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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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No fim de contas, Cavaco

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Daqui a poucos dias haverá menos um nome na lista dos “culpados” de tudo o que sucede em Portugal. Para o bem e para o mal. Ficará como “culpado” de males passados, mas já não de mazelas futuras. Cavaco Silva cede a Presidência ao recém eleito Marcelo Rebelo de Sousa, sai de cena, e teremos menos uma desculpa para continuarmos na mesma. Tenho dúvidas sobre esta “vontade” de mudança, mas enfim…

 

Ao longo dos últimos 30 anos, Cavaco foi uma figura tutelar e permanente na cena política nacional - e resistiu a todas as criticas, todos os ataques, todos os cercos, com um talento que, confesso, não sei onde aprendeu, nem compreendo como soube manejar (o que me obriga a, no mínimo, respeitar a figura…). Se nos dermos ao trabalho de compilar tudo o que sobre ele se disse e escreveu, todas as criticas, julgamentos, processos de intenção, estados de espirito, encontramos a mais rica colecção de insultos, acusações, condenações e arrasos de que há memória sobre uma só pessoa. Não sei se Salazar lhe ganha…

 

Porém, este mesmo Cavaco Silva conquistou - depois de “ganhar” o PSD em Congresso, na sequência de uma rodagem de um automóvel… - duas maiorias consecutivas em eleições legislativas, e foi Primeiro-Ministro entre 1985 e 1995. Depois disso, foi eleito Presidente da Republica duas vezes seguidas, em 2006 e 2011. Na prática, pragmaticamente, é isto: um dos mais odiados políticos do regime democrático foi, ao mesmo tempo, um dos dois homem que os portugueses mais vezes elegeram para conduzir os destinos da nação.

 

Como se explica esta contradição? Como se explica que haja contagens decrescentes para a sua saída de cena, depois de tantas eleições, votos contados, vitórias indiscutíveis?

 

Não imagino como será visto Cavaco Silva daqui a 200 anos, quando os historiadores o avaliarem - mas tenho a certeza de que ele representa, na essência e na acção, o português típico, no que tem de mais ancestral e enraizado, na pequenez do olhar sobre o Mundo como na ideia obediente do que “é necessário fazer”. O pai de quem nunca nos livramos - queremos livrar, mas no fundo fazemos tudo para manter. A maioria dos votos que Cavaco obteve demonstra esse desejo de estabilidade quase paternal, de alguém que aguente mesmo o que ninguém quer aguentar, de alguém que esteja lá para dar o raspanete figurativo. Não muda, mas alivia. Não faz, mas ameaça. Não desrespeita a lei, mas lembra que existe. Talvez se explique desta forma - ou talvez não. O mistério vai persistir para lá dele próprio.

Para a maioria, é um alívio deixar de ter Cavaco Silva na vida política nacional. Mas receio que essa mesma maioria não deixe de procurar, no futuro, um outro Cavaco que lhe traga o sossego de que precisa para continuar a ser como é. Ou seja, igual.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

Quatro dias depois da entrega dos Óscares, um olhar impiedoso sobre a cerimónia, das mãos de uma das minhas bloggers favoritas, Eugénia Vasconcelos: “Proponho que nomeiem para um Óscar, já no próximo ano, um rapaz negro, transgénero, vegan, anão, adoptado por um casal lésbico asiático, sobrevivente de, sei lá, qualquer coisa que a Lady Gaga possa indignadamente gritar, perdão, interpretar, ao piano”. Leiam o resto…

 

Adoramos adivinhar o futuro. Adoramos previsões e profecias. Eis um olhar sobre o futuro, menos imaginativo e mais realista, melhor pensado…

 

Está na moda a expressão “nómada digital” - gente igual a toda a gente, cuja característica particular é, pela natureza do seu trabalho, seja a escrita ou a computação, a publicidade ou o design, poder não ter poiso fixo e fazer da sua vida uma viagem permanente, de computador às costas, e com uma ligação à internet. Mas isto é simplificar demais o que pode ter outra filosofia de vida. Sugiro, por isso, uma passagem por este site, assinado por uma francesa, mas onde colaboraram pessoas de muitos países (portugueses incluídos), que constitui uma porta de entrada para um livro, um blog, um roteiro, um guia. Um excelente trabalho, que de uma vez por todas nos põe por dentro desta nova forma de viver e trabalhar.

 

publicado às 10:15

30 anos de Cavaco Silva, um momento #6: Cavaco Silva, um caso muito interessante

Por: José Couto Nogueira

 

Considero o Aníbal Cavaco Silva um caso muito interessante.

 

Antes de cuspir no ecrã do computador, ou lançar uma praga bíblica à minha pessoa, queira ter a paciência de ler o que segue.

 

Quando voltei para Portugal, em 1992, depois de uma longa tournée pelo mundo e arredores, era Cavaco primeiro-ministro. Graças aos biliões de fundos que entravam diariamente no país, vivia-se num período de euforia e gastança nunca visto. Mal reconheci o país macambúzio e miserabilista que tinha deixado. Embora os biliões fossem prodigamente gastos em tudo menos no que seria prudente gastá-los, era difícil distinguir se a abundância consumista em que se vivia era uso supérfluo ou gestão generosa.

 

Cavaco e a turma que liderava distribuíam as verbas com prodigalidade – inclusive entre eles, mas isso também não se percebia – e toda a gente estava feliz em grandes almoçaradas, a construir toda a espécie de mamarrachos de que precisávamos ou não precisávamos, e a inventar maneiras de estofar os bolsos de notas.

 

A única voz gritante contra Cavaco era o “Independente” mas, como as críticas eram sobretudo para o facto de ele ser piroso e provinciano, considerei que se tratava de uma sobranceria de classe; os “meninos bem” sentiam-se incomodados com o poder e a arrogância de um zé ninguém chegado ao poder porque queria fazer a rodagem do carrito classe média baixa.

 

Quando Cavaco caiu, enredado num fait divers que só a sua teimosia podia ter provocado (o caso das portagens na ponte 25 de Abril, lembram-se?), já tinha perdido muito da aura de bom administrador e economista competente. Mas ninguém pensava voltar a vê-lo e, continuando a prodigalidade europeia nas mãos do beato Guterres, cheio de falinhas mansas, pouco interessava o que viesse a acontecer ao caprichoso e casmurro Cavaco.

