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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A primeira ópera no Campo Pequeno

Por: Márcio Alves Candoso

 

Aquele intenso mês de Junho de 1982 ficará sempre marcado pela morte do José João. Chegado a Lisboa nem sete meses passados, o meu tempo dividia-se entre a turma de ‘práticas’ do 3ºano jurídico, o grupo do Coro universitário e a malta das noites da Estrela. Fazia um calor de namoradas, de praias e de fogos na serra, ou de artifícios no Tejo. De exames à porta. E de garraiadas com o José João.

Foi ele, forcado das Caldas mas nascido em Monsaraz, que nos meteu a ideia de ir pegar um touro. ‘É um bezerro, nem chega a ser um touro, não há que ter medo’, dizia para convencer os rapazes da turma. Era, se bem recordo, a garraiada de Agronomia, no Campo Pequeno. Ele é que sabia, e ficámos dependentes da sua sabedoria e uso das práticas taurinas. Ele ia na frente, a gente de ajudas.

 

Nortenho pouco entendido destas coisas que mais se usam na lezíria ou no montado, garanto que só não disse que não porque tive a péssima ideia de contar a perspectiva de aventura a uma menina, que ficou embevecida com a hipótese de me ver na arena da tourada. Aos 20 anos não se promete coragem e fica-se nas covas. Não fica bem, e lá se ia a namorada.

 

Correu bem, aquilo para o José João era manteiga. O bicho é bem maior quando se está nas trincheiras, e as olheiras negras dos moços de forcados engendrados à pressa denotavam o receio de quem nunca se viu em tal alhada. Olhei para a bancada, e lá estava ela. Subiu o camarote, não lhe vi saia bordada.

 

O José João morreu uma semana depois, numa pega de caras em Albufeira. Touro corrido (que já participou em touradas, por isso avisado), disse-se na altura. Nunca foi provado. Foi a primeira e única corrida da minha vida. Isso e as saudades do José João, que era o melhor de todos nós.

 

***

 

Amanhã, a tragédia é bem outra. Na arena do Campo Pequeno quem vai morrer é Violetta Valéry, ‘La Traviata’. Como sempre que a ópera de Verdi, inspirada no drama de Alexandre Dumas, é levada à cena num qualquer palco por esse mundo fora. Amanhã a arena centenária, remodelada faz agora dez anos, estreia-se numa produção desta arte e tamanho, se exceptuarmos a cantata ‘Carmina Burana’ de há uns anos atrás. Trazida pela empresa de espectáculos UAU (ler Uau!), que há tempos colabora com o Campo Pequeno, a ópera será interpretada pela Orquestra Filarmonica del Mediterrâno, com sede em Valência. Hoje poderá ser vista no Porto, no Coliseu.

 

Porque o Campo Pequeno? ‘Há os grandes espectáculos de massas, que podem ir, por exemplo, para o Pavilhão Atlântico, e depois os de menor audiência, para salas de 600 a 1000 espectadores; no caso desta ópera, queríamos um palco intermédio, função que o Campo Pequeno cumpre, pois contamos com 4.500 espectadores’, frisa Rita Duarte, directora de Comunicação da UAU.

 

Porque o Campo Pequeno, onde já só se fazem 13 a 16 touradas por ano, mudou de têmpera. Na década que agora se comemora, por lá passaram 744 espectáculos, que contaram com a presença de 2,4 milhões de espectadores e visitantes. Nas touradas, os números são menores. Cerca de 744 mil espectadores, para 174 corridas. Mas ainda assim consistentes, dizem os responsáveis pela praça. É que depois de uma manifesta crise de audiências, comum aliás a todos os tipos de espectáculo durante a crise económica, no ano de 2015 já se assistiu a uma retoma, ligeira, de 1,8%.

 

As obras efectuadas neste recinto, inaugurado em 1892 depois do abate da arena do Campo de Santana, vetusta e perigosa, permitiram valências várias. De uma sala onde se lidavam touros, passou-se hoje a ter um centro comercial que, em dez anos, teve 34 milhões de visitantes, efectuando um volume de transacções de 259 milhões de euros, segundo dados fornecidos pela empresa. As salas de cinema contam já com um acumulado de 2,1 milhões de espectadores e só em viaturas no parque de estacionamento subterrâneo albergou 4,4 milhões.

