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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A 'showciedade': há uma epidemia de narcisismo?

Por: Helena Oliveira

 

O narcisismo parece estar a contaminar as sociedades ocidentais como se de uma epidemia se tratasse. Os nossos egos estão, de acordo com vários estudos, a engordar a um ritmo bem mais acelerado do que a obesidade física, ela própria decretada como um dos grandes problemas das sociedades ocidentais. Ou seja, temos egos demasiado gordos. Culpa dos pais indulgentes, que transmitem aos filhos a ideia de que são “mais especiais do que os outros”, das redes sociais por proporcionarem o palco por excelência para quem procura exibir a sua grandiosidade ou apenas um “novo normal” ao qual nos temos de habituar?

 

 A modelo Gigi Hadid faz a vontade aos fãs e cumpre o ritual da selfie

 

Recordar-se-á o leitor de um famoso anúncio a uma marca que, há mais de uma década, questionava “se eu não gostar de mim, quem gostará”? E, se puxar pela memória, talvez se lembre também que, passado uns anos, a mensagem da mesma marca se inverteu e o slogan passou a ser “se eu gostar de mim, quem não gostará?”.

Pois bem, a ideia de este artigo não é a de escrever sobre mensagens subliminares veiculadas pelo admirável mundo da publicidade, mas a de alertar para um debate, que não sendo propriamente novo, tem vindo a ganhar contornos renovados com a emergência de uma sociedade em que o narcisismo – ou uma visão crescentemente insuflada do “eu” – parece estar a impregnar-se, crescentemente, em todas as suas esferas.

 

Poderíamos já saltar diretamente para o mundo virtual e culpar, de imediato, as redes sociais – que tão bem veiculam, 24/7, manifestações egocêntricas constantes – mas isso seria escolher o atalho antes de percorrer pelo menos uma boa parte do caminho. Sim, é verdade que ao longo dos últimos anos, e em particular com o advento do Facebook, do Twitter e do Instagram, se multiplicaram os estudos, e a literatura, no que respeita à tentativa de se estabelecer uma ligação direta entre o aumento do narcisismo e os media sociais. Mas, e como defendem também outros “especialistas” da praça, estes servem apenas de meios privilegiados e imediatos para expressar tendências narcísicas preexistentes. E sim, lá iremos, mas não antes de tentar dar uma ordem minimamente cronológica ao assunto.

 

Há já várias décadas, e em particular a partir dos anos 70 e 80 do século passado, que antropólogos, sociólogos e outros “ólogos” afins se uniram na caracterização da sociedade ocidental como “individualista”, fazendo correr rios de tinta sobre o fenómeno. É, no entanto, sobretudo no final do século XX e inícios do século XXI que uma mudança cultural mais alargada, envolvendo valores, crenças e práticas bem demarcadas, se pôs em marcha, e acelerada, no sentido do que já é defendido por vários pretensos entendidos no assunto como a “sociedade obsessivamente narcísica” ou a “epidemia do narcisismo”.

 

quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos

 

Para vários investigadores, uma reflexão sobre este narcisismo aparentemente descontrolado é de particular importância, e há duas perguntas que importa fazer: quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos e de que forma é que este fenómeno altera os nossos relacionamentos com os outros e a visão que temos de nós próprios.

 

Fome emocional ou verdadeiro amor?

 

Para alguns observadores, o fardo é colocado em cima dos ombros dos “novos pais”, que não se limitam a encorajar os seus filhos a alcançarem um saudável autoconhecimento. A título de exemplo, o psicólogo clínico Robert Firestone, no livro “The Self Under Siege: A Therapeutic Model for Differentiation”, afirma que para as crianças se sentirem seguras e terem confiança em si mesmas, é essencial que os pais saibam distinguir a “fome emocional” do verdadeiro amor. Este amor parental “genuíno” inclui carinho, afeição e uma sintonia no que respeita às necessidades das crianças, bem como a oferta de orientação e controlo quando apropriado. Ou, em suma, o tipo de amor que ajuda as crianças a desenvolver uma verdadeira autoestima e não traços de personalidade narcisistas.

 

 

Kevin Frazier, Daniela Ruah, Eric Christian Olsen, James Wolk, e Kirsten Vangsness não resistiram à selfie de grupo na última edição da Comic-Con.

 

Por outro lado, o debate extrema-se entre os que pretendem culpar a Internet e a sua capacidade para customizar as experiências que nela se tem de acordo com os nossos mais ínfimos desejos, o que nos pode tornar mais narcisistas, e os que defendem que esta constitui apenas o terreno apropriado para que traços preexistentes de narcisismo atinjam o seu esplendor.

 

Elias Abajoude, professor de psiquiatria em Stanford, escreve no livro “Virtually You: The Dangerous Powers of the E-personality”, que no espaço virtual muitas das interações físicas que restringem certos tipos de comportamento desaparece, permitindo que comportamentos como delírios de grandeza, narcisismo, malícia ou impulsividade venham mais facilmente ao de cima. Ou seja, “os traços [de personalidade] de que gozamos online podem ser incorporados nas nossas personalidades offline”.

 

De uma forma ou outra, e independentemente das “correntes”, o único consenso aparente parece residir no aumento do narcisismo no mundo ocidental. Resta saber se nos devemos preocupar seriamente com o mesmo ou se estamos, somente, a viver um “novo normal”.

 

Engordar o ego desde pequenino

 

A ideia de que o narcisismo não só está a aumentar descontroladamente, como está a tomar a forma de uma epidemia está bem expressa num livro, publicado em 2009, intitulado exatamente “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement” e escrito em co-autoria por Jean Twenge, doutorada em Psicologia, professora na Universidade de San Diego e autora do best-seller “Generation Me” e por W. Keith Campbell, também doutorado em Psicologia, docente na Universidade da Georgia e considerado como um dos maiores especialistas neste transtorno comportamental.

 

mulheres jovens palestinos tomar selfies durante confrontos com as forças de segurança de Israel na sequência de uma marcha contra a confiscação de terras da Palestina em 15 de abril de 2016 na vila do banco ocidental de Nabi Saleh perto de Ramallah .

