.

 

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O jovem soldado Elvis, então com 23 anos, já era uma estrela reconhecida a as fãs deixavam beijos e mensagens escritas com baton na pintura branca do carro. É por isso que Elvis decide pintá-lo de vermelho para “disfarçar”.

 

Em 1960, depois do serviço militar cumprido, o carro foi despachado para os Estados Unidos, mas poucos meses depois foi vendido em Nova Iorque por 4500 dólares ao animador de rádio Tommy Charles que leva o 507 para a sua terra natal, Birmingham, no estado da Alabama -  e o pequeno carro agora vermelho volta às pistas. É-lhe mudado o motor, caixa de velocidades, eixo traseiro, painel de instrumentos e tem um gloriosa segunda vida nas corridas. Em 1963 é de novo vendido com tantas modificações que já quase só o número 70079 lembrava que era o carro do rei do rock.

 

Mais duas mudanças de dono e em 1968, o 507 vai para a Califórnia e passa a ser o carro de todos os dias de um engenheiro espacial, Jack Castor, colecionador de bicicletas e de carros antigos. Os anos passam e o 507 junta-se à restante coleção na garagem.

 

Jack foi colecionando informações e peças originais do 507 como o intuito de o restaurar, até que um dia, ao ler um artigo na revista “Bimmer” sobre o carro de Hans Stuck e depois de Elvis, resolveu escrever à jornalista Jackie Jouretcarrium  que assinava o artigo a dizer que tinha um BMW 507 e com número de série 70079.

 

O departamento de clássicos da casa mãe da BMW há muito que procurava o carro do Elvis e quando a jornalista os informou que o carro estava na Califórnia, a BMW quis imediatamente adquiri-lo. Mas o engenheiro espacial tinha planos para o 507 e não o vendeu logo; foram necessários vários anos de namoro até que Jack aceitasse a proposta dos alemães, com a condição que o restauro fosse executado com todo o rigor como ele planeara fazer, embora a idade avançada já não lhe permitisse.  

 

Finalmente, o carro volta para a Alemanha, em 2014, num contentor juntamente com as peças originais que Jack tinha vindo a colecionar, e depois de uma breve passagem pelo museu da BMW, numa exposição intitulada, “Elvis’ BMW 507 – Perdido e Achado”, começa o enorme trabalho de restauro, que leva quase dois anos. Para chegar à versão original de 1958.

 

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O carro foi totalmente desmanchado e foram recuperadas todas a peças originais que estavam em bom estado. As partes que não se conseguiram recuperar foram  feitas do zero, com o método dos anos 50 e tecnologia de ponta a ajudar. Os puxadores da portas foram impressos em 3D com base na digitalização tridimensional dos originais e a pele e a costura dos bancos coincide com as fotografias de 1955. O motor e a suspensão foram reconstruídos e a pintura voltou a ser o branco original.

 

Todo o restauro foi executado conforme as indicações do Jack. Embora ele não tenha chegado a ver resultado final, porque faleceu no final de 2014 com setenta e sete anos. Se este carro foi do rei o grande legado que ficará do 507 será o de Jack Castor que cuidou e preservou a jóia da coroa durante tantos e anos, sem saber a quem tinha pertencido antes.

 

E agora graças aos investimentos no restauro que a BMW Classics fez, hoje será possível a outros donos deste modelo, encomendar peças  que entretanto foram produzidas para o 507.

publicado às 17:59

Vão de carrinho...

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Houve um tempo em que ter carro era coisa de rico. Reconheço a ideia em filmes dos anos 40 e 50 do século passado, e em muitos romances que recuam a essas décadas. Mas não era nascido na época em que o mundo ocidental considerava o automóvel um objecto de luxo.

 

Quando comecei a ter consciência de mim, na década de 70, o conceito era outro: qualquer um (em rigor, qualquer família…) podia ter o seu automóvel, “devia” ter o seu automóvel, porque havia modelos para todas as bolsas, e a mobilidade individual estava em plena expansão. Era o tempo do Fiat 127, do Opel Corsa, do Citroen AX, do Renault 5 - e a publicidade, que adoro rever (obrigado, You Tube, por existires!), exaltava o lado democrático da acessibilidade, o que me ajudou a crescer sem manias: ter carro era, em si, uma mais-valia - mas a diferença entre um FIAT e um BMW não me impressionava excessivamente…

 

Só voltei a preocupar-me com a questão no começo dos anos 80, quando tirei a carta e me confrontei com o preço dos carros, os seguros, os pneus, as revisões. O automóvel entrou na minha vida como na de toda a geração a que pertenço: indispensável para o trabalho e o namoro, mas uma despesa permanente. Quanto mais pobres, pior: o carro em segunda mão (sempre uma espécie de ovo kinder, nunca se sabia o que lá estava dentro…), os modelos novos baratos (porém cheios de defeitos, que se revelavam ao fim de poucos meses), os seguros muito caros para quem estava em começo de vida. Uma chatice. Quando estava à beira de decidir deixar de ter carro, a década mudou. Chegaram os anos 90.

