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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

A culpa é mesmo de Bruxelas?

Por: António Costa

 

Há hoje na Europa comunitária uma espécie de sentimento anti-Bruxelas, que se materializou, ironicamente, num referendo no país mais protegido das imposições da União Europeia do ponto de vista político e económico-financeiro. Se calhar, porque, na realidade, os responsáveis da crise da União Europeia estão, em primeiro lugar, nas capitais dos seus 28 estados-membros.

 

É fácil responsabilizar a União Europeia, os burocratas de Bruxelas e as instituições europeias pela estagnação do projeto político que começou, lá atrás, com a comunidade do carvão e do aço. A seguir, aparecem na lista dos mais procurados por esta crise a chanceler Merkel e os sucessivos presidentes da Comissão Europeia. Serão mesmo os culpados disto tudo?

 

A União Europeia, mesmo com a lógica da bicicleta que tem sempre de estar em movimento, foi o suporte da paz e do desenvolvimento económico da Europa nos últimos 40 anos. A cada novo passo, foi inclusiva, cresceu, mas manteve os compromissos iniciais de promoção da recuperação dos que estavam mais atrasados. Com muito dinheiro, suportado pelos orçamentos nacionais e pelas transferências entre países, com outro pressuposto relevante: os líderes e os cidadãos dos países menos desenvolvidos fariam o que fosse necessário para prepararem os seus respetivos países para as novas exigências de um mercado único, primeiro, e de uma moeda única, depois. É claro que o resto do mundo não estava parado e isso era, em si mesmo, uma outra dificuldade, esta externa, para a construção da União Europeia e do euro.

 

Mesmo nos países que mais beneficiaram da União Europeia e do euro, como Portugal, há uma clara falta de memória, seletiva, sim, sobre a história desde 1986. Os fundos comunitários, um mercado único para as empresas e pessoas, a redução brutal dos juros cobrados ao país porque assumimos o compromisso do euro. O que fizemos com essas vantagens, particularmente a partir de 1995? Pouco e mal. É por isso incompreensível, por exemplo, um espírito tão pouco crítico ao período 1995/2001, com o Governo de António Guterres, provavelmente o pior desde a entrada na CEE em 1986.

 

A Comissão Europeia e algumas das suas direções-gerais ganharam uma vida própria, para lá do voto dos eleitores europeus, especialmente à medida que o grupo cresceu e passou a ser mais difícil consensualizar posições. Do diálogo e da diplomacia, passamos para o voto dos mais fortes, que aliás se acentuou desde a crise financeira de 2007/2008. Os principais líderes europeus e a própria comissão cometerem erros, sim, uns de comunicação, outros de substancia. Mas, na verdade, sempre para corrigirem os pecados originais de um projeto político que ganhou expressão monetária e uma moeda única e que, eles próprios, foram impossíveis de gerir por razões de política interna de cada país. O pedido de resgate em 2011 é disso um exemplo, está longe de ser o único.

 

Os cidadãos da União Europeia estão desiludidos, e quando há momentos de decisão, como foi o caso do referendo no Reino Unido, o discurso político não ajuda. Pelo contrário, mostra todos os dias que ninguém sabe muito bem qual é o passo seguinte, ninguém (nos) apresenta novos desenvolvimentos que mobilizem, apenas a ideia de que as alternativas são piores. Não é fácil, assim, destruir a força crescente dos movimentos nacionalistas à Esquerda e à Direita, como se vê por essa Europa fora, que se alimentam das crises, do desemprego, da pobreza.

 

A bicicleta europeia não pode continuar a andar como se nada fosse, mas convém que os governos dos países da União Europeia façam um mea culpa, assumam as suas responsabilidades, porque é claramente aí que estão as respostas. A transferência de responsabilidade para Bruxelas é popular, e dá votos internamente, só que não corresponde à verdade da história. E dificulta ainda mais o que vem aí a seguir.

 

A crise financeira e económica desde 2008 e o que se seguiu nos anos seguintes mostra que nem todos os países, nem todos os governos, nem todos os cidadãos estão preparados para as exigências de uma moeda única. Pelo contrário, há um desgaste social enorme. E também mostra que estamos a chegar ao limite das possibilidades dos governos que têm de convencer as respetivas populações a pagarem, com os seus impostos, o que é necessário para manter uma moeda única nos termos em que ela existe hoje.