 Palestiniana tira uma selfie no meio de confrontos com as forças de segurança de Israel

 

O livro, que retrata esta “distúrbio” como uma praga, avaliou 37 mil estudantes universitários e concluiu que os traços de personalidade narcísica estão a aumentar de uma forma tão rápida quanto os níveis de obesidade (em mais de 50% desde 1980), sendo esta uma das razões que levou os autores a considerarem o narcisismo como uma “doença epidémica”, numa espécie de “egos demasiado gordos”. O livro, que gerou bastante polémica e descrença q.b. por parte da comunidade académica –ao comparar décadas de resultados de testes de personalidade, Twenge concluiu que as gerações mais novas - nomeadamente a Y - são abusivamente privilegiadas, obcecadas por si mesmas e mal preparadas para a vida real – contribuiu, contudo, para estimular, ainda mais , o debate sobre o narcisismo.

 

Culpando a “cultura americana da autoestima exacerbada”, na qual todos os pais se esforçam por assegurar que as suas crias são “especiais” e cujos sentimentos de valor individual e “único” são considerados como pré-requisitos para o sucesso e não o resultado do mesmo, os autores desmontam os mitos prevalecentes que parecem indicar uma tolerância e até um encorajamento social do narcisismo: a de que este é um mecanismo próprio de uma autoestima elevada, ou, ao invés, de uma autoestima reduzida, de que um pouco de narcisismo é saudável e não faz mal a ninguém, de que os narcisistas são, na verdade, “superiores” e mais facilmente atingem o “sucesso” ou, e voltando ao anúncio que abriu este texto, de que temos de nos amar a nós próprios, em primeiríssimo lugar, para sermos capazes de amar os outros.

 

Tudo isto está presente na nossa cultura, defendem, e começa de imediato na tenra infância – parece que comprar t-shirts estampadas com a palavra “princesa” ou o seu correspondente masculino não constitui ação abonatória para os pais modernos. Para os dois psicólogos, as crianças de hoje crescem num mundo de aceitação “normal” de comportamentos e valores narcisistas, sendo que são muitos os pais e educadores que se esforçam por convencer os filhos de que estes são únicos e especiais, elogiando-os a toda a hora, satisfazendo todos os seus caprichos e conferindo-lhes grandes doses de poder.

 

crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente 

 

Ora, e de acordo com Twenge e Campbell, incutir nas crianças este sentimento de unicidade nada mais é do que narcisismo puro e o mesmo chega a situações tão ridículas quanto o facto de 223 crianças nascidas na Califórnia nos anos 90 terem sido batizadas como Única(s), de existirem estabelecimentos do ensino pré-escolar que instituem o”Mês do Tudo Tem a Ver Comigo”, de alguns clubes de desporto infantil terem acabado com os resultados nos jogos, para não amolgarem os egos dos perdedores ou, no extremo oposto, de oferecerem troféus a todos os miúdos, só porque estão numa equipa. E, muito por causa disso, são também cada vez mais os estudos que comprovam que as crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente – que se ofendem à mínima afronta relativamente à sua suposta superioridade e que, de forma rotineira, se consideram a exceção de qualquer que seja a regra.

 

Narciso, Freud, Ayn Rand, Greenspan, Breivick e Lance Armstrong?

 

Mais recente, num registo diferente, mas com algumas temáticas em comum, é o livro “The Life of I: The New Culture of Narcissism”, publicado em 2014 por Anne Manne, jornalista australiana e filósofa social, que cita igualmente um corpo crescente de pesquisa que demonstra o aumento do culto do narcisismo nos países ocidentais. Por exemplo, e tendo mais uma vez os estudantes universitários dos Estados Unidos como universo privilegiado de estudo, a autora garante que são cada vez mais os jovens que elegem a fama e a fortuna como os seus principais objetivos de vida e não, por exemplo, o bom caráter e o bem que faz fazer bem aos outros, mais consentâneos com as gerações mais velhas. Para a jornalista, o ‘umbiguismo’ atual está, também, a tornar-se num “novo normal”. E, em sintonia com Twenge e Campbell, também Anne Manne concorda que o narcisismo é estimulado por pais indulgentes, que não sabem estabelecer limites e que incutem nos filhos um sentimento de autoestima exagerado.

 

Apesar de o narcisismo ser terreno propício ao estudo por parte de psicólogos e psiquiatras, esta jornalista, mas também filósofa social, sempre se interessou por este “distúrbio de personalidade” e, no livro em causa, não só revisita as ideias de autoridades na matéria, como por exemplo as de Sigmund Freud, pioneiro no estudo sobre a temática, como dá exemplos de criaturas atuais que tão bem vestem as roupagens de Narciso - o jovem caçador que se apaixonou pelo seu reflexo – e que haveria de dar o nome, curiosamente pedido emprestado por Otto Frank, um colega do próprio pai da psicanálise, a todos aqueles que sentem “um apetite enorme e constante de serem admirados, que revelam sentimentos de superioridade, uma predisposição para a exploração, impulsividade e ausência de empatia e, talvez mais importante que tudo, uma agressividade retaliatória quando sentem que o seu ego inflacionado é, de alguma forma, ameaçado”.

 

Na sua cruzada de rever o trabalho de muitos investigadores académicos, entre outros apaixonados pela temática, Anne Manne garante que o narcisismo está em genuíno crescimento um pouco por todo o lado e, mais preocupante que tudo o resto, são os seus impactos tóxicos na comunidade, na cultura, na política, na economia e até no ambiente. Para a autora, a ideologia prevalecente do neoliberalismo alimenta a cultura do narcisismo e as consequências deste repasto são globais. Apontando o dedo às crenças e práticas construídas em torno da idolatria dos mercados e da glorificação da ganância, é na cultura do auto interesse, particularmente em voga a partir dos anos de 1980, que os comportamentos narcisistas encontraram terreno fácil para crescer e se multiplicarem.

