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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

É isto o novo normal? E vamos habituar-nos a ele?

Por: Paulo Ferreira

Terrorismo, derrocada da banca, extremismos. O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um outro equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas.

 

Os sobressaltos sucedem-se e cada um deles aumenta os riscos que pendem sobre as nossas cabeças. É o terrorismo e as suas variadas formas, propósitos e geografias. É a prolongada estagnação económica, que ameaça os equilíbrios que fomos construindo durante décadas. É a banca, que tomou como refém o dinheiro dos contribuintes. É o Brexit e a machadada que dá na União Europeia. É a crise de refugiados com o humanismo a que nos obriga. É agora a Turquia, num reforço da deriva autoritária contra tudo o que são os valores que gostamos de atribuir à Europa. É o crescimento dos extremismos e do radicalismo ideológico.

 

Chegámos até aqui lentamente, passo a passo e começamos a ter a perigosa percepção de que “isto” é normal.

 

Cada novo ataque terrorista, por mais hediondo que seja, é cada vez mais um. Todos lamentamos, todos choramos as vítimas e nos indignamos com a barbaridade: como é possível? Mas regressamos à nossa normalidade cada vez mais depressa. O 11 de Setembro - já lá vão 15 anos - e a série da Al Qaeda que continuou em Londres e em Madrid já estão tão longe… Já morreram outros milhares de inocentes depois disso e há quem defenda que temos que nos habituar poque vai continuar a ser assim. Temos mesmo? Devemos habituar-nos?

 

Outro plano, que nós portugueses conhecemos por experiência própria: a banca. Aqui não se trata de ceifar vidas humanas no sentido literal mas da ameaça à nossa forma de vida e à prosperidade a que temos direito. Lembram-se do BPN e do escândalo que foi a derrocada, a nacionalização e a conta que todos estamos a pagar? Dizia-se que tínhamos “batido no fundo”. Somos ingénuos, porque o fundo não era ali. O fundo está, afinal, lá muito mais abaixo e provavelmente ainda não chegámos lá. Depois disso foi o BPP, o BES e os efeitos colaterais na PT, o Banif, agora a capitalização da Caixa. Tudo cada vez mais olhado como fazendo parte da normalidade. Lá fora - que não é verdadeiramente lá fora, as contas destas coisas são sempre mais ou menos partilhadas - a Itália está com um problema bancário de 300 mil milhões e a Alemanha tem o seu Deutsche Bank com uma factura estimada de 150 mil milhões. Os problemas da banca tornaram-se tão normais como o calor em Agosto e o frio em Janeiro.

 

E os refugiados, que continuam a morrer às centenas e os cadáveres a darem às nossas costas, obrigando-nos a refazer as estatísticas?

 

Recordam-se quando os partidos extremistas eram vistos como uma ameaça por chegarem aos 4% ou 5% em eleições? Eles aí estão agora, a disputar o poder taco a taco, nalguns casos. Junte-se, para compor o quadro, a real possibilidade de virmos a ter Donald Trump na Casa Branca e Marine Le Pen no Eliseu. Assustador, não é? Aos nossos olhos pode ser, mas não desprezemos arrogantemente os milhões que votam neles e noutras propostas políticas extremas, venham elas da direita ou da esquerda.

 

Elas são sobretudo alimentadas pelos receios de cidadãos pacatos que, inquietos com a falta de respostas das instituições em que já confiaram no passado, decidem apoiar soluções radicais para resolver problemas que eles sentem como sendo também radicais. É a lógica do “para grandes males, grandes remédios”, embora estes remédios sejam verdadeiramente uma nova doença.

 

O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um novo equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas. Faltam lideranças capazes, é certo. Essa é mais uma perigosa normalidade.

 

Sobre os sapos conta-se a conhecida experiência laboratorial. São sensíveis à temperatura, claro, e se atirados para uma taça com água a ferver eles saltam imediatamente dali para fora. Mas se forem colocados num tacho com água à temperatura do lago onde vivem eles ali ficam quietos. E se esse tacho for aquecido em lume muito brando o animal vai-se acostumando e não é accionado o instinto que o leva a fugir. Até morrerem cozidos quando a água ferve. É assustador pensar que podemos estar hoje a ser estes sapos.

 

Outras leituras

 

Há cerca de um mês tivemos um momento alto de demagogia por parte de António Costa com a tirada (cito de cor): tantos problemas graves para resolver na Europa e Bruxelas preocupa-se é em aplicar sanções a Portugal. Independentemente da injustiça das sanções no nosso contexto, esta abordagem transborda a populismo. Senão, veja-se o que se passa hoje no nosso Parlamento: tantos problemas sérios para resolver no país e os deputados preocupados com os cogumelos shiitake.

 

Não aprendemos mesmo com os erros passados. Os contribuintes vão pagar 10 milhões de euros em vez dos automobilistas, que beneficiam de um desconto de 15% em algumas portagens. Era importante ter estudos sérios sobre o verdadeiro impacto desta redução de preços na circulação nestas auto-estradas. Quantos condutores deixarão de utilizar vias alternativas porque a portagem desceu de 10 euros para 8,5 euros? Quando as contas puderem ser feitas será já demasiado tarde.

publicado às 11:52

Saia da Europa, mas não me convide

Por: José Couto Nogueira

 

No Brasil vendem-se umas t-shirts que têm estampado: “Vá ao teatro” em letras garrafais, e depois por baixo, em pequenino: “Mas não me convide!”. Certamente que, no Reino Unido, uma adaptação desta ideia faria sucesso, sobretudo entre os políticos insulares: “Brexit. But don’t invite me”. Com o anúncio feito ontem por Nigel Farage, de que se retira da arena inglesa, parece não sobrar nenhum dos promotores do referendo para conduzir o país para uma solução tranquila.

 

 

A sequência de eventos é de deixar qualquer um estupefacto. David Cameron, afirmando que foi derrotado no referendo que ele próprio convocou, demite-se da direcção do Partido Conservador e de primeiro-ministro. O que ele não quer é tomar conta dum processo inédito e certamente penoso e complicado. Pela lei inglesa, os conservadores continuam a governar até às próximas eleições, em 2020. Portanto terão de escolher outro. Boris Johnson, pois claro, e que até é a favor do Brexit. Mas Johnson vem logo dizer que não concorre, porque também não quer ser o responsável por aquilo que defendeu.

 

Um pensamento que vem logo à cabeça é que o Monty Pyton fez escola. Ou que previram o futuro. Há uma cena num filme deles – “A vida de Brian” ?, “O cálice sagrado” ?– que poderia muito naturalmente ser invertida para a realidade britânica actual. Uma praça cheia de populares esfarrapados. Os líderes revolucionários, em cima dum palanque improvisado, gritam: “Vamos atacar o castelo!”. A multidão em uníssono responde: “Vamos, vamos! Todos ao castelo!” Desata tudo numa correria em direcção ao castelo, a brandir foices e enxadas, enquanto os organizadores do motim se abraçam, dão palmadas nas costas, e depois seguem para o pub para beber uma merecida cerveja. O trabalho deles está feito, a turba que se desenrasque.

