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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Amado vai ter de aprender mandarim

Por: António Costa

E se, nos próximos três anos, a União Europeia entrar em recessão profunda, os juros subirem de forma significativa e as matérias-primas caírem para níveis historicamente baixos, o que sucede ao balanço do Millennium bcp? Segundo os resultados dos testes de stress, não acontece nada de especial. O banco de Nuno Amado resiste claramente acima da linha de água, isto é, dos mínimos exigidos pelas autoridades europeias. Talvez por isso, Amado vai ter de aprender mandarim.

 

 

A banca em Portugal estava, ainda está, numa espécie de limbo, à espera de um movimento que pudesse ser um ‘game changer’, depois de um plano de intervenção externa que deixou o sistema financeiro debaixo do tapete. Era para ser a oferta do Caixabank sobre o BPI, mas continua parada, embrulhada em formalidades e legalidades. Era para ser o Novo Banco, mas não há maneira do Banco de Portugal e Fundo de Resolução encontrarem um comprador. E nunca esteve para ser a CGD, especialmente com esta gestão política do Governo que deixou o banco público parado desde pelo menos janeiro deste ano. Do BCP, esperava-se qualquer coisa, até porque a reestruturação orgânica não chegava e era, é, preciso capital novo.

 

 

Depois dos testes de stress, em que o BCP apresentou um rácio, sob stress, de 7%, acima dos 5,5% exigidos, chegou o capital, ou pelo menos a intenção firme de investimento da Fosun, um grupo chinês que já tem em Portugal a Fidelidade e o grupo de saúde Luz. Já tinha concorrido ao Novo Banco há um ano, quer agora ter até 30% do BCP, banco que é hoje dominado pelos angolanos da Sonangol. A Fosun está disponível para investir cerca de 500 milhões de euros, mas a segunda tranche, de 250 milhões, implica um aumento de capital para todos os acionistas do banco, que Nuno Amado muito agradeceria, apesar das declarações públicas de que o BCP não precisa disso. Precisa, pois.

 

 

Há, ainda, formalidades a ultrapassar, a primeira das quais o impacto da venda do Novo Banco no capital dos bancos que são os ‘donos’ do Fundo de Resolução. Depois, a aprovação dos reguladores, leia-se do BCE, a mais capital chinês na Europa e no sistema financeiro. Em ambos os casos, as respostas serão mais determinadas pela necessidade de capital do que pela nacionalidade.

 

 

 

O BCP passará a ser chinês, Angola perderá peso, e isso pode ser um ‘game changer’, desde logo para o BCP, que passa a estar mais capitalizado, num setor ainda à procura de melhores dias e mais negócios rentáveis. Sobretudo depois de ter aumentado as provisões no primeiro semestre para digerir, de uma vez, parte significativa das imparidades que continuam a pesar nas contas. O que quer, agora, o BCP neste novo quadro acionista relativamente à operação de venda do Novo Banco? Ninguém sabe, pelo menos ainda.

 

 

Além disso, o BPI, o outro candidato bancário ao Novo Banco, está paralisado por uma oferta e por uma guerra de acionistas que torna praticamente impossível uma oferta firme no prazo necessário quando, em setembro, o governador do Banco de Portugal exigir novos compromissos.

 

 

 

O setor começa a ficar arrumado, sem bancos de capital privado português, como se antecipava, mas com bancos privados a falarem línguas diferentes, em concorrência, desejavelmente para benefício dos que têm de pedir financiamento. À língua portuguesa da CGD, já temos o castelhano e catalão, soma-se agora o mandarim, e veremos, depois, que nacionalidade vai ter o Novo Banco.

 

 

 

 

Escolhas

 

 

E por falar em bancos, o Novo… Banco tem um novo presidente. A partir de hoje, é António Ramalho, um homem dos bancos que, de forma intermitente, passou por outros setores, o último dos quais a Infraestruturas de Portugal. Se não é inédito, é quase: Ramalho substitui Eduardo Stock da Cunha a meio de uma operação de venda do Novo Banco que ainda ninguém arrisca dizer como vai acabar. Em setembro, já depois das férias, saber-se-á, mas com a informação disponível hoje, arrisco um desfecho: a venda de uma participação minoritária a um investidor ou mais e entrada no mercado de capitais, à espera de melhores dias, do próprio mercado e das contas do Novo Banco, que no primeiro semestre fechou com prejuízos de 362,6 milhões de euros.

 

 

Agora que o país vai a banhos, podemos sossegar, nem que seja por umas semanas, poucas, porque o segundo semestre vai ser difícil. Basta ver o detalhe da execução orçamental e o que indicam os principais indicadores económicos para o resto do ano.  Portugal escapou às sanções, sim, mérito de António Costa, que continua a demonstrar habilidade política. Mas já tem outras sanções a caminho, e agora não pode invocar a Comissão Europeia como fonte de todos os males. O BE e o PCP já perceberam isso. Ao contrário de Pedro Passos Coelho, que continua parado em outubro de 2015, à espera de chegar ao poder na sequência de uma crise. Assunção Cristas agradece. E que tal, Passos Coelho, apresentar um plano, ou umas quantas ideias, pelo menos, que reformem o país, coisa que a geringonça, pela sua natureza, será sempre incapaz de o fazer? Os banhos, esses, pode acompanhar aqui, em www.sapo24.pt.

 

 

Eu, da minha parte, entro hoje numa espécie de férias, a preparar o lançamento do ECO, um novo jornal económico digital, ‘mobile first’, que chegará ao mercado no último trimestre. Pode acompanhar em www.eco.pt as últimas novidades, a equipa e ao que vimos.

 

 

 

Boas férias para os que podem, bom trabalho para todos os outros.

publicado às 10:26

É isto o novo normal? E vamos habituar-nos a ele?

Por: Paulo Ferreira

Terrorismo, derrocada da banca, extremismos. O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um outro equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas.

 

Os sobressaltos sucedem-se e cada um deles aumenta os riscos que pendem sobre as nossas cabeças. É o terrorismo e as suas variadas formas, propósitos e geografias. É a prolongada estagnação económica, que ameaça os equilíbrios que fomos construindo durante décadas. É a banca, que tomou como refém o dinheiro dos contribuintes. É o Brexit e a machadada que dá na União Europeia. É a crise de refugiados com o humanismo a que nos obriga. É agora a Turquia, num reforço da deriva autoritária contra tudo o que são os valores que gostamos de atribuir à Europa. É o crescimento dos extremismos e do radicalismo ideológico.

 

Chegámos até aqui lentamente, passo a passo e começamos a ter a perigosa percepção de que “isto” é normal.

 

Cada novo ataque terrorista, por mais hediondo que seja, é cada vez mais um. Todos lamentamos, todos choramos as vítimas e nos indignamos com a barbaridade: como é possível? Mas regressamos à nossa normalidade cada vez mais depressa. O 11 de Setembro - já lá vão 15 anos - e a série da Al Qaeda que continuou em Londres e em Madrid já estão tão longe… Já morreram outros milhares de inocentes depois disso e há quem defenda que temos que nos habituar poque vai continuar a ser assim. Temos mesmo? Devemos habituar-nos?

