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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Se tuítar, não beba (entre outras coisas)

Por: Pedro Fonseca

 

Um grupo de investigadores norte-americanos estabeleceu uma relação entre o consumo de álcool e o envio de mensagens no Twitter. Em resumo, é conveniente não beber quando se acede a esta rede social (e outras), ou poderá ser-se registado numa nova técnica de análise em tempo real do comportamento humano.

 

 

 

Ao contrário dos grupos de ajuda, que apenas sabem dos problemas quando os alcoólicos se lhes dirigem, ou dos inquéritos porta-a-porta (demorados e com atraso na análise das respostas), o uso do Twitter permite inferir dados a partir da própria habitação do utilizador - o que "antes era impraticável", dizem os investigadores da universidade norte-americana de Rochester responsáveis peloestudo "Inferring Fine-grained Details on User Activities and Home Location from Social Media: Detecting Drinking-While-Tweeting Patterns in Communities".

 

Os seis investigadores usaram técnicas de aprendizagem por máquina ("machine learning") para detectar a emissão em tempo real de mensagens no Twitter e analisaram a correlação com o consumo de bebidas alcoólicas numa cidade (Nova Iorque) e numa localidade rural (Monroe County), mais a norte mas ainda no estado de Nova Iorque. Os dados de medição utilizados pertencem a uma nova categoria - a das mobimétricas - e deixam antever todo um novo mundo de análise de comportamentos mediante dados de mobilidade e localização que os nossos smartphones disponibilizam.

 

Ao contrário de outros estudos sobre actividades nas redes sociais e dados de geolocalização, os autores usaram novos métodos de "machine learning" para refinarem "a localização de actividades e dos lares", a partir de dados do Twitter. Descobriram assim padrões de consumo de álcool entre uma grande e uma pequena localidade, baseando-se nos utilizadores do Twitter e na "densidade" das lojas de venda ou locais de consumo de bebidas alcoólicas, com uma fiabilidade de até 80%.

 

A análise, que juntou elementos dos departamentos de ciências da computação e da medicina, deu diferentes pesos negativos ou positivos a denominadores nas conversas no Twitter, como "bêbado" ou "cerveja", "vinho" ou "ressaca". Esses termos eram igualmente confrontados com cerca de 50 expressões ligadas ao lar, como "sofá" ou "TV", "banho" ou "sono". Em resultado desta investigação, foi possível  perceber que em Nova Iorque os utilizadores do Twitter usam a rede social em casa ou numa distância até 100 metros, enquanto em Monroe County isso ocorria a mais de um quilómetro. "A capacidade de detectar casas e localizações onde os [consumidores de álcool] tuítam permite-nos comparar o consumo em casa e fora", dizem. E perceberam que numa grande cidade - proporcionalmente com mais lojas de venda de bebidas alcoólicas ou bares -, elas são mais consumidas, até porque nesse tipo de ambiente, com "mais pessoas a socializarem, é provável existir uma maior taxa de consumo de bebidas".

 

Esta equipa de investigação considera que a análise do Twitter para "estudos geo-espaciais do comportamento humano", no consumo de álcool, exercício físico, doenças ou mesmo depressão "não tenta distinguir meras menções de actividades ou estados de registos de actividades" feitos pelos próprios utilizadores, embora os métodos usados possam ser replicados para outro tipo de comportamentos, ou "contextos virtuais sociais", nomeadamente na investigação de dados da saúde pública - até pela divulgação pública dos utilizadores do Twitter sobre os seus consumos de álcool ou de drogas, por exemplo.

 

Apesar de os utilizadores do Twitter fornecerem dados refinados e ubíquos, eles não servem como uma "amostra representativa da população geral", porque normalmente esta rede social não é muito usada por jovens ou por algumas minorias, salienta o estudo. No entanto, até estes desvios analíticos - que sucedem em qualquer análise estatística - podem ser comparados (e corrigidos), tendo em consideração a recolha de dados muito mais exigentes, como os censos, em que a margem de erro é semelhante, afirmam.