 

Nunca tive dele uma grande impressão pessoal. Os discursos eram de uma falta de imaginação e inteligência totais. Pareciam leituras académicas de um curso de Contabilista Oficial. E, afinal de contas, um tipo que estuda em York, na Grã Bretanha, e nem sequer aprendeu a fingir algum sense of humor ou a usar casacos de tweed, só podia ser um engulho. A aparência salazarenta (aqueles fatinhos e gravatas...) e a postura empertigada, estilo vendedor fora de moda, mostravam uma cabecinha preconceituosa e conservadora.

 

Estou a ser superficial? Talvez. Mas não esqueçamos as palavras do grande filósofo social Óscar Wilde: “Só as pessoas extremamente superficiais não se preocupam com a aparência.” É que a aparência, sendo uma decisão voluntária do portador, mostra a maneira como ele se quer mostrar ao mundo. Ser baixo, ter acne juvenil ou maus dentes são desgraças que nascem connosco; agora, vestirmo-nos como um manequim de saldos da Rua dos Fanqueiros e trazer a tiracolo uma esposa desengonçada e “pouca coisa” já são decisões nossas, que nos podem ser cobradas.

 

Adiante. A volta gloriosa de Cavaco Silva como Presidente da República foi uma desagradável surpresa, a qual tive o senso de não votar. (Na primeira presidência optei por Manuel Alegre pois, embora o achasse um saco de vento, não pensava que fosse preciso mais do que isso para um cargo sem grandes poderes, e achava que ele ia ficar bem a declamar poemas bacocos do alto da varanda de Belém, com aquela voz tonitruante. Faria melhor figura junto dos congéneres estrangeiros, que era o que se esperava dum PR. Na segunda presidência, o meu desespero era tal que votei no Coelho da Madeira.)

Como agora sabemos, Cavaco revelou-se um presidente sem flexibilidade mental (o tal sense of humor sempre serve para alguma coisa, não é?), sem “ginga” para rodopiar entre os vários interesses e grupos de pressão que se aninham no poder. Pior, apoiou o seu ex-partido despudoradamente – é suposto que os presidentes o façam com decoro – e agarrou-se às suas ideias económicas como uma lapa, sem a mínima percepção do mal que tinha feito ao país e do que poderia fazer para o atenuar.

 

Pior ainda: verificou-se, sem que os tribunais o conseguissem provar, que os homens que governaram com Cavaco constituíam, na sua maioria, uma associação com actividades que a justiça considerou suspeitas em vários casos, e que lançou dúvidas sobre a gestão da coisa pública para lá do que o pudor permite dizer.

 

Teorias existem, e com indícios, que era ele o chefe dessa turma. São apenas indícios, não tão convincentes como os que agora afectam outros ex-senhores do país. Não são provas, como dizem os advogados. Mas é impossível que ele não soubesse o que se estava a passar. Ao filho dum dono de posto de gasolina no Algarve já seria difícil não perceber as negociatas, mas a um economista masterizado em York, e mesmo sem ter aprendido a escolher as gravatas, era impensável. Tanto que, ao que se vê, e entra pelos olhos adentro, beneficiou com operações nunca muito bem explicadas – e teve a arrogância de não sentir necessidade de as explicar, alegando uma "dupla honestidade" que, simples ou múltipla, todos somos obrigados a esclarecer.

 

Mas foi na segunda presidência que o homem que nunca se engana mostrou realmente como nos enganamos na escolha. Logo pelo discurso de aceitação, a primeira vez na História da Democracia Universal em que um vencedor não diz graciosamente que vai ser o pai de todos, amigos e inimigos, e esquecer as diferenças.

 

Creio que esse discurso foi o meu “momento Cavaco”, a altura em que caiu a ficha. 

Foi também quando percebi que, nos 42 anos desta República, 20 anos, metade, são “anos Cavaco”.

 

Qual Mário Soares, qual quê!

 

Soares pode ter manobrado eficientemente para termos uma democracia, pode ter representado durante muito tempo a bonomia e a boa disposição do espírito republicano; mas todos os anos somados, não chega ao tempo em campo do homem de Boliqueime. 

 

Nunca pensei que um Presidente desta amada República pudesse alguma vez ser comparado ao incomparável Américo de Deus, na trapalhice e na incompetência asinina. Nunca pensei que o cargo mais alto da nação pudesse ser tão rebaixado ao ponto de se estabelecerem comparações entre um presidente empurrado por uma ditadura por ser burro e inofensivo, e um presidente votado livremente pelos cidadãos.

 

Até ao fim – e o fim está à vista, mas ainda não chegou – Cavaco Silva manteve-se impávido por vinte anos de incompetência, em que nem os objectivos que traçou para si conseguiu atingir.

 

Não me digam que não é um caso interessante.

 

 

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

 

 

 

 

publicado às 22:22

30 anos de Cavaco Silva, um momento: seis jornalistas e as memórias de um presidente

Cavaco Silva está prestes a afastar-se da ribalta da política nacional - ao fim de mais de 30 anos em que ocupou os mais importantes cargos da nação, como primeiro-ministro e presidente da república (com uma pausa entre ambas essas funções, do final de 1995 a 2006). Sendo o político que, desde o 25 de abril, mais tempo definiu os destinos do país, são inevitáveis os balanços.

O SAPO24 propôs a seis jornalistas que escolhessem, desses mais de 30 anos, um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco SIlva. Aqui ficam os testemunhos pessoais de Pedro Rolo Duarte, Márcio Candoso, Diana Ralha, Francisco Sena Santos, Pedro Fonseca e José Couto Nogueira.

 

 #1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

 #2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

As imagens que ilustram os seis momentos escolhidos:

 

publicado às 18:36

30 anos de Cavaco Silva, um momento #5: Cavaco Silva em cinco actos

Por: Pedro Fonseca

 

Vivi mais de 30 anos com Cavaco Silva, pelo que escolher um momento desta convivência é difícil. Mas é possível traçar uma linha de vida, sabendo que ele nunca me desiludiu porque eu nunca me iludi com ele - e não falo apenas enquanto Presidente da República, mas também como Primeiro-Ministro. Eis o porquê em cinco simples actos.

 

I Acto - A caminhada

 

Cavaco Silva sempre quis passar a ideia de não ser político ou de ser um político diferente dos outros, apesar de ser militante do PPD desde a sua fundação.

