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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Só existem sete histórias e seis emoções?

Por: Pedro Fonseca

 

A ficção foi reduzida à aritmética, mas isso não significa que tenha menor valor literário. Sobretudo quando se sabe que podem existir apenas sete modelos de narrativa de ficção e as emoções não ultrapassam as seis variantes. Da literatura ao cinema e à publicidade, os exemplos são muitos. Não acredita?

 

 

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Vemos filmes e lemos livros e, em muitos casos, dizemos: já vi ou li algo semelhante - mas não é possível estabelecer o porquê, em muitos desses casos. Mas "os avanços na capacidade de computação, processamento de linguagem natural e digitalização de texto tornam agora possível estudar a evolução de uma cultura através dos seus textos usando uma lente de 'big data'", ou análise de grandes quantidades de dados, explicam Andrew Reagan, Lewis Mitchell, Dilan Kiley, Christopher Danforth e Peter Dodds, no texto "The emotional arcs of stories are dominated by six basic shapes".

 

Os investigadores das universidades norte-americana de Vermont e da australiana de Adelaide referem que os "arcos emocionais" analisados a partir de 1.737 obras de ficção em inglês, disponibilizadas no repositório gratuito de livros Project Gutenberg, mostram um conjunto de "seis trajectórias nucleares que formam os blocos fundadores de narrativas complexas". Os investigadores detectaram que certos "arcos emocionais têm um maior sucesso, medido pelos 'downloads'". E alertam que tendemos "a preferir histórias que se encaixam em modelos que [nos] são familiares e a rejeitar narrativas que não se alinham com as nossas experiências".

 

Lembram a teoria da narrativa em três actos de Aristóteles (o conflito emerge no acto um, surgem pontos de viragem nos actos seguintes, para se encerrar com "a resolução final"), mas salientam que o lado emocional não segue esse modelo, embora "exista como parte dessa narrativa toda", através da identificação dos motivos na história. Os investigadores registam a existência de várias elaborações anteriores sobre "padrões básicos" das narrativas para terminar uma ficção. Em 1959, Foster-Harris defendeu a existência de apenas três, a partir de uma situação de conflito (final feliz, final infeliz e tragédia).

 

Há ainda o modelo das sete possíveis histórias/narrativas em que um indivíduo se confronta com ele próprio, com a natureza, com outro indivíduo, com o ambiente, com a tecnologia, com o sobrenatural ou com um poder mais elevado. Para Christopher Booker, no livro "The Seven Basic Plots: Why We Tell Stories" (2005), estas estruturas narrativas são igualmente sete (ganhar ao monstro, gozar com os ricos, a demanda/busca, a viagem, comédia, tragédia e o renascimento).  Na apresentação do seu livro, aponta-se que existe "apenas um pequeno número de 'narrativas básicas'", considerando exemplos desde os antigos mitos e histórias do folclore até às novelas da "grande literatura" ou filmes e telenovelas actuais.

 

Um outro autor, Ronald Tobias, considera que podem existir "20 Master Plots", incluindo a metamorfose, a ascensão ou a "descensão", e Georges Polti chega mesmo às 36, abordando variações como a rivalidade, o sacrifício por paixão ou os crimes de amor.

 

Porque é importante a emoção?

 

Numa análise a "Understanding The Seven Basic Plots", considera-se que este tipo de "aproximações reducionistas" apontam para uma "mensagem de que um escritor quase não terá esperança em criar um enredo original. Isso não é uma perspectiva particularmente útil para um escritor que está a tentar desenvolver uma nova e excitante ideia de história".

 

Contrapondo essa crítica à de "Dramatica: A Theory of Story", considera-se que esta última teoria "não limita as possibilidades" e podem mesmo existir mais de 32 mil variações de histórias. Mas este tipo de pensamento abre caminho para outros sectores o adaptarem à sua área de trabalho. Foi o caso da publicidade.

 

Num texto de Outubro de 2012, "7 Basic Types of Stories: Which One Is Your Brand Telling?", a revista do sector AdWeek questionava a originalidade dos criadores publicitários para afirmar que o "desafio" perante apenas sete formas de contar uma história passava por escolher a que melhor se ajustava à marca que estavam a vender.

