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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Trump à beira da derrota, mas a fúria contra o estado das coisas ameaça Madam President

Por: Sena Santos

A dúvida que chegou a pairar parece hoje resolvida: Donald Trump, “The Donald”, vai perder as eleições. Os eleitores dos EUA vão, em 8 de novembro, fazer de Hillary Madam President.

 

É facto que ainda faltam onze semanas para o dia do voto, que ainda está para se ver o efeito de três debates de máxima audiência, sabendo-se que em política tudo pode sempre acontecer, mas ficou evidente no último mês que “The Donald” ultrapassou a crucial linha vermelha do eleitorado republicano moderado e atingiu um ponto de quase impossível retorno. Toda a gente tinha constatado no último ano de campanha que “The Donald” é uma criatura extrema, um instável e excêntrico provocador sem ética, sem um mínimo sentido de decência, uma aberração na tradição política, tanto moral como cultural, da América conservadora.  

 

“The Donald” tem mostrado - com a linguagem sexista, racista e violenta que usa - um espantoso talento para se autodestruir. Muitos republicanos não o suportavam, alguns deles condescendiam. Neste último mês, com os disparates ditos ao apelar aos portadores de arma para resolverem o problema Clinton, ao insinuar que Obama é o fundador do “Estado Islâmico” e, sobretudo, ao ofender os pais de um soldado americano que perdeu a vida, “The Donald” ultrapassou os limites, exasperou esses republicanos moderados que tentavam manter fidelidade ao partido. Donald Trump deixa assim de ter probabilidade de reunir uma base de apoio que lhe permita ser competidor elegível. Embora continue na eleição e haja que esperar pelos votos, está muito desqualificado.

 

Tanta gente nos EUA não gosta de Hillary, há muitos que a detestam. Incomoda nela o que é sentido como falta de autenticidade. Por mais voltas que os estrategos de campanha tratem de dar, não conseguem humanizar a figura distante, não afetiva, de Hillary. Mas, mesmo sem levantar ondas de entusiasmo, ela vai ganhar por ser a alternativa que resta. E esta eleição americana até vai outra vez entrar para a história: os eleitores dos EUA, depois de terem em primeira vez eleito um negro para presidente, agora vão pela primeira vez eleger uma mulher.

 

O retrato da geografia política dos EUA tem definições muito nítidas e constantes: há maioria dos democratas nos estados costeiros, do Maine à Virgínia na fachada atlântica e do Canadá ao México na frente do Pacífico; no meio há um imenso território, mas muito menos povoado, do Texas ao Dakota do Norte, do Utah ao Kentucky, dominado pelos republicanos. A análise mais detalhada destes mapas mostra que mesmo nos estados costeiros, a maioria democrata está concentrada nas grandes cidades, Nova Iorque, Filadélfia, Chicago, Minneapolis, Seattle, Los Angeles ou São Francisco; mas basta afastarmo-nos algumas dezenas de quilómetros dessas grandes cidades e a maioria passa a ser republicana. Ou seja, é, genericamente, um clássico: as áreas económica e culturalmente mais dinâmicas voltam-se para os democratas, as áreas rurais e as grandes pradarias confiam nos republicanos. Este é o retrato geral. Que também nos mostra que quase 90% dos negros e 60% dos hispânicos tende a votar democrata.

 

É ilustrativo compararmos o que tem acontecido num estado cuja cultura está centrada na família, como o Utah: em 2004, o republicano George W. Bush recebeu 72% dos votos deste estado do Oeste. Quatro anos depois, o também republicano McCain alcançou 63%. Em 2012, Mitt Romney, na oposição a Obama chegou aos 73%.  Agora, as sondagens estão a dar Trump abaixo dos 40%, empatado com Hillary no Utah. Neste estado do Utah, é muito forte o peso dos mórmons que, embora tradicionalmente próximos dos republicanos, rejeitam o discurso de Trump que rompe com valores instalados e encaminha para a perseguição a grupos religiosos, no caso, os muçulmanos. Os mórmons sabem o que é sofrerem hostilidades, rejeitam quem as promove.

 

Trump, “The Donald”, uma anomalia nesta campanha presidencial nos EUA, parece-me, claramente, um caso arrumado. Não tem continuidade política depois de 8 de novembro. Mas o facto de ter chegado aqui é muito relevante e revelador do descontentamento que avança pela sociedade dos EUA. Trump não passa mas o trumpismo, tal como o sanderismo, vão continuar e esse vai ser um desafio crucial para a Madam President Hillary Clinton. É a revolta generalizada contra o “establishment” e contra o estado das coisas. É o profundo mal-estar que sucede à quebra do poder de compra e dos empregos e ao colapso da coesão social. Algo que disparou com o desmoronamento de 2007/2008, mas que já vinha de antes.

 

Os americanos cultivavam orgulho no seu país e nas suas instituições. Tinham-se habituado, no pós-guerra, a considerar os EUA como potência planetária para o bem. Intocável, segura, terra de futuro. Havia o racismo, a segregação, mas havia orgulho no espírito da nação americana.  Ainda que com periódicas ondas de incerteza. Aconteceu em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro foguetão para o espaço, mas a confiança regressou logo a seguir com Kennedy a prometer a lua. A guerra do Vietname foi outra era de incerteza, a que se somou a crise energética que derrubou o presidente Carter.

 

Agora, depois da infâmia no 11 de setembro de 2001, tudo está de pernas para o ar. A América deixou de ser um país seguro. O medo instalou-se. A globalização transferiu para o estrangeiro muita indústria e, também com a revolução tecnológica, muita gente perdeu o posto de trabalho. Os salários dos não qualificados baixaram. A falta de emprego favoreceu a subida da hostilidade com imigrantes. A América mudou muito no século XXI. O capital social do país está abalado, há declínio do número de postos de trabalho, muitos deles suprimidos pelos avanços da tecnologia. A nova economia atirou para o limbo muitos milhões de pessoas, maioritariamente brancos e com escassa qualificação. Passaram a sentir-se ultrapassados ou até excluídos dentro do seu país. É entre esta gente revoltada contra o sistema que “The Donald” conquistou a relevância que fez dele um ciclone sobre as primárias da campanha eleitoral.