 

Outro plano, que nós portugueses conhecemos por experiência própria: a banca. Aqui não se trata de ceifar vidas humanas no sentido literal mas da ameaça à nossa forma de vida e à prosperidade a que temos direito. Lembram-se do BPN e do escândalo que foi a derrocada, a nacionalização e a conta que todos estamos a pagar? Dizia-se que tínhamos “batido no fundo”. Somos ingénuos, porque o fundo não era ali. O fundo está, afinal, lá muito mais abaixo e provavelmente ainda não chegámos lá. Depois disso foi o BPP, o BES e os efeitos colaterais na PT, o Banif, agora a capitalização da Caixa. Tudo cada vez mais olhado como fazendo parte da normalidade. Lá fora - que não é verdadeiramente lá fora, as contas destas coisas são sempre mais ou menos partilhadas - a Itália está com um problema bancário de 300 mil milhões e a Alemanha tem o seu Deutsche Bank com uma factura estimada de 150 mil milhões. Os problemas da banca tornaram-se tão normais como o calor em Agosto e o frio em Janeiro.

 

E os refugiados, que continuam a morrer às centenas e os cadáveres a darem às nossas costas, obrigando-nos a refazer as estatísticas?

 

Recordam-se quando os partidos extremistas eram vistos como uma ameaça por chegarem aos 4% ou 5% em eleições? Eles aí estão agora, a disputar o poder taco a taco, nalguns casos. Junte-se, para compor o quadro, a real possibilidade de virmos a ter Donald Trump na Casa Branca e Marine Le Pen no Eliseu. Assustador, não é? Aos nossos olhos pode ser, mas não desprezemos arrogantemente os milhões que votam neles e noutras propostas políticas extremas, venham elas da direita ou da esquerda.

 

Elas são sobretudo alimentadas pelos receios de cidadãos pacatos que, inquietos com a falta de respostas das instituições em que já confiaram no passado, decidem apoiar soluções radicais para resolver problemas que eles sentem como sendo também radicais. É a lógica do “para grandes males, grandes remédios”, embora estes remédios sejam verdadeiramente uma nova doença.

 

O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um novo equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas. Faltam lideranças capazes, é certo. Essa é mais uma perigosa normalidade.

 

Sobre os sapos conta-se a conhecida experiência laboratorial. São sensíveis à temperatura, claro, e se atirados para uma taça com água a ferver eles saltam imediatamente dali para fora. Mas se forem colocados num tacho com água à temperatura do lago onde vivem eles ali ficam quietos. E se esse tacho for aquecido em lume muito brando o animal vai-se acostumando e não é accionado o instinto que o leva a fugir. Até morrerem cozidos quando a água ferve. É assustador pensar que podemos estar hoje a ser estes sapos.

 

Outras leituras

 

Há cerca de um mês tivemos um momento alto de demagogia por parte de António Costa com a tirada (cito de cor): tantos problemas graves para resolver na Europa e Bruxelas preocupa-se é em aplicar sanções a Portugal. Independentemente da injustiça das sanções no nosso contexto, esta abordagem transborda a populismo. Senão, veja-se o que se passa hoje no nosso Parlamento: tantos problemas sérios para resolver no país e os deputados preocupados com os cogumelos shiitake.

 

Não aprendemos mesmo com os erros passados. Os contribuintes vão pagar 10 milhões de euros em vez dos automobilistas, que beneficiam de um desconto de 15% em algumas portagens. Era importante ter estudos sérios sobre o verdadeiro impacto desta redução de preços na circulação nestas auto-estradas. Quantos condutores deixarão de utilizar vias alternativas porque a portagem desceu de 10 euros para 8,5 euros? Quando as contas puderem ser feitas será já demasiado tarde.

publicado às 11:52

O que faz falta é animar a malta. Da banca, claro.

O vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Vítor Constâncio, foi orador numa conferência organizada pela Universidade de Navarra onde, naquele jeito cabisbaixo de quem quer passar despercebido, partilhou com a audiência a sua visão sobre o que faz falta nestes tempos pós-Brexit. Disse Constâncio: “A situação atual, depois de uma nova onda de baixas nos preços das ações depois do ‘Brexit’, merece uma reflexão profunda sobre a compensação de algumas falhas de mercado com um pequeno apoio público para melhorar significativamente a estabilidade de alguns setores bancários”.

 

A afirmação pode parecer mais ou menos densa – Constâncio style – mas não percam o foco do essencial. Porque o essencial a reter do “pensamento” do vice-presidente do Banco Central Europeu e ex-governador do Banco de Portugal é que precisamos de dar um “pequeno apoio público” à banca para resolver “algumas falhas” do mercado.

 

Pequenos apoios públicos e bancos na mesma frase só pode ser produto de um problema de memória. Que, aliás, parece ser um problema recorrente em Vítor Constâncio. Para que não padeçamos todos da mesma doença, é importante recordar o que, ainda há pouco tempo, o mesmo Constâncio disse sobre a situação do Banif, um dos bancos, mais um, que nos obrigou a uma “reflexão profunda” sobre as falhas do mercado. A 28 de Junho, o vice-governador do BCE disse ter hoje uma memória "muito lacunar" dos assuntos em torno do Banif que lhe passaram pelas mãos. Conseguia apenas recordar-se o suficiente para garantir que, até 2010, o banco não apresentava "problemas significativos". Isto porque 2010 é precisamente o ano em cessou funções no Banco de Portugal, a entidade que tinha como responsabilidade supervisionar os bancos.

 

A memória que guarda dos seus tempos enquanto governador do Banco de Portugal é tão “lacunar” que para responder à comissão parlamentar de inquérito ao Banif – tarefa à qual se tentou escusar por todos os meios – Constâncio até teve de consultar a página de internet do Banco de Portugal, porque o Banif não figurava sequer na sua lista de prioridades enquanto governador do Banco de Portugal (não era suficientemente importante) e, como gosta de recordar, nunca teve a seu cargo o pelouro da supervisão. "O Banif não era dos bancos mais importantes do sistema e não suscitou durante o meu mandato problemas significativos que me tivessem sido apresentados a mim ou ao Conselho de Administração", afirmou.

 

Ora, Constâncio foi governador do Banco de Portugal durante dez anos, entre Fevereiro de 2000 e Maio de 2010. O mesmo periodo em que também não se apercebeu de que alguma coisa de relevante se passasse com outro banco, o BPN. E outro, o BPP. Para não falar mesmo daquele outro, o BES. Provavelmente, nenhum era suficentemente importante para entrar na agenda do governador.

 

Talvez fosse importante sabermos quais foram as prioridades desses dez anos de má memória para Vítor Constâncio, até para lhe fazer justiça. Vamos imaginar que ao descartar como problema bancos que se tornaram um grande problema, preveniu que situações bem mais graves acontecessem. Só que a história teima em não lhe fazer justiça porque quanto mais sabemos do que se passou nos últimos dez anos na banca, mais ficamos convictos de que, a existirem novidades, serão sempre piores e não melhores. Como aliás atesta a recente implosão do dossier Caixa Geral de Depósitos. É por isso que quando ouvimos falar de “pequenos apoios públicos” temos todas as razões para ficar nervosos.