 

Os resultados das eleições espanholas, sem serem definitivos é totalmente clarificadores, são um bom augúrio, porque os discursos fáceis anti-Europa não ganharam, perderam até votos. Por isso, no meio desta turbulência e de mares nunca dantes navegados, nem tudo está perdido.

 

 

As escolhas

 

Os ingleses decidiram sair da União Europeia, bem, nem todos, mas os suficientes para uma vitória do Brexit. Depois do colapso dos mercados na sexta-feira, e quando anda tudo à procura de respostas, desde logo no próprio Reino (ainda) Unido, o ministro das finanças inglês, defensor do ‘remain’, garantiu hoje que o país está preparado para viver fora do espaço comunitáriowww.bbc.com. Estará mesmo ou, como em outros países, a Democracia popular vai ser ultrapassada pela Democracia representativa?

 

Ronaldo não desiste, especialmente quando perde, e na seleção até perde muito. Messi desistiu porque perdeu. A dias de mais uma final, e quando sabemos que estamos longe de ser favoritos, esta diferença é uma lição para o país. Os resultados podem ser acompanhados aqui, em 24.sapo.pt.

 

Tenham uma boa semana e Portugal Allez

 

 

 

 

 

publicado às 11:32

O espetáculo do medo. Mas continuamos a ter o comando para mudar de canal

Por: Francisco Sena Santos

 

Vivemos um tempo em que as tragédias nos chegam transformadas pelos media em espetáculo. Tivemos na última semana exemplos de sobra dessa exploração mediática da dor e da morte. Tanto com um desastre rodoviário numa estrada de França como com os atentados em Bruxelas.

 

 

Foquemo-nos nos atentados na capital europeia: sabemos que os terroristas contam com a ação dos media para amplificar a sua agressiva mensagem de terror e gerar a onda de medo. Os terroristas servem-se da lógica dos media, conhecem-lhes a gramática, exploram os mecanismos psicológicos. Questão: como pode o jornalismo tratar a informação sobre os ataques terroristas sem ao mesmo tempo servir a propaganda pretendida pela perversa agenda dos agressores?

 

Há alguns exemplos de práticas que são bons casos de estudo. Não estão vistas, não foram exibidas, imagens de corpos devastados no 11 de Setembro em Nova Iorque. Que imagens temos desse dia? Vimos um dos aviões a aproximar-se e a chocar com uma das twin towers. Vimos as explosões - e não podemos alguma vez esquecer essas imagens. Tal como as do aterrador desmoronamento das torres. Mas quase não vimos pessoas, os corpos não foram visíveis, o seu sofrimento não foi exposto. Há imagens de pessoas, homens e mulheres que, para escapar ao inferno das chamas, se atiraram sobre o vazio a partir de andares altos das torres. Mas nunca nos foram mostrados grandes planos dessas pessoas que saltaram para outro modo de morrer. Não as vimos de perto, não lhes vimos o rosto em sofrimento. Percepcionamos esse tremendo sofrimento, mas somente na nossa imaginação. Ele não nos foi mostrado. Não era preciso exibir em grande plano essa atrocidade a que cada pessoa foi submetida. É sabido que esta ausência de corpos das vítimas do 11 de Setembro alimentou polémicas, sobretudo a especulação de que os americanos ocultaram as imagens dos corpos porque quiseram evitar mostrar que deixavam de ser intocáveis. Mas é facto que as imagens (e a sua incessante redifusão) de corpos destroçados nada acrescentariam à compreensão do que estava em causa.


A guerra iniciada nesse 11 de Setembro de 2001 está repleta de momentos de tremenda atrocidade. Também houve pudor com as imagens do 11 de março de 2004 em Madrid. Ou com a decapitação, em 2014, do jornalista James Foley: então, os media de referência recusaram-se a exibir o chocante vídeo da execução realizado pelo autoproclamado estado islâmico. Aquele vídeo era a apresentação de um troféu como propaganda dos assassinos. Foi bem evitar a difusão do espectáculo do terror.


