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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A Liga dos Aurélios?

Por: Miguel Morgado

 

Sabia que na época passada Maxi Pereira foi o rei da bola no pé (2639 toques), seguido do campeão europeu, João Mário? Já Gaitán com toque de Midas “deu” 14 golos. Jonas acertou sete vezes da marca de 11 metros e a cabeça de Slimani vale ouro em mais de 1/3 dos seus tentos. Que poderiam ser mais caso não tivesse falhado 20 golos certos. O Porto fez 570 remates e o Braga acertou 21 tiros no ferro. Dados que explicam o sucesso (e insucesso) passado e podem antecipar o que ai vem numa Liga onde moram, por enquanto, quatro “Aurélios”. Vamos às contas.

 

 

 

Aí está a Liga 2016-2017. No Seixal, em Alcochete ou no Olival, sabemos, por enquanto, que partiram Renato Sanches e Nico Gaitán, que os quatro “Aurélios” campeões europeus ainda moram, por enquanto, em Alvalade e que o Porto procura no “Somos Porto” a alma que perdeu no passado recente. Esses são os factos mais ou menos crus, mas que até ao fecho do mercado terão outros condimentos. Os números não mentem, diz-se, por isso olhemos para as estatísticas da época transacta para perceber a importância de jogadores e o sucesso (ou insucesso) das equipas. Números que, de certo, ajudam a perceber e antecipar a prova que está preste a arrancar. Um instrumento útil para treinadores e adeptos. E para presidentes dos clubes e empresários.

 

Ora bem. Peguemos então numa folha e apontemos. Sabemos de acordo com as estatísticas da 1ª Liga, que Jonas, avançado das águias, 16º jogador mais utilizado (33 jogos, 1 como suplente utilizado), contabilizou 2964 minutos e foi o melhor marcador com 32 golos. No outro lado da 2ª circular, morou, e mora ainda, Islam Slimani. Em 33 jogos acertou 27 vezes na baliza em 3013 minutos, o que fez do argelino o 15º jogador mais utilizado.

 

No duelo de pontas de lança, socorremo-nos de outras estatísticas. Esta disponibilizadas pelo “GoalPoint”, ficamos a saber que Jonas concretizou sete pontapés da marca de grande penalidade e foi quem rematou mais vezes (124 remates), o que fez do brasileiro o jogador com melhor taxa de concretização (25,80%). O clube que representa (15,90% taxa de concretização) liderou esses dados.

Já Slimani, com 65 remates enquadrados (entenda-se remates que poderiam ter resultado em golo) e o Sporting com 212 remates ficaram em 1ª lugar nessa estatística. A cabeça do avançado leonino vale ouro. Dos 27 golos marcados pelo argelino, 11 foram com a testa. Mas terá faltado algum discernimento, por vezes, na hora decisiva, desperdiçando 20 ocasiões flagrantes (de golo). Os leões forem quem também desperdiçou mais golos iminentes: 62 ocasiões no total. Números que poderiam ter alterado a história do campeonato e que explicam os menos 9 golos marcados que o velho rival.

 

De entre os “Aurélios” que jogam em Portugal, o muito cobiçado João Mário deu 2587 toques na bola ocupando a vice-liderança da estatística logo a seguir ao defesa direito portista Maxi Pereira (2639). Mas uma coisa é dar toques, a outra é ter um verdadeiro “toque de Midas” e colocar a bola no pé ou cabeça de um colega para que este finalize. E nesse campo, Gaitán foi o “rei” das assistências que levantaram os estádios: 14 que deram golo. Um número bem expressivo se olharmos que o clube que então representou, Sport Lisboa e Benfica, equipa que somou mais assistências (60) que resultaram nos 88 golos marcados. Com estes números, em especial os benfiquistas, podem começar a lamentar que o pé esquerdo do argentino vá, agora, entrar nas estatísticas da Liga Espanhola e do Atlético Madrid.  

 

Analisando ainda os dados disponibilizados pelo “GoalPoint”, o Futebol Clube do Porto foi a equipa que mais remates realizou, 570, sendo que desses, 66 provenientes de fora da área. Desses, 13 foram da responsabilidade do defesa Layún, que assim dividiu com Jonas as despesas do mais rematador antes dessa linha. Se Maxi Pereira foi aquele que mais vezes “levou a bola para casa”, o defesa da faixa contrária, Layún, tentou, de fora de área, fazer aquilo que os seus colegas não conseguiam: dar alegrias aos adeptos.

Mais motivos para sorrir poderia ter tido o Sporting Clube de Braga se algumas das 21 bolas enviadas ao ferro tivessem entrado. O avançado Hassan foi mesmo o mais “azarado” com cinco bolas a baterem onde não deviam.

 

Um Aurélio, dois Aurélios, três Aurélios...

 

O campeão em título, Benfica, parte para a nova época com o tetra como objetivo. Nas insígnias leva o título de equipa mais concretizadora com 88 golos (contra 22 golos sofridos o que a coloca como segunda melhor defesa da prova). A Liga atribui ainda às águias os prémios de Melhor treinador, Rui Vitória, revelação Renato Sanches e melhor jogador, a Jonas. Desses só o “bulo” da Musgueira já cá não mora. Até ver apostaram na contratação de diversos extremos (Carrilo) e na esperança de recuperação de outros (Sálvio).

 

No Futebol Clube do Porto, o homem que celebrizou a frase “Somos Porto” estará no banco dos dragões. A recuperação da mística está nas mãos de Espírito Santo que, para além dos milhões à disposição para investir, tem ainda muita massa crítica no Olival. Basta olhar para o umbigo do Dragão e perceber que aí mora não só o vencedor da 2ª Liga como também os campeões nacionais juniores. André Silva é um exemplo de recrutamento feito dentro de portas.    