 

E entre os líderes que incitaram a populaça a atacar o castelo, temos o mais truculento e reaccionário, Nigel Farage. Eleito para o Parlamento Europeu, notabilizou-se por insultar os colegas regularmente e acusar a União Europeia de ser uma espécie de entidade nazista. Uma vez disse na cara de van Rampuy, então presidente do Conselho Europeu, que ele tinha o carisma de um esfregão de cozinha. Doutra, afirmou peremptoriamente que a União foi criada para impedir os impulsos imperialistas dos alemães e que afinal falhou redondamente. Agora, já depois do Brexit, voltou ao hemiciclo de Bruxelas para dizer que os parlamentares à sua volta nunca tinham trabalhado um dia na vida.

 

Pois bem, Farage, o campeão do Brexit, acaba de afirmar que, cumprido o seu objectivo de vida, se retira da política. No Reino Unido não tem qualquer cargo público – perdeu a eleição para deputado, em 2015 - portanto sair ou ficar não faz diferença. Mas acrescentou que continuará a ir regularmente ao Parlamento Europeu achincalhar os colegas e “vigiar com olhos de águia” o cumprimento da separação.

 

O Partido Conservador terá de fazer eleições internas. Os seus 150 mil filiados escolherão dois entre cinco candidatos e depois os deputados do partido optarão por um deles. Espera-se que o processo esteja concluído até 9 de Setembro. Então quem são essas cinco vítimas da dislexia nacional, numa altura em que o pedido de novo referendo tem cinco milhões de assinaturas?

 

Theresa May, a Ministra da Administração Interna (Home Secretary) era contra o Brexit, mas já disse que aceita o resultado. Muito conservadora, tem uma linha dura quanto a imigração, segurança social e segurança. Seria a hipótese mais drástica em termos de forçar as ideias relacionadas com o Brexit. Disse que não aceitará contribuir para o orçamento da UE, o que torna a sua posição negocial insustentável à partida.

 

Michal Gove, o Ministro da Justiça. Como ele próprio declarou, com humor britânico, não tem carisma nenhum. Não acrescentou, mas poderia tê-lo feito, que é uma combinação da simpatia de Shaüble com o bom humor de Jeroen Dijsselbloem. O Partido só o escolherá se estiver mesmo decidido a desaparecer do mapa politico.

 

Os outros três são praticamente desconhecidos do eleitorado: Andrea Leadsom, actual Ministra da Energia e Mudanças Climáticas, Stephen Crabb, Ministro do Trabalho e Pensões, e Liam Fox, Ministro da Defesa. Ou seja, cinco desconhecidos – por ora, uma vez que um deles será o próximo primeiro ministro. Têm em comum uma linha dura quanto a imigração, o que poderá dificultar muito as negociações com a UE; a livre circulação de pessoas será certamente um exigência básica para qualquer acordo.

 

Depois há o Partido Trabalhista, dirigido pelo homem invisível,Jeremy Corbyn. Sabia-se que era favorável ao Brexit, num partido que é contra, e talvez por isso mal se viu durante a campanha. No Governo-sombra trabalhista as demissões são ao molhe.

 

Para a Europa que fica na União, e que sofreu um abalo telúrico com consequências inimagináveis, quanto mais cedo o Reino Unido sair, melhor. Mas quem tem de tomar a decisão são os ingleses, e só eles, invocando o famigerado artigo 50° do Tratado de Lisboa. Um líder que ainda ninguém sabe quem é, decidirá quando fazê-lo, e isso deixa os europeístas furiosos. O menino que já não quer brincar é que decide quando a brincadeira acaba, onde já se viu?

 

Entretanto há outros acontecimentos europeus que podem influenciar a decisão britânica e que serão influenciados por ela, numa interdependência diabólica. Por exemplo, como lembra Wolfgang Münchau, editor do “Financial Times”, as eleições francesas são em 2017 e Marine le Pen é a favor do Frexit – saída da União Europeia e do euro. François Hollande, caso concorra, quer que o Reino Unido pague as despesas do Brexit. Em 2017, os ingleses podem não ter ainda activado o artigo 50º e terão toda a vantagem em esperar pelos resultados franceses antes de o fazer.

(Por falar nele, Münchau é alemão. Arranjará visto para continuar a dirigir o FT?)

 

Enquanto isto, e mesmo sem artigo 50º, os ingleses já estão a pagar a sua decisão: muitos pedidos de cidadania (dos imigrantes que o podem fazer), muitas saídas das ilhas (dos britânicos que querem e podem), desvalorização da libra, deslocalização de bancos e serviços financeiros (entre 50 a 70 mil postos de trabalho), baixa do rating, clivagens territoriais e geracionais, racismo sem precedentes.

 

Toda a gente prevê o fim da Europa, mas ninguém consegue prever como será. No Continente, a questão são os maus líderes: Merkel, Juncker, Draghi, Schulz, Schäuble, Hollande, Renzi, Groysman, Orbán, e tantos, tantos, que seria tedioso enumerar.

Na ilha, o problema é a falta deles.

publicado às 01:07

Uma ilusão a menos

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Oito dias depois, passado o choque inicial, as cabeças arrefecem e os comentários sobre o resultado do referendo no Reino Unido vão mudando de tom. No começo, parecia uma maré alta em tempos de marés vivas - e a histeria atravessava os que defendiam o brexit tanto quanto os que julgavam essencial a permanência do país na União Europeia. O cataclismo foi garantido de ambos os lados.

 

Agora, a “vitória” começa a ser distribuída por toda a gente: os que defendiam a saída da União continuam satisfeitos com o resultado do referendo, mas perderam a pressa na saída; os que viam no abandono britânico o terramoto que iria matar a Europa unida começam a vislumbrar no triste resultado algumas oportunidades. Repensar a Europa. Refundar a Europa. Corrigir a Europa.

 

Para quem, como eu, chegou à maioridade quando o processo de adesão à (então) CEE começou - e atravessou os anos 80 e 90 assistindo ao milagre da multiplicação das auto-estradas, ao enriquecimento de meio-mundo, ao “desenvolvimento” traduzido em multibancos, vias verdes e centros comerciais, ao fim dos tormentos nas fronteiras e à chegada, impante, de uma nova moeda -, o momento que vivemos, qualquer que seja o desenlace, é igual ao sinal de trânsito que nos indica “estrada sem saída”. É o fim desse aparente paraíso em que os mesmos países que, menos de 50 anos antes, se confrontavam impiedosamente numa guerra insana e esmagadora, estavam agora juntos e estáveis à procura de um crescimento sustentável e de um ambiente próspero para os seus cidadãos, em democracia e liberdade.

 

Foi esta ideia que alimentou a minha adesão ao projecto europeu. Como se, por fim, olhássemos uns para os outros e percebêssemos que pertencíamos a uma mesma raiz, mesmo que com crescimentos e ideias diferentes.

 

Afinal, não é bem assim. Ainda há quem ache que há seres humanos de primeira e de segunda, ainda há quem queira defender o seu território com medo de “invasões bárbaras”, ainda há quem não tenha percebido que, num mundo globalizado, quanto mais nos fechamos,  mais ameaçados estaremos (como ainda há dois dias se viu em Istambul)…

 

O resultado do referendo no Reino Unido foi mais decepcionante do que se tivesse ocorrido, com igual resultado, em qualquer outro terreno europeu - justamente porque o país reclama para si uma democracia com História, e uma certa arrogância política e cultural. Que não se traduz na resposta à pergunta mais básica de todas. A que define o futuro, independentemente das contingências do presente.