 

Mas voltando ainda a Constâncio. Terminado o seu mandato em Portugal, foi indicado para exercer as funções de vice-governador do Banco Central Europeu, o que faz com que sempre que se fala deste tema seja irresistível concluir que se tratou de uma promoção pelo bom trabalho. É uma ironia amarga, mas valha-nos que Constâncio demonstra um inequívoco sentido de missão europeia. Só que é daquela Europa que nos trouxe aonde estamos hoje, nos tais tempos pós-Brexit. A Europa dos poderes centrais que nada devem nem temem às democracias de cada país.

 

Foi em nome dos sacrossantos processos europeus que Constâncio se recusou a prestar declarações ao parlamento português sobre o Banif, invocando a violação das normas que regem a União Europeia. Não é falta de vontade, terá dito, é mesmo e tão somente em nome do rigor das regras europeias. Foi imediatamente secundado pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, em carta enviada ao parlamento português que pôs os pontos nos iis e lembrou a cada um o seu lugar: a partir do momento em que foi nomeado vice-governador do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio passou a ser um quadro de uma instituição Europeia que responde apenas perante o Parlamento Europeu, conforme o Tratado da União Europeia.

 

Bom, então isso deve querer dizer que, de 2010 para cá, deverá poder responder como responsável do Banco Central Europeu e, nesse âmbito, ouvido pelas suas responsabilidades nessa função. Errado, uma vez mais.

 

No documento que enviou ao Parlamento Português, Vitor Constâncio não deixa margem para equívocos e não apresenta qualquer “memória lacunar”. Esclarece que o próprio BCE só passou a ter responsabilidades de supervisão a partir de novembro de 2014, através do Mecanismo Único de Supervisão. E sabem que mais? Este dito mecanismo está fora do pelouro do vice-presidente, lugar que Constâncio ocupa.

 

Mas se, mesmo assim, algum espírito mais teimoso e mal intencionado ainda procurar ver no lugar do vice-governador do BCE algum resquício de responsabilidade, Constâncio também tem resposta: as responsabilidades de supervisão do BCE só se aplicam aos maiores bancos de cada país, o que não era o caso do Banif, que era supervisionado diretamente pelo Banco de Portugal.

 

Constâncio foi secretário-geral do PS, ministro das Finanças, governador do Banco de Portugal e é, há seis anos, vice-governador do Banco Central Europeu. Só para avivar a memória de todos nós. Às vezes, também nos dava jeito não nos lembrarmos de que foi e é assim que chegámos a esta Europa e a este status quo da banca, dos negócios e da política.

 

P.S. – Para ajudar a suprir alguma “memória lacunar”, aqui ficam também alguns números: entre 2008 e 2014, os portugueses deram um “pequeno apoio” de 19,5 mil milhões de euros à banca - o equivalente a 1950 euros por contribuinte e, em contas mais macro, a 11,3% do produto interno bruto. Os dados são do Banco Central Europeu, por isso devem ser fidedignos.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Outras sugestões:

Portugal está entre os países com pior salário e segurança laboral, diz a OCDE. E somos, também de acordo com a mesma organização, o 10º país, numa lista de 38, com maior carga horária laboral: 1.868 horas, mais 102 horas que a média da OCDE. A Alemanha é, entre os países analisados, o que regista menos horas de trabalho ao ano, com 1.371 horas. Lá voltamos nós a falar de produtividade, trabalhar melhor em vez de trabalhar mais e de criar condições para que isso possa acontecer.

 

 

O que perguntam as mães e os pais ao Google sobre os seus filhos? Depende, se são meninos ou meninas. Dos primeiros querem saber se são inteligentes, das segundas se são bonitas. Mais um contributo para a discussão sobre os estereótipos de género.

 

A verdade – seja lá o que isso for. É essa a materia-prima de Karl Knausgård, o norueguês que é o actual rei da autobiografia com a saga “A minha luta”. O segredo do sucesso? “Para mim, escrever é como ler. É o lugar onde podemos ser livres. Talvez seja o único lugar onde o conseguimos experimentar essa sensação." Agora tem um novo projecto e o Brasil faz parte dele.

 

 

Paris, domingo, 10 de julho, 20h. Marquem na vossa agenda.

publicado às 11:15

Centeno quer mudar o BdP. Boa sorte, senhor ministro

Por: Paulo Ferreira

 O medo de indispor banqueiros vigorava no Banco de Portugal, até porque as portas giratórias entre regulador e regulados não são um exclusivo da política. A supervisão com base nos quilométricos relatórios enviados pelos supervisores era a prática comum, ficando o BdP refém da auto-denúncia. E esperando sentado, claro.

 

O ministro das Finanças deu esta segunda-feira posse aos dois novos administradores do Banco de Portugal, Elisa Ferreira e Luís Máximo dos Santos. Há muito tempo - 24 anos, mais precisamente, quando Braga de Macedo desancou no BdP e levou à demissão do então vice-governador, António Borges - que não assistia a críticas públicas tão fortes de um titular da pasta das Finanças em funções à entidade de supervisão bancária.

 

Foram várias as feridas em que Mário Centeno colocou o dedo durante o discurso que leu na cerimónia - que está aqui na íntegra. O ministro tem boas razões para o fazer.

 

Primeira: “A reputação, que leva décadas laboriosamente a construir, pode ser rapidamente posta em causa”.

Têm sido demasidas, e demasiado grandes, as falências bancárias em Portugal. Entre casos de polícia e má gestão de risco, somamos quatro quedas em sete anos: BPN, BPP, BES e Banif. A Caixa não cai porque os seus accionistas, os contribuintes, têm os bolsos fundos. É impossível não responsabilizar também a supervisão pela proporção que alguns destes casos assumiram. E é difícil não questionar se podemos confiar nas garantias que nos dão sobre os bancos a quem confiamos o dinheiro.

 

 

Segunda: “O Banco de Portugal (…) goza de um estatuto de independência que as economias

desenvolvidas decidiram atribuir aos Bancos Centrais. Esta independência constitui um direito. Mas esse direito tem que ser exercido como um dever. Os Bancos Centrais não se podem tornar entidades isoladas do resto da comunidade.”

 

 

Não é de hoje nem sequer da era Sistema de Bancos Centrais na Europa. Os tiques de “casta” são demasiado antigos no Banco de Portugal, com reflexos vários: nas regalias, nos pornográficos sistemas de pensões vitalicias que terminaram há 10 anos, no desprezo que durante décadas a entidade colocou na supervisão comportamental dos bancos, na forma como eram tratados ou ignorados os clientes que de queixavam dos atropelos das entidades financeiras. Eram demasiado aristocratas e com uma missão demasiado nobre para sujarem as mãos com coisas menores. Uma delas era incomodar os banqueiros que, como se sabe, são só pessoas de bem.

 

 

Terceira: “O Banco Central tem responsabilidades acrescidas de transparência e de informação para com a sociedade”.

Tardou até que o Banco de Portugal reconhecesse falhas e passividade na supervisão. Aconteceu após o caso BES mas, ainda assim, ficou na gaveta a auditoria efectuada à sua actuação. E recordam-se da atitude de Vítor Constâncio na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN, a fazer lembrar o ministro da Informação de Saddam Hussein? Que estava tudo bem e o BdP tinha atuado com zelo… Continua a aguardar-se uma avaliação séria à estrutura, funções, procedimentos e eficácia da regulação e supervisão do BdP.

