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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Segurança Nacional

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os russos bombardeiam a Síria, os americanos dizem que, por engano, os mísseis de Putin atingiram o Irão, a ONU quer um governo de união na Líbia e eu já tenho coisas combinadas.

 

Há poucas semanas, em pleno Verão, almocei em Lisboa com um amigo português que há muitos anos vive em França. No decorrer da conversa, falámos de refugiados. Por causa de refugiados falámos da guerra na Síria. Por causa da guerra na Síria, falámos da Turquia. Acabámos com ele a perguntar-me se eu teria mais duas horas para que me pudesse começar a explicar o que se está a passar.

 

Facto: os acontecimentos no Médio Oriente são complexos, nada binários e não se explicam entre dois cafés.

 

Facto: a maior parte de nós, ocidentais, europeus, portugueses, não tem disponibilidade para perceber o que se passa no seu próprio país, quanto mais lá longe.

 

Facto: as duas premissas anteriores podem conduzir-nos a tempos muito negros e isto não é uma afirmação produzida por causa do novo episódio de Segurança Nacional que ontem estreou em Portugal.

 

Todos os dias caem bombas, todos os dias morrem pessoas, todos os dias pessoas cujos nomes não memorizamos trocam acusações. Impressionam-nos famílias com velhos e bebés a jogarem a sua sorte em barcos sofríveis ou em percursos acidentados. Impressiona-nos o bebé Aylan. Impressiona-nos Noujain Mustaffa, a adolescente do sorriso doce. Enfurece-nos o proto-ditador húngaro, mesmo que não saibamos o nome. Enfurece-nos a lentidão da Europa. Enfurece-nos o vizinho do lado que vê perigosos radicais onde vemos simplesmente pessoas.

 

Mas, ainda assim, continuamos sem tempo para perceber o que se passa e provavelmente devíamos, há muito tempo, ter começado por aí.

 

Ontem à noite, em Londres, Meryl Streep falou no evento “Mulheres no Mundo” que foi organizado este ano pela primeira vez. O The Guardian faz-nos chegar as vozes de várias mulheres presentes neste encontro. Streep, a actriz que dará voz a Emmeline Pankhurst no filme “Suffragette”, lembrou que, apesar do direito do voto estar consagrado no Ocidente, ainda há muito para fazer. Ursula von der Leyen, a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na Alemanha, também falou. Foi ela, mãe de sete filhos, que introduziu a licença parental partilhada na Alemanha (quando era ministra do Trabalho) e foi ela que recordou a grande tempestade que isso causou entre alguns homens de meia idade instalados na política e a enorme ajuda que teve de outros homens instalados na política.

 

Depois falou a rainha Rania, da Jordânia e não podia não falar de refugiados. Na Alemanha entram por dia, actualmente, 10 mil refugiados. A Jordânia, país ‘encravado’ entre a Síria, o Iraque e Israel, tem no seu território 1,4 milhões de refugiados sírios. São 20% da população e têm uma fatia de 25% do orçamento do país alocada.

 

“É como se o mundo árabe tivesse sofrido uma série de tremores de terra e todos os dias sentíssemos as ondas de choque”, disse Rania. Ela, nascida numa família palestiniana, pediu, uma vez mais, que o Ocidente não se deixe contagiar pela propaganda extremista. “É muito perigoso pensar no ISIS como islâmico porque de islâmico não tem nada …”.

 

A noite fechou com o testemunho de Vian Dakheel Saeed, uma representante Yazidi (comunidade étnico-religiosa curda) no parlamento do Iraque. Lembrou as 5800 mulheres e crianças raptadas pelo ISIS. Lembrou que muitas são vendidas como escravas sexuais. Lembrou que mil crianças entre os 3 e os 10 anos são mandadas pelo ISIS para campos de treino para se tornarem a próxima geração de terroristas. A irmã também falou. Delan Dakeel Saeed, médica no hospital universitário Rezgary, falou das violações de mulheres e de meninas e do horror que presenciam.

 

Ontem estreou em Portugal a nova temporada de Segurança Nacional. Numa das cenas iniciais, um dos protagonistas, Quinn, agente da CIA, é chamado a contar aquilo a que assistiu em dois anos na Síria. O discurso é contido, factual, desprovido de qualquer sinal de emoção.

