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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Uma eleição que mexe com todos nós: uma América cosmopolita, otimista e tolerante?

Por: Sena Santos

Daqui até novembro vai ocorrer-nos muitas vezes que deveríamos poder participar e votar nas eleições principais nos Estados Unidos da América. Faria sentido não ficarmos à margem na escolha daqueles cujas decisões afetam o nosso modo de vida, por exemplo ao avançarem para guerras e invasões que desencadeiam trágicas consequências, como ficou despoletado no Iraque.

 

Se os europeus também votassem a presidência dos EUA, apesar da vaga populista que por aí anda, Hillary Clinton teria assegurado que em novembro ficaria Madam President e nós ficaríamos menos inquietos. Mas nós não temos esse voto e, tal como as coisas estão, não se pode excluir um cenário de President Trump na Casa Branca de Washington. Perturba imaginar o planeta liderado por gente como Trump, Putin e Erdogan – só faltaria juntar Marine Le Pen, mas é de confiar que os franceses não lhe entreguem o poder nas presidenciais de maio do ano que vem. O que é que explica a adesão de tantos americanos à campanha de Trump?

 

 

Um livro agora publicado, Hillbilly Elegy: A Memoir of A Family and Culture in Crisis, escrita autobiográfica de J.D. Vance, ajuda-nos a entender. Ele explica-nos, e consegue fazê-lo com humor, o declínio do sonho americano num lugar da América lá de dentro. Através da história de uma tradicional família branca cujos avós desceram da pobre pacatez rural na cordilheira dos Apalches para o trabalho nas então, a meio do século XX, pujantes fábricas do Rust Belt, a cintura da ferrugem nas periferias urbanas do Ohio. Viveram a ilusão de um futuro próspero mas, com a recessão dos anos 80, essa indústria colapsou, muitas fábricas fecharam e as comunidades fragmentaram-se. Tudo viria a agravar-se muito no começo deste século e com a depressão de 2007. O desemprego disparou, as falências sucederam-se, a frustração de quase todos atirou muitos para o limbo. Até a religião tradicional perdeu a influência que tinha e muitos procuraram refúgio em drogas. O que o livro nos mostra é como irrompeu e cresceu essa decadência social e a crise cultural e psicológica que afeta milhões de pessoas assim desenraizadas. É o drama da falta de dinheiro mas, ainda mais, a sensação de impotência de uma vasta população branca alarmada com o declínio do sonho e o assalto do pesadelo.

 

 

Trump, “The Donald”, aposta nesta gente branca frustrada para com o voto dela conseguir a eleição em novembro. Estrela da tele-realidade, conseguiu fazer quebrar a coluna vertebral do Partido Republicano. Explora os medos das pessoas, exacerba sentimentos identitários nesta América onde a população branca está a tornar-se minoria e um país que funciona com a força de trabalho dos imigrantes. Trump usa uma estratégia de comunicação assente na manipulação dos factos e da verdade. Atiça o descontentamento populista.

 

 

As mentiras de Trump são evidentes mas há uma grande massa de eleitores que parece não querer reconhecê-las. Por exemplo: Trump denuncia um problema de imigração ilegal tão grave que o leva a querer colocar um muro para barrar a entrada nos EUA de “gente violenta” oriunda do México e de outros países da América Latina. No entanto, de facto, como atesta a Customs and Protection Border Agency, a imigração ilegal nos EUA está no nível mais reduzido desde os anos 1960. Baixa continuamente desde 2008 e a razão está bem à vista: a crise económica que cortou as esperanças e as oportunidades.

 

 

Trump também explora a sensação de insegurança física, perante roubos, violações e assassinatos. Mas os números oficiais do FBI mostram a queda forte da criminalidade violenta em todo o país, fica por um terço dos níveis registados nos anos 1970. O fenómeno que cresce nos EUA é o das atrocidades em massa, com dimensão de facto alarmante: só no ano passado, 372 casos em que o número de mortos em cada incidente foi superior a quatro. É uma tragédia para a qual contribui a facilidade de acesso a armas de fogo nos EUA. Mas esse é um problema para o qual “The Donald” não aponta soluções.

 

 

O rendimento da classe média dos EUA está estagnado ou em retrocesso há uma década. Mas Trump também não mostra soluções para inverter esse quadro preocupante que se repercute na Europa. Parece evidente que a economia americana e o emprego melhorou nestes anos de Obama, mas ao egomaníaco Trump só interessa a desgraça.

 

 

Viu-se na semana passada, na Convenção Republicana, em Cleveland, como Trump, em vez de propor esperança (como incitava Reagan, como tentou Obama, ambos sempre com mensagens aspiracionais positivas), explora o máximo negativismo político, o desdém e o ódio. O ódio a Hillary, o rancor contra o “establishment” que diz ser representado por Hillary. Especialista em designações de desprezo, Trump rebatizou-a “Crooked Hillary”, ou seja, “Hillary a Desonesta”. Trump quer transformar os medos, as frustrações e os ódios em votos.   

 

 

Hillary tem nesta semana uma oportunidade essencial para combater essa tormenta de Trump na América ultra-polarizada. Depois de na semana passada o palco ter sido para Trump na Convenção Republicana, em Cleveland, agora são os quatro dias de Convenção Democrata, em Filadélfia. É a oportunidade para fazer pontes e lançar compromissos poderosos de esperança cultural e política. Não vai ser fácil a Hillary conseguir galvanizar o eleitorado. Mas é vital que seja capaz de entusiasmar com uma visão cosmopolita, otimista e tolerante da América. 

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Erdogan está imparável a sufocar a democracia. Bem avisa Baltasar Garzón. O sultanato turco é o último dos desastres que área balcânica e mediterrânea atravessa.

 

 

Um novo capítulo na história da aviação: o Solar Impulse completou a volta ao mundo sem recurso a combustível fóssil.

 

 

O telemóvel e a internet podem ajudar a melhorar a vida em África?

 

 

Uma primeira página escolhida hoje. Bons mergulhos!

publicado às 08:24

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