 

O museu, inaugurado em Junho de 2015, teve até agora 15 mil visitantes, que se vão habituando a incluir no roteiro de visitas a Lisboa a praça do Campo Pequeno. Na maioria são estrangeiros, e se à partida se poderia pensar que os espanhóis lideravam por largos números, a verdade é que são os franceses quem mais se interessa pela arte e história ligada aos touros. Aliás, curiosamente, a França foi o primeiro país a certificar com o estatuto de património cultural as actividades tauromáticas. Em Espanha, esse país de contrastes, as touradas vão desde protegidas por lei - em Castela, La Mancha, Leão, País Basco ou Comunidade Valenciana - até à proibição, como no caso das Canárias e, em parte, da Catalunha, que neste momento aguarda uma decisão do Tribunal Constitucional sobre o assunto.

 

Há séculos que a tourada anda envolta em polémica. D. José I, que a apreciava, proibiu-a em Salvaterra de Magos, depois da morte do Conde de Arcos, filho do velho Marquês de Marialva, que aos setenta anos, emocionado, ainda havia de matar o touro que lhe tirou o primogénito. Fez-se a vontade do Marquês de Pombal, que não gostava nada de tauromaquia. Já no reinado de D. Maria II houve uma nova tentativa de proibicionismo. Durou nove meses porque o povo, revoltado, trocou as voltas à rainha.

 

Sobre os touros de morte, é outra conversa. Foram banidos das praças portuguesas em 1928, sobrevivendo hoje em dia, por decreto recente que apenas plasmou a tradição que então andava arredada da lei, em Barrancos e em Monsaraz. Proibições em Viana do Castelo, por exemplo, levantaram polémica que está longe de ser diluída na sociedade portuguesa. Mas a verdade é que, com excepção dos distritos de Braga e Vila Real e da região autónoma da Madeira, há espectáculos tauromáquicos em todo o território nacional.

 

Chega a esta altura e faz-se uma declaração de interesses. Quem aí em cima assina gosta de touradas. Vê nisso arte, bravura, cultura e tradição. E portugalidade, já que para ver touros de morte basta atravessar a fronteira. A tourada à portuguesa é, aliás, a única no mundo onde não se mata o touro na arena, permitindo uma sorte que ninguém mais pratica – a pega de caras.

 

Ainda se tentou exportá-la, sendo famosas as digressões de grupos de forcados no México, já lá vão uns anos. Reza a história que muitos espectadores não acreditavam que aquilo fosse possível, e foram mesmo tocar nos forcados para ver se eram de carne e osso, como eles. Na Indonésia – onde se terão levado a cabo as touradas com mais espectadores na História - foram idolatrados e passaram mesmo por semi-deuses. Mas a verdade é que, com excepção de uma ou outra visita ao México e alguma corrida no sul de França, quem quiser ver uma pega tem de vir à terra portuguesa.

 

Um estudo de opinião sobre touradas efectuado recentemente pela Eurosondagem, abrangendo todo o país, mostrou que 32,7% dos entrevistados são aficionados, gostam ou apreciam actividades com touros, 20,6% são indiferentes às touradas, 32,8% não são aficionados mas não são contra as touradas, e 11% são contra as actividades com touros. Ainda, 59,3% dos portugueses acham que as touradas contribuem para uma boa imagem do país no estrangeiro e 75% afirmam que as touradas são importantes, ou têm alguma importância, para a economia e turismo; finalmente, 65,3% acha que seria muito grave o desaparecimento da tradição taurina.

Hoje em dia, só já há touros bravos nas ganadarias de Portugal, Espanha, França e alguns países da América Latina. Outrora existente em toda a Europa, norte de África e Médio Oriente – de onde será, provavelmente, originário – a sua extinção deveu-se, em boa parte à falta de uso. ‘Ninguém está para criar um animal que dá como retorno, em carcaça, uns 200 quilos, quando pode ter outro, que custa metade do preço a criar e que no abate traz 600 ou 700 quilos de carne’, afirma Helder Milheiro, da Protoiro, uma associação consagrada a defender as práticas tauromáquicas e a preservação do touro bravo.

