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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O dragão das Filipinas

Por: José Couto Nogueira

 

Eleito numa plataforma de direita em Maio, o novo Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, está a cumprir o que prometeu na campanha: matar os suspeitos de tráfico de droga, sem julgamento.

 

A última vez que se falou das Filipinas à escala multicontinental foi quando se ficou a conhecer a colecção de sapatos de Imelda, a mulher do presidente/ditador Ferdinand Marcos. Em 1986, o marido foi obrigado a fugir do país por causa de uma revolução, ela deixou para trás mais de mil e duzentos pares. No país, um arquipélago de 7.641 ilhas com 11 grupos étnicos e 19 idiomas reconhecidos, mais de 99,5 por cento da população sequer tinha um par de sapatos.

 

Os sapatos de Imelda tornaram-se um símbolo da ditadura corrupta, até hoje lembrado por gerações que não fazem ideia quem é Imelda, ou onde ficam as Filipinas, habitadas por cem milhões de almas cristãs, protestantes, muçulmanas, animistas e comunistas.

 

Todavia, as Filipinas têm uma longa História, repleta de peripécias, injustiças, massacres, guerras civis, limpezas étnicas e tudo o mais que uma longa História pode proporcionar. Situada no mar da China, a Sul desta e a Norte da Indonésia, foi descoberta por Fernão de Magalhães (o nome vem de Filipe II) e ficou sob a coroa de Espanha até os americanos a conquistarem, na passagem do século XIX para o XX. Salvo uma curta e sangrenta ocupação japonesa, na Segunda Guerra Mundial, tem estado sempre sob a influência americana, mascarada de república presidencialista, democrática e independente.

 

 

Depois da deposição de Marcos, cuja brutalidade já não estava a dar resultados, o país conheceu vários presidentes, a começar por Coraçon Aquino, viúva de um opositor incómodo que Marcos mandara matar a tiro na placa do aeroporto de Manila. O discurso oficial é mais ou menos democrático, até onde é possível no meio da confusão de credos, idiomas e etnias, distribuídos por 99,9 por cento de muito pobres e 0,01 por cento de fabulosamente ricos. Num documentário recente sobre Manila podia-se ver um luxuoso centro comercial, ao nível de Milão ou Miami, ao lado de um cemitério onde vivem milhares de pessoas. Sim, as pessoas vivem dentro dos jazigos, dentro de anilhas de esgoto à espera de serem colocadas, na rua, na selva e na água. Às guerrilhas comunistas que há décadas massacram populações, também massacradas pelo exército, juntaram-se nos últimos anos as guerrilhas fundamentalistas muçulmanas, que já estão a dar uma boa contribuição para o terror anárquico geral.

 

 

Compreende-se que não é fácil governar um país tão complexo, e talvez por isso os filipinos têm escolhido personagens que parecem tirados de um mau filme de aventuras – daqueles em que um grupo de mercenários comandados por Chuck Noris ataca o palácio presidencial. Aliás, a lista de presidentes inclui um actor secundário retirado de Hollywood (Joseph Estrada) e vários filhos e filhas das eternas famílias dominantes, muito ao género de “Rich Kids of Beverly Hills”. O facto é que tem havido eleições municipais, estatais e nacionais, nas datas previstas, produzindo uma sucessão de presidentes eleitos por um único mandato de seis anos, com poderes muito abrangentes.

 

 

2016 foi ano de presidenciais, e quem ganhou por larga margem foi o Presidente da Câmara de Davao, Rodrigo Duterte, de cognome “O Castigador”. O adjectivo vem do modo como Duterte acha que a justiça deve ser servida e também da sua noção do que é justo ou decente. Por exemplo, em 1989 houve uma revolta de reclusos, que fizeram como reféns um grupo de religiosos protestantes que tinham ido à prisão dar-lhes apoio moral. Os bandidos, maus como as cobras, violaram todas as mulheres do grupo, entre outras barbaridades. Duterte mandou as forças policiais investir e assim morreram os 12 revoltosos e cinco reféns. Até aí podia dizer-se que foi uma negociação mal sucedida. Mas, ao percorrer a prisão depois do incidente, Duterte ficou gravado em câmara – e foi televisionado para todo o pais – ao lado do cadáver de uma das missionárias, Jacqueline Hamill, a dizer o seguinte: “Filha da mãe, que desperdício! Fico a pensar que eles se puseram em fila para a violar. Isso chateia-me, por um lado; mas ela era tão bonita, parecia uma actriz de cinema americano... acho que o Presidente da Câmara devia ter sido o primeiro.”

