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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A Liga dos Aurélios?

Por: Miguel Morgado

 

Sabia que na época passada Maxi Pereira foi o rei da bola no pé (2639 toques), seguido do campeão europeu, João Mário? Já Gaitán com toque de Midas “deu” 14 golos. Jonas acertou sete vezes da marca de 11 metros e a cabeça de Slimani vale ouro em mais de 1/3 dos seus tentos. Que poderiam ser mais caso não tivesse falhado 20 golos certos. O Porto fez 570 remates e o Braga acertou 21 tiros no ferro. Dados que explicam o sucesso (e insucesso) passado e podem antecipar o que ai vem numa Liga onde moram, por enquanto, quatro “Aurélios”. Vamos às contas.

 

 

 

Aí está a Liga 2016-2017. No Seixal, em Alcochete ou no Olival, sabemos, por enquanto, que partiram Renato Sanches e Nico Gaitán, que os quatro “Aurélios” campeões europeus ainda moram, por enquanto, em Alvalade e que o Porto procura no “Somos Porto” a alma que perdeu no passado recente. Esses são os factos mais ou menos crus, mas que até ao fecho do mercado terão outros condimentos. Os números não mentem, diz-se, por isso olhemos para as estatísticas da época transacta para perceber a importância de jogadores e o sucesso (ou insucesso) das equipas. Números que, de certo, ajudam a perceber e antecipar a prova que está preste a arrancar. Um instrumento útil para treinadores e adeptos. E para presidentes dos clubes e empresários.

 

Ora bem. Peguemos então numa folha e apontemos. Sabemos de acordo com as estatísticas da 1ª Liga, que Jonas, avançado das águias, 16º jogador mais utilizado (33 jogos, 1 como suplente utilizado), contabilizou 2964 minutos e foi o melhor marcador com 32 golos. No outro lado da 2ª circular, morou, e mora ainda, Islam Slimani. Em 33 jogos acertou 27 vezes na baliza em 3013 minutos, o que fez do argelino o 15º jogador mais utilizado.

 

No duelo de pontas de lança, socorremo-nos de outras estatísticas. Esta disponibilizadas pelo “GoalPoint”, ficamos a saber que Jonas concretizou sete pontapés da marca de grande penalidade e foi quem rematou mais vezes (124 remates), o que fez do brasileiro o jogador com melhor taxa de concretização (25,80%). O clube que representa (15,90% taxa de concretização) liderou esses dados.

Já Slimani, com 65 remates enquadrados (entenda-se remates que poderiam ter resultado em golo) e o Sporting com 212 remates ficaram em 1ª lugar nessa estatística. A cabeça do avançado leonino vale ouro. Dos 27 golos marcados pelo argelino, 11 foram com a testa. Mas terá faltado algum discernimento, por vezes, na hora decisiva, desperdiçando 20 ocasiões flagrantes (de golo). Os leões forem quem também desperdiçou mais golos iminentes: 62 ocasiões no total. Números que poderiam ter alterado a história do campeonato e que explicam os menos 9 golos marcados que o velho rival.

 

De entre os “Aurélios” que jogam em Portugal, o muito cobiçado João Mário deu 2587 toques na bola ocupando a vice-liderança da estatística logo a seguir ao defesa direito portista Maxi Pereira (2639). Mas uma coisa é dar toques, a outra é ter um verdadeiro “toque de Midas” e colocar a bola no pé ou cabeça de um colega para que este finalize. E nesse campo, Gaitán foi o “rei” das assistências que levantaram os estádios: 14 que deram golo. Um número bem expressivo se olharmos que o clube que então representou, Sport Lisboa e Benfica, equipa que somou mais assistências (60) que resultaram nos 88 golos marcados. Com estes números, em especial os benfiquistas, podem começar a lamentar que o pé esquerdo do argentino vá, agora, entrar nas estatísticas da Liga Espanhola e do Atlético Madrid.  

 

Analisando ainda os dados disponibilizados pelo “GoalPoint”, o Futebol Clube do Porto foi a equipa que mais remates realizou, 570, sendo que desses, 66 provenientes de fora da área. Desses, 13 foram da responsabilidade do defesa Layún, que assim dividiu com Jonas as despesas do mais rematador antes dessa linha. Se Maxi Pereira foi aquele que mais vezes “levou a bola para casa”, o defesa da faixa contrária, Layún, tentou, de fora de área, fazer aquilo que os seus colegas não conseguiam: dar alegrias aos adeptos.

Mais motivos para sorrir poderia ter tido o Sporting Clube de Braga se algumas das 21 bolas enviadas ao ferro tivessem entrado. O avançado Hassan foi mesmo o mais “azarado” com cinco bolas a baterem onde não deviam.

 

Um Aurélio, dois Aurélios, três Aurélios...

 

O campeão em título, Benfica, parte para a nova época com o tetra como objetivo. Nas insígnias leva o título de equipa mais concretizadora com 88 golos (contra 22 golos sofridos o que a coloca como segunda melhor defesa da prova). A Liga atribui ainda às águias os prémios de Melhor treinador, Rui Vitória, revelação Renato Sanches e melhor jogador, a Jonas. Desses só o “bulo” da Musgueira já cá não mora. Até ver apostaram na contratação de diversos extremos (Carrilo) e na esperança de recuperação de outros (Sálvio).

 

No Futebol Clube do Porto, o homem que celebrizou a frase “Somos Porto” estará no banco dos dragões. A recuperação da mística está nas mãos de Espírito Santo que, para além dos milhões à disposição para investir, tem ainda muita massa crítica no Olival. Basta olhar para o umbigo do Dragão e perceber que aí mora não só o vencedor da 2ª Liga como também os campeões nacionais juniores. André Silva é um exemplo de recrutamento feito dentro de portas.    

 

Rui Patrício, Adrien, William Carvalho e João Mário, são os quatro “Aurélios” campeões europeus de futebol. Se o melhor guarda-redes da Liga (e do Europeu, diga-se), 4º jogador mais utilizado do campeonato português, com 3137 minutos e o tridente do meio-campo se mantiverem por Alvalade, apesar do forte assédio, em especial a João Mário, apelidado de “calminhas” pelo Mestre Aurélio Pereira, a equipa leonina ganha “reforços” de peso na luta pelo título nacional.

 

Caberá a Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus avaliarem se podem, ou não, abdicar de um ou mais “Aurélios”, colocando no cesto, de um lado, o encaixe financeiro e, do outro, os pontos que esses jogadores podem valer no final da época. É por isso, no fiel da balança entre a cobiça e a cedência à tentação da venda dos “produtos” de Aurélio Pereira que poderá ditar o nome da Liga que agora inicia, podendo ser a Liga dos “Aurélios” caso estes campeões europeus nascidos em Alcochete não sigam as pisadas dos seus outros seis homónimos que andam por outras Ligas.

