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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A 'showciedade': há uma epidemia de narcisismo?

Por: Helena Oliveira

 

O narcisismo parece estar a contaminar as sociedades ocidentais como se de uma epidemia se tratasse. Os nossos egos estão, de acordo com vários estudos, a engordar a um ritmo bem mais acelerado do que a obesidade física, ela própria decretada como um dos grandes problemas das sociedades ocidentais. Ou seja, temos egos demasiado gordos. Culpa dos pais indulgentes, que transmitem aos filhos a ideia de que são “mais especiais do que os outros”, das redes sociais por proporcionarem o palco por excelência para quem procura exibir a sua grandiosidade ou apenas um “novo normal” ao qual nos temos de habituar?

 

 A modelo Gigi Hadid faz a vontade aos fãs e cumpre o ritual da selfie

 

Recordar-se-á o leitor de um famoso anúncio a uma marca que, há mais de uma década, questionava “se eu não gostar de mim, quem gostará”? E, se puxar pela memória, talvez se lembre também que, passado uns anos, a mensagem da mesma marca se inverteu e o slogan passou a ser “se eu gostar de mim, quem não gostará?”.

Pois bem, a ideia de este artigo não é a de escrever sobre mensagens subliminares veiculadas pelo admirável mundo da publicidade, mas a de alertar para um debate, que não sendo propriamente novo, tem vindo a ganhar contornos renovados com a emergência de uma sociedade em que o narcisismo – ou uma visão crescentemente insuflada do “eu” – parece estar a impregnar-se, crescentemente, em todas as suas esferas.

 

Poderíamos já saltar diretamente para o mundo virtual e culpar, de imediato, as redes sociais – que tão bem veiculam, 24/7, manifestações egocêntricas constantes – mas isso seria escolher o atalho antes de percorrer pelo menos uma boa parte do caminho. Sim, é verdade que ao longo dos últimos anos, e em particular com o advento do Facebook, do Twitter e do Instagram, se multiplicaram os estudos, e a literatura, no que respeita à tentativa de se estabelecer uma ligação direta entre o aumento do narcisismo e os media sociais. Mas, e como defendem também outros “especialistas” da praça, estes servem apenas de meios privilegiados e imediatos para expressar tendências narcísicas preexistentes. E sim, lá iremos, mas não antes de tentar dar uma ordem minimamente cronológica ao assunto.

 

Há já várias décadas, e em particular a partir dos anos 70 e 80 do século passado, que antropólogos, sociólogos e outros “ólogos” afins se uniram na caracterização da sociedade ocidental como “individualista”, fazendo correr rios de tinta sobre o fenómeno. É, no entanto, sobretudo no final do século XX e inícios do século XXI que uma mudança cultural mais alargada, envolvendo valores, crenças e práticas bem demarcadas, se pôs em marcha, e acelerada, no sentido do que já é defendido por vários pretensos entendidos no assunto como a “sociedade obsessivamente narcísica” ou a “epidemia do narcisismo”.

 

quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos

 

Para vários investigadores, uma reflexão sobre este narcisismo aparentemente descontrolado é de particular importância, e há duas perguntas que importa fazer: quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos e de que forma é que este fenómeno altera os nossos relacionamentos com os outros e a visão que temos de nós próprios.

 

Fome emocional ou verdadeiro amor?

 

Para alguns observadores, o fardo é colocado em cima dos ombros dos “novos pais”, que não se limitam a encorajar os seus filhos a alcançarem um saudável autoconhecimento. A título de exemplo, o psicólogo clínico Robert Firestone, no livro “The Self Under Siege: A Therapeutic Model for Differentiation”, afirma que para as crianças se sentirem seguras e terem confiança em si mesmas, é essencial que os pais saibam distinguir a “fome emocional” do verdadeiro amor. Este amor parental “genuíno” inclui carinho, afeição e uma sintonia no que respeita às necessidades das crianças, bem como a oferta de orientação e controlo quando apropriado. Ou, em suma, o tipo de amor que ajuda as crianças a desenvolver uma verdadeira autoestima e não traços de personalidade narcisistas.

 

 

Kevin Frazier, Daniela Ruah, Eric Christian Olsen, James Wolk, e Kirsten Vangsness não resistiram à selfie de grupo na última edição da Comic-Con.

