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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Somos só pessoas estupidamente normais

Por: Rute Sousa Vasco

Há semanas em que todos aqueles que escrevem sobre o que se passa no mundo não evitam o que, em regra, tentam evitar. Ou seja, escrever sobre as mesmas coisas que outros já escreveram. Quem publica à sexta-feira, depois de uma semana intensa de acontecimentos (Nice, Turquia, Convenção Republicana, para nomear os mais globais), fica com um problema ainda maior. Isto para dizer que também eu não consigo evitar. Trump, Erdogan, extremismos, ignorância, medo. Como evitar?

 

 

As escolhas democraticamente eleitas por todo o mundo têm nos obrigado a uma reflexão ampla sobre a democracia. É um tema difícil que, inevitavelmente, acaba com a frase de todos conhecida: “não é um sistema perfeito, mas não se encontrou ainda melhor”. O que, até prova em contrário e face às alternativas, é, sem dúvida, verdade. Mas também é verdade que o conceito de participação popular se alterou radicalmente nos últimos cinco anos, mercê da explosão das redes sociais, e com consequências, aos mais diferentes níveis, que ainda ninguém conseguiu efectivamente perceber.

 

 

Por causa dos acontecimentos em França e na Turquia, na semana passada, falei com várias pessoas que vivem em cidades como Paris, Nice, Istambul, Ancara e Londres. Pessoas que não se conhecem umas às outras – nenhuma delas. Pessoas com contextos de vida diferentes, com profissões diferentes, com idades diferentes. Em todas, senti a mesma apreensão. Em nenhuma, senti ódio ou vontade de alinhar por qualquer extremismo. Uma delas falou comigo, ao telefone, enquanto a noite de Istambul era disputada pelos militares ditos golpistas e o “povo de Erdogan”, aquele que as mesquitas chamaram à rua para defender a nação. Ainda o desfecho era incerto e já me dizia do outro lado da linha que, de certeza, que Erdogan teria tudo controlado. “Acho que no domingo está tudo resolvido”, comentava na madrugada de sábado. No domingo, estava tudo não apenas resolvido como perdida qualquer réstia de esperança que a Turquia não se torne mais um problema – um problema de uma dimensão que só conseguimos imaginar e temer.

 

 

Em Istambul, como em Paris, ou em Nice, as pessoas com quem falo só querem ter uma vida normal. Tomar o pequeno-almoço com a família, levar as crianças à escola sem recomendações especiais, ir trabalhar sem pensar duas vezes no trajecto, ter amigos sem pensar no bilhete de identidade, visitar amigos sem que lhes seja pedido bilhete de identidade, jantar fora porque é sexta-feira, talvez ir dançar, talvez ir ouvir música. Na loucura, quem sabe ir assistir a um fogo de artifício. E poder rir, mesmo que se seja mulher – a quem a tribo Erdogan recomenda recato na via pública. Uma vida estupidamente normal.

 

 

Esta normalidade daqueles com quem falo não é exactamente a mesma que as televisões me mostram.  Nem aquela que as redes sociais comentam. Em Cleveland, nos Estados Unidos, terra que consagra como primeiro postulado da constituição o direito a procurar a felicidade, vejo pessoas iradas com Hillary Clinton, gritando pela sua prisão, vomitando ódio a cada sílaba. Hillary está longe de ser uma candidata entusiasmante. Nem vale a pena dizer que nunca será Obama, porque isso era admitir que sequer estava no mesmo plano. Não se comparam metros com litros.

 

 

Mas este ódio? Katty Kay, jornalista e apresentadora da BBC, vai na 17ª convenção republicana que acompanha. Diz que nunca viu nada como isto. “Sinceramente, não sei se é por Mrs. Clinton ser mulher. Talvez seja porque está há tanto tempo na política ou porque o seu servidor de email faz parecer que ela pensa que está acima da lei. Mas o ódio que lhe votam é viciante e visceral. Isto tornou-se a convenção do ‘prendam-na’. Perguntem aos delegados sobre Mrs. Clinton e vejam-lhes o brilho nos olhos – ela é o “mal”, uma “mentirosa”, e “perigosa”."