 

Hillary Clinton: fazer selfies com apoiantes é um clássico das campanhas eleitorais 

 

Para exemplificar as múltiplas dimensões narcísicas do neoliberalismo, a jornalista australiana utiliza como exemplo uma das mais influentes defensoras do individualismo no século XX, a escritora, dramaturga e filósofa norte-americana (apesar de nascida e educada na Rússia) Ayn Rand. Tendo como base a filosofia aristotélica, Ayn Rand é a fundadora do objetivismo, que elege a razão e a lógica como a única forma de observar o mundo, ao mesmo tempo que defende fervorosamente que o indivíduo tem o direito de viver por amor a si mesmo e sem ser obrigado a se sacrificar pelos outros. Admiradora do egoísmo ético, do capitalismo do laissez faire, e do sistema que definiu baseado no reconhecimento dos direitos individuais, a filósofa que condenava, entre variadíssimas coisas, o altruísmo, haveria de servir de inspiração a muitos americanos, contando, no seu círculo íntimo de amigos e admiradores, com um acólito muito especial: o economista Alan Greenspan. Aquele que viria a ser presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos é, para Anne Manne (e não só), um dos grandes responsáveis pelos fundamentos da crise financeira global de 2008.

 

Um outro exemplo de como o narcisismo tem consequências e impactos globais negativos está relacionado com as alterações climáticas. Para a autora, o ceticismo persistente no que respeita ao aquecimento global é, também, um claro sintoma de um narcisismo crescente. A nível individual, a relutância em se alterar comportamentos em prol de um bem maior ou a inexistência de qualquer preocupação face ao planeta que iremos deixar às gerações futuras constituem sintomas claros de um narcisismo crescente. E, é claro, a nível político e económico, os interesses instalados da indústria dos combustíveis fósseis e o amor sem limites aos lucros de curto prazo encaixam igualmente bem nas características do mesmo.

 

Em “The Life of I”, e entre outros exemplos bem conhecidos, a autora traça o perfil do assassino em massa Anders Breivick, mas também do famoso ciclista americano, entretanto caído em desgraça, Lance Armstrong. No primeiro caso e recordando que apesar do termo “narcisista” não ter, na linguagem popular, uma conotação assim tão negativa, Anne Manne recorda que o mesmo é reconhecido como uma desordem da personalidade que inclui traços patológicos.

 

Recordando a publicação online do manifesto de “auto grandeza” com 1500 páginas escritas pelo assassino norueguês, a 22 de Julho de 2011, dia do massacre dos 69 jovens na ilha de na ilha de Utoya, o qual expressava a superioridade do mesmo face ao ódio visceral que manifestava contra muçulmanos, feministas ou multiculturalistas, e que acabou por resultar na morte de 77 pessoas no total, a autora elenca um conjunto de traços facilmente reconhecíveis nos narcisistas mais “psicologicamente desordenados”: a ideia de grandiosidade, a obsessão com a aparência, o culto da superioridade e a total ausência de empatia face aos demais.

 

Já o caso de Lance Armstrong é apresentado como um bom exemplo do “narcisismo no desporto”, acompanhado de corrupção e erosões de caráter, sendo que o que a autora pretende sublinhar é a ideia de que “não importa quem está no caminho, nem o como se chega lá, o que interessa é ganhar”. Ao questionar se a corrosão do caráter no desporto é emblemática de um sistema social mais alargado, Manne leva-nos a perguntar a nós mesmos se o narcisismo não é, afinal, o “caráter” dos nossos tempos ou o tal novo normal que muitos parecem defender.

 

Importante sublinhar é o facto de o narcisismo não constituir, simplesmente, “egoísmo ou vaidade exacerbados”. Citando Christopher Lasch, autor do livro “The Culture of Narcissism”, publicado em 1979, Manne recorda o que Lasch descreveu há quatro décadas e que tão bem parece encaixar em muitas das caracterizações que comummente são aplicadas à tão falada geração Y da atualidade: “superficialidade, incapacidade para o compromisso, uma autopreocupação alimentada pela ‘sociedade do espetáculo’ na qual as pessoas se comportam como ‘se as suas ações estivessem a ser gravadas e simultaneamente transmitidas a uma audiência invisível’”.

 

O que parece indicar que Lasch era um visionário ou não vivêssemos nós hoje num permanente espetáculo, ao vivo e em transmissão contínua, não só protagonizado por uma praga de Kardashians, mas também por especialistas em selfies, egocêntricos palradores e vaidosos em excesso que, a todo o momento, nos querem convencer de que não existe vida melhor que a deles.

 

#eu ou a vida no Inchagram e arredores

 

Uma pesquisa rápida no Google e chovem estatísticas, acompanhadas de inúmeros sites que “ensinam” a obter os melhores resultados de exposição possível comparativamente aos nossos pares. Mas fiquemo-nos pelos números: os utilizadores do Instagram partilham cerca de 70 milhões de fotos por dia; no Facebook, o upload de fotos chega aos 300 milhões diários, em cada 60 segundos são atualizados 293 mil estados, “postados” 3,5 mil milhões de likes num só dia e todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes; por último e no Twitter, 310 milhões de utilizadores enviam, diariamente, 500 milhões de tweets, 83% dos líderes mundiais têm aqui conta e Caitlyn Jenner foi a personalidade que mais rapidamente atingiu um milhão de seguidores (em apenas quatro horas).

 

todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes

 

Que terreno mais fértil do que este para acolher narcisistas e, consequentemente, para alimentar dezenas de estudos sobre a ligação direta entre o aumento do narcisismo e as redes sociais? Apesar de não existir um consenso generalizado sobre o fenómeno, inúmeras investigações têm sido levadas a cabo para comprovar que o aumento do Distúrbio da Personalidade Narcisista (ou transtorno, ou desordem, dependendo dos autores) está intrinsecamente relacionado com a ubiquidade dos media sociais. Comportamentos como as tentativas obsessivas de atrair o maior número possível de seguidores, a tendência exagerada de expor os pormenores da vida privada (desde que positivos, é claro) e a necessidade de se projetar uma imagem perfeita continuamente, têm sido descritos pelos investigadores como exemplos inequívocos da exibição de traços de personalidade narcisista nas redes sociais.

 

Trabalhadores da construção civil retratam-se com François Hollande 

 

Curioso é, contudo, o facto de em 1987 – e uns bons anos antes do boom da Internet – os psicólogos Hazel Marcus e Paula Nurius terem defendido a existência, em cada um de nós, de dois “eus”: um “eu agora” e um “eu possível”. Pois bem, seria então a Internet a possibilitar a qualquer pessoa optar pelo seu “eu possível” ou, pelo menos, apresentar uma versão desse “eu” tão desejado.