 

Rui Patrício, Adrien, William Carvalho e João Mário, são os quatro “Aurélios” campeões europeus de futebol. Se o melhor guarda-redes da Liga (e do Europeu, diga-se), 4º jogador mais utilizado do campeonato português, com 3137 minutos e o tridente do meio-campo se mantiverem por Alvalade, apesar do forte assédio, em especial a João Mário, apelidado de “calminhas” pelo Mestre Aurélio Pereira, a equipa leonina ganha “reforços” de peso na luta pelo título nacional.

 

Caberá a Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus avaliarem se podem, ou não, abdicar de um ou mais “Aurélios”, colocando no cesto, de um lado, o encaixe financeiro e, do outro, os pontos que esses jogadores podem valer no final da época. É por isso, no fiel da balança entre a cobiça e a cedência à tentação da venda dos “produtos” de Aurélio Pereira que poderá ditar o nome da Liga que agora inicia, podendo ser a Liga dos “Aurélios” caso estes campeões europeus nascidos em Alcochete não sigam as pisadas dos seus outros seis homónimos que andam por outras Ligas.

 

 

 

 

 

publicado às 09:16

Declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna! Oi?

 Por: Miguel Morgado

 

O Rio de Janeiro e o Brasil atiram para trás as palavras Dilma, Impeachment e Lava-Jato e unem-se à volta da cultura, história, celebridades e música brasileira, tudo iluminado pela chama olímpica. Zika, segurança e atrasos, é só dar um “jeitinho, 'né”. Portugal leva 92 atletas de 16 modalidades, abençoados pelo Cristo Redentor. E Marcelo Rebelo de Sousa espera entregar medalhas, com vista para o Cristo-Rei.  

 

 

Hoje, 5 de agosto, cerca das 24h00 (20h00 no Rio de Janeiro) começam os XXXI Jogos Olímpicos de Verão da Era Moderna. Ao longo de quase quatro horas aguarda-se a proclamação, em pleno Estádio Maracanã, em inglês, francês e em bom português, da frase “declaro abertos os Jogos Olímpicos...”. Dez segundos de fama para Michel Temer, presidente interino, a que se seguem muitos mais segundos de uma música para “abafar” assobios, numa cerimónia em que tudo aponta para que seja o tenista Gustavo Kuerten a entrar com a chama olímpica. Sobre quem acende a Pira, nada se sabe. Sabe-se que haverá uma na Igreja da Candelária. Pelo meio, com direção criativa de Daniela Thomas, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) e Andrucha Waddington, coreografado por Steve Boyd, americano que conta com treze eventos olímpicos, com orçamento mais de dez vezes inferior a Londres 2012, há dança, música, luzes, fogo de artifício, os esperados “uaus” de espanto, história e celebridades. E aqui entram figurões e grandes nomes do MPB, entram Gilberto Gil e Caetano Veloso, novas vozes, do rap e hip hop, MC Soffia (12 anos que “arrasam” nas redes sociais) e Karol Conka, desfilará a top model Gisele Bündchen ao som de “A garota de Ipanema”, entre olhares indiscretos e olhos regalados, Lea T, brasileira transexual, a primeira do género a fazê-lo numas olimpíadas. O desfile das delegações começa com a Grécia, e em seguida os países entram por ordem alfabética. No P de Portugal, desfilam 92 atletas liderados pelo porta-estandarte velejador João Rodrigues, com sete participações nestas andanças, o “país” dos refugiados é o penúltimo, e na sequência o Brasil entra com a promessa de delírio total dos presentes.

  

Hoje o Rio de Janeiro é e continua lindo. Hoje é feriado na cidade maravilhosa. E começam as Olimpíadas. E cariocas e brasileiros, como uma espécie de bipolaridade, esquecem tudo o que antecedeu recentemente num país sem tradição olímpica mas que cujos anos mais recentes levou a cabo esforços e investimentos olímpicos para pôr de pé um Mundial, em 2014, e agora, dois anos depois, os JO Rio 2016.

 

A partir da meia-noite espera-se que o Estádio Mário Rodrigues Filho, vulgo Maracanã, se transforme numa enorme pista de dança e convívio entre nações. Mas se rebobinarmos, a música foi, até hoje, outra. Zika. Dilma. Impeachment. E Lava-Jato. Quatro palavras que atingiram elevados índices de “popularidade” no Google quando se procura por Brasil. Se juntarmos as últimas três obtemos uma frase que resume quase tudo de que se falou e ainda se fala de e no Brasil, de Brasília à Cidade Maravilhosa. É assim: a operação Lava-Jato, a maior investigação levada a cabo pela Policia Federal brasileira, mega-escândalo de corrupção, originou um processo de impeachment que levou à destituição de Dilma Roussef, a presidente do Brasil, entretanto substituída por Michel Temer, presidente interino. Uma “tempestade perfeita”, vendaval político que só encontra paralelo com o da Ditadura Militar de 1985, misturado com uma recessão económica quase sem precedentes.

 

Ou seja, dos JO do Rio de Janeiro propriamente ditos só se falou dos atrasos em relação à construção de infraestruturas, a (ausência de) despoluição da baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, do doping de atletas russos, dos perigos do vírus, a quarta palavra, a Zika, que preocupa autoridades sanitárias e organizações desportivas, atletas, ao ponto de alguns de renome, em especial no golfe, não terem embarcado para o Brasil, e que afastou igualmente turistas e, finalmente, das questões de segurança.

 

E por falar em segurança, ao todo 85.000 mil profissionais, divididos entre agentes, forças de segurança pública e soldados que terão à sua guarda os 10.500 atletas em representação de 206 países. 17 dias na luta por 306 provas com medalhas, sendo que 161 são provas masculinas, 136 femininas e 9 são mistas. 42 desportos, sendo que há duas novidades: o golfe e o râguebi. 