 

A fúria contra o sistema que alimentou ao longo de um ano a campanha de Trump é a mesma, embora com segmentos sociais diferentes, que deu tanto fôlego à campanha de Bernie Sanders. Trump explorou o populismo radical mais à direita, Sanders cresceu com os apelos mais à esquerda pela justiça social. Ambos são expressão de um profundo e justificado descontentamento social nos EUA. Um sentimento que em muitos casos se traduz por revolta, e que vai continuar depois de eleita a nova presidência.

 

Trump vai continuar fanfarrão mas está derrotado, Sanders tende a optar por uma retirada digna, mas o espaço sociopolítico dos EUA está propício para o aparecimento de alternativas extremadas. E o próximo Trump provavelmente nem vai ser um “clown” como “The Donald”. Madam President vai ter de ser capaz de prodígios políticos para evitar que a América entre em erupção social.  

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O jornalismo conta o que acontece no tempo presente. Parte do que o jornalismo trata entra depois para a história. É o que acontece com Fractured lands: How the Arab world came apart,  grande reportagem de extraordinária qualidade realizada ao longo de 18 meses pelo jornalista-escritor Scott Anderson a que se juntam as imagens captadas no terreno, durante 14 anos, pelo repórter fotográfico Paolo Pellegrin, e publicada no último fim de semana no New York Times Magazine. É uma reportagem profunda e preciosa, realizada com grande sensibilidade, essencial para decifrarmos, ao longo de cinco fascinantes capítulos, o que tem acontecido no Médio Oriente nas últimas quatro décadas e para compreendermos o caos de hoje. O mundo árabe, de 1976 a 2016, grande jornalismo, grande reportagem!

 

João Pina é um repórter fotográfico que vai ao fundo das coisas. Dedicou quase uma década de trabalho a investigar os horrores praticados há 40 anos por seis repressivas ditaduras militares da América do Sul que se coordenaram numa Operação Condor que perseguiu e eliminou 60 mil opositores. João Pina encontrou-se com uma centena de vítimas, estudou processos nos arquivos, acompanhou julgamentos, visitou prisões e centros de tortura. Muitas das estremecedoras fotografias a preto e branco estão publicadas no livro Condor (Tinta da China, 2014).  O trabalho de João Pina já foi mostrado em exposições em S. Paulo, em Santiago do Chile e, neste momento, na principal mostra europeia de tendências no mundo da imagem, os Encontros de Arles. A presença de João Pina em Arles está assim no Libération e já esteve assim no El País. Quando será a exposição Condor em Portugal?

 

O obstáculo de género à qualidade de Guterres: Ban Ki-moon resolve intervir para puxar por uma mulher para lhe suceder na secretaria-geral da ONU.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.  

 

E, hoje, grande salto para Nelson Évora e grande pagaiada para Fernando Pimenta.

 

 

publicado às 08:18

Um circo romano nos EUA

Por: Pedro Rolo Duarte

Às vezes pergunto-me: que mais pode a candidatura de Donald Trump fazer, a começar no próprio candidato, para demonstrar que não quer governar um país, mas quer montar um circo romano em Washington? A esta pergunta, espanto dos espantos, responde o “povo” com apoios, aplausos, uma Convenção rendida ao populismo tragicamente funcional, e uma sequência de dias em que raramente passam 24 horas sem que haja mais um escândalo, mais uma surpresa, mais qualquer coisa que nos deixa boquiabertos ou incrédulos.

 

 

Sou sincero: incrédulo, já não. Tudo é possível naquele mundo onde, depois de um discurso da barbie Melania Trump cheio de frases “roubadas” a Michelle Obama, vem uma colaboradora do marido, Meredith McIver, pedir desculpa pelo erro cometido. Terá sido ela a escrever o discurso, a partir de “pensamentos” da mulher do candidato - e como não confirmou a origem das frases, tomou-as como originais… É extraordinária a forma como tudo isto passa incólume e Trump, sem hesitações, não aceita a demissão da “autora” e afirma que “as pessoas cometem erros inocentes”…

 

 

É isto que os americanos estão a aprender a aceitar como possível e normal, para não dizer desejável. A mentira, a xenofobia, o racismo, o populismo, o plágio, todo este conjunto ideológico e ético, que na Europa crescemos aprendendo a rejeitar e a combater, é agora arma de propaganda barata para que o cidadão americano comum, seguramente na mais profunda ignorância sobre as consequências de tal opção, se deixe levar e acredite que resolve os problemas do seu país.

 

 

Os Estados Unidos da América conseguem, neste começo de século XXI, juntar o melhor e o pior sem distinção nem razão. O país das oportunidades e da meritocracia, o país onde todos têm oportunidade, o país que descobre-inventa-fabrica-vende, o país onde errar faz parte do caminho e não é argumento de exclusão, o país multicultural que nasceu e cresceu justamente por causa dessa miscigenação - esse mesmo, é o país onde a erva daninha de um Donald Trump tem terra fecunda para crescer sem que pareça haver quem lhe faça frente. Dizem que é o preço a pagar pela democracia - eu acho que são apenas juros de agiotas…

 

 

A Casa Branca tem tido inquilinos perigosos e pouco confiáveis - o apelido Bush seria suficiente… -, mas nunca esteve tão perto do abismo como em 2016, com este homem que começou por ser um “fait-divers” e é hoje um caso sério. Muito sério.