 

Num excelente artigo publicado pelo The New York Times, intitulado “Narcissism is Increasing. So You’re Not So Special”, o autor que o assina recorda o filósofo francês Jean-Jacques Rousseu e os seus escritos sobre o amour-propre, uma espécie de auto-amor baseado nas opiniões dos outros. Considerando-o como não natural e não saudável, Rousseau acreditava que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem as suas vidas tentando parecer e soar atrativos para os demais. E isso, como sublinha o autor, é uma boa forma de descrever esta aparente epidemia que tanto debate está a causar. Como escreve “na mitologia grega, Narciso não se apaixonou por si mesmo, mas sim pelo seu reflexo. E se transpuséssemos o mito grego para a sua versão moderna, “Narciso iria apaixonar-se pelo seu próprio feed no Instagram e morreria à fome devido à contagem compulsiva do número dos seus seguidores”.

 

Ora, comportamentos compulsivos desta natureza são comuns em muitas pessoas que conhecemos, em particular nos casos em que uma selfie “perfeita” é publicada e existe uma verificação contínua do número de likes que a mesma vai gerando. Em linha com algumas das investigações que negam a relação direta entre o aumento do narcisismo e a utilização dos media sociais, o autor do artigo defende que não é o Instagram, ou os seus similares, que criam um narcisista, mas e tal como defendem também outros estudiosos do assunto, as redes sociais podem, sim, agir como um “acelerador”desta desordem, na medida em que oferecem a plataforma ideal para facilitar aquilo que os psicólogos denominam como o “exibicionismo da grandiosidade”.

 

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais, nos Estados Unidos, o narcisismo é uma patologia bem definida, sendo claro que os narcisistas procuram os locais ideias nos quais podem ganhar a sua tão necessária audiência. E, no que a esta necessidade diz respeito, são as plataformas online que melhor palco oferecem para os que sentem uma urgência contínua de se autopromover, comportamentos estes exemplificados pela atualização do “estado” a cada cinco minutos, com a publicação frequente de fotografias de si mesmos, das festas que frequentam, das viagens que fazem, dos restaurantes exóticos que experimentam, dos feitos das celebridades que admiram, e de citações e mottos que servem para se auto glorificar.

 

Face à multiplicação de estudos sobre o aumento de narcisismo nas plataformas sociais, a versão online da famosa revista Psychology Today, lançada em 1967, efetuou um excelente trabalho de compilação dos mais importantes, sendo que alguns são merecedores de especial atenção. De acrescentar ainda que a maioria destes estudos tem como “alvo “ principal os representantes da geração Y, apesar de, em alguns casos, as conclusões baterem também nos egos dos mais “adultos”.

 

"o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista" – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é

 

Apresentado na convenção anual da American Psychological Association, um estudo da responsabilidade de Larry Rosen, da California State University, demonstrou que os jovens que mais tempos passam no Facebook têm uma maior probabilidade de exibir tendências narcisistas, em conjunto com outros problemas comportamentais. O psicólogo em causa afirma também que os efeitos negativos relacionados com uma utilização abusiva dos media sociais incluem uma maior propensão para a vaidade, para comportamentos agressivos e antissociais, e que estes excessos podem resultar numa performance académica mais pobre.

 

Por seu turno, Dilney Gonçalves, da IE Business School em Madrid, conduziu um estudo que argumenta o que há muito é comummente sabido: a tendência que todos temos em avaliar o nosso sucesso na vida comparando-o com o dos outros. Como escreve “o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista” – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é. O investigador acrescenta ainda que quanto mais amigos se tem, maior é a propensão para se passar o dia a ler, invejosamente, sobre as férias paradisíacas de um, a nova e gira namorada de outro ou a promoção fantástica que um outro ainda teve no seu já fantástico emprego.

 

Já os investigadores Laura Buffardi e W. Keith Campbell (o co-autor do livro “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement”) acima mencionado, levaram a cabo também um estudo, publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, que comprova dados já previamente existentes. Como explica Buffardi, “concluímos que as pessoas mais narcisistas utilizam o Facebook com vista à sua autopromoção e de uma forma que pode ser facilmente identificada pelos outros”. O número substancial de “amigos” e a forma como os posts aparecem nas suas páginas correlacionam-se facilmente com as características identificadas nos comportamentos narcisistas, garantem ainda os dois psicólogos. E, se por um lado, sabemos que o Facebook se transformou numa parte normal da vida social – mesmo que virtual – de jovens e adultos, por outro, “os narcisistas usam-no exatamente da mesma forma com que se relacionam com os demais na vida real – para a autopromoção e com um especial ênfase na quantidade em detrimento da qualidade”.

 

Angela Merkel dá autógrafos enquanto jovens de uma escola se fotografam junto da líder alemã

 

Um outro estudo, da responsabilidade de Elliot Panek, da Universidade do Michigan, optou por analisar não só o Facebook, mas também o Twitter. De acordo com Panek, “através do Twitter, os jovens tentam alargar os seus círculos sociais e transmitir as suas opiniões”, sendo que ao longo do processo sobrestimam também o valor e importância das suas opiniões. Todavia, e de acordo com as conclusões do estudo, o resultado mais interessante cifra-se no facto de “entre os jovens adultos e estudantes universitários, termos concluído que aqueles que resultados mais expressivos tiveram para certas tipologias de narcisismo são mais adeptos do Twitter, ao passo que entre os adultos de meia-idade, os narcisistas elegem antes o Facebook para os seus posts de autopromoção”.

 

Muitos mais exemplos poderiam ser dados para ilustrar a ideia de que as redes sociais atraem os narcisistas como as abelhas são atraídas pelo pólen e, citando mais uma vez o trabalho de Laura Buffadi, existe um consenso alargado que “os narcisistas utilizam o Facebook e outras redes sociais porque acreditam que os outros estão realmente interessados nas suas vidas, ao mesmo tempo que é seu desejo inato quererem que os outros saibam tudo sobre as suas vidas também”. Consensual é também a ideia de que as redes sociais encorajam a autopromoção, na medida em que são os seus utilizadores que geram os conteúdos que as alimentam. Keith Campbell explica ainda que muitas pessoas utilizam estes meios para se “mostrarem importantes, se sentirem especiais e para ganharem atenção, status e autoestima”. Mas o problema, e mais uma vez, reside no facto de quase toda a gente que tem esta necessidade excessiva de mostrar o quão perfeita é a sua vida apresentar retratos irrealistas de si mesmos. Tal como as pessoas selecionam as suas melhores fotos para constarem no seu perfil (pelo menos, uma grande maioria), a tendência para povoarem os seus newsfeeds com os mais atraentes pedaços das suas vidas é exatamente a mesma.