 

 

 

 

 

publicado às 09:16

O Tri e a Liga do JJ pelos olhos de uma criança de oito anos

Por: Miguel Morgado

 

Num dia de todas as emoções, numa Liga que ficou para decidir na última jornada, eu, adepto e amante de futebol que sou, confesso que padeci de uma espécie de tentação eremita momentânea. E logo no dia D de uma das épocas mais intensas de que me recordo. Dentro e fora de campo. A culpa? Inesperadamente, tive de ouvir, em alto e em bom som, a voz de um miúdo de oito anos a falar de futebol. Do Benfica e do Sporting; dos golos; de Rui Vitória e Jorge Jesus e, claro, dos craques que dão os pontapés na bola e são a razão do jogo. Talvez por isso, optei por abstrair-me do mundo e ouvir alguém que acrescenta pureza ao jogo. Televisão nem vê-la, rádio no silêncio e redes sociais em modo off.

 

 

Terminou a Liga. Falou-se de cérebros, vouchers, Ferraris, malas, processos, vendedores de pipocas e criações e cópias. Ah...e de árbitros. Pelo meio, no facebook e no twitter, muita bola cá, bola lá entre Mr. Burns e o presidente adepto. Na guerra da comunicação até as operadoras lutaram pelos direitos de TV. Do jogo, de Renato Sanches, Slimani, João Mário ou Jonas, falou-se pouco, assim como do Porto e da sua mudança de regime. JJ termina a época como começou, a  falar do outro – do Benfica e de (Rui) Vitória (que não ficou calado). O Benfica conquista o 35º título e foi tricampeão, o 6º da sua história. E o primeiro que assisto enquanto adepto ao lado de um miúdo de 8 anos.

 

A uns quilómetros de distância de Lisboa e sem saber o que se passava na capital ou em Braga, o pecado foi mais forte e numa espreitadela a uma app fico a saber que o Sporting vencia na cidade dos Arcebispos e o nulo perdurava na Luz. Por breves minutos, poucos, mas que ainda assim possibilitaram uma inundação de mensagens de uma euforia leonina descontrolada, que levavam a crer que o título poderia ir para o homem que “batizou” este campeonato como a “Liga do JJ”. Mensagens e euforia viriam a terminar abruptamente. Um silêncio curto foi substituído por SMS de outra cor, que aumentavam de som à medida que se marcavam golos, uns atrás de outros, fechando a época com aquilo que o futebol tem de mais bonito: os golos.  

 

Voltando atrás no relato, quis o destino que entre um “bola cá, bola lá”, tivesse de levar um dos filhos, por sinal benfiquista, a uma festa. No regresso, com o título de campeão já entregue, tive de fazer um trajeto entre a Praia Grande e Lisboa com amiguinhos e amiguinhas e, em especial, com um miúdo (que não é meu, mas poderia ser), com a energia típica dos 8 anos, a gritar “Benfiiiicaaaaaaa”, “SLB, SLB, Glorioooossssoooooo” e “tricampeões”, impondo-me um fair-play improvável, considerando o estado de espírito...

 

...Bom, a criança lá pulava no banco de trás enquanto eu racionalizava que teria de recuar 39 anos para se conhecer algo igual, e em jeito provocatório, para combater o sexto tri, lá deixei cair que já tinha visto os tris, os tetra e o penta do Porto, mas reconhecia que do Sporting, bom .. dali, nada nas últimas décadas. Tri e tetra foi algo que se perdeu entre os anos 40 e 50 do século passado.

 

Ora bem, com as ruas de Lisboa pintadas de vermelho e branco, os gritos do miúdo abafavam as buzinas e outras tentativas de cânticos daqueles por quem passávamos. Afinal, a criança, um misto de Renato Sanches e João Mário em termos físico-técnico vocais, estava a festejar como se não houvesse amanhã. Ele que só tem 8 anos e que se recorda destes três títulos ganhos pela equipa da Luz e que, pelos seus olhos e cabeça, tem a capacidade para ver que o Benfica teve mais vitórias, que bateu o record de pontos de José Mourinho (2002-2003), que fez mais golos, que Jonas foi o rei dos marcadores, que Renato Sanches é uma estrela e que está de malas feitas para Munique ainda antes do Europeu, que Rui Vitória afinal não foi o Rui “Derrota”, que o Sporting está melhor e fez um grande campeonato, Slimani e João Mário são uma “máquina” e que Jorge Jesus ganhou títulos ... no Benfica, ajudando ao tri. Em resumo, viu aquilo que mais interessa (ou deveria interessar): o que se passou dentro de campo. Pelo lado mais puro. O resto fica para outros verem.       

 

 

JJ vs Rui Vitória, Mr. Burns vs Bruno de Carvalho, tu falas e eu respondo

 

Vamos então ver com os nossos olhos o que se passou. Jorge Jesus não é um profeta, mas está lá quase. No dia da apresentação como treinador do Sporting Clube de Portugal, afirmou que, a partir de então, em Portugal, não haveria dois mas três candidatos ao título. 34 jornadas depois esteve (quase) certo. Porque afinal foram só mesmo duas equipas, a anterior que representou e a atual que lutaram até à última jornada. A profecia de alguns, no entanto, manteve-se. Jesus volta a perder um campeonato no último terço. De fora das contas ficou, estranhamente, o Porto. E para meia-surpresa, entrou, um Benfica que assumia uma renovação, com Rui Vitória.

 

O Leão venceu a Supertaça, entrou a pés juntos sobre o seu eterno rival privado do “tal” cérebro, mas com as “ideias” do criador. A troca de palavras entre os dois eternos rivais estendeu-se do balneário ao plano da comunicação entre um especialista, João Gabriel, conhecido por Mr. Burns, e outro que em nada fica atrás na língua, Bruno de Carvalho, presidente dos Leões. No twitter, “casa” do primeiro, e no facebook, palco predileto do segundo, a guerra foi intensa. De um lado, Bruno de Carvalho, que transformou um clube quase falido num clube muito falado, tirou o coelho da cartola dos “vouchers”, no outro, Luís Filipe Vieira manteve-se sempre distante, optando pelo discurso da estrutura.  