 

Para cada um dos modelos narrativos de Booker, a revista escolheu vários exemplos:

1) ganhar ao monstro: Apple;

 

2) confronto com os ricos: Johnnie Walker;

 

3) demanda/busca: o filme "Senhor dos Anéis";

 

4) viagem e regresso: Corona;

 

5) comédia: Old Spice (apostou nesta estratégia há anos e lançou recentemente um novo vídeo);

 

6) renascimento: Gatorade;

 

7) tragédia: são casos difíceis e raramente a publicidade pode ser tentada a aproveitá-la, pelos resultados negativos que daí podem advir.

 

Para os investigadores que consideram existir seis "arcos emocionais", a sua existência "é importante para o sucesso" de uma narrativa mas também para o desenvolvimento de tecnologias emergentes e noutras abordagens geográficas. "Os arcos emocionais das histórias podem ser úteis para ajudar a desenvolver argumentos e a ensinar senso comum aos sistemas de inteligência artificial", dizem, para concluir que "de profundo interesse científico será o grau em que poderemos eventualmente perceber a paisagem completa das histórias humanas, e as aproximações geradas pelos dados terão um papel crucial".

 

Noutra direcção, e por analisarem apenas as obras em inglês, os investigadores abriram caminho a outros interessados para fazerem o mesmo nas suas línguas. "Será interessante ver como os arcos emocionais variam de acordo com a língua ou cultura, como têm variado ao longo do tempo e também como os livros factuais se comparam", sintetizava a revista Technology Review.

 

publicado às 10:10

Morreu o homem dos sete instrumentos

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Quando o autarca Carlos Meireles conheceu Maria, uma prostituta de alta roda que, mais tarde, viria a perceber-se que o levou à certa na triste sina da corrupção por chantagem, fez-lhe a seguinte pergunta: 'Diga-me uma coisa... O que é que você faz?' E ela respondeu: 'Tudo!' Nicolau Breyner também. O personagem que o actor interpretou no filme 'Call Girl', de António Pedro Vasconcelos, foi apenas mais um da multifacetada carreira de um homem que nos deixou ontem de surpresa - ele adorava pregar partidas.

 

Dele disse o crítico Eurico de Barros que não houve, em Portugal, cinema que chegue para o mostrar em toda a sua dimensão dramática. Os mais de 40 filmes que interpretou têm valores diferentes. E terá sido apenas já depois dos 50 anos que Nicolau brilhou, a espaços, no grande écrã.

 

'Anarquista de centro', como se denominou um dia em termos políticos, esteve nas eleições de 1969, como recordou ontem o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues; mas concorreu, já depois do 25 de Abril, com o apoio do CDS, à Câmara de Serpa, sua terra natal alentejana. 'Perdi para o candidato da CDU, de quem hoje sou grande amigo, e ainda bem, ele é um excelente autarca', afirmou Nicolau.

 

 É difícil encontrar quem tenha criado e mantido inimizades com Nicolau Breyner. 'Nunca vi ninguém chatear-se com ele', disse ao SAPO24 o actor António Capelo, que com ele trabalhou, muito, na área da ficção televisiva. 'Nunca o vi pôr-se em bicos de pés, tentar roubar protagonismo fosse a quem fosse'.

 

'Representar, para ele, era como respirar', sustentou António Capelo. 'Não fazia esforço nenhum, saía-lhe de uma forma natural: e era escusado, nunca sabia o texto', lembra o colega de profissão. O que vai de encontro à ideia que o próprio tinha sobre si. 'Dizem que isto de ser actor é 75% de esforço e 25% de talento; eu acho que é precisamente o contrário', afirmou numa entrevista.

 

'Ele não gostava de repetir', relembra Virgílio Castelo. 'Dizia que saía sempre melhor à primeira, e até assegurava, com graça, e enquanto director de actores, que primeiro se grava e depois se ensaia', revelou o actor. O que é corroborado pelo cineasta António Pero Vasconcelos, que, para além de admirar essa capacidade, se queixava de que isso, por vezes, impedia os outros de evoluírem. 'Às vezes são precisos vários 'takes', e para ele isso não era necessário', recorda.