 

A culpa é do Facebook?

 

Kim Kardashian e Kanye West num evento social: um casal que está e faz por estar sempre no centro das atenções

 

Mas se o Facebook, e seus similares, são indubitavelmente plataformas por excelência para muitos narcisistas, é impossível afirmar taxativamente que são as redes sociais as “culpadas” deste “pico narcísico”. E como afirma Shawn Bergman , um reconhecido psicólogo que estuda a geração Y, “existe uma significativa quantidade de pesquisa psicológica que demonstra que a personalidade de cada um de nós está quase completamente ‘estabelecida’ aos 7 anos de idade”. Assim, e dado que a política do próprio Facebook e de outras redes conexas não permite o registo de utilizadores com idades inferiores a 13 anos, “os traços de personalidade dos seus utilizadores estão já bem enraizados na altura em que as visitam pela primeira vez”.

 

Será que isso significa que, afinal, são os pais indulgentes os culpados desta pretensa epidemia? Não sabemos. Mas e já agora, aceite o convite para testar o seu nível de narcisismo. A não ser que se sinta demasiado especial para se dar a este trabalho.

 

 

 

 

 

 

publicado às 11:38

Lembra-se da última vez que jantou sem que houvesse um telemóvel à mesa?

Por: Helena Oliveira


Um passeio com os seus filhos em que tenha resistido a dar um olhinho ao Facebook. Ir para a cama com a sua cara-metade, resistindo a espreitar o que de tão importante se estaria a discutir no Twitter. Ou passar uma hora a olhar o pôr-do-sol e a pensar só com os seus botões, resistindo a tocar nos ditos homólogos do smartphone. Lembra-se quando foi a última vez?

 

Se respondeu que sim a mais do que uma destas perguntas, parabéns. Tal significa que controla a tecnologia e ela não o controla a si. Mas se não resiste a seguir as histórias ininterruptas que o universo digital nos oferece e prefere teclar em vez de conversar face a face, é uma boa oportunidade para perceber por que motivo Sherry Turkle, uma das mais reconhecidas especialistas do mundo em interações entre humanos e máquinas, lançou um livro em que faz um apelo coletivo à recuperação da conversa olhos nos olhos… sim, as que costumávamos ter antes de sermos silenciados pela tecnologias que nos oferecem comunicação e interação ilimitadas.

 

“Os nossos smartphones [e companhia limitada] não são meros acessórios, mas sim poderosos dispositivos psicológicos que alteram não só o que fazemos, como o que somos”. A frase é de Sherry Turkle, do MIT, doutorada em sociologia e psicologia da personalidade por Harvard e investigadora, há mais de 30 anos, da forma como os humanos interagem com os computadores e com a inteligência artificial.

 

 Sherry Turkle, imagem de jeanbaptisteparis, licença CC-SA 2.0, via Wikimedia Commons

 

Mas, e ao contrário de vários especialistas em tecnologia que, de pioneiros evangelistas e otimistas da Internet, se transformaram em acérrimos críticos da mesma, como é o caso de Jaron Lanier, autor do livro “You Are Not a Gadget”, ou do ainda mais reconhecido Nicholas Carr, cujo manifesto “ The Glass Cage” se tornou num case study obrigatório e num retumbante sucesso de vendas, ou ainda de Andrew Keene, que no seu livro “The Internet Is Not the Answer”,Turkle opta por uma abordagem empírica dos vários problemas que identifica no mundo “netcêntrico” da atualidade. Além disso, tem o dom de ser uma “moderada” no que à diabolização das tecnologias diz respeito. Crente dos inegáveis benefícios que o progresso tecnológico propicia, mas cética q.b. dos admiráveis mundos novos que nos são ofertados pela magia digital, Turkle tem, contudo, o enorme poder de nos inquietar. Porque nos obriga a olhar para nós. E para além de nós.

 

A viagem que a fundadora e diretora do programa do MIT Technology and Self iniciou há mais de três décadas, com pleno otimismo, tem vindo a sofrer alguns revezes menores, em conjunto com abalos profundos, os quais foram devidamente registados numa trilogia de livros que lhe conferiram um reconhecimento ímpar e o estatuto de ser considerada como uma espécie de “consciência” para o mundo tecnológico, como a apelidou o The New York Times.

 

Em termos muitos gerais e, em particular na última década, Turkle tem vindo a alertar para o facto de cada vez esperarmos e exigirmos mais da tecnologia e, em simultâneo, sermos cada vez menos exigentes no que respeita aos nossos relacionamentos, aqueles que são “reais e humanos”. Mas antes de mergulharmos na sua mais recente obra –  publicada em Outubro último e intitulada “Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age” - , vale toda a pena fazer um breve rewind e ter uma ideia da evolução do seu trabalho, na medida em que o mesmo conta uma história em que o elenco, e sem fazermos muito esforço, é composto por todos nós.

 

 O primeiro livro de Sherry Turkle, sobre “computadores e pessoas” foi publicado em 1984 e intitulava-se “The Second Self. Nestes anos idos do século passado e uma década antes de nos rendermos ao poder mais do que sedutor da Internet que viria a mudar o mundo, já a autora encarava a tecnologia não somente como uma ferramenta, mas como parte (ainda que futura) das nossas vidas sociais e psicológicas. Ao longo dos vários anos da sua investigação, Turkle foi alterando o seu enfoque de pesquisa, substituindo o relacionamento “um-para-um” existente entre os computadores e os indivíduos, pelo papel que os primeiros tinham em moldar os relacionamentos entre as pessoas.

E é assim que surge, em 1995, o livro Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet” que se debruçava sobre “as novas oportunidades de explorar as identidades online”. Nessa altura, Turkle era admiradora confessa dos espaços fornecidos pelos ambientes virtuais, especialmente aos jovens, que serviam de terreno para experimentação de outras identidades e, segundo acreditava, ajudariam no processo de se definir aquela que seria a “mais verdadeira” de todas.