 

No campo, o Sporting ganhou na Luz, somou vitórias e oito pontos de avanço. Fora dele, falou-se de Ferraris, recordou-se o passado de cada um dos que se sentam no banco, de quem tinha “ganho bola” e de quem tinha demorado 20 anos a chegar ao clube com mais títulos em Portugal. Slimani abriu o dossier dos castigos e dos processos, enquanto o Porto de Casillas e das contratações falhadas perdia pontos, mudou de treinador, perdeu ainda mais vezes e ficou de fora da luta precocemente. Rui Vitória operou uma revolução no plantel, perde pesos pesados e mete os miúdos, um deles, Renato Sanches, que carregou a equipa ao colo e viria a trazer o tema “idade” e “pernas partidas” para a Guerra Santa de Bruno de Carvalho.

 

Com a luta dos clube ao rubro a NOS e a MEO, operadoras que compraram os direitos de transmissão, não ficaram atrás. O tema arbitragem ganha força, JJ vê a vantagem encurtar até ser ultrapassado por aquele que nem sequer considera ser treinador, na única derrota e únicos pontos perdidos nos duelos entre os grandes. Octávio Machado entra em campo para “falar daquilo que vocês sabem que eu estou a falar”, ataca Victor Pereira e cada uma das últimas jornadas o homem do apito é devidamente escrutinado, mesmo antes de ser nomeado. Jonas e Mitroglou continuam a marcar, Renato Sanches a correr, Slimani não desarma e João Mário arma todo o jogo. Os golos em cima da hora são a demonstração que a sorte dá muito trabalho num campeonato em que só faltava entrar em campo o “jogo da mala”, mas a suspeição de compra de resultados viria a ter expressão prática na II Liga, diga-se.

 

Terminar tal como começou. A falar do outro

 

O campeonato terminou. No tapete verde, o Benfica, atacado, unido e identificado que foi o “inimigo externo”, foi campeão. A aposta de Vieira, a estrutura e treinador, resultou, enquanto o Sporting que cresceu e muito até poderia ter ganho. O Arouca está na Europa, o Tondela operou o milagre da manutenção e o Tri do Benfica é conseguido em três anos de mandato de Bruno Carvalho e mais um período de seca de um Porto e de um Pinto da Costa que já não é assim tão unânime nem tão dominador.

 

No apito final da Liga, o Marquês encheu, a festa alargou-se para além do Terreiro do Paço, e Alvalade recebeu em apoteose os vice-campeões. Jonas e Slimani marcaram. Vieira discursou e Bruno de Carvalho caminhou entre os seus, do MacDonald’s ao Estádio. Fora das quatro linhas, Jesus despede-se da época tal como começou: a falar do outro, do clube que representou e do treinador que o substitui, de criações e cópias, lamentando que o melhor não ganhou e Octávio Machado, por sua vez, fala de Victor Pereira como merecedor da camisola do 35º título. Rui Vitória coloca nas dedicatórias o homem das pipocas à frente de Jorge Jesus.

 

A discussão segue dentro de momentos, de certeza, nas redes sociais, onde não estiveram, na última noite, nem Bruno de Carvalho, nem Mr. Burns. Mas também um pouco por todo o lado, onde aposto que o miúdo de 8 anos não deixará de gritar o nome do clube tricampeão que conquistou o 35º título após 34 jornadas. Ou seja de falar daquilo que de mais puro existe no futebol.

 

publicado às 09:59

O mundo sabe que ... é um Sporting-Benfica

Por: Miguel Morgado 

 

 

Sporting-Benfica. O derby é muito mais que um jogo. É o duelo das nossas vidas. Une amigos e famílias. Mas também os divide. Atravessa gerações, de pais para filhos, de netos para avós. Uns estreiam-se no clássico pelas mãos dos familiares. Outros, não. No meu caso, um tenent-coronel foi o meu bilhete de entrada. Tudo porque o meu pai, que me levava a todo o lado, nunca me levou à tal partida. Já eu, com quatro filhos, dois do Sporting, uma do Benfica e outro ainda sem idade para escolhas, levei o mais velho, pela primeira vez, no ano passado. E repito neste sábado. Caro leitor, embarque comigo nesta viagem às raízes de uma paixão por um jogo especial. Talvez encontre semelhanças com o que se passa lá em casa.  

  

Spooooooortiiiinnnnng. Benfiiiiiicaaa. Cada vez que se aproxima o derby dos derbies uma voz começa a ecoar na minha cabeça. Já lá vão pelo menos, citando de memória, 34 ou 35 anos. Quase tantos quantos os tais jogos especiais a que assisti. A memória puxa as cores. Verdes, brancas e vermelhas. Os olhos atentam os cachecóis ao ar e as bandeiras ao vento. Os ouvidos escutam os tambores a rufar, as buzinas a apitar e as gargantas a cantar. As palmas batem umas nas outras. O corpo vibra com o estádio a transbordar de paixão. Uns experimentam o sabor da vitória. Outros, a azia da derrota.

 

Qualquer criança, a quem desde tenra idade seja injetada a paixão do futebol, sonha, um dia, estrear-se naquilo que é muito mais que um jogo. Seja pela mão do seu pai, pelo braço do seu avô, guiado pelo irmão mais velho ou por um tio afastado. O mesmo é válido para qualquer progenitor ou ascendente familiar. Os elos familiares, as cumplicidades, para muitos, começam nestes palcos. Lado a lado. De braço dado. De pé e sentados. Com sol ou chuva, de dia e de noite. Gritando, saltando, chorando, rindo, festejando e esquecendo. Avós, pais, filhos, netos, primos e tios - e acrescento, amigos, juntos naquela que é a segunda família.

 

Não fui exceção. Ou antes, fui. O meu pai, adepto do Sporting, uma clubite que herdou, ensinou-me que o Sporting-Benfica é muito mais que um simples jogo, levou-me e ao meu irmão a ver muitos jogos - dezenas deles ! -  percorreu connosco Portugal e além fronteiras. Tudo para ver o Sporting. Tudo, à excepção de um Sporting-Benfica ou Benfica-Sporting. Aquele jogo. O tal jogo. Estranho, dizem todos a quem conto isto.

Tem uma explicação, como tudo na vida. Perante o derby, o meu impôs-se uma tática anos a fio: abstrair-se do mundo. Ia trabalhar, folheava os livros nas livrarias do velhinho Centro Comercial Alvalade, Apolo 70 ou Arco Íris, em Lisboa. Mais recentemente, refugia-se no cinema. Simplesmente, não consegue ver. Os meus 44 anos ainda não me permitem encontrar explicação para esta espécie de hara-kiri. Não sei se o leitor compreende. Ele lá saberá o porquê. Adiante.