 

 

Uma semana quente…

 

Depois do referendo britânico, vieram as eleições espanholas - com menos respostas do que as desejadas, e mais surpresas do que as esperadas. Seguia-as por aqui, com dinamismo e muita informação, apesar da colagem obvia ao PP…

 

… Mas ainda sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, a mais resumida e clara soma de consequências encontrei-a, online, no Financial Times

 

Menos de dois minutos: um excelente video produzido pela revista The Economist sobre a felicidade na Europa. Em semana de ressaca do brexit, vale a pena…

publicado às 08:38

A democracia directa tem destas coisas

Por: Paulo Ferreira

 

As lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”

 

A democracia e os seus instrumentos essenciais são uma coisa fantástica enquanto produzem resultados com os quais concordamos. Mas quando vence o “outro lado” o povo passa de inteligente a estúpido, a lucidez foi vencida pelo medo e a seriedade perdeu para o populismo.

 

É sempre mais fácil arrumar a questão desta forma e seguir em frente, do mesmo modo, até à próxima batalha eleitoral. O que dá trabalho e demora tempo é identificar as causas do falhanço, entendê-las e tentar alterá-las.

 

O resultado do referendo britânico foi um abalo que apanhou muita gente de surpresa. As últimas sondagens tinham-nos dito que o “ficar” estaria à frente do “sair” por uma margem que se estava a consolidar. Mas não foi assim.

 

Entristece-me a potencial saída do Reino Unido da União. Sem eles, a Europa não é a mesma coisa. Não só em questões como a dimensão, o poder económico do bloco, o contributo para a defesa comum ou a diplomacia mas, também, porque a voz crítica e desconfiada que os britânicos sempre fizeram questão de manter no palco europeu é, em si mesma, um contributo positivo.

 

Não me parece que alguém ganhe com a saída dos britânicos. Nem os próprios, já que ao estarem fora do euro mantêm já um elevado grau de liberdade nas políticas económicas, monetárias e orçamentais.

 

Mas é mesmo assim. Foi dada a voz ao povo e o povo disse de sua justiça numa decisão de enorme importância que, para muitos, tem contornos trágicos.

 

Nos últimos dias li e ouvi muita gente diabolizar David Cameron por ter convocado o referendo, vendo aí o pecado original deste tema. Certamente que se os 52%-48% (arredondados) tivessem sido ao contrário, o mesmo Cameron estaria a ser elogiado pelos mesmos por ter vencido e arrumado, por muitos anos, a questão sempre latente no Reino Unido da permanência na UE.

 

A utilização dos instrumentos de democracia directa, como o referendo, é das mais complexas e sensíveis.

 

A teoria e o politicamente correcto dizem-nos que quanto mais, melhor. Por princípio, é mais legítimo chamar milhões de cidadãos a tomar uma decisão do que deixá-la nas mãos de umas escassas centenas de deputados que foram eleitos pelo mesmo voto popular mas que podem, em dossiers concretos, fazer um julgamento diferente do da base popular que os elegeu.

 

Mas, por outro lado, transformar a democracia numa sucessão de referendos levar-nos-á a um mundo melhor? Tenho dúvidas.

 

Li por estes dias nas redes sociais um comentário com o qual concordo (lamento, mas já não consigo identificar o autor). Dizia, sobre a utilização de referendos, que se em Portugal se consultassem os eleitores sobre a introdução da pena de morte ou o acolhimento de imigrantes e refugiados talvez tivessemos uma surpresa do “povo dos brandos costumes”. É muito possível que sim, que uma maioria se pronunciasse a favor da primeira e contra o segundo. E isso seriam, a meu ver, dramáticos retrocessos civilizacionais.

 

O que para mim não faz sentido são consultas populares sobre direitos individuais que, quando exercidos por alguém, não interferem na liberdade alheia. Casamento entre pessoas do mesmo sexo e direitos associados, eutanásia, interrupção da gravidez até determinado período ou consumo de drogas leves devem, no meu entender, ser legislados no sentido de maximizar a liberdade e equiparar direitos sem me dar sequer a opção de interferir ou opiniar sobre as opções do meu vizinho. A vida dele é com ele. A minha é comigo.

 

Diferentes são os temas que dizem respeito à organização política do país que, de forma directa ou indirecta, interferem na vida de todos. O grau de envolvimento com a União Europeia, a regionalização ou mudanças profundas no sistema eleitoral são assuntos que a todos dizem respeito porque interferem com a organização da vida colectiva e com as instituições que a decidem e colocam em prática. Ao impacto destas ninguém escapa, para o bem e para o mal.

 

Mas, ainda assim, estes temas devem ser colocados a consulta popular? Isso terá mais a ver com as forças e fraquezas das lideranças políticas do momento do que com níveis de amor à democracia. Líderes fortes, com uma visão estratégica consolidada e com dimensão pessoal e política para suportar as consequências das suas decisões terão mais facilidade em decidir contra aquilo que são os sentimentos da opinião pública. Das lideranças políticas espera-se que estejam melhor habilitadas a tomar decisões complexas e muitas vezes duras, com longas listas de prós e contras, do que o cidadão médio. Foi assim que Helmut Khol fez a reunificação alemã e levou o seu país para o euro ou que Churchill optou por enfrentar Hitler.

 

Já as lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”.

 

Seja como for, o que não se pode nem deve é fazer a pergunta quando não se está disponível para aceitar todas as consequências de uma resposta. Voltando ao Brexit, é isso que tem acontecido demasiadas vezes na União Europeia, com a repetição de referendos até que produzam a resposta “certa”. Essa é também uma das causas que afasta os cidadãos da Europa e repetir novamente o erro não só seria irónico como podia ser ainda mais trágico.

 

Outras leituras

  • “Brexit” é o novo “o mundo mudou”? Claro que, em termos de comunicação política, é um óptimo pretexto para assumir a deparragem das previsões. Se tem grande ou pequeno impacto de facto é uma questão bem diferente.

 

  • Tudo o que vá para além de uma sanção simbólica a Portugal, sem custo financeiro, por violação da meta do défice do ano passado será inaceitável. A menos que a Comissão Europeia queira brincar com o fogo.
publicado às 11:39

Desculpe se lhe furei os olhos, foi sem querer...

Por: José Couto Nogueira

 

 

 

Os alemães têm fama de ser rígidos, mas são os ingleses que têm o comportamento mais codificado da Europa. Quando duas pessoas não sabem sobre o que falar, falam do estado do tempo. Quando não sabem o que fazer, bebem chá. Têm horas precisas para começar e parar de se alcoolizar. Inventaram palavras para quando precisam de dizer alguma coisa e não querem dizer nada (“indeed” é uma delas). Vivem num sistema de classes em que até a maneira de falar distingue imediatamente a aristocracia da classe média e esta do proletariado. E sim, continuam a ter esse sistema de castas de mobilidade muito reduzida, apesar das instituições democráticas.

 

Tudo isto é causa e efeito. A causa é esconder a baixa quantidade de neurónios. Se soubermos como nos comportar em todas as circunstâncias e o que dizer de apropriado em qualquer altura, não precisamos de usar muito a cabeça. O efeito é uma sociedade que, apesar dos seus problemas, conseguiu construir um Império e impor uma pretensa superioridade a toda a gente. Que problemas, poder-se-á perguntar. São tantos, mas bastará enumerar alguns: o hooliganismo e o alcoolismo, as 140 mil crianças e adolescentes que desaparecem por ano, os 700 hectares de Londres que pertencem à Rainha e dois nobres, mais os 250 hectares que estão na mão dos sheiks do Golfo. O orgulho e preconceito, já dizia Jane Austen. Todos estes e muitos outros indicadores de um país difícil desaparecem debaixo da maior invenção dos ingleses, o sentido de humor, e também de um estilo muito forte que dá ideia de qualidade e duração aos produtos britânicos.