 

Rodrigo Duterte é assim, diz o que pensa, e o que pensa está muito além dos códigos civilizados.

 

Para a campanha presidencial, Duterte apresentou o seu currículo de lei e ordem em Davao, uma cidade infestada de crime e tráfico de drogas que ele conseguiu conter com políticas brutais. As associações de Direitos Humanos, tanto filipinas como internacionais, protestaram várias vezes, até Duterte encerrar o assunto: “Que se lixem os Direitos Humanos. Não estou nem um pouco preocupado com essas coisas.” Pelos vistos, 39 por cento dos filipinos concordam com esta visão. É preciso levar em conta que, sendo o país muito pobre, com fome, deportações forçadas e outras violências, a droga e o crime fazem parte do dia-a-dia. Drogas leves, pesadas e pesadíssimas são vendidas nas ruas por viciados que precisam de sustentar o vício, fornecidos por uma cadeia alimentar que possivelmente termina nos palácios dos administradores.

 

Há tribunais e leis, inclusive pena de morte. Mas o que Duterte pretende não é levar os criminosos a tribunal. Isso custa caro e leva tempo. Duterte disse aos seus cidadãos que, quando encontrassem um traficante, estavam à vontade para chamar a polícia, ou que resolvessem o assunto logo ali, se tivessem uma arma. "Não digo que o matem, mas a ordem é morto ou vivo." 

 

De Maio para cá, o resultado tem sido fulminante: mais de 800 assassinatos sumários de presumíveis traficantes, feitos pela polícia e por grupos de vigilantes. E dezenas de milhares de outros supostos traficantes e consumidores entregaram-se voluntariamente nas esquadras, achando talvez que uma hipótese de ir a julgamento (se a polícia estivesse para aí virada) sempre era melhor que que ser sufocado com fita-cola enrolada à volta da cabeça, o método preferido pelos justiceiros.

 

Levanta-se imediatamente a questão de condenar à morte pessoas antes de serem julgadas, com o cortejo de injustiças, enganos e vinganças que este sistema proporciona. Mas Duterte, embora reconheça que possa haver enganos, tem a certeza de que vale a pena. Afirma que já matou três passadores com as suas próprias mãos e que o fará sempre que tiver oportunidade; e ainda que quem o fizer não será levado a tribunal. Ou seja, qualquer pessoa pode assassinar outra e depois dizer que era traficante.

 

Mas ainda o calvário dos supostos traficantes começou, já Duterte olha para um horizonte mais vasto. Há dias afirmou que a morte de alguns jornalistas pode justificar-se pela forma como andam a investigar os assassinatos e, pior ainda, casos concretos da corrupção generalizada que sempre navegaram tranquilamente pelas águas filipinas.

 

Em seis anos, o país vai ficar limpinho, a brilhar, sem a mancha das drogas ou das nódoas da corrupção. A comunidade internacional tem mais com que se preocupar do que com as receitas de limpeza de Rodrigo Duterte.

 

publicado às 09:37

A festa continua: como sobreviver ao caos com honestidade?

Depois de, na semana passada, termos sabido que alguns agentes e responsáveis pelas investigações policiais no tráfico de droga, no activo ou na reforma, eram parte interessada do negócio, recebendo luvas, camuflando operações, ou mesmo desviando o olhar das autoridades para horizontes dourados enquanto, nas suas costas, os traficantes agiam tranquilamente, esta semana foi a vez das finanças: quinze detidos pela Polícia Judiciária no âmbito de uma operação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção na zona da Grande Lisboa. Estão envolvidos, tanto quanto se sabe, pelo menos três técnicos das finanças, três chefes de repartição e um inspector tributário. “Presumível prática dos crimes de corrupção activa e corrupção passiva para acto ilícito, recebimento indevido de vantagem e falsidade informática” são os módicos de comportamento em causa…

 

Com noticias deste calibre dentro de casa, torna-se difícil dar atenção aos Panama Papers. Não pelos níveis de relevância de cada um dos casos, mas pela proximidade - que todas as leis do jornalismo determinam que interessam mais ao consumidor. É uma rendição à facilidade (a mesma que nos leva a sentir mais profundamente atentados em Bruxelas do que em Ancara, independentemente do número de vitimas…), mas não há como dar-lhe a volta.