 

Quinn é pressionado por outro elemento da CIA, sediado em Langley, na Virgínia, para que diga se a estratégia seguida pelos americanos é correcta ou não. O discurso azeda e termina com duas possibilidades de estratégia: ou se enviam não apenas tropas, mas também batalhões de médicos e professores para as zonas de guerra ou se transforma toda aquela zona num parque de estacionamento.

 

Para os cínicos: antes de responderem, oiçam os relatos de pessoas como as irmãs Dakheel Saeed e depois voltem a pensar no assunto.

 

Tenham um bom fim-de-semana!

 

Leituras sugeridas

 

Já que estamos em maré de nos interessarmos pelo mundo dos outros, fica a sugestão para lermos Svetlana Aleksievitch, a jornalista e escritora russa que ganhou o Nobel da Literatura. Já agora, Aleksievitch é autora de uma série de cinco volumes intitulada "Vozes da Utopia” que foi iniciada com "A Guerra Não tem o Rosto de uma Mulher" baseado em entrevistas a centenas de mulheres que participaram na II Guerra Mundial.

 

Porque a música nos ajuda a levar a vida para a frente, levamos John Williams para o fim de semana. Autor de bandas sonoras inesquecíveis como as de Star Wars, Tubarão, Indiana Jones, Harry Potter e Jurassic Park , foi o escolhido pela American Film Institute (AFI) para receber o prémio carreira deste ano. O melhor tributo é escutar a sua música.

 

A fechar, uma notícia curiosa e quem sabe animadora. Talvez a imortalidade seja uma … anémona. Os cientistas descobriram que este animal, que já se julgou ser uma planta e que partilha ancestrais comuns com os humanos, pode encerrar o segredo da imortalidade.

publicado às 09:54

O país do “tenham-mas-é-vergonha” devia conversar mais com o país do “tenham–mas-é-juízo”

 Por: Rute Sousa Vasco

 

Agora que já passaram 48 horas sobre o acto criador da nova realidade política em Portugal e umas horas depois de Cavaco ter apelado ao “tempo do compromisso”, há duas ou três coisas que podíamos falar entre nós, eleitores e cidadãos portugueses.

 

Sobre os resultados. Todos ganharam, já se sabe.

Até o PS, ganhando poucochinho, lá conseguiu ganhar alguma coisa (face a 2011) e, com alguma felicidade, pode vir a descobrir que lhe saiu um brinde em vez de uma fava.

O PSD/CDS, que queria uma maioria clara, ganhou, porque, afinal de contas, sempre teve a maioria mais inesperada da História de Portugal nos últimos 40 anos.

O Bloco de Esquerda ganhou 260 mil votos e a subida a terceira força eleitoral, mesmo que isso não chegue para evitar a repetição de um Governo PSD/CDS.

O PCP ou CDU ganhou porque ganha sempre, o PAN ganhou um deputado e mesmo os partidos mais pequenos, que tinham ambições de eleger deputados e não o conseguiram, ganharam votos e o financiamento de 2,84 euros por cada eleitor que lhes depositou confiança.

 

Ou seja, em Portugal, perder não é opção. É deselegante e é quase uma desfeita para com todos os que apoiaram quem perdeu. Não se faz. Por isso, conseguimos contar pelos dedos as vezes que políticos, gestores, treinadores de futebol e por aí fora simplesmente disseram “perdi” ou “errei” ou “isto correu mal”.

O que é um problema, porque na lei das probabilidades universais, ganhar e perder estão lá em igual medida, com responsabilidade própria, alheia ou conjugação de ambas.

 

Sobre “que raio de país é este”.

Não tardou, logo que os resultados foram conhecidos, que a expressão popular na voz dos nossos amigos, familiares , conhecidos e desconhecidos aparecesse nas paredes das redes sociais. Ora comemorando uma afluência às urnas que nos tornava subitamente um país mais evoluído e uma democracia mais participativa – e que afinal de contas nunca se confirmou, pelo contrário – quer apelidando todos os que não votaram assim ou assado, consoante as alas, de mentecaptos para baixo.