 

Imagem de marca dessa ideia foi a famosa rodagem ao novo carro, directo à Figueira da Foz em Maio de 1985, onde decorria o VIII congresso do partido e no qual acabou eleito. "Não tinha qualquer intenção de ser eleito líder", disse mais tarde, obliterando o pormenor de antes já estar a ser treinado pela actriz Glória de Matos que, ao "Expresso", explicou como ele “tinha a queixada saliente, dentes desencontrados, língua pouco trabalhada”, o que gerava “um problema de dicção e de silabação, era péssimo nas consoantes, problemático nos erres”.

 

Desde que assumiu o governo a 6 de Novembro de 1985 até ao fim do terceiro mandato, a 28 de Outubro de 1995, Cavaco colocou-se alegadamente acima dos seus interesses pessoais e financeiros, não se coibindo de deixar misturar estes em benefício de terceiros, muitas vezes por omissão.

 

Foi o caso da enorme avalancha e trapalhada após a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, nomeadamente com o Fundo Social Europeu (FSE), destinado à formação.

 

Passou ainda pelos casos bancários do BPN (onde investiu e obteve um retorno significativo) ou do BES (sobre o qual falou publicamente e obteve um impacto negativo não assumido).

 

Sobre o caso BPN, chegou a dizer em Dezembro de 2010 que "para serem mais honestos do que eu, têm que nascer duas vezes".

 

Em resumo, ser mais honesto do que Cavaco, só nascendo duas vezes.

 

 

II Acto - Sozinho contra todos

 

Em termos de obra feita, Cavaco Silva foi responsável pela flexibilização das ofertas bancárias e pelo acesso mais facilitado ao crédito.

 

Foi reconhecido como plantador de alcatrão, tendo Portugal passado de 196 quilómetros de auto-estradas em 1986 para mais de 2.000 quilómetros em 2004.

 

 

Nesta, como noutras questões, agiu contra a opinião de muitos e teve razão. Dinamizou a construção da Ponte Vasco da Gama (quando peritos diziam que devia ser a terceira escolha), a organização da Expo'98 ou a construção do Centro Cultural de Belém (CCB). Neste caso, era preciso um local para receber no primeiro semestre de 1992 a primeira presidência portuguesa do Conselho das Comunidades Europeias.

 

O homem que em Janeiro de 1994 dizia apenas ler jornais durante cinco minutos de manhã e outros cinco à tarde (a web estava a emergir e Cavaco nunca foi conhecido por ser ciberincluído), abriu a comunicação social aos grupos privados. E percebeu como a manipular.

 

No Verão de 2009, entre artigos do Público e do Diário de Notícias, soube-se do caso das escutas a partir de Belém - atribuídas ao seu assessor Fernando Lima - ou de como "consultores de Belém" estavam a ajudar a campanha de Manuela Ferreira Leite contra José Sócrates. O caso levou Cavaco a afirmar existirem "vulnerabilidades" no sistema de telecomunicações da Presidência, num processo de análise técnica que envolveu uma entidade externa e cujos resultados nunca foram divulgados.

 

No 10 de Junho de 2014, ocorre o segundo desmaio de Cavaco Silva em cerimónias oficiais. Entre preocupações sobre a saúde e a prossecução do mandato pelo Presidente, um jornalista da TSF garante que terá sido usado um "inibidor de sinal" para os telemóveis ficarem inoperacionais. A SIC afirmou que "os seguranças da Presidência afastaram os repórteres de imagem, quando perceberam que Cavaco se sentiu mal, dificultando a recolha de imagens daqueles momentos de tensão". O Público sustentou que "os seguranças impediram qualquer aproximação e mandaram mesmo apagar as fotografias a alguns fotógrafos que estavam mais perto do local onde o Presidente foi assistido".

 

Em resumo, Cavaco pode ter ideias mas não as quer divulgadas quando podem ser contra ele.

 

 

III Acto - Qualidade política

 

A aspiração política após ter sido o responsável pelos X a XII governos de Portugal - sendo assim o primeiro-ministro com mais tempo na liderança do país no pós-25 de Abril - prosseguiu em 1996, quando foi derrotado por Jorge Sampaio nas eleições presidenciais. Voltou para ganhar o cargo em Janeiro de 2006 e ser re-eleito em Janeiro de 2011, perdendo cerca de meio milhão de votos e registando o pior resultado numa eleição presidencial desde o 25 de Abril.

 

Já a conspiração política ocorreu antes. Em 2000, escreve o artigo O monstro, onde criticou o orçamento de Estado do governo socialista. Em Novembro de 2004, quando Pedro Santana Lopes era primeiro-ministro, Cavaco escreve no "Expresso" sobre como a “má moeda” na classe política afasta a “boa moeda”. O artigo “Os políticos e a lei de Gresham” salientava ser “chegado o momento de difundir um grito de alarme sobre a tendência para a degradação da qualidade dos agentes políticos”.

 

Dois anos depois, defendeu "salários mais altos na política", por "forma a atrair os melhores profissionais para a governação do País" e voltou à carga na visão sobre os políticos nos discursos de tomada de posse, na Assembleia da República (AR).

 

No primeiro, a 9 de Março de 2006, lançou cinco desafios, entre os quais "o da credibilização do nosso sistema político, um domínio de crescente insatisfação dos cidadãos que importa não ignorar", porque "um Estado ao serviço de todos, como se exige em democracia, deve ser servido pelos melhores e, por isso, a escolha dos altos responsáveis não eleitos não pode senão nortear-se exclusivamente por critérios de mérito, onde as considerações político-partidárias não podem contar".

 

No segundo, a 9 de Março de 2011, afirmou a necessidade "de recentrar a nossa agenda de prioridades, colocando de novo as pessoas no fulcro das preocupações colectivas. Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático". Pensando "especialmente" nos jovens, apelou aos mesmos que "é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna".

 

Em Novembro de 2014 insistiu: "é importante lembrar alguns políticos que quando falam de certos assuntos devem estudar primeiro. Devem estudar o que diz a Constituição, o que dizem as leis, como é que as leis foram aprovadas e como é que esses assuntos são tratados nos países da Europa comunitária".

 

Em resumo, excepto no seu caso, há uma necessidade de renovação política.

