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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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António Costa, árbitro ou jogador?

Por: António Costa

 

António Costa meteu as mãos na massa. Leia-se: o primeiro-ministro é um dos participantes ativos na nova configuração do sistema bancário nacional, no futuro do Novo Banco, do BPI e do Millennium bcp, o que nos faz recordar outros tempos, não tão distantes, em que a intervenção do Governo na ‘coisa privada’ deu péssimos resultados. Porquê? Porque está a fazê-lo da pior forma.

 

A discussão já é inevitável - estamos ou não a caminho da ‘espanholização’ da banca portuguesa? Portugal é ou não mais uma província espanhola aos olhos do BCE, que manda no Banco de Portugal? E o que é que isso impacta na economia e nas empresas portuguesas?

 

A resposta à primeira pergunta é afirmativa. A banca portuguesa corre o risco de ficar dividida entre o banco público, a CGA, e bancos comerciais controlados por Espanha. Há o terceiro setor, onde podem encaixar o Montepio e a Caixa Agrícola, e uma espécie de banco, o IFD, mas não têm o mesmo peso nem capacidade para financiar as empresas e a economia em geral. Além disso, as novas regras de supervisão europeia, a própria união bancária, são um incentivo à criação de grandes grupos na Europa, e o BCE prefere, claro, falar e acompanhar meia dúzia de grupos a partir de Madrid para toda a Península Ibérica.

 

Portugal, é preciso dizer, beneficia muito de ter bancos como o Santander, e precisa de instituições com aquela solidez e fôlego financeiro. Sem ‘mas’. Pressionam a concorrência no crédito aos melhores clientes, sim, e até funcionam como fator de melhoria das contas das empresas, por causa de um regime de avaliação de risco mais exigente do que aquele que é realizado por outras instituições. Agora, também é preciso acrescentar que o Santander tem em Espanha – porque é o seu país – uma estratégia de risco mais próxima da que têm hoje em Portugal bancos como a CGA, o Millennium bcp ou até o Novo Banco.

 

Como é evidente, o problema de endividamento das empresas portuguesas não deve ser assacado à banca, apesar de tantos erros cometidos ao longo de anos, por boas e más razões. É o que é, e que o programa da troika não resolveu. Esta é uma das raízes do problema, o que faz com que tantas e tantas empresas não tenham acesso ao financiamento, menos ainda ao do Santander, para citar o caso mais óbvio. O problema é que a economia portuguesa é a que é, é esta, não é outra. E não vai mudar de um dia para o outro, nem com um choque de risco da banca espanhola.

 

É por isso desejável que haja concorrência entre acionistas que controlam a banca, é desejável que os diversos bancos, dentro do que deve ser uma política de concessão de crédito rigorosa – com base nos depósitos dos clientes que lhes confiam as suas poupanças – procurem mercados e segmentos diferentes. É o que sucede quando há acionistas que controlam as decisões a partir de Madrid ou a partir de Luanda ou de Pequim. E, desejavelmente, de outras capitais internacionais.

 

A questão de Espanha coloca-se, em primeiro lugar, porque não há capital português e isso não se resolverá com manifestos, por mais bondosos que eles sejam. Também não pode ser o Estado a substituir capital nacional privado, já agora; convém que os governos saibam o que querem fazer com a CGD, o que é difícil de perceber. Portanto, o que estamos aqui a discutir é se é desejável capital estrangeiro além do espanhol na banca portuguesa. É, e muito.

 

Qualquer cidadão perceberá que a autonomia de decisão de um presidente de um banco em Lisboa é diferente se responder a Madrid ou a Luanda, se responder a acionistas espanhóis ou a acionistas de outras paragens, europeias, africanas ou asiáticas. É isso que está em causa, e é isso que um Governo deve definir estrategicamente. Não mais do que isso. Porque, no final do dia, o que conta é o capital, ou é isso que deve contar, e a qualidade da gestão.