 

Por outro lado, o debate extrema-se entre os que pretendem culpar a Internet e a sua capacidade para customizar as experiências que nela se tem de acordo com os nossos mais ínfimos desejos, o que nos pode tornar mais narcisistas, e os que defendem que esta constitui apenas o terreno apropriado para que traços preexistentes de narcisismo atinjam o seu esplendor.

 

Elias Abajoude, professor de psiquiatria em Stanford, escreve no livro “Virtually You: The Dangerous Powers of the E-personality”, que no espaço virtual muitas das interações físicas que restringem certos tipos de comportamento desaparece, permitindo que comportamentos como delírios de grandeza, narcisismo, malícia ou impulsividade venham mais facilmente ao de cima. Ou seja, “os traços [de personalidade] de que gozamos online podem ser incorporados nas nossas personalidades offline”.

 

De uma forma ou outra, e independentemente das “correntes”, o único consenso aparente parece residir no aumento do narcisismo no mundo ocidental. Resta saber se nos devemos preocupar seriamente com o mesmo ou se estamos, somente, a viver um “novo normal”.

 

Engordar o ego desde pequenino

 

A ideia de que o narcisismo não só está a aumentar descontroladamente, como está a tomar a forma de uma epidemia está bem expressa num livro, publicado em 2009, intitulado exatamente “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement” e escrito em co-autoria por Jean Twenge, doutorada em Psicologia, professora na Universidade de San Diego e autora do best-seller “Generation Me” e por W. Keith Campbell, também doutorado em Psicologia, docente na Universidade da Georgia e considerado como um dos maiores especialistas neste transtorno comportamental.

 

mulheres jovens palestinos tomar selfies durante confrontos com as forças de segurança de Israel na sequência de uma marcha contra a confiscação de terras da Palestina em 15 de abril de 2016 na vila do banco ocidental de Nabi Saleh perto de Ramallah .

 Palestiniana tira uma selfie no meio de confrontos com as forças de segurança de Israel

 

O livro, que retrata esta “distúrbio” como uma praga, avaliou 37 mil estudantes universitários e concluiu que os traços de personalidade narcísica estão a aumentar de uma forma tão rápida quanto os níveis de obesidade (em mais de 50% desde 1980), sendo esta uma das razões que levou os autores a considerarem o narcisismo como uma “doença epidémica”, numa espécie de “egos demasiado gordos”. O livro, que gerou bastante polémica e descrença q.b. por parte da comunidade académica –ao comparar décadas de resultados de testes de personalidade, Twenge concluiu que as gerações mais novas - nomeadamente a Y - são abusivamente privilegiadas, obcecadas por si mesmas e mal preparadas para a vida real – contribuiu, contudo, para estimular, ainda mais , o debate sobre o narcisismo.

 

Culpando a “cultura americana da autoestima exacerbada”, na qual todos os pais se esforçam por assegurar que as suas crias são “especiais” e cujos sentimentos de valor individual e “único” são considerados como pré-requisitos para o sucesso e não o resultado do mesmo, os autores desmontam os mitos prevalecentes que parecem indicar uma tolerância e até um encorajamento social do narcisismo: a de que este é um mecanismo próprio de uma autoestima elevada, ou, ao invés, de uma autoestima reduzida, de que um pouco de narcisismo é saudável e não faz mal a ninguém, de que os narcisistas são, na verdade, “superiores” e mais facilmente atingem o “sucesso” ou, e voltando ao anúncio que abriu este texto, de que temos de nos amar a nós próprios, em primeiríssimo lugar, para sermos capazes de amar os outros.

 

Tudo isto está presente na nossa cultura, defendem, e começa de imediato na tenra infância – parece que comprar t-shirts estampadas com a palavra “princesa” ou o seu correspondente masculino não constitui ação abonatória para os pais modernos. Para os dois psicólogos, as crianças de hoje crescem num mundo de aceitação “normal” de comportamentos e valores narcisistas, sendo que são muitos os pais e educadores que se esforçam por convencer os filhos de que estes são únicos e especiais, elogiando-os a toda a hora, satisfazendo todos os seus caprichos e conferindo-lhes grandes doses de poder.