 

‘Sem touradas não há touros bravos’, afirma o mesmo responsável. Defensor de uma ética e de uma cultura - para além da tradição - ligada à festa brava, Hélder Milheiro sustenta ainda ‘as novas formas de comunicação que vão ser necessárias para explicar à população tudo o que está ligado ao touro, desde o seu nascimento até à lide’. Conservador e até elitista, ‘o mundo da tauromaquia esqueceu-se de comunicar’, sustenta; uma prática que terá de ser completamente invertida.

 

Por quanto tempo mais vamos poder ver, em liberdade, um animal que conta com quase 30 mil metros quadrados de espaço para viver, quando a norma europeia de criação de bovinos permite que os seus ‘primos’ tenham apenas nove metros? Que vivam quatro ou cinco anos com condições que mais nenhum animal tem, quando as vacas e bois mansos não passam, geralmente, para além dos dois? Isto, obviamente, se após saírem da praça foram para abate, o que não é nada evidente. Os ganadeiros gostam de guardar, para sementais, os animais que, na lide, demonstraram maior bravura. Ainda ontem vi um, de 14 anos, que de cobridor já nada tinha, mas que ainda gostava de ir á manjedoura que o seu tratador de sempre lhe prepara todos os dias.

 

E há uma economia culinária ‘gourmet’ que tem sido um pouco desleixada; mas isso está a mudar, e na Protoiro, como na sociedade que gere o Campo Pequeno, o assunto está bem assente. Não vai é ser barato comer um bife de touro bravo.

 

***

 

‘Ó Zé João, tu dizes toiro? É touro, pá!’. E assim ficávamos, entre o nortenho que agarrou a forma erudita do Latim, e o alentejano que se ficou pela popular. Mas é tudo a mesma coisa. Até sempre!

publicado às 21:19

Sexo, álcool e moléstias da vida militar (em 1912)

Por: Pedro Fonseca

 

Como era o estado da saúde pública no início do século XX, em Portugal? Uma cartilha militar ajuda a compreender o movimento de higiene que assolava a Europa.

"O exército vem do povo. Esta cartilha de higiene, destinando-se ao exército, - destina-se ao povo". É assim que se inicia a "Cartilha de higiene", uma edição em 1912 do Ministério da Guerra e que ajuda a entender a importância da saúde pública no início do século passado em Portugal.

 

A cartilha inscreve "muito ensinamento valioso e muito conselho útil" e "não é uma imposição da disciplina, é um dever da humanidade".

 

Para contextualizar o lançamento da obra, é preciso recuar quase um século para perceber a sua importância. Usando o texto "Factos relevantes da saúde militar nos últimos 200 anos", publicado em Janeiro de 2014 na Revista Militar, percebe-se que os militares tinham alguma importância nestes temas da sociedade.

 

Desde 1822, data da fundação da Sociedade de Sciências Médicas de Lisboa, esta teve até 1866 uma presidência "preponderantemente de médicos militares, como por exemplo Bernardino António Gomes (filho), médico naval e precursor da psiquiatria portuguesa" que, na década de 40 desse século, irá criar o primeiro serviço de psiquiatria no Hospital da Marinha.

 

Segundo o autor do artigo, Rui Pires de Carvalho, em 1837 ocorreu a criação do Conselho de Saúde do Exército para, mais de 50 anos depois, ser publicado o livro “Questões Médico-Militares – Estudos Militares sobre Serviços Sanitários de Campanha”, do cirurgião de brigada Cunha Belém, e "que lança a questão da necessidade de treino e formação do pessoal de saúde em ambiente operacional".

 

Os desenvolvimentos na higiene em ambiente militar decorriam em paralelo com o interesse na sociedade civil, devido aos avanços científicos internacionais (que apontavam como os germes podiam fomentar doenças e se reclamavam medidas de saúde pública), fomentado por personalidades como Florence Nightingale (1820-1910) no lançamento dos serviços de enfermagem, o casal Pasteur (dinamização da vacinação, entre outros) ou Robert Koch (1843-1910), na revelação das doenças transmissíveis, como a tuberculose.