 

Portugal, com 92 atletas representando 16 modalidades, terá José Garcia, ex-canoísta, como Chefe de missão de Portugal. Há atletas medalhados (Nelson Évora), repetentes (Telma Monteiro), naturalizados (Tamila Holub, nadadora nascida na Ucrânia e a mais jovem atleta lusa presente) e muitas esperanças face às mais recentes conquistas em diversas modalidades, seja na Canoagem (Fernando Pimenta), Ciclismo (Rui Costa), no Taekwondo (Rui Bragança), no Ténis de Mesa (equipa), no Atletismo (Patrícia Mamona e Sara Moreira), no Judo (Telma Monteiro) e no Futebol, seleção sub-23 que regressa ao palco olímpico depois Atenas 2004. A correr por fora estará a ginástica de trampolins (Ana Rente) ou tiro (João Costa).

 

O Navio Escola Sagres (NRP Sagres), embaixada nacional itinerante durante o maior acontecimento desportivo a nível mundial e que será a primeira edição de sempre de uns Jogos Olímpicos numa nação de língua oficial portuguesa, dará assistência a toda a comitiva hospedada na Aldeia Olímpica que, segundo números do Comité Olímpico Português (COP), rondará as 180 pessoas, entre atletas, treinadores, ‘staff’ COP, equipa médica e fisioterapeutas, chefes de equipa por modalidade, 45 profissionais de media de 19 órgãos de comunicação social e o departamento de comunicação do COP (duas pessoas).

 

Medalhas? Ouro? Prata? Bronze? Essa é sempre a pergunta demasiado cara para ser feita e à qual ninguém avança com números. Favoritos? À partida, remo, judo, ténis de mesa, atletismo... À saída das Terras de Vera Cruz, quando a popa do Navio Escola Sagres apontar ao Cristo Redentor, esperemos que, no Torna Viagem, traga o porão carregado de metal precioso e que rume aos jardins do Palácio de Belém, onde à sua espera estará Marcelo Rebelo de Sousa. Aguardaremos então pelo desenlace de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016. E pela cerimónia ainda no segredo dos Deuses. Para ser vista por 3.5 mil milhões de pessoas em todo o mundo.

 

publicado às 20:47

Todos diferentes, todos bons rapazes portugueses!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Vamos falar de futebol. Um português nascido no Brasil corta uma jogada perigosa da equipa adversária na sua grande-área. A bola é recolhida por um preto da Musgueira, que avança no terreno até ter a noção do melhor passe. Manda o esférico para um mulato da Amadora, que a mete num menino branco e pobre da Madeira. Este remata à baliza, mas o guarda-redes contrário só tem tempo de a defender para um espaço vazio. Nesse mesmo sítio, surge um cigano e marca golo.

A ocorrência é verídica. Aconteceu na semana passada, aos 117 minutos de um jogo que, normalmente, só dura 90, e chegou e sobrou para que a selecção nacional de Portugal derrotasse a perigosa Croácia. Esta é a história de 23 rapazes, entre os 18 anos e os trinta e muitos, que têm em comum vestir a camisola das quinas e a cruz da Federação Portuguesa de Futebol. Falam todos português, ainda que um ou outro o conjugue malzinho. Nas suas origens, está um país pequenino, que andou pelo mundo inteiro, muito coeso na sua diferença. São todos portugueses. A nenhum lhe passará pela cabeça meter uma bomba no Rossio. Agnósticos, ateus ou cristãos, não importa. Um tem antepassados judeus. Todos filhos da cultura lusitana.

 

Há gente de todo o lado. Rui Patrício é de Marrazes (Leiria), e divide a baliza com Anthony Lopes, que nasceu nos arredores de Lyon (França) e Eduardo, um trasmontano de Mirandela. Na defesa, Cédric Soares é o actual lateral direito. Veio da Alemanha, nascido mesmo ao lado da fronteira com a Suíça, mas chegou a Portugal – zona de Lisboa - com apenas dois anos, trazido pelos pais emigrantes. Divide o lugar com Vieirinha, um rapaz de Guimarães. À excepção do guarda-redes titular, que actua no Sporting, jogam todos no estrangeiro.

 

No meio da defesa está um mestiço que fala à Norte. E nem podia ser de outra maneira, já que Bruno Alves nasceu e foi criado na Póvoa de Varzim. É filho da antiga glória local, o brasileiro Washington. Tem estado no banco, dando o lugar a Ricardo Carvalho, o mais velho da selecção, que começou a carreira na sua terra natal – Amarante. Parece ter perdido a titularidade, por sua vez, para José da Fonte, um seu vizinho de Penafiel. Já Pepe – mais exactamente Képler Laveran Lima Ferreira – veio de Alagoas (Brasil) com 18 anos, para tentar a sua sorte no Marítimo. Depois de Deco, foi o segundo brasileiro a envergar a camisola da selecção nacional; mas, ao contrário do ‘mágico’, cedo aprendeu o hino que canta sempre antes do jogo começar.

 

No lado esquerdo da defesa, um açoriano mestiço e um branco nascido em França dividem o lugar. Eliseu nasceu num bairro de Angra do Heroísmo (Terceira), filho de pais cabo-verdianos, e é o primeiro jogador do arquipélago a tornar-se campeão nacional desde que Mário Jorge e Mário Lino o fizeram nas décadas de 50 e 70. Mas, ao contrário dos seus conterrâneos, não veste a camisola do Sporting – é benfiquista desde pequenino. Para encontrar um benfiquista açoriano campeão, é preciso recuar até aos anos 40, altura em que o faialense Joaquim Teixeira envergou a camisola do ’Glorioso’ e da selecção. Açoriano e benfiquista era o Mário Bettencourt Resendes, saudoso campeão de jornalismo; outras ‘guerras’...