 

 

IV Acto - Palavras e actos

 

É também no primeiro discurso na AR em 2006 que Cavaco afirma que "tentar preservar a competitividade à custa de salários baixos é uma estratégia sem futuro" - mensagem que repetiu em anos seguintes.

 

 

Mas a aposta na investigação e desenvolvimento (I&D) nunca obteve o seu apoio prático, embora tenha depois abraçado a causa da inovação (mérito de Diogo Vasconcelos, que Cavaco levou como assessor para o Palácio de Belém).

 

Em 1986, Cavaco Silva prometeu 1% do PIB alocado à I&D dali a dez anos. Em Maio de 1987, nas Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, estabeleceu "como metas da nossa acção, neste domínio, duplicar a comunidade científica até 1990 e permitir que as despesas em I&D atinjam então pelo menos 1% do PIB". Estava-se então com 0,2%, segundo o Pordata.

 

Entre 1991 e 1995, este investimento estabilizou-se nos 0,6% do PIB, com Cavaco Silva a anunciar em Novembro de 1993 que "Portugal atingirá no virar do século 1,5% do PIB".

 

Os governos de António Guterres elevam a despesa em I&D até aos 0,7% em 1999 e Durão Barroso chegou aos 0,9% mas os 1% de investimento em I&D só ocorrem entre 2009 e 2011, tendo depois decaído.

 

Em resumo, Cavaco Silva falhou nas suas metas para a inovação, apesar de as defender.

 

 

V Acto - Impoluto

 

Cavaco Silva quis sempre mostrar-se o não-político que geria as finanças de forma sóbria e honesta, as suas e as do país.

 

Sobre as finanças pessoais, afirmou em Janeiro de 2012 - em plena crise de cortes nas pensões - que ia receber um total de pensões que "quase de certeza não vai chegar para pagar as minhas despesas porque eu não recebo salário como PR". Não recebe porque não quis, sabendo-se que tomou a decisão por os cortes salariais na Função Pública terem impacto no valor a receber na Presidência.

 

Disse então: "Já sei quanto irei receber da [Caixa Geral de Aposentações (CGA)]. Eu descontei, quase 40 anos, uma percentagem do meu salário de professor universitário e também descontei alguns anos como investigador da Fundação Calouste Gulbenkian. Irei receber 1.300 euros por mês. Não sei se ouviu bem: 1.300 euros por mês. Quanto ao fundo de pensões do BdP, para onde descontei durante 30 anos, ainda não sei quanto irei receber. Tudo somado, quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas porque, como sabe, eu não recebo salário como PR". 

 

A afirmação foi escrutinada. E teve ainda maior impacto quando se soube, nesse ano, que recebia mais de 9.300 euros mensais de três pensões (funcionário do Banco de Portugal, pela CGA por ter sido professor e ainda pelo antigo cargo de primeiro-inmistro).

 

No final de 2012, nova polémica com a sua casa no Algarve. As Finanças de Albufeira recusaram ao diário "Público" o acesso a dados de avaliação da casa, invocando o dever de sigilo fiscal que, segundo explicaram ao jornal, "apenas cessa em caso de autorização do contribuinte", alegando que "o processo de avaliação integrava não apenas dados de natureza pública, mas também dados suceptíveis de revelar a situação tributária dos contribuintes, protegidos pelo dever de sigilo".

 

Isto quando a Autoridade Tributária já publicava online a lista dos devedores fiscais, sem qualquer autorização destes. Nunca se soube se existiu um tratamento preferencial.

 

Do lado do Palácio de Belém, Cavaco Silva também demonstrou uma falta de transparência atroz. Foi um dos presidentes "mais gastadores da Europa", como explicava o "Diário de Notícias" em 2011, quando tinha um orçamento anual de 16 milhões de euros e "um regimento de quase 500 pessoas".

 

A falta de transparência ocorreu igualmente ao nível das aquisições para o Palácio de Belém durante uma década. Ao pesquisar o portal Base sobre os contratos públicos, não existe um único da Presidência ali registado.

 

As aquisições foram sempre efectuadas "por ajuste directo e sem divulgação", num valor que o Tribunal de Contas acredita chegar aos 4,2 milhões de euros em 2014. "A Presidência promete passar a divulgar no final deste mês" essa informação, revelou o "Jornal de Negócios". Ou seja, quando Cavaco Silva apenas estará a poucas semanas de ser substituído no cargo.

 

Em resumo, Cavaco Silva é um homem diferente entre o que diz e o que faz. Mas não tenho dúvidas: ele vai sair da Presidência mas não da política. Porque ele nunca me desiludiu...

 

 

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 
 
publicado às 18:29

30 anos de Cavaco Silva, um momento #4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã

Por: Francisco Sena Santos

 

Esta história começa há 36 anos, e teve em 1994 o que afinal foi um falso fim. De facto, a saga chega até estes dias.

 

O momento em que os portugueses ouviram pela primeira vez Aníbal Cavaco Silva foi na noite de 9 de fevereiro de 1980. Nesse sábado em que o Futebol Clube do Porto de Pedroto, bicampeão nacional, recebia, com enchente total no estádio das Antas, o rival Benfica, a quem viria a ganhar (“o capitão Rodolfo foi decisivo”, exaltou José Neves de Sousa no "Diário de Lisboa"), aconteceu uma surpresa nos ecrãs da televisão, ao tempo a RTP única: antes do jogo, surgiu uma inédita comunicação ao país pelo ministro das Finanças e do Plano do governo de Sá Carneiro, há apenas 35 dias em funções. Foi a estreia de Cavaco Silva perante os portugueses.

Quem não tivesse andado por Economia mal lhe conhecia a cara e nunca lhe tinha ouvido a voz. A pose austera daquele homem de queixo saliente impressionou: sem um sorriso ou algum aceno de simpatia, de modo sisudo, Cavaco Silva anunciou as 15 medidas que acabava de decidir com intenção de recuperação da economia portuguesa em tempo de inflação disparada. Comunicou a revalorização do escudo português em 6% e, designadamente, medidas para contenção da despesa pública e dos salários. A dicção daquele homem que arranhava os erres foi medíocre, mas a figura, a pose, o olhar, os silêncios e o discurso deixaram perceber que estava ali uma personagem com ambição e ossatura política. Aquela presença forte, apesar de desajeitada, revelava alguém que aparecia para ficar no palco político português. Aliás, voltaria a aparecer logo três noites depois, então em formato de entrevista, conduzida por Francisco Sarsfield Cabral. Foi a confirmação de que estava ali um político que iludia a imagem de político, apresentando-se como professor, técnico.