 

Os casos internos destas ultimas semanas, que parecem querer tornar-se recorrentes, e que são bem mais fáceis de entender do que os meandros do dinheiro que navega em paraísos fiscais, demonstram a irrelevância de medidas de austeridade para quem pode “contorná-las”, explicam em boa medida fenómenos como o parque automóvel lisboeta, os espectáculos sempre esgotados, os restaurantes cheios - e desanimam quem, apesar de tudo, vai tentando sobreviver ao caos com honestidade.

 

Apetece desistir, já o disse na semana passada - mas, acima de tudo, impede o cidadão comum de confiar em quem quer que seja.

 

Um policia que se dedica a desmantelar o tráfico de droga, e é afinal parte integrante desse mesmo negócio? Um chefe de finanças que prefere deixar-se subornar a cumprir a mais básica das suas funções, garantir o cumprimento da lei? Onde chegámos?

 

E a seguir: o que nos falta saber? Onde está o bando que se segue? Deixámos definitivamente de ter autoridade para, como fazíamos, falar de forma sobranceira sobre a Itália ou os países da América do Sul. Já não observamos o problema - fazemos parte dele. E o Portugal dos últimos anos, a austeridade, a Troika, o empobrecimento generalizado, começa agora a revelar a sua forma de responder à letra. Lamentavelmente, aplica e dá sentido a um ditado popular: ladrão que rouba ladrão…

 

 

ESTA SEMANA NÃO PASSO SEM…

 

O El Pais é um gigante do jornalismo mundial, e o investimento que tem vindo a fazer no universo digital é um dos muitos bons exemplos do que pode vir a ser o futuro do jornalismo, com ou sem papel impresso…

Agora que o Brasil está no topo da informação diária, a edição local do El Pais é indispensável. Que outras razões não houvesse, consegue manter uma independência, face aos diversos interesses em jogo, difícil de distinguir na restante imprensa brasileira…

  

É aproveitar! A excelente revista “The New Yorker” acaba de lançar a sua app para smartphones: “The New Yorker Today”. Além de juntar as diversas frentes em que a revista se tem desmultiplicado (rádio, podcast, etc…), e de actualizações diárias de informação, ainda tem oito mil dos seus melhores cartoons para nos ajudarem a levar a vida a sorrir. Digo “É aproveitar!” porque a fase de lançamento da app é gratuita… 

Para dar um cheirinho do que se pode ler na “The New Yorker” online e na nova app, uma crónica da divertida Emma Rathbone (cujo primeiro livro, “The Patterns of Paper Monsters", tarda em chegar até cá…) sobre o significado de cada expressão que usamos para nos despedirmos daqueles a quem mandamos mails: do Bjs ao Abraço, é só adaptar…

 

 

publicado às 10:30

O fim

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A semana não tem sido apenas de chuva - tem sido mais escura que cinzenta, mais triste do que a palavra Primavera anunciava. Parece que a jornalista Tereza Coelho tinha razão: quando mais se bate no fundo, mais ele desce.

 

Ponho ao mesmo nível os escândalos Volkswagen, BES, WikiLeaks, e agora o Panama Papers. Todos nascem do mesmo defeito de fabrico humano: a ambição desmedida. E todos resultam de um mesmo raciocínio: é só um bocadinho, sou só eu, ninguém vai dar por nada.

 

Quando se revelam, quando se abatem sobre o comum dos mortais, os casos têm um de dois efeitos: ou nos deixam a pensar que somos totós por não fazermos o mesmo; ou nos deixam de rastos por chegarmos a esta fase do desenvolvimento humano e vermos que, afinal, boa parte dos que nos rodeiam são selvagens e aldrabões sem principio nem fim.

 

Faço parte do segundo grupo, e dou comigo na absurda situação de estar a ver as notícias sobre o Panama Papers ao mesmo tempo que a operadora que me serve ameaça cortar o serviço porque me atrasei no pagamento de uns escassos euros. É a velha máxima dos bancários: quando deves cem euros ao banco, o problema é teu; quando deves um milhão, o problema é do banco. Acrescento: se não quiseres dever, aldraba, corrompe, foge, mente, e no fim, sorri.