 

O meu primeiro derby

 

Ora, sem o empurrão do meu pai, com o meu avô materno adepto do Torreense, já sem a presença do meu avô paterno, o meu primeiro jogo do século foi na companhia de... um tenente-coronel que vivia no mesmo prédio onde morávamos. Foi a ele que o meu pai decidiu confiar os dois filhos, a alguém que, pelas insígnias ao ombro, impunha respeito. E ordem. E assim foi. Corria o ano de 1982, nos melhores lugares do estádio, na central, debaixo da pala do velho José de Alvalade, com os anéis olímpicos a servirem de auréola em cima da minha cabeça que vi aquele jogo. Com tanta gente respeitável (e velha) ao nosso lado, eu e o meu irmão comportamo-nos como verdadeiros meninos de coros, rapazes que mais pareciam ter saído do Colégio Militar. O Sporting venceu por 3-1. Jordão meteu os golos na baliza de Bento que acabou expulso por agressão ao capitão Manuel Fernandes. O máximo do vernáculo utilizado foi um “Buuuuu... fora o árbitro. O árbitro é ladrão. O árbitro é ladrão”.

 

Passaram uns anos, ganhei “asas” e vocabulário e comecei a ir ver os Sportings-Benficas com amigos. Mudei de lugar. Deixei de ver a bola sentado e passei a vê-la à distância, atrás das balizas, entre cabeças de gente que se acotovelava à minha frente. Com amigos, muitos dos quais ainda hoje me acompanham. O derby começava logo no início da semana. Nos bancos da escola e nas antecipações lá em casa. Antecipado que estava este fim de semana desde que era conhecido o calendário oficial da época, nesse dia, nada, mas mesmo nada, me poderia desviar da romaria a Alvalade. Uma caminhada que começava sempre à hora do pequeno almoço. Fosse a que horas fosse o encontro. Íamos para as concentrações. Juntava-me àquela família chamada “A Tribo do Futebol”. Saia de casa a gritar. Tinha voz até as cordas vocais me permitirem. A horas de distância do apito inicial, puxava dos pulmões um reforço para aguentar, metia pastilhas de mentol pela boca abaixo e resistia com as forças que quem corre maratonas.

 

O dia seguinte era (e muitas das vezes ainda continua a ser) preenchido com algumas horas de silêncio para recuperar a voz e outras tantas para mergulhar nas páginas do jornal desportivo publicado no dia seguinte. O resumo televisivo dos 90 minutos era momento de prime time lá em casa. Hoje, tudo é diferente. Já não se cola o ouvido ao rádio para saber se é penalty. No próprio estádio não desgrudamos os olhos do smartphone enquanto não escalpelizarmos as três repetições do lance. É golo. É grande penalidade. Tem de ser expulso.

 

Nestes jogos que já valeram dois pontos, valem três, nem mais ponto nem menos ponto, há derrotas, há empates e há vitórias. Umas mais expressivas que outras. Da adolescência recordo, em especial, alguns jogos. A tal tarde-noite de dezembro dos 7-1, em 1986. Aquela, num ano em que o Benfica terminaria campeão, serviu de consolo, numa espécie de troféu de caça, para quem torce pelos rapazes de verde e branco. Mais um pulo na história e na estatística e entra a célebre vitória do Benfica por 3-6. Recordo-o não tanto pelo passo de gigante que as águias viriam a dar rumo ao título, mas porque era dia da minha festa de anos. Tudo programado a seguir ao jogo. Restaurante marcado para mais de 40 pessoas. No final, sem recurso a telefonemas, emails, whatsapps, facebooks, faxes, pombos-correio ou outra forma, uma fibra óptica ligou a mente de todos os convidados e cada qual foi para casa. Uns a rirem. Outros a chorarem. Desconheço o estado de espírito do dono do restaurante. A viagem no tempo termina em 1999, ano de quebra do jejum leonino, em que um egípcio de nome Sabry gelou Alvalade e adiou por uma semana o festejo do título.  

 

A família entra em campo

 

Estamos a poucas horas de mais um jogo. Com quatro filhos lá em casa, dois rapazes e duas raparigas, os mais velhos são do Sporting, a número três na hierarquia decidiu pegar os irmãos (e resto da família) pelos cornos e assumiu-se como benfiquista. O outro, o benjamim, ainda não tem voto na matéria, embora, na privacidade das brincadeiras de todos os eles, seja uma verdadeira bola disputada entre quem está em minoria e os outros.

 

No ano passado, foi ano de estreia do rapaz mais velho na ida ao clássico dos clássicos. Confidencio que esteve para não ir. Tudo porque naqueles castigos de impulso que impomos, sobre os quais nem sabemos o porquê de o ter feito e que lá bem no intímo sabemos que não iremos cumprir, o tal castigo separava-o de entrar pela minha mão no jogo das nossas vidas. Com as lágrimas a caírem em jato pela cara, a palavra “vamos embora” serviu de aspirador daquelas cataratas do Niagara. Poderia ter outro castigo. Comer sopa de brócolos, peixe cozido todos os dias da semana seguinte, eu sei lá, qualquer coisa menos impedi-lo de ir à bola ver o tal jogo. E assim fomos e regressamos com um empate (1-1).

 

Este ano, o derby já começou. Já foi falado e falado lá em casa. Discute-se na rua. Nos cafés, nas escolas, nos transportes públicos e no local de trabalho. Programas televisivos e de rádio dedicam horas e horas aos 90 minutos de sábado. As redes sociais elevam o tom e estão a “bombar”, como diria o nosso ex-primeiro-ministro.

 

Eu vou. O meu filho de 11 anos também vai. O meu irmão leva a filha. Ah... o meu pai, que nunca entrou neste filme, vai ao cinema na companhia da mulher que, por acaso, é benfiquista. Já todos nós antecipamos o resultado. O meu filho confidenciou-me que, independentemente do desfecho final, vai entrar em casa a cantar a música “o mundo sabe que...” aos ouvidos da irmã, que é afeta do rival.

 

A ver vamos se não enfia a viola no saco.  

 

 

Nota do SAPO24

 

Conte-nos também as suas memórias do derby. Quando foi a primeira vez, qual o jogo que nunca esqueceu, como vai viver o derby de amanhã. Envie-nos a sua história para conteudos@mail.sapo.pt e as melhores serão publicadas aqui. 

 

(actualização a 7 de Março 2016, 11h00)

As outras memórias do derby podem ser lidas aqui.

 

publicado às 19:25

A culpa não é do relvado. Nem sua, caro adepto

Por: Pedro Fonseca

 

Barulho dos adeptos, relva, iluminação e árbitros podem influenciar o resultado de um jogo de futebol? 