 

crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente 

 

Ora, e de acordo com Twenge e Campbell, incutir nas crianças este sentimento de unicidade nada mais é do que narcisismo puro e o mesmo chega a situações tão ridículas quanto o facto de 223 crianças nascidas na Califórnia nos anos 90 terem sido batizadas como Única(s), de existirem estabelecimentos do ensino pré-escolar que instituem o”Mês do Tudo Tem a Ver Comigo”, de alguns clubes de desporto infantil terem acabado com os resultados nos jogos, para não amolgarem os egos dos perdedores ou, no extremo oposto, de oferecerem troféus a todos os miúdos, só porque estão numa equipa. E, muito por causa disso, são também cada vez mais os estudos que comprovam que as crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente – que se ofendem à mínima afronta relativamente à sua suposta superioridade e que, de forma rotineira, se consideram a exceção de qualquer que seja a regra.

 

Narciso, Freud, Ayn Rand, Greenspan, Breivick e Lance Armstrong?

 

Mais recente, num registo diferente, mas com algumas temáticas em comum, é o livro “The Life of I: The New Culture of Narcissism”, publicado em 2014 por Anne Manne, jornalista australiana e filósofa social, que cita igualmente um corpo crescente de pesquisa que demonstra o aumento do culto do narcisismo nos países ocidentais. Por exemplo, e tendo mais uma vez os estudantes universitários dos Estados Unidos como universo privilegiado de estudo, a autora garante que são cada vez mais os jovens que elegem a fama e a fortuna como os seus principais objetivos de vida e não, por exemplo, o bom caráter e o bem que faz fazer bem aos outros, mais consentâneos com as gerações mais velhas. Para a jornalista, o ‘umbiguismo’ atual está, também, a tornar-se num “novo normal”. E, em sintonia com Twenge e Campbell, também Anne Manne concorda que o narcisismo é estimulado por pais indulgentes, que não sabem estabelecer limites e que incutem nos filhos um sentimento de autoestima exagerado.

 

Apesar de o narcisismo ser terreno propício ao estudo por parte de psicólogos e psiquiatras, esta jornalista, mas também filósofa social, sempre se interessou por este “distúrbio de personalidade” e, no livro em causa, não só revisita as ideias de autoridades na matéria, como por exemplo as de Sigmund Freud, pioneiro no estudo sobre a temática, como dá exemplos de criaturas atuais que tão bem vestem as roupagens de Narciso - o jovem caçador que se apaixonou pelo seu reflexo – e que haveria de dar o nome, curiosamente pedido emprestado por Otto Frank, um colega do próprio pai da psicanálise, a todos aqueles que sentem “um apetite enorme e constante de serem admirados, que revelam sentimentos de superioridade, uma predisposição para a exploração, impulsividade e ausência de empatia e, talvez mais importante que tudo, uma agressividade retaliatória quando sentem que o seu ego inflacionado é, de alguma forma, ameaçado”.

 

Na sua cruzada de rever o trabalho de muitos investigadores académicos, entre outros apaixonados pela temática, Anne Manne garante que o narcisismo está em genuíno crescimento um pouco por todo o lado e, mais preocupante que tudo o resto, são os seus impactos tóxicos na comunidade, na cultura, na política, na economia e até no ambiente. Para a autora, a ideologia prevalecente do neoliberalismo alimenta a cultura do narcisismo e as consequências deste repasto são globais. Apontando o dedo às crenças e práticas construídas em torno da idolatria dos mercados e da glorificação da ganância, é na cultura do auto interesse, particularmente em voga a partir dos anos de 1980, que os comportamentos narcisistas encontraram terreno fácil para crescer e se multiplicarem.