 

"Aplicações da hygiene publica"

 

Em Portugal, este movimento é dinamizado por Ricardo Jorge. No instituto que agora tem o seu nome e de que foi fundador, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, recorda-se que foi em Junho de 1899 "que se dá a sua consagração em definitivo a nível nacional e a projecção internacional, quando, sem hesitações, chega à prova 'clínica e epidemiológica' da peste bubónica que assolou a cidade do Porto, sendo esta depois confirmada 'bacteriologicamente' por ele próprio e Câmara Pestana".

 

Mas "as operações profilácticas que liderou no sentido de eliminar a peste, como a evacuação de casas e o isolamento e desinfecção de domicílios, entre outras, desencadearam a fúria popular que, incentivada por grupos políticos, obrigam Ricardo Jorge a abandonar a cidade".

 

Em Outubro "é transferido para Lisboa, sendo nomeado Inspector-Geral de Saúde e a seguir professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 1903, é incumbido de organizar e dirigir o Instituto Central de Higiene, que passaria a ter o seu nome a partir de 1929".

 

Ricardo Jorge é ainda lembrado pela organização geral dos serviços de saúde pública (Dezembro de 1899) e pelo Regulamento Geral dos Serviços de Saúde e Beneficência Pública (1901). É desta "reforma" da Direcção-Geral de Saúde e Beneficência Pública e do Instituto Central de Higiene (depois Instituto Superior de Higiene), que se irá "desempenhar um importante papel na educação, formação e investigação em saúde pública, nota Luís Graça na "História da Saúde no Trabalho".

 

A "preocupação essencial era então a protecção e a melhoria da saúde comunitária (e não propriamente a saúde do indivíduo)".

 

No referido regulamento, "os serviços de saúde pública tinham por fim 'vigiar e estudar quanto diz respeito à sanidade publica, à hygiene social e à vida physica da população, promovendo as condições da sua melhoria' e abrangiam:

- A defesa contra a invasão das moléstias exótico-pestilenciais (sic);

- A estatística demográfico-sanitaria;

- A prevenção e combate das moléstias infecciosas;

- A salubridade dos lugares e habitações;

- A inspecção das substâncias alimentícias;

- A higiene da indústria e do trabalho;

- A policia mortuária;

- O exercicio médico-profissional;

- E 'quaesquer outras aplicações da hygiene publica'".

 

É neste contexto que surge, em 1912, a "Cartilha de higiene" do Ministério da Guerra.

 

O que diz a cartilha militar

 

O objectivo do manual de saúde, apesar de se apresentar para toda a população, é naturalmente vocacionado para os futuros militares porque, como se explica inicialmente, "para se ser um bom soldado é preciso, antes de tudo, ser-se um homem são". Um doente será um "inútil" e "pode ser prejudicial".

 

O próprio recrutamento visava "os homens mais sãos e mais fortes", aliciando no entanto que iriam "encontrar no serviço militar melhor alimentação, melhor alojamento e melhores condições de vida", embora estivessem expostos a "um certo número de doenças", nomeadamente contagiosas, como "a tuberculose, a febre tifoide, as bexigas, o sarampo, a papeira (tambem chamada de trasorelho)".

 

Um homem com estas "moléstias, tudo o que o cerca se torna perigoso" por serem "doenças contagiosas" e "produzidas por germes invisíveis chamados micróbios" e que se espalham "no ar, na água e na terra".

 

Esses "micróbios, trazidos de fora do quartel por qualquer soldado, fácilmente passam para os seus companheiros de caserna". O potencial de epidemia ("ou andaço") gerava um "estado de abatimento" que podia facilitar o contágio - apesar de se considerar que "quási todas as doenças se podem evitar". Na ajuda aos colegas, os militares não se deviam "entregar a excessos (alcool, tabaco, mulheres, etc.) porque minguam de fôrças e ficam mais sujeitos às doenças".

 

Apesar do trabalho das autoridades militares, a responsabilidade da diminuição das doenças nesse ambiente dependia "da inteligência e do zêlo do próprio soldado", nomeadamente no seu "asseio do corpo".