 

Quando António Costa abriu a porta a envolver-se diretamente na decisão do Caixabank de controlar o BPI a qualquer preço, ou melhor, sem pagar o devido preço, meteu-se onde não deveria. Ainda há poucas semanas, o Governo admitia legislar à medida dos desejos e necessidades de um acionista espanhol contra um acionista angolano. É esse pecado original, o alinhamento com uns contra os outros, que levou Costa à posição em que está hoje. Não só árbitro, mas jogador.

 

 

ESCOLHAS

 

O mundo não está perdido, apesar do que se lê, vê e ouve. Ainda. Um presidente americano aterra em Cuba ao fim de 88 anos. Barack Obama faz uma visita histórica de três dias com um alcance geopolítico que vai muito além de Cuba e do seu futuro. Com um slogan, o da esperança. Para passar de slogan a realidade, o sucessor de Obama vai ter um papel decisivo. O regime cubano tem mais de 50 anos, o embargo comercial dos EUA a Cuba continua em vigor e há uma parte dos americanos que ainda não está convencida da bondade dos líderes cubanos. Mas Obama fica para a história, que não será a mesma a partir de agora. Acompanhe aqui, no Sapo24, os pormenores desta ‘missão’.

 

E quando a igualdade do género está em tudo, na igualdade de oportunidades e na igualdade das remunerações, surge uma voz, masculina, a assumir uma posição divergente. Citado pela BBC, o número um do ténis mundial, Noval Djokovic, questiona a igualdade de ‘prize money’ nos circuitos masculino e feminino. Porquê? Porque os homens levam mais espetadores aos courts e geram mais publicidade. As reações não se vão fazer esperar mas, antes de respostas precipitadas e emotivas, fica a pergunta: quem ganha mais no mundo da moda, as mulheres ou os homens? Nestes casos, provavelmente, a questão não é de género, desde que homens e mulheres tenham as mesmas condições de partida para mostrarem as suas competências.

 

publicado às 11:10

Não se consegue controlar estas pessoas. Ou um filme que já todos vimos.

O telefone tocou, a taxista activou a opção "alta voz" e eu, no banco de trás, fui espectadora do que se seguiu. “Muito bom dia, tenho o prazer de estar a falar com a senhora fulana de tal?”. A taxista confirma, enquanto continua a driblar o trânsito de Lisboa. “Senhora fulana de tal, fala do Banco X e estou a ligar-lhe para lhe oferecer um novo cartão de crédito que estamos a disponibilizar a clientes seleccionados por nós. O cartão permite …”.

 

A frase é interrompida pela minha condutora, que atalha imediatamente caminho: “Não estou interessada”. Do outro lado da linha, não se desarma. “Senhora fulana de tal, mas não tem vontade de fazer aquela viagem com que tanto sonhou ou mesmo apenas ter mais alguma liberdade nas compras deste Natal?”. A taxista começa a ficar francamente irritada. “Só faço viagens quando tenho dinheiro para as pagar e não faço uso de dinheiro que não é meu”. A voz do outro lado acusa um ligeiríssimo requebro, mas recupera. “Mas o que estamos a propor é apenas que tenha mais folga com o seu dinheiro, afinal de contas dá sempre jeito”.

 

Silêncio. “Ouça, não estou interessada. Eu sei como vocês funcionam. Por causa das vossas ofertas, o meu filho meteu-se em grandes problemas e foi uma trabalheira para se livrar deles. Já lhe disse que não quero dinheiro que não tenho e não vale a pena continuarmos com esta conversa”. Pensei que tudo terminaria aqui. Enganei-me. Nova investida: “Mas acha que os bancos é que foram a causa dos problemas do seu filho? Ou não terá sido ele que não soube gerir o seu dinheiro e por isso teve problemas?”. A este ponto, acreditei que a mãe taxista iria meter travão a fundo e partir para a ignorância. Não o fez. Apenas respondeu, em voz firme: “É porque os problemas são nossos e não vossos que não estou interessada. E agora tenho de desligar porque estou a trabalhar”.