 

A sua generosidade e falta de noção do dinheiro é quase lendária entre os colegas de profissão. 'Cada vez que ganho muito dinheiro há em mim um sentimento de vergonha', adiantaria noutro espaço. 'Ele falou-me de querer comprar uma quinta no Brasil, e eu andei por lá a ver se arranjava algo', recorda Capelo, ele próprio um apaixonado pelo país e que lá detém propriedade. 'Mas depois nunca mais aparecia com o dinheiro; foi o Moita Flores que me disse para tirar daí a ideia, já que ele nunca tinha que chegasse, não poupava', revelou a mesma fonte.

 

 

Muitos recordam que, sem Nicolau, nem nunca na vida teriam chegado a ser actores. Como Nuno Homem de Sá, que está nas novelas televisivas pela mão de Nicolau Breyner, e que recorda que 'aos 18 anos andava sem saber o que fazer da vida, e foi ele que me trouxe para aqui, que me deu a mão'. Ele, Nicolau, soube cedo que queria palco, embora a veia lhe latejasse mais para a ópera. Um dia percebeu que os cantores líricos tinham de levar uma vida muito regrada. 'Não era para mim', confessou.

 

A positividade perante a vida é um traço que todos os que o conheceram realçam. 'Nunca remei contra a maré', afiançou já depois dos 70 anos. Mas pensou no que ainda havia para viver, quando há seis anos o cancro lhe bateu à porta. Aparentemente, não foi disso que morreu. Se bem que tenha frisado que, nessa altura, percebeu que tinha que pensar mais na sua mortalidade.

 

Nem naquele que foi, talvez, o maior papel da sua vida enquanto actor de cinema – o inspetor Joaquim Malarranha de 'Imortais' - deixou de ser, sempre e só, um extraordinário feitor de verosimilhança humana. A capacidade de identificar, aparentemente sem esforço, os traços dominantes dos papéis que lhe cabiam, fez dele, também, um dos actores mais populares do seu tempo e, eventualmente, mesmo o mais conhecido da sua geração. António Capelo costumava chamar-lhe 'Nossa Senhora de Fátima'. 'Onde ele aparecia, toda a gente o conhecia e queria vê-lo; era uma aparição', graceja.

 

Um talento que começou a revelar-se cedo. No Conservatório foi um aluno brilhante e, recém-formado, foi Vasco Morgado que o levou para a revista. A comédia é, aliás, o lado mais conhecido de um homem dos sete instrumentos. 'Andei vinte anos a fazer comédia e 20 anos a fazer drama', dizia como que em sumário. Mas 'fiz muitas coisas na vida que ainda hoje estou para perceber porquê'.

 

Boémio, lutador de pés e mãos pelos cabarets, coureur de femmes, Nicolau Breyner confessou que o pai o 'acusava' de fazer 'caridade sexual'. 'Não sabia dizer que não', revelou. Um dia, no meio de uma gravação de novela, o estúdio pára durante meia-hora. 'O Nicolau tinha ido divorciar-se', recorda António Capelo. 'Para ele, a conquista era um exercício lúdico permanente', recordou o actor Virgílio Castelo.

 

Carlos Matos Gomes, autor do livro Nó Cego (sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz) que levou António Pedro Vasconcelos a criar o argumento de 'Imortais', recorda ao SAPO24 que foi complicado encontrar o actor para a personagem do inspector Malarranha, que gostava de fados e tinha uma amante à moda antiga. 'Tinha de ser um tipo que gostasse de música', recorda o antigo coronel do Exército português. 'Foi o António Pedro [Vasconcelos] que se lembrou do Nicolau, e ele foi impressionante na interpretação que fez, até porque nunca tinha feito um papel daquele género', afirma.