 

Com eles vieram as modernices nos motores e tabliers, os créditos fáceis, as auto-estradas, e a falsa ideia de que qualquer pessoa, desde que trabalhasse e tivesse um rendimento acima do salário mínimo, podia ter o automóvel dos seus sonhos - desde que os sonhos não subissem a um Aston Martin ou a um Ferrari. Assim se modernizou um parque automóvel (parte boa) de uma população sem dinheiro para o pagar (parte má).

 

A crise, que na década passada decidiu tomar conta das nossas vidas, fez do sonho um tormento. Não foi apenas a impossibilidade repentina de cumprir as prestações e os leasings - foi o Estado a ver no universo automóvel mais um meio de sugar dinheiro para pagar a sua obesidade mórbida: imposto automóvel, portagens, impostos sobre gasolina, circulação, estacionamento pago na via publica. Vale tudo. E esta semana, perante a vergonhaça do Orçamento que chegou a Bruxelas, a resposta não se fez esperar: quem tem automóvel vai pagar mais 19% de impostos (rico ou pobre, tanto faz - coisa de esquerda, não é?!…), a ver se se conseguem arrecadar mais 580 milhões de euros de receita. Parece que vai nascer uma taxa para pagar a circulação entre a garagem do prédio e a rua…

 

Perante mais este atentado a quem vive do trabalho - e usa o carro maioritariamente para esse efeito -, voltei a ponderar deixar de o ter. Estudei percursos, alternativas, transportes públicos disponíveis. Consegui animar-me com a ideia - até me lembrar do pesadelo que vivi no Verão passado, quando achei “genial” a ideia de ir, sempre em transportes públicos, à Praia Grande (a 35 quilómetros de Lisboa), ver o meu filho trabalhar como nadador-salvador. É verdade que cheguei lá. Mas foi às 17:00, depois de três horas de comboios e camionetas. Porquê?

 

Porque o Estado, que decide agora aumentar em 19% os impostos sobre o universo automóvel, é o mesmo que privatiza - e ao fazê-lo, obriga a rentabilizar a quem comprou (isto é, reduzir horários e percursos) - o que era de todos: o transporte público. Com isso, mata as alternativas ao automóvel. Imobiliza os mais pobres, deixa via aberta aos mais ricos.

 

Dispensava com gosto o automóvel, cujo custo mensal é francamente superior ao beneficio que me dá - mas tinha alguma esperança de que uma “maioria de esquerda” cumprisse os desígnios que tradicionalmente lhe reconhecemos, e compensasse esse brutal ataque à classe média com medidas sociais: benefícios e melhorias na rede de transportes públicos. Nem isso sucede.

 

Parecem cheios de vontade de ir de carrinho. Não vai demorar muito tempo.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

Confesso: tenho conta de Twitter, mas não uso nem consulto. De vez em quando recebo uns mails de sedução da plataforma, uma vez por outra leio citações na imprensa de pessoas importantes que publicaram coisas no Twitter. Sempre achei que escrever em cima da hora era o mesmo que escrever mal. Mantenho-me distante. Agora, saltam-me matérias, nos jornais e newsletters, pouco simpáticas sobre o Twitter. E até mesmo sobre alternativas como o Telegram. O que se passa?

  

Na segunda-feira que vem há festa no Cais do Sodré, em Lisboa. Festejam-se três anos de poesia dita, cantada, gritada, sussurrada, no bar O Povo. Já uma vez chamei a este encontro semanal “O milagre das segundas-feiras”: “Num país deprimido e triste, onde parece nada acontecer, e só ter sucesso o mínimo denominador comum, o milagres das segundas-feiras d’O Povo é o sinal mais animador da cidade e uma espécie de prova de vida regular da nossa existência”. A ideia mantém-se. E a vitalidade cresce. Um brinde à poesia n’O Povo e a festa mais do que merecida.

  

Para um americano, talvez não seja a mais clara e interessante das fontes - mas para um europeu, para mais pouco ligado a um processo eleitoral intrincado, confuso, e onde muitas vezes se confundem sondagens com eleições primárias, estados representativos com outros marcadamente democratas ou republicanos, e todo o processo eleitoral parece uma roleta de Las Vegas, a cobertura do britânico The Guardian é talvez a mais completa, transparente e esclarecedora, para a eleição deste ano. É a que leio, é o meu conselho.

 

 

 

publicado às 09:24

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