 

 

Reparem, estas são as mesmas pessoas que querem ver Donald Trump presidente da América. As mesmíssimas pessoas que não querem a sua opositora porque, deduz-se, não se reconhecem na maldade, na mentira e no perigo. 

 

 

A insanidade.

 

 

Trump, o agitador, o atiçador de serpentes, o quase-inimputável, parece até um tipo de moderado quando a isto apenas responde: "Vamos derrotá-la em Novembro”.

 

 

Se a democracia é a escolha da maioria, precisamos mais do que nunca de saber quem é esta maioria. Há ódio nas pessoas normais – sempre houve. Mas esse tem sido sempre o triunfo da humanidade sobre a bestialidade: vencer o ódio, começando pelos ódios de cada um, em prol de um bem maior, que é a sobrevivência.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões:

 

O que pode a tecnologia fazer por nós, além de naturalmente nos permitir jogar Pokémon Go (o incontornável tema lúdico desta semana)? Muita coisa e com pensamento politico à mistura. Senão veja-se esta história dos robôs-manifestantes expostos numa sala do Instituto de Tecnologias Interactivas da Madeira.

 

Era uma vez um reino a que chamamos unido e que em virtude de uma votação está em grande agitação interna e externa. Este reino, tem novo governo, este governo tem novas missões, estas missões são provavelmente problemáticas. Da Idade Média ao século XXI, aqui fica um retrato, mais que factual, contextual, dos dias que se vivem no reino de Sua Majestade. Um texto imperdível do José Couto Nogueira.

 

publicado às 15:59

A democracia directa tem destas coisas

Por: Paulo Ferreira

 

As lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”

 

A democracia e os seus instrumentos essenciais são uma coisa fantástica enquanto produzem resultados com os quais concordamos. Mas quando vence o “outro lado” o povo passa de inteligente a estúpido, a lucidez foi vencida pelo medo e a seriedade perdeu para o populismo.

 

É sempre mais fácil arrumar a questão desta forma e seguir em frente, do mesmo modo, até à próxima batalha eleitoral. O que dá trabalho e demora tempo é identificar as causas do falhanço, entendê-las e tentar alterá-las.

 

O resultado do referendo britânico foi um abalo que apanhou muita gente de surpresa. As últimas sondagens tinham-nos dito que o “ficar” estaria à frente do “sair” por uma margem que se estava a consolidar. Mas não foi assim.

 

Entristece-me a potencial saída do Reino Unido da União. Sem eles, a Europa não é a mesma coisa. Não só em questões como a dimensão, o poder económico do bloco, o contributo para a defesa comum ou a diplomacia mas, também, porque a voz crítica e desconfiada que os britânicos sempre fizeram questão de manter no palco europeu é, em si mesma, um contributo positivo.

 

Não me parece que alguém ganhe com a saída dos britânicos. Nem os próprios, já que ao estarem fora do euro mantêm já um elevado grau de liberdade nas políticas económicas, monetárias e orçamentais.

 

Mas é mesmo assim. Foi dada a voz ao povo e o povo disse de sua justiça numa decisão de enorme importância que, para muitos, tem contornos trágicos.

 

Nos últimos dias li e ouvi muita gente diabolizar David Cameron por ter convocado o referendo, vendo aí o pecado original deste tema. Certamente que se os 52%-48% (arredondados) tivessem sido ao contrário, o mesmo Cameron estaria a ser elogiado pelos mesmos por ter vencido e arrumado, por muitos anos, a questão sempre latente no Reino Unido da permanência na UE.

 

A utilização dos instrumentos de democracia directa, como o referendo, é das mais complexas e sensíveis.

 

A teoria e o politicamente correcto dizem-nos que quanto mais, melhor. Por princípio, é mais legítimo chamar milhões de cidadãos a tomar uma decisão do que deixá-la nas mãos de umas escassas centenas de deputados que foram eleitos pelo mesmo voto popular mas que podem, em dossiers concretos, fazer um julgamento diferente do da base popular que os elegeu.

 

Mas, por outro lado, transformar a democracia numa sucessão de referendos levar-nos-á a um mundo melhor? Tenho dúvidas.