 

 Sporting e Benfica vão encontrar-se para os 16 avos da Taça de Portugal, no Estádio de Alvalade, este sábado, 21 de Novembro. Para os fãs, tanto para os que os ovacionam em campo como para os que acham que jogar em casa é uma vantagem, é melhor desiludirem-se: nada disso está cientificamente comprovado que funcione. Os fãs aos gritos têm pouco impacto no resultado de um jogo, segundo um recente estudo da universidade norte-americana do Nebraska: "gritar insultos ou encorajamentos não tem benefícios ou impactos", sintetizava o Daily Mail

O estudo foi feito com fãs do hóquei norte-americano, analisando quatro jogos da equipa da University of Nebraska-Omaha no Century Link Centre de Omaha entre Novembro de 2014 e Março deste ano. Como o jogo é feito no interior de um espaço, é mais fácil captar o som. Essa análise sonora aos jogos demonstrou que mais ruído não estava relacionado com uma melhor performance de mais golos pela equipa apoiada. Segundo Brenna Boyd, investigadora responsável pelo estudo, "o jogo mais barulhento ocorreu a 12 de Dezembro e ganhámos por um golo, pelo que penso não haver dados suficientes para saber se o barulho está correlacionado com quantos golos eles conseguiram durante o jogo".

Nos inquéritos dados aos jogadores após os jogos, estes também confirmaram que a assistência era barulhenta mas não os distraía do jogo. E o campo onde se joga, pode ser uma vantagem perante o apoio da audiência? Talvez. Num estudo sobre as equipas inglesas, nos anos 80, a equipa que jogava em casa ganhava, em média, 64% dos pontos. Análises posteriores apontavam que as duas "variáveis" com maior preponderância eram "a familiaridade com o estádio" e "o apoio da multidão". No primeiro caso, ajudava estar mais ajustado à relva ou à iluminação do estádio, se o jogo decorre à noite. Os apoiantes também podem "motivar os jogadores a darem o seu melhor e podem também influenciar as decisões do árbitro, levando a uma propensão para favorecer a equipa da casa". No entanto, este forte apoio pode igualmente pressionar demasiado a equipa da casa, além de que "multidões mal comportadas exercem uma influência negativa sobre o desempenho da equipa de casa", pelo menos segundo alguns estudos sobre o basquetebol - que, mais uma vez, é normalmente jogado no interior de uma sala.

Numa análise a equipas que jogam em campos neutros, o referido estudo da Football Perspectives detecta que "o apoio da multidão não é uma pré-condição necessária para a vantagem em casa", ao contrário do conhecimento do campo onde se joga. Há igualmente uma outra explicação, relacionada com o tempo de viagem da equipa visitante, mas os investigadores dizem ter um "pequeno efeito na vantagem" de jogar em casa. Na Alemanha, uma outra análise de 2008 assertava igualmente que os fãs e os estádios não são responsáveis pelas vitórias no futebol. Andreas Heuer e Oliver Rubner, da universidade alemã de Münster, analisaram 12 mil jogos da Bundesliga entre 1965 e 2007. A diferença de golos revelava uma vantagem nos jogos em casa mas era tão pequena por jogo que não se podia considerar relevante em termos estatísticos.

Mas pode esta pressão dos adeptos ter influência, por exemplo, nos árbitros? Aparentemente, isso pode acontecer. 40 árbitros assistiram a um jogo entre o Liverpool e o Leicester da época de 1998-99, com metade a vê-lo com todo o ambiente sonoro do estádio e a outra metade em silêncio. Os primeiros foram "menos propensos a marcar faltas contra a equipa da casa", relativamente aos que viram o jogo em silêncio. "Esta preferência para a equipa da casa coincidiu com as decisões reais do árbitro" no jogo desse dia, explicava o The Guardian. Segundo os investigadores, "os árbitros tendem a evitar marcar faltas contra a equipa da casa como forma de se protegerem dos níveis de stress adicionais que ocorrem com o antagonizar da multidão". Isto sucede não porque os árbitros queiram fazer o que a multidão pede mas para evitarem "o que iria dirigir a fúria da multidão directamente para eles". "Os psicólogos chamam a isso 'prevenção'" (ou "avoidance", no termo em inglês). Em resumo, no futebol - e perante o terreno, o barulho, os adeptos e os árbitros - ganha quem marca mais golos. De resto, é fácil arranjar desculpas de que o chão está torto quando não se sabe dançar...

publicado às 19:21

Uma sexta-feira como outra qualquer

Por: Rute Sousa Vasco

 

 “Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra.”

 

A notícia foi divulgada há exactamente uma semana. O astronauta Thomas Pesquet vai transportar para o espaço, no próximo ano, o texto do eventual acordo sobre as alterações climáticas que saia da cimeira de Paris, em dezembro. Agora é preciso é que haja acordo, porque esse ainda não é certo. Mas, se os líderes dos principais países poluidores conseguirem entender-se e comprometer-se, o presidente francês, Francois Hollande, entregará a Thomas Pesquet a prova do compromisso que ele levará consigo rumo à Estação Espacial Internacional, em novembro de 2016. “O ambiente é algo que sempre esteve próximo do meu coração. Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra”, realçou o francês, de 37 anos.

 

Fez também ontem uma semana que o Argentina-Brasil, da terceira jornada da qualificação sul-americana para o Mundial de Futebol de 2018, foi adiado para o dia seguinte. Choveu forte e feio em Buenos Aires e não houve outra hipótese que não cancelar o jogo.

 

Bem longe dali, e 24 horas depois, o partido de Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento da Birmânia. Foi um dia histórico! Apesar de um quarto dos assentos estar reservado aos militares, o partido da Nobel da Paz ultrapassou a barreira que lhe permite eleger o Presidente e formar governo. Foram as primeiras eleições livres na Birmânia em mais de 25 anos.

 

Isto aconteceu a 13 de novembro de 2015, um dia em que, aliás, aconteceu muita coisa. A Universidade de Coimbra, por exemplo, anunciou neste dia que conta atualmente com 3.769 estudantes de mais de 80 nacionalidades em regime de mobilidade e através do estatuto de estudante internacional. Também na mesma data, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve foi selecionado para um projeto europeu que pretende promover o aumento da aquacultura até 2020. E o Campo Arqueológico de Mértola, no Alentejo, recebeu o prémio deste ano das Academias Pontifícias do Vaticano, dedicado aos primeiros séculos do Cristianismo, pelas campanhas arqueológicas dos últimos anos e pelos "extraordinários resultados obtidos".

 

No dia a seguir, 14 de novembro de 2015, soubémos que o arquiteto Eduardo Souto de Moura criou um projeto para construir um auditório junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que, a ser aprovado, deverá tornar-se a grande obra do prémio Pritzker na capital do país. Que boa notícia para Lisboa.

