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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Este país também pode ser para os mais velhos?

Por: Francisco Sena Santos

 

A campanha presidencial em curso nos Estados Unidos da América sugere uma questão: como é que em Portugal estamos a lidar com os nossos mais velhos? Seria possível, numa sociedade como a nossa, tão deslumbrada com o culto de quem é jovem e telegénico, como fica evidenciado no sistema mediático, termos um político que no alto dos seus 74 anos seja um ídolo dos jovens? Acontece na América, com Bernie Sanders.


Este homem, candidato à sucessão de Obama na Casa Branca, aparece como um Dom Quixote frente aos moinhos de vento das elites da finança de Wall Street e da política de Washington. A mensagem dele é poderosa para jovens que perderam a esperança de ter esperança e assenta num ingrediente genuinamente americano: “está nas nossas mãos conseguirmos”.

 

Numa América desde sempre alérgica a qualquer influência marxista e onde falar de socialismo remete para a velha União Soviética, Bernie Sanders assume-se socialista. É facto que está sempre a explicar que entende o socialismo como um modelo social-democrata como o que funcionou nos países escandinavos. Mas ousa propor uma “revolução política” com medidas radicais na América onde prolifera a injustiça social: cuidados de saúde garantidos para todos, estudos superiores gratuitos, investimento maciço na criação de emprego decente, progressividade fiscal e aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. Fica, no entanto em silêncio sobre o divisivo tema da posse por quase todos de armas de fogo.


Bernie Sanders, com a cara cheia de rugas, óculos espessos, cabelo branco, velho leão solitário da esquerda americana, surge nesta campanha americana como ícone do progressismo democrático contemporâneo: ele faz a ponte entre a contra-cultura dos anos 60 e 70 do século XX e os novos movimentos de protesto nascidos com a agitação de Occupy Wall Street. Discursa com grande ferocidade moral. Não deixa de ser agreste com os jornalistas quando estes lhe colocam perguntas que ele considera frívolas. É aclamado pelos apoiantes – que vestem t-shirts onde se lê I love you Bernie, A future to believe in ou Feel the Bern - como se fosse uma estrela rock.


A eleição presidencial nos Estados Unidos decide-se no próximo 8 de novembro. Até ao verão, os dois grandes partidos políticos dos EUA, o Democrata e o Republicano, apuram em primárias, em cada um dos 50 estados, a escolha do seu candidato para a finalíssima em novembro.


É bem provável que o lado republicano (o que se coloca mais à direita, o partido que foi de Reagan e é dos Bush) chegue à convenção marcada para 18 a 21 de julho, em Cleveland, sem que algum dos aspirantes (Trump, Cruz, Rubio, Bush ou outros) se imponha à partida. Adivinha-se que ninguém tenha maioria absoluta de delegados. A ser assim, será uma convenção republicana aberta de resultado muito incerto, como não acontece há décadas.

 

Há que não menosprezar Donald Trump, o candidato multimilionário com os seus 70 anos disfarçados pela maquilhagem. Ele é, tal como Sanders, um candidato contra o sistema. Ambos estão a divertir-se nesta campanha. E o insurgente Trump, apesar do seu machismo e da rudeza do seu discurso populista e xenófobo, nem será entre os candidatos republicanos o que poderia provocar maior caos se fosse eleito. Os outros não expõem tanto o ridículo mas cultivam mais a divisão.


No campo dos democratas, Hillary Clinton partiu superfavorita: no verão passado, as sondagens davam-lhe mais de 60% das intenções de voto enquanto Bernie Sanders não chegava aos 10%. As primárias começaram neste fevereiro e Bernie Sanders tornou-se a surpresa: empatou com Hillary no Iowa e impôs-se com enorme margem (20%!) no New Hampshire. Sabia-se que Sanders estaria em casa neste pequeno estado próspero no nordeste, mas não se esperava um triunfo tão claro. Uma vitória assim robusta pode fazer embalar o apoio a Sanders, permitir-lhe ampliar a emoção em torno da candidatura e mexer com as previsões favoráveis a Hillary nas próximas duas primárias, no Nevada e na Carolina do Sul. Mas é improvável que Sanders possa resistir ao aparelho de Hillary na “super terça-feira” 1 de março, com 12 eleições primárias. Sabe-se que Hillary tem de há muito vantagem no voto negro e hispânico. Então, a mulher do ex-presidente Bill Clinton tenderá a descolar e a impor-se na corrida do lado democrata.