 

'Ele olhou para o guião, leu uma parte do romance, e apanhou desde logo as características e todos os cambiantes do inspector', referiu Matos Gomes, que recorda com um sorriso a 'interpretação dele quando está com a Filó [a secretária de quem era amante no filme]'. Por curiosidade, conta que o mesmo esteve para ser rodado, em parte, em Moçambique, mas Samora Machel, então presidente daquele país africano, não deixou.

 

Do Nicolau Breyner precursor da indústria de ficção televisiva já toda a gente falou. 'Irritava-me que não fizéssemos coisas como os brasileiros', desabafou um dia, para justificar como, com Thilo Krassman e com o apoio da RTP, construiu 'Vila Faia', a primeira telenovela portuguesa. Anos mais tarde havia de montar a sua prórpia produtora, a NBP, que trouxe para o grande público um significativo número de novos actores, deu alento e visibilidade aos antigos e criou uma 'nova fórmula de fazer coisas com que o público se identificasse', como definiu ontem o actor Diogo Infante. A 'invenção' de Herman José, no 'Feliz e Contente' do ínício dos anos 80, terá sido certamente ao seu maior achado.

 

A televisão ficará sempre na história que todos contarão de Nicolau Breyner. O teatro não, 'aquela caixinha é muito pequena, muito fechada', dizia, como lembrou ontem a actriz Guida Maria, para quem Nicolau Breyner 'era desconcertante no seu humor; às vezes era preciso dizer-lhe para parar com as anedotas, porque antes de entrar em cena temos de nos concentrar; ele não, acabava de dizer uma graçola, entrava no palco e era um tipo completamente diferente e embrenhado no papel'.

 

'Tinha amigos de todos os géneros, sempre com grande calor humano; era impossível ficar-lhe indiferente', sustentou Virgílio Castelo. 'Era um menino de 75 anos', afirmou. Foi por ele que ontem, menos de uma hora depois da notícia da sua morte, Marcelo Rebelo de Sousa abandonou uma reunião para expressar a sua consternação, saudade e recordações ao país que recentemente o elegeu. 'Nunca tinha visto um Presidente da República fazer isto pela gente que pinta a cara', afirmou Simone de Oliveira.

 

Actor, cantor - chegou a concorrer ao Festival da Canção, em 1968, tendo arrancado o quarto lugar com 'Pouco Mais' -, produtor, realizador, professor – mantém uma escola de artes de palco, a NBA -, Nicolau Breyner fez de tudo um pouco.

 

Deixa saudades, ele que dizia que era 'o gajo menos saudosista do mundo'. Se não fosse católico praticante, seria 'adorador do sol', afirmou recentemente. Também por isso, gostava de ter morrido 'num daqueles dias chuvosos, frios, com vento, para não ter pena', dizia. Morreu num dia de sol. Ele não programava muito a sua vida, diz quem o conheceu.  

 

 

 

 

 

 

publicado às 08:09

Ziggy Stardust voltou para as estrelas da Galáxia

Por: José Couto Nogueira

 

No filme de Nicolas Roeg de 1976, “O homem que caiu na terra”, David Bowie faz o papel de um alienígena que vem do seu planeta distante, Anthea, à procura de água.

 

Bowie participou em muitos filmes de ficção (fora os incontáveis documentários sobre as suas personas), mas há três que retratam particularmente a sua personalidade extraordinária. Além de “O Homem que caiu na Terra”, são memoráveis “Merry Christmas, Mr. Lawrence” (Nagisa Oshima, 1983) e “Just a gigolô”, dirigido pelo grande actor David Hemmings em 1978, e que marca a última aparição de Marlene Dietrich.

 

Só por estes filmes, o homem que nasceu David Robert Jones poderia ser sempre lembrado. Mas o cinema era apenas uma das facetas do artista que muitos consideram como o mais criativo e representativo da música do século XX. Também fez teatro; a apresentação a solo na Broadway, na dificílima peça “O Homem elefante”, deixou uma impressão inesquecível.

 

Aliás, a teatralidade era a marca de Bowie, pois durante a sua longa carreira musical, começada em 1969 com o álbum “Space Oditty”, viveu uma sucessão de personagens, umas esfuziantes e outras depressivas – hermafrodita, gentleman, ou ainda com aparente negligência – tudo estudadíssimo, claro. Iman, sua mulher desde 1992, contou uma vez: “Apaixonei-me por David Jones, não por David Bowie. Bowie é apenas uma personagem. Cantor, entertainer. David Jones é o homem que eu conheço.”