Ali mesmo, naquele momento, muitos descobriram, como alguém dizia tão bem, que em democracia o voto iluminado vale exactamente o mesmo que o voto às escuras. Seja qual for a iluminação, e sendo humana essa reacção, não deixa de ser extradordinário que seja apenas na ocasião solene do voto que muitos de nós descobrem que não suportam a maioria de todos os outros.

 

Ou seja, descobrimos ao votar que somos um país mais conservador que progressista, mais católico que ateu, mais popular que erudito, mais paternalista que autónomo, mais radical do que conciliador. Um país colado à TV que prefere ver a “A Quinta” das celebridades do que a emissão especial onde jornalistas, comentadores e políticos discutem entre si o que vai ser o país nos próximos quatro anos.

Somos tudo isto, e muito mais, em todos os dias do ano.

 

Sobre “afinal o que é que os portugueses querem”.

Além das tracking polls, esta campanha eleitoral foi também marcada pelos “quizzes” ideológicos. Uma espécie de testes de compatibilidade amorosa, mas feitos à luz da ciência política e aplicados às nossas ideias sobre o mundo e a sociedade.

A simplicidade das perguntas e a transformação dos temas principais da nossa vida pública num quase-jogo tem imensas vantagens. A primeira é retirar os preconceitos que todos temos sobre a esquerda e a direita, hoje em dia conceitos de duvidosa utilidade prática.

A segunda é permitir pensar nos programas partidários à luz de questões práticas do nosso dia e fora das frases sonantes que alimentam a máquina trituradora dos media.

E a terceira é, para quem assim se dispor, evidenciar que não somos binários. Vejam-se temas que tocam a todos, como a saúde. Se a pergunta for se o Estado deve assegurar a prestação de serviços de saúde, consideraremos que a “esquerda” diz que sim e a “direita” diz que não. Mas, se a pergunta for se todos devem beneficiar de igual forma independentemente do seu nível de rendimento, provavelmente teremos outras nuances.

O mesmo vale para as leis que regulam as nossas relações. Adopção por parte de casais do mesmo sexo, por exemplo. Nem toda a esquerda é a favor e nem toda a direita é contra simplesmente … porque este é um tema de valores que supera na maior parte dos casos, e bem, orientações politico-partidárias, ainda que os partidos delas se apropriem.

Outra extraordinária presunção de rótulo político está na divisão do mundo de hoje entre ‘trabalhadores’ e ‘patrões’. Num mundo e num país que em função de tantas mudanças – geracionais, tecnológicas, económicas, sociais – assiste diariamente à criação de milhares de empresas, muitas delas por empresários com menos de um tostão furado no bolso apenas animados por uma ideia, competência ou necessidade, chega a ser cómico ouvir quem quer à força catalogar esta comunidade tão diversificada de pessoas à direita ou à esquerda. À direita, porque são patrões, naturalmente (que isto de ser empreendedor é só um petit-nom), à esquerda, porque são revolucionários, naturalmente (e já se sabe que a direita nunca tem ideias novas).

 

Num país tão cheio de verdades adquiridas, muitos se sentiram demasiado confiantes ou demasiado perdidos neste domingo de eleições. Uns demasiado confiantes que os portugueses sabem bem o que não querem; outros demasiado perdidos da certeza que tinham que o país queria mudar.

Talvez ambos os lados tenham razão. Talvez o país da esquerda que se insurge com a austeridade e grita ‘tenham vergonha’ face à perda de direitos esteja mais perto da direita que sentencia ”tenham juízo” quando se fala de sair do Euro . Talvez seja preciso ter mais vergonha e mais juízo.

 

Talvez precisemos todos de conversar mais uns com os outros.

 

publicado às 22:26

As eleições na TV. E o grande vencedor é: a SIC Notícias!

Por: José Couto Nogueira

 

Embora mais de quarenta por cento dos portugueses não tenham dado por isso, ontem foram eleitos os deputados do décimo quarto parlamento da III República.

 

 

 

 

É verdade, no meio de dois jogos de futebol (que eram para ser três, mas o maldito nevoeiro...) novelas, filmes, programas pimba e outras preciosidades, quem ligou as televisões a partir das sete da tarde não teve outro remédio se não assistir ao despique que de quatro em quatro anos (se tudo correr bem) anima os três canais generalistas e seus derivados por cabo.