 

Li por estes dias nas redes sociais um comentário com o qual concordo (lamento, mas já não consigo identificar o autor). Dizia, sobre a utilização de referendos, que se em Portugal se consultassem os eleitores sobre a introdução da pena de morte ou o acolhimento de imigrantes e refugiados talvez tivessemos uma surpresa do “povo dos brandos costumes”. É muito possível que sim, que uma maioria se pronunciasse a favor da primeira e contra o segundo. E isso seriam, a meu ver, dramáticos retrocessos civilizacionais.

 

O que para mim não faz sentido são consultas populares sobre direitos individuais que, quando exercidos por alguém, não interferem na liberdade alheia. Casamento entre pessoas do mesmo sexo e direitos associados, eutanásia, interrupção da gravidez até determinado período ou consumo de drogas leves devem, no meu entender, ser legislados no sentido de maximizar a liberdade e equiparar direitos sem me dar sequer a opção de interferir ou opiniar sobre as opções do meu vizinho. A vida dele é com ele. A minha é comigo.

 

Diferentes são os temas que dizem respeito à organização política do país que, de forma directa ou indirecta, interferem na vida de todos. O grau de envolvimento com a União Europeia, a regionalização ou mudanças profundas no sistema eleitoral são assuntos que a todos dizem respeito porque interferem com a organização da vida colectiva e com as instituições que a decidem e colocam em prática. Ao impacto destas ninguém escapa, para o bem e para o mal.

 

Mas, ainda assim, estes temas devem ser colocados a consulta popular? Isso terá mais a ver com as forças e fraquezas das lideranças políticas do momento do que com níveis de amor à democracia. Líderes fortes, com uma visão estratégica consolidada e com dimensão pessoal e política para suportar as consequências das suas decisões terão mais facilidade em decidir contra aquilo que são os sentimentos da opinião pública. Das lideranças políticas espera-se que estejam melhor habilitadas a tomar decisões complexas e muitas vezes duras, com longas listas de prós e contras, do que o cidadão médio. Foi assim que Helmut Khol fez a reunificação alemã e levou o seu país para o euro ou que Churchill optou por enfrentar Hitler.

 

Já as lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”.

 

Seja como for, o que não se pode nem deve é fazer a pergunta quando não se está disponível para aceitar todas as consequências de uma resposta. Voltando ao Brexit, é isso que tem acontecido demasiadas vezes na União Europeia, com a repetição de referendos até que produzam a resposta “certa”. Essa é também uma das causas que afasta os cidadãos da Europa e repetir novamente o erro não só seria irónico como podia ser ainda mais trágico.

 

Outras leituras

  • “Brexit” é o novo “o mundo mudou”? Claro que, em termos de comunicação política, é um óptimo pretexto para assumir a deparragem das previsões. Se tem grande ou pequeno impacto de facto é uma questão bem diferente.

 

  • Tudo o que vá para além de uma sanção simbólica a Portugal, sem custo financeiro, por violação da meta do défice do ano passado será inaceitável. A menos que a Comissão Europeia queira brincar com o fogo.
publicado às 11:39

Não é mau – é péssimo. E isto é piners!

 

 

Por: Rute Sousa Vasco

 

Era uma vez um banco muito, muito mau, um banco tão mau, tão mau, que, na realidade, era um banco péssimo. Depois veio um Estado, tão comprometido, tão comprometido, que, na realidade, era um Estado incapaz. E depois chegaram os cavaleiros da resolução que em três tempos decidiram que o Estado incapaz ia vender o banco péssimo porque queriam ir de férias de Natal.

 

Foi revigorante ouvir o relato que o ex-administrador do Banif em representação do Estado e ex-administrador do Banco de Portugal, António Varela, fez da situação que conduziu à venda do banco. Não porque tivesse revelado informação efectivamente nova – mas pela extraordinária coloquialidade do relato. Varela disse que o Banif que encontrou em 2012, aquando da injeccção de 1100 milhões de ajuda pública pelo Estado português, "era um banco muito, muito mau, era um banco péssimo". Este banco que apelidou de péssimo tinha tudo para correr mal: "O que se escusava era que tivesse corrido tão mal”. Falou ainda de Governos “de mãos atadas” – tanto o do PSD/CDS que validou a ajuda pública, como o do PS/Coligação de Esquerda que aprovou a venda no final de 2015. Mãos atadas porque bancos e contribuintes portugueses são uma gota de água no grande poço europeu – ou, como diz Varela, “estamos a falar de peanuts para essas entidades". E já agora porque é que tudo aconteceu tão rápido (além da razão imperativa decorrente da mudança de regras no que respeita às resoluções de bancos a partir de 1 de janeiro de 2016)? Porque tudo aconteceu em Dezembro, lá fora nevava e as lareiras tornavam-se acolhedoras, e as instituições europeias queriam – naturalmente – “prolongar as férias de Natal".