 

Batemos no fundo da ética, da seriedade, e do crédito nos políticos, nos gestores, até mesmo nalguns dos heróis que elegemos no mundo do desporto ou da cultura. Parece que se desmorona a ideia de honestidade associada àqueles que admiramos, ou pelo menos respeitamos. Deixámos de estar apenas no domínio do financiamento partidário, ou das empresas sem escrúpulos, para descermos ao rés-do-chão da existência: ter muito e querer ter mais, a qualquer preço, sem olhar a meios; enganar o Estado e com a mesma desfaçatez enganar clientes, sócios, no limite famílias; viver como se não houvesse regras, leis, como se fosse válida a frase “sem rei nem roque”.

 

Sinceramente, não tenho grande interesse em saber como vai acabar tudo isto, se haverá processos e prisões, responsáveis e casos exemplares - porque o desânimo e o descrédito são mais fortes e mais pesados, derrotam princípios e deixam-nos com poucos argumentos para educar bem os nossos filhos.

 

Achamos que o terrorismo é condenável e julgamo-nos superiores porque dialogamos e vivemos em (suposta) democracia. Na verdade, a corrupção e os negócios sujos do mundo do dinheiro constituem a nossa forma de exercer terrorismo. São minas em terreno que dizemos limpo. Arrasam países como bombas. E também matam - quando o desespero de um desempregado chega ao suicídio, ou quando o dinheiro não chega para a renda e “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

 

Cada cêntimo opaco que esteja nos milhões de documentos do Panama Papers foi roubado a um de nós. Ter esta consciência é essencial para entender a gravidade do caso - e para perceber onde chegámos. Chegámos ao fim da linha. Já não há fundo onde bater para que ele desça ainda mais.

 

Esta semana não passo sem:

 

Sobre o mega-caso “Panama papers”, todos os jornais, e não apenas o Expresso, que integra a equipa da investigação, têm tentado traduzir em miúdos o que parece, e é, de uma complexidade que escapa à maioria. Mas nada como ir à fonte e visitar o site do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. Não é tempo perdido…

 

Estreia hoje entre nós “Verdade”, a obra de estreia na realização do argumentista James Vanderbilt - um filme sobre jornalismo, sobre a investigação no jornalismo, sobre a verdade e a mentira, que parece feito à medida para a semana que estamos a viver. Com a garantia das prestações de Cate Blanchett, Robert Redford e Dennis Quaid, o filme tem por base o livro "Truth and Duty: The Press, the President and the Privilege of Power", de Mary Mapes, a produtora envolvida no caso que ficou conhecido como “Rathergate” (foi protagonizado pelo jornalista Dan Rather, da CBS), conta a história deste escândalo à volta de uma investigação sobre George W. Bush ocorrida em 2004.

 

Os 40 anos da Constituição da Republica Portuguesa foram assinalados por todos os media nacionais - mas esta reportagem do “Público” leva, para mim, a taça das taças… 

publicado às 09:23

O jornalismo abre brechas na indústria da camuflagem de dinheiro. E agora, o que vão fazer os políticos?

Por: Francisco Sena Santos

Estamos perante a evidência de como a imprensa, com o jornalismo de investigação, é vital para promover a transparência nas sociedades contemporâneas. Recebemos nestes dias enormes boas notícias para os cidadãos comuns: a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), com o trabalho em comum de 107 empresas de media em 77 países, está a revelar um sistema industrial de fabrico de esconderijos jurídicos para camuflar património, isto é: para esconder riqueza, para subtrair uma gigantesca massa recursos aos cidadãos que com os seus impostos sustentam o Estado e o equilíbrio na sociedade. Está denunciada, com nomes e mecanismos, uma indústria que prospera há décadas em prejuízo dos cidadãos. Abriga-se sob o nome de offshore.

 

 A palavra inglesa offshore traduz-se em português por "longe da costa". Significa algo que está lá longe num mar alto que não se vê da margem. É esse o secretismo e a opacidade que distingue os paraísos fiscais, lugares cuja função é atrair capital e que em troca da oferta ao património ali acostado dão a promessa de escapadela aos radares fiscais. Há momentos em que o segredo é furado. É o que acontece agora com os “Documentos do Panamá”, nome que evoca o título de uma ficção de John le Carré, mas que de facto é um extraordinário triunfo do jornalismo de investigação ao colocar no conhecimento dos cidadãos a prática de complexas operações financeiras que visam a fuga à tributação fiscal. Ficam revelados grandes fluxos de dinheiro camuflado no sistema financeiro global.