 

 

Se a História das ultimas décadas nos tem provado que a globalização não é apenas uma palavra para encher a boca dos economistas e gestores, a caminhada de Donald Trump até à Presidência dos EUA não é um problema apenas “deles”. É de todos nós. No período negro que temos vivido, entre crises profundas e terrorismo extremo, um homem destes a mandar na América não é ameaça menos grave. Sérgio Godinho bem disse que “Isto anda tudo ligado”. Há forma de desligar? Parece tarde demais.

 

 

Leituras na rede a não perder (porque a morte dos blogues foi noticia claramente exagerada…)

 

Luís Naves é um credenciado jornalista do Diário de Notícias, além de escritor com romances publicados. Ligado ao blog Delito de Opinião, tem escrito, sob a “tag” “cadernos contemporâneos”, alguns posts tão enxutos quanto valiosos. Assinalando os 80 anos da Guerra Civil Espanhola, aqui vos deixo um exemplo desse minucioso, delicado e excelente trabalho de jornalismo e memória. Que tanta falta nos faz…

 

 

“Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada?”. Presta. O que escreve Eugénia de Vasconcellos (e pode ser lido em livro, por exemplo em “Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”) é um dos valores acrescentados do blog Escrever é Triste, onde se junta um generoso numero de excelentes autores, de Manuel S. Fonseca a Pedro Bidarra, de Henrique Monteiro a Diogo Leote. Recomendo todos, mas sublinho o meu gosto especial pela escrita de Eugénia.

 

 

Já há um livro que carimba o blog e lhe prolonga o nome: “Por Falar Noutra Coisa”, de Guilherme Duarte, é um dos fenómenos de sucesso que marca os tempos actuais no mundo dos blogues. Entre o humor e o sarcasmo, entre a critica e o gozo puro, Guilherme vai a todas, da política à vida comum, das tendências às suas manias pessoais. No começo pode provocar alguma comichão, mas depois percebe-se o autor e a coisa passa…

publicado às 11:16

Universidade Trump: o esquema que pode (finalmente) deitar abaixo Donald

Por: José Couto Nogueira

 

Em resumo, Donald Trump passou de uma espécie de aberração circense para um sucesso de palco, e na semana passada confirmou-se que tem o número de votos do colégio eleitoral suficiente para ser o candidato republicano à Casa Branca. A nomeação parece inevitável. A não ser que o último escândalo que envolve o milionário seja a gota de água. Trata-se da Universidade Trump onde se pode obter um diploma em três dias.

 

 

Há que reconhecer: Donald Trump é imparável. Começou tarde a sua candidatura a candidato republicano , ridicularizado pelos democratas, que o viam como uma caricatura, e desprezado pelos próprios republicanos, que não o identificavam com os seus valores. Os grandes mecenas do partido, os irmãos Koch (petróleo, químicos, energia, etc.) e Sheldon Adelson (o maior dono de casinos do mundo, inclusive em Macau) achavam-no incontrolável, e os republicanos tradicionais tinham-no como profano. Entrou com o seu dinheiro, disse todos os disparates e inconveniências que se podem dizer, e foi arregimentando uma espécie de culto, primeiro entre os racistas e demais grupos perigosos, depois na multidão de cidadãos que acha que o mal do país está no abandono dos princípios originais que o criaram – empreendedorismo, livre iniciativa, sucesso, consumismo. 

 

Do lado democrata, a luta entre uma candidata de que ninguém gosta, Hilary Clinton, e um candidato demasiado esquerdista, Bernie Sanders, está a provocar um desgaste que, para lá da indecisão sobre quem será o escolhido para concorrer, também está a aumentar as possibilidades do arrogante ruivo que quer muralhar a América, expulsar os imigrantes e fazer os aliados estrangeiros pagar as despesas militares do imperialismo americano.

 

A não ser que surja alguém na convenção do partido suficientemente convincente – e não há ninguém à vista – a nomeação de Trump é inevitável.

 

Ou, a não ser que o último escândalo que envolve o milionário seja a gota de água. Não só entre o eleitorado, mas também do ponto de vista jurídico, uma vez que estão a decorrer processos judiciais que até dão direito a prisão. A história chegou à comunicação social e às redes sociais na semana passada e tem desenvolvimentos imediatos. O nome do golpe é Universidade Trump e existe desde 2005.

 

Trata-se de um esquema fraudulento para enganar os incautos em que até os próprios funcionários da operação estão a testemunhar contra Trump. Neste momento há processos a decorrer em dois estados. Na Califórnia, a queixa foi apresentada por alguns dos “alunos” enganados pela “Universidade”; em Nova Iorque pelo próprio Procurador Geral do Estado, Eric Schneiderman. Em ambos os casos alguns empregados da instituição estão a colaborar com a justiça.

 

Primeiro, o nome: para ser uma Universidade é necessário um registo legal, dependente de uma série de critérios. A operação de Trump não está registada como tal em parte alguma. Na verdade nem tem nenhum registo especial, é apenas um negócio como uma pastelaria ou outro qualquer.

 

Depois, o currículo: um “curso” básico são três dias – sim, três dias para obter o diploma. A pós graduação leva uma semana e o doutoramento consume mais outra. Há ainda vários seminários, ou cursos facultativos, mas recomendados. E como se chama a especialidade ensinada? De acordo com os documentos entregues nos tribunais, o aluno bem sucedido, isto é, o que frequentar todas as aulas e seminários e pagar as propinas, fica formado em Investimento Imobiliário e doutorado em Investimento Geral.

 

 

Em terceiro lugar, o currículo do curso. Embora a instituição tenha como fim ensinar os alunos a investir em imobiliário, na realidade o que faz é vender os seus vários cursos motivacionais, com dicas simplórias, por preços exorbitantes. Ronald Schnackenberg, um dos ex-professores/vendedores testemunhou que a única coisa que os seus superiores queriam saber era quantos cursos seguintes ele tinha vendido, dentro de um sistema progressivo em que cada seminário é mais caro do que o anterior.