 

Isto não quer dizer que o Reino Unido não tenha gente de qualidade e grandes feitos no currículo, evidentemente; basta fazer a lista dos filósofos e cientistas, das descobertas e das invenções que mudaram o mundo. Mas a questão que está agora na mesa é o Brexit – não só a votação em si, como a atitude pós-referendo. É essa atitude, deveras surpreendente, que coloca em cima da mesa o tal problema dos neurónios.

 

Logo no dia do referendo, ao saber-se os resultados, os seus protagonistas vieram a público. Nigel Farage, o único verdadeiramente eurofóbico, disse que tinha mentido durante toda a campanha, ao afirmar que o dinheiro que se enviava para a UE será gasto em Assistência Social (serviços de saúde e pensões); David Cameron, que propôs o referendo para se manter no poder, mas era contra a saída, perdeu a consulta, e tem que se demitir. Boris Johnson, que apoiou a saída para tirar o lugar a Cameron, veio logo dizer que não há pressa em sair e, numa especulação vergonhosa, que os ingleses não vão perder quaisquer direitos na Europa. Jeremy Corbin teve um papel tão apagado que os trabalhistas já o querem substituir.

 

Isto ao nível dos que mandam. E os que obedecem? Segundo o Google, as consultas mais frequentes na Grã Bretanha na sexta-feira – depois de sabidos os resultados, foram: “O que é a União Europeia?” e “O que acontece se sairmos da UE?” Em incontáveis entrevistas feitas na rua, as pessoas dizem que estão arrependidas e dão justificações do outro lado da Lua por ter votado no Brexit:

“Não votei para sairmos, era mais um voto de protesto”.

“Na outra vez votei para ficarmos e a vida não me tem corrido bem, portanto achei que devia votar ao contrário.”

“Fiquei chocada quando soube o resultado, porque agora percebi que estamos a tramar os jovens e a poupança de 350 milhões de libras (?) não vai muito longe.” (Senhora de 87 anos, esta.)

“Votei para protestar contra as populações rurais esquecidas e as zonas industriais abandonadas, e porque estou farto do egocentrismo de Londres.”

“No meu prédio moram uma data de húngaros e estou farto de os ouvir a falar húngaro.”

“Votei para sair porque achei que íamos ficar e o meu voto não faria diferença.”

“Votei pela saída porque não quero assistir a mais jogos do Euro.”

Há dois ou três vídeos que se tornaram virais nas redes sociais onde as pessoas justificam o Brexit da maneira mais idiota. Num deles, “My Stupid Girlfriend Explains Why She Vote Brexit” (isto é mesmo real, por amor de Deus?!) uma adolescente explica que prefere comer ovos de galinhas inglesas, em vez de ovos de galinhas que não se sabe de onde vêm.

 

Os disparates, raciocínios irracionais e a pura estupidez aparecem agora no Twitter, nas redes sociais e nas cartas aos jornais. De repente, a sensação que dá é que foi tudo um engano. Claro que é menos provável que as pessoas que votaram para sair e acham que fizeram bem se manifestem, mas as consultas feitas na rua pelas televisões mostram a mesma quantidade de arrependimento.

 

No que pode ser uma situação histórica inédita, o projecto maravilhoso que é a UE pode começar o seu fim, porque pessoas que não percebem bem o querem,no segundo pais mais importante da União, tomaram uma decisão precipitada.

 

Depois, há o lado terrível. Os xenófobos, anti-imigrantes, fascistas e saudosos do Império acham que o resultado do referendo lhes dá imediatamente carta branca para por cá para fora todo o seu ódio. Num bairro periférico onde vivem muitos polacos, apareceu nas caixas do correio e nas paredes um folheto bilingue que diz “Porcos polacos voltem para casa”. Muitas pessoas, sobretudo as que não têm o suposto arquétipo britânico (pele muito branca, louro ou ruivo) ou que se vestem exoticamente queixam-se que têm sido insultadas, empurradas e, em alguns casos, agredidas. Duas amigas que estavam num café viram um homem encostar-se ameaçadoramente à mesa e dizer-lhes “Vão para a vossa terra!” Respondeu uma delas: “Mas nós nascemos aqui, esta é a nossa terra.” “Não parecem nada” respondeu o bruto. Alguns portugueses também já se queixaram de ouvir coisas desagradáveis. Uma passageira de Lisboa, quando mostrou o cartão de cidadão no aeroporto de Heathrow, o funcionário disse-lhe logo, agreste: “Da próxima vez, esse já não serve!”

 

Finalmente, há a enorme confusão entre imigrantes europeus e não europeus. Os estrangeiros que mais incomodam os ingleses são os que vieram do Paquistão, Índia e os muçulmanos radicais. A sua presença, em muitos casos há várias gerações, tem a ver com a Commonwealth. Ora, nenhuma destas três origens é europeia, e portanto a sua entrada em nada sofrerá com o Brexit.

 

O parlamento escocês decidiu que vai fazer um novo referendo para se separar da Inglaterra e depois aderir à UE. Os irlandeses do Norte estão até dispostos a juntar-se à República da Irlanda para continuar na Europa. E há um pedido para que se faça novo referendo – no domingo já tinha dois milhões e quinhentas mil assinaturas.

 

Ora, a verdade é, pela lei britânica, o referendo não é vinculativo. Trata-se apenas de uma consulta. Isto não está especificamente escrito, uma vez que o Reino Unido não tem uma Constituição, mas é a tradição. Segundo o “Guardian”, em rigor Cameron podia ignorar o acto e ficar-se por aí. Mas entretanto ele já disse que aceita o resultado. Portanto terá de apresentar a proposta ao Parlamento. O Parlamento pode rejeitar e decidir que tudo não passou tudo do tal humor britânico que disfarça tão bem a questão dos neurónios.

 

O problema é que o alemães, que não são notórios pelo sentido de humor, podem achar que então não passou de uma sórdida chantagem – um bluff à escala continental.

 

publicado às 12:14

Um dia a Europa foi assim

Por: Rute Sousa Vasco

 

Aconteceram várias coisas naquele ano. O FC Porto foi campeão da Europa de futebol pela primeira vez. O Nelson Piquet foi tricampeão na Fórmula 1. A 24 de Junho, exactamente no dia que hoje se assinala, nasceu Lionel Messi. Também foi o ano em que Carlos Drummond de Andrade nos deixou. E, segundo a ONU, esse foi também o ano internacional dos desabrigados ou sem-abrigo, como preferirem.

 

A British Airways foi privatizada e os U2 lançaram The Joshua Tree. O então presidente da Disney, Michael Eisner, e o que seria o futuro presidente de França, Jacques Chirac, assinaram o acordo para a construção da Disneyland em Paris. Em Inglaterra, a primeira-ministra chamava-se Margaret Thatcher e, a 31 de março desse ano, deu uma entrevista de 45 minutos à televisão soviética.

 

Foi o ano em que Portugal assinou com a China o acordo para a entrega de Macau. Os Simpsons apareceram pela primeira vez como pequena animação num programa de televisão chamado The Tracey Ullman Show.