 

Quarta: “A supervisão financeira deve atuar de forma preventiva, utilizando a análise de risco disponível, mas sendo também uma fonte de informação à sociedade. Esta função deve ser desempenhada de forma proactiva e, portanto, as autoridades de supervisão financeira devem ser atuantes, não passivas na sua análise de riscos. Devem ser parceiros ativos na gestão dos riscos financeiros e não apenas meros instrumentos de reporte dos riscos passados”.

 

O BdP tem sido uma espécie de Instituto de Medicina Legal do sistema bancário: incapaz de prevenir a sinistralidade, faz depois a autópsia. A cultura de “banqueiro é sempre pessoa de bem”, que cegou Constâncio no BPN, estava muito presente. O medo de indispôr banqueiros vigorava, até porque as portas giratórias entre regulador e regulados não são um exclusivo da política. A supervisão com base nos quilométricos relatórios enviados pelos supervisores era a prática comum, ficando o BdP refém da auto-denúncia. E esperando sentado, claro.

 

Quinta: “A condição primordial de execução de cargos públicos é a sua contínua disponibilidade. Nunca podemos colocar a ambição pessoal em cargos públicos acima dos interesses da nação. Não há instituições que se possam interpretar a si próprias como jangadas de pedra”. De volta ao isolamento e, aqui, arrisco a ver a “alfinetada” mais pessoal do ministro ao governador, conhecidas que são as suas divergências pessoais.

 

Mário Centeno conhece muito bem o BdP - foi de lá que saiu quando decidiu ajudar António Costa na elaboração do programa eleitoral. Faz um diagnóstico que bate certo com as falhas do BdP, que se metem pelos nossos olhos dentro. Mas mais do que mudanças de governador e administradores, é a cultura do BdP que importa mudar. Só pode acabar mal, quando o polícia tem medo e respeita demasiado o delinquente. E foi a isso que assistimos nas últimas décadas.

Boa sorte, senhor ministro.

 

 

Outras leituras

 

  • Depois do BPP e do BES/GES, vêm aí os “lesados da PT”. A troca da Vivo pela Oi feita pela empresa portuguesa há seis anos ameaça ser o negócio mais estúpido de sempre. Mas muita gente enriqueceu com ele.

 

  

 

publicado às 01:41

Não há dinheiro para as pensões mas há dinheiro para a banca?

Por: Paulo Ferreira

 

Uma boa parte da esquerda está agora, com esta experiência de governo, a perder a virgindade nas difíceis opções da governação. Só não perdem a inocência porque esta nunca a tiveram.

 

Este ano a pensão social do regime não contributivo foi aumentada em 0,81 euros, para 202,34 euros. Já o complemento extraordinário de solidariedade subiu sete cêntimos, para 17,61 euros, para quem tem menos de 70 anos, e 14 cêntimos, para 35,20, para os que têm mais de 70 anos.

 

 

Paralelamente, a administração da Caixa Geral de Depósitos vai passar de 14 para 19 membros e, com as alterações que estão a ser preparadas, deverá passar a custar mais 70%. Com o fim do tecto salarial no banco do Estado, o novo presidente, António Domingues, poderá passar a ganhar na ordem dos 46 mil euros por mês - tanto quanto ganhou, em média, no BPI nos últimos três anos. O presidente cessante, José de Matos, ganha 16 mil euros por mês.

 

Está também a ser preparada uma capitalização da instituição na ordem dos 4.000 milhões de euros. Uma boa parte deste montante é para fazer face a perdas na concessão de crédito e a operações como a que financiou Joe Berardo em cerca de 600 milhões de euros para comprar acções do BCP, na década passada.

 

E estamos no meio de uma polémica com a redução do âmbito dos contratos de associação com escolas privadas onde o Estado prevê poupar 30 milhões de euros.

 

Sim, estes argumentos são altamente demagógicos. Colocar estes dados uns ao lado dos outros, comparando-os, é populismo em estado puro. Pessoalmente, até concordo com algumas destas opções do governo. Defendo que o Estado deve pagar bem se quer contratar os melhores para gerir os seus activos. Deve pagar bem e deve fazer depois uma avaliação criteriosa dos resultados desses gestores. E também concordo - já o escrevi - com o príncipio de não duplicar custos a financiar ensino privado se a rede pública tiver capacidade instalada para acolher mais alunos e isso for mais barato para os contribuintes.

 

Satisfeitos estes critérios, não discordo das opções para a liderença da Caixa nem dos cortes no financiamento de turmas em escolas privadas.

 

Se coloquei estes dados lado a lado foi para mostrar como uma boa parte da esquerda está agora a provar do seu próprio veneno. Nada como uma experiência de governo para perceber que as opções nem sempre são fáceis e que não é bom quando nos vemos ao espelho da demagogia. Não há dinheiro para aumentar decentemente as pensões de miséria. Mas há para equipas de luxo no banco do Estado. Não há dinheiro para a educação das nossas crianças. Mas há para acorrer a perdas que esse banco do Estado teve a financiar negócios privados que correram mal e que agora são pagos pelo contribuinte. Tão fácil de dizer, tão bom efeito que estas frases têm. E tão demagógico.

 

Uma boa parte da esquerda está agora, com esta experiência de governo, a perder a virgindade nas difíceis opções da governação. Só não perdem a inocência porque esta nunca a tiveram. Lá no fundo, quando passaram os últimos anos ou décadas a argumentar desta maneira, sabiam que estavam a ser tudo menos inocentes. Mas nem por isso deixaram de o fazer, com a plena consciência do que faziam.

 

O PCP diz que o aumento dos gestores da Caixa “é inaceitável”. Mas lá terá que aceitar.

 

O Bloco de Esquerda “estranha” esse aumento. Mas, como Pessoa disse da Coca-Cola, primeiro estranha-se, depois entranha-se. É uma questão de hábito.

 

Também o PS, sempre de palavra fácil a denunciar injustiças sociais e a prometer que nem mais um tostão iria para a banca, está a caminho de uma média de cerca de mil milhões de euros por mês de governação para acorrer ao sector financeiro (Banif+CGD). E é ouvir agora o PS a defender o aumento de remunerações na administração do banco com o argumento dos “valores de mercado”. Claro, sabemos como é: “you pay peanuts, you get monkeys”. Só descobriram agora?

 

Sapos engolidos, todos dariam um enorme contributo ao pobre funcionamento das nossas instituições se promovessem uma verdadeira auditoria independente à gestão da Caixa no passado. Que abrangesse a última década e meia, por exemplo. Um período em que tivemos governos de vários partidos, várias administrações com vários formatos, uma época pré-crise e outra de crise. Para perceber o que foi feito, por quem, com que objectivos, com que méritos e com que falhas. E tirando consequências legais ou criminais, se as houvesse.

 

Podia ser uma espécie de colocação dos contadores a zero, antes deste novo ciclo. Mas as instituições são fracas, os telhados de vidro são muitos e o regime funciona muito na lógica de “uma mão lava a outra”.