 

Hillary Clinton: fazer selfies com apoiantes é um clássico das campanhas eleitorais 

 

Para exemplificar as múltiplas dimensões narcísicas do neoliberalismo, a jornalista australiana utiliza como exemplo uma das mais influentes defensoras do individualismo no século XX, a escritora, dramaturga e filósofa norte-americana (apesar de nascida e educada na Rússia) Ayn Rand. Tendo como base a filosofia aristotélica, Ayn Rand é a fundadora do objetivismo, que elege a razão e a lógica como a única forma de observar o mundo, ao mesmo tempo que defende fervorosamente que o indivíduo tem o direito de viver por amor a si mesmo e sem ser obrigado a se sacrificar pelos outros. Admiradora do egoísmo ético, do capitalismo do laissez faire, e do sistema que definiu baseado no reconhecimento dos direitos individuais, a filósofa que condenava, entre variadíssimas coisas, o altruísmo, haveria de servir de inspiração a muitos americanos, contando, no seu círculo íntimo de amigos e admiradores, com um acólito muito especial: o economista Alan Greenspan. Aquele que viria a ser presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos é, para Anne Manne (e não só), um dos grandes responsáveis pelos fundamentos da crise financeira global de 2008.

 

Um outro exemplo de como o narcisismo tem consequências e impactos globais negativos está relacionado com as alterações climáticas. Para a autora, o ceticismo persistente no que respeita ao aquecimento global é, também, um claro sintoma de um narcisismo crescente. A nível individual, a relutância em se alterar comportamentos em prol de um bem maior ou a inexistência de qualquer preocupação face ao planeta que iremos deixar às gerações futuras constituem sintomas claros de um narcisismo crescente. E, é claro, a nível político e económico, os interesses instalados da indústria dos combustíveis fósseis e o amor sem limites aos lucros de curto prazo encaixam igualmente bem nas características do mesmo.

 

Em “The Life of I”, e entre outros exemplos bem conhecidos, a autora traça o perfil do assassino em massa Anders Breivick, mas também do famoso ciclista americano, entretanto caído em desgraça, Lance Armstrong. No primeiro caso e recordando que apesar do termo “narcisista” não ter, na linguagem popular, uma conotação assim tão negativa, Anne Manne recorda que o mesmo é reconhecido como uma desordem da personalidade que inclui traços patológicos.

 

Recordando a publicação online do manifesto de “auto grandeza” com 1500 páginas escritas pelo assassino norueguês, a 22 de Julho de 2011, dia do massacre dos 69 jovens na ilha de na ilha de Utoya, o qual expressava a superioridade do mesmo face ao ódio visceral que manifestava contra muçulmanos, feministas ou multiculturalistas, e que acabou por resultar na morte de 77 pessoas no total, a autora elenca um conjunto de traços facilmente reconhecíveis nos narcisistas mais “psicologicamente desordenados”: a ideia de grandiosidade, a obsessão com a aparência, o culto da superioridade e a total ausência de empatia face aos demais.

 

Já o caso de Lance Armstrong é apresentado como um bom exemplo do “narcisismo no desporto”, acompanhado de corrupção e erosões de caráter, sendo que o que a autora pretende sublinhar é a ideia de que “não importa quem está no caminho, nem o como se chega lá, o que interessa é ganhar”. Ao questionar se a corrosão do caráter no desporto é emblemática de um sistema social mais alargado, Manne leva-nos a perguntar a nós mesmos se o narcisismo não é, afinal, o “caráter” dos nossos tempos ou o tal novo normal que muitos parecem defender.

 

Importante sublinhar é o facto de o narcisismo não constituir, simplesmente, “egoísmo ou vaidade exacerbados”. Citando Christopher Lasch, autor do livro “The Culture of Narcissism”, publicado em 1979, Manne recorda o que Lasch descreveu há quatro décadas e que tão bem parece encaixar em muitas das caracterizações que comummente são aplicadas à tão falada geração Y da atualidade: “superficialidade, incapacidade para o compromisso, uma autopreocupação alimentada pela ‘sociedade do espetáculo’ na qual as pessoas se comportam como ‘se as suas ações estivessem a ser gravadas e simultaneamente transmitidas a uma audiência invisível’”.

 

O que parece indicar que Lasch era um visionário ou não vivêssemos nós hoje num permanente espetáculo, ao vivo e em transmissão contínua, não só protagonizado por uma praga de Kardashians, mas também por especialistas em selfies, egocêntricos palradores e vaidosos em excesso que, a todo o momento, nos querem convencer de que não existe vida melhor que a deles.