 

Conforme anotou para os autos o Procurador Geral Schneiderman, os três dias iniciais são gratuitos, para convencer os incautos a comprar o “seminário” seguinte, que custa mil e quinhentos dólares. Na aula, “professores” afirmam: “Trump, o mais famoso empreendedor no mundo, vai partilhar consigo o seu método para investir nas condições únicas do presente mercado imobiliário".

 

Um folheto diz que Trump escolheu pessoalmente os professores, quando na realidade ele não só não escolheu ninguém como nunca aparece nas aulas, nem nenhuma técnica sua é ensinada. O material didáctico utilizado foi produzido por uma empresa especializada em conteúdos para “oradores motivacionais” e empresas de “time-share”.

 

O mais próximo do milionário que os alunos ficam é a oportunidade de serem fotografados ao lado de uma fotografia de Trump montada em cartão.

 

Aliás, o sistema tem muito a ver com os métodos de “time-share”: durante o primeiro segmento do curso, que são os tais três dias gratuitos, os professores dizem às pessoas que deveriam comprar cursos opcionais que podem chegar aos 35 mil dólares. Os professores recebem formação para criar uma ligação emocional com os alunos, de modo a convencê-los a dar o passo seguinte. Quando o problema é o custo, também têm respostas preparadas, incluindo como usar o cartão de crédito ou pedir um empréstimo para estudos ao seu banco. O programa mais caro chamava-se “Elite de Ouro” e a conversa é que quem não conseguie financiar esta quantia também nunca poderá pertencer à Elite de Ouro da Economia.

 

Inquirido sobre a sua “universidade”, Trump já disse que não fez nada de ilegal e que os “consumidores” têm mostrado uma alta aprovação dos cursos; como prova, cita uma página da Internet feita pelos seus serviços, 98percentapproval.com, onde se podem ler testemunhos laudatórios e, por acaso, críticas ao Procurador Geral de Nova York. Finalmente, afirmou que está desejoso que o caso seja julgado, para poder mostrar a verdade em tribunal.

 

Há um aspecto desta história a considerar; até agora os adeptos de Trump parecem ignorar completamente as suas quatro falências, os vários esquemas de que já foi acusado e, evidentemente, as suas afirmações mais chocantes. Contudo, se há uma situação que costuma cair muito mal na opinião pública americana, são os esquemas de conto do vigário para extorquir dinheiro às pessoas.

 

Clinton e a imprensa de esquerda, como o site “Politico” e a revista “The New Republic”, estão a levantar esta história como uma última prova de que Trump é um vigarista e não tem pejo explorar os mais débeis economicamente. E é mesmo a última: se a Universidade Trump não causar repúdio entre os eleitores mais moderados, nada os impedirá de votar no homem que quer “tornar a América grande novamente”.

 

 

publicado às 13:05

Perante "The Donald", venha a Madam President, ainda que lhe falte faísca

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Donald, o impetuoso, abrutalhado, exuberante, misógino e multimilionário, candidato do bullying político que despreza os valores da solidariedade e a sabedoria sensata, ou Hillary, a velha raposa que representa a casta do fatigado sistema tradicional de governação, qual dos dois, o anti-político ou a política do costume, vai conseguir fingir melhor e conquistar a presidência dos Estados Unidos da América? O “Election Day” é já daqui a 180 dias e a campanha para a escolha do sucessor de Obama vai ser um concurso de impopularidade: quem consegue menos hostilidade do eleitorado, quem assusta menos?

 

É de prever que Hillary Clinton vá aparecer nos próximos meses reenvernizada com cores progressistas para tentar captar o eleitorado progressista, liberal e vagamente social-democrata que Bernie Sanders soube mobilizar e sacudir do ceticismo. O marketing de  "The Donald" vai optar pelo “Trump paz e amor” a ver se constrói uma postura presidencial e amacia as resistências tanto no fragmentado campo republicano como no decisivo eleitorado oscilante. Ela e ele vão ter de mudar ou maquilhar o discurso para tentarem conseguir a eleição em 8 de novembro.


Vender “The Donald” como uma boa pessoa é uma tarefa que parece quase impossível. Que imagem é que ele mostrou nos últimos meses? Racista (“Build the Wall”). Isolacionista (“America First”).  Sexista (“Women, you have to treat them like shit”, comentário nos anos 90 ao New York Magazine). É definido por vários outros adjectivos, todo negativos: hipócrita, narcisista, histriónico, autoritário, prevaricador, ridículo, islamofóbico. Há quem o resuma numa palavra: bimbo. Mas poderoso. O léxico e a sintaxe do candidato são rudimentares mas a mensagem simplista dele é eficaz, galvaniza muita classe média e baixa, branca, atingida pelo grande sismo das guerras bushistas e pela grande recessão pós-2007. Um eleitorado enfurecido ou obcecado com a suposta perda da grandeza americana. Donald Trump entra por esses eleitores com o discurso representado pelo slogan ”Make America great again”.  Mobiliza muitos empreendedores frustrados. Seduz a América que gosta da força bruta.


Ele, “The Donald”, pode vir a ser presidente dos EUA? Não é o mais provável mas não deixa de ser uma possibilidade que nem sequer é remota. Como as coisas estão, já nem espantaria se no topo da Casa Branca aparecesse daqui a um ano o anúncio luminoso com letras maiúsculas “THE TRUMP PRESIDENCY”. Quando Reagan surgiu na política, quantos acreditavam que o cowboy do cinema chegasse a presidente? Quando Donald Trump apareceu nas primárias republicanas quantos não se riram? Ele entrou a ganhar primárias, umas após outras, disse-se então que o fenómeno Trump acabaria por estoirar. Não implodiu e vai discutir a eleição com Hillary.  O impensável afinal pode acontecer.