Finalmente, em 2011, publica em livro o resultado do seu estudo etnográfico, feito ao longo de 15 anos e com base em largas centenas de entrevistas e experiências com crianças, jovens e adultos, o qual viria a ser intitulado Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Neste, que está muito perto de constituir um tratado por excelência sobre as relações humanas na era digital, é expressa a preocupação crescente de que os computadores (e demais dispositivos), em vez de se tornarem catalisadores para se repensar a nossa identidade, surgem antes como os responsáveis por abalar, de forma significativa, a capacidade de nos relacionarmos, com significado, uns com os outros. Mas também connosco próprios.

 

Afinal, todos sabemos que usamos a tecnologia para controlar e não para sermos controlados por ela.

 

Estamos a ser silenciados pela tecnologia

 

“Blá, blá”, poderemos todos afirmar se esta aparente filosofia da treta surgir numa jantarada de amigos, enquanto cada um de nós, às claras ou sub-repticiamente, vai dando um olhinho ao que se passa no Facebook, envia um tweet inadiável ou googla como vai estar o tempo amanhã. Afinal, todos sabemos que usamos a tecnologia para controlar e não para sermos controlados por ela. Mesmo que ela seja omnipresente, na mão ou à mão, esteja sempre em cima da mesa onde jantamos, na cama onde nos deitamos com a nossa cara-metade, nos passeios que damos com os nossos filhos, nas reuniões de trabalho em que colegas com gosto por se ouvirem a si mesmos nos obrigariam a morrer de tédio – se não existisse a “bela altura para ver a campanha da La Redoute” – ou enquanto fingimos que ouvimos a nossa mãe a contar a sua última incursão pelos descontos do Continente e estamos a ver o que se publicou, nos últimos minutos, no Instagram.

Sim, vivemos no mundo da conexão incessante e da comunicação constante. Mas para a investigadora há um senão: “estamos a ser silenciados pelas tecnologias”, numa espécie de “cura para a conversa”, e em que “este silêncio significa que a nossa capacidade para nos relacionarmos com os outros está também a desaparecer”. E com ela, a aptidão para a introspeção, para a empatia e para a autorreflexão.

 

Exagero? Talvez não. Se não, vejamos.

 

A lâmpada de Aladino e os 3+1 desejos

Quando, em Alone Together, observou as interações das pessoas com os robots, e as entrevistou sobre a sua relação com os computadores e telemóveis, Turkle traçaria os caminhos através dos quais as novas tecnologias transformam os velhos valores em obsolescência. “Quando substituímos os cuidadores humanos por robots ou um animal de estimação por uma versão robótica do mesmo começamos por argumentar que estas substituições são ‘melhor do que nada’ mas, no final, acabamos por as considerar ‘melhor do que qualquer outra coisa’ – mais limpas, menos arriscadas e menos exigentes”, escreve.

 

As interações observadas por Turkle entre as pessoas e a inteligência artificial patente nestes novos robots remetem para a questão do “vivo o suficiente”. Como alerta, e no que respeita aos mais novos, “esta geração de crianças tem algo especifico em mente quando afirma que as ‘coisas estão suficientemente vivas’”, afirmou, em entrevista à revista Time, aquando do lançamento de Alone Together. “O robot é suficientemente vivo para ser meu amigo” é uma expressão recorrente por parte das crianças entrevistadas por Turkle. Ou seja, o que significa que algo é suficientemente vivo para ser, por exemplo, um professor? Ou suficientemente vivo para fazer companhia a um idoso?

O que Turkle considera é que, cada vez mais, vivemos num mundo em que os relacionamentos são medidos como “melhor do que nada”. Se uma criança é alérgica a animais, então ter um robô de estimação é melhor do que não ter nenhum, mais ainda porque não morre e pode ser desligado para não nos incomodar. Ou seja, um animal de estimação robot é melhor do que um real, porque nos oferece coisas que um ser vivo nunca poderia oferecer: uma espécie de controlo total, sem surpresas e uma relação feita à medida na qual as coisas acontecem exatamente como nós queremos. E esta premissa serve também para a forma como nos relacionamos com as nossas identidades online. O controlo dos relacionamentos é, para a investigadora do MIT, um tema fulcral na era da comunicação digital.

 

E basta pensarmos um bocadinho para admitir que, muitas vezes, a preferência pelo virtual em detrimento do real acaba por ser uma opção consciente de muitos de nós. Tal como ao escolher um robot para fazer companhia a uma criança, quantos de nós optam pelo tão necessário sentimento de pertença oferecido pelos media sociais, na medida em que “ali” não existem os perigos e os compromissos que as interações numa comunidade “real” encerram? E a autora sabe do que fala porque nas centenas de entrevistas que tem feito observa, mais vezes do que seria normal, um profundo desapontamento com os seres humanos, que têm falhas e são distraídos, carentes e imprevisíveis, ao contrário das máquinas que foram concebidas para não “serem” nenhuma destas coisas.

 

texting, os tweets, os emails, as mensagens instantâneas ou os snapchats – uma espécie de torpedos vertiginosamente rápidos próprios da comunicação online – substituíram as conversas face a face

 

Assim, a talvez maior novidade que salta à vista no novo livro de Turkle – que, desta feita, não tem robots como personagens – é o surgimento de uma insatisfação, crescente, com a tecnologia, a qual foi confessada por muitos dos entrevistados, crianças e jovens incluídos, os quais, ao longo dos últimos cinco anos, serviram de “material humano” para esta sua mais recente investigação, e que a autora interpreta como um “sinal de esperança”.

 

Escrevendo que o texting, os tweets, os emails, as mensagens instantâneas ou os snapchats – uma espécie de torpedos vertiginosamente rápidos próprios da comunicação online – substituíram as conversas face a face, a especialista em tecnologia e relações humanas afirma também que, talvez pela primeira vez, as pessoas começam a ter alguma noção das suas consequências. “O excesso de confiança nos dispositivos está a danificar a nossa capacidade de termos conversas com valor uns com os outros – a coisa mais ‘humana’ que fazemos – porque o universo digital fragmenta a nossa atenção e diminui a nossa capacidade para a empatia”, pode ler-se revista The Atlantic. De certa forma, o seu mais recente livro pode ser considerado como um alerta para o facto de que “a submissão extasiante às tecnologias digitais conduziu ao atrofio das capacidades humanas, em particular da empatia e da autorreflexão, e que chegou o tempo de nos reafirmarmos, comportarmo-nos como adultos e colocar a tecnologia no seu devido lugar”.