 

As medidas anunciadas por Cavaco Silva naquela noite de 9 de fevereiro levaram aos resultados que pretendia: em menos de um ano a inflação portuguesa baixou mais de sete pontos percentuais, de 24% para 16,6%.

 

Esse governo da Aliança Democrática (AD), presidido por Francisco Sá Carneiro, seria breve, com o fim precipitado no final desse ano pela morte do primeiro-ministro na trágica queda da avioneta Cessna em Camarate. A sucessão na chefia do governo da AD foi assumida, depois de algumas discussões, por Francisco Pinto Balsemão. Mas, então, Cavaco Silva escusou-se a continuar como ministro. Não foi por preferir a universidade à política. Foi por discordar da condução política de Balsemão no PSD. Passou a preparar o tempo dele, intervindo perante as bases. É nesse tempo que Cavaco Silva escreve uma carta aos militantes em que denuncia “resignação nas cúpulas” do PSD ao mesmo tempo que desafia as bases ao proclamar que “a coragem não morreu”.

 

Assim, não foi com surpresa que no fim de semana de 18 e 19 de maio de 1985 Cavaco Silva saiu líder do PSD no congresso na Figueira da Foz – o tal onde foi “fazer a rodagem ao novo Citroen BX” -  onde a disputa prometida era entre Rui Machete e João Salgueiro, mas foi Cavaco quem ficou entronizado. Em 6 de outubro desse ano o PSD de Cavaco ganhou as eleições legislativas com 29,8% dos votos, frente aos 20,7% do PS de Almeida Santos e 17,9% do recém-criado PRD eanista. Este parlamento atomizado veio a ser dissolvido dois anos depois pelo presidente Mário Soares. Cavaco Silva passou à maioria absoluta com 50,2% nessas eleições de 87. Subiu para 50,6% em 1991. Era o tempo do boom económico e das farturas dos fundos europeus.

 

 

O terceiro governo de Cavaco Silva trouxe o declínio do político que pronunciou a célebre frasesita: “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. O semanário "Independente", dirigido por Paulo Portas, catalisou o desgaste.

 

O “buzinão”, culminado com o bloqueio de todo o trânsito na ponte 25 de Abril, a partir das 7 da manhã e até por volta das 6 da tarde de 24 de junho de 1994, pareceu, naquele tempo, simbolizar o fim político do líder que dizia não ser político profissional. Julgou-se que essa previsão saía confirmada com o voto dos portugueses que, em janeiro de 96, na eleição presidencial, escolheram Jorge Sampaio (53,9%), deixando Cavaco Silva vencido a quase oito pontos percentuais.

 

Pensou-se que era a retirada definitiva de Aníbal Cavaco Silva. Não foi. Dez anos depois, com crises políticas e financeiras no ar, muitos dos portugueses que tinham ficado zangados com as derivas no final da década de governos Cavaco Silva, acabaram por voltar atrás. Terão desejado um presidente que fosse uma espécie de professor ou ministro das Finanças, e contribuíram para a eleição de Cavaco Silva para mais uma década no topo do poder político em Portugal. Então, como Presidente da República. Esta década presidencial chega ao fim com nunca vista desaprovação da cidadania. Desta vez, parece mesmo ser o fim do mais longo ciclo de poder no Portugal democrático. Tudo começou naquele início de 1980, há 36 anos.

 

 

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

  

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

publicado às 18:28

30 anos de Cavaco Silva, um momento #3: A 'trisneta' do Cavaco

Por: Diana Ralha

 

Cavaco está entranhado no estranho apelido com que assino este texto. Um notável Ralha integrou, aos 66 anos de idade, o XI Governo Constitucional, ficando conhecido como “avô do Cavaquismo”. Isso, então, faz de mim… trisneta de Cavaco.

 

Não foi fácil ser neta do “avô do Cavaquismo”, até porque o meu avô, tutelando a pasta do Ensino Superior, também foi “avô” de uma das maiores polémicas no acesso ao ensino superior: a criação da Prova Geral de Acesso (pêgêá para os amigos).

 

Cavaco trespassa a minha infância e adolescência (o neto primogénito lixou-se com a pêgêá e eu fiquei conotada com a “geração rasca” do Vicente Jorge Silva, pelos jovens maganos que decidiram baixar as calças em São Bento, e mostrar os seus atributos traseiros às provas globais no ensino secundário) e, agora, na idade adulta e com as dores de crescimento, volta a aparecer-me: num inventário de uma herança, numa sentida nota de pesar e condolências do Estado Português pela morte do avô do Cavaquismo.

Estive escalada como jornalista do diário PÚBLICO na campanha das eleições presidenciais de 22 de Janeiro de 2006, que abriram a porta de Belém a Cavaco, e apresentaram um PS fracturado às eleições, com as candidaturas de Manuel Alegre e Mário Soares (onde é que já vimos isto?).

 

Garanti com orgulho e dedicação a segunda divisão da cobertura mediática desta campanha e, na grande noite eleitoral, relatei os miseráveis resultados obtidos pelo agora proscrito (mas eternamente genial) Garcia Pereira, que se ficou pelos 0,2 por cento, se não estou em erro.

 

Mas não é desse domingo que eu me lembro.

 

Sete dias depois de Cavaco ter sido eleito, nevou em Lisboa. Cinquenta anos depois do último relato, Lisboa cobriu-se de neve.

 

Não consigo reproduzir em palavras como o meu coração duplicou de tamanho quando o carro que ainda hoje conduzo, disparou um alarme pela quebra abrupta de temperatura e avisou, premonitório: “Perigo. Neve”. E depois começou a cair, branca e leve, como no poema, e cobriu tudo. Eu e a minha mãe aos pulos, abraçadas, meia hora de magia pura, a vê-la cair dos céus.

 

Para mim, Cavaco em Belém ficou sempre associado a neve em Lisboa numa manhã de Janeiro.

 

Não imagino que fenómeno climatérico extremo se segue, agora, dez anos depois, com a sua saída. 