 

Raphael Guerreiro – é mesmo assim, com ‘ph’ – nasceu canhoto perto de St.Denis, no nordeste de Paris. Jogar no Stade de France, se Portugal chegar à final, será para ele quase um regresso a casa, depois de ter passado os anos mais recentes na Bretanha e de agora rumar a Dortmund, na Alemanha. O pai emigrante também foi jogador de futebol. Gostava de actuar no Benfica, mas para já ainda não foi possível.

 

No meio-campo, a parte mais defensiva – a chamada ‘posição seis’ - é dividida entre dois rapazes de Sintra. Danilo Pereira veio de Bissau (Guiné) e William Carvalho tem ascendência angolana. Mais à frente aprece Adrien Sébastian Pérrouchet Silva, nascido em Angoulême e criado em Arcos de Valdevez. A 650 quilómetros de distância da terra minhota, nasceu João Moutinho,'marafado' de Portimão. Já Rafael Silva, mais conhecido por Rafa, é um dos dois únicos lisboetas de gema a actuar na selecção.

 

No Porto, mais concretamente em Pedras Rubras, nasceu João Mário, que havia de tomar o avião para Lisboa para representar o Sporting. É de família angolana - os pais são de Luanda – e tem dois irmãos na alta roda do futebol – o bracarense Wilson Eduardo e o jogador de futsal do Belenenses, Hugo Eduardo. Seu vizinho de nascimento é André Gomes – Grijó, Gaia -, que cedo rumou ao Benfica de agora actua no Valência de Espanha.

 

O puto da selecção é uma obra do bairro da Musgueira, em Lisboa. Mas como tantos dos seus companheiros de infância, nasceu filho de africanos – uma cabo-verdiana e um são tomense. Renato Sanches acaba de ser vendido ao Bayern. Já Ederzinho António Macedo Lopes – cujo diminutivo é Éder – veio da Guiné com tenra idade para a zona centro do país. Distinguiu-se na Académica.

Sobram os três ases deste baralho de naipes coloridos. São também os mais conhecidos, neste desporto onde quem vai à frente e marca mais golos é menino querido das multidões. Luís Carlos Almeida da Cunha – mais conhecido por Nani – nasceu na Amadora e começou no Massamá, terra de descendentes africanos e de primeiros-ministros migrantes. Os pais são cabo-verdianos, onde nasceram igualmente os seus irmãos.

 

Já Ricardo Quaresma é mais que uma mistura, é várias. A mãe é uma angolana morena e o pai – de que há pouca memória – é cigano. Nascido e criado em Lisboa, é sobrinho-neto do grande Artur Quaresma, que foi campeão no Belenenses. O 'Harry Potter' – nome que lhe vem da magia que faz com os dois pés – joga agora na Turquia.

 

Deixei para o fim o menino pobre que fez o passe para o golo no jogo contra a Croácia, e que no desafio com a Hungria tinha já marcado dois, um do tipo ‘mostra lá outra vez, que eu até troquei os olhos’ e outro de cabeça. A ‘primeira exportação da Madeira’ - bate a banana, segundo a mãe dele – está cotado como o melhor jogador do mundo. É também o desportista mais bem pago do planeta, e já bateu quase todos os recordes que há para bater. Hoje tem pela frente o recorde de Platini, o jogador que até hoje marcou mais golos em campeonatos da Europa de futebol. Falta-lhe um para igualar, com dois passa a ser o maior. Chama-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

 

Vêm de todo o lado. Não têm em comum a raça. Têm a raça portuguesa. E agora venha de lá a Polónia!

 

P.S. – Uma vez, durante a II Guerra Mundial, as SS alemãs invadiram uma pequena vila polaca e fizeram refém toda a população. Um jovem conseguiu fugir à vigilância nazi, mas pouco depois tinha as SS no seu encalço. Um dos soldados apontou a arma com intenção de abater o rapaz. Mas do Céu chegou a voz de Deus. "Pára, não podes fazer isso, esse rapaz vai ser Papa!", falou lá do alto Deus. O soldado tremeu, baixou a arma e perguntou: "Senhor, e eu?". "Tem calma tu vais a seguir!"…

 

publicado às 12:34

O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

Amanhã é dia de Taça e joga o Braga. Marcelo, o invasor de campo, é agora Marcelo, o presidente

Por: Miguel Morgado

 

Marcelo Rebelo de Sousa é um assumido adepto do Sporting de Braga e presenciou ao vivo todas as finais da Taça de Portugal em que o clube participou. Cinco até agora. Primeiro enquanto aluno, depois membro do governo, professor universitário, comentador político na televisão e, finalmente, estará no Jamor, no Estádio Nacional, na sexta final, pela primeira vez na pele de Presidente da República. Ele que já se transfigurou e foi um “invasor de campo” na sua estreia da prova “a doer”.

 

 

Pois é. Marcelo, o aluno, viu o Braga ganhar a única taça da sua história. Foi precisamente há 50 anos. Em 1966, então, com a idade de 17, ainda sem “pêra e bigode”, com “cachecol ao peito”, “frenético”, dando asas à inesperada alegria por causa do golo de Perrichon, saiu “disparado” das bancadas do Estádio Nacional e tentou, com uma “dinâmica” diferente dos dias de hoje, saltar para o campo para se juntar à festa bracarense. Mas a polícia não foi da mesma opinião e não deixou. Resultado? Levou “uma marretadazinha patriótica, suave e doce”, recorda Marcelo, comentador, em entrevista ao site da Federação Portuguesa de Futebol que recuperamos aqui nas vésperas da final do ano passado, com Sporting Clube de Portugal.

 

Domingo, o agora Chefe de Estado partilhará o palco com os artistas do tapete verde. Dita a tradição que o Hino Nacional seja escutado após o anúncio da sua presença. Dita igualmente o protocolo que Marcelo Rebelo de Sousa se sente na Tribuna presidencial e siga a tradição de, a partir do mais nobre lugar do Estádio, distribua medalhas por todos e entregue a Taça de Portugal só a uns, podendo nessa altura, finalmente, tocar no “caneco” que outrora lhe escapou ao toque aquando da tentativa de invasão.