As sondagens mostram tendência para, depois de Obama, a América ter uma Madam President. Mas a “Clinton Fatigue” pode ser fatal para Hillary. Há uma grande revolta contra o sistema que ela representa. Hillary é, reconhecidamente, pouco entusiasmante em campanha, com discursos banais e monótonos, e o seu perfil político substancialmente no centro moderado conservador não entra pelo eleitorado que com Sanders, o visionário que promete utopias e propõe o reformismo da velha (boa) Europa, passou a acreditar na política. Há gente de Sanders tão hostil a Hillary que admite preferir Trump.


Hillary também sabe que aqueles muitos que na direita republicana se mostram recalcitrantes ou hostis a “The Donald” ainda podem tender para uma rendição de conveniência ao nacional-narcisismo do candidato que oferece como programa político a sua “mágica capacidade para ganhar”. Ele pode ainda conseguir unificar depois de ter dividido. É que os republicanos temem que o Great Old Party, desagregado nestas Primárias, fique varrido do poder, não só continuando fora da presidência mas também sem a maioria que tem mantido no Senado e na Câmara dos Representantes.


A América promete ao seu povo felicidade. Está na Declaração de Independência. É um dos três “inalienáveis direitos” – os outros são o direito à vida (bastante mal tratado numa sociedade onde todos têm uma arma) e à liberdade.


Donald Trump na presidência dos EUA pode ser uma ameaça à felicidade e estabilidade americana e mundial? Muitos peritos pensam que sim. Ele quer desfazer o acordo nuclear que Obama promoveu com o Irão. Fecha a porta a qualquer refugiado. Quer políticas sem concessões aos clandestinos. Despreza o protecionismo frente ao comércio global. Promete, com o seu populismo económico, obrigar as farmacêuticas a baixar o preço dos medicamentos mas põe o Estado a gastar muito menos em Segurança Social. A reforma fiscal dos estrategas trumpistas implica enorme baixa das receitas fiscais (reduz o imposto sobre as empresas dos atuais 35% para o máximo de 15%), portanto grandes cortes na função do Estado e disparo da dívida americana. Ele faz graçolas com o aquecimento global e despreza o acordo sobre o clima. A guerra comercial que promete à China, a quebra de alianças com o Japão e a Coreia do Sul, a par do menor envolvimento na NATO, a acontecerem, representariam um mundo em turbulência com a América cada vez mais fechada sobre si própria. Não é um bom mapa para o futuro. É por isso que, já foi dito, vamos ter saudades de Obama. É por isso que, apesar da falta de faísca, venha Madam President.


Todos precisamos de uma América generosamente envolvida com o que Alexis de Tocqueville abordou em 1840 no famoso livro Democracy in America: a “paixão democrática”.



TAMBÉM A TER EM CONTA:


A hashtag  #YesWeKhan está no topo por estes dias: Londres, a capital mais cosmopolita da Europa, ao escolher para mayor o muçulmano, feminista e ativista dos Direitos Humanos Sadiq Aman Khan, demonstra que a verdadeira Europa, aquela que se levantou das ruínas da Segunda Grande Guerra existe e resiste contra os nacionalismos, a xenofobia e outras discriminações. O filho do motorista paquistanês é o mayor da capital britânica. Boa resposta ao apelo lançado pelo Papa para uma Europa rejuvenescida onde se “construam pontes e não muros”. Às vezes a política traz boas notícias. Mas os problemas de fundo permanecem.

 

Um encontro sobre o futuro da transformação digital em curso.

 

O dia contado em imagens escolhidas por La Vanguardia.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, que mostra como a política do Brasil está no circo.

 

 

publicado às 08:25

E se Trump ganha?

Por: José Couto Nogueira

 

 

O Presidente dos Estados Unidos da América é considerado, com alguma razão, o Homem Mais Poderoso do Mundo. O que poderá acontecer se um megalómano ocupar o lugar?

 

Num ponto concordam os “anti-imperialistas” e os pró-americanos: o Presidente do “Império” e Comandante em Chefe das suas forças armadas tem poderes que se estendem do Pólo Norte ao Sul, e do Alaska à Austrália, passando pelos orientes (Próximo e Médio) e, fatalmente, pela Europa. Também tem influência, já agora, no padrão de vida de 322 milhões de norte-americanos.

 

Portanto não surpreende que as eleições para este cargo superlativo, marcadas para 8 de Novembro, suscitem interesse e ansiedade em todo o mundo. E também não surpreende que uma grande maioria de habitantes desse mundo esteja de cabelos em pé com a perspectiva de que ganhe um homem de estranhos cabelos cor de laranja e ainda mais estranhas ideias quanto ao que fará com o planeta.

 

No complexo sistema constitucional do país, a eleição do presidente é feita indirectamente por um Colégio Eleitoral de 538 representantes dos Estados. Para ser candidato a presidente também é preciso ser escolhido pelos delegados do seu partido, num processo semelhante: os delegados dum estado votam todos no candidato escolhido pelos eleitores do partido nesse estado.

 

Isto é importante para perceber como está a situação nesta altura, princípio de Março. Para conseguir a nomeação pelo Partido Republicano é necessário o voto de 1.237 delegados. Estas eleições, ditas “primárias” são feitas estado a estado, em datas diferentes, o que permite ir avaliando as possibilidades dos candidatos. Trump tem, até agora, 316 delegados, enquanto os senadores pelo Texas, Ted Cruz, tem 226, e o pela Flórida, Marco Rubio, tem 106. Os observadores consideram as próximas primárias de 15 de Março como a última oportunidade para parar Trump. Uma vitória de Rubio em seu Estado natal, a Flórida, levantaria questões sobre a força de Trump, assim como uma vitória de John Kasich, governador de Ohio.