Este relato é uma espécie de história dos últimos 20 anos da Europa, da banca, e já agora da democracia num minuto. Só faltam os bonecos para ser um formato perfeito, tão ao gosto desta vaga de explicações do mundo para totós. Não será um relato exacto, é certamente tão parcial quanto aquele que qualquer outro participante neste filme contará, mas temos de convir que há uma grande probabilidade de bater certo numa série de factos.

Ainda há menos de duas semanas, o país dos políticos, empresários e comentadores andou entretido a discutir manifestos contra a espanholização da banca portuguesa. Os prós e contras eram, na realidade, cara e coroa da mesma moeda. Contra a espanholização porque precisamos de centros de decisão nacionais (pausa para suspirar). Contra os que estão contra a espanholização, porque o problema são os bancos portugueses, geridos por portugueses, falidos por portugueses (pausa para suspirar de novo). Aparentemente, uns e outros, não vêem qualquer padrão no que tem acontecido nos bancos Europa fora e mundo fora. Os Estados não conseguem dinheiro dos “seus” bancos nacionais, porque os “seus bancos nacionais simplesmente não existem, mesmo que sejam liderados por banqueiros com cartão de cidadão do país. Ah, e essa ideia de ‘dinheiro nacional’? também não existe, nomeadamente ou principalmente em países cronicamente endividados como é o caso de Portugal. Mas, também para que conste, e é verdade que temos um certo sentido de competição mesmo em coisas patetas, os portugueses não são especialmente melhores a falir bancos e a fazer desaparecer dinheiro do que os seus congéneres ingleses, espanhóis, franceses ou mesmo americanos. Damos conta do recado, como os casos BPN, BES e agora Banif exemplificam, mas parece que a virtude está no jogo e não nos jogadores.

O dinheiro não tem pátria e vai para onde é melhor tratado, lembram-se? É um dos mantras dos defensores do “deixem lá os mercados funcionar” e da tal “mão invisível” dos mesmos mercados (perdoa-os, Adam Smith), que tudo resolve, que tudo corrige. O dinheiro não tem pátria, mas tem donos. E quanto mais invisíveis são os donos disto tudo, mais em risco estão bancos, Estados e pessoas (e não necessariamente por esta ordem). Numa Europa cada vez mais opaca para os cidadãos, e com Estados cada vez mais reféns de funcionários e de dinheiro, ambos sem rosto, é difícil que não corra mal, como diz Varela.

Podemos é ainda tentar evitar que corra assim tão mal.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

Começa hoje o congresso do PSD e, como a Eunice Lourenço, assinala neste artigo da Renascença, a data não foi escolhida ao acaso. O congresso começa hoje e na próxima segunda-feira, dia 4, é o primeiro dia em que o Presidente da República pode dissolver o Parlamento. Há uns meses parecia boa ideia – marcava-se o congresso, preparava-se uma vaga de fundo e acabava-se em Belém a pressionar por eleições que pusessem fim a um “governo ilegítimo”. Um plano que, ao dia de hoje, a uns dará vontade de rir e a outros de chorar.

 

Os jornais britânicos The Times e The Sunday Times anunciaram um novo modelo editorial que passa pelo abandono da cobertura noticiosa ao minuto e pela aposta no tratamento aprofundado das histórias do dia. A edição online passa a ser actualizada em apenas três momentos diários: às 9h da manhã, ao meio-dia e às 17h. De repente, pode ser uma boa ideia simplesmente deixar de correr pelo minuto seguinte e tentar recuperar o papel principal do jornalismo e que não é, de todo, o de quem é mais rápido no gatilho ou na tecla. Até porque hoje, todos dão a notícia primeiro – os que a conseguem e os que a copiam.