 

Este episódio ocorreu antes do Natal de 2015, nos dias que se seguiram ao que agora denominamos “caso Banif”. O banco que se estima ir custar mais uns valentes milhões a todos nós, contribuintes e accionistas do Estado. Alguém escreve os guiões para estes raids dos call centers. Mas isso não é o que realmente importa. O mais relevante é que alguém autoriza, nas administrações dos bancos, que sejam feitas propostas desta natureza suportadas em diálogos como aquele a que assisti. Nas mesmas administrações que em almoços, conferências, ou sempre que os bancos são convocados para participar em iniciativas que possam ajudar a sociedade e a economia, se lamentam do garrote com que vivem nos últimos anos. Do quão difícil é, hoje em dia, ser banqueiro e gerir um banco.

 

São as mesmas pessoas. Podem até ter outros nomes, mas são as mesmíssimas pessoas que lá estavam há oito anos quando a bolha estourou do outro lado do Atlântico e arrastou tudo e todos. Uma mesma classe, com os mesmos vícios e tiques, em que as excepções – que existem – não conseguem domar a regra. Não conseguem mudar a regra.

 

Até Outubro de 2015, o crédito à habitação tinha disparado cerca de 70%. Até Junho do ano passado, o crédito ao consumo tinha também crescido 21,5%. No mesmo ano, em que a economia portuguesa cresce 1,5% e o desemprego, apesar de ter diminuído, ainda é de 12,4% (dados de novembro 2015).

 

Ontem estreou o filme The Big Short – A queda de Wall Street, baseado no livro do jornalista americano Michael Lewis, autor reincidente nos relatos sobre a tribo financeira. Em entrevista ao Expresso, em Outubro de 2014, Lewis dizia, “Coletivamente, comportaram-se como idiotas totais. O problema é que não se consegue controlar as pessoas: esta gente de Wall Street não é leal ao sistema e à empresa, eles são leais a si próprios e ao próprio lucro".

 

Ainda não vi The Big Short no cinema. Mas tenho a certeza de que já todos vimos este filme.

 

 

OUTRAS LEITURAS E DEBATES

 

O ano de 2016 começa sob a égide das mulheres na política portuguesa. Duas candidatas à Presidência da República, Maria de Belém e Marisa Matias, e uma candidata à liderança do CDS-PP, Assunção Cristas. Inevitavelmente, regressaram também as discussões sobre o género na política. Um tema a acompanhar, fazendo desde já votos para que este não se transforme, como também costuma acontecer, num debate das quotas.

 

E porque foi uma semana triste no mundo do espectáculo, apesar de balizada por dois grandes eventos/momentos, os Globos de Ouro e as nomeações para os Óscares, deixo-vos com uma polémica à Tarantino: usar a palavra ghetto é ou não um acto racista?

 

E para nos deixar com os olhos nas estrelas, aqui fica uma descoberta chamada ASASSN15lh. A supernova mais brilhante da história.

 

Tenham um bom fim de semana!

publicado às 10:49

Nunca mais é muito pouco tempo

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Já se choraram todas as lágrimas de crocodilo, já se fizeram as declarações mais pias de intenções, já se jurou sobre o que há de mais sagrado – o dinheiro, pois claro. Depois das perdas astronómicas que a crise financeira de 2008 arremessou à economia real – a das empresas, das famílias, das pessoas que não fazem parte desse Olimpo dos triliões – eis que, sem grande espanto nem alarido, regressamos à terra do nunca mais.