 

Em paralelo, este tipo de estudo pode ser replicado para outras redes sociais, como o Facebook, dado que a metodologia em pouco difere, desde que se obtenha acesso aos dados dos utilizadores, eles sejam agregados e daí extraídos potenciais resultados. Foi o que sucedeu na China.

 

A Google da China consegue prever empregos e consumo

 

A agregação de uma enorme quantidade de dados em "contextos virtuais sociais" ou pela geolocalização permite análises não apenas do que aconteceu, mas também do que pode vir a acontecer. O maior motor de busca chinês usou-os de forma inovadora para prever as actividades de consumo e de empregos - exemplificando o que outras empresas como o Facebook, a Google ou operadoras telefónicas podem fazer com os dados móveis dos utilizadores.

 

A Baidu, também conhecida como o Google da China, registou diferentes locais em todo o país, de escritórios a centros comerciais, usando a sua aplicação Baidu Maps, para depois usar a geolocalização fornecida pelos registos dos seus milhões de clientes. Conseguiu assim verificar onde estavam os utilizadores, quantos e em que momento, desde o final de 2014 até este ano.

 

Os dados recolhidos representam uma fotografia da sociedade chinesa e uma excelente notícia para os investigadores da área de análise de grandes dados (Big Data), sintetizava a revista New Scientist. Para Yves-Alexandre de Montjoye, do Data Science Institute no Imperial College de Londres, trata-se de uma "tendência encorajadora ver que [os investigadores chineses] estão a ser abertos sobre a investigação que realizam", mas questiona o "poder" das grandes (e em reduzido número) empresas com acesso a este tipo de dados.

 

Os investigadores chineses introduzem no estudo "Measuring Economic Activities of China with Mobile Big Datao novo conceito de "mobimétrica" ("mobimetrics", contração de "mobile" e de "metrics"), que visa "quantificar as dinâmicas de um sistema social ao analisar enormes dados individuais de mobilidade gerados pelos smartphones" ou outros dispositivos móveis, incluindo carros autónomos, com aproximações de "machine learning", o que pode "mudar a paisagem" da economia e das ciências sociais.

 

A questão não é se certo tipo de métricas seriam ou não obtidas, mas a rapidez com que são conseguidas através da movimentação dos utilizadores dos smartphones. Por exemplo, os investigadores puderam registar o encerramento de uma grande fábrica de calçado em Dongguan, no sudeste da China, no primeiro trimestre deste ano, após verificarem uma "queda abrupta no número de funcionários". O mesmo sucedeu noutro exemplo com uma fábrica de telemóveis na província de Jiangsu, encerrada no final de 2015.

 

No entanto, os dados também mostram crescimento de empregos num parque de software em Pequim, com "muitas empresas de software", que quase duplicou desde 2014. Também na capital chinesa, analisa-se o "rápido crescimento" de funcionários numa "start-up", que disparou após ter recebido um elevado investimento no segundo trimestre de 2015.

 

Os registos de "milhares de milhão de dados de geoposicionamento" possibilitaram ainda à Baidu a criação de três índices - de emprego, de consumo e de tendências de consumo. No primeiro caso, conseguiram detectar como as posições em fábricas tradicionais diminuíram, ao contrário do que sucedeu nos empregos tecnológicos.

 

No consumo, anteciparam "volumes de tráfego" de consumidores para as lojas da Apple ou de fraude e receitas nos cinemas, com "resultados satisfatórios", o que facilitou a criação do último índice para as tendências de consumo. Este antecipa despesas em várias indústrias, como vendas de carros, restaurantes, investimentos financeiros ou no turismo, dizem os investigadores.

 

Ao serem "os primeiros a medir a segunda maior economia [do mundo] pela mineração de dados numa escala sem precedentes", salientam que - apesar de não existirem "estatísticas paralelas nos relatórios governamentais" - não querem "substituir as estatísticas tradicionais baseadas em inquéritos, mas complementar esses indicadores". Até porque, salientam, os dados móveis são menos usados por crianças ou idosos, desvirtuando a fiabilidade da análise estatística.