O recurso aos offshores, ainda que seja na sua essência uma prática moralmente deplorável, não é por si só ilegal. Não há que estigmatizar quem tem a sorte de possuir fortuna e a quer proteger. Há quem (que percentagem?), tendo o património num offshore, cumpra a devida declaração para efeitos fiscais. O problema começa quando essa promoção do património se serve da opacidade das sociedades financeiras para o ocultar ao fisco e, assim, subtrai recursos devidos solidariamente à sociedade.


Está mostrado como muitos super-ricos e poderosos têm acesso a esses territórios onde conseguem dissimular a sua identidade de donos da fortuna e assim escapam aos deveres de solidariedade representados pela contribuição fiscal. Enquanto os remediados pagam os impostos que sustentam a educação, a saúde, a segurança, a cultura e tudo o mais que é vital para o funcionamento do Estado.


É um estratagema, assente em sofisticadas estruturas confidenciais, que torna os ricos mais ricos e que deixa os outros menos abonados ou mais pobres. Tudo se agrava quando nessas águas turvas dos offshores se misturam dinheiro limpo com dinheiro sujo. É terreno fértil para todas as atividades fraudulentas de colarinho branco.


Vivemos um tempo que é de grande iniquidade. Ao mesmo tempo que os super-ricos camuflam património nos paraísos fiscais, grandes empresas encaminham os seus lucros para países onde a fiscalidade é atenuada. Assim, os Estados, portanto os cidadãos, ficam privados de milhares de milhões em recursos. É o resultado da iniquidade no sistema fiscal internacional.


Nos últimos anos, assiste-se ao derrube do segredo bancário. Mas o sistema financeiro protege-se nos offshores. Os líderes das grandes potências, no G7, no G8, no G20, já várias vezes discutiram o problema dos paraísos fiscais, uma das causas da crise financeira internacional.  Mas pouco mudou. Será por pressão do sistema financeiro internacional? Será porque alguns deles, como agora se vislumbra (Putin e Xi Jinping, através e amigos ou familiares, aparecem entre os 128 responsáveis políticos postos em causa na lista dos “Documentos do Panamá”), estão entre os seus clientes?


A evasão ou o ardil fiscal empobrecem os Estados, o vigor da economia e os serviços a todos os cidadãos. Há um ano e meio ficámos a conhecer o escândalo “Luxleaks”. Quase nada aconteceu. Agora, com os “Documentos do Panamá” que nos mostram como a existência de paraísos fiscais contribui para institucionalizar a injustiça, será que, daqui a uns dias, quando outra notícia substituir a atenção sobre este escândalo, tudo vai ficar na mesma? O jornalismo de investigação está a fazer a sua parte. E a política? Vai ter de contar com o dado novo de uma sociedade civil que já não está alheia.



TAMBÉM A TER EM CONTA:

Está dado um passo triste numa perigosa direção da União Europeia. Começou a expulsão de refugiados. É um negócio indecente entre a Europa e a Turquia. Mesmo assim, no dia em que foram deportados os primeiros 202 refugiados, chegaram à Grécia mais 339.

 

A Polónia volta à batalha em torno do aborto. 

 

Zaha Hadid arquitetava deste modo sublime.

Há reviravoltas que parecem incríveis mas que acontecem: o Leicester, em um ano, passou de último a primeiro no futebol da Premier League inglesa. Em 5 de abril de 2015, era 20º e último na classificação, a 7 pontos da zona de salvação.  Hoje, 5 de abril de 2016, a seis jornadas do final do campeonato, o Leicester é o primeiro da classificação da Premier League, com 7 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Tottenham. A equipa é praticamente a mesma, mas mudou o treinador, agora o italiano Claudio Ranieri.

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, do Público, que dá a palavra a um preso político, Luaty Beirão.

publicado às 06:49

Lula já foi o herói. Agora, aparece cabeça do polvo. Tudo se reduz a isto?

