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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Andamos todos aos papéis

Por: Rute Sousa Vasco

 

A culpa é dos papéis. Os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos.

 

Maria Luís Albuquerque garante que só soube que o Estado podia ter de gastar 2,2 milhões de euros no Banif a 12 de novembro de 2015. Diz ela que foi isto que disse ao seu successor, Mário Centeno, ainda que continuasse completamente imbuída da esperança de “uma venda vantajosa do banco”.

 

Mário Centeno garante que soube dos graves problemas do Banif exactamente um mês antes, a 12 de outubro, oito dias depois das eleições ganhas pelo PSD/CDS. E, nessa altura, Maria Luís terá comunicado a gravidade da situação e duas soluções possíveis, a resolução ou a liquidação. Segundo Centeno, além dele, António Costa e Passos Coelho também participaram na mesma conversa.

 

Tenham conversado todos em outubro, tenha Maria Luís Albuquerque apenas em novembro tomado consciência do cenário de resolução do Banif, o facto é que em dezembro estavam três soluções em cima da mesa: a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, uma nova recapitalização pública, ou a criação de um "banco de transição", para ganhar tempo e vender depois melhor.

 

A 15 de Dezembro, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, e António Varela, responsável pela supervisão do Banco de Portugal, foram para Frankfurt para uma reunião do Banco Central Europeu (BCE). Segundo António Varela contou aos deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, pela parte que lhe tocava ia convencido de um cenário de ‘banco de transição’ – a tal solução para poder vender melhor.

 

Só que aqui entram os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos. E os nossos papéis são emails trocados entre o BCE, a Comissão Europeia, o Governo português e o Banco de Portugal e não deixam margem para grandes lapsos de memória ou estados de alma. A Comissão Europeia informou as pessoas que achamos que mandam em Portugal que não autorizava a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, nem a uma recapitalização do banco. E António Varela até podia estar, como Maria Luís, esperançoso, numa solução para o Banif que passasse por criar um banco de transição. A esperança é a última a morrer – mas que não seja por falta de informação.

 

E António Varela, o português que representa a supervisão dos bancos portugueses no BCE, já tinha sido devidamente informado, ainda antes da reunião de Frankfurt começar, que o Banco Central Europeu estava “inteiramente contra”. Disse-lho, por email, José Ramalho, seu colega no Banco de Portugal e em inglês: o Banif é para vender “with all means available”. Na realidade, a expressão não é sequer dele – recebeu-a de Jukka Vesala, o director-geral finlandês da supervisão no BCE que deu instruções de como tudo se deveria passar.

 

E é assim que três dias depois, 19 de dezembro, Danièle Nouy, presidente do Conselho de Supervisão do BCE, apresenta ao Governo português o ‘comprador’ do Banif, um noivo que encanta especialmente a matriarca Comissão Europeia, educado, competente e com futuro promissor como se pretende. A alegria pela escolha é tanta que nem vale a pena olhar para outros noivos: "A Comissão Europeia foi muito clara neste aspecto, por isso, recomendo que nem percam tempo a tentar fazer passar essas propostas.", disse Nouy ao nosso primeiro-ministro António Costa, segundo relato do jornal Público.

 

E assim foi como na história da Carochinha e do João Ratão. Lá caímos no caldeirão, sem honra nem glória, com um dote para lá de generoso pago pela família da noiva encalhada (que somos todos nós) mas deixando pessoas da Finlândia, França, Alemanha, Bruxelas felizes com a boda. Na Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, João Almeida, deputado do CDS, resumiu assim: "o processo acabou com a imposição de um comprador único: o Santander. (…) O banco foi entregue. Desculpem, mas não consigo dizer vendido." 

 

Este é o relato de uma história que alguns deputados se têm esforçado por apurar e que vários jornalistas, com destaque para o trabalho do Público, têm procurado não apenas esclarecer como também manter viva. Porquê manter viva? Porque é difícil reter a atenção das pessoas, mobilizar a vontade das pessoas, interessar as pessoas por serem parte da solução – e não apenas por se indignarem com as soluções que lhes são impostas. Valdemar Cruz, jornalista do Expresso, perguntava esta semana isso mesmo, a propósito dos Panama Papers ou de outro escândalo qualquer.

 

Este escândalo, da banca, do Banif, da opacidade da democracia europeia, do dinheiro que alguém decide em nosso nome usar, é um escândalo nosso. Não é apenas nosso – mas este, do Banif, como antes do BES, como antes do BPN, como antes do BPP, é mesmo nosso. É o nosso dinheiro, são os nossos votos, é, no limite, o nosso orgulho ou a falta dele.

 

Esta semana, Pedro Passos Coelho disse numa entrevista à Antena 1, que, em 2011, o Banco de Portugal estimava que os bancos portugueses precisavam de 40 a 50 mil milhões de euros. Três vezes mais do que os 12 mil milhões previstos no memorando assinado com a Troika.

 

Esperem, talvez seja melhor assim: 50 mil milhões é um terço de toda a riqueza produzida em Portugal.

 

Ou ainda: são cinco vezes as despesas com a saúde em Portugal.

 

Ou seis vezes as despesas com a educação.