 

O que deixam a perceber é que "a Internet móvel, especialmente os serviços de localização, são ubíquos nos nossos dias: de cada vez que abrimos uma aplicação, procuramos um restaurante, verificamos a estrada e o tráfego, alugamos um carro usando uma aplicação, usamos o mapa de navegação móvel, a localização do utilizador é registada através de várias tecnologias de posicionamento, gerando maciços dados de rastreamento" derivados dessa mobilidade.

 

É este uso da "mobimétrica", das técnicas de analítica para Big Data e da "machine learning" que agilizam a correlação entre o consumo de álcool e o envio de tuítes, por exemplo. Os "dados móveis têm uma maior cobertura, mais estruturada e robusta", o que permite "medir os comportamentos ao nível individual numa forma mais directa". Ou seja, o futuro interligado dessas tecnologias ainda agora começou.

publicado às 11:24

Um “ai o Carrillo” nas chinesices de Inverno

Por: Miguel Morgado

 

Entre referências a cabras, perus e galinhas chegou ao fim a longa novela peruana com Carrillo como personagem principal. Trocou o Sporting pelo Benfica. O presidente dos leões desvalorizou a perda do ativo e disparou nas redes sociais. Entretanto, a janela do mercado de inverno fechou na Europa mas a porta continua aberta, até ao final do mês, na China. Que entra no Ano do Macaco a gastar milhões. Por cá, há import-export com esse país grande que começa a gastar à sua dimensão. Na Liga e nos clubes. De lá vieram patrocínios. E para lá foi um “avioncito” e veio um “Pirata”. Antes, Jorge Mendes já tinha entrado em cena ao lado do Cirque du Soleil.  

Por razões profissionais, assisti à vinda de André Carrillo para o Sporting. Na altura questionei-me sobre a razão de, além do empresário (Elio Casaretto), acompanharem o jovem internacional peruano mais três figuras que se intitularam de diretor para o futebol, de marketing e ainda um cujo pelouro não ficou na memória. Hoje sei o porquê dessa, então, forte ligação de todos ao jogador que saiu do Allianza Lima para Portugal. A expectativa era que valesse ouro. E comissões. E valeu mesmo. Mas só para alguns. De fora destas contas ficou o clube que o trouxe.   

 

Janeiro é o mês conhecido como a “janela de Inverno” no mercado de transferências do futebol europeu. E é também um mês em que jogadores em fim de contrato podem assinar, livremente, por outro clube. Ora foi o que sucedeu com André Carrilo, internacional peruano de 24 anos que ainda veste as cores do Sporting Clube de Portugal mas que na próxima época muda-se para o eterno rival, Sport Lisboa e Benfica.

 

A mudança foi o ponto final numa novela que se arrastava, pelo menos, desde a temporada passada. Falamos da renovação do contrato de Carrillo com os leões. Pelo meio ouvia-se falar de meia Europa atenta e do piscar de olhos de Benfica e Porto a este diamante.

 

No longo duelo de vontades entre o presidente Bruno de Carvalho e o agente do jogador, Elio Casaretto, o jogador foi “encostado”, após uns pontapés na bola durante quatro jogos e mesmo depois de Jorge Jesus ter dito que este “daria milhões” ao clube. Como se viu, não deu e, por agora, os leões perderam financeiramente, já que nada retiram deste ativo (o Sporting pondera exigir em tribunal uma compensação financeira). Mas ao invés, deu - e muito - a ganhar ao agente e ao jogador, que além do prémio de assinatura receberá um ordenado muito superior ao que auferia pelas bandas de Alvalade. E poderá dar ao novo clube, caso o jogador dê o salto para outros palcos de cofres recheados.

 

Desportivamente, o Sporting sai, por enquanto, ileso. É líder, ex aequo com o Benfica. Mas aqui, meus senhores, é no final que as contas são feitas. E Carrillo, de águia ao peito, até pode receber as faixas de campeão pela equipa... liderada por JJ, o tal que saiu em sentido inverso. Ou então, se o Benfica conquistar o "tri", o peruano poderá dar no Seixal mais um passo na sua afirmação, podendo, no futuro, dar o retorno desportivo e financeiro de que dele se espera.