 

Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

O Partido Republicano está muito dividido, e não apenas porque há vários candidatos, mas também porque os seus próceres – os senhores que tradicionalmente determinam quem vai enfrentar o democrata – têm sérias dúvidas de que Trump consiga vencer Hilary Clinton na eleição de Novembro. Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

Por outro lado, Trump tem uma agenda própria, errática, sem as preocupações estratégicas que os velhos republicanos consideram indispensáveis para ser viável. Por exemplo, Mitt Romney e John McCain já vieram publicamente afirmar que ele não é aceitável. Em termos simplistas, é muito mais à direita do que o conjunto do partido, ao mesmo tempo que tem propostas consideradas sacrílegas e delirantes pela filosofia republicana tradicional. A declaração mais recente (há declarações novas todos os dias) foi a aceitação do apoio dos grupos suprematistas brancos – as organizações que defendem a superioridade da raça ariana e querem eliminar (fisicamente ou por expulsão) todos os negros, hispânicos, muçulmanos e demais minorias. Estes grupos não só são moralmente inaceitáveis como politicamente inviáveis – ou seja, o apoio deles é uma espécie de beijo da morte para qualquer candidato. Mas é indiscutível que Trump tem muitos apoiantes e que, se nada se fizer, ganhará a candidatura.

 

Para nós, europeus, que temos outros problemas, receios e preconceitos, é difícil perceber porque Trump faz tanto sucesso. Dizer que os americanos são estúpidos, racistas, imperialistas, etc. é uma opinião ideológica que não explica nada. A opção por Trump tem a ver com angústias profundas da sociedade americana que se têm agudizado nos últimos anos a um nível quase paranóico.

 

Os conservadores – chamemos assim ao conjunto muito díspar de pessoas que consideram que os valores e a qualidade de vida estão seriamente ameaçados – sentem que o país já não lhes pertence. Aquele país ideal, que talvez nunca tenha existido mas sempre foi uma possibilidade, em que os imigrantes eram servis e invisíveis, o trabalho abundante, a diferença entre ricos e pobres ultrapassável – qualquer pobre poderia vir a ser rico – a homossexualidade não tinha direito de cidade e a criminalidade estava contida, esse país está a desmoronar.

 

Aquilo a que eles chamam de “valores” – as religiões cristãs, a família nuclear, a ascensão pelo mérito – estão a perder-se. No mundo, a América é desafiada pela China e achincalhada pela Rússia, e não consegue ganhar nenhuma guerra em que se mete; em casa, a criminalidade e a pobreza aumentam a olhos vistos, até o Presidente é negro e o Estado cada vez mais policial. Há uma sombra sinistra que se espalha pelo céu azul dos valores certos e estabelecidos, como que a anunciar o Armagedão.

 

Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia

 

Portanto, um homem que tem instintos básicos para identificar todos os perigos e fulminar todos os demónios, com instinto mediático e sem medo de dizer o que pensa, parece o redentor que vai afastar as dúvidas, o relativismo moral e os marginais que estão a destruir o país. Um homem que vai expulsar os indesejáveis que atulham o mercado de trabalho, falar de cima para baixo aos chinocas e comunistóides, e pulverizar os terroristas islâmicos que os querem matar a todos, violar as mulheres e obrigá-los a uma religião infame.

 

A outra variável que perturba os velhos republicanos é a falta de candidatos credíveis. Tanto Marco Rubio como Ted Cruz, os dois que ainda restam na corrida, são fracos. Têm os valores certos, mas não convencem. Rubio é um cristão devoto, quase medieval, com um discurso desactualizado que nem consegue ser percebido pela população urbana. Além disso já mudou de ideias em questões fundamentais, como a imigração, conforme pensa no que o eleitorado quer. Ted Cruz é detestado pelos seus colegas senadores, que o vêem como um manipulador barato cuja palavra não vale um caracol. Ou seja, por mais perigoso e impalatável que Trump seja, o establishement republicano não preparou a tempo nenhum outro candidato com massa crítica e ideias aceitáveis que lhe possa fazer frente.

 

Finalmente, há que levar em conta que os grandes financiadores do Partido Republicano são os irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos Estados Unidos (petróleo, produtos químicos, plásticos, etc), e Sheldon Adelson, dono de casinos no Nevada e em Macau. Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia. Embora Trump seja demasiado obsceno para os seus pontos de vista, certamente que preferem por os seus milhões nele perante o perigo doutro mandato democrata. Os republicanos mais moderados não se podem permitir a contrariar Koch e Adelson, que contam com mais de 50 por cento do financiamento do partido.

 

Pois é, o Partido Republicano está numa encruzilhada. O que quer dizer que os Estados Unidos também estão, uma vez que o equilíbrio entre os dois partidos tradicionais tem sido, há duzentos anos, o equilíbrio do sistema político. Se perder vergonhosamente, haverá uma hegemonia excessiva dos democratas, o que não é bom – os democratas também não são nenhuns santos, mas isso é outra conversa. Se ganhar, a terceira Guerra Mundial será uma possibilidade mais séria, para não falar nas iniquidades que ocorrerão nos Estados Unidos.

 

Então, se os Estados Unidos estão numa encruzilhada, o que será de nós, europeus, que também não estamos a saber governar-nos?

 

Num mundo ideal, todo o planeta poderia votar para a presidência norte-americana, já que lhe sofre as consequências.

 

O que vale é que a colonização da Lua está em andamento.