 

Só ela conhecerá esse Jones. Talvez Angie, a sua primeira mulher (e mãe do realizador Duncan Jones) também o tenha conhecido. Para o mundo, as personagens sucediam-se e cada uma significava uma nova fase, não apenas estética, mas sobretudo psicológica e musical.

 

Há duas qualidades de Bowie que são menos conhecidas pelo público que simplesmente aprecia o som. Era um experimentador, um visionário. Por baixo do rock’n’roll dançável de que todos gostavam, há aventuras musicais únicas, experiências com novos instrumentos, novos sons, incontáveis influências ou apropriações de musicalidades orientais, africanas, alternativas.

 

Depois, Bowie andava sempre à procura de músicos talentosos, famosos ou desconhecidos, que lhe pudessem trazer outras possibilidades. No seu último álbum e testamento, “Blackstar”, lançado na semana passada, participam músicos de jazz completamente desconhecidos fora dos círculos do East Village.

 

Como grande artista seguro de si, Bowie não tinha receio do talento dos outros. Até os ajudava, como fez com Iggy Pop. O cantor dos “Stooges”, uma banda proto-punk da década de 60, estava internado num asilo, ao fim de anos de drogas e violência auto-infligida. Bowie foi buscá-lo, responsabilizou-se por ele, organizou-lhe uma tournée de relançamento em que se limitou a acompanhá-lo ao piano, e produziu-lhe o primeiro disco a solo – “The Idiot”, um grande sucesso.

 

A sua carreira, com 25 álbuns de estúdio e centenas de apresentações, inclui tantos sucessos que é impossível enumerar mesmo aqueles que toda a gente conhece. Músicas e letras que serão sempre de culto, como “Starman”, Space Odity”,"Let's Dance", "Heroes", "Under Pressure", "Rebel, Rebel", "Life on Mars", "Suffragette City", ou “All the Young Dudes”. Esta última foi feita para ajudar Ian Hunter a relançar o grupo “Mott the Hoople”.

 

O seu talento foi reconhecido fora do rock’n’roll, e no auge da carreira até teve capa na agora desaparecida, e na época muito conservadora, revista “Time”. Em 2013 o Victoria & Albert Museum dedicou-lhe uma exposição com 300 objectos relacionados com a sua obra: modelos, desenhos (sim, ele também pintava!), rascunhos, posters, objectos. Há um documentário sobre a mostra, "David Bowie Is", partes do qual podem ser encontradas no Youtube.

 

No ano passado, Bowie comemorou meio século de carreira com "Nothing Has Changed", uma antologia que mostrava precisamente o contrário: estava sempre a mudar, e para melhor.

 

Uma pergunta que muita gente faz é de onde vem o nome Bowie. Escolheu-o porque já havia outro músico Jones (dos Monkees), que aliás é um dos mais comuns na Grã Bretanha e portanto impróprio para um ser vindo do espaço; parece que vem da famosa faca Bowie, que por acaso tem dois gumes – uma alusão ao suposto bissexualismo de Bowie, que não terá mais do que um adereço teatral... Ele mesmo disse que a íris mais dilatada do olho direito vem de um golpe que terá recebido com uma bowie, mas vá lá saber-se!

 

Quando lançou "Blackstar", Bowie já sabia que o cancro de que sofria há ano e meio ia matá-lo em breve. Daí que a poesia seja tão depressiva e, ao mesmo tempo, tão futurista. Também preparou uma espécie de ópera, "Lazarus", de que há um inquietante clipe de quatro minutos em que aparece com os olhos vendados, levitando na cama de um hospital psiquiátrico.

 

É o testamento de uma estrela que levou a felicidade a milhões de pessoas, ao mesmo tempo que apresentava questões mais profundas sobre o nosso destino. Uma estrela que continuará a brilhar, para sempre.