 

O fungagá da bicharada nas redes sociais

 

Com o peculiar estilo que carateriza o presidente do Sporting, a saída sem compensação de Carrillo não poderia passar sem polémica. E uma boa “peixeirada” das antigas. Ainda para mais para a equipa que viu arquivado o processo dos vouchers. Nas redes sociais (where else), numa mini-entrevista feita a si próprio, Bruno de Carvalho, escreveu dirigindo-se a Casaretto: «Permita-me, caro agente sem jogadores, um conselho: volte lá para o seu rebanho de cabras que no final do processo eu, como sempre fiz em todos os assuntos, explicarei a todos e de forma detalhada toda esta novela peruana.». Ou seja, BdC, “mandou” o empresário pastar cabras, deixando antever que será, nesta história, o último a rir. Mas faltou-lhe por agora, e não no futuro, fazer uma pergunta e dar a respetiva resposta. Explicar porque é que, com quase três anos de mandato e muitas renovações feitas, esta lhe escapou. Um próximo capítulo a seguir no Facebook.

 

Mas a bicharada virtual não se reduziu a cabras. A fábula do Bruno meteu ainda perus e galinhas numa resposta ao presidente Sindicato dos Jogadores Profissionais do Peru. Resumindo, o presidente dos leões (Rei da Selva) rugiu bem alto um “ai o Carrillo” em todas as direções. O jogador ainda hoje “jogaria na rua” se não fosse o clube que o projetou, o empresário não ganharia um “tostão” sem essa promoção e, em resposta a uma provocação de Casaretto sobre onde estaria BdC se não fosse o Sporting, retorquiu dizendo que o clube a que preside “estaria falido”. E à tal saída a custo zero, entre prémios de assinatura e comissões, diz que se devem acrescentar um número e muitas casas decimais.  

 

Com a Europa de janela fechada, a China assalta o mercado com milhões

 

O mercado de Inverno da bola europeia fechou sem grandes movimentações internas. Mas fora do espaço europeu, mexeu. E muito. A China é grande, quer ser grande e começa a gastar à sua dimensão no futebol. Neste mercado de inverno europeu, seis das cinco contratações mais caras envolveram clubes chineses: Alex Teixeira (50 M€), Jackson Martinez (42M€), Ramires (28 M€), Elkerson (18,5M€) e Gervinho (18M€). Estes e mais outros, tudo somado, até à data, ultrapassam os 300 milhões de euros. O mercado só fecha no final do mês. Um mês em que se inicia o novo ano. O Ano do Macaco que, dizem, será propenso ao risco e às mudanças. E gastos.

 

No que toca a Portugal, o Sporting reclama para si um negócio da China. Freddy Montero, “el avioncito”, saiu a troco de 5 milhões de euros para o Tianjin Teda e em sentido inverso veio Hérman Barcos, “el Pirata”. Dias antes, a Liga de Clubes tinha assinado um contrato de patrocínio com a gigante da tecnologia Ledman. Meio milhão de euros por época e outros “bónus” e a Ledman LigaPro arranca no próximo ano, já sem a cláusula de “obrigatoriedade” de inscrição de jogadores chineses nas primeiras 10 equipas na tabela classificativa.

 

 

Para a China, o rectângulo verde onde se joga futebol não se resume ao palco de uma atividade desportiva. É antes de mais o tabuleiro onde se jogará a mais pura das politicas de afirmação de poder e soberania no quadro da geopolítica. “O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo”. A frase é de Xi Jinping, o homem forte da China.

 

Sempre atento, Jorge Mendes já tinha avisado do poderio desta nova superpotência. E não perdeu tempo. Enquanto Sporting e Benfica abrem escolas de formação naquele país - a China pretende abrir durante a próxima década 50 mil escolas de futebol -, o melhor empresário do mundo estabeleceu uma parceria com Guo Guangchang, líder da Fosun, donos do Cirque du Soleil visando trabalhar no desenvolvimento desportivo e comercial do futebol chinês. Para já, já, é dele uma das maiores transferência do ano 2016: Jackson Martinez. O tal que estava sentado no banco de suplentes do Atlético de Madrid. Parece piada de carnaval, mas não é. É que o futebol, apesar de quase possuir um ''mundo próprio'' e de muitas vezes viver imune e à margem de crises, na China, dia a após dia, ganha novos contornos. É só aproveitar.

publicado às 16:39

Vamos fazer outro filho? O Estado consente?