 

Diana Ralha é consultora de comunicação, mãe de quatro filhos, autora do blog A Familia Numerosa (e ‘trisneta’ do Cavaquismo)

 

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

publicado às 18:27

30 anos de Cavaco Silva, um momento #1: As lições de uma ponte

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Falemos como no futebol: uma triangulação. Foi isso que se deu naquela hora de almoço de sexta-feira, 24 de Junho de 1994. Eu estava a almoçar com a minha (então) noiva, Cristina, e a dupla José Eduardo e Florbela Bem, responsáveis da empresa “Casa do Marquês”, a quem entregáramos a produção do nosso casamento, marcado para Setembro desse ano. Como se calcula, para mim aquilo era o mais relevante que podia existir naquele dia, e não havia nada que abalasse a discussão sobre a cor das toalhas das mesas e o menu que faria da cerimónia algo inesquecível.

 

Porém, ao mesmo tempo, havia uns tantos camionistas a bloquear a Ponte 25 de Abril, contestando um aumento de 50% nas portagens, e a tensão aumentava a cada minuto, com policia de intervenção presente e confrontos iminentes. Um visionário do jornalismo, chamado Carlos Cáceres Monteiro, teve a percepção de que aquele momento determinava e marcava o fim de Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro. Ele era director da Visão, revista com escassos anos de vida, e eu era seu editor-geral, espécie de numero dois (em conjunto com um editor-coordenador), e ambos perdíamos dias e dias, em reunião, a tentar fazer uma newsmagazine que Portugal nunca tinha tido.

 

Enquanto debatia tranches de salmão, queijos da serra e vinhos do Douro, o Cáceres telefonava-me desesperado (e sem sucesso…) - queria uma reunião de emergência para avançar para uma edição extra da revista (dado que a edição normal tinha sido publicada na véspera, quinta-feira) sobre o bloqueio da ponte.

 

Falhou a triangulação.

 

O assunto não me incomodou minimamente - com o meu faro politico semelhante ao de um anósmico, entendia que se tratava de um caso de polícia que rapidamente se resolveria. Não foi. Foi o “buzinão” que acabou com Cavaco Silva na governação, para bem de todos nós (ainda que lamentavelmente não tenha acabado com o politico Cavaco Silva, como agora verificamos…).

 

Nessa sexta-feira, à tarde, ainda argumentei que o caso não merecia uma edição especial - mas era evidente que merecia, e que o Cáceres tinha razão. Fizemo-la e eu lá estive, da capa à última página. Sempre a protestar, claro… 

 

Lição primeira: a vantagem de trabalhar com os mais velhos e experientes é aprender todos os dias, e ao mesmo tempo ganhar a humildade que só o tempo nos cola à existência. O Cáceres Monteiro faz falta ao jornalismo cata-vento dos tempos que correm.

 

Lição segunda: em democracia, não há Cavaco deste mundo, com a sua atitude arrogante e prepotente, que vença uma massa de trabalhadores revoltados e furiosos.

 

Lição final: nessa medida, Cavaco Silva foi útil. Com ele aprendemos tudo o que não se pode nem deve fazer em democracia. Espero que esta última lição seja clara para os presidentes que se seguem…

 

Triangulação terminada.

 

 

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

#2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

publicado às 18:25

30 anos de Cavaco Silva, um momento #2: Era uma vez o Cavaco

por: Márcio Alves Candoso 

 

Aqui fala um antigo jornalista, que nasceu para a profissão quando Cavaco Silva já era primeiro-ministro. E para que fique desde já claro, não se gaba desse facto ou rejubila com a pessoa em título. Cavaco é tudo o que de mau o 25 de Abril nos trouxe em termos políticos. Traz ao de cima, e ao palácio do povo, os defeitos típicos do português, como outrora Salazar, num outro contexto.

 

Urbano me confesso, amante da cultura, da vida boa e sem complexos. Do trabalho quando é de trabalho que se trata, da fruição da praça pública, até nos seus exageros, quando é isso que mais interessa. Rio-me. Cavaco não entende a piada.

Cavaco dá aos portugueses aquela sensação de sofrimento 'necessário' que tanto mal faz à nossa existência e realização pessoal e colectiva. Por outro lado, desculpa os videirinhos e os chicos-espertos, que se locupletam com o erário público, a troco de obra marrana e sem critério. E finalmente alcandora à mó-de-cima os brutos. Cavaco é 'bullying' para os nossos afectos.

 

O homem, como a todos os que temos memória dos nevoeiros e chuvas dos mais recentes 35 anos, passou por mim. Nunca votei nele, nem sozinho nem acompanhado. Onde aparecia, afastava-me o 'x' no boletim. Fala aqui, também, um social-democrata convicto, coisa que ele nunca foi na vida.

 

Não vou falar do Citroën, nem da Figueira da Foz. Nem das aulas com Glória de Matos para aprender a conjugar as sílabas e a soletrar as lábio-dentais, essa equação linguística que resiste a qualquer Excel. Nem tão pouco das más companhias, das privatizações macacas, do bolo-rei e das cagarras.

 

A primeira vez que vi Cavaco Silva ao vivo ia eu a subir a Avenida de Roma e ele descia-a. Em carro aberto, ele mais sua Maria, agradecia os aplausos da multidão de classe média, que abanava bandeiras na rua e nas janelas, muitas delas do CDS que ele ajudou a matar. Pagaram caro as 'tias' e os tonsurados com a visão do homem 'providencial'.

 

Lembro-me que andava às compras de umas botas ou sapatos. A multidão quase me engolia, naqueles idos de 87. Por sorte, passou de carro, pelo lado livre da avenida, o meu ex-comandante de pelotão da tropa. Como bom camarada e comandante militar, disse-me: 'Anda, dou-te boleia, ainda és engolido por isto'. E lá me escapei da laranjada perfumada a incenso e birras. 

 

É o mesmo homem que, passados uns anos, na campanha presidencial que o opôs a Sampaio, se meteu no carro à pressa em Espinho – a minha terra – sem cumprir a agenda que o devia levar ao bairro piscatório, por razões de 'segurança', disseram-me. Teve medo, claro, de que uma peixeira lhe assestasse com um chicharro no frontespício. Para um político é inglório.