 

#eu ou a vida no Inchagram e arredores

 

Uma pesquisa rápida no Google e chovem estatísticas, acompanhadas de inúmeros sites que “ensinam” a obter os melhores resultados de exposição possível comparativamente aos nossos pares. Mas fiquemo-nos pelos números: os utilizadores do Instagram partilham cerca de 70 milhões de fotos por dia; no Facebook, o upload de fotos chega aos 300 milhões diários, em cada 60 segundos são atualizados 293 mil estados, “postados” 3,5 mil milhões de likes num só dia e todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes; por último e no Twitter, 310 milhões de utilizadores enviam, diariamente, 500 milhões de tweets, 83% dos líderes mundiais têm aqui conta e Caitlyn Jenner foi a personalidade que mais rapidamente atingiu um milhão de seguidores (em apenas quatro horas).

 

todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes

 

Que terreno mais fértil do que este para acolher narcisistas e, consequentemente, para alimentar dezenas de estudos sobre a ligação direta entre o aumento do narcisismo e as redes sociais? Apesar de não existir um consenso generalizado sobre o fenómeno, inúmeras investigações têm sido levadas a cabo para comprovar que o aumento do Distúrbio da Personalidade Narcisista (ou transtorno, ou desordem, dependendo dos autores) está intrinsecamente relacionado com a ubiquidade dos media sociais. Comportamentos como as tentativas obsessivas de atrair o maior número possível de seguidores, a tendência exagerada de expor os pormenores da vida privada (desde que positivos, é claro) e a necessidade de se projetar uma imagem perfeita continuamente, têm sido descritos pelos investigadores como exemplos inequívocos da exibição de traços de personalidade narcisista nas redes sociais.

 

Trabalhadores da construção civil retratam-se com François Hollande 

 

Curioso é, contudo, o facto de em 1987 – e uns bons anos antes do boom da Internet – os psicólogos Hazel Marcus e Paula Nurius terem defendido a existência, em cada um de nós, de dois “eus”: um “eu agora” e um “eu possível”. Pois bem, seria então a Internet a possibilitar a qualquer pessoa optar pelo seu “eu possível” ou, pelo menos, apresentar uma versão desse “eu” tão desejado.

 

Num excelente artigo publicado pelo The New York Times, intitulado “Narcissism is Increasing. So You’re Not So Special”, o autor que o assina recorda o filósofo francês Jean-Jacques Rousseu e os seus escritos sobre o amour-propre, uma espécie de auto-amor baseado nas opiniões dos outros. Considerando-o como não natural e não saudável, Rousseau acreditava que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem as suas vidas tentando parecer e soar atrativos para os demais. E isso, como sublinha o autor, é uma boa forma de descrever esta aparente epidemia que tanto debate está a causar. Como escreve “na mitologia grega, Narciso não se apaixonou por si mesmo, mas sim pelo seu reflexo. E se transpuséssemos o mito grego para a sua versão moderna, “Narciso iria apaixonar-se pelo seu próprio feed no Instagram e morreria à fome devido à contagem compulsiva do número dos seus seguidores”.

 

Ora, comportamentos compulsivos desta natureza são comuns em muitas pessoas que conhecemos, em particular nos casos em que uma selfie “perfeita” é publicada e existe uma verificação contínua do número de likes que a mesma vai gerando. Em linha com algumas das investigações que negam a relação direta entre o aumento do narcisismo e a utilização dos media sociais, o autor do artigo defende que não é o Instagram, ou os seus similares, que criam um narcisista, mas e tal como defendem também outros estudiosos do assunto, as redes sociais podem, sim, agir como um “acelerador”desta desordem, na medida em que oferecem a plataforma ideal para facilitar aquilo que os psicólogos denominam como o “exibicionismo da grandiosidade”.

 

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais, nos Estados Unidos, o narcisismo é uma patologia bem definida, sendo claro que os narcisistas procuram os locais ideias nos quais podem ganhar a sua tão necessária audiência. E, no que a esta necessidade diz respeito, são as plataformas online que melhor palco oferecem para os que sentem uma urgência contínua de se autopromover, comportamentos estes exemplificados pela atualização do “estado” a cada cinco minutos, com a publicação frequente de fotografias de si mesmos, das festas que frequentam, das viagens que fazem, dos restaurantes exóticos que experimentam, dos feitos das celebridades que admiram, e de citações e mottos que servem para se auto glorificar.