É facto que há imagens de violência que têm a virtude de serem reveladoras. São por isso necessárias. Os vídeos do espancamento de Rodney King, em 1991, por agentes da polícia de Los Angeles, ou o do assassinato de Walter Scott, em 2015, por um polícia de North Charleston, serviram para documentar a brutalidade de algumas práticas por polícias nos EUA.


Há muitos horrores que só realizamos terem acontecido por termos visto a prova em imagens. My Lai ou Abu Ghraib são exemplos clássicos. Mas não precisávamos de ver as imagens de corpos de turistas massacrados por terroristas na praia de Sousse, na Tunísia, no ano passado, para entendermos a monstruosidade daquela matança. Tal como outras praticadas pelas internacionais terroristas.
Sabemos que propaganda é informação que transmite de modo poderoso uma mensagem. Os terroristas que atacaram em Paris, em Istambul, em Ancara ou em Bruxelas contam com o efeito de ampliação da bomba mediática que aqueles lugares produzem e que não é atingida numa matança em Bamako ou em Lahore. O kamikaze que se fez explodir este domingo de Páscoa num parque frequentado por famílias na principal cidade do Punjab paquistanês levou pelo menos 72 vidas (entre estas, 30 crianças) e feriu 340 - "vil atentado", definiu o Papa. A dimensão do massacre é muito maior que a dos ataques em Bruxelas mas o tratamento mediático é quase passageiro. Em contraste com a exploração non stop no habitual loop catódico dos ataques em Bruxelas.

 

Obviamente, há o efeito de proximidade. Bruxelas é uma nossa referência cultural, é a capital do que queremos que continue a ser a nossa Europa. Está lá uma parte substancial do comando administrativo da nossa vida. Estão lá dezenas de milhar de compatriotas. Morreram nos atentados de 22 de março 30 pessoas e ficaram feridas 300. É terrível, sim. Mas a cobertura exaustiva, muitas vezes tão especulativa quanto pouco profunda, tende a acabar por servir a instrumentalização desejada pelo inimigo que ataca. O apocalipse relatado, se levado ao extremo, tenderia a levar os cidadãos europeus a barricarem-se em casa e a só saírem à rua dentro de um blindado. Esta espécie de convergência entre  terroristas e sistema mediático gera uma onda de medo. O poder simbólico e emotivo dos atentados contra populações civis, relatados em emissões em contínuo e dramatizadas por um sistema mediático que sabe que o terror vende, torna-se cada vez mais gerador de ânsias e medos coletivos. Este espectáculo do medo é uma armadilha. Ainda que a nossa vida de todos os dias siga igual, embora, talvez, com acrescido sentimento de insegurança.

 

A estatística europeia apurou que ao longo do ano 2014, no conjunto dos 28 países da EU, morreram 25.896 pessoas em acidentes na estrada. A comparação com os efeitos, também devastadores, dos atentados terroristas, não pode deixar de nos fazer parar para pensar. Estamos numa guerra e até por isso não dá para que se instale o espetáculo do medo.

 

 


TAMBÉM A TER EM CONTA:
 


O Nobel turco Orham Pamuk constata no El País: “a crise migratória está a comer os valores da Europa”. É uma entrevista para ler aqui.


A reconquista de Palmira revela que a jóia arqueológica no deserto sírio não estará tão irremediavelmente devastada quanto se temia. A cidade antiga, apesar de profanada, sobrevive à barbárie.


Mick Jagger levou a Cuba a voz que canta the times are changing. Mas também mudam nos EUA: os êxitos de Bernie Sanders mostram como a política dos Estados Unidos tem novas regras. O senador progressista continua a seduzir eleitores e a encravar a prevista marcha triunfal de Hillary Clinton. Entre os republicanos, algumas elites moderadas estão a constatar que perdem o partido para Donald Trump. Vale lembrar que o democrata Michael Dukakis, no início do verão de 88, tinha 10 pontos percentuais de avanço sobre George Bush mas, em novembro, o republicano foi quem venceu. Pode estar no horizonte um regresso ao passado?

 

A pessoa que dá corpo à personagem do vilão Frank Underwood: Kevin Spacey, o ator que abre portas a jovens talentos.