 

Três dias depois, Jorge Sampaio cumpria a pé o quilómetro e meio que está de permeio entre o largo da câmara e o bairro, não sem que antes o mandatário distrital do futuro presidente rosnasse umas palavras de reprovação, pegasse ao volante do seu SAAB 900 e rumasse, de carro, ao mesmo lugar que o candidato. Chamava-se Carlos Candal, e era mais ás da caneta do que andarilho. Adiante.

 

Sofri, como qualquer jornalista, os anos de chumbo impostos por um homem que não prezava – e não preza – a liberdade. Encontrei Cavaco já estava eu em Lisboa, de microfone em punho, a ouvi-lo já não me lembro a que propósito, ia sua excelência a entrar no mal amanhado de madeiras e alumínios Centro Cultural de Belém. O segurança empurrou-me. Bateu-me no microfone dos 'erres'. Era um armário bem maior que este homem maneirinho.

 

Desequilibrado mas ainda armado de microfone, retirei os olhos do protagonista e fixei-me no bacamarte. Tanto ou tão pouco, que o próprio Cavaco teve de intervir, com aquele sorriso esquálido que sempre o acompanha, dizendo-me 'mas vamos entrando, que lá dentro falo consigo'. Não falou nada, e o segurança desviou os olhos. Confesso que sempre fui maior de alma que de braços e punhos, mas estive quase a pegar-me com o armário. O gajo riu do meu corajoso topete.

 

Passado uns tempos, chegou Guterres. Para os jornalistas, foi como se de repente passasse a chuva e chegasse o sol. Desanuviou a relação com os media, e bem me lembro de ter a mim próprio imposto cuidado, para não começar a gostar demasiado do nosso novo Primeiro. Porque primeiro está a isenção informativa.

 

Um dia, dou de caras com o tal segurança. Bom profissional, tinha passado de Cavaco para Guterres. Mas já não estava ao lado do chefe do Governo. Estava nas escadas do CCB, sentado, cabisbaixo, a fumar um cigarro. Quase tive pena dele.

 

Enfrentei-o. 'Então, já não tem nada que fazer? Lembra-se de mim?' Ele aquiesceu com um gesto afirmativo e um sorriso. Não se mexeu da posição de sentado. Mas foi dizendo: 'Este não quer que andemos ao pé dele'. Não sei se suspirou de alívio ou de piedade por si próprio.

 

Isto foi logo depois do dia 10 de Junho de 1995, quando Cavaco foi entrevistado na Rádio Renascença, com a qual andava de candeias às avessas, ao tempo. A culpa primordial não era minha, que não tinha estatuto para tanto. Mas lá que ajudei à festa, ajudei, tendo como principais comentadores de economia – o meu pelouro na RR – Alfredo de Sousa e João Salgueiro, que não se ensaiavam nada de lhe dar porrada política com critério...

 

Foi nesse dia que o José Luís Ramos Pinheiro, então director da estação, se saiu com a pergunta que cito quase de cor – porque eu estava lá, no estúdio. 'Neste dia de Camões, de Portugal e das Comunidades, o senhor primeiro-ministro ainda se lembra de quantos cantos têm 'Os Lusíadas''?

 

Cavaco Silva mudou de cor, coçou-se um pouco na cadeira e atirou as 'culpas' da sua falta de ensino para a senhora que lhe faz companhia: 'Sabe, lá em casa essas coisas de português é com a minha mulher', respondeu. Mas não sabia.

 

Foi este o homem que representou Portugal.

 

  

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

publicado às 18:25

Quem fica na História?

Por: Pedro Rolo Duarte

A semana foi tão marcada pela figura e pela obra de David Bowie que é difícil escapar-lhe. Já tudo foi dito, as canções recordadas, as múltiplas imagens do camaleão devidamente assinaladas. Há primeiras páginas de jornais notáveis, como a do francês Liberation e do britânico The Guardian; há textos que nos enchem o coração, como os de Miguel Esteves Cardoso no Público (online e em papel).

 

Há memórias que nos remetem para o tempo que cada um tem de Bowie. Ele começou a sua carreira no ano em que nasci - por isso o meu tempo de Bowie é mais de Absolute Beginners ou de Let’s Dance do que Space Oddity. Mas todos nós - um pouco como o Tintin, dos 7 aos 77 anos - temos qualquer memória, qualquer marca daquele homem.

 

E esse é o sonho de um artista, de um criador: deixar uma marca que fique para lá dele próprio, que seja perene e que tenha espaço na História que o futuro fizer sobre este presente. Bowie tem esse espaço assegurado e garantido.

 

Durante muitos séculos, foi também esse um desígnio, mesmo que não assumido ou deliberado, dos governantes. Olhar para a História - não é preciso sair da Europa… - é encontrar um generoso conjunto de grandes figuras cuja presença na política de cada país justifica os nomes de ruas, praças, as estátuas, e cuja marca indelével garante o lugar na galeria de que é feita a nossa História. Porque inovaram, porque souberam dar um passo em frente ou reconhecer um erro, porque ousaram, porque nos trouxeram ideias, regimes, anteciparam futuros.

 

Penso muito nessa vasta galeria quando olho o momento que vivemos. Tanto penso em Churchill quanto em Vasco da Gama, em Humberto Delgado como em Miterrand, em Helmut Kohl como em Kennedy, em Martin Luther King como em Lech Walesa. E pergunto-me: a História falará de Cavaco Silva? De Durão Barroso? De António Costa? De Santana Lopes? De Pedro Passos Coelho?

 

Tudo bem, deixemos Portugal de fora. Imaginam referências relevantes a Hollande ou à Sra. Merkel? Acham que as ideias de David Cameron serão estudadas daqui a cem anos? Imaginam Alexis Tsipras a servir de exemplo para uma qualquer teoria? Jean-Claude Juncker existirá nos compêndios?

 

Vivemos o tempo da governação sem ideias. Um tapa-buracos que abre novos buracos, reformas que anulam e substituem reformas, mudanças que pouco ou nada mudam. Sou sincero: nas últimas dezenas de anos, a única área que vi tornar-se eficaz, assertiva e útil (para saciar a fome do Estado, claro), foi mesmo a dos Impostos. Tudo o resto navegou entre o mais do mesmo ou o remendo que abre outra brecha ao lado. Não imaginava, quando estudei os grandes líderes que fizeram a História do Mundo, viver num tempo de burocratas e gestores, sem políticos e sem ideias.