 

Com a generalidade da esquerda agora também integrada no arco da governação e a ser cúmplice destes branqueamentos do passado não há esperança de que alguma coisa mude. Para mal dos nossos pecados.

 

Outras leituras

 

 

  • Diz um estudo da Reuters: "uma segunda onda de disrupção abateu-se sobre as organizações noticiosas a nível mundial, com consequências potencialmente profundas, tanto para os editores como para o futuro da produção jornalística”. Nada que não saibamos já: metade de nós já acede às notícias através das redes sociais. A crise dos media segue dentro de momentos.

 

publicado às 01:30

E para a Caixa não vai nada, nada, nada? Tudo!

 Por: Paulo Ferreira

 Ao recusarem um inquérito parlamentar à Caixa, o que o BE e o PCP nos estão a dizer é que o “assalto” a um banco é legítimo desde que esse banco seja público. Que todos negócios com compadrio político são aceitáveis desde que sejam combinados entre um gabinete ministerial e uma administração por este nomeada

 

Fixemos estes dias porque eles são reveladores.

Estes são os dias em que ficamos a saber que muitos deputados consideram desnecessário e uma perda de tempo perceber o que se passou na Caixa Geral de Depósitos para que volte a ser necessária nova injecção de capital no banco.

 

É impressionante a naturalidade com que se está mais uma vez a ir ao bolso do contribuinte para sanear a banca. Desta vez nem sequer há discussão, apuramento de responsabilidades, avaliação do papel dos supervisores, inquérito a eventual tráfico de influências no passado. Nada.

 

O banco é público. O banco é do Estado. O banco é dos contribuintes. Logo, nesta lógica da batata, nada há a discutir, a apurar, a investigar. É o que sugerem de forma explícita pelo menos os deputados do Bloco de Esquerda e do PCP.

 

Façamos contas. Na última década, o Estado injectou na Caixa 2.950 milhões euros de capital social em várias operações e agora prepara-se para lá colocar mais 4.000 milhões de euros. Só em capital temos, portanto, 6.950 euros. Este é dinheiro seu, caro contribuinte. Dinheiro igualzinho ao que está a ser posto no BPN, no BES ou no Banif. Acredite que as notas de euro que vão para uns são iguais às que vão para outros. E tanto lhe custaram a ganhar umas como outras para depois as entregar ao Estado que, por sua vez, as utiliza em socorro dos bancos.

 

A Caixa recebeu também 900 milhões de euros de ajuda pública igual à que foi feita ao BCP ou ao BPI e que está a ser devolvida, com juros elevados, ao Estado. Não me parece que bem feitas as contas os contribuintes saiam lesados com esta operação. O Estado paga juros à troika pela utilização desta linha - fazia parte dos 12 mil milhões previstos para a banca no programa de resgate - mas cobra juros muito mais elevados aos bancos. Tiremos, por isso, este montante da equação.

 

São, ainda assim, quase 7.000 milhões de euros colocados no banco do Estado em 10 anos. Porquê? O que provocou tamanhas perdas na Caixa? Onde acaba o efeito da crise económica, da má gestão do risco de crédito, do impacto de acontecimentos imprevistos como a crise financeira de 2008 e depois a crise das dívidas europeias desta década? E onde começa o caso político? Que operações de crédito foram feitas por pressão dos governos para ajudar grupos amigos ou que ajudam o partido? Quanto crédito foi concedido sem uma avaliação e aprovação regular do risco? Como se comportou o regulador para com a Caixa ao longo dos últimos anos? Quanto dinheiro foi emprestado aos Berardos desta vida para tomarem de “assalto” o poder de bancos privados? Qual foi o comportamento da Caixa, ao longo de anos, ao lado do BES de Ricardo Salgado, da Ongoing de Nuno Vasconcelos, no chamado “núcleo duro” da Portugal Telecom de Zeinal Bava? Que marca deixou Armando Vara na sua passagem pelo banco? E como se processou a sua transição ao lado de Santos Ferreira para o concorrente privado BCP? Em suma: quanto, desta factura, se deve a pornografia política e partidária?

 

A tudo isto, respondem Bloco de Esquerda e PCP: não há nada a saber. Há que passar o cheque dos contribuintes sem fazer perguntas. Até Mariana Mortágua - por quem, como contribuinte e cidadão, me senti representado na Comissão de Inquérito ao BES, tal foi a sua preparação e pertinência das questões que colocava - desta vez não tem curiosidade sobre o assunto. Ninguém quer saber se Carlos Costa fez todas as perguntas no momento certo às administrações da Caixa? E se Constâncio vigiou como devia ser?

 

É precisamente pelo facto do banco ser público, com administrações nomeadas pelos governos, com tutela política directa, com uma alegada missão de apoio à economia, com assembleias gerais onde não há accionistas que possam questionar a gestão, que o dever de fiscalização dos deputados devia ser maior, mais efectivo e regular. Perante a Caixa os deputados podem e devem ser uma espécie de “representantes dos accionistas”, que são todos os contribuintes. É que estes accionistas estão numa posição de especial vulnerabilidade: nunca têm o poder de decidir o que fazem com o seu próprio dinheiro. Se compram mais acções da Caixa ou não. Alguém, num gabinete ministerial, toma a decisão por eles e assina um decreto. Assim, sem discussão. E está feito. Foi assim que aconteceu com 6.950 milhões de euros em dez anos. Discretamente.

 

O que o BE e o PCP nos estão a dizer é que o “assalto” aos bancos é legítimo desde que esse banco seja público. Que todos os compadrios políticos são aceitáveis desde que sejam combinados em gabinetes ministeriais. Que a “economia de casino” através de um banco privado é do pior que as sociedades têm nos dias que correm mas quando é feita através da Caixa é uma coisa boa. Atenção “jogadores”, perceberam a mensagem?

 

Pois eu não encontro diferenças entre umas e outras. Custam-me tanto os milhões para os privados como para a Caixa porque, provavelmente, muitos destes milhões foram parar aos mesmos bolsos ou a bolsos muito semelhantes. A grande diferença, para já, é que a justiça - lenta e pesada, como sabemos - já está no encalço de alguns dos privados mas duvido que isso venha a acontecer em relação à Caixa. Com a ajuda dos amigos da esquerda, claro. Porque o banco é público, obviamente, e a doutrina diz que tudo o que é público é bom. Ainda que seja igual ao privado.

 

  

Outras leituras

 

  • António Costa garante que o regresso às 35 horas será feito sem custos. Sugiro uma formulação mais correcta: António Costa garante que nunca será possível apurar quanto custa o regresso às 35 horas e, por isso, pode prometer o que quiser.

 

  • Paulo Portas vai para a Mota-Engil. Claro que todos os ex-governantes precisam de ganhar a vida. Estranho é que passem a ganhá-la depois da passagem pelo governo em sectores de actividade pelo qual nunca se interessaram na vida profissional anterior. Se Portas fundasse agora um jornal ou um gabinete de sondagens estaria a retomar a sua carreira. Mas construção civil? A Mota-Engil só está a contratar a sua agenda de contactos…

 

 

publicado às 10:32

Angola não é nossa e a banca nunca foi

Por: Rute Sousa Vasco

 

A memória dos 500 anos de colonização portuguesa é preciosa numa semana em que João Salgueiro comparou a actual situação da banca em Portugal às ex-colónias. João Salgueiro, 81 anos, além de um economista reputado, foi Ministro de Estado e das Finanças, vice-governador do Banco de Portugal e presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Ou seja, desempenhou papéis nas principais instituições que se relacionam com a banca, além de também ter trabalhado em bancos.