Por: Francisco Sena Santos

 

É de crer que muitos casais chineses tenham passado a noite de quinta-feira a fazer amor sem restrições, a celebrar o fim da imposição de filho único, política que vigorava na China há 35 anos. Na manhã de sexta-feira apareceu quem saudasse a evolução decidida pelos donos do poder em Pequim. Convém, no entanto, que ninguém se deixe enganar pela natureza da cedência do regime: a infame política do filho único chegou ao fim, mas o Estado chinês continua a invadir a intimidade dos casais e a impedir que cada família tenha os filhos que queira. Agora, passam a ser permitidos até dois filhos por cada casal. É uma violação por parte do Estado da liberdade individual e doméstica.

 

A política do filho único (“o pequeno imperador”) foi instalada por Deng Xiao Ping, em 1979, o tempo da grande descolagem da economia chinesa. Foi justificada com a intenção de “garantir que os frutos do crescimento económico” não fossem “devorados pelo crescimento populacional”. É um facto que a bomba demográfica estava instalada: em 27 anos, de 1949 a 1976, a população da República Popular da China passou de 540 milhões para 940 milhões.

 

A China saía então, no final da década de 70, dos anos de fome e grande pobreza coletiva dos tempos revolucionários de Mao, o timoneiro que incentivou políticas de fértil natalidade porque via nas “imensas massas populares” a principal força do país frente ao capitalismo ocidental. O sucessor, Deng, mudou tudo e deu prioridade ao “glorioso crescimento da economia”. A economia chinesa, de facto, disparou, galopante, mas à custa de direitos fundamentais das pessoas.

 

Um dos absurdos na reforma Deng é a política de planeamento familiar, com imposição do filho único, forçada por sanções financeiras, laborais e sociais para quem ousasse exceder-se a procriar.  

 

Esta opção política tem imensas e dramáticas consequências humanas. Levou, por exemplo, à realidade atual e das últimas três décadas de um número incontável de crianças “invisíveis”. São crianças que por serem supranumerárias nunca puderam ser registadas, não podem ter documentos, nunca puderam ir à escola. Vivem uma vida kafkiana na margem da sociedade. São crianças nascidas de casais que já tinham declarado um filho. Os filhos “excedentes”, ocultados pelos pais, oficialmente, não existem. Não são cidadãos da República Popular da China, não têm acesso a um passaporte, portanto também lhes fica difícil a escapadela clandestina para o estrangeiro. Mas a política do filho único gerou outros dramas.  

 

O regime favoreceu, nas gerações dos últimos 35 anos, o filho varão. Por ser suposto, argumentaram, que os homens, na competitiva sociedade chinesa, poderiam contribuir mais para o crescimento económico. Isto levou a abortos seletivos: se a criança que está para nascer é uma menina, elimina-se. Tenta-se até aparecer um rapaz. Assim se explica que nos registos de nascimentos na China desde 1980 haja um desequilíbrio de género, com mais de 60% de rapazes e menos de 40% de raparigas. É de pensar que um número crescente de homens vai ficar sem esposa por insuficiência de parceiras. Tudo isto parece uma alucinada ficção de experimentação social, mas é a realidade da vida no país mais populoso do mundo e segunda economia global.

 

Estima-se que a política do filho único evitou uns 400 milhões de nascimentos. Mas agora escasseiam talentos novos e dispara dramaticamente o número de grisalhos.

 

Os líderes chineses de agora já concluíram que este sistema não funciona nem mesmo para o interesse económico: com a fertilidade estancada, a China envelhece demasiado depressa e começa a confrontar-se com o risco de falta de trabalhadores ativos em número que chegue para sustentar o sistema de reformas com cada vez mais pensionistas. Daí passarem de um para dois a limitação de filhos por casal. Nada que ponha os fabricantes de preservativos a coçar a cabeça.