 

Entre o protocolo e tradições, resta saber se tudo será “by the book” ou se, ao invés, Marcelo poderá surpreender, ou talvez não, e dar, antes do apito inicial, um mergulho à mata do Jamor, porque é ali que está a raiz e a razão da disputa da final da Taça de Portugal no Estádio Nacional, neste campo que é neutro e de todos. Se Marcelo dança em Moçambique ou assiste a inaugurações de “Padarias Portuguesas”, porque não vê-lo, em segurança, entre os seus e ao lado de todos os outros, vestindo a pele de presidente adepto, presidente dos Portugueses e adepto fanático do Braga, juntos na mesma pessoa fazendo pontes entre ambos.

 

Um especialista em finais e algumas histórias de várias delas

 

Os presidentes da República portuguesa assistem aos jogos e assumem, em regra, a despesa das entregas dos troféus e dos cumprimentos aos vencedores e vencidos. Há uns que não gostavam (Mário Soares), outros que sim (Jorge Sampaio) e outros a quem os jogadores não passaram cartão (em 2013 alguns dos craques do Benfica, de Jorge Jesus, não reconheceram e não cumprimentaram o presidente Cavaco Silva, na final perdida frente ao Vitória de Guimarães, de Rui Vitória). Já Marcelo diz-se especialista em finais.

 

Domingo a bola é redonda e são 11 contra 11. Sobre o estado de espírito do presidente da República terão a palavra o Futebol Clube do Porto e Sporting de Braga. Os dois clubes já por duas vezes se defrontaram numa final, uma no Estádio das Antas (1978) e outra no Jamor, dez anos depois. Seguiram-se outras finais bracarenses cujo resultado conheceu sempre o mesmo desfecho: a derrota. E na viagem pelo tempo há uma final que é sempre recordada. Na época 1981-1982, Quinito, treinador dos Arsenalistas, entra em campo vestido de fraque, mas o traje pouco ou nada adiantou, pois viria a ser o Sporting a fazer a festa. 

 

Falar da Taça de Portugal que hoje ganha o nome de Taça de Portugal Placard é falar, entre muitas outras, da final da contestação ao Estado Novo, em 1969, no Benfica-Académica, mas é também recordar a partida da consternação do “very light” e da morte de um adepto sportinguista no jogo com o eterno rival, em 1996. Ou do ano em que Manuela Ferreira Leite, assistiu à entrega da Taça a João Pinto, capitão do FC Porto, que venceu na finalíssima o Sporting, debaixo de uma chuva de garrafas de plástico. Houve finais em que a política falou mais alto: em junho de 1974, mês e meio depois do 25 de abril, antes do jogo, o hino nacional foi precedido do Grândola, Vila Morena.

Houve também jogos improváveis e cujo vencedor já não existe (Estrela da Amadora derrotou, em 1990, o Farense) ou cujo vencido também já desapareceu do mapa (Campomaiorense na final frente ao Beira Mar, numa final que teve a particulariedade de ser antecedida por uma oferta generosa do filho do Comendador Nabeiro – bifanas, imperiais, cafés Delta e música para todos os adeptos presentes no Jamor). Numa competição dominada pelos grandes, cinco equipas da 2ª divisão conseguiram chegar às finais: Setúbal, Estoril, Farense, Leixões (este da 2.ª B) e Desportivo de Chaves, mas nenhuma ganhou. Entre as curiosidades mais recentes destacamos a presença (2008), nas bancadas, de Jorge Jesus, assistindo a uma final leonina, talvez antecipando então que viria a caminhar com aquela gente.

 

O presidente adepto na festa do povo

 

A Taça de Portugal começa muito antes de se levantar o troféu, nas matas, epicentro de pic-nics, com couratos e bifanas, cervejas e vinho, sardinhas assadas e tudo o mais que sirva para fumegar. A Taça no Jamor é a festa de um povo que se espalha pelo imenso pulmão verde de Oeiras, com adeptos de barrigas mais ou menos proeminentes, a chutarem a bola mostrando, a quem passa, a razão de não estarem no palco principal, ou outros que preferem mesmo o desporto de levar o copo à boca. Ali, tudo se partilha, não há públicos nem privados. Comem todos do mesmo. É a essência do ser português. Por isso, não se admire de ver Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente adepto por lá. Antes de subir à Tribuna e cantar o Hino. Aguardaremos então pelo apito inicial e, já agora, depois pelo final para ver como e a quem fará a entrega da Taça de Portugal. 

publicado às 11:44

Um “ai o Carrillo” nas chinesices de Inverno

Por: Miguel Morgado

 

Entre referências a cabras, perus e galinhas chegou ao fim a longa novela peruana com Carrillo como personagem principal. Trocou o Sporting pelo Benfica. O presidente dos leões desvalorizou a perda do ativo e disparou nas redes sociais. Entretanto, a janela do mercado de inverno fechou na Europa mas a porta continua aberta, até ao final do mês, na China. Que entra no Ano do Macaco a gastar milhões. Por cá, há import-export com esse país grande que começa a gastar à sua dimensão. Na Liga e nos clubes. De lá vieram patrocínios. E para lá foi um “avioncito” e veio um “Pirata”. Antes, Jorge Mendes já tinha entrado em cena ao lado do Cirque du Soleil.  

Por razões profissionais, assisti à vinda de André Carrillo para o Sporting. Na altura questionei-me sobre a razão de, além do empresário (Elio Casaretto), acompanharem o jovem internacional peruano mais três figuras que se intitularam de diretor para o futebol, de marketing e ainda um cujo pelouro não ficou na memória. Hoje sei o porquê dessa, então, forte ligação de todos ao jogador que saiu do Allianza Lima para Portugal. A expectativa era que valesse ouro. E comissões. E valeu mesmo. Mas só para alguns. De fora destas contas ficou o clube que o trouxe.   