 

Para os canais, as eleições representam uma grande oportunidade e um enorme desafio.

A oportunidade é uma “casa dos segredos” única, com personagens reais, votações a sério e bué de expulsões. Um programa com audiência garantida de alguns milhões de telespectadores – os sessenta por cento dos portugueses que se interessam por estas coisas.

 

O desafio é ser diferente. Todos os canais recebem a mesma informação, ao mesmo tempo. À medida que saem as sondagens à boca da urna (primeiro) e os resultados das mesas eleitorais (logo a seguir) é preciso manter os espectadores interessados na corrida, fazendo algo de diferente dos outros canais. 34,5% na Freguesia de Apoucada de Baixo são os mesmos 34,5% na Freguesia de Apoucada de Baixo, por mais voltas que se lhe dê. Como, então, fazer com que aquelas pessoas que estão lá em casa, no sofá, a comer couratos e a pensar que têm de acordar às oito na matina no dia seguinte, não mudem de canal ao mínimo momento morto, à mais pequena perda de interesse?

 

Só há dois elementos diferenciadores: o cenário e os comentadores.

Quanto as cenários, há anos, desde que os israelitas trouxeram um software inovador que permite projectar quaisquer fundos atrás e por baixo dos apresentadores (é o que se diz...), há anos, dizíamos, que nos habituámos a ver a Judite de Sousa a flutuar em Marte, a Clara de Sousa a navegar por um espaço que parece sopa de aletria, ou os participantes no “Eixo do Mal” instalados no que parecem ser as ruínas de Mikonos refeitas pelo Souto Moura encharcado em alucinogénios. Os únicos objectos que ainda têm alguma semelhança com a realidade são as mesas, que não podem ser projectadas, mas aí as economias fazem com que a mesma mesa sirva, por exemplo, ao “Expresso da Meia Noite” e aos “Negócios da Semana”. Ficamos a imaginar os intervenientes de um programa a sair à pressa da mesa para entrarem os seguintes, enquanto a régie muda as nuvens de Juno para as rochas das Hades. Adiante.

Então, ontem, o espaço virtual da RTP era muito deslavado, com uma espécie de passadeiras num salão sem decoração, onde os apresentadores deslizavam como os marcianos de “Marte ataca” (o filme do Tim Burton). Na TVI, o fundo de faixas sempre em movimento dava a sensação de sermos Jonas dentro da baleia, enquanto víamos, perplexos, Miguel Relvas renascer da morte mediática para discutir pacatamente com Constança Cunha e Sá o Governo do Futuro. Demasiadas informações desconexas para uma mente normal.

As melhores cores, os fundos mais calorosos e os comentadores mais familiares estavam todos na SIC Notícias. Houve uma altura, por exemplo, em que os dois minions habituais, Marques Mendes e António Vitorino, trocavam impressões com o vozeirão e ego indestrutível de Miguel Sousa Tavares, o que até teve algum interesse.

Houve um momento “Guerra das Estrelas”, quando Rodrigo Guedes de Carvalho, suspenso numa nave espacial, disse: “E o vencedor é... Pedro Passos Coelho!” e a figura de Passos Coelho apareceu ao lado dele, projectada por um lazer, com volume e tamanho reais. O futuro!

 

Portanto, e para resumir uma longa noite, o vencedor foi a SIC Notícias. Quanto aos outros, fiquem-se com o mantra habitual: em Democracia, há uns que ganham e outros e perdem. E daqui a pouco – parece que já daqui a oito meses – haverá outra oportunidade.

 

 

publicado às 01:41

Gilberto, o homem que não pensa mas existe

Por: Márcio Alves Candoso

 

É taxista há quase 40 anos, e viveu a democracia quase toda agarrado ao volante de uma vida que não escolheu. É boa pessoa, acho. Não sabe onde vota. Perdeu o cartão, mesmo que já não haja, e ele não saiba que já não é preciso. Se não votar, não saberá nunca o que perdeu por isso. Se é que perdeu. Ninguém lhe passa cartão e ele responde mudo, do mesmo modo.