Por: Francisco Sena Santos

O Brasil segue e há-de seguir, como canta Jorge Ben, um país tropical, bonito por natureza. A canção garante que o Brasil também é abençoado por deus. Vemos múltiplos autocolantes a reclamarem que deus é brasileiro. Esta parte, porém, está por demonstrar, a menos que remeta para um deus em fase cruel, como a do Antigo Testamento. É que cada semana brasileira está mais dramática que a anterior, com o país arrastado pela enxurrada de uma crise que é moral, ética, política, social, económica e que, como se não bastasse, também tem uma emergência de saúde pública, com o vírus Zika contra o qual continua a não haver vacina.

 

O Brasil continua lindo nas músicas, o futebol não vai tanto assim, mas a política e os políticos vão ladeira abaixo na maré cada vez maior de protestos impulsionados pela parceria entre Ministério Público, Polícia Federal e a grande imprensa (com o grupo Globo na primeira linha) na denúncia da suja corrupção e lavagem de dinheiro pelo poder político do PT, o Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma.

 

A estratégia de informação e comunicação meticulosamente desenvolvida ao longo dos últimos 19 meses por aqueles três pilares, com a sucessão de manchetes sobre escândalos envolvendo políticos e empresários, está a golpear, de forma que parece não permitir salvação, a cúpula do PT. O clamor popular, com o povo na rua de modo maciço, está a gritar: basta de vocês! O alvo em fundo neste Brasil fraturado, é Lula, o inimigo de classe.

 

Toda a gente já ouviu que no Brasil (como em outros países, claro), para fazer aprovar uma lei no parlamento, é preciso comprar o voto de deputados caciques. Deputados vendem o voto a quem pagar mais. Lula e amigos avançaram por esse caminho. Foram apanhados pela armadilha e são denunciados por muitos que são useiros e vezeiros nessa prática de submundo. Agora, chega para muitos, uma ocasião de ouro para ajustes de contas, desforra eleitoral e reversão do quadro político iniciado em 2003, com a eleição de Lula com 52 milhões de votos, correspondendo a 61,27% do eleitorado brasileiro.

 

Em 2009, no final de uma das pomposas cimeiras do influente G20, o presidente Obama, ao cumprimentar o presidente brasileiro, comentou: “Este é o homem, o político mais popular ao cimo da Terra”. O então presidente do Brasil, um Lula da Silva ex-operário metalúrgico que mal arranhava a fala em inglês, mas com 27 doutoramentos honoris causa de prestigiadas universidades europeias e americanas, era o símbolo mais poderoso da grande mudança ocorrida na América do Sul após o fim da Guerra Fria e com o avanço da globalização. Lula seguiu pelo caminho de reformas iniciado por um presidente com grande mérito, Fernando Henrique Cardoso, e ousou mexer profundamente na estrutura da sociedade brasileira, com demasiados muito pobres.


Nos oito anos da sua presidência (2003/2011), Lula tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza. Fez funcionar o plano Fome Zero, que deu alimento a quem não tinha como comer. O salário mínimo subiu 77%. A energia eléctrica chegou finalmente a áreas rurais habitadas por milhões de pessoas. O analfabetismo recuou imenso. Foi uma década de vertiginoso crescimento económico, de remoção de algumas das antigas injustiças sociais e de aumento do prestígio internacional do Brasil com a diplomacia de Brasília a liderar a fundação, com a Rússia, Índia e China, do grupo BRIC de novas potências.

 

Esse Brasil, inspirador e que parecia feliz, beneficiava de um ciclo económico altamente favorável, quer com a expansão da exploração do petróleo num tempo de barril caro, quer com as exportações agrícolas. Mas esse Brasil potência internacional que passou a reivindicar lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU e que investia milhões na construção de estádios de futebol para o Mundial de 2014 e para os Jogos Olímpicos deste ano, continuava a ser um país com serviços do Terceiro Mundo em setores fundamentais como a saúde, a escola ou os transportes. Foi contra este estado de coisas que começou a disparar há três anos a rebelião das classes médias urbanas – que tinham, em grande parte, ficado de fora das melhorias no tempo de Lula. As “passeatas” sucederam-se, depois houve alguma trégua. Mas a crise económica, que baixou o rendimento das exportações, a que se juntou a depressão com a enorme queda do preço do petróleo, mostrou logo a seguir como o Brasil é um país com pés de barro, com o desenvolvimento sustentado por alicerces frágeis em terrenos movediços e com a classe política habituada a viver na entranhada corrupção que envolve gente do governo e da oposição – tem sido sempre assim no Brasil.