 

Factos: A concessão de crédito ao consumo está novamente a disparar em Portugal. Só em Julho, os bancos emprestaram 276 milhões de euros para efeitos de consumo, o valor mais alto desde Março de 2011, em níveis pré-troika.”Somando a concessão de crédito feita pelas financeiras e também os montantes disponibilizados através de cartões, descobertos autorizados e linhas de crédito, então este valor sobe para os 436 milhões de euros em Julho, ou 2,8 mil milhões de euros nos primeiros sete meses do ano, mais 22% face ao homólogo”, escreve o Económico.

 

Certamente que alguns verão nisto uma notícia sinalizadora da confiança. Os banco voltaram a emprestar dinheiro para gastos quotidianos – pode ser um carro, pode ser uma viagem, mas também pode ser simplesmente dinheiro para pagar outras dívidas em atraso. Da mesma forma que os bancos voltaram a emprestar dinheiro para comprar casa.

 

Factos: Os bancos tinham, no final de Julho, quase 5,4 mil milhões de euros em crédito de cobrança duvidosa das famílias, segundo dados do Banco de Portugal. É no crédito à habitação que o montante de malparado é mais elevado. No crédito ao consumo, o montante dado como de difícil recuperação é superior a 1,3 mil milhões de euros.

 

O tema que vale a pena discutir é que para as pessoas reais e empresas reais muito pouco mudou para não dizer que tudo está na mesma. Dir-se-á que é da natureza conservadora da banca não ter golpes de asa para investir em coisas novas ou de forma diferente. Dir-se-á que as manobras financeiras dos últimos anos fizeram muito pouca evidência dessa natureza conservadora – pelo contrário, antes fosse.

 

Há poucos dias, em conversa com dois empresários de PME ou startups, como prefiram, um de uma empresa de aquacultura e outro de uma empresa de plantas aromáticas, ouvi exactamente o mesmo relato. O périplo pela banca à procura de financiamento, as palmadas nas costas – bela ideia, bela ideia – e o cartão de visita para voltar ao banco uns anos depois, quando o balanço evidenciar que aquela bela ideia é mesmo um bom negócio. Ou seja, quando não precisar do dinheiro, ou pelo menos não precisar desse dinheiro como prova de vida. As duas empresas encontraram caminhos alternativos – uma com investimento que chegou de fora de Portugal, outra com investimento que saiu do bolso de outro empresário. É um final feliz, ou um princípio feliz, como se queira ver, mas em nenhuma destas histórias a banca se portou de forma diferente daquela a que nos habituou nestes já longos 30 anos.

 

Para fazer negócios passou a ser exigível prever o futuro, o que é particularmente curioso quando, retrospetivamente, verificamos que nunca se correram tantos riscos supostamente apoiados em análises de crédito à prova de bala e em ratings inquestionáveis. Para emprestar dinheiro às famílias – na habitação ou no consumo – não há muito que saber. Se tem casa e se tem ordenado, é executável, penhorável, descartável. E hoje, como antes, isso continua a ser uma decisão muito mais fácil do que contribuir para fazer crescer a economia real. A mesma economia que deverá criar riqueza real e postos de emprego reais.

 

Não consigo evitar lembrar-me, uma vez mais, da frase de Henry Ford: «Se as pessoas soubessem como funciona a banca, haveria uma revolução antes da manhã do dia seguinte.»

 

Mas como as verdadeiras revoluções demoram algum tempo, há que não perder de vista as alavancas da mudança. E uma delas é certamente perdermos o medo dos números. É esse o grande objectivo do novo projecto da Pordata que podemos ler no Público. “Na escola, as crianças aprendem a ler, a escrever e a contar. E o que sabemos hoje é que as estatísticas são o abecedário do futuro. Quem não estiver na posse desse abecedário fica com muitas limitações em termos da compreensão da sociedade em que vive.”, explica Maria João Valente Rosa, directora da Pordata.

 

E já que falamos em perceber os números, e no rescaldo de um debate em que as palavras-chave foram ‘prestações sociais não contributivas’, aqui fica um artigo da Renascença para nos ajudar a perceber do que estamos a falar.

publicado às 10:28

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