 

E para fechar, este é um tema de missão para quem é missionário nesta causa. Entre 2009 e 2013, fecharam 4500 pubs na Grã-Bretanha. No último semestre de 2015, a tendência confirmou-se, tendo sido atingido o número mais baixo da década de pubs abertos. Bebe-se mais, nomeadamente mais cerveja, mas a crise toca a todos e no supermercado é mais barato do que no pub. Não é só disso que se trata, como conta a BBC, mas o que importa mesmo é garantir que os pubs não terão uma ‘last order’.

 

 

publicado às 10:31

Os políticos são todos iguais e as empresas são parolas e chico-espertas (algumas delas)

Por: Rute Sousa Vasco

 

Joaquim Pina Moura. Joaquim Ferreira do Amaral. Jorge Coelho. José Luís Arnaut. Mário Lino. Miguel Cadilhe. Manuel Pinho. Miguel Beleza. António Mexia. Luís Campos e Cunha. Sérgio Monteiro. E agora Maria Luís Albuquerque.

 

Vamos brincar às diferenças? Consegue encontrá-las neste lote de políticos que, depois de funções governamentais, assumiram cargos de liderança em empresas do sector privado? Ou em fundações. Ou em empresas tuteladas pelo Estado.

 

Vale a pena jogar este jogo por várias razões. A primeira porque, mais do que nunca, vale a pena gastar energias a debater a mítica frase “os políticos são todos iguais”. Se nada fizermos quanto a isso, podemos esperar na volta do correio mais Trumps, porque aquelas coisas não acontecem só na América.

 

A segunda porque, efectivamente, os casos não são todos iguais. Iniciei este artigo com uma pequena amostra de nomes mediáticos mas, até nesta amostra, existem diferentes níveis de competência e de desfaçatez – e isso faz diferença quando se analisam teias de interesse entre funções públicas e empregos privados.

 

A terceira razão é, provavelmente, a mais difícil de avaliar sem paixões da alma e decorre das outras duas. À vista desarmada parece tudo a mesma coisa – são todos políticos que depois de estarem no Governo foram convidados para lugares de referência, muito bem pagos, no sector privado ou em instituições na esfera de influência do Estado. Todo e qualquer argumento usado para dizer “ah não, mas neste caso é diferente” escorrega em terreno pantanoso. E até as tentativas de ‘normalização’ são um exercício penoso quando se juntam nomes e cargos.

 

Uma das ditas tentativas de normalização tem sido, por exemplo, legislar a favor do impedimento de ex-governantes assumirem funções em empresas que tutelaram durante um determinado período de tempo.

 

Em teoria, pode resolver. Na prática, vemos, por exemplo, que um ministro como Mário Lino, que ocupou a pasta das Obras Públicas, aceitou, depois da sua saída do governo socialista em 2011, o lugar de presidente do Conselho Fiscal das seguradoras do grupo Caixa Geral de Depósitos. Ora, Lino é um engenheiro civil que nunca teve qualquer experiência na banca. Teoricamente está tudo bem – a Caixa não é uma empresa que tutelasse, pelo menos directamente. Na prática, isto não desfaz as dúvidas sobre as razões de tal contratação.

 

O inverso também é verdade. Luís Campos e Cunha, por exemplo, saiu de ministro das Finanças para o Banif. Tem reconhecida competência na área, mas a banca é um sector na esfera das Finanças, o que deveria inibir tal contratação. Sendo que o seu mandato como ministro foi curto e sem especial impacto ou ligação ao Banif.

 

Há ainda quem fale do tempo de nojo que permitiria sanar qualquer dúvida. À partida faria sentido, mas basta recordar a contratação do ex-ministro Joaquim Ferreira do Amaral para presidente da Lusoponte, dez anos depois de ter sido o ministro que assinou a concessão da Ponte Vasco da Gama à mesma empresa, para percebermos que o tempo não traz nenhum manto diáfano de pureza.