E, no meio de tudo isto, surgiu um justiceiro: chama-se Sérgio Moro, tem 44 anos, é juiz federal e comanda a operação baptizada de Lava Jato, que está a abalar o mundo político e de negócios no Brasil. A popularidade de Moro, com estatuto de herói nacional, está a preencher o vazio político. Moro investiga a trama corrupta de subornos e lavagem de dinheiro. Começou a desmontar o polvo pela petrolífera pública Petrobrás. O fio da meada está a levar a investigação para dentro de ministérios e empresas, e a revelar a corrupção endémica. A impunidade dos mais poderosos acabou. Está em curso no Brasil uma operação “Mãos Limpas” idêntica à que António di Pietro conduziu - antes de, com controvérsia, se assumir político - na Itália dos anos 80 e 90.


Há quem se inquiete com dúvidas sobre a arbitrariedade dos investigadores e a sua hostilidade ao PT – a justiça estará na mão de forças políticas? Há quem também questione a assumida parcialidade dos mais poderosos grupos de media no Brasil.


Seja como for, a presidência de Dilma está bloqueada e a destituição parece no caminho. A economia em implosão. O povão, dividido, em ebulição. Quase toda a classe política está ameaçada. Lula, agora perseguido, depois de ter sido ídolo popular e presidente carismático está na corda-bamba – mas não se pode subestimar o seu instinto político e capacidade para lutar. Há, para Lula, depois de tantos formidáveis êxitos, um fracasso inquestionável: não conseguiu, por não querer ou não o deixarem, resolver o problema da corrupção institucionalizada que põe tanta gente a embolsar dinheiro ilegal.

 

O Brasil está agora extremado, muito bate-boca, muita emoção a puxar fúrias. Provavelmente, vem aí a punição das negociatas na era de Lula. Mas isso não basta para resolver a corrupção entranhada no sistema político. Já tinha sido assim com Collor de Mello, que em 1989 tinha ganho a Lula (53%/47%), mas que três anos depois foi derrubado num “impeachment” por corrupção e lavagem de dinheiro. O problema brasileiro continua a estar no sistema político profundamente inquinado.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Após cinco anos de guerra, há agora uma pontinha de esperança para a Síria? The New York Times vê a trégua iniciada em 27 de fevereiro mais consistente que o imaginado. Os refugiados são gente que está a sobreviver assim.

Achtung, sim, mas dizer-se que o populismo anti-imigração e anti-refugiados se impôs nas eleições estaduais alemãs será exagerar a realidade. Os mais votados, avisa-nos The Guardian, foram políticos que são pela Europa e por uma solução europeia para a crise dos refugiados. Mas a xenofobia e a islamofobia, com a sua linguagem racista, são patologias que passaram a infetar a Alemanha de agora.

Esta outra terça-feira é dia chave no apuramento de candidatos presidenciais nos EUA, com primárias em cinco grandes estados (Florida, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Illinois). A fragilidade de Hillary Clinton é o seu défice de credibilidade - não entra no eleitorado “sub 35”. Donald Trump aparece como um palhaço – mas a fúria dos cidadãos contra o establishment pode causar surpresas.

 

Para que serve um jornal? Este ponto de vista no Jot Down.


Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta do JN, esta do Público e esta do DN. Faz-nos falta este sorriso que passa otimismo. 

publicado às 07:09

Os novos super-heróis vestem fato e gravata

Por: Rute Sousa Vasco

 

Do Japão chegam ideias estranhas, modos de vida que não compreendemos e uma cultura que desafia os nossos cânones ocidentais. Os japoneses são aquele povo esquisito que nos dá sempre a impressão de estar entre a Idade Média e o século XXII. Mas desta vez há uma nova mania nacional no Japão que me arrisco a afirmar poderia correr muito bem pelas nossas paragens.