 

Todavia, o problema é que, para a esmagadora maioria das pessoas, a vida já não faz sentido sem uma ligação ilimitada e contínua aos dispositivos digitais. E tal deve-se ao facto de, aparentemente, tal como uma espécie de lâmpada de Aladino, que nem precisa de ser esfregada, mas apenas ligada, a tecnologia concede, de mão beijada, pelo menos três irresistíveis desejos. “O primeiro é o de que seremos sempre ouvidos; o segundo é o de termos o poder de colocar a nossa atenção ao serviço de qualquer coisa que desejemos e o terceiro, é o de que nunca estaremos sozinhos”, escreve.

 

A tecnologia oferece-nos ainda um extra: para além de nos servir de consolo, de refúgio, funciona como um amigo que está sempre presente ou como uma apólice de seguro contra o aborrecimento.

 

Complementarmente e mais generosa do que o próprio Aladino, a tecnologia oferece-nos ainda um extra: para além de nos servir de consolo, de refúgio, funciona como um amigo que está sempre presente ou como uma apólice de seguro contra o aborrecimento. Para além de nos ofertar, basta que o queiramos, uma versão melhor de nós mesmos – aquela que escolhemos mostrar aos nossos seguidores e em que o enfoque pelo que realmente somos é substituído por uma autorrepresentação ideal e pela ânsia do feedback instantâneo. E o que esquecemos, ou em que nem sequer reparamos, é que estes “eus” que idealizamos acabam por deixar os outros, os verdadeiros, completamente sozinhos. Os eus ideais digitais comunicam sem cessar, mas cada vez sentem maior receio em comunicar face a face. “Optamos pelos nossos telefones em vez de escolhermos estar com os outros”, afirma Turkle, e isso acontece nas amizades, nas famílias, nos relacionamentos amorosos e no local de trabalho. E se acontece com os adultos, mais facilmente acontece com os jovens e com as crianças que estão a crescer num ambiente em que os olhos nos olhos estão a ser largamente ultrapassados pelos olhos nos ecrãs.

 

Mais preocupante ainda é o facto de que muitas das coisas que constituem a essência da humanidade começam a estar seriamente ameaçadas quando optamos por as substituir pela comunicação eletrónica. “Se não nos conseguimos separar dos nossos smartphones, acabamos por ‘consumir’ os outros em ‘bits e pedacinhos’ e é como se os usássemos como peças sobressalentes que suportam os nossos egos frágeis e vulneráveis”, acrescenta ainda. Mas o problema é que “estarmos sozinhos com os nossos telefones é, também, a nova forma de estarmos juntos”, acrescenta ainda Turkle.

 

Shame on us!?

 

À primeira vista, e talvez à segunda também, o discurso de Turkle pode parecer meio apocalíptico e até moralista. Afinal, todos nós sabemos que a vida que é exposta, por exemplo, no Facebook - desde os relatos de férias fantásticas, aos feitos individuais que partilhamos com resultados sempre excelentes, às festas a que vamos e onde nos divertimos imenso, entre outras maravilhas similares –é cor-de-rosa demais para ser verdade. Mas, talvez o mais surpreendente, como afirma a investigadora, é que “na ânsia de sermos ouvidos [ou lidos] pelos que estão “longe”, corremos o sério risco de perdermos aqueles que mais perto de nós estão”. Ou seja, publicar fotografias dos nossos lindos filhos, por exemplo, não substitui a nossa presença “verdadeira” nas suas vidas. “Que disparate”, apressamo-nos nós a ripostar. Mas não existirá aqui um fundo de, pelo menos, alguma verdade?

 

Existe um ciclo, vicioso e que se perpetua, que é preciso quebrar: os pais oferecem telemóveis aos filhos; os filhos aprendem que a batalha da atenção que desejam dos pais não pode ser vencida pois estão a competir com os seus smartphones sofisticados e interessantíssimos, acabando por se refugiarem nos seus próprios telemóveis

 

No seu livro, Turkle examina todos e cada um dos aspetos da conversação – seja aquela que temos com nós mesmos, com a família e com os amigos, com os professores e parceiros românticos, com colegas e clientes ou com a ‘coisa pública’ alargada – fazendo um excelente trabalho a demonstrar que todos eles sofrem de uma “erosão eletrónica”. E o que mais inquieta na leitura – e que é comprovado por várias entrevistas e experiências que a autora levou a cabo com adultos, mas também com muitas crianças e jovens – é o afastamento e desresponsabilização que muitos pais têm em relação aos seus filhos exatamente porque com tanta coisa “importante” para partilhar, comentar, gostar, com emails de trabalho para responder, com apps a apitar, o smartphone tem, tal como os membros da família que connosco vivem, o seu “prato” à mesa ou o seu lugar nos supostos momentos de lazer em que nos devíamos “contentar” com a mera presença de quem gostamos.

 

Esta “morte” das conversas em família é uma das secções do livro de Turkle que, pelo menos para os que são pais, obrigará (ou assim se espera) a parar por uns instantes – sem existir necessidade de irem a correr googlar sobre possíveis traumas que estejam a infligir nos seus rebentos – e a ver o filme – não no Netflix, mas na sua própria cabeça – dos que se reúnem todos os dias com os que vivem lá em casa, mas também com os que vivem nas redes sociais.

 

Para Turkle, existe um ciclo, vicioso e que se perpetua, que é preciso quebrar: “os pais oferecem telemóveis aos filhos; os filhos aprendem que a batalha da atenção que desejam dos pais não pode ser vencida pois estão a competir com os seus smartphones sofisticados e interessantíssimos, acabando por se refugiarem nos seus próprios telemóveis. De seguida, os pais utilizam a absorção dos filhos como permissão para usarem os seus smartphones tanto quanto desejam (…)”.

 

Razão alguma teria Steve Jobs quando fez saber ao mundo que, em sua casa, o iPad era fruto proibido nas mãos dos filhos.