 

E soubemos também que um conjunto de marcas de mobiliário, iluminação e decoração portuguesas se juntou para criar uma forma inovadora de promover os seus produtos no mercado britânico. Alugou um apartamento residencial que transformou em espaço de exposição em Londres, o Covet London. Aí estão marcas como as do grupo Menina Design, Boca do Lobo, DelightFULL, BRABBU, Koket, Maison Valentina e Luxxu. Que boa ideia...

 

Em Évora, arrancou um projeto-piloto, o Programa “Mais”, com o objectivo de promover o emprego partilhado de técnicos entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o recrutamento de profissionais desempregados para estas entidades. A iniciativa é da UNITATE – Associação de Desenvolvimento da Economia Social, uma IPSS sediada em Vila Viçosa (Évora), mas de cariz nacional, e dirige-se, nesta fase inicial, às 80 associadas da União Distrital das IPSS de Évora.

 

Quem passou por Lisboa foi Laurie Anderson que veio ao Lisbon & Estoril Film Festival estrear o seu último filme, Heart of a dog. Um filme sobre "liberdade e medo", num mundo criado por palavras. "Pediram-me para fazer um filme sobre a minha filosofia de vida. Disse logo que eu não a tenho e se tivesse não a punha num filme para toda a gente ver. Mas acabei por fazer uma coleção de histórias e, no final, é a minha filosofia de vida. Traiu-me.", contou. Ao longo de pouco mais de uma hora, Heart of a dog gira em torno de Lollabela, a cadela de Laurie Anderson.

 

O tenista português João Sousa subiu esta semana ao 33.º lugar do 'ranking' mundial de ténis, a melhor posição de sempre de um tenista português. E está confidante que "a época de 2016 vai ser ainda melhor".

 

No dia 16 de novembro, começaram os "Dias do Desassossego", uma iniciativa promovida, em Lisboa, pela Casa Fernando Pessoa e pela Fundação José Saramago para celebrar o livro e a leitura, com música, cinema e debates.

 

Mais coisas que aconteceram esta semana. Os 2.500 bilhetes que o Benfica tinha disponíveis para o jogo de sábado com o Sporting para a da Taça de Portugal esgotaram poucas horas depois de terem sido colocados à venda. No próximo dia 21, dez dos melhores pianistas nacionais e internacionais vão estar juntos em palco num concerto no centro cultural de Viana do Castelo, a maior sala de espetáculos do Alto Minho. E a revista médica The Lancet HIV revelou que um medicamento utilizado para tratar o alcoolismo associado a outras substâncias poderá contribuir para eliminar o vírus da sida em seropositivos (uma notícia conhecida no mesmo dia em que o ator Charlie Sheen contou no programa de televisão Today que é portador do vírus da sida).

 

Somos capazes de não ter reparado em várias destas notícias. Estas são as notícias da nossa normalidade.

 

Do direito que conquistámos – porque não foi sempre nosso e não é ainda um direito de todos – de usufruir simplesmente da normalidade. De sair de casa para ir trabalhar, trocar dois dedos de conversa no café da esquina, meter óculos escuros porque faz este fantástico sol de novembro e encontrar um lugar no metro onde possamos ler durante alguns minutos o livro que nos acompanha. Trabalhar, pensar em fazer coisas novas, combinar ‘comes e bebes’ com amigos, ir ao cinema ou simplesmente passear pela cidade.

Tudo isto sem termos de pensar duas vezes.

Isto é ser feliz sem saber.

Isto é aquilo de que não podemos abrir mão. Isto é aquilo que temos de reivindicar para quem não tem ainda. Apesar do medo. Apesar do horror. Apesar.

Todos os dias têm de ser uma sexta feira como outra qualquer. Em Lisboa, em Paris, em Beirute, em Lagos ou em Damasco.

 

Outras coisas sobre o direito à normalidade.

 

Normalidade é também igualdade. A igualdade dos géneros, nomeadamente no que respeita a salário igual para trabalho igual, ainda está longe e é preciso acelerar bastante o passo.

 

O que não é normal é que já se tenham passado 20 anos desde que este filme estreou. O Toy Story já tem 20 anos. O miúdo já está mesmo na faculdade. Mas que bom continua a ser sentarmo-nos no sofá e rever o filme.

publicado às 10:42

O Super Fundo, o Super Agente e o Génio numa Liga que se quer Super

O primeiro pontapé da bola da época 2015-2016 da Liga NOS será dado hoje, 14 de agosto. O Sporting Clube de Portugal apadrinha o Clube Desportivo de Tondela na sua estreia entre os maiores do futebol português. O Estádio Municipal de Aveiro, que deveria ser a casa de um clube que foi relegado para os Distritais devido a questões financeiras (Beira-Mar), é o palco, emprestado, de um clube que subiu a pulso à custa do rigor orçamental.

 

Por: Miguel Morgado

 

futebol

 

A Liga, com novo inquilino, o ex-melhor árbitro do mundo, Pedro Proença, quer estar entre as melhores das melhores. No topo do futebol europeu. Esse é, para já, um desejo. A competitividade é outro. E nesse campo, o palco da história da competição tem sido objectivamente dividido entre dois clubes, embora o terceiro nunca se possa descartar. Para os três crónicos candidatos – Benfica, Porto e Sporting – a próxima época será um tanto ou quanto diferente das anteriores. A obrigatoriedade de ganhar títulos é inerente ao ADN das equipas. Até aqui nada de diferente, mas, este ano, em particular, não será uma questão de vida ou morte, mas andará lá muito perto. Não no sentido literal, descansem, mas os três presidentes das três instituições desportivas estarão debaixo de escrutínio mais apertado por parte de sócios e adeptos. Porquê? Passemos a explicar.

 

O Futebol Clube do Porto e Jorge Nuno Pinto da Costa confundem-se numa história repleta de títulos. Perder, ou antes, não ganhar, é como aquelas letras minúsculas de alguns contratos. Estão lá mas ninguém repara. Só olhamos para o que compramos. Para o bolo, que no caso está bem recheado de faixas, títulos e taças. Agora, quando os outros ganham, significa que o Porto não venceu....É pois, se dois anos sem festejar nada junto à Câmara Municipal, podem provocar muita azia em estômagos habituados a francesinhas, se somarmos mais um ano de jejum, avizinha-se algum contorcionismo lá para os lado da Foz. Porque só os diamantes são eternos e porque Pinto da Costa quererá, quando assim entender, sair de cena com mais uma medalha ao peito, a aposta é grande. E de risco. Tal como no passado recente, e com muito sucesso, o “casamento” com o Super Fundo, Doyen Sports, serve para fazer aterrar na Invicta estrelas de outros campeonatos, estrelas essas que, mais tarde, ou mais cedo, farão as malas rumo a outras super Ligas. Algo a que este “casal” está habituado. E até se dá bem.