 

A primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS. Luaty Beirão condenado a cinco anos e seis meses de prisão e outros 16 activistas enfrentam penas de dois a oito anos. "Só um regime covarde enjaula assim", comenta no Expresso o diretor, Pedro Santos Guerreiro. Em Angola, é mostrado assim. E assim.

publicado às 08:16

A “tirania do medo”

Por: Pedro Rolo Duarte

Todas as guerras em que as partes em confronto não têm as mesmas armas são, por natureza, injustas. Todas as guerras em que as partes em confronto têm princípios diferentes sobre a forma de combater, e sobre ideias simples como “não matarás à traição”, estão por natureza perdidas por quem, apesar de tudo, mantém módicos de ética em combate. A guerra também tem regras. Ou tinha.

 

Estamos a assistir à instauração e “normalização” de um novo tipo de combate (ou velho, mas afastado da Europa desde os tempos da ETA, das Brigadas Vermelhas e de outras organizações do mesmo tipo) numa guerra sem tréguas: o que utiliza a democracia para, subvertendo-a, indo directamente ao seu coração ideológico, aproveitar-se das “brechas” que são a essência da liberdade, e matar indiscriminadamente, sem qualquer espécie de lógica que não seja cultivar o terror do medo.

 

Não há um alvo a atingir, há um sentimento para alimentar: o medo. A insegurança. Os limites da liberdade em nome de uma presumível segurança. Bertrand Russel, esse génio que uniu a filosofia à matemática, falava da tirania do medo. Escreveu: “O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero”.

 

Em teoria, Russell tinha razão - na prática, acordarmos numa terça-feira de Primavera com bombas a explodir no meio da Europa e dezenas de mortos e feridos inocentes, cujo único erro (em rigor, azar…) foi estarem na hora errada no lugar errado, não deixa margem de manobra para esses “motivos racionais de esperança”. Tanto mais que aqueles que nos decretam a tirania do medo são seres humanos como nós. São pessoas. Movidas pelo ódio, filhos da guerra, fanáticos, loucos, fundamentalistas, não adianta muito ir procurar a motivação desta gente - mas adianta parar para pensar que, quer queiramos ou não, aqueles assassinos nascem iguais a nós. Lá está: em igualdade e direitos.

 

E é por isso que estamos claramente a perder a guerra. Porque não estamos ao mesmo nível de quem nos ataca - estamos moral e eticamente acima, o que nos deixa mais vulneráveis. Ou seja, mais abaixo. É isto que está em causa e é neste quadro que o futuro se desenha.

 

As opções são escassas e o tempo também. Ou a Europa-que-decide se une e reconhece que estamos em guerra - e nesse caso não chega aumentar níveis de segurança e defender-se, talvez tenha mesmo de conceber uma estratégia mais musculada… -, ou vai continuar a deixar-nos viver na roleta russa de todos os dias. Com sorte, muitos de nós continuarão a não estar à hora errada no lugar errado.

 

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

  

Esta foi a ultima semana do jornal britânico The Independent em papel. A saída de cena foi bem montada, agora resta-nos o online e as versões mobile. Ao mesmo tempo que esta mudança sucede, o seu “rival” The Guardian, salvaguardado pelo financiamento de uma fundação que o sustenta, vai-se mantendo de pé, ainda que com previsões vagas de um futuro sem papel. A sempre assertiva revista “Prospect” escreve sobre o tema, num excelente artigo em que observa e perspectiva o que pode ser o futuro do The Guardian e do seu dominical The Observer. Vale a pena ler.

 

A situação no Brasil é tão confusa para os próprios brasileiros que o jornal Estado de São Paulo descobriu o filão editorial: livros que ajudam a entender o que poucos percebem. Este artigo alinha os livros que estão a ser preparados sobre o momento…

 

Quem quiser entender melhor o que está em causa nos atentados de Bruxelas tem forçosamente de passar pelas páginas do The Guardian. E já agora espreitar algumas das primeiras páginas mais fortes de ontem…

publicado às 07:12

Bruxelas: todos os problemas da Europa concentrados numa cidade

Por: José Couto Nogueira 

 

Hoje, bombas em Bruxelas. Ontem, um terrorista apanhado e vários mortos num bairro babélico de Molenbeek. Anteontem, a polícia armada até aos dentes a entrar pela casa de famílias ilegais, marginalizadas e desempregadas. Todos os dias, circulam as limousines topo de gama dos burocratas mais bem pagos do mundo. Há dois anos, a Bélgica esteve sem governo durante dezoito meses. No norte do país fala-se uma língua medieval, no sul comunica-se em francês. É assim a Bélgica, um país refém de contrastes insolúveis e contradições aterradoras. Desde 1830.