 

Gilberto mudou de concelho. Era o três mil e tal de Oeiras, agora não sabe que número lhe ferraram em Sintra. Sabe a matrícula do carro, e que tem de mudar o óleo aos 800 mil quilómetros, que aquilo já não é novo. Uma vez foi a Espanha, levou-o um tio. Viveu na raia, na serra, antes de vir para Lisboa, aos 14 anos. É um bocado gordo e corado. Tem cerca de meio século, e nunca foi a Lisboa, sítio onde vive há quase quarenta anos. Nunca viu, nem percebeu, onde estava. Se lhe doeu, já não se lembra.

 

Nem sequer emigrou. Não sabia a que horas era o comboio. Não sabia que havia um comboio que atravessa a fronteira, que, na que ele sempre conheceu - e que um dia o levou a Espanha -, não passa nenhum comboio, só um ribeiro que é 'Tajo' de um lado, sendo Tejo na leira que o escolheu para criança.

 

Gilberto não pensa, mas existe. E é casado com a Luzia, embora passe mais tempo com o taxímetro. O mesmo não se pode dizer de Catarina. Ou de António, Pedro e Paulo. Ou de Jerónimo. Estes pensam. Mas é difícil dizer se existem.

 

O povo saiu à rua e a rua ficou vazia. É quase sempre assim quando se vota. Não se nota a diferença entre o antes e o depois. Como é normal em democracia, aconteça o que acontecer amanhã, os transportes vão rodar, os bancos vão penhorar, o Chico da Mouraria vai continuar a cantar, e até a Rosa Maria, da Rua do Capelão, parece que tem virtude. Pelo menos relativa, quando cotejada com um sujeito que é lingrinhas, sentado à secretária da casa da Mariquinhas.

 

Será que chega? A fome, dizia um reitor da Universidade do meu tempo, enquanto palitava os dentes e sorria com as obturações e as pontes, depende da vontade de comer. E não é que o homem tinha razão? Os insaciados têm sempre duas faces, dois modos de ser advérbio. Normalmente são esfomeados. Mas aparentemente são gulosos. Depende de quem arrota por perto. É normal em democracia. É a abóbora da vida.

 

Portanto, e salvo erro ou omissão de Belém, amanhã temos o País estrugido num molho de bróculos. É quase normal em democracia, sendo que é pior se for ditadura. Raio de gente originalmente pecadora que, em mais de quatro mil anos de história humana, ainda não inventou alternativa de cima!

 

O resto, é o do costume. No PS afiam-se as facas longas, no CDS é-se do PSD e no PSD estabelecem-se primazias. No PCP celebra-se a vitória, mais uma das tantas que já conheci, mas quase nunca senti, em quarenta anos de democracia. E a Catarina tem olhos verdes, e basta ela.

 

Os filhos do Gilberto e da Luzia vivem à beira da porta das 'Partidas', num terminal de aeroporto que fica ao Norte de Lisboa. Sem saídas. Vão na fila do meio milhão que não esperou por eles. E os quase meio milhão de bandidos que, de forma corajosa, irresponsável - e tão lúcida que mete medo -, não têm deputado, e que esperam um dia sentar-se à mesa do fim da fome representativa, lá onde há um método de Hondt que faz de conta que eles não amam.

 

E os abstencionistas de Bragança, de Vila Real, de Viana, de Beja ou do ó da Guarda, e de todos os distritos que não há forma de serem nada. Ou são por um ou pelo outro, que é o mesmo de antes com outros contornos, mas calçado nos mesmos coturnos. Condenados à igualdade, são os inferiores do reino.

 

E os desempregados que duram para lá do subsídio, e que estagiam no pão duro de uma entrevista sem forma, a três euros e mais não digo. São tão estafermos, tão indignos, que até são menos do que realmente são.

 

Lá vamos. Rindo com o PS de esquerda, de costas para qualquer margem. Cantando com a social-democracia, de passos que já não voltam. Dançando com a agri-mentira deportados de reforma. Escutando os amanhãs que não sobram, de Jerónimo e os seus apaches. E ainda assim Catarina, menos caviar e champanhe, mas mais 'presunta' e mais 'tinta', teatralmente conseguida.