 

Face à multiplicação de estudos sobre o aumento de narcisismo nas plataformas sociais, a versão online da famosa revista Psychology Today, lançada em 1967, efetuou um excelente trabalho de compilação dos mais importantes, sendo que alguns são merecedores de especial atenção. De acrescentar ainda que a maioria destes estudos tem como “alvo “ principal os representantes da geração Y, apesar de, em alguns casos, as conclusões baterem também nos egos dos mais “adultos”.

 

"o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista" – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é

 

Apresentado na convenção anual da American Psychological Association, um estudo da responsabilidade de Larry Rosen, da California State University, demonstrou que os jovens que mais tempos passam no Facebook têm uma maior probabilidade de exibir tendências narcisistas, em conjunto com outros problemas comportamentais. O psicólogo em causa afirma também que os efeitos negativos relacionados com uma utilização abusiva dos media sociais incluem uma maior propensão para a vaidade, para comportamentos agressivos e antissociais, e que estes excessos podem resultar numa performance académica mais pobre.

 

Por seu turno, Dilney Gonçalves, da IE Business School em Madrid, conduziu um estudo que argumenta o que há muito é comummente sabido: a tendência que todos temos em avaliar o nosso sucesso na vida comparando-o com o dos outros. Como escreve “o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista” – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é. O investigador acrescenta ainda que quanto mais amigos se tem, maior é a propensão para se passar o dia a ler, invejosamente, sobre as férias paradisíacas de um, a nova e gira namorada de outro ou a promoção fantástica que um outro ainda teve no seu já fantástico emprego.

 

Já os investigadores Laura Buffardi e W. Keith Campbell (o co-autor do livro “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement”) acima mencionado, levaram a cabo também um estudo, publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, que comprova dados já previamente existentes. Como explica Buffardi, “concluímos que as pessoas mais narcisistas utilizam o Facebook com vista à sua autopromoção e de uma forma que pode ser facilmente identificada pelos outros”. O número substancial de “amigos” e a forma como os posts aparecem nas suas páginas correlacionam-se facilmente com as características identificadas nos comportamentos narcisistas, garantem ainda os dois psicólogos. E, se por um lado, sabemos que o Facebook se transformou numa parte normal da vida social – mesmo que virtual – de jovens e adultos, por outro, “os narcisistas usam-no exatamente da mesma forma com que se relacionam com os demais na vida real – para a autopromoção e com um especial ênfase na quantidade em detrimento da qualidade”.

 

Angela Merkel dá autógrafos enquanto jovens de uma escola se fotografam junto da líder alemã

 

Um outro estudo, da responsabilidade de Elliot Panek, da Universidade do Michigan, optou por analisar não só o Facebook, mas também o Twitter. De acordo com Panek, “através do Twitter, os jovens tentam alargar os seus círculos sociais e transmitir as suas opiniões”, sendo que ao longo do processo sobrestimam também o valor e importância das suas opiniões. Todavia, e de acordo com as conclusões do estudo, o resultado mais interessante cifra-se no facto de “entre os jovens adultos e estudantes universitários, termos concluído que aqueles que resultados mais expressivos tiveram para certas tipologias de narcisismo são mais adeptos do Twitter, ao passo que entre os adultos de meia-idade, os narcisistas elegem antes o Facebook para os seus posts de autopromoção”.

 

Muitos mais exemplos poderiam ser dados para ilustrar a ideia de que as redes sociais atraem os narcisistas como as abelhas são atraídas pelo pólen e, citando mais uma vez o trabalho de Laura Buffadi, existe um consenso alargado que “os narcisistas utilizam o Facebook e outras redes sociais porque acreditam que os outros estão realmente interessados nas suas vidas, ao mesmo tempo que é seu desejo inato quererem que os outros saibam tudo sobre as suas vidas também”. Consensual é também a ideia de que as redes sociais encorajam a autopromoção, na medida em que são os seus utilizadores que geram os conteúdos que as alimentam. Keith Campbell explica ainda que muitas pessoas utilizam estes meios para se “mostrarem importantes, se sentirem especiais e para ganharem atenção, status e autoestima”. Mas o problema, e mais uma vez, reside no facto de quase toda a gente que tem esta necessidade excessiva de mostrar o quão perfeita é a sua vida apresentar retratos irrealistas de si mesmos. Tal como as pessoas selecionam as suas melhores fotos para constarem no seu perfil (pelo menos, uma grande maioria), a tendência para povoarem os seus newsfeeds com os mais atraentes pedaços das suas vidas é exatamente a mesma.