 

Talvez por isso me tenha virado mais para os lados da cultura, da criação - onde, apesar de tudo, continua a haver quem nos surpreenda, comova, deixe a pensar. E por aí volto ao começo: David Bowie foi e vai ser a figura destes dias não apenas porque a sua popularidade seja um argumento de venda - mas porque ele nos diz respeito e mexe connosco. Acrescentou algo ao que já existia. E só assim a vida faz sentido.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA…

 

Já aqui falei do Newseum, um museu real sobre jornais e comunicação social, em Washington, mas cujo site é quase tão rico quanto o espaço fisico nos EUA. Agora, e por causa das extraordinárias primeiras páginas que se fizeram, pelo mundo fora, inspiradas na figura de David Bowie, vale a pena recomendar esta secção especifica do Museu, onde diariamente se actualizam perto de mil capas de jornais de todo o Mundo. A descobrir…

  

Quer estar a par do que é novo? Negócios, ideias, plataformas, apps? Há uma revista que discretamente apareceu no mercado há dois meses, a Start UP, mas cujo conteúdo e edição são bem melhores do que a timidez com que chegou às bancas. Tem edição online, e os dois primeiros números constituem uma promessa de futuro. Assim os seus editores saibam fazer da expressão Start UP algo mais do que uma inspiração…

  

O que começou por ser um blog feminista dinamizado por duas figuras populares da nossa televisão - Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues - tornou-se, um ano depois, uma associação sem fins lucrativos e uma plataforma feminista aberta a todos. Deixou de se chamar Maria Capaz, agora é abrangente: Capazes. Dizem elas: “O contributo português para esta causa global – o feminismo – afirmando a mulher portuguesa no mundo, dando-lhe poder, incentivando o debate , a reflexão e a discussão e ao mesmo tempo inaugurando uma enorme e luminosa sala de exposições do talento com o holofote apontado para as mulheres. Capazes de tudo. Capazes de muito mais”.

Vale a pena visitá-las.

 

 

publicado às 09:58

Ironias...

Nos seus momentos de solidão, o Presidente Cavaco Silva deve seguramente perguntar-se muitas vezes “que mal fiz eu para merecer isto?”…

 

Havia um generoso numero de respostas certeiras a dar a esta pergunta, mas não vale a pena bater mais em quem já bateu no fundo. Deixemo-lo em paz.

 

Talvez apenas notar a ironia dos tempos: o homem que sempre quis fazer tudo com rigor e precisão, e que certamente terá sonhado com um final de carreira luminoso, magnânimo, sólido - sai afinal de cena, no fim do seu segundo mandato, pela porta dos fundos, a medo, engolindo sapos, mostrando em definitivo que nunca foi “Presidente de todos os portugueses”, e sem sequer conseguir juntar a admiração dos seus pares. Sócrates ainda arrebanha 500 num almoço que assinala um ano… de prisão! Cavaco nem livre consegue chegar-lhe aos calcanhares.

 

A ironia não podia ser maior: o derradeiro acto público de Cavaco Silva vai ser dar posse a um Governo caucionado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, com o PS na frente. Como se houvesse alguém lá em cima a mexer os cordelinhos e, numa risadinha diabólica, exclamasse: “agora toma, que é para não voltares a dizer que raramente te enganas e nunca tens dúvidas”… E pelo caminho ainda tem que assistir, na TV, a homenagens a um ex-primeiro-ministro sobre quem paira uma nuvem demasiado pesada, mas não o suficiente para o afastar da ribalta.

 

O Presidente enganou-se, e viveu na dúvida, dias demais. Não que a solução encontrada seja perfeita, ou duradoura - não estou a ver a base eleitoral do PCP brincar com o serviço quando António Costa fizer o que Bruxelas obriga a fazer -, mas a atitude que Cavaco tomou desde o dia das eleições (ou mesmo os avisos que lançou antes delas…) até à última terça-feira, a tal “birra dos 50 dias”, mostrou-nos de que massa é feito aquele homem e como é possível, em democracia, eleger figuras que se revelam bem diferentes dos exemplos que o regime inspira e convoca.

 

Aqui chegado, Cavaco dirá sempre que fez o que tinha a fazer (depois de todas as tentativas para fazer o que não devia). E vai sentir um alivio de consciência no lugar do peso que efectivamente devia ter. Não é bonito de se ver.

 

Não é um final feliz para este Presidente. Não sei se é um bom começo para António Costa. É seguramente um momento infeliz do PCP e do Bloco de Esquerda.

 

Mas acaba por ser uma lição para todos nós: agora sabemos, e é válido por fim para todos os partidos, que na política não há possíveis nem impossíveis. Há apenas a voragem da ambição - e ela não tem limites. Felizmente, em democracia, a lei trava essa voragem e limita a ambição. Do mal, o menos.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA…

 

A revista francesa Elle estava a preparar a edição que assinala o seu 70º aniversário. Parou tudo, deixou a edição para mais tarde, e produziu uma revista de 64 páginas, sem uma única página de publicidade, dedicada às vitimas dos atentados de Paris e aos seus familiares. É na mesma uma revista feminina - mas mostrou o seu lado mais profundamente humano. O jornalismo será sempre uma profissão maior enquanto houver gente que saiba parar no momento certo e pensar: o que é que estamos aqui a fazer?

 

Ainda na ressaca dos atentados de Paris e das ameaças em Bruxelas, esta matéria da revista britânica The Economist é talvez a mais exemplar análise jornalística do fenómeno do terrorismo. Porque consegue a fina mistura dos factos com as ideias que eles inspiram. A não perder.

 

Estreia hoje o “novo” “Leão da Estrela”, agora sob o olhar de Leonel Vieira. A critica já disse mal, como lhe competia. Eu, que sou apenas um espectador, posso dizer que vi o filme e me ri a bom rir. E não sou de riso fácil. Não é um “remake”, é uma excelente homenagem com uma história muito bem reinventada. O Tiago R. Santos também faz parte dos que merecem os parabéns, depois de Leonel Vieira e de um naipe de actores de que é difícil destacar alguém. Todos estão bem. Vá: Miguel Guilherme é genial e Sara Matos é a actriz que vai marcar as próximas décadas no nosso mundo do espectáculo.

 

 

publicado às 11:10

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