 

 

publicado às 10:22

Desculpe-me, senhor presidente, não queria faltar-lhe ao respeito

Por: Rute Sousa Vasco

Fazer rir é difícil. É muito mais difícil do que fazer chorar. Fazer humor é, por inerência, mais difícil do que fazer drama e em Portugal é ainda mais difícil. Desde a falta de inteligência até ao excesso de preconceitos, vale quase tudo para que vingue o grande desígnio da nação que é, continua a ser, “o respeitinho é muito bonito”.

 

Vem isto a propósito do filme protagonizado por Johnny Depp – sim, Johnny Depp, o pirata, aquele a que qualquer bom pai de família acha piada numa matiné de domingo à tarde – e que, basicamente, faz o que tem de ser feito quando o tema é Donald Trump. E que é, por mar, por terra ou por ar, explicar aos americanos que se não percebem que o homem é perigoso, percebam pelo menos que é ridículo. E que essa é uma razão de peso para não o elegerem presidente da nação mais poderosa do mundo, porque os efeitos seriam à escala planetária.

 

Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie estreou e foi produzido pelo site "Funny or Die", um projecto que envolve vários nomes do cinema e da televisão americana (entre os quais está, por exemplo, Adam McKay, realizador do filme The Big Short em exibição nos cinemas e que é outra forma de fazer política e cidadania, além, naturalmente, de espectáculo). E Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie  estreou exactamente no mesmo dia em que Donald Trump confirmou a sua vitória nas primárias americanas no estado de New Hamphire. O que por si só nos deveria fazer chorar em vez de rir.

 

Sobre o filme podem ler toda a história aqui, no artigo ontem publicado pelo "Público". Ou ainda melhor, podem ver o filme aqui, no site "Funny or Die, sem qualquer restrição". Mas, acompanhem-me só mais um pouco, que o filme tem quase uma hora e só vos tomo mais cinco minutos.

 

Fazer humor, produzir documentários “sem respeitinho”, criar formatos para televisão, para um site, para uma rádio é hoje (foi sempre?) provavelmente das formas mais poderosas e eficazes de chegar às pessoas. Chegar às pessoas é o grande desígnio dos políticos e das marcas. Uns para serem eleitos, outros para serem consumidos. Mas em Portugal todo este discurso esbarra num medo asfixiante de “parecer mal”, de alguém fazer um telefonema a alguém a dizer que não gostou ou de simplesmente haver discussão, divergência, polémica em relação a um determinado tema. Que horror! Polémica! Que horror! Opiniões fortes e contraditórias! Que horror! Pessoas importantes que se sentiram incomodadas.

 

É provavelmente por esta razão que devemos ser o país recordista de boas ideias e bons projectos guardados na gaveta. É também provavelmente por isto que permanence tanto imobilismo e ignorância em temas que são realmente importantes para a vida das pessoas. E é garantidamente por isto que se espera que algumas das pessoas mais criativas do país salvem o mesmo país da sua indigência intelectual e cultural (e não, não estou a falar de coisas que só meia dúzia percebe e aplaude) mercê de serem miseravelmente pagos, se mesmo pagos. Os Gato Fedorento, que hoje todos querem ter, só nasceram porque uma televisão lhes deu espaço, mesmo que sem orçamento.

 

Um amigo que trabalha nestas coisas do humor disse-me um dia que um humorista nunca pede desculpa. Não por arrogância, mas por coerência. Humor é humor. E tem um papel chave para desconstruir coisas que “as pessoas sérias” dizem e que precisam ou devem ser desconstruídas.

 

Precisamos de pessoas inteligentes, curiosas, corajosas, livres e em funções com poder de decisão para que filmes como Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie ou The Big Short aconteçam em Portugal, entre tantas outras coisas. Isso, mais que tanta palestra e filme institucional maçador, vai de facto fazer a diferença e, como tanto se gosta de dizer, chegar às pessoas. Sem paternalismos, o problema não é o povo. O Eça já dizia que o problema são as elites. E não é que são mesmo?

 

Tenham um bom fim-de-semana e assistam a Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie 

 

OUTRAS LEITURAS 

 

As guerras perduram muito além do seu tempo e teimam em não ficar guardadas para todo o sempre nos livros da História. Esta semana começou o julgamento de um ex-guarda de Auschwitz, hoje com 94 anos. Vieram testemunhas de vários pontos do globo e durante os próximos meses os fantasmas da 2ª Guerra Mundial vão regressar a Detmold, na Alemanha.

 
Ainda não é hoje, mas um destes dias vamos voltar a este tema. É sobre as espantosas razões por que em 2016 as mulheres continuam a ganhar menos que os homens. Em Inglaterra as empresas com mais de 250 empregados vão ter de divulgar quanto pagam de salários e bónus a homens e mulheres. E, sabe-se lá porquê, não estão a gostar da ideia e conseguiram mais um adiamento.

publicado às 10:58

A vitória da trampa. Ou deixem que vos entretenham

Por: Rute Sousa Vasco

 

Em julho deste ano, o site de informação americano Huffington Post anunciou que, daí para a frente, passaria a integrar a informação sobre a campanha de Donald Trump na secção de entretenimento em vez da secção de política. Esta semana,Trump escolheu como uma das suas bojardas a proposta (?) para que fosse inibida a entrada a todo e qualquer muçulmano nos Estados Unidos e o Huffinfgton Post mudou de ideias.

 

Numa nota editorial, Arianna Huffington, fundadora do site, explicou o porquê da mudança. Em julho, assumiram a cobertura da campanha de Trump como mero entretenimento, porque consideraram, pelos seus actos, que não era realmente a sério. Ou seja, que ele não queria realmente governar os Estados Unidos com aquelas propostas – apenas queria fazer show off.

 

A escalada verbal do candidato a candidato republicano fez com que o Huffington Post mudasse de ideias. Continua a ser uma campanha virada para o espectáculo, mas o espectáculo tornou-se perigoso. Diz Arianna: “Acreditamos que a forma como cobrimos a campanha deve reflectir esta mudança. E parte disso implica não deixarmos nunca de lembrar à nossa audiência quem é Trump e o que a sua campanha representa”.