 

A culpa é do Facebook?

 

Kim Kardashian e Kanye West num evento social: um casal que está e faz por estar sempre no centro das atenções

 

Mas se o Facebook, e seus similares, são indubitavelmente plataformas por excelência para muitos narcisistas, é impossível afirmar taxativamente que são as redes sociais as “culpadas” deste “pico narcísico”. E como afirma Shawn Bergman , um reconhecido psicólogo que estuda a geração Y, “existe uma significativa quantidade de pesquisa psicológica que demonstra que a personalidade de cada um de nós está quase completamente ‘estabelecida’ aos 7 anos de idade”. Assim, e dado que a política do próprio Facebook e de outras redes conexas não permite o registo de utilizadores com idades inferiores a 13 anos, “os traços de personalidade dos seus utilizadores estão já bem enraizados na altura em que as visitam pela primeira vez”.

 

Será que isso significa que, afinal, são os pais indulgentes os culpados desta pretensa epidemia? Não sabemos. Mas e já agora, aceite o convite para testar o seu nível de narcisismo. A não ser que se sinta demasiado especial para se dar a este trabalho.

 

 

 

 

 

 

publicado às 11:38

A palavra do Estado

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Confesso a minha ignorância: até agora, não sonhava com os repentinamente famosos contratos de associação entre o Estado e os colégios privados. Eu, e seguramente uma boa parte dos portugueses, estávamos a leste de mais este “subsídio” que os nossos impostos vão pagando. A decisão do Governo de acabar com esses contratos, firmados com os colégios privados para suprir as faltas do ensino público em quase todas as regiões do país, abriu um debate que tem tanto de irónico quanto de revelador sobre o Estado, os partidos, e a nossa eterna subsidiodependência.

 

Comecemos pelos partidos. É irónico, divertido - ainda que trágico - ver que aqueles que passam a vida a encher a boca com “menos estado, mais iniciativa privada”, sejam aqueles que estão contra o fim destes contratos - que mais não são do que “mais estado e menos privado”… Como foi o Governo de Passos Coelho que perpetuou esta embrulhada - pelos vistos, oferecendo um bom negócio aos colégios privados sem cuidar de avaliar os recursos públicos entretanto criados… -, vê-se agora na contingência de defender o que (vou fazer-me de ingénuo…) precipitadamente assinou.

 

Ao contrário, o Governo socialista, acusado pela direita de ser despesista, gastador, e pôr em causa todo o trabalho de formiguinha feito pelo PSD e pelo CDS, é por estes arrasado no primeiro momento em que mostra alguma vontade de gerir recursos com parcimónia e inteligência…

 

Parece que os papeis se invertem. Na verdade, o que se inverteu foi apenas o lugar de cada um no xadrez político: os que estão fora do poder, podem agora gritar o que lhes apetece e parecerem meninos de coro a caminho da missa. Não é nada com eles. Pior: tinham a austeridade na ponta da espingarda até há uns meses, e agora descobrem que Portugal é tão rico que até os pais com menos recursos económicos podem optar por colocar os filhos em colégios privados, e caros…

 

Há porém um ponto em que PSD e CDS têm razão. E é relevante. Por mais falha ou buraco negro que possa existir na legislação - e que permita ao Governo abreviar estes contratos -, eles foram assinados para três anos. E os colégios que os assinaram confiaram.

 

Que o Estado não é pessoa de bem, há muito que sabemos. E disso somos responsáveis, nas escolhas que fazemos em cada eleição. Que um Governo dito socialista tenha a desfaçatez de mostrar à luz do dia que a palavra dita, assinada e reconhecida, não tem qualquer valor, sustentado num qualquer artigo da lei obscuro e desconhecido dos colégios, é um atentado à já escassa confiança que temos em tudo o que cheira a Estado.