  

(PS - Tivemos a estupefacção de o conhecer em Londres, numa festa da Absolut na Pharmacy. Falamos de banalidades – o que se pode dizer a uma pessoa da craveira de Bowie que ele não tenha ouvido? Era baixinho – sim, baixinho! – e nada arrogante, com a simplicidade de uma pessoa comum. Um autêntico guru, segundo a definição de Henry Miller: “Os verdadeiros sábios são aqueles que preferem ouvir em vez de falar”)

 

 

 

 

 

 

publicado às 17:43

Quando chegares a casa, o jantar está pronto

Por: Márcio Alves Candoso

 

"Quando chegares a casa, o jantar está pronto", mas isto dito em tom estalo, de cabeça levantada, no meio da multidão que a observa. Como quem atira um 'digo que te sirvo mas não sou serva, sirvo-te mas porque eu quero, porque fizeste o que eu te mandava havia tempo, e só assim ficas comigo'. 

 Mary Kate Danaher, a personagem de Maureen O'Hara no filme "O Homem Tranquilo", de John Ford, 1952

 

Um fado irlandês, que desata em passo largo, rasgando a turba de basbaques quietos e mirones, com as saias irlandesas pelos tornozelos, atacando as relvas irlandesas que são os pastos onde levava as ovelhas no primeiro dia em que se olharam; e só pára – presume a gente, e constata vendo a cena que se segue a esta – diante do fogão de lenha da casa em que está casada.

Chamava-se Maureen O'Hara e essa interessa-me menos, apenas para que se perceba porque era parecida com quem lhe calhava nos filmes. É a personagem de Mary Kate Danaher, aquela que não morreu na semana passada, nem nunca andou de cadeira de rodas. Quando muito perdeu-se, mas isso foi há que tempos, e é toda uma outra história, a da mulher de 'Duke', o Homem Tranquilo que dizem que foi o primeiro que conseguiu domar a 'fera'. Não domou nada, digo eu, que vi o filme todo, para além mesmo da longa-metragem.

 

A vida de Maureen FitzSimmons, nascida na Irlanda logo depois da I Guerra, são os filmes que sonhava quando era criança, mais todos aqueles que fez a partir da idade em que uma mulher se entrega ao facto de ter crescido. E esses são duros, faíscam-lhe nos olhos e no cabelo, e criaram o mito da preciosidade que se tem em casa mas só se se souber mantê-la. Uma coisa antiga, que já não se usa...

 

Quando Charles Laughton descobriu Maureen, disse-lhe logo que o nome FitzSimmons era um desatino. Ela bateu o pé, e Laughton apreciou, condescendeu - até que ela tinha razão. Ficou 'O'Hara e não se falou mais nisso. Maureen preparou a ceia, mas só depois de ficar escrito que era como ela queria. Mesmo que fosse o contrário!

 

Em Dublin foi criada, com mais cinco irmãos, dois dos quais também agarraram na vida o papel que o cinema lhes deu. Com a ajuda dela. Só a mais velha é que não se meteu em artes, foi para freira. Era irlandesa, não era? Já ela, Maureen, tinha a mania de ser forte, com sentimentos à mistura. Como é que fazia as cenas perigosas? Não usava duplos e rezava antes. É fácil, para uma irlandesa! Pendurada no topo de Nôtre Dame, sem rede por baixo? Reza-se! Uns bons músculos que lhe sobraram da infância estouvada também ajudaram.

 

Tinha a melodia do descanso do guerreiro e o fogo bastante para o fazer ir atrás dela, e pô-la de rastos, e levar dela um estalo. E o amor tardou um tempo que um americano não percebia, mas que fazia parte da afirmação. Maureen, uma metonímia para a mulher que demora, conquista-se todos os dias e não se perde nunca. Porque ela não deixa, não quer. É preciso ver o filme, na parte em que faz rir e na parte em que se chora.