 

Em Portugal somos, ao invés do que acontece nos Estados Unidos, muito sensíveis à tomada de posição pelos media. E a forma como olhamos para as pessoas com opinião é uma especíe de idiossincrasia nacional. Temos que os amar ou odiar – na maior parte dos casos é difícil simplesmente ouvir e depois pensar pela nossa cabeça. A soma disto à condição económica de país pobre, de dinheiro e tantas vezes de espírito, faz com que os jornais sejam mais pardos que transparentes na defesa das suas opções e, sobretudo, que subsista um temor em tomar partido.

 

É também por isso que a tribo dos comentadores cresce e multiplica-se. Um comentador é alguém de fora a quem se paga (ou não) para tomar partido e dizer porquê. Com sorte, e muito tempo para redes sociais, cai no goto da audiência. Se o pior azar acontecer – o dito comentador dizer ou fazer algo francamente estúpido e condenável–, quem o convida pode sempre demarcar-se e dizer que nada teve a ver com isso. E é também assim que nascem os nossos fenómenos de mediatismo: a América tem Donald Trump, nós temos Pedro Arroja.

 

Isto devia ser o que verdadeiramente nos preocupa. Uma espécie de mal para o qual não se antevê fim. Somos hoje uma espécie de sociedade de drogados em estupidez. Se é estúpido e ganhou forma de ‘conteúdo’, tem uma grande probabibilidade de ser um sucesso. As redacções disputam entre si a primazia na divulgação da estupidez, porque tudo é decidido a partir dos backoffices onde aprendizes de jornalistas foram enfiados a olhar para cliques. E, claro, se um link tem muitos cliques – é porque está a correr bem.

 

Não, não está a correr nada bem. E, lamentavelmente, usando uma frase do grande manipulador Frank Underwood, isto não é ‘bad for the greater good’. Isto é só mau sem que se aviste um bem maior. É mau em qualquer parte do globo, mas é muito pior nesta parte do globo que habitamos – porque é mais pequena e hoje a indústria das notícias, como outras, só tem viabilidade em doses XL. Nos Estados Unidos, como cá, a trampa é quem manda. Mas nos Estados Unidos, ao contrário de cá, há um número suficiente de pessoas para outras leituras, outros consumos de informação, que não trampa. E isso faz toda a diferença.

 

Qualquer site que se preze, incluindo este onde escrevo, tem a sua área de ‘notícias mais populares’. A popularidade tornou-se uma obsessão. A popularidade, acredita-se, vai salvar o negócio de informar. Se o mais popular é o que teve mais cliques, ao promovermos mais todos os mais populares, teremos a solução da multiplicação das audiências que irá salvar o negócio.

 

Só que não.

 

Esta semana, foi notícia que uma equipa das universidades do Minho e do Porto criou um sistema inteligente que sugere melhorias no desenho de notícias online antes da sua publicação, com vista a aumentar a sua popularidade. Segundo a nota enviada às redacções, o sistema permitiu, nos testes, aumentar 15% a probabilidade de uma notícia ser popular e ainda identificar a maioria (73%) das notícias que viriam a ser populares. “Há um interesse crescente por notícias online, face à expansão da Internet, e a previsão das notícias mais populares, medida pelo número de partilhas, é cada vez mais estudada e cobiçada pelas empresas e instituições”.

 

Esta equipa testou o que baptizou como “sistema de apoio à decisão inteligente” em quase 40.000 notícias publicadas desde 2013 no Mashable, o maior blogue mundial de notícias sobre novas tecnologias, que conta com 24 milhões de seguidores e 7,5 milhões de partilhas por mês. E os resultados mostraram que “a popularidade de uma notícia pode subir com uma fácil alteração, pelo seu autor, de atributos sugeridos como o número de palavras do título, as palavras-chave (já usadas noutras notícias) e a aposta em determinados links”.

 

É uma ciência, visto desta forma.

 

A tecnologia é preciosa em praticamente tudo o que fazemos. E os media não são excepção, pelo contrario. O volume de informação cresce todos os dias e as ferramentas tecnológicas são o que nos permite trabalhar melhor, analisar melhor e sobretudo encontrar padrões e notícias onde muitas vezes só parece existir ruído.

 

Mas primeiro temos de parar de nos enganar. A tecnologia resolve muita coisa – mas não resolve a estupidez e, mal usada, pode apenas ampliá-la. Em nome da popularidade. Por exemplo, este artigo sobre a águia que quase furou um olho ao Donald Trump foi de certeza bem mais popular do que a nota de Arianna Huffington sobre como fazer a cobertura jonalística da campanha do alegadamente candidato. Aqui, sim, talvez se possa dizer ‘ bad for the greater good’.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Sugestões

 

As razões pelas quais 'teenagers' dos 11 aos 15 anos são seduzidos pelo Daesh estão longe de ser simples de entender. E a forma como o conteúdo de recrutamento se multiplica é também assustadora. Como não vamos fechar a internet, temos de começar pelo mais importante que é o que se passa em casa, nas escolas e na promessa de vida que estes miúdos vislumbram.

 

É uma sugestão já com umas semanas, mas só hoje a posso fazer com conhecimento de causa neste espaço. Dêem por bem empregue duas horas do vosso tempo e comprem um bilhete de cinema para ver “Steve Jobs”, o filme de Danny Boyle. Michael Fassbender é soberbo e está justamente nomeado para os Globos de Ouro com este papel. Kate Winslet, sempre ela, igualmente imperdível.

 

E para fechar, fiquem com isto para exercitar a massa cinzenta durante as festas e vejam do que são capazes (atenção ao 'spoiler alert').

publicado às 08:57

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