 

Os japoneses criaram um novo tipo de super-herói: o gestor. Não é um gestor qualquer, mas um gestor que denuncia a corrupção dos patrões, práticas injustas ou que ultrapassa obstáculos que pareciam invencíveis. Estes novos heróis começaram por ser um sucesso nacional em livros de edição popular e chegaram agora à TV. Muitos dos autores das histórias são ex-jornalistas que passaram da informação à ficção. Uma das séries de maior sucesso tem por protagonista Hanzawa Naoki, um gestor de fundos num banco de Tóquio, que denuncia as práticas de corrupção dos seus patrões. O autor do enredo, Jun Ikeido, trabalhou ele próprio num banco e conta que nas sessões de autógrafos dos seus livros lhe chegam sempre pessoas com a mesma proposta: “ligue-me que tenho histórias para lhe contar”.

 

Makoto Sataka foi dos primeiros a escrever sobre este género emergente, há largos anos, na década de 80. O seu interesse por este tipo de romance/novela aconteceu quando era jornalista principiante e se deu conta da dificuldade, sobretudo na área da economia, em se conseguirem boas histórias – ou melhor, em se publicarem boas histórias. "Descobri que escrever sobre empresas no Japão era um tabu. Não se pode escrever a verdade nos jornais”.

 

O que se passa no Japão não é assim tão diferente do que se passa na Europa, nos Estados Unidos. Portugal não é excepção. Existem as regras que voluntariamente – e bem – nos impomos. Umas como garante do Estado de Direito, no que respeita à acção da justiça; outras como obrigação deontológica de quem é jornalista, no que respeita à confirmação de informações e direito ao contraditório.

 

E depois existem as regras não escritas. Uma espécie de bolha que envolve um conjunto de temas e que os torna tão opacos que dificilmente conseguirão ser compreendidos naquilo que se designa a verdade dos factos. E existe também a submissão voluntária de muitos às verdades patrocinadas, entendendo essa fidelidade a pessoas, partidos, empresas ou causas como garante da sua própria sobrevivência ou progressão social.

 

Bancos vão à falência, politicos são investigados por actos suspeitos de corrupção, empresas despedem sem apelo nem agravo – aos jornais chegam, na maior parte dos casos, notícias que são muitas vezes apenas uma nota de ocorrência. Os bancos são sempre matéria sensível, a corrupção é o crime mais difícil de provar em todo o planeta e os despedimentos são vistos como uma praga a que não se pode fugir, nem combater.

 

Com tudo isto a acontecer à nossa volta, o que poderia ter mais sucesso do que um super-herói empresarial? Já vimos, em vários momentos, como nos apaixonam alguns Robin dos Bosques. O recente caso do desaparecimento (lá está, não vou escrever roubo ….) das réplicas do Museu Nacional de Arte Antiga levadas de Lisboa para a margem sul foi um bom exemplo disso. Agora imaginem esses heróis a combaterem corrupção, injustiça e deslealdade nos ambientes bem conhecidos do mundo do trabalho.

 

Não importa que seja na ficção – também já ficou provado que é mais provável que a opinião pública aceite com mais facilidade a homossexualidade através das novelas do que dos debates politicos sobre a igualdade de direitos.

 

Marika Nagai, da Temple University, diz que para se perceber o sucesso dos super-heróis de fato e gravata tem de se perceber os japoneses e as suas ansiedades. "Trata-se de saber como podemos continuar humanos num sistema cada vez menos humano. (…) como podemos continuar humanos, apesar de tudo?”. Eu diria que vale cada vez mais para todos.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

 

OUTRAS LEITURAS QUASE DE NATAL

 

A televisão está a mudar. Oh não, a televisão já mudou! Para todos os que sempre protelam discussões sobre a mudança – foi assim com os jornais e internet, está a ser assim com a televisão – este artigo do New York Times é uma excelente prenda de Natal. Não é apenas na forma como se vê, é na forma como se produz e como se distribui.

 

Em Portugal nem damos por isso, mas no Brasil ficar sem WhatsApp é um caso sério. E aconteceu durante 48 horas devido a uma imposição judicial. Há relatos, como o de um empresário, que diz que “acordar sem WhatsApp no Brasil é como ser atingido por uma epidemia”. Já está de volta, já pode haver Natal em paz e … ligado.

 

Feliz Natal, José Mourinho. Não é todos os dias e de certeza que não é para todos. O Chelsea paga pela segunda vez uma indemnização milionária para despedir o mesmo treinador, José Mourinho. Com os valores envolvidos, e egos desportivos à margem, isto também é Natal.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 10:03

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