 

 

As autoridades belgas são ajudadas pelos serviços franceses, mas mesmo assim tem uma dura tarefa nas mãos. Bruxelas, sendo sede da NATO e dos órgãos de topo da UE, o Conselho da Europa e a Comissão Europeia, tem exigências de segurança acrescidas. Bruxelas abriga deputados e funcionários de topo à distancia de um tiro de bazuca de magrebinos revoltados e muçulmanos excluídos. Para não falar nos seus próprios problemas étnicos, uma vez que os flamengos se recusam a falar francês, mesmo com estrangeiros, e os valões não se querem misturar com ninguém, nem flamengos, nem estrangeiros.

 

A polícia não tem uma reputação cristalina; entre 2008 e 2014 houve vários escândalos sexuais, de pedofilia em escolas católicas a uma orgia numa esquadra de policia, sem que as autoridades conseguissem investigar a tempo inúmeras denúncias. O corpo de segurança das zonas da Flandres não se comunica com o da Valónia e Bruxelas é um enclave francófono na zona flamenga. Depois há as antipatias fronteiriças entre franceses e belgas.

 

Bruxelas foi escolhida para sede dos órgãos principais da UE segundo aquele princípio que tem norteado as decisões da União: dar importância aos insignificantes, facilmente manipuláveis, porque nenhum dos poderosos quer ficar sob a alçada de outro poderoso. Bruxelas, Estrasburgo (a outra sede do Parlamento Europeu) Durão Barroso, Van Rompuy e Jean Claude Juncker, são bons exemplos destas escolhas do menor denominador comum.

 

Aliás, a própria existência da Bélgica é uma espécie de equívoco criado pelas conveniências dos grandes. Até 1830, fazia parte da Holanda, juntamente com o Liechenstein. Nesse ano, uma revolta separou a Flandres e a Valónia, que formaram um país dividido linguística e etnicamente, sob a batuta de um rei alemão inventado para manter a coesão, Leopoldo I. (É interessante que anteriormente Leopoldo tinha recusado a coroa grega, por achar o país demasiado instável.) Os grandes poderes europeus consideraram que era uma boa ideia um estado-tampão entre a França e a Alemanha, como garante de que não se guerreariam. Claro que, quando a Alemanha decidiu invadir a França, em 1914 e 1939, passou por cima da Bélgica sem grandes problemas.

 

Na Conferência de Berlim, em 1885, ao fazer-se a divisão da África entre os europeus (Portugal incluído) aquele espaço inexplorado ao norte de Angola, que ninguém parecia querer, foi dado de presente a Leopoldo II – não à Bélgica, mas ao rei, como propriedade pessoal. No início do século XX a opinião pública mundial ficou chocada com as atrocidades que os belgas cometiam no Congo, inclusive amputações de trabalhadores considerados preguiçosos. Calcula-se que tenham morrido dez milhões de nativos em condições inenarráveis. A reputação de Leopoldo II, que até fez reformas trabalhistas inovadoras na Bélgica, nunca se recompôs dessa barbaridade.

 

O que lá vai, lá vai. Os problemas agora são outros. Os valões e os flamengos continuam a não se entender, mas pelo menos já conseguiram formar governo. Dos hábitos pedófilos, que provavelmente são iguais em toda a parte mas ficaram como uma espécie de estigma para os belgas, não se tem falado. Em compensação Bruxelas continua a ser um problema maior do que o país – são todos os problemas da Europa concentrados numa cidade.