 

Quando chega ao fim da rua, um dia de fim de vida, o Gilberto desliga o taxímetro. São nove euros e mais uma corrida. Sobram-lhe uns trocos.

 

Valentes e imortais.

  

publicado às 00:28

Onde estaremos a 5 de Outubro?

Por: Patrícia Silva

 As sondagens nada nos dizem sobre um tema incontornável nestas eleições: a abstenção. (...) Há, contudo, poucas razões para que os partidos se preocupem com esta questão. Como refere Wattenberg, a “saída” dos cidadãos da participação política não é necessariamente má para governantes: permite-lhes obter mandatos com menos votos. 

 

Ninguém poderá, por esta altura, estimar com elevado grau de certeza como será a nova composição do parlamento e o equilíbrio de poderes após as eleições legislativas que se aproximam. A julgar pelas sondagens, as eleições de 4 de outubro podem ser as mais renhidas da nossa democracia. É possível, contudo, que à medida que nos aproximemos da data das eleições, a diferença entre candidatos nas sondagens aumente. Eventualmente – e os recentes casos da Grécia e do Reino Unido ilustram-no bem – o voto nas urnas fechadas pode revelar um resultado bem díspar do previsto. Com efeito, é possível prever que o eleitorado comece a pensar onde quer estar no dia 5 de Outubro e pondere o modo como o seu voto pode ter consequências políticas.

 

A replicar-se o cenário das sondagens, que têm demostrado com relativa clareza que a maioria absoluta é quase inatingível nestas eleições, acordaremos no dia 5 de outubro para uma potencial crise de governabilidade, face aos difíceis entendimentos entre forças partidárias para fazer passar o programa de Governo e os orçamentos de Estado.

 

Mas as sondagens nada nos dizem sobre um tema incontornável nestas eleições: a abstenção. É sabido que, nos últimos escrutínios eleitorais, a taxa de abstenção tem registado aumentos consideráveis, tendo-se cifrado em quase 42 por cento nas últimas eleições legislativas, bem acima da percentagem de votos que os dois partidos do “arco da governação” arrecadaram. Em 2011, PS e PSD juntos agregaram apenas 38.7 por cento do eleitorado inscrito. São sinais inequívocos do profundo descrédito em que mergulharam as forças partidárias.

 

Há, contudo, poucas razões para que os partidos se preocupem com esta questão. Como refere Wattenberg (2000: 76), a “saída” dos cidadãos da participação política não é necessariamente má para governantes: permite-lhes obter mandatos com menos votos. O afastamento do eleitorado, permite aos agentes políticos ganhar maior autonomia e liberdade de acção, uma vez que implica menor responsabilização e prestação de contas ou, pelo menos, perante menos cidadãos.

 

O ciclo vicioso que daqui emerge é uma ameaça para a qualidade da democracia, na medida em que esta depende da participação dos cidadãos. Cidadãos distantes exigem menos informação por parte de governantes; mas menos informação acentua a tendência de afastamento e desafeição do eleitorado relativamente à política.

Mais importante do que identificar a origem deste padrão é corrigi-lo. Tornar processos políticos mais transparentes é uma forma de incentivar uma maior participação. Por exemplo, e a um nível básico (mas importante), tal transparência requer tornar o debate político mais claro para os cidadãos – adoptando, por exemplo, uma linguagem menos técnica e que tenha em conta a desigualdade de recursos (educacionais e económicos) da sociedade portuguesa.

 

As condições de governabilidade, a escolha dos pacotes de políticas públicas, e a manutenção da qualidade da nossa democracia alimentam-se (também!) do boletim de voto e não de sondagens. É o voto que vai determinar onde estaremos no dia 5 de outubro de 2015.

 

Patrícia Silva é politóloga e investigadora em Ciências Políticas do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro

publicado às 17:45

Nunca mais é muito pouco tempo

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Já se choraram todas as lágrimas de crocodilo, já se fizeram as declarações mais pias de intenções, já se jurou sobre o que há de mais sagrado – o dinheiro, pois claro. Depois das perdas astronómicas que a crise financeira de 2008 arremessou à economia real – a das empresas, das famílias, das pessoas que não fazem parte desse Olimpo dos triliões – eis que, sem grande espanto nem alarido, regressamos à terra do nunca mais.