 

 

Hoje é o representante de um grupo de economistas, gestores e promotores do manifesto "Reconfiguração da Banca em Portugal - Desafios e Linhas Vermelhas", documento - ou manifesto, como já foi chamado - que o levou a uma audiência com o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E foi à saída dessa audiência que João Salgueiro considerou a situação de urgência da banca portuguesa semelhante à que Portugal viveu com as ex-colónias: "Podemos imaginar vários tipos de problemas que existem [na banca] que têm de ser resolvidos a tempo. É uma situação muito semelhante à da descolonização. Se não se encontram as soluções a tempo, vamos pagar o custo durante décadas".

 

Isto acontece na mesma semana em que a Assembleia da República foi palco de mais uma sessão sobre como é que mais um banco, neste caso o Banif, se tornou um problema de 10 milhões de portugueses.

 

E a mesma semana em que foi finalmente agendada para o dia 24 de Maio, as alegações finais do julgamento do processo principal do caso Banco Português de Negócios (BPN). Um julgamento que começou há cinco anos e cinco meses (15 de Dezembro de 2010) e em que se realizaram 401 dias de sessões. Foram ouvidas 170 pessoas, entre as quais 77 testemunhas de acusação, 79 testemunhas de defesa e 35 testemunhas abonatórias. São 15 arguidos.

 

Desde que o BPN implodiu, passaram-se oito anos.

 

Foi também a semana em que foram comunicados os resultados trimestrais do banco de todos nós, a Caixa Geral de Depósitos. Teve um prejuízo de 74,2 milhões de euros e precisa – também com urgência, como tudo o que se passa actualmente com a banca – de um aumento de capital. Estimava-se que fossem necessários dois mil milhões – agora já se considera que poderá ser o dobro.

 

As contas com a banca são, em regra, assim – excelentes níveis de previsibilidade e sem grandes desvios.

 

Para quem ainda não percebeu do que é que João Salgueiro, e seus pares, estão a falar quando assinam manifestos e comparam a crise da banca ao desfecho que Portugal deu à sua presença de 500 anos em África, vale a pena ler Nuno Amado. O presidente do BCP assumiu ontem que o banco que lidera pretende ser “o” banco privado português a sobreviver à concentração no sector. Disse Amado: “É provável que em Portugal passe a existir, a curto prazo, um banco público – a Caixa Geral de Depósitos – e um banco privado, que eu espero que seja o BCP”. Mas disse mais coisas: “Estamos cientes de que os clientes mudaram, que a procura do crédito baixou e que as opções pelo digital são crescentes (…)”. Tudo isto num cenário em que existem 120 bancos sob supervisão do BCE e quatro deles são bem conhecidos e só os “nossos” maiores bancos: CGD, BCP, Novo Banco e BPI.

 

Sobre o papel da banca na economia já muito se escreveu. Está nos livros de economia e, na realidade, só mesmo aí se trata de um papel perfeito. Na vida real é tão imperfeito quanto a natureza humana e quanto os homens e mulheres concretos que os gerem. Podemos pensar, simplesmente, que Portugal tem tido um enorme azar com os “banqueiros” que nos calham. Como já aqui escrevi, não acredito que seja disso que se trata. Não são melhores ou piores que outros banqueiros noutros locais da Europa e do mundo. Quanto muito vivem numa sociedade com mais vícios, maiores reverências e clientelismos do que outras, porventura, mais transparentes. E isso sim faz alguma diferença.

 

Mas o problema real é o da banca e o da circulação do dinheiro na economia na era da Uber ou do Airbnb ou de outro novo player num mercado que todos os dias se redesenha. E o mercado do dinheiro não é excepção nesta era da desmaterialização e da democratização do acesso a mercados e negócios.

 

O pensamento convencional sobre estes temas converge para preocupações de soberania – as mais elevadas – e de privilégios – as mais corriqueiras. Haver menos bancos em Portugal significa menos poder e menos poderes. Menos administradores, menos ‘clusters’ de agências, escritórios de advogados, consultores alocados a cada um destes ditos ‘centros de decisão’.

 

Certamente é um problema que tira o sono a muitos, nomeadamente aos visados, mas, para a esmagadora maioria dos portugueses, a vida continua igual. Não se passa nada agora, porque também não se passou nada antes. A esmagadora maioria dos portugueses não tem qualquer sentimento de profunda gratidão ou saudosismo com aqueles bons tempos em que os bancos eram nossos amigos, nos ajudavam a construir um negócio ou simplesmente a começar a nossa casa de família. Porque simplesmente nada disto foi verdade para a maioria dos portugueses, apenas foi verdade para aquela minoria amiga de banqueiros, colega de partido e de negócios . Aquelas belas amizades que permitiram financiar grupos falidos e sessões em hóteis de luxo e espaços emblemáticos (ainda se lembram do Compromisso Portugal?).

 

É por todas estas razões e ainda mais algumas que aqui não cabem que é infeliz comparar a banca com as ex-colónias.

 

Não fomos os melhores colonizadores nem descolonizadores mas deixámos laços. Ou como diz o nosso presidente, afectos. Angola não é nossa, mas lá, como em Moçambique, Timor ou outras geografias em que portugueses se cruzaram com outros povos, ficou uma história comum, uma língua comum e vidas entrelaçadas.

 

Portugal veio embora de África tarde, a más horas e com uma consciência de culpa que, mais de 40 anos depois, ainda não está sanada.

 

A banca foi-se embora de Portugal sem remorso e deixou uma conta pesada.

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras leituras:

 

Há quatro anos assisti em casa a um excerto de um concerto extraordinário de um senhor que foi dos primeiros músicos que ouvi ao vivo. Se ontem não foram ouvir Bruce Springsteen, é quase uma maldade sugerir que leiam o que perderam. Mas ontem eu fui e este artigo do Público é um retrato muito fiel do que por lá se passou.

 

Ainda sobre a América, fica esta sugestão: As sondagens preferem Sanders, mas a luta é entre os "desonestos" Trump e Clinton. Acho que não é preciso dizer mais nada. 

 

"Morley foi um dos mais importantes jornalistas de qualquer meio, de sempre". Foi assim que o patrão da CBS se referiu à “voz” do 60 Minutes, que esta semana morreu aos 84 anos, poucos dias depois de se ter reformado. "Ele era também um cavalheiro, estudioso, um grande contador de histórias …".

publicado às 15:12

A reflexão dos manifestos bancários

 

Por: António Costa

Vem aí mais um grupo que quer uma reconfiguração da banca portuguesa e até tem um site oficial, com personalidades que, elas próprias, já tiveram o poder de influenciar o desenho do sistema financeiro, e fizeram-no, não necessariamente da melhor forma, como se constata hoje. O que quer este novo grupo?