 

Tudo ainda pode acontecer, com Bernie a beneficiar de novas formas de mobilização política e de financiamento participativo, mas é pouco provável que sequer consiga aguentar até ao verão um ombro a ombro com Hillary. No entanto, o efeito Bernie Sanders pode ser devastador para a candidata: mostrou como ela tem falta de idealismo mobilizador. Ele, Bernie, aparece como uma pessoa autêntica, imagem que não cola à figura de Hillary, uma acrobata política, uma política de um sistema que gera uma grande vaga de hostilidade.


No meio de toda esta indefinição, pode ainda vir a surgir Michael Bloomberg, o multimilionário liberal, ex-mayor de Nova Iorque, a apresentar-se como o independente, moderado, que consegue atrair e juntar pedaços da América exasperada que não se revê em nenhum dos candidatos. Pode vir a tentar impor-se como o centro de uma América moderna.


Tudo está em aberto nesta eleição do sucessor de Obama. É possível que o impacto da crise de 2008-2009 sobre o imaginário de uma parte da América esteja a abrir uma brecha no ciclo político. Por agora, a estrela é Bernie Sanders.


Voltando ao princípio: seria possível, no actual sistema social português, um homem com 74 anos e que se assume veterano conseguir desencadear uma onda emocional com assim vasta mobilização dos sub-30?

Também a ter em conta

A morte de Antonin Scalia, o falcão mais ultra-conservador entre os nove juízes no Supremo Tribunal dos Estados Unidos abre uma batalha política em que Obama tenta virar a balança do Supremo a favor do lado progressista. Scalia chegou ao Supremo, com nomeação vitalícia, por Reagan, em 1986. Até agora o Supremo americano, comparável a um tribunal constitucional, tinha quatro juízes conservadores, quatro progressistas e um, Anthony Kennedy, cujo voto oscilava entre os dois campos. A escolha pode mudar a decisão política nos Estados Unidos.

O papa Francisco em Chiapas, diante de 100 mil indígenas, pede-lhes perdão pelo modo como são “sistematicamente excluídos da sociedade” e “expostos à cultura que tenta suprimir-lhes a cultura”.

A praia da Salema, no Algarve, entre as melhores do mundo na lista do The Guardian.

Uma primeira página escolhida hoje entre as reproduzidas pelo SAPO JORNAIS. E também esta. E como será a vida futura de tantos milhões de crianças e adolescentes sírios que cresceram a testemunhar a devastação e a fugir ao inferno?

publicado às 07:57

30 anos de Cavaco Silva, um momento #2: Era uma vez o Cavaco

por: Márcio Alves Candoso 

 

Aqui fala um antigo jornalista, que nasceu para a profissão quando Cavaco Silva já era primeiro-ministro. E para que fique desde já claro, não se gaba desse facto ou rejubila com a pessoa em título. Cavaco é tudo o que de mau o 25 de Abril nos trouxe em termos políticos. Traz ao de cima, e ao palácio do povo, os defeitos típicos do português, como outrora Salazar, num outro contexto.

 

Urbano me confesso, amante da cultura, da vida boa e sem complexos. Do trabalho quando é de trabalho que se trata, da fruição da praça pública, até nos seus exageros, quando é isso que mais interessa. Rio-me. Cavaco não entende a piada.

Cavaco dá aos portugueses aquela sensação de sofrimento 'necessário' que tanto mal faz à nossa existência e realização pessoal e colectiva. Por outro lado, desculpa os videirinhos e os chicos-espertos, que se locupletam com o erário público, a troco de obra marrana e sem critério. E finalmente alcandora à mó-de-cima os brutos. Cavaco é 'bullying' para os nossos afectos.

 

O homem, como a todos os que temos memória dos nevoeiros e chuvas dos mais recentes 35 anos, passou por mim. Nunca votei nele, nem sozinho nem acompanhado. Onde aparecia, afastava-me o 'x' no boletim. Fala aqui, também, um social-democrata convicto, coisa que ele nunca foi na vida.

 

Não vou falar do Citroën, nem da Figueira da Foz. Nem das aulas com Glória de Matos para aprender a conjugar as sílabas e a soletrar as lábio-dentais, essa equação linguística que resiste a qualquer Excel. Nem tão pouco das más companhias, das privatizações macacas, do bolo-rei e das cagarras.

 

A primeira vez que vi Cavaco Silva ao vivo ia eu a subir a Avenida de Roma e ele descia-a. Em carro aberto, ele mais sua Maria, agradecia os aplausos da multidão de classe média, que abanava bandeiras na rua e nas janelas, muitas delas do CDS que ele ajudou a matar. Pagaram caro as 'tias' e os tonsurados com a visão do homem 'providencial'.