 

E um miúdo com 18 anos, Mathias Rust, piloto na força áerea da República Federal da Alemanha conseguiu furar o espaço aéreo soviético e aterrar um avião na Praça Vermelha, em Moscovo. Foi preso. Uns dias depois, Ronald Reagan que era presidente dos Estados Unidos, numa visita a Berlim desafiou Mikhail Gorbatchev, que era presidente da União Soviética, a derrubar o muro de Berlim, que era um muro que dividia as duas Europas, ocidental e de leste, desde os anos 60.

 

O Acto Único Europeu foi aprovado pela Comunidade Europeia.

Existiam cinco mil milhões de pessoas no mundo (hoje somos sete mil milhões).

Os Pink Floyd, sem Roger Waters, lançaram o álbum “A momentary lapse of reason”.

 

Os meus amigos geeks talvez não saibam, mas foi também o ano em que Larry Wall criou a linguagem de programação Perl.

E no cinema, o Oscar desse ano foi para o filme Platoon – Os bravos do pelotão. Paul Newman ganhou o óscar de melhor actor com o filme The Color of Money e Michael Caine o de melhor actor secundário, tal como Dianne Wiest, em Ana e suas irmãs, de Woody Allen.

 

Este foi o mundo que me foi apresentado em 1987, quando estava a entrar na idade adulta. Tinha coisas erradas. A Thatcher mandava em Inglaterra, o Reagan nos Estados Unidos e havia um homenzinho chamado Ceausescu na Roménia onde aconteciam atrocidades que viríamos a descobrir poucos anos depois. Mas para quem estava a terminar o liceu, havia no ar algo que nos dizia que as coisas iam ficar melhores. Que os bons iam ganhar. Que tínhamos uma grande aventura pela frente.

 

Passaram-se quase 30 anos. E hoje sei que, de alguma forma, estamos a assistir a qualquer coisa de importante para a história dos próximos 30 anos.

 

De forma egoísta e conservadora, desejei que a resposta britânica fosse “ficar” em vez de “sair”. Para que o mundo que é apresentado aos meus filhos que agora chegam à idade adulta fosse mais parecido do que diferente. Para que soubéssemos com o que contávamos (mesmo que não gostássemos disso há muito tempo) e para contarmos com algum contraponto ao eixo-central europeu (Alemanha com França a reboque). Para ‘dar um tempo’ à relação.

 

A verdade é que há muito tempo que não se sente que os bons vão ganhar e que qualquer coisa boa está para acontecer. Vivemos de medo em medo na Europa. Os fantasmas que estávamos a querer expulsar em 1987 regressaram todos, ou quase todos. É uma Europa que não hesita em humilhar os mais fracos, em vergar-se aos mais fortes, sem que se descortine o espírito europeu no discurso sem alma dos tecnocratas de Bruxelas.

 

É também uma Europa que faz justiça à sabedoria popular que diz que quem com ferro mata, com ferro morre. Ainda se lembram do que muitos disseram aquando do referendo na Grécia, há dois anos? Querem democracia? Paguem. Porque, no fim do dia, o projecto europeu é uma grande caixa registadora.

Os gregos não podiam pagar -  os ingleses podem. Vão dizer o quê agora?

 

Boris Johnson e Nigel Farage, dois dos rostos da campanha pelo Brexit, estão longe de ser os Robins dos Bosques da Europa. Pelo contrário.

 

E o apoio "desinteressado" de Putin, Trump e Marine Le Pen ao Brexit mostram, claramente, que uma Europa sem Reino Unido não é uma melhor Europa.

 

Mas às vezes as coisas certas acontecem ou são precipitadas da maneira errada. Escrevo isto e tremo por todas as memórias da história comum europeia, por todas as vezes em que nada disto foi verdade. Depois houve esta ou aquela excepção em que isso pode ter acontecido. Escrevo isto e lembro-me de uma frase do romance "Pai Nosso" da Clara Ferreira Alves em que somos advertidos a prestar atenção a todas as coisas que acontecem pela primeira vez.

 

Ainda assim. 

O Brexit, em si mesmo, pode não ser uma coisa má – é sim garantidamente o início de algo que não sabemos o que vai ser.

É garantidamente o sinal desesperado, porque todos os outros já existiram, de que precisamos de uma nova Europa.

 

(P.S. – E, na política mais caseirinha, para quem duvidava que António Costa era um homem de sorte, as teimas estão tiradas.)

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras sugestões:

 

Este foi um texto escrito pelo Pedro Santos Guerreiro no Expresso, um dia antes do jogo Portugal – Hungria, um dia antes do microfonegate. Um dia antes de um jogo de sofrimento e, de alguma forma, redenção. Porque amanhã, mesmo com Brexit, o Euro2016 continua, aqui fica como recomendação de leitura porque vale a pena.

 

E agora, Espanha. No domingo, realizam-se as eleições que – provavelmente – irão indicar quem ficará à frente dos destinos do país. Num tempo que grande turbulência europeia, são ainda mais importantes. Aqui  é um bom sítio para seguir o que se vai passar no país ao lado.

 

 

 

 

 

publicado às 12:03

Grã Bretanha: o divórcio de um casamento que nunca existiu

Por: José Couto Nogueira

 

 

Os homens, que nunca sabem bem o que querem - ou querem várias coisas, conforme a temperatura - gostam de dizer que as mulheres estão sempre a mudar de ideias, quando de facto elas é que são muito bem focadas nos seus objectivos. Esta analogia do relacionamento homem-mulher foi usada incontáveis vezes durante os meses de especulação em torno do referendo inglês sobre a permanência na UE.

 

E com razão. Ela, a Grã Bretanha, que nunca quis realmente um compromisso, aceitou a contra gosto uma união de facto atamancada, e abalou sem razões credíveis, porque nestas coisas do coração a razão fica sempre à nora. Enquanto aceitou cohabitar, a madame ora seduziu ora se fez difícil para receber miminhos, e recusou presentes para ganhar outros maiores; enquanto ele, o Continente, andou de cabeça perdida a ameaçar de dia e a rojar-se aos pés à noite, mostrando sempre a sua fraqueza e cedendo constantemente, para acabar abandonado como um amante que perdeu o interesse.

 

Pois é verdade, o Reino Unido, apesar de historicamente seguir sempre os seus interesses económicos, desta vez deixou o orgulho, um sentimento tão perigoso como o despeito, tomar conta da decisão. Os ingleses acham-se únicos, não só na personalidade dominante, como também na capacidade de resolver sozinhos todos os problemas que o destino imperial levanta. Apesar do Império se ter esfumado a partir de 1939, continuam com a mentalidade imperial e recusam-se a reconhecer o pouco que pesam no mundo cada vez mais aglomerado em blocos. (Nós, portugueses, que fomos Império há muito mais tempo e ainda sentimos o amargo de boca de já não ser, podemos compreender este sentimento muito bem. Os espanhóis também.)

 

De onde vem essa proa toda? Além do Império onde o Sol nunca se punha, os ingleses (com escoceses e irlandeses pela trela), desenvolveram a sua democracia mais cedo e dum modo diferente do resto do Ocidente. Também a exercem através dum sistema que lhes é muito próprio. O poder popular em Inglaterra vem do Parlamento e desde 1689, sendo depois aperfeiçoado através de várias afinações; nos outros países europeus o começo da democracia tem uma data exacta, a Revolução Francesa de 1789, mas posteriormente houve avanços e recuos, retornos ao poder absoluto, ditaduras e outras experiências menos felizes. Os ingleses acham o seu sistema tão superior que nunca o quiseram exportar, precisamente para manter a vantagem competitiva. Quando governaram em Portugal, estando o D. João VI eternamente hesitante no Brasil, foi a chicote, não quiseram aqui um parlamento igual ao deles, nem pensar. (A democracia americana é do modelo francês, via Jefferson, e não dos ingleses, que eram o inimigo.)