 

Em primeiro lugar, é um grupo de reflexão que foge, e bem, da lógica primária do manifesto anti-qualquer coisa, neste caso anti-Espanha, a pior forma de por o problema. Se há problemas, e há, temos de olhar para Lisboa em primeiro lugar e não para Madrid. Estas iniciativas podem até ter um fim bondoso, desde logo evitar que seja o BCE a decidir o que se passa em Lisboa do ponto de vista acionista dos bancos, mas parecem esquecer que o que determina a configuração de um sistema – bancário ou outro – é a disponibilidade de quem tem capital para nele participar. Quando são outros os interesses, regra geral dá maus resultados, porque não é sustentável. Mais ainda quando os destinatários destes pedidos são os governantes que decidem envolver-se com o dinheiro de terceiros, leia-se dos contribuintes.

 

O grupo de reflexão – promovido por João Salgueiro à cabeça e com nomes como Bagão Felix, Eduardo Catroga, Rui Rio ou Diogo Freitas do Amaral – apresenta-se com um documento de 14 pontos em que dá o exemplo (mau) do Banif. Que, seguramente, ninguém quer repetir. O verdadeiro alcance, esse, é outro, é o destino do Novo Banco, primeiro, e do Millennium bcp, depois. E poderia incluir-se aqui a Caixa Geral de Depósitos, que o governo de António Costa quer manter 100% pública a todo o custo, falta saber qual, e com que objetivos.

 

É público que este grupo nasceu numa lógica anti-espanholização da banca portuguesa, mas esta é a sua primeira e maior dificuldade. Só Espanha tem interesse em meter dinheiro nos bancos portugueses e pouco de preferência. Com o apoio do BCE, sim, que prefere tratar Portugal como uma nova província espanhola. Mas não há capital privado em Portugal, Angola já não tem a disponibilidade financeira de outros tempos e os chineses desapareceram. Sobram, em última análise, os mesmos de sempre, os contribuintes, para participarem à força num qualquer movimento de nacionalização, provavelmente do Novo Banco.

 

Nas próximas semanas, vamos todos perceber que este grupo de reflexão tem, em última análise, esta proposta a fazer. Porquê? Porque a venda do Novo Banco será um calvário, e salvaguardadas as devidas distâncias, vai aproximar-se do que foi o processo do Banif. Ainda chegaremos ao momento em que estaremos a discutir as consequências do futuro do Novo Banco, para os contribuintes e para os outros bancos do sistema.

 

Quais serão os efeitos práticos previsíveis deste novo grupo de reflexão? Além da promoção de umas reuniões com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, além da discussão pública, desejável, muito poucos. Seria muito desejável que os bancos portugueses tivessem capital português e de várias outras origens para garantir concorrência na afectação do financiamento, mas isso (já) não está nas mãos do Governo, deste ou de outro.

 

O que os governos podem fazer – e devem – é criar as condições para a atração de investimento estrangeiro de várias nacionalidades, para a banca e para outros setores, e para a formação de riqueza no país que permita ter empresas capitalizadas que não dependam dos bancos para o seu futuro. Se fizerem isto bem, já não é pouco.

 

 

As escolhas:

António Costa vai perceber que não basta garantir a sobrevivência da ‘geringonça’. O líder da CGTP, seguramente coordenado com o PCP, vai promover uma semana de luta entre os dias 16 e 20 de Maio. E promete tudo, isto é, greves, manifestações e concentrações. Com um objetivo em mente, como se pode ler em www.economico.pt. É preciso acabar com a caducidade dos contratos e renovar a contratação coletiva, ou seja, é preciso proteger o que resta do poder da CGTP nas empresas.

 

Finalmente, descubra a Semana do Empreendedorismo de Lisboa, que começa hoje e prolonga-se até ao próximo dia 8. Parece uma brincadeira do destino, depois de uma semana em que a Uber foi alvo de todas as ameaças, em que os organismos públicos, incluindo as câmaras de Lisboa e Porto, dão os sinais errados de apoio a uma corporação contra o novo tempo, chega a semana dos empreendedores que sonham ser um novo Uber. Uma semana cheia, que pode consultar aqui www.lisboastartupcity.pt.

 

Tenha uma boa semana.

publicado às 12:09

A rutura

A rutura das negociações entre o CaixaBank e Isabel dos Santos não é um problema apenas para o BPI – que não merecia isto. É mais um caso que abre novas fontes de incerteza num sistema financeiro que está longe de estar resolvido– leia-se, preparado – para ultrapassar a crise de negócio e de capital.

 

O BPI tinha até 10 de Abril para diminuir a sua exposição a Angola, que se materializa na posição maioritária que tem no BFA, em associação com Isabel dos Santos. Para que isso fosse possível, o acordo não poderia passar apenas por Angola, claro, porque Isabel dos Santos é a segunda maior acionista do BPI, com cerca de 20% do capital, a seguir ao CaixaBank, com 44%. E, sem acordo, sem solução, os rácios de capital do BPI vêm por aí abaixo.

 

Ainda não se sabe tudo das negociações falhadas no BPI. Já é certo, ainda assim, que Isabel dos Santos voltou a pôr em cima da mesa das negociações condições que já teriam sido ultrapassadas. E condições que, para a administração do BPI e, claro, do próprio CaixaBank, eram inaceitáveis. Sabe-se, isso sim, que o Banco de Portugal ainda não deu o ‘ok’ à administração do BIC, um outro banco em Portugal controlado pela empresária angolana. Se a justificação é esta, Isabel dos Santos faz mal, e põe-se numa posição de pressão que a deixa do lado errado das negociações. Legitima, até, intervenções na secretaria, do Governo, do Banco de Portugal, do BCE.

 

Sai mal, mas não sai mal sozinha. O primeiro-ministro convidou-a a entrar no Millennium bcp depois de sair do BPI, coisa que, pelos vistos, não articulou com o regulador que, agora, não lhe concede o regime de idoneidade necessário. Portanto, alguém se esqueceu de avisar António Costa e, já agora, Marcelo Rebelo de Sousa. Que, pela primeira vez desde que foi eleito, respondeu ‘à Cavaco’. Marcelo vai defender os interesses nacionais. Notícia seria o contrário, não era?

 

Agora, o problema já não é o passado, é o futuro. O CaixaBank lançou uma OPA – outra – sobre o BPI, o governo legislou sobre o fim dos limites aos direitos de voto nas empresas cotadas, coisa que existe no BPI e dá poderes ‘reforçados’ a Isabel dos Santos, o BCE poderá anunciar outras medidas para pressionar a empresária angolana. No limite, Isabel dos Santos é ‘corrida’ do BPI à força.

 

E depois? O problema mantém-se, isto é, o BPI continuará a ter uma participação maioritária num banco angolano e vai continuar a não cumprir as imposições do BCE e os limites aos grandes riscos. E qualquer decisão do BPI em Angola depende, claro, das autoridades angolanas, do Banco Nacional de Angola. Como se sai daqui sem um acordo? Das duas, uma: o BCE revê a sua avaliação da exposição do BPI a Angola e dispensa o banco de vender a sua posição no BFA porque, agora, passa a ser uma extensão do CaixaBank; ou impõe uma medida extrema, uma medida de resolução que separa a operação do BPI em Portugal da operação angolana.