 

Reconhecidamente um dos clubes que está sempre um passo à frente no que toca ao futebol, e porque, por enquanto, a proibição dos TPO (Third Party Onwership), ou seja, a participação de terceiros (fundos de investimento, por exemplo) nos direitos económicos dos jogadores, foi decretada pela FIFA (artigo 18 ter do Regulamento do Estatuto e Transferências dos Jogadores), o Porto fez uma finta, e continua a garantir o concurso de craques, que de outra forma não conseguiria. Como? Seja via TPI (Third Party Investment). Ou seja, o Fundo empresta o dinheiro para a aquisição dos direitos federativos, funcionando assim como uma entidade bancária, seja utilizando os serviços de intermediação, ou até recorrendo a uma “barriga de aluguer”, isto é, um clube, no caso concreto uruguaio (Sud América), que comprou o avançado Pablo Osvaldo, registou os seus direitos, e que, de seguida, emprestou o ítalo-argentino aos Dragões. Definitivamente um golaço fora de campo. A ver vamos se dá frutos no relvado.

 

Aquele que tira as pérolas do Seixal com uma mão.... 

 

O Sport Lisboa e Benfica parte para os próximos meses depois da embriaguez de títulos dos últimos dois. E se recuarmos até ao dia em que Jorge Jesus entrou pelas portas adentro do Seixal, encontramos muitas razões que fizeram sorrir (campeonatos e Taças) e também chorar (finais da Liga Europa) sócios e adeptos do clube da águia. Com JJ, Benfica jogou, voou e sonhou bem alto. E festejou.

Bi-campeonato conquistado e eis que o mundo encarnado parece desabar. Embora Luis Filipe Vieira recupere uma frase que se costuma ouvir mais a norte de “a estrutura...”, aquele a que podemos chamar o Dono Daquilo Tudo, leia-se dos títulos, troféus e finais, Jorge Jesus, foi-se. E não para longe, mas para bem perto. E ter um “fantasma” a viver ao nosso lado, não é nada agradável. E dói.

 

Para piorar, a pré-época das águias foi ao nível da pré-campanha do Partido Socialista. As figuras de cartazes não devem passar de figurantes no plantel. Ao ponto de Rui Vitória, no jogo da Super Taça, ter que se socorrer de caras do Seixal (deixando os rostos da Junta de Freguesia de Arroios para outros campeonatos). Depois da derrota num simples jogo, Vieira terá que explicar muito bem explicadinho a aposta feita. Ao contrário do PS não há, até à data, demissões de “diretores de campanha” nem “mea culpa” na escolha das opções feitas. Antes, Vieira, que já o tinha feito e continuará a fazer, irá desdobar-se em cada Casa do Benfica por esse país fora. Até dia 31 de agosto, aquele que com uma mão coloca pérolas do Seixal pelo preço mínimo garantido de 15 milhões em Espanha, França e outras paragens, ajudará, com a outra. Falamos de Jorge Mendes, o Super Agente, que tal como no passado, nos últimos dias de fecho do mercado, com pós de perlimpimpim, pezinhos de lá e mãos cheias de euros, “mete” cá os seus representados. Uma estratégia que tem dado lucros, desportivos e financeiros.

 

O Génio que mudou de lâmpada

 

Por último, o Sporting de Jorge Jesus e de Bruno de Carvalho. Eterno corredor por fora destas contas, este ano assume a luta por dentro. Para tal, o jovem presidente que já tinha no currículo o fato de ter tido olho para ir buscar, em dois anos, dois dos grandes treinadores portugueses (Leonardo Jardim e Marco Silva), conseguiu, ao terceiro ano, tão só, ir buscar o maior entre os maiores. Numa jogada de mestre conseguiu ter o génio da bola ao seu lado no banco onde gosta de estar. E continuará a estar.

Roubando o “cérebro” ao eterno rival, ao mesmo tempo que esventra o coração alheio, enche a alma leonina. E se enche. Jorge Jesus, fala como um homem, veste-se como um homem (o tratamento e as madeixas capilares é de homem moderno, diga-se), por isso, toda a nação sportinguista diz ser o homem certo.

 

BdC, envolvido em batalhas internas e externas, sabe que a mais saborosa de todas será o título de campeão nacional. Ou mais taças, para juntar às que conquistou. Jogou, por isso, em vésperas de eleições, uma cartada bem forte. Enquanto as atenções benfiquistas estão centradas na Portela, nas Chegadas, os vizinhos da segunda circular, não querem ver nem ouvir a palavra Partidas. Rodando a bússola a Norte, até ao lavar dos cestos é vindimas, por isso é provável um entra-e-sai. Para já, um teve guia de marcha. Adrian Lopez, do Super Agente Mendes. 

 

No fim fazem-se as contas. Antecipamos, desde já, que para quem não vencer a Liga será um “ai Jesus”. Ao vencedor os seus fiéis adeptos responderão com um Amém, enquanto aos outros resta pregar fé pelas suas freguesias. Jesus, Bruno de Carvalho, Vieira, Rui Vitória, Pinto da Costa ou Lopetegui. Um deles, ou a dupla, será apelidado de Super-Herói (s) da Liga 2015-2016. Só esperamos que não vistam o tradicional kit de capa e collants. Porque ver qualquer um deles assim, não seria uma imagem compatível com uma Liga que se quer Super.

 

Miguel Morgado é jornalista, tendo trabalhado no Jornal de Negócios, Euronoticias, Revista Política e Revista “Ganhar” (Jornal de Negócios). Foi editor de Desporto de dois jornais regionais  (Jornal de Oeiras e Jornal de Cascais) e do site www.desportnalinha.com . Atualmente, é assessor de Impensa na Cunha Vaz e Associados. Esteve inserido nas estruturas de comunicação do Sporting Clube de Portugal, Federação Portuguesa de Rugby, CTT e RTP, entre outros clientes. Licenciado em Relações Internacionais e Pós Graduado em Jornalismo e Comunicação, pelo ISCTE está a terminar uma tese sobre “Fundos de Investimento no Futebol – Third Party Onwnership” no âmbito da Pós –Graduação de Finanças e Direito do Desporto, na Faculdade de Direito de Lisboa. Casado e pai de 4 filhos. Gosta e pratica futebol, surf e rugby.