 

Lembro-me que andava às compras de umas botas ou sapatos. A multidão quase me engolia, naqueles idos de 87. Por sorte, passou de carro, pelo lado livre da avenida, o meu ex-comandante de pelotão da tropa. Como bom camarada e comandante militar, disse-me: 'Anda, dou-te boleia, ainda és engolido por isto'. E lá me escapei da laranjada perfumada a incenso e birras. 

 

É o mesmo homem que, passados uns anos, na campanha presidencial que o opôs a Sampaio, se meteu no carro à pressa em Espinho – a minha terra – sem cumprir a agenda que o devia levar ao bairro piscatório, por razões de 'segurança', disseram-me. Teve medo, claro, de que uma peixeira lhe assestasse com um chicharro no frontespício. Para um político é inglório.

 

Três dias depois, Jorge Sampaio cumpria a pé o quilómetro e meio que está de permeio entre o largo da câmara e o bairro, não sem que antes o mandatário distrital do futuro presidente rosnasse umas palavras de reprovação, pegasse ao volante do seu SAAB 900 e rumasse, de carro, ao mesmo lugar que o candidato. Chamava-se Carlos Candal, e era mais ás da caneta do que andarilho. Adiante.

 

Sofri, como qualquer jornalista, os anos de chumbo impostos por um homem que não prezava – e não preza – a liberdade. Encontrei Cavaco já estava eu em Lisboa, de microfone em punho, a ouvi-lo já não me lembro a que propósito, ia sua excelência a entrar no mal amanhado de madeiras e alumínios Centro Cultural de Belém. O segurança empurrou-me. Bateu-me no microfone dos 'erres'. Era um armário bem maior que este homem maneirinho.

 

Desequilibrado mas ainda armado de microfone, retirei os olhos do protagonista e fixei-me no bacamarte. Tanto ou tão pouco, que o próprio Cavaco teve de intervir, com aquele sorriso esquálido que sempre o acompanha, dizendo-me 'mas vamos entrando, que lá dentro falo consigo'. Não falou nada, e o segurança desviou os olhos. Confesso que sempre fui maior de alma que de braços e punhos, mas estive quase a pegar-me com o armário. O gajo riu do meu corajoso topete.

 

Passado uns tempos, chegou Guterres. Para os jornalistas, foi como se de repente passasse a chuva e chegasse o sol. Desanuviou a relação com os media, e bem me lembro de ter a mim próprio imposto cuidado, para não começar a gostar demasiado do nosso novo Primeiro. Porque primeiro está a isenção informativa.

 

Um dia, dou de caras com o tal segurança. Bom profissional, tinha passado de Cavaco para Guterres. Mas já não estava ao lado do chefe do Governo. Estava nas escadas do CCB, sentado, cabisbaixo, a fumar um cigarro. Quase tive pena dele.

 

Enfrentei-o. 'Então, já não tem nada que fazer? Lembra-se de mim?' Ele aquiesceu com um gesto afirmativo e um sorriso. Não se mexeu da posição de sentado. Mas foi dizendo: 'Este não quer que andemos ao pé dele'. Não sei se suspirou de alívio ou de piedade por si próprio.

 

Isto foi logo depois do dia 10 de Junho de 1995, quando Cavaco foi entrevistado na Rádio Renascença, com a qual andava de candeias às avessas, ao tempo. A culpa primordial não era minha, que não tinha estatuto para tanto. Mas lá que ajudei à festa, ajudei, tendo como principais comentadores de economia – o meu pelouro na RR – Alfredo de Sousa e João Salgueiro, que não se ensaiavam nada de lhe dar porrada política com critério...

 

Foi nesse dia que o José Luís Ramos Pinheiro, então director da estação, se saiu com a pergunta que cito quase de cor – porque eu estava lá, no estúdio. 'Neste dia de Camões, de Portugal e das Comunidades, o senhor primeiro-ministro ainda se lembra de quantos cantos têm 'Os Lusíadas''?

 

Cavaco Silva mudou de cor, coçou-se um pouco na cadeira e atirou as 'culpas' da sua falta de ensino para a senhora que lhe faz companhia: 'Sabe, lá em casa essas coisas de português é com a minha mulher', respondeu. Mas não sabia.

 

Foi este o homem que representou Portugal.

 

  

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

publicado às 18:25

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