 

"Para ter saúde é preciso ter a pele desengordurada e limpa de todas as impurezas" porque a mesma "está crivada de buraquinhos sem conta, que se não vêem, e pelos quais sai, com o suor, grande parte dos resíduos do organismo humano" - resíduos, aliás, "comparáveis aos que contêm as urinas e os excrementos" e que "são venenos". Explicava-se ainda que os "parasitas, uns pequenos bichos, como os piolhos, as pulgas, o bicho da sarna, etc." não existiriam "se houver asseio na pele".

 

O asseio do corpo devia ser garantido por "o soldado lavar-se com água fria e sabão", com a cabeça a "ser ensaboada pelo menos uma vez por semana". O banho ao corpo devia ocorrer "todas as semanas ou de quinze em quinze dias", fosse em "tina ou banheira, em tanques chamados piscinas, nos rios, ou no mar".

 

Este devia decorrer apenas durante 15 minutos e devia-se abandonar o banho com "qualquer arrepio de frio, ou que veja o corpo a cobrir-se de pintas vermelhas". No quartel, à falta do "banho de aspersão", os militares deviam usar o "banho de esponja", em que "qualquer bacia larga, ou alguidar", servia para o efeito. A recomendação era para a vida militar mas devia igualmente prosseguir "mais tarde, na vida de paisano, se tiver apêgo à saúde".

 

Na lavagem da cara, havia de se evitar o sabão "pegado à pele" muito tempo, porque "apodrece e, em vez de limpar, irrita". Fosse Verão ou Inverno, a água "há-de ser fria".

 

Cuidado paralelo é salientado para os ouvidos, onde "se produz uma matéria gordurosa, parecida com a cera, que às vezes endurece, tapa o canal e pode chegar a produzir a surdez completa".

 

Na lavagem da boca e dos dentes, era igualmente recomendado o uso do sabão. "A cária dos dentes pode parecer que não tem perigo" mas "é sempre molesta e desagradável", nomeadamente pelo "mau bafo", mas tendo "maus dentes, deve empregar tambêm na sua lavagem o sabão".

 

A boca merece outros cuidados e não se devem "levar aos beiços quaisquer objectos que não estejam limpos ou possam ser suspeitos, como bicos de lápis, canetas, palitos já servidos, pontas de cigarro, etc."

 

Nos pés, e quando o suor "é muito abundante e quando o seu cheiro é fedorento, deve a lavagem ser feita com água e vinagre ou água e aguardente, ou, ainda, com água na qual se tenha deitado um pouco de pó de alumen".

 

Quanto às unhas dos pés, recomendava-se o "preceito" de serem "aparadas rentes ao sabugo, mas cortadas a direito, em quadrado, porque, se as cortarem em redondo, encravam-se aos cantos e produzem feridas".

 

As "partes e o ânus" deviam ser lavadas "pelo menos, uma vez por dia", nem que fosse com uma toalha molhada. "Sendo asseado, o soldado corre muito menos risco de apanhar males de mulheres".

 

Calvície pelo vestuário

 

Ao nível da roupa, o soldado não devia usar o boné dos companheiros "porque se lhe podem pegar moléstias que fazem cair o cabelo". Mas devia usar "camisa e ceroulas, tanto de inverno como de verão. As ceroulas são úteis contra o frio, protegem a pele e evitam que as calças se sujem por dentro". O soldado não devia usar muito vestuário porque "homem que usa muita roupa é homem para pouco", apesar de não se poderem desabituar "de repente para não os resfriar".

 

Quanto às meias, que deviam ser mudadas de três em três dias, as melhores cores eram a branca ou a cinzenta, porque "as côres vivas são coradas com tintas irritantes ou venenosas".

 

O "soldado asseado" devia "mudar a roupa branca pelo menos de oito em oito dias", devendo sacudi-la diariamente.

 

Alimentação e "abuso da bebida"

 

A cartilha recomenda três princípios no que concerne à alimentação:

- Comer com regularidade, mas tendo em atenção que "o estomago tambêm precisa de descanso";

- "Comer devagar" porque "quem come sôfregamente come mal mastigado; o alimento aproveita menos; o estômago cansa-se mais", recomendando-se que "quando acabar de comer [o soldado] deve ficar ainda com vontade de comer mais";

- Por fim, comer com asseio e evitar "o mau habito de comer a carne, ou peixe, com os dedos, sôbre o pão".