 

Factos: A concessão de crédito ao consumo está novamente a disparar em Portugal. Só em Julho, os bancos emprestaram 276 milhões de euros para efeitos de consumo, o valor mais alto desde Março de 2011, em níveis pré-troika.”Somando a concessão de crédito feita pelas financeiras e também os montantes disponibilizados através de cartões, descobertos autorizados e linhas de crédito, então este valor sobe para os 436 milhões de euros em Julho, ou 2,8 mil milhões de euros nos primeiros sete meses do ano, mais 22% face ao homólogo”, escreve o Económico.

 

Certamente que alguns verão nisto uma notícia sinalizadora da confiança. Os banco voltaram a emprestar dinheiro para gastos quotidianos – pode ser um carro, pode ser uma viagem, mas também pode ser simplesmente dinheiro para pagar outras dívidas em atraso. Da mesma forma que os bancos voltaram a emprestar dinheiro para comprar casa.

 

Factos: Os bancos tinham, no final de Julho, quase 5,4 mil milhões de euros em crédito de cobrança duvidosa das famílias, segundo dados do Banco de Portugal. É no crédito à habitação que o montante de malparado é mais elevado. No crédito ao consumo, o montante dado como de difícil recuperação é superior a 1,3 mil milhões de euros.

 

O tema que vale a pena discutir é que para as pessoas reais e empresas reais muito pouco mudou para não dizer que tudo está na mesma. Dir-se-á que é da natureza conservadora da banca não ter golpes de asa para investir em coisas novas ou de forma diferente. Dir-se-á que as manobras financeiras dos últimos anos fizeram muito pouca evidência dessa natureza conservadora – pelo contrário, antes fosse.

 

Há poucos dias, em conversa com dois empresários de PME ou startups, como prefiram, um de uma empresa de aquacultura e outro de uma empresa de plantas aromáticas, ouvi exactamente o mesmo relato. O périplo pela banca à procura de financiamento, as palmadas nas costas – bela ideia, bela ideia – e o cartão de visita para voltar ao banco uns anos depois, quando o balanço evidenciar que aquela bela ideia é mesmo um bom negócio. Ou seja, quando não precisar do dinheiro, ou pelo menos não precisar desse dinheiro como prova de vida. As duas empresas encontraram caminhos alternativos – uma com investimento que chegou de fora de Portugal, outra com investimento que saiu do bolso de outro empresário. É um final feliz, ou um princípio feliz, como se queira ver, mas em nenhuma destas histórias a banca se portou de forma diferente daquela a que nos habituou nestes já longos 30 anos.

 

Para fazer negócios passou a ser exigível prever o futuro, o que é particularmente curioso quando, retrospetivamente, verificamos que nunca se correram tantos riscos supostamente apoiados em análises de crédito à prova de bala e em ratings inquestionáveis. Para emprestar dinheiro às famílias – na habitação ou no consumo – não há muito que saber. Se tem casa e se tem ordenado, é executável, penhorável, descartável. E hoje, como antes, isso continua a ser uma decisão muito mais fácil do que contribuir para fazer crescer a economia real. A mesma economia que deverá criar riqueza real e postos de emprego reais.

 

Não consigo evitar lembrar-me, uma vez mais, da frase de Henry Ford: «Se as pessoas soubessem como funciona a banca, haveria uma revolução antes da manhã do dia seguinte.»

 

Mas como as verdadeiras revoluções demoram algum tempo, há que não perder de vista as alavancas da mudança. E uma delas é certamente perdermos o medo dos números. É esse o grande objectivo do novo projecto da Pordata que podemos ler no Público. “Na escola, as crianças aprendem a ler, a escrever e a contar. E o que sabemos hoje é que as estatísticas são o abecedário do futuro. Quem não estiver na posse desse abecedário fica com muitas limitações em termos da compreensão da sociedade em que vive.”, explica Maria João Valente Rosa, directora da Pordata.

 

E já que falamos em perceber os números, e no rescaldo de um debate em que as palavras-chave foram ‘prestações sociais não contributivas’, aqui fica um artigo da Renascença para nos ajudar a perceber do que estamos a falar.

publicado às 10:28

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