 

Janeiro é o mês conhecido como a “janela de Inverno” no mercado de transferências do futebol europeu. E é também um mês em que jogadores em fim de contrato podem assinar, livremente, por outro clube. Ora foi o que sucedeu com André Carrilo, internacional peruano de 24 anos que ainda veste as cores do Sporting Clube de Portugal mas que na próxima época muda-se para o eterno rival, Sport Lisboa e Benfica.

 

A mudança foi o ponto final numa novela que se arrastava, pelo menos, desde a temporada passada. Falamos da renovação do contrato de Carrillo com os leões. Pelo meio ouvia-se falar de meia Europa atenta e do piscar de olhos de Benfica e Porto a este diamante.

 

No longo duelo de vontades entre o presidente Bruno de Carvalho e o agente do jogador, Elio Casaretto, o jogador foi “encostado”, após uns pontapés na bola durante quatro jogos e mesmo depois de Jorge Jesus ter dito que este “daria milhões” ao clube. Como se viu, não deu e, por agora, os leões perderam financeiramente, já que nada retiram deste ativo (o Sporting pondera exigir em tribunal uma compensação financeira). Mas ao invés, deu - e muito - a ganhar ao agente e ao jogador, que além do prémio de assinatura receberá um ordenado muito superior ao que auferia pelas bandas de Alvalade. E poderá dar ao novo clube, caso o jogador dê o salto para outros palcos de cofres recheados.

 

Desportivamente, o Sporting sai, por enquanto, ileso. É líder, ex aequo com o Benfica. Mas aqui, meus senhores, é no final que as contas são feitas. E Carrillo, de águia ao peito, até pode receber as faixas de campeão pela equipa... liderada por JJ, o tal que saiu em sentido inverso. Ou então, se o Benfica conquistar o "tri", o peruano poderá dar no Seixal mais um passo na sua afirmação, podendo, no futuro, dar o retorno desportivo e financeiro de que dele se espera.

 

O fungagá da bicharada nas redes sociais

 

Com o peculiar estilo que carateriza o presidente do Sporting, a saída sem compensação de Carrillo não poderia passar sem polémica. E uma boa “peixeirada” das antigas. Ainda para mais para a equipa que viu arquivado o processo dos vouchers. Nas redes sociais (where else), numa mini-entrevista feita a si próprio, Bruno de Carvalho, escreveu dirigindo-se a Casaretto: «Permita-me, caro agente sem jogadores, um conselho: volte lá para o seu rebanho de cabras que no final do processo eu, como sempre fiz em todos os assuntos, explicarei a todos e de forma detalhada toda esta novela peruana.». Ou seja, BdC, “mandou” o empresário pastar cabras, deixando antever que será, nesta história, o último a rir. Mas faltou-lhe por agora, e não no futuro, fazer uma pergunta e dar a respetiva resposta. Explicar porque é que, com quase três anos de mandato e muitas renovações feitas, esta lhe escapou. Um próximo capítulo a seguir no Facebook.

 

Mas a bicharada virtual não se reduziu a cabras. A fábula do Bruno meteu ainda perus e galinhas numa resposta ao presidente Sindicato dos Jogadores Profissionais do Peru. Resumindo, o presidente dos leões (Rei da Selva) rugiu bem alto um “ai o Carrillo” em todas as direções. O jogador ainda hoje “jogaria na rua” se não fosse o clube que o projetou, o empresário não ganharia um “tostão” sem essa promoção e, em resposta a uma provocação de Casaretto sobre onde estaria BdC se não fosse o Sporting, retorquiu dizendo que o clube a que preside “estaria falido”. E à tal saída a custo zero, entre prémios de assinatura e comissões, diz que se devem acrescentar um número e muitas casas decimais.  

 

Com a Europa de janela fechada, a China assalta o mercado com milhões

 

O mercado de Inverno da bola europeia fechou sem grandes movimentações internas. Mas fora do espaço europeu, mexeu. E muito. A China é grande, quer ser grande e começa a gastar à sua dimensão no futebol. Neste mercado de inverno europeu, seis das cinco contratações mais caras envolveram clubes chineses: Alex Teixeira (50 M€), Jackson Martinez (42M€), Ramires (28 M€), Elkerson (18,5M€) e Gervinho (18M€). Estes e mais outros, tudo somado, até à data, ultrapassam os 300 milhões de euros. O mercado só fecha no final do mês. Um mês em que se inicia o novo ano. O Ano do Macaco que, dizem, será propenso ao risco e às mudanças. E gastos.

 

No que toca a Portugal, o Sporting reclama para si um negócio da China. Freddy Montero, “el avioncito”, saiu a troco de 5 milhões de euros para o Tianjin Teda e em sentido inverso veio Hérman Barcos, “el Pirata”. Dias antes, a Liga de Clubes tinha assinado um contrato de patrocínio com a gigante da tecnologia Ledman. Meio milhão de euros por época e outros “bónus” e a Ledman LigaPro arranca no próximo ano, já sem a cláusula de “obrigatoriedade” de inscrição de jogadores chineses nas primeiras 10 equipas na tabela classificativa.

 

 

Para a China, o rectângulo verde onde se joga futebol não se resume ao palco de uma atividade desportiva. É antes de mais o tabuleiro onde se jogará a mais pura das politicas de afirmação de poder e soberania no quadro da geopolítica. “O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo”. A frase é de Xi Jinping, o homem forte da China.