 

publicado às 15:00

Jesus é castigador? Os primeiros a sabê-lo serão Vitória e Vieira

Supertaça. Joga-se porque tem de se jogar. É apenas um jogo que não abre portas para lado algum. Desta feita, porém, alguém lhe pôs uma pitada de um condimento especial.

 

Por: José Bento Amaro

Jesus é castigador? Vitória e Vieira serão os primeiros a sabê-lo

 

A Supertaça não me enche as medidas. Bem sei que é uma espécie de aperitivo para um banquete longo e nem sempre de fácil digestão, como é o Campeonato Nacional mas, para falar a verdade, quase nunca me seduz e muito menos me faz queimar neurónios na quase insana tentativa de tentar adivinhar a equipa titular, as tácticas, as reacções dos intervenientes. É um troféu que não dá dinheiro, que pouco prestígio acrescenta e que nem sequer promove por aí além os jogadores.

 

Jorge Jesus, cujo futebol tanto apreciei nos últimos seis anos, saltou a cerca e parece apostado em aplicar a receita mágica na casa do grande rival. Até domingo ainda gosto dele mas, se acabado o jogo tiver ganho o apoucada competição, serei mais um a render-me à irracionalidade e a colocar o mediático treinador português na lista dos mal-amados.

 

Jesus foi campeão por três vezes em seis anos (o Benfica tem o hábito de ganhar um campeonato nacional a cada três anos e dois meses). Devolveu alguma da grandeza que se andava a desvanecer. Ninguém lhe pode atirar pedras, embora, face ao investimento feito, pudesse e devesse ter ganho mais dois campeonatos (caídos aos trambolhões nas mãos do portista Vitor Pereira, que não teve culpa das invenções do amadorense nem do empurrão generoso do actual presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença).

 

Mas a verdade é que colocou a equipa a jogar futebol como poucos já se recordavam. Encheu o estádio, valorizou jogadores, foi o motor para negócios de milhões (ganhos, mas também gastos). Os mesmos milhões que agora o fizeram apear-se de um cavalo habituado a correr nos melhores circuitos para ir desbastar um potro que, no futuro, tanto pode vir a ser um campeão aclamado ou uma pileca trôpega. Continuarei a gostar dele até ao momento em que o animal que agora monta ultrapasse o meu. E desejo que isso não aconteça em nenhum dos anos em que tem contrato com o Sporting (um campeonato ganho a cada seis anos de vida). Mais sincero não posso ser.

 

Despesista e mandão, Jorge Jesus chegou a Alvalade não só como treinador. É, de facto, o treinador-presidente, pois é por sua acção que o clube - dito falido e sempre imerso num mar de instabilidade – tem vindo quase diariamente a assumir compromissos financeiros de monta e que vão desde a contratação de jogadores com tarimba e qualidade (mas também especialistas em criar confusões), até investimentos em instalações e equipamentos.

 

É devido a Jesus que regressam a Alvalade o irrascível Octávio Machado e o enxovalhado Manuel Fernandes e que recolhe aos bastidores o sombrio Augusto Inácio e ao camarote presidencial o eleito presidente da instituição, Bruno de Carvalho. Simplificando: Jesus chegou, contratou à grande e à francesa (parece que até se prepara para dar já guia de marcha a um dos reforços), rodeou-se de pessoas da sua confiança e afastou aquelas que entende que não lhe irão trazer quaisquer vantagens. Face a isto porque não há de um benfiquista gostar de Jesus?

 

Sim. É verdade que o Sporting já joga futebol. Já é uma equipa que joga a correr na direcção da baliza contrária. Que pressiona os adversários e empolga as bancadas. Sim. É verdade que, pelo que se tem visto, o Sporting tem agora uma equipa bem mais favorita para vencer a Supertaça Cândido de Oliveira. Benfica e Sporting perderam alguns titulares. O Sporting comprou e parece disposto a continuar a reforçar-se. O Benfica não passa, para já, de um conjunto de promessas presidenciais. Até ver, de vitória o treinador do Benfica apenas tem o apelido. Os sócios, que até tinham perdoado os resultados pobrezinhos dos primeiros quatro jogos, estão agora exasperados com a miséria demonstrada ante um tal de Monterrey, equipa mexicana voluntariosa, já com andamento competitivo mas que nunca por nunca ser pode dar uma abada de 3-0 ao bicampeão nacional. As coisas vão mudar, dizem os benfiquistas mais tolerantes. E de facto vão: Gaitan deve sair em breve e a equipa ficará ainda mais debilitada. Maxi Pereira talvez não faça falta, mas a ausência de Lima vai ser muitas vezes lembrada. Quanto a reforços (daqueles que o são mesmo) é que ninguém ouve falar. Acumulam-se suspiros e o imenso desejo de ver cumprida a promessa de Vieira ao treinador – “Vais ter o mesmo que tiveram os outros treinadores”.

 

Os corações mais ansiosos aguardam, numa esperança meio destrambelhada, o anúncio da chegada de ídolos. Markovic e Coentrão são os mais badalados. O pior é que os jornais só falam, diariamente, em novos jogadores para os adversários. A calma começa a dar lugar à irritação. No domingo, no Estádio do Algarve, tudo poderá, no entanto, inverter-se em relação a Rui Vitória. Basta que ganhe o mediano troféu para voltar a sentir a confiança da mais numerosa massa associativa do país e do mundo. Se vencer deixará de ouvir coisas como “a equipa parece um conjunto de funcionários públicos alemães, obrigados a colar 257 estampilhas numa hora”.

 

Em caso de derrota ganha sobre os ombros o peso de uma pouco invejável cruz, passada por Jorge Jesus que, quando sentiu que já não era o centro do mundo (benfiquista) e que mais umas centenas de milhares de euros anuais (para além de um casarão de quase cinco milhões numa zona de gente fina, qual José Mourinho) lhe irão adocicar a reforma que já lhe acena, virou costas aos afectos, atravessou a estrada e foi por o grande rival a gastar dinheiro e a jogar à bola.

 

 

José António Bento Amaro é jornalista desde 1987 (Correio da Manhã, Semanário e Público). Tem 51 anos de idade e, garante, mais de mil de benfiquismo. Trabalhou em áreas como a justiça, o desporto e quase toda a informação geral. Actualmente "mata o tempo em pequenos, mas honestos jornais regionais" e, sobretudo, em alguns projectos que deseja venham a ser literários. O Benfica? "O Universo e pequeno para tanta grandeza". Nasceu na "mui nobre, gloriosa e sempre amiga Aldeia da Mata, Crato", concelho onde também "mata um pouquinho do tempo" como secretário da Assembleia Municipal.

publicado às 12:53

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