 

Uma diferença notável está precisamente nos referendos; até agora o Reino Unido só teve três: o de 1975, em que 67% dos eleitores votaram a favor da entrada na Comunidade Europeia, outro em 2011, para mudar o mecanismo eleitoral (que não foi aprovado) e o de ontem, onde a separação foi decidida por uma curta margem.

 

Os estudos da opinião pública em relação a este referendo mostram numericamente como o conceito conservador do Império e do pretenso privilégio de ser inglês está enraizado na população: os rurais, os menos educados, mais pobres e mais velhos eram a favor da Grã Bretanha separada do Continente, enquanto, os urbanos, os mais habilitados, mais afluentes e mais novos – modernos e informados - eram a favor da permanência.

 

Mas agora a questão já não é mais se os ingleses ficam ou não ficam. Agora a questão são as consequências desta separação. Por um lado, o que vai acontecer às relações entre Grã Bretanha e a UE; por outro, o modo como os países do Continente vão reagir à atitude inglesa e à chantagem que estão legitimados a fazer, para obter os privilégios que os contestatários tinham.

 

Voltando à analogia do casamento, depois da senhora exigir um tratamento especial que deixava os amigos e vizinhos entre incrédulos e irritados, com certeza que não vai ganhar uma grande pensão de alimentos nem ficar com as simpatias no bairro. Baixando o nível da conversa para mostrar a realidade nua e crua, o que o amante abandonado está a pensar é “Olha-me esta! Fez o que quis, saía e entrava às horas que lhe dava jeito, cozinhava mal, e agora ainda quer ficar com o iate, a casa de praia e a tutela dos miúdos... Vais ver, vais! Acabaram-se os vestidos da Prada e o cartão de crédito !”

 

Quem manda na União Europeia é a Alemanha, e o querido Sr. Schäuble, que nós tão bem conhecemos, já tinha avisado, naquele tom anunciador de maus ventos, que as coisas não podem continuar como estavam. E entre os pequenotes da família, não faltam reguilas que também queriam sair de casa e que, inspirados e aviltados por estas intempéries da madame, estão predispostos ao motim. São os casos da Holanda e da Dinamarca, que já ameaçam com referendos afins. A Polónia, sempre mais conservadora que o Sínodo, também não quer certas interferências na legislação de cunho moral. A Hungria já caminha para o IV Reich e a Grécia está farta de esfregar escadas. Se a dona Albion sempre fez o que quis, porque hão-de ser eles a amochar? E a Turquia, senhora de físico abundante e modos de burgesa, é um downgrade que entra pela casa dentro, perto da finesse da ex-wife.

 

Depois, há a suspeitíssima alegria dos maus. Quem era a favor do Brexit? Putin, porque enfraquece a Europa; Trump, por razões que só ele sabe mas que, sendo dele, só podem ser más; e Marine le Pen, porque acha que sobe o estatuto da França em detrimento dos outros. Como salientou um comentador – não nos lembramos qual, de tantos que zoavam – só bastava as opiniões destes três para votar contra a saída do Reino Unido.

 

Dentro dos países que ficam, e que inevitavelmente sentem a sua quota parte da rejeição, embandeiram em arco todos os partidos de direita, reaccionários e nacionalistas – menos em Portugal, originalíssimo, onde é a esquerda radical que não gosta da Europa.

 

Também se pode esperar que esta crise seja sinónimo de oportunidade, como dizem que dizia o Lao Tsé, ou o Confúncio. Mas esses eram chineses, devem estar a preparar-se para inundar o Continente com imitações espúrias de Range Rover e Miss Selfridge. A Europa não tem um histórico de transformar apertos em auto-estradas.

 

Há muito quem diga que é o fim do projecto europeu. Não será tanto, mas que tem o sabor e o odor do princípio do fim, é inegável. Apesar da Grã Bretanha achar que são eles e nós, nós sem eles sentimo-nos mancos, não há como negar. Além disso, a dinâmica da integração europeia era, por natureza, inclusiva e sempre a andar para a frente. Nunca se previu, nem sequer se especulou, o que aconteceria com um recuo. Nem sequer sabemos como se irá processar este desenlace, quais as consequências para pessoas e bens.

 

Os analistas revezam-se a especular nos vários cenários possíveis. A partir de hoje, passa-se da especulação à realidade. Melhor não será, com certeza, como vamos começar já a sentir.

 

 

publicado às 11:04

Brexit? Três contra um em como ficam!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas britânicas não têm dúvidas. O ‘stay’ vai ganhar.

 

Comecemos pelo ‘rock’. Na célebre música dos anos 80, os ‘Clash’ perguntavam se deviam ficar ou deviam partir. E asseguravam que, se partissem, isso iria trazer problemas; mas se ficassem, eles apareceriam em dobro. Ao indeciso ‘should I stay or should I go’ respondem, quase sem querer, os ‘Jets’. ‘Para que te mostre o que tenho, preciso de saber de que é que necessitas’. E concluem: ‘So put ya money where ya mouth is’. A expressão idiomática inglesa, que serviu de tópico ao único grande êxito comercial desta banda australiana, quer dizer o seguinte: ‘arrisca o teu dinheiro naquilo em que acreditas; faz, em vez de só conversares’.

 

É assim que os ‘Jets’ resolvem a questão lançada na primeira estrofe do tema. Aí, interrogam-se sobre se estão no paraíso ou no inferno. E decidem que é com a crença e com o risco - que se demonstra pelo investimento financeiro, ou seja, a aposta naquilo em que se acredita – que se resolve o dilema.

 

A ideia parece estar a ser seguida pelos britânicos, no que diz respeito às apostas que têm vindo a efectuar nos últimos dias. No Reino Unido tudo serve para apostar, seja o desporto ou a política, passando pelo nome do primeiro filho de William e Kate, qual é a probabilidade de nos encontrarmos com um extra-terrestre ou adivinhar quando será o fim do mundo. Neste último caso, os ‘brokers’ estão indecisos sobre que chances hão-de dar aos apostadores. E isto por uma questão ética - quem quer que ganhasse não seria ressarcido da sua aposta…

 

Mas enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas não têm dúvidas. O ‘stay’ (fica) vai ganhar. Na ‘SkyBet’ pagava-se ontem 2,25 libras por cada uma se a aposta fosse ‘leave’ (saír), enquanto com a vitória do ‘stay’ o apostador só ganha quatro em cada 11 moedas que arrisque. Na ‘Paddy Power’, o ‘exiting’ paga seis para um, enquanto o ‘remain’ não vai além de um em cada dez. Entretanto, na sondagem ontem divulgada pelo ’Financial Times’, que faz uma média de todas as mais recentes publicadas, o ‘sim’ à saída ficava ligeiramente acima do ‘não’ – uns 45% contra 44%.

 

 

 

O ‘Daily Telegraph’ sustentava, esta manhã, que o referendo britânico à continuidade na UE – popularmente conhecido por ‘Brexit’ – era já o maior acontecimento das casas de apostas da história do Reino Unido, batendo o anterior recorde da eleição do Presidente dos EUA, em 2012. Só na ‘BetFair’ entraram mais de 60 milhões de libras (cerca de 78 milhões de euros), quando no caso da eleição de Obama esse montante ascendeu a 40 milhões (52 milhões de euros). A casa londrina, como a maior parte das suas concorrentes, está a apostar num 3 contra 1 a favor do ‘fica’, que se traduz em percentagens a rondar os 75/78% de apostas na manutenção da união com a Europa. ‘LadBroker’, ‘William Hall’ – todos os quadros visitados vão no mesmo sentido.