 

Por um lado, é o centro nevrálgico da União Europeia e da NATO, o que a torna uma cidade caríssima e com permanente falta de alojamento; por outro lado tem uma população muçulmana que quer mais é que a Europa que a rejeita desapareça do mapa. As autoridades belgas, tão mal vistas internacionalmente, fazem o que podem para resolver problemas que, nitidamente, as transcendem. Por outro lado, não querem que a ajuda dos serviços de segurança estrangeiros os subalternizem na sua própria terra. Mas alguém tem de proteger os generais da NATO e os comissários da Europa. E é preciso urgentemente limitar os imigrantes e arranjar-lhes uma ocupação – em Molenbeek, o desemprego atinge os 50%. Salah Abdeslam, o homem mais procurado da Europa, escondeu-se mais de um mês em Moleenbeck, o bairro onde nasceu e cresceu, sem que a polícia desse com ele. E um dos que o acompanhava até conseguiu fugir. Outros, insuspeitos, colocaram agora as bombas de retaliação. Bem perto da classe superior que discute interminavelmente o que fazer com os refugiados sírios e os marginais de Moleenbeck.

 

O que está a acontecer por estes dias em Bruxelas é uma metáfora do estado a que a Europa chegou.

 

 

publicado às 13:17

Não podemos renunciar à liberdade. Não renunciamos a algum dos pequenos prazeres do nosso modo de vida.

Por: Francisco Sena Santos
 

 

O terrorismo trouxe uma vez mais a sua feroz guerra para o coração da Europa. Agora, em Bruxelas, à hora de ponta. A capital da União Europeia está bloqueada e o medo instala-se. É o que eles, os bárbaros, querem: abater a ideia de liberdade, progresso, justiça social.
 
 
A Europa deixou de viver em paz. As guerras do Médio Oriente estão a ser transferidas para dentro da Europa. A guerra é física e psicológica. É tempo de as lideranças europeias se deixarem das imbecis e ignóbeis quezílias egoístas de todos os dias. A crise dos refugiados evidencia-nos como falta na Europa um sobressalto de dignidade política. A Europa unida está fragmentada, em pedaços, e é evidente que só unida e solidária, corajosamente regressada aos valores fundadores, pode enfrentar o lado político desta guerra. Nós, os cidadãos, obviamente, quaisquer que sejam as ameaças, recusamos renunciar aos pequenos prazeres de cada dia, seja o de um café enquanto lemos um jornal ou um livro numa esplanada ao sol, a música dançada numa discoteca ou uma viagem de avião. Evidentemente, nada pode fazer retroceder a liberdade que é o nosso primeiro valor.
 
 
 
O BRASIL E CUBA EM ESTRADAS OPOSTAS
 
A detenção de Berta Soler, líder das Damas de Blanco, e de outros oposicionistas cubanos, neste domingo, no Parque Gandhi, em Havana, no final de uma manifestação de repúdio do governo comunista, ocorrida escassas horas antes de Obama pisar pela primeira vez solo de Cuba, lembra-nos que não há motivo para excesso de entusiasmos com a abertura política em Havana. Mas o povo cubano, sempre embalado pelo ritmo musical da salsa, pode sorrir: o horizonte é de esperança. A evolução em Cuba tende a ser lenta, gradual, mas é irreversível rumo a uma vida menos constrangida. É o oposto do que se sente no Brasil de hoje, um país que parece tomado pelos ódios.
 

Milhões de brasileiros estão a ser chamados para o protesto, furioso, nas ruas. Todos sabem que todo o sistema político-económico do país está corroído pela corrupção. É um mal que se propagou, transversal. Mas o que está em fundo a este movimento que precipita multidões para as manifestações não é um confronto entre o bem e o mal ou entre decência e corrupção, é uma luta tremenda pelo poder.
 

Esta guerra política ficou desencadeada quando em outubro de 2014 Aécio Neves perdeu a eleição presidencial em que Dilma Rousseff foi reeleita. Os anti-PT não aguentaram e desesperaram com a realidade de quatro eleições presidenciais ganhas pelo PT (Lula em 2001 e 2005, Dilma em 2009 e 2013) e a perspectiva de, após estes 16 anos, haver continuação com o regresso de Lula à presidência nas eleições de 2017. Os opositores fizeram cálculos e perceberam que Lula é, para eles, a ameaça. Dilma não tem mão para liderar o país mas Lula saiu da presidência em 2009 com taxas de aprovação tão altas que serviram para garantir a eleição e reeleição da fraca e desconhecida Dilma. Lula continuava a ser trunfo, portanto, é o ás a abater. Num país onde o voto é obrigatório, Lula tem o apoio dos muitos milhões de sem terra nem rumo que vêem nele o líder que lhes deu benefícios do dinheiro público, que lhes restituiu alguma dignidade e amanhãs. Por isso, para os opositores, o ataque teria de ser de alto calibre letal: empurrá-lo para o papel de bandoleiro que rouba o dinheiro dos brasileiros. O aparelho de poder de Lula pôs-se a jeito: não foi imune à embriaguez do dinheiro e do poder, envolveu-se nas teias da corrupção que envolve todo o sistema político brasileiro.
 