 

Após ter-se alimentado, "o soldado guardar-se há de tomar banho", e "não usará de mulher, pelo menos nas primeiras três horas", bem como de beber líquidos ("o que prejudica a digestão"), evitando ainda "exercícios violentos" e "demasiado movimento", excepto "quando as obrigações do serviço o exijam".

 

A água, que devia ser a preferida dos soldados, só era "de boa qualidade" quando fosse "potável, quer dizer, quando é limpa e agradável à vista, quando desfaz bem o sabão e coze bem as ervas". Na caserna, não se devia beber pela torneira, na qual "ninguêm lhe deve tocar com os beiços, ou com as mãos sujas, sobretudo no bocal", devendo-se usar um púcaro pessoal e intransmissível. Nas marchas, podia usar-se água filtrada por "areia fina, ou do carvão, mas só em casos extraordinários".

A "água fervida" era a bebida recomendada - embora não devesse ser usada a dos poços ou dos pântanos "mesmo depois de fervida" -, enquanto "o vinho, a aguardente, o vinagre, ou o sumo de limão" também se podiam adicionar à água. Já "o vinho fraco e puro", tomado em "dois a três decilitros a cada refeição", favorecia "o trabalho da digestão e reanima o soldado", existindo no entanto o perigo das falsificações e o "abuso da bebida".

 

"A aguardente, os licores e outras bebidas chamadas brancas, alcoólicas ou espirituosas" só deviam ser tomadas por recomendação médica, embora a primeira pudesse ser bebida no Inverno "em pequena porção".

 

O "soldado, como todo o homem do campo, tem o hábito de frequentar a taberna". Este "mau costume" constratava com o potencial de que "o soldado ou qualquer homem, em boa saúde, pode beber por dia até sete decilitros de vinho", só então caindo na embriaguez - algo perigoso para a saúde, tanto mais que "a embriaguez repetida pode levar o homem ao crime, à loucura e à morte, em pouco tempo".

 

O álcool, visto como "prejudicial à pátria e à família", era igualmente olhado como potencial para o aparecimento da tuberculose e incentivava-se mesmo que não deviam existir tabernas junto dos quartéis.

 

Os filhos dos indivíduos alcoólicos herdam "os mesmos ou peores vícios", sendo "umas vezes, raquíticos e enfezados, outras vezes mostram tendência para o crime, se são homens, ou para a prostituição, se são mulheres, quando não nascem já dispostos para a loucura".

 

Os tratos com as mulheres, nomeadamente as "matriculadas"

 

As mulheres eram vistas como as responsáveis pelas doenças venéreas. No capítulo VII explica-se que "o mal venéreo, ou mal de mulheres, é uma moléstia que se péga, em geral, por ocasião do coito".

 

De forma pedagógica, em sete páginas, a cartilha explica que não é "vergonha para o soldado" ou "nenhum homem" contrair este tipo de doença ("não é moléstia que deva esconder-se, porque precisa de tratamento e de cuidados"). Mas, sabendo que a tem, "comete um crime" se depois "tiver comunicação ou trato com qualquer mulher".

 

Recomenda-se ainda que "quando, depois de ter tido uma moléstia venérea, o soldado sinta dificuldade em verter águas, logo deve apresentar-se ao seu médico". É ainda recomendado que não se case sem ter procurado um médico, para evitar uma "má acção" e de ter "filhos que veem já desde o berço tocados do mesmo mal, e que ficam toda a a vida aleijados e doentes, se não tiverem a boa sorte, que muitas vezes teem, de morrer à nascença".

 

A sifílis, ou "mal gálico", quando "mal curado, passa de pais a filhos e herda-se, como se herda o nome, ou como se herdam os bens".

 

O manual recomendava assim a segurança das "mulheres matriculadas", ao contrário das que "andam às sobras do rancho à roda dos quartéis", sendo "mais perigosas do que todas as outras".

 

publicado às 10:46

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