 

A credibilidade das casas de apostas foi reforçada nas eleições legislativas de 2014. Enquanto as sondagens davam uma luta renhida entre os partidos Conservador e Trabalhista, os jogadores não tiveram dúvidas em dar a maioria aos ‘Tories’, numa percentagem de 80% para 20%. E a verdade é que o partido liderado por David Cameron ganhou mesmo com maioria absoluta. Já no referendo para a independência da Escócia ocorreu uma situação idêntica, com os apostadores a acertarem na manutenção da união com a Inglaterra, perante sondagens inconclusivas.

 

Recentemente, assiste-se em Inglaterra e em outros países a estudos académicos que pretendem encontrar a base científica para a razão por que os apostadores são mais certeiros do que os eleitores sondados. Há várias teorias, desde a ascensão de um grupo cada vez mais alargado de pessoas que mentem deliberadamente quando interrogadas sobre a sua preferência política - que seria uma forma de afirmação de rebeldia inorgânica cada vez mais acentuada – até àqueles que, mais prosaicamente, afirmam o tal ditado: ‘put your money where your mouth is’. Como nas séries policiais, ‘follow the money’ parece ser a chave para encontrar o criminoso ou, neste caso, o eleitor verdadeiro. Outra hipótese reconhece que há deficiências técnicas nos métodos de sondagem, nomeadamente naquelas que insistem em apurar a tendência através de chamadas telefónicas para aparelhos fixos, cada vez mais em desuso.

 

Interessante também é verificar qual o montante médio de aposta daqueles que querem ficar com a União e daqueles que querem sair. O ‘stay’ vale 450 libras (585 euros) por cada boletim entregue, enquanto o ‘leave’ se fica pelas 75 (97,5). No entanto – e é aqui que pode estar o pauzinho na engrenagem - algumas casas anunciaram que o número de apostadores na saída era em maior número que os que preferem continuar ligados ao Continente. Na verdade, embora o ‘stay’ tenha mais apoiantes do lado conservador, a verdade é que a classe trabalhadora está em boa parte ligada ao ’leave’.

 

Os analistas têm dificuldades em compreender como é que os líderes de quatro dos cinco maiores partidos – o UKIP de Nigel Farage é a excepção - apoiam o ‘stay’ e, no entanto, as sondagens continuam a ser inconclusivas. Alguns, no entanto, encontram já a resposta.

 

Muitos britânicos acreditam que a imposição de regras por parte da União Europeia, a par da imigração em massa, estão a mudar a face do país e a estragar a velha democracia; isto para além de porem em causa empregos e redes sociais de apoio. Segundo estatísticas hoje divulgadas pela imprensa londrina, mas que o Governo queria guardar até depois do referendo, estima-se que, só no ano passado, a população da Grã-Bretanha tenha crescido em mais 513 mil pessoas, dos quais 335 mil imigrantes directos; cerca de 170 mil dos quais sem trabalho garantido.

 

Já para John Harris, colunista do ‘The Guardian’, a culpa é do neo-liberalismo, que tornou precários muitos dos novos empregos. Uma análise difícil de sustentar, se acreditarmos que nas gerações mais novas – onde a precariedade é mais visível – o voto pelo ’stay’ é mais consistente.

 

Talvez o divórcio entre governados e governantes, a não compreensão dos novos anseios das populações, entaladas entre padrões de vida mais apertados e uma abertura de mercados que lhes trouxe poucos benefícios directos - ao contrário da banca e do mercado financeiro em geral, que perderá bastante com a saída do Reino Unido – os leve a pensar que mais vale a pena sair. Para lá de todo o populismo e agressividade deste processo referendário - que levou até ao praticamente inédito assassinato de uma deputada, a trabalhista pelo ’stay’ Joe Cox -, mais consistente será pensar que quem ataca as nações dificilmente poderá pretender governar povos.

 

Mas o dinheiro poderá falar mais alto. Várias previsões apontam para perdas significativas do produto interno bruto (PIB) britânico com a saída da União Europeia. Já foi isso que impulsionou os escoceses a ficarem unidos à Inglaterra, e poderá ser suficiente para que tudo fique na mesma quando, lá para as quatro da madrugada, os resultados se tornarem mais conclusivos. É que, ao contrário da canção dos ’Clash’, o ‘stay’ não resolve nada; mas o ‘leave' piora tudo.

 

publicado às 17:02

O dia de todas as decisões

 Por: Pedro Rolo Duarte

 

Hoje é o dia. Hoje vamos saber se a Grã-Bretanha vai fazer desmoronar a União Europeia - ou se, não a desfazendo, a vai deixar ferida, enquanto o país recupera da explosão programada que criou no reino de vários reinos…

 

As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.

 

Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta “união”, um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o “adepto” e o “sócio”. Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: “This project has been part-financed by the European Community”...

 

… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.

 

O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.

 

Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

 

 

Leituras boas da semana

 

Excelente o artigo de Nora Kelly na revista norte-americana The Atlantic sobre a relação entre Donald Trump e a televisão, e como pensa o putativo candidato resolver a questão…

 

José Milhazes é, indiscutivelmente, o português que melhor conhece a Russia e o que a rodeia. Num excelente artigo publicado há dias no jornal online Observador, explica com clareza as relações entre o país de Putin e os seus vizinhos - ou seja, nós, os europeus…

 

Aconteça o que acontecer com a nossa selecção no próximo sábado, o conselho serve: perdoar, esquecer, prolonga a vida. O artigo vem na insuspeita Time e serve para qualquer resultado: se sairmos vitoriosos, podemos perdoar os erros passados. Se perdermos, é mais saudável esquecer do que ficar a remoer e a culpar os Ronaldos desta vida…

 

publicado às 08:34

Os eleitores britânicos e os espanhóis vão a penaltis

Por: Francisco Sena Santos

 

O primeiro campeonato europeu de futebol de seleções, realizado em 1960, foi um quase fiasco, por escassa mobilização. A ideia de juntar os países europeus e apurar os melhores foi de um francês, Henri Delaunay. Nessa década já tinha sido criada, impulsionada por políticos da França, Alemanha Ocidental, Itália e os três países Benelux, a CECA, embrião da CEE que gerou a atual União Europeia.

 

Foi um quebra-cabeças juntar seleções para aquele primeiro Euro com a bola: os ingleses, que se tomam por pátria do futebol, ficaram ciumentos com a iniciativa francesa e não quiseram entrar. Alemães (ao tempo a RFA) e italianos, entre outros, também não. Inscreveram-se 17 países para a fase de qualificação, mas a Espanha renunciou, por ordem política do ditador Franco, que recusou o passaporte para a seleção jogar o apuramento em Moscovo com a comunista União Soviética. Nesse 1960, concorreram ao Euro as seleções de 17 países. Agora, foram 53. A Europa da CEE começou por ter seis países-membros e agora a União Europeia tem 28. A Europa do futebol cresceu, tornou-se pujante e gera paixões, a Europa política também cresceu mas definha como ideal e crescem os desapegos.