É aqui que entram em campo, nesta guerra anti-vermelhos que tem como alvo central abater Lula, dois poderes que se fizeram parte aliada: o aparelho policial-judiciário e o sistema dos media, convergentes para o fim de remover Lula e o PT do poder, objetivo que ficou por conseguir de forma democrática ao longo da última década e meia.
 

Todos pudemos notar nos últimos dias como os magistrados que conduzem a (necessária) investigação criminal não olham a meios para, com abusos vários, alcançarem os objetivos que se revelam claramente políticos. São múltiplos os indícios de que o PT está repleto de corrupção que toca em Lula. Mas todo o cidadão tem direito a que a investigação de que é alvo seja imparcial e justa. E, se a intenção é a boa de caçar todos os que têm as mãos sujas, então também será de avançar, com respeito pela prática do Direito, por todo o espectro político igualmente contaminado.
 

Paralelamente, os media, intensamente concentrados e influentes, veemente opostos ao PT, com a Rede Globo na hegemonia, meteram-se nesta guerra, teatralmente, inflamando o cenário, como agitadores e alimentadores do protesto: “O que a Globo sabe fazer magistralmente é manipular contextos”, escreve Carlos Castilho, jornalista há 35 anos e professor agora a concluir o doutoramento em Gestão do Conhecimento na Universidade de Santa Catarina, nesta análise preciosa para conhecermos o sistema dos media no Brasil. Também se recomenda este retrato do actual “turbilhão de versões e contra-versões”, igualmente por Carlos Castilho. É assim que o Brasil de agora está em espiral depressiva confrontado com uma crise gigantesca.
 

O que está a acontecer em Cuba vai no sentido oposto, o da esperança. A vida segue precária na ilha caribenha, grande parte dos seus 11 milhões de habitantes sofre de grande escassez (um professor universitário recebe um salário que não chega a 60 euros por mês) e para a maioria arranjar o que comer é uma luta diária: o cabaz básico mensal de alimentos subsidiados apenas dá para uns dez dias. O Estado é o maior empregador em Cuba mas o salário mensal médio é de 28 euros. A agricultura tem a mão-de-obra de 10% do país. As remessas do milhão e meio de cubanos no exterior são um essencial suporte para a subsistência das famílias. Mas a saúde funciona, a esperança de vida está nos 79 anos e em Cuba vivem umas 1800 pessoas com mais de 100 anos. A escola funciona e a alfabetização de adultos está nos 100%.
Há muralhas por derrubar: o regime desmente mas há evidência de continuação de prisões políticas mascaradas como casos de delito comum. O acesso à internet continua por liberalizar para a maioria da população cubana. É um dos pontos que Obama levou na agenda e a Google integra a comitiva. Tal como a PayPal e a Airbnb. Os muros estão a cair, é irreversível.
 

O papa João Paulo II abriu o caminho para a esperança ao apelar, em 1998, em Havana: “Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba". Os papas Bento XVI e, sobretudo, Francisco deram sequência a esse caminho. Quem imaginaria há meia dúzia que um presidente dos EUA iria a Cuba apertar a mão a um Castro? Há muitos problemas para resolver mas o caminho já não tem volta para trás. A distensão com Cuba e com o Irão mostram que a presidência Obama trouxe melhorias aos mundo que, no entanto, está cada vez mais perigoso pelo terrorismo.
 
 
 
AINDA A TER EM CONTA
 
Cabo Verde votou e a oposição triunfou. O arquipélago é um exemplo de, apesar de tantas carências sociais e económicas, coexistência democrática.
 
 
Mi ê di li i di la. Esta reportagem de Vera Moutinho e Catarina Gomes, no Público, mostra o futuro virtuoso para os jornais de referência.
 
 
Três primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e também esta.
 
 
publicado às 09:34

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