 

E chegamos agora ao dito caso Maria Luís Albuquerque, a ex-ministra das Finanças de Pedro Passos Coelho, actual deputada eleita pelo PSD e ontem anunciada como administradora não-executiva de uma empresa especializada em gestão de crédito com clientes como o Banif, o Millennium BCP e o Montepio. Bancos tutelados por Maria Luís Albuquerque até há três meses, quando era ministra das Finanças.

 

A julgar pelas palavras da ex-ministra e actual deputada – que afirmou não ver qualquer incompatibilidade ou impedimento legal – é perfeitamente pacífico, no seu entender, sentar-se à mesa do comité de risco e auditoria do seu novo empregador aos dias ímpares, e na bancada do hemiciclo, aos dias pares. Tão pacífico e compatível como será nuns dias colaborar em decisões para que uma empresa saque a qualquer custo os créditos que comprou aos endividados e aflitos (é isso que empresas como os novos patrões de Maria Albuquerque fazem) e noutros assumir a defesa dos portugueses, nomeadamente batalhando enquanto deputada para que sejam defendidos de empresas de rapina à mercê da qual todas as economias têm andado a reboque (isto talvez não esteja inscrito no programa do PSD, se bem que no novo caminho da social-democracia deveria estar).

 

Estou certa, embora já não recorde os termos em que outros como Maria Luís Albuquerque terão jurado que nada, mas nada mesmo, tem a ver. Quando Manuel Pinho foi convidado para dar aulas na School of International and Public Affairs (SIPA) da Universidade Columbia, muitos jornais deram apenas conta do facto. Mas também houve quem se lembrasse que esta foi a mesma universidade que recebeu da EDP cerca de 3 milhões de euros. EDP, que foi a empresa com a qual Manuel Pinho fez a cruzada das energias renováveis durante o seu mandato. Pode ser uma coincidência. Pode. Os processos de intenção são maliciosos. Sempre ou quase sempre.

 

Qual é então a solução? Há alguma hipótese de voltarmos a acreditar na política e nos políticos? Ou tudo isto é uma batalha perdida?

 

Os comentários nos jornais online podem ser um espaço pouco recomendável, mas são um belíssimo termómetro da nação. Uma consulta a três ou quatro sites, com linhas editoriais distintas e com comunidades de leitores também diferenciadas, confirma o senso comum. Há quem ache que isto é só inveja e que assim não conseguimos ter os melhores na política. Há quem ache que é uma vergonha (e aqui esgrime-se a gritaria se é mais vergonha da direita ou da esquerda). E há quem timidamente tente falar de ética e bom senso.

 

Podemos – e devemos – legislar limitações legais adicionais ao exercício de cargos, públicos ou privados, em empresas na esfera de ex-governantes ou actuais deputados. Podemos – e devemos – discutir os ordenados dos políticos. Podemos – e devemos – batalhar por novas ferramentas de transparência entre a política e as empresas.

 

Mas, se calhar, também podemos tentar vencer noutra frente. Muitas destas contratações são perigosas e letais. Decorrem de jogos de interesses e de influências que nada de bom podem trazer ao país. Compram informações privilegiadas, agendas de contactos, acessos privilegiados a determinados centros de poder.

 

Mas são, muitas vezes também, actos de parolismo e chico-espertismo de empresas que não se importam de pagar milhares de euros por mês a um ex-governante para dizer que têm um ministro ou um deputado no conselho de administração.

 

O ridículo mata, sabem? E mata mais depressa esses vícios parolos se, tanto no sector privado, como no público, tivermos cada vez mais profissionais pagos pelo que sabem e pelo que fazem. E na política, políticos que percebem que, ao aceitar essas funções, deixam de ser pessoas como as outras.

 

Outras sugestões

 

O El País conseguiu afirmar-se como uma das marcas mundiais de jornalismo. É obra, só por si, mas mais do que de passado, é de futuro que o jornal fala. E é por isso que vale a pena ler a carta que o director do jornal, Antonio Caño, publicou ontem.

 

E porque o futuro acontece rápido, aqui está uma boa história sobre a rede que os teenagers não dispensam e os pais não percebem (basta dizer que uma das recentes inovações é uma ferramenta que transforma uma selfie normal e desinteressante numa selfie a vomitar um arco-íris... giro, hem?)

 

Tenham um bom fim de semana.

publicado às 11:12

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