 

Isto é o nosso problema – depois deste, vem o inferno que são os outros, a Europa, e esse é um problema de 500 milhões de europeus.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões:

 

Como se preparam para o mundo do trabalho os jovens que não querem ir para a universidade? Um estudo realizado na Grã-Bretanha demonstra que há uma cultura de desigualdade que penaliza os jovens que não querem estudar mais e que limita a mobilidade social. Um problema que não é só britânico.

 

A cobertura do grande tema da semana, os Panama Papers, levou o jornal Guardian a um novo recorde de audiência mediante uma cobertura intensa. Só na segunda-feira, dia 4 de abril, primeiro dia das revelações trazidas a público pelo consórcio internacional de jornalistas, o jornal inglês registou 10,4 milhões de visitantes únicos face a uma média de 8,5 milhões.

publicado às 11:23

A narrativa de Carlos Costa

Por: António Costa

 

Carlos Costa quebrou o silêncio de anos e deu uma entrevista ao Expresso – em duas partes – basicamente com dois objetivos: baixar o volume de confronto com o governo e garantir que está para ficar até ao fim do mandato no Banco de Portugal, contra tudo e contra quase todos, exceção feita ao BCE, a sua última e definitiva rede de segurança.

 

Se estes eram os principais objetivos, saiu-se bem. É claro que reduzir uma crítica tão violenta de António Costa a um ‘incidente’ é pura tática do governador, não chega a ser estratégia, nem chega para fazer esquecer a gravidade do que foi dito, e repetido, pelo primeiro-ministro. Mas passa para o primeiro-ministro o ónus de um novo confronto, a responsabilidade de uma crise institucional, e Carlos Costa põe-se na posição em que diz não estar: vitimiza-se. E sem perder a ironia, mesmo nos tempos de maior pressão, até recorda o que dizia à mulher antes de aceitar o convite de José Sócrates e Teixeira dos Santos: “Espero que não me convidem...”.

 

A entrevista tem mensagens diretas e outras, muitas, subliminares, a exigirem segundas e terceiras leituras. Especialmente nos casos que estão ainda quentes, como o Banif ou o BPI. Depois, Costa tinha outros fins, já conhecidos, mas que o governador (nos) quis recordar. Queria repetir a sua narrativa de uma história que, depois do BES, teve o Banif, o Novo Banco e a própria banca. O problema de fundo é outro. Depois da leitura desta longa entrevista, podemos estar descansados em relação à solidez da banca? Podemos confiar na palavra de Carlos Costa depois do que sucedeu com o BES, o Banif e o próprio Novo Banco? Podemos confiar na capacidade do polícia em relação a eventuais ladrões? Não, não e não.

 

Em primeiro lugar, por razões económicas do país e da própria saúde financeira da banca. Carlos Costa fez um retrato exato e apurado do que é o setor, do que sucedeu quando havia dinheiro na banca para dar e vender, das suas fragilidades, da falta de rentabilidade e da necessidade de ter capital, que não existe em Portugal e terá de ser necessariamente estrangeiro. Mas não só.

 

O governador, é claro, não assume nem reconhece responsabilidades, nem uma. São dos outros, do sistema, das leis ou da falta delas. E até dos valores. Como é evidente, alguns dos casos que conhecemos confirmam a tese do governador. “Não sei se os fundamentos morais da sociedade portuguesa são suficientemente fortes”, diz Carlos Costa. Mas se esta constatação é verdadeira, mais razões existem exigirmos mais supervisão, ou melhor, uma supervisão mais eficaz.

 

Sim, não há polícias infalíveis, nunca haverá, é da natureza das coisas, mas depois do que sucedeu, o Banco de Portugal tem a obrigação de saber por onde entram os ladrões. E os sinais que vemos é que não sabe ou, no mínimo, aparecem portas abertas que, pelos vistos, estavam escondidas, sabe-se lá onde.

 

Sim, tendo em conta o que se passou na banca nacional nos últimos anos, e o que custou aos contribuintes, parece um paradoxo afirmar que a banca está mais sólida. Carlos Costa diz que sim, os bancos têm mais capital e liquidez do que tinham em 2010, o sistema está mais sólido. Mas, como se percebe das respostas do próprio governador, isso não é necessariamente suficiente. E Costa já não dá respostas definitivas, é agora mais político do que nunca.

 

Os portugueses têm razões para confiar [na banca]? “É para isso que estamos a trabalhar”.

 

AS ESCOLHAS 

Na semana de mais uma cimeira europeia dedicada aos refugiados, chegam hoje a Portugal os primeiros 64, e pode ler aqui. À procura de uma nova vida, uma oportunidade. A crise migratória, como diz o primeiro-ministro grego, e com razão, poderá ser mais letal para a Europa do que a crise de finanças públicas, porque não há austeridade que a resolva.

 

A Impresa muda de geração. Francisco Pinto Balsemão preparou o seu filho Francisco Pedro durante anos para este dia. É uma passagem de testemunho familiar que, percebe-se agora, foi pensada com tempo e Pedro Norton foi o gestor que serviu de transição. A mudança de ciclo – não é só na política, é também nas empresas – na empresa dona da SIC e do Expresso surge num momento crítico do setor, e é uma oportunidade para o grupo.

 

publicado às 10:11

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