 

'It started with Eve'. Outra metáfora para o que se pode fazer com uma mulher, mas a léguas de Maureen O'Hara. Charles Laughton, sempre ele, sabia que Deena Durbin, a sua 'Danny Boy', o enganara, mas ele queria-a mesmo assim no filme. Depois descobriu 'the red' Maureen. Porque resolvi dizer isto? É que trata-se de um aperfeiçoamento masculino. Da primeira vez que te vi estavas mesmo à minha frente. Depois olhei tantas vezes e estavas sempre atrás de mim. Da última vez que te olhei, estavas onde?, - ao meu lado. E quase chegado aqui estavas já antes de mim.

 

Sempre entrou bem em personagens de mulheres fortes. No écrã, foi o génio – disse-o ela – Alfred Hitchock que lhe topou a façanha, depois de Laughton lhe ter visto os olhos, o cabelo e a boca tão dura para o berro como boa para beijos. Mas não fazia gala do corpo, e muito menos do 'glamour' da boca de cena. Não se metia com os actores, mas sabia o que é um homem. 'É John Wayne', disse ela. Mas nunca lhe partilhou a cama fora dos filmes irlandeses. E mesmo nesses, era peciso fazer o que ela mandava. Estão a ver o John Wayne?... Só ela!

 

 

Nunca ganhou um Óscar. 'Andei perdida no meio de gigantes, nunca chegava a minha vez', disse um dia, muito depois de ter deixado o écrã para se dedicar à família e aos amigos, que reunia todo o santo dia nos sítios vários onde morava. Apesar da nostalgia, sentia-se 'muito confortável' consigo mesma. A Academia fez mea-culpa quase em cima do dia em que morreu. E deu-lhe um Óscar pela carreira. Pela maneira de ser. Por ser quem era. Na sala onde reunia os netos com quem saía à noite a beber um copo, esse foi o 'homem' que faltava. 'My Oscar', dizia enamorada e trémula, enquanto ainda sorria com a alma toda.

 

Maureen O'Hara morreu na semana passada, com 95 anos. Com estilo, e um bom bocado de paixão para o resto da vida, mas tirada a ferros e a costumes que faz sentido seguir para depois os mandar às malvas. O resto é a lente de John Ford, a anca meio torta de John Wayne e os cabelos de fogo que lhe emolduravam os olhos.

Quem era ela? Não estou especialmente interessado. Quando a conheci era Mary Kate Danaher. Primeiro ela passa, depois leva limões à praça, e no fim caso com ela.

publicado às 14:35

Cinco filmes que nos fizeram viajar

Não sabemos se vos acontece o mesmo, mas, por vezes, somos influenciados pelos frames que nos ficam na retina dos cenários que suportam as histórias do cinema.

Por: João e Ana, do blog Volto Já

 

Acreditamos no poder do cinema e na facilidade com que nos transporta para outros locais, mesmo sentados no sofá ou numa sala de cinema. E é por isso que, muitas vezes, damos por nós a fazer as malas à boleia de filmes que nos fazem viajar. Eis a nossa lista dos filmes que já valeram milhas aéreas.

 

1- The Beach, de Danny Boyle (2000)

Há 15 anos víamos o jovem Leonardo Di Caprio a lutar por uma praia que equivalia ao paraíso para os seus habitantes. O momento em que, pela primeira vez, vimos a Maya Bay, nas Ilhas Phi Phi (Tailândia), foi de tirar o fôlego, questionando-nos se a praia existia mesmo ou se era um truque da produção ... Descansem, existe mesmo e é, sem dúvida, magnifica. Com a popularidade do filme, o turismo cresceu na ilha tailandesa e é impossível desfrutar deste pedaço caído do céu sozinho. Bem, impossível não é, pois há a possibilidade de lá acampar, ainda que tenha provavelmente que partilhar Maya Bay com outros campistas. Mesmo acompanhado, vale a pena.

Leonardo DiCaprio em The Beach

 

2- Lost in Translation, de Sofia Coppola (2003)

A filha do mestre Francis Ford Coppola conseguiu transmitir algo que parecia impossível: o reencontro do 'eu' na agitada cidade de Tóquio. Pelo menos, é o que Bill Murray e Scarlett Johansson foram fazer à capital japonesa. Cá entre nós, não nos parece a cidade ideal para tais introspecções, mesmo sendo o filme muito bom, assim como a cenografia. Mas Coppola conseguiu apimentar a curiosidade por Tóquio, transmitindo a amabilidade dos japoneses e as cores da cidade, misturando na perfeição a loucura das salas de jogo e o karaoke. Aliás, o New York Bar, no topo do Park Hyatt, bem pode agradecer ao filme os muitos turistas que por lá passam.