 

Se perguntarmos por aí, em inquérito de resposta instantânea, o nome de suecos famosos, o mais provável é que o futebolista Ibrahimovic seja o mais nomeado, muito mais que Ingmar Bergman, August Strindberg ou até Alfred Nobel. Talvez alguns se lembrem de Henning Mankell, mestre do policial e amante de Moçambique. Vão aparecer mais nomes suecos do futebol, como o do treinador Eriksson, mas ninguém saberá que um tal Stefan Lofven é o primeiro-ministro em Estocolmo. Há uns tempos, nas décadas de 70 e 80, toda a gente responderia logo Olof Palme, o político paradigma da social-democracia progressista, solidária e tolerante. Palme assumia-se utópico: “Não podemos viver sem utopias”, disse numa visita a Portugal pouco tempo antes de ter sido assassinado. Nessa viagem a Lisboa, Palme explicou numa entrevista à então RDP que “a política tem de ser feita num diálogo contínuo entre realidade e sonho, porque sem sonho a nossa ética e ideologia desaparecem”. Esse último quarto do século XX foi um tempo de expansão e até de sonho com o ideal de uma Europa luminosa, atraente para todos. Entrámos no século XXI e a coisa começou a correr mal. Houve a infâmia do 11 de setembro que desencadeou guerras e terrorismos que nunca mais pararam, houve os golpes financeiros de 2007, a Europa cresceu e arranjou uma moeda sem estar consistentemente preparada para estas duas coisas, veio a atual geração de dirigentes europeus, veio a austeridade e os cortes sociais, e estamos nisto, sem faísca, sem entusiasmo político, uma Europa frustrante – embora com potencial de ideias e energia para ser radiosa, assim a saibam estimular.

 

Chegámos a um momento em que as eleições e referendos em cada país são um confronto entre sistema e anti-sistema ou partidos tradicionais e forças anti-política. Neste último domingo, em Itália, candidatas de um movimento, o Cinco Estrelas (M5E), que se assume contra o sistema político, conquistaram a presidência de cidades como Roma ou Turim. É facto que Virginia Raggi, eleita em Roma com 67% dos votos, não pode ser etiquetada de populista (rótulo habitualmente atribuído ao M5E do comediante Beppe Grillo, com tendência para propor soluções primárias), é uma política que fez uma campanha afável a prometer “a legalidade, a honestidade e a transparência”, e a propor “uma revolução gentil” que faça “mudar a velha política dos partidos”. Tem na agenda desmontar as redes mafiosas que controlam os serviços, recuperar o civismo, fazer a revolução da normalidade. Ela não apelou ao extremismo da plebe, tratou de juntar uma equipa plural de gente reconhecida como competente em diferentes domínios da gestão de uma cidade, e assim triunfou. Pode ser um bom exemplo de regresso da política com boa chama. Fica para se ver.

 

Estamos numa semana que toda a gente vê determinante para o futuro da Europa. Já depois de amanhã é o referendo britânico sobre o isolacionismo ou a permanência europeia, três dias depois, no domingo, é a repetição de eleições em Espanha. Num caso como noutro, há tendência para o desempate entre os blocos que se confrontam ser feito nos penaltis, ou seja, o resultado só com o apuramento dos últimos votos.

 

 A campanha para a escolha britânica foi deprimente e atingiu níveis impensáveis de divisão, radicalização e até de loucura. O desafio naval entre Neil Farage e Bob Geldof no rio Tamisa pareceu uma cena de Monty Python num filme em que, como em toda a campanha, as duas partes (brexit e pro-UE) exploraram o medo dos cidadãos. Foram usados panfletos xenófobos alertando para a possível invasão do Reino Unido por milhões de turcos e acrescentados mapas sobre alta criminalidade na Turquia. Foi evocada a resistência britânica a Napoleão e a Hitler por entre proclamações de combate aos refugiados como os invasores de agora. Na campanha “remain” também não faltaram  ameaças, desde o colapso da libra ao risco de os reformados perderem os passes e as pensões. Todos abusaram, todos foram demasiado longe na exploração do medo dos votantes.

 

A campanha cada vez mais agressiva foi estancada na passada quinta-feira com o chocante terrível assassinato da inspiradora deputada Jo Cox cujo apaixonante serviço público em trabalho solidário ficámos a conhecer. Não é ainda legítimo declarar o crime com motivação política, mas vários indícios sugerem essa probabilidade, com execução nas mãos de um perturbado seduzido por ideias de extrema-direita. Mas a campanha de violência verbal terá inflamado ódios que podem levar uma criatura mentalmente distorcida a um crime assim.  Esta tragédia terá servido para despertar a Inglaterra – como antes era conhecida – e fazê-la parar e repensar. O eleitorado líquido, como diria Bauman, flutuando na fronteira entre a abstenção e o voto de protesto, estará a juntar o coração à cabeça, e a emoção a puxá-lo para o lado da permanência britânica na Europa. Isso explicará a neutralização dos seis pontos percentuais de avanço que o “Brexit” tinha há uma semana. O mais provável é que tudo fique resolvido nos penaltis.

 

Em Espanha, no domingo, a mesma tendência para que seja preciso esperar pela decisiva contagem dos últimos votos. O que se joga nesta eleição é a modificação profunda do sistema de representação política: será que um movimento nascido na rua com o protesto dos “indignados” vai tornar-se chave para a formação do próximo governo de Espanha? Os partidos tradicionais estão a ficar obsoletos e a deixar de carburar para os eleitores? Há que esperar pela noite de domingo. Vivemos dias que podem ativar um dominó com consequências inimagináveis.

 

Na noite do próximo domingo já estarão apuradas seis das oito seleções que jogarão os quartos de final do Euro 2016. Há 56 anos, no primeiro campeonato, a final foi jogada pelas seleções de dois países que já não existem: a União Soviética que se impôs (2-1) no prolongamento à Jugoslávia. Agora, seria bonito ver na final, num país, a França, que quando foi preciso recebeu tantos emigrantes portugueses, a seleção de outro país, Portugal, que está a ser um raro bom exemplo europeu no dever de acolhimento dos refugiados. A Inglaterra (tal como Gales e a Irlanda do Norte) começou este Euro dentro da União Europeia, mas não é certo que no final continue a fazer parte da Europa política. Culturalmente, não há separação possível, ainda que a história europeia tenha como pilares a velha Grécia, o Império Romano, o Renascimento e o Iluminismo. Também a matriz cristã.   

 

A TER EM CONTA:

 

As cidades governadas por mulheres: Madrid, Barcelona, Paris, Turim, Roma, Colónia, Varsóvia e Estocolmo são algumas das cidades europeias com poder feminino.

 

O "pactómetro" proposto por La Vanguardia: como formar uma maioria de governo em Espanha?

 

A guerra continua no Iraque. A batalha por Falluja gerou dezenas de milhar de refugiados. Trinta mil só nestes últimos dias. O "EI" perde território, mas pode ser apenas um recuo estratégico.

 

A música tem mesmo poderes mágicos e leva à dança: um violinista embalava uma rua de Trieste com a música que é banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie”; uma palestiniana, Rima Baransi, que estuda dança em Berlim, ia a passar com a família em férias, e foi assim. Com grande beleza.

 

Pela estrada fora, outra vez, sempre, na América.

 

As primeiras páginas britânicas a dois dias do referendo. The Guardian e The Daily Telegraph puxam a sua escolha para o topo.

 

O ocaso da Oi na primeira página do Estadão.

publicado às 09:44

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