 

O essencial é que continuam a intolerável autoritária invasão da intimidade e os controlos punitivos para quem não acata o planeamento familiar decidido pelo Estado. É uma cruel e inaceitável interferência do Estado chinês na vida das pessoas. É impensável que seja o Estado ou o partido (neste caso é o PC da China que se assume como Estado) a fixar o tamanho de cada família.

 

Há uma lição que interessa à Europa neste recuo chinês sobre o filho único: precisamos de mais gente, ou seja, faz-nos falta a chegada de migrantes, para construirmos a prosperidade futura. E Portugal, tal como entre outros a Alemanha, é um país em alerta vermelho pela baixa natalidade.

 

Também a ter em conta

 

A Espanha tende a tornar-se um imenso Portugal? Tem a ver com cenários pós-eleitorais. Os espanhóis vão a votos em 20 de dezembro e todas as sondagens, como esta ou esta, anunciam um terramoto no quadro parlamentar, que passa de duas para quatro forças políticas principais. O PP de Rajoy está na frente mas pode confrontar-se com a maioria para governar de uma aliança de oposições. No caso espanhol, Ciudadanos, ao centro (ora mais à esquerda, ora mais à direita), aparece como partido charneira para fazer maioria.

 

Passam amanhã 20 anos sobre o assassinato do Nobel fazedor de Paz Yitzhak Rabin, quando discursava num comício em Telaviv. Don Ephron conta-nos no livro “Killing a King: The Assassination of Yitzhak Rabin and the Remaking of Israel” aquela noite e o que se seguiu. Há um excerto aqui. Neste fim de semana, 40 mil pessoas estiveram naquela praça para lembrar a mensagem de Rabin. Fica o alerta de Daliah, a filha: “O sangue verte outra vez. O ódio cresce. O meu país muda de cara. Não aprendemos a lição.”

 

Volta a vontade política para cuidar o clima? Vem aí, em dezembro, em Paris, a COP 21, que recoloca as alterações no clima no centro das discussões. Também está aqui.

 

José Fonseca e Costa vai hoje a enterrar. O cinema dele deu-nos gosto de vida.

 

Uma primeira página escolhida no SAPO JORNAIS.

publicado às 06:57

Queimar incenso é tão perigoso como fumar? Talvez...

Por: Pedro Fonseca

 

Uma análise a quatro tipos de incenso e a um cigarro parece mostrar que a inalação do incenso em ambientes fechados pode ser mais prejudicial do que o fumo do cigarro. Mas os próprios investigadores afirmam não o poderem demonstrar.

 Imagem: MAST IRHAM

 

 As partículas finas e ultrafinas do incenso queimado em ambientes fechados podem ter efeitos adversos na saúde, diz uma equipa de investigadores liderada por Rong Zhou, da South China University of Technology e da China Tobacco Guangdong Industrial Company. O trabalho "Higher cytotoxicity and genotoxicity of burning incense than cigarette" foi publicado no final de Agosto na revista científica Environmental Chemistry Letters e declara que o incenso tem muitos "componentes aromáticos, irritantes e tóxicos" que são mutagénicos - ou seja, de forma simples, podem alterar material genético como o ADN.

 

A genotoxicidade das quatro amostras de incenso revelou-se maior do que uma amostra de cigarro, sendo ainda mais citotóxicas em testes em células de salmonela e ovárias de ratos. Todos esses efeitos mutagénicos, genotóxicos e citotóxicos em células estão aparentemente ligados ao desenvolvimento de cancros.

 

Ingredientes tóxicos

 

O incenso é fabricado de vários materiais, sendo a madeira de ágar e de sândalo "dois dos ingredientes mais comuns". Juntas, as amostras de incenso testadas continham 64 compostos diferentes, com "ingredientes em duas das amostras conhecidos por serem altamente tóxicos".

 

Zhou e a equipa apontam que há cada vez mais estudos sobre a poluição do ar em ambientes fechados também porque mais pessoas ali passam mais tempo. "Apesar da queima de incenso ser uma das maiores fontes" desse tipo de poluição, a sua investigação tem merecido uma reduzida atenção por ser um fenómeno regional, ocorrendo "em muitas famílias e na maioria de templos na Ásia por razões religiosas e pelo seu cheiro agradável". Quando queimado, o incenso liberta partículas que podem ser inaladas. Estudos desde 1977 demonstraram que a sua queima está correlacionada com potencial cancro de pulmão, leucemia infantil e tumores cerebrais.