Lost in Translation

 

3- A good year, de Ridley Scott (2006)

Quem viu o filme sabe o quão difícil foi segurar a vontade de entrar no próximo avião e rumar à Provença quando entraram os créditos. Russell Crowe é um empresário muito ocupado que parte para o sul de França depois de herdar um 'château' de um tio querido que acabou de falecer. Lá encontra a tranquilidade, e também Marion Cotillard. Não é preciso ser um bom filme para nos fazer viajar. Este filme é a prova disso. As paisagens, as cores, o calor e o restaurante de Fanny (Marion Cotillard) são razões suficientes para querermos amar num lugar diferente, de preferência na Provença.

A Good Year

 

4- To Rome with Love, de Woody Allen (2012)

Bem, o filme é muito fraco, até os fãs do realizador concordam connosco. Mas Roma é sempre bela, mesmo com um mau guião. As ruas estreitas, as cores, as fontes, os monumentos e a comida estão no filme e, por isso, perdoamos Woody Allen. Achamos até que a decisão de fazer este filme foi uma desculpa do realizador para poder tirar umas férias na capital italiana. Alguém o pode censurar? A Piazza Venezia, o Vittorio Emmanuele II, a Fontana de Trevi, o Caffè della Pace e a belíssima Via Margutta estão todas lá e isso salva o filme. Allen continua mestre em fazer dos seus filmes verdadeiros documentários das cidades.

To Rome With Love

 

5 - Sex and the City, Darren Star (1998-2004)

Vamos fazer batota e terminar esta lista com uma série. Isto porque colocar os filmes não seria a mesma coisa para os fãs de Carrie e companhia. Os restaurantes e bares mais trendy, os rooftops mais vistosos estão lá e fazem qualquer mulher pegar nas amigas e viajar para a badalada cidade norte-americana. Para o sexo masculino, e caso viaje com a namorada ou amigas, não vale a pena ficar preocupado com a histeria feminina ao tirar fotografias na Magnolia Bakery ou em frente à casa da Carrie. Afinal, para elas são verdadeiros monumentos.

Sex and the city

 

Menção honrosa

Já fizemos batota no ponto 5 e não queríamos voltar a fazê-lo, por isso criámos esta menção honrosa... não deu para aguentar. Em 2012, o famoso fotógrafo Mario Testino rodou o anúncio publicitário para a Dolce and Gabbana na Sicília. Os poucos segundos do comercial foram suficientes para nos levar até esta bela ilha italiana. E sabem que mais? É muito melhor do que vimos nas imagens. O anúncio foi filmado na Riserva Naturale Dello Zingaro. Entrem no avião e visitem a Sicília. Já.

Riserva Naturale dello ZIngaro

Christof Halbe, domínio público

 

João e Ana: Além de um casal apaixonado um pelo outro, também somos apaixonados por partilhar as nossas experiências em viagem. É algo que nos faz redescobrir o prazer de gostar tanto da vida. Somos o João e Ana, quase casados, e decidimos criar o blogue Volto Já, feito para pessoas que pertencem a vários lugares. Lugares esses que gostamos de conhecer pela experiência de ser apenas mais um no meio de tantos, falando por exemplo das movimentadas ruas de Tóquio. Ou subir ao topo do Pão de Açúcar e ficar deslumbrados com o Rio de Janeiro. Sem esquecer as luzes estonteantes de Nova Iorque. Mas gostamos de declarar um amor incansável pela Europa. França e Itália estão no nosso topo de preferências. Países que nos oferecem tudo o que precisamos para ser felizes. O tempo avança e as responsabilidades aumentam, mas não vamos parar de viajar. Queremos dizer sempre “voltamos já”.

publicado às 09:00

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