 

Qualquer que seja o caminho, a presença do BPI em Angola mudará para sempre. O ‘novo’ BPI não será o mesmo, será outro. Durante anos, o BFA foi uma fonte de lucros, chegou a ser a única. Já em 2015 o BPI lucrou 90 milhões de euros só da atividade doméstica. Mas sem a operação africana, o BPI tem de encontrar outro caminho, agora sob o domínio do Caixabank. Até lá, é sobreviver no meio de uma guerra acionista, gerir o banco com o mesmo cuidado com que foi gerido nos últimos anos, sem o risco que se viu, por exemplo, no BES ou no BCP ou até no Banif. Mesmo tendo em conta as perdas com a dívida grega, o BPI tem um balanço saudável no quadro do sistema português. Ulrich seguiu no BPI uma estratégia de avaliação de risco que só tem paralelo no Santander.

 

A rutura das negociações no BPI, essa, tem impactos muito para além do próprio banco. Terá, por exemplo, no BCP, banco no qual a Sonangol tem 20% do capital e de que é o maior acionista. Dificultará a venda do Novo Banco e vai expor ainda mais a situação do sistema financeiro português no quadro europeu e internacional. Por último, mas não menos importante, vai ser uma fonte de choques entre Portugal e Angola, de consequências ainda imprevisíveis.

 

AS ESCOLHAS

Depois de Angola, o Brasil. O processo de impeachment de Dilma Roussef no congresso foi aprovado e vai agora para o Senado, como pode ler aqui. É, para o futuro do país, um caminho cheio de riscos, para a própria Democracia. Dilma deveria pedir a demissão, sim, é parte do problema e não da solução, já terá até contra si muitos dos milhões de brasileiros que a apoiaram e levaram à presidência. Mas, não dando esse passo, a linha que separa a legitimidade política do golpe político é ténue. Sobretudo quando o regime político brasileiro, tão dividido, não dá sinais de conseguir encontrar saídas para esta possível destituição.

publicado às 10:51

O banco mau e os três porquinhos

Por: Paulo Ferreira

Mais de 30 anos depois da abertura do sector, das privatizações e da desregulação, voltamos a andar com a banca ao colo e a pagar o lastro de dívidas que vão deixando. Alguma coisa de estrutural haverá para mudar também no sector financeiro, não?

 

Era uma vez três porquinhos-mealheiros. Iam vivendo a sua modesta e esforçada vida de trabalho até que um dia apareceu um banco mau…

 

O leitor conhece a história infantil e facilmente fará o paralelo com o que se vai passando no sistema bancário.

 

O principal problema da eventual criação de um “banco mau”, como sugeriu o primeiro-ministro em entrevista ao DN e à TSF, não está na proposta de António Costa, mas na muito provável necessidade de o fazer para “limpar” os balanços dos bancos. Podemos chamar-lhe “veículo especial”, mas mais não será mais do que uma entidade que recebe os activos problemáticos do bancos e tenta rentabilizá-los.

 

Uma segunda questão, mais aterradora, é que este tipo de mecanismos não é virgem em Portugal.

 

No início da década de 80, o Banco de Portugal e a banca comercial criaram a Finangeste, uma empresa que teve precisamente essa missão: ficar com os créditos malparados que os bancos foram acumulando. Na altura os bancos eram quase todos do Estado, portanto tudo estava dentro da esfera do contribuinte. Havia limites de crédito por instituição definidos pelo Governo e as taxas de juro eram fixadas por lei e publicadas no Diário da República - sim, as gerações mais novas podem achar estranho, mas bem-vindos ao país onde o preço da “bica” e do papo-seco eram decididos em Conselho de Ministros e tinham a força de lei.

 

Com a limpeza feita através da Finangeste, os bancos ficaram mais bonitos e puderam, na década seguinte, ser privatizados.

 

A ironia é que a saída do Banco de Portugal da Finangeste aconteceu apenas há sete meses, quando vendeu os 44% do capital da empresa a um grupo privado, dando por concluído “com sucesso o essencial daquela missão”. Não se conhecem detalhes oficiais do negócio, a começar pelo preço, e muito menos conheço qualquer balanço decente sobre os custos ou proveitos que a operação Finangeste teve para os contribuintes ao longo dos mais de 30 anos em que teve capitais públicos.

 

Somos pouco dados a contas e a aprender alguma coisa com elas, mas era importante que se fizesse esse balanço, agora que, muito provavelmente, vamos entrar numa nova operação de limpeza do lixo bancário.

 

Mas a Finangeste não é a única experiência que já temos na matéria.

 

Conhecem a Parvalorem, a Parparticipadas e a Parups? São as três empresas criadas pelo Estado há seis anos e para onde foi transferida toda a tralha que resultou do desmantelamento do BPN e do grupo de empresas que o integrava. São uma espécie de “banco mau” e é daí, caro contribuinte, que vai saindo a sua parte da factura que resulta do escândalo e da posterior nacionalização. E há o “banco mau” do BES e o rasto de encargos que nos fica do Banif.

 

A nossa experiência em “veículos” já é grande, como se vê. E não só para acorrer a falências verificadas ou aos escombros de “casos de polícia”.

 

O país já foi financeiramente resgatado três vezes em pouco mais de 30 anos, significando isso que o problema tem mais de estrutural do que de conjuntural, como teimosamente vamos evitando encarar.

 

Com a banca não é muito diferente. Limpámos os bancos para os vender a privados. Podemos ficar com o conforto mental de atribuir os desequilíbrios de então aos desvarios das nacionalizações, à pobre economia e ao comando político de tudo o que mexia na economia.

 

Mas 30 anos depois da abertura do sector, das privatizações e da desregulação, voltamos a andar com a banca ao colo e a pagar o lastro de dívidas que vão deixando.

 

Então alguma coisa estrutural haverá também para mudar no sector financeiro, não? Os gestores bancários não podem assumir tantos riscos como fizeram no passado, as regras impostas ao sector não podem permitir a elevada alavancagem - basicamente, a transformação de cada euro de depósito de 1,5 ou mais euros de crédito concedido - que permitiu e a regulação e supervisão tem que se focar mais na prudência do que na emergência. 

 

O que não podemos é passar a vida a passar cheques aos bancos, de forma mais directa e assumida ou de forma mais encapotada e discreta, como aconteceu com a Finangeste.

 

Ao contrário do que é comum nos contos para crianças, este é um sector onde é raro que os “bons” saiam por cima e vivam felizes para sempre e que os “maus” aprendam a lição da sua vida e nunca mais apareçam por ali. E já andamos todos fartos de histórias que nos adormecem.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

  • Não é novo que o nível médio de qualificações dos portugueses é baixo e este estudo da Fundação Belmiro de Azevedo confirma-o. Pior do que isso é que a vontade de melhorar seja pouca. Essa é a má notícia, até porque o mesmo estudo nos diz que quem tenta, consegue alcançar os objectivos.

 

  • António Costa demorou meses a perceber que o estatuto de seu “melhor amigo” não chega para colocar alguém, de forma totalmente informal, a negociar em nome do Estado e dos contribuintes. Ainda por cima podendo tê-lo como consultor contratado e a preço de saldo. Sim, 2.000 euros brutos é muito pouco para os predicados que são atribuídos a Diogo Lacerda Machado.
publicado às 10:51

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