 

Os investigadores chineses, no entanto, declaram que não se pode dizer "simplesmente que o fumo do incenso é mais tóxico do que o fumo do cigarro devido às diferenças de estilo no consumo destes produtos" - também pela pequena base de análise, enorme variedade de paus de incenso à venda e diferenças no seu uso em relação ao cigarro. Mas este estudo pode servir de base para investigações futuras sobre o incenso, dizem. O alerta de pouco serviu, com jornais como o britânico Daily Telegraph a apelarem para que o incenso tenha um rótulo de perigoso, como sucede no tabaco.

 

Relações perigosas

 

No site do sistema nacional de saúde do governo britânico, o estudo foi analisado, notando-se à partida que dois dos investigadores (incluindo Zhong) trabalharam para a empresa tabaqueira da China ("o que "levanta suspeitas sobre a imparcialidade da investigação") e que não há indicação da origem do financiamento da investigação.

 

A associação à indústria tabaqueira é "do interesse desta", para levar "as pessoas a pensar que o fumo do cigarro e a queima do incenso são equivalentes - o que não é o caso", refere. "O incenso não é fumado e assim não é directamente levado para os pulmões da forma como o fumo do tabaco é, pelo que os efeitos nas células pulmonares podem ser muito diferentes", diz o texto do NHS, mas qualquer queima de produtos em ambiente fechado - seja incenso, carvão ou tabaco - "produz fumo que pode irritar e danificar os pulmões". Relativamente ao estudo, salientam que "o fumo do incenso era tóxico em concentrações mais baixas do que o fumo do cigarro".

 

"A sugestão de que o fumo do incenso pode ser mais prejudicial do que o fumo do cigarro necessita de ser tratada com cuidado", nota o NHS, tanto mais que "a investigação com células animais em laboratório não é a mesma que a investigação em seres humanos", nomeadamente com "substâncias em forma diluída no ambiente".

 

Evidências anteriores

 

O mesmo NHS analisou, em 2008, um outro estudo relativo ao fumo do incenso e o risco cancerígeno. O mesmo baseava-se em dados obtidos num anterior estudo sobre hábitos de dieta e nutrição no desenvolvimento do cancro, que durou de 1993 a 1998, sendo retomado com dados até 2005, e envolveu mais de 61 mil chineses de Singapura entre os 45 e os 74 anos.

 

A conclusão foi a de que o incenso continha químicos que podiam potenciar o cancro, nomeadamente nas vias respiratórias, tendo afectado cerca de 1.300 pessoas, dizia o estudo "Incense use and respiratory tract carcinomas", financiado pelo National Cancer Institute norte-americano e publicado na revista Cancer.

 

No entanto, salientava-se que os participantes dos estudos que "actualmente ou antes usaram incenso não tiveram um risco aumentado de cancro respiratório comparados com pessoas que nunca o usaram". Em Portugal, em 2013, também a Deco alertou para o uso de incenso, pela "presença de substâncias nocivas para a saúde".

 

A associação defendia a remoção de quatro marcas de incenso por conterem benzeno e formaldeído, “duas substâncias reconhecidas pelos seus efeitos cancerígenos”. E já então era efectuada a ligação ao tabaco: “um só pau de incenso pode emanar benzeno em quantidade equivalente à de cinco cigarros”, afirmava a Deco.

 

Em resumo, e seguindo a recomendação ao Daily Mail de Nick Hopkinson, médico conselheiro da British Lung Foundation, pessoas com problemas de pulmões ou em ambientes domésticos com crianças devem evitar a queima de incenso.

 

"Eu não quero que as pessoas concluam que o fumo do cigarro é tão inofensivo como queimar incenso. O estudo [de Zhong] não é inovador, é mais uma confirmação de que diferentes tipos de fumos, incluindo o de incenso, são tóxicos", declara Hopkinson.

publicado às 18:05

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