 

Sempre atento, Jorge Mendes já tinha avisado do poderio desta nova superpotência. E não perdeu tempo. Enquanto Sporting e Benfica abrem escolas de formação naquele país - a China pretende abrir durante a próxima década 50 mil escolas de futebol -, o melhor empresário do mundo estabeleceu uma parceria com Guo Guangchang, líder da Fosun, donos do Cirque du Soleil visando trabalhar no desenvolvimento desportivo e comercial do futebol chinês. Para já, já, é dele uma das maiores transferência do ano 2016: Jackson Martinez. O tal que estava sentado no banco de suplentes do Atlético de Madrid. Parece piada de carnaval, mas não é. É que o futebol, apesar de quase possuir um ''mundo próprio'' e de muitas vezes viver imune e à margem de crises, na China, dia a após dia, ganha novos contornos. É só aproveitar.

publicado às 16:39

Os tostões do Tondela no negócio dos milhões

Por: Miguel Morgado

 

O melhor contrato é o MEO, ouve-se a norte. NOS é que conseguimos um acordo histórico, bradou Bruno de Carvalho. A Águia não quer ficar de bico calado e já se fala em cláusula de salvaguarda. Os “Três Grandes” do futebol português venderam jogos, camisolas, publicidade no estádio, televisões dos clubes e sabe-se lá mais o quê. Cada qual reclama que fez o melhor no negócio do século. Tal como no número de sócios e adeptos, a “galinha da vizinha” é sempre inferior à minha, agora transformada no meu contrato é maior que o teu. As operadoras agradecem. Porque o jogo é agora deles. Até 2030. E a “Liga dos Pequenos” está aí: “on sale”.

 

No mundo financeiro português os Bancos caem uns atrás dos outros. Contribuintes e investidores institucionais são chamados a garantir a sua sobrevivência. No mundo da bola, em ano de crise e com falta de liquidez, do banco das presidências das SAD parecem sair soluções miraculosas para o futuro do futebol nacional. Com a ajuda das empresas que começaram por vender telefones, telemóveis e que evoluíram para internet e televisão, a batalha pelo apetitoso conteúdo futebol trouxe para a mesa das negociações números nunca antes vistos: milhões, muitos milhões por jogos de futebol, que a partir de agora podem ser vistos nas múltiplas plataformas: tv’s, computadores, tablets, telemóveis e smartphones.  

O Sport Lisboa e Benfica foi o primeiro a abrir caminho. Luís Filipe Vieira preparava-se para desfilar na passadeira de figura do Ano com o mega-contrato de venda dos direitos televisivos dos jogos (em casa) do clube da Luz e com os direitos da exclusividade da Benfica TV. Um “kit” que deixa de parte as já patrocinadas camisolas e o estádio. As manchetes dos jornais cobriram-se de vermelho de reconhecimento.

 

Com a serenidade que se lhe reconhece, Pinto da Costa calou o vento suão que soprava e disse com pronúncia do norte: é MEO o melhor contrato. Os valores milionários oferecidos pela Altice/PT (dona do MEO) não mentiam e ultrapassam os dos encarnados. Para tal incluiu no pacote, para além dos jogos caseiros dos azuis e brancos e da televisão do clube, Porto Canal, o patrocínio nas camisolas e no estádio durante uma década.

 

Bruno de Carvalho tem dito (e mostrado) que o Sporting Clube de Portugal está na luta. No campo, nas palavras e na(s) exigência(s). Beneficiando de “outras guerras” ou pela audácia de saber esperar, o terceiro a fechar negócio surge como o primeiro em valores. Históricos no bolo final. Que é o que afinal conta para os adeptos. Nem que nesta espécie de Bolo Rei caiba lá muita fruta: as imagens de Slimani, JJ e companhia em Alvalade, a TV, a publicidade estática e virtual do estádio, camisolas, renegociações e sabe-se lá mais o quê. Afinal não estavam mesmo a saldo. NOS é que fizemos o acordo do século, gritam os leões. Será mesmo assim?

 

Uma década de bola numa operadora perto de si

 

Os três contratos não são comparáveis entre si porque em cima da mesa estão pacotes diferentes. Agora, o povo português, pouco sabichão na matemática, gosta muito, no entanto, de puxar pelo tamanho dos números. Avulso, sem interpretações e com muita emoção e pouca razão, o que interessa são os milhões que entram: os 400 de Benfica, os 457 do Porto ou os 515 dos leões (que reduzem-se a 446 milhões se falarmos só de vendas dos direitos televisivos). Juntos somam uma “pipa” de massa: mais de 1300 mil milhões de euros. Uma verba que, no entanto, não chega para a recapitalização do Novo Banco. Mas isso dos bancos foi chão que já deu uvas aos clubes de futebol. Agora é, como se vê, a vez das operadoras de telecomunicações entrarem em campo comprando e lutando pelo melhor conteúdo dos clubes: a bola e os craques.   

 

Sobre o que se assinou pouco ou nada sabemos. Todos os contratos têm cláusulas de confidencialidade. O do Benfica até parece permitir uma renegociação que o pode recolocar na liderança, numa espécie de vitória na secretaria. Da clareza dos números em bruto partimos para a certeza da duração: vão dos 10 aos 12,5 anos, entre imagens dos jogos e venda das televisões e exploração comercial. Uns a contar a partir de janeiro 2016, outros só em 2018. Ou seja até 2026, 2018 e 2030, respectivamente, mais ano ou menos ano, mais euro ou menos euros, os dois players do mercado das telecomunicações são agora também eles, e por muitos anos, os “donos da bola”. Os telespetadores agradecem, assim como os (aflitos) clubes, que ganham a curto prazo, embora desta enorme injeção de dinheiro nada se saiba quer quanto ao “quando”, quer quanto ao “montante” que entra durante o período definido, e se sairá para comprar craques ou pagar as contas. A certeza que existe por agora é que os clubes, à eterna discussão de quem tem mais adeptos, mais títulos ou melhor academia, somam agora uma nova sobre quem “fechou” hoje o mais alto valor neste negócio do século. 