 

De acordo com as inúmeras experiências, entrevistas e estudos que tem feito, Turkle não tem pruridos em afirmar que “são muitas as crianças e jovens que estão a crescer sem nunca terem tido uma conversa com os seus pais que não tivesse sido interrompida por um dispositivo digital”. E, mais grave ainda, ao aprenderem que, independentemente do que façam, nunca conseguirão competir com estes “seres tecnológicos preferidos”, as crianças crescem num ambiente não só privado de palavras por parte dos adultos, mas também de contactos visuais duradouros. O mesmo vale para a era dos tablets que, de forma fantástica, conseguem entreter as crianças à hora do jantar e até substituem os pais à cabeceira dos filhos contando-lhes histórias para adormecer. Razão alguma teria Steve Jobs quando fez saber ao mundo que, em sua casa, o iPad era fruto proibido nas mãos dos filhos.

 

Colocando todo o ónus nos ombros dos pais – conseguindo que muitos destes se sintam realmente culpados - Turkle afirma que a única forma de quebrar este ciclo é responsabilizar os adultos e recordar-lhes que são eles os mentores dos filhos. Mas, e em simultâneo, a autora também reconhece a dificuldade da adoção de novos comportamentos. “Os (ou pelo menos alguns) pais temem ficar para trás na mestria tecnológica face aos filhos; as conversas com os mais novos exigem tempo e paciência e é muito mais fácil e cómodo demonstrar o amor parental através da publicação de fotos ou ‘gracinhas’ dos filhos nas redes sociais”, ironiza. Mas o que estas atitudes representarão na vida de uns e outros pode vir a não ser facilmente apagado no futuro. Na vida não há “undo” ou “unsubscribe”. E se é para nos sentirmos culpados, que seja mais tarde do que nunca.

 

Uma app que alerte para um “DO NOT DISTURB”?

 

Compreender o que está em jogo nesta submissão e utilização viciante dos dispositivos digitais poderá ajudar a alterar os nossos comportamentos, não só para o bem dos nossos descendentes, mas para o nosso próprio bem. Autoestima, capacidade para estarmos sós, confiança, empatia, pensamento crítico e monotasking. No final do livro de Turkle, estas são as mais-valias que poderiam resultar se existisse um dispositivo que nos encorajasse a não estarmos constantemente ligados. Mas um interface desta natureza, escreve, iria ameaçar a esmagadora maioria dos modelos de negócio da indústria tecnológica, cujos lucros gigantescos derivam, diretamente, da força de (a)tração cada vez mais forte que nos mantém colados aos nossos mais fiéis amigos tecnológicos.

 

Entre inúmeras experiências narradas ao longo de livro, uma delas conta o que aconteceu, num campo de férias, com jovens divididos em dois grupos: aos que era permitido utilizar telemóveis e tablets “normalmente”, e um outro, no qual qualquer dispositivo eletrónico era proibido. Este grupo “device-free” começou por apresentar sintomas próprios de uma “cura para um vício”, com amuos e irritações a pautar os comportamentos dos miúdos nos primeiros dias. Até que, rendendo-se às evidências, acabaram por descobrir que era possível, e muito divertido, conversarem e brincarem entre si sem recurso à tecnologia.

 

Assim, a especialista em psicologia humana oferece argumentos sólidos que ajudam a compreender a importância de existirem “espaços sagrados” livres de dispositivos digitais – em que a única atividade permitida é a velha conversa, com nós próprios e/ou com os outros, a leitura de histórias em conjunto, um simples jantar sem talher para o telemóvel ou uma sala de estudo com apenas livros e cadernos –, em conjunto com o abandono do mito que nos faz acreditar que o multitasking é imperativo no dias que correm no que respeita à boa produtividade, substituindo-o pelo “unitasking”, o qual nos obriga a concentrar numa tarefa de cada vez e resistir à urgência de endeusarmos o smartphone como a ferramenta universal que tudo consegue substituir.

 

Em 2014, uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center, comprovou que as pessoas são menos propensas a expressar as suas opiniões nos medias sociais quando temem que os seus seguidores possam discordar delas

 

E por várias e importantes razões.

 

Se nos habituámos a acreditar que o tempo em que estamos sós, connosco mesmos, podia ser “curado” e resolvido pela presença da tecnologia, está na altura de nos lembrarmos que essa capacidade para a solidão nos ensina a concentrar, a imaginar e a criar, a ouvirmo-nos a nós próprios e a desenvolvermos o nosso “eu” verdadeiro, competências cruciais para as conversas que mantemos face a face.

 

Quando falamos com alguém em pessoa somos forçados a reconhecer a sua humanidade ou, por outras palavras, a recuperar a empatia perdida – que nada mais é do que a capacidade de nos colocarmos na pele dos outros e de os reconhecermos como humanos que são, com virtudes e defeitos, e não como seres virtuais que “são muito mais felizes do que nós” e que, por exemplo no Facebook, nos fazem temer contrariar ou discordar dos seus pontos de vista legitimados por um sem número de likes (em 2014, uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center comprovou que as pessoas são menos propensas a expressar as suas opiniões nos medias sociais quando temem que os seus seguidores possam discordar delas).

 

Por outro lado, porque se as tecnologias digitais representam a cura para o aborrecimento, está também comprovado que é nas alturas de tédio que mais desenvolvemos a nossa criatividade e imaginação. E porque a lista já vai longa, a autora sugere veementemente o abandono do multitasking pela concentração numa tarefa só, de cada vez, resistindo à dispersão e fragmentação promovidas constantemente pelos apelos sedutores do universo digital – o “uni” ou “monotasking” é, para a autora, a “the nex big thing”.

 

“Recuperar a conversação” é a proposta de Sherry Turkle. Em conjunto com a promessa de que, se usarmos a tecnologia com parcimónia, as nossas crianças terão um melhor desenvolvimento, os nossos estudantes aprenderão melhor e os colaboradores terão uma melhor performance, se os seus “mentores” optarem por uma substituição das “salas de chat” por salas de conversas face a face.

 

Para Turkle, ainda vamos a tempo de corrigir alguns erros e de nos lembrarmos de quem somos – criaturas com história(s), psicologicamente ricas, capazes de terem relacionamentos complexos, de exporem os seus pontos de vista sem temor de serem criticados, que gostam de arriscar e que compreendem que a melhor forma de nos relacionarmos com aqueles de quem gostamos é olhá-los nos olhos.

 

P.S. para os que chegaram ao fim, sem terem tweetadosnapchatado ou googlado: é favor partilhar este artigo no Facebook. Mas só depois de terem deitado os filhos e lhes terem contado uma história…

 

 

publicado às 15:15

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