 

A “Liga dos Pequenos” mostra o que vale

 

Fechado que está o assunto dos “Três Grandes” as atenções viram-se para a “Liga dos Pequenos”. A NOS deu ontem, penúltimo dia do ano, o pontapé de saída. Meteu mais oito clubes no pacote. A começar em 2019 e a terminar até dez anos depois. A bola está agora do lado da MEO. Porque o campeonato tem 34 jornadas e porque os “grandes” também jogam fora, o negócio é apetitoso. Pelo que o Tondela ou o União da Madeira ainda podem reclamar que fizeram o negócio de uma vida... medido em tostões.  

 

Hoje operadoras, clubes e telespetadores regozijam de contentamento. Daqui a 10 ou mais anos faz-se o balanço. E... bom, aí é “fazer a conta”, uma frase celebrizada por um ex-primeiro ministro, engenheiro de profissão, mas que se atrapalhou com tanto milhão. Logo se vê, dirão os clubes que vendem uma década de receitas de uma vez só. E, já agora, ninguém sabe como será a evolução do mercado, o das telecomunicações, das transmissões e do futebol. Mas como se diz na gíria, prognósticos só depois... do fim dos contratos. Até lá, caro leitor, toca a sintonizar o clube do seu coração, abram espaço aos artistas e deixem a bola rolar.

publicado às 19:26

Bruno de Carvalho acena com milhões para tapar desaires desportivos e judiciais

Por: José Amaro (jornalista)

 

Quando o céu parecia estar a desabar-lhe sobre a cabeça, eis que o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, dá à luz um negócio que, pelos números envolvidos, é o mais gigantesco de sempre envolvendo instituições desportivas portuguesas. São 515 milhões de euros distribuídos pela NOS ao longo de 12,6 anos e que servem para pagar as transmissões televisas dos jogos do clube e, também, a cedência dos direitos de exploração de publicidade. Os milhões da plataforma televisiva pagam ainda o direito de publicitar nos equipamentos dos “leões”. São milhões que parecem cair como água sobre o fogo que estava a alastrar por Alvalade, depois de uma catadupa de inêxitos desportivos, negociais e judiciais.

 

Horas antes de ser anunciado o acordo com a NOS o presidente do Sporting viu-se publicamente desmerecido por um grupo de associados contestatários, os quais mandaram colocar dois enormes placards nas imediações do estádio questionando a sua gestão, ao ponto de a apelidarem de mentirosa. Com os milhões entretanto anunciados (que são mais 100 do que os obtidos pelo Benfica, embora num acordo muito diferente, e mais 50 do que os conseguidos pelo FC Porto), Bruno de Carvalho parece ter conseguido desviar os holofotes para um cenário que, aparentemente e só aparentemente, lhe é mais favorável.

 

A vaga de contestação começou a engrossar após o jogo em Braga para a Taça de Portugal. A equipa até jogou bem e viu ser-lhe mal invalidado um golo. Na ressaca da derrota, Bruno de Carvalho saltou qual fera acossada e insinuou que o prejuizo resultante da arbitragem desse jogo fora consequência directa das queixas feitas, dias antes, por dirigentes do rival Benfica. Acusou sem provas e, pior, revelou falta de senso ao apelidar os rivais de “idiotas”. Não pensou que as suas palavras, para além de não agradarem aos rivais, também não colhem a simpatia de muitos associados do seu próprio clube, os quais já por diversas vezes afirmaram não se reverem no estilo popularucho e trauliteiro imposto e praticado pelo presidente. 

 

Dias depois, e como agora relembram os cartazes espalhados na Segunda Circular, Bruno de Carvalho, sofreu aquele que será, até ao momento, o mais forte revés da sua presidência. O Tribunal Arbitral Desportivo condenou o Sporting a pagar mais de 17 milhões de euros à Doyen Sports, empresa que antes havia financiado o clube numa transacção mas que, no momento de recolher os proveitos previstos num contrato escrito, se viu arredada do que estava acordado. Como seria de prever o Sporting perdeu a acção e, conforme foi desde logo explicado, são quase nulas as possibilidades de haver volte-face na sentença. Mas Bruno de Carvalho, por desconhecimento ou apenas por conveniência, logo se aprestou a correr para a imprensa (a mesma que em duas ocasiões, e contrariando as regras do jornalismo isento, já fez outras tantas manchetes com artigos de opinião assinados pelo presidente sportinguista) dizendo que nada estava decidido e que o caso só então começara a ser derimido. Enfim…

 

E como um mal nunca vem só, eis que a equipa de futebol, tão sabiamente conduzida por Jorge de Jesus, encontrou novo escolho, perdendo na Madeira, perante a União local, e deixando desse modo o primeiro lugar da classificação geral ao alcance do FC Porto, que naturalmente agradeceu e rejubilou.

Os milhões da NOS podem (e supostamente vão fazê-lo) atenuar parte da contestação interna. Mas não a extinguem. Aos olhos dos adeptos em geral e dos sportinguistas em particular o modelo de Bruno de Carvalho não colhe simpatias. Aos inêxitos desportivos recentes (e esses são sempre os que ficam na retina e na memória), às condenações judiciais e ao não atendimento das reclamações e queixas apresentadas contra rivais, junta-se ainda uma inenarrável política de defesa do clube que consiste, à semelhança do que outros também fazem, em mandar para os programas desportivos televisivos comentadores cuja credibilidade ou é nula ou apenas anedótica. Enfiar na casa de milhões de telespectadores um indivíduo de semblante medieval e voz teatral, bramindo de pé uma espada de plástico e proferindo ameaças contra um comentador de um clube diferente, não pode nunca significar credibilidade. Humor é uma coisa. Palhaçada é outra completamente diferente. Ao enveredar pela segunda via, perde Bruno de Carvalho e perde, sobretudo, o Sporting.

 

publicado às 16:39

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