 

E se é verdade que o Estado somos todos nós, quem raio somos para deixar que chegue a este estado? Talvez devêssemos parar e pensar nisto. O que não vale é misturar uma medida certa - a do Governo - com o momento errado em que é aplicada, a dois anos do fim do contrato que foi assinado. Não se mudam regras a meio do jogo.

 

 

ESTA SEMANA RECOMENDO, SÓ COM UM CLIQUE…

 

O artigo do escritor e professor universitário Moustafa Bayoumi, numa edição recente do The Guardian, dá-nos um olhar radicalmente diferente - menos dramático, mais optimista, e acima de tudo tranquilo - sobre os Estados Unidos da América que levam Donald Trump a umas Eleições Presidenciais. Para ele, a atitude de Trump une os que defendem uma América multi-cultural, multi-racial, democrática e livre…

  

A crise política no Brasil continua a confundir meio-mundo. A legislação do país é tão complexa, os patamares de decisão são tantos e tão paradoxais, atropelando-se uns sobre os outros num caos de decisões sem saída, que é difícil encontrar o fio à meada. Esta matéria do diário francês Le Figaro ajuda a perceber um pouco melhor o estado actual das coisas…

 

Começou ontem, acaba no domingo, e constitui uma verdadeira explosão de criatividade e ideias - é o 18º Festival do Clube de Criativos de Portugal, que junta boa parte dos talentos que fazem da publicidade e do marketing nacionais uma potência com valor acrescentado - e respeitado - no universo dos media em todos os continentes. Há eventos públicos, outros pagos, alguns só para profissionais, mas no site do Clube pode acompanhar estes quatro dias e escolher o que fazer. Vale a pena.

 

publicado às 10:15

O ajudante de Mário Nogueira

 

 

Por: António Costa

 

Os contratos de associação do Estado com as escolas privadas são mais uma linha que separa os que defendem um modelo de sociedade em que o Estado é o centro de tudo dos que entendem que os serviços públicos podem ser prestados por entidades públicas ou privadas, e em concorrência. É a ideologia, sim, que está em causa.

 

Os contratos de associação do Estado com as escolas privadas, convém recordar, serviram para compensar as insuficiências do Estado na prestação de um serviço absolutamente central, o da Educação. Foi para isso que foram criados, mas serviram também para permitir um nicho, de forma enviesado, é certo, de abertura dos privados a prestarem serviço público, como já acontece em tantas e tantas áreas, desde logo na saúde. A decisão do ministro da Educação - ou terá sido de Mário Nogueira? - de cortar nos referidos contratos nem sequer um ano depois de terem sido celebrados é por isso, mais do que uma reversão de uma medida, uma oportunidade que o Governo aproveita para garantir o apoio dos sindicatos e da Fenprof em particular.

 

Sim, quem defende o princípio da prestação de serviços públicos por entidades privadas, em concorrência com as públicas, defende a liberdade de escolha das famílias e isso, no limite, só é possível com o cheque-ensino, com o financiamento direto às famílias. Os contratos de associação são outra coisa.

 

Os contratos de associação não são um financiamento aos privados a acrescentar ao que o Estado investe na Educação, simplesmente porque esses contratos são substitutos do que o Estado deveria investir e, por alguma razão, não investe. Outra história, para a qual há números para todos os gostos, é se o Estado gasta ou não mais do que os privados por aluno, e ainda não há dados credíveis para uma conclusão. Dito isto, na filosofia destes contratos, se o Estado passa a poder prestar esse serviço, os acordos deixam de fazer sentido como estão. Mas os contratos de associação poderiam ser, se a Fenprof deixasse, uma alternativa ao cheque-ensino e a um modelo estruturado de participação dos privados no ensino público obrigatório com financiamento dos impostos, o princípio de alguma coisa.

 

Não há ninguém que não defenda a centralidade da educação como a melhor ferramenta de uma economia para crescer e ser competitiva, a divergência é no modelo de educação que queremos. E, em seis meses de gestão, o ministro Tiago Brandão Rodrigues não só sinalizou que a exigência não é um fator relevante (e.g. exames), como entende que as escolas públicas não podem melhorar se tiverem, ao lado, a concorrência do setor privado.

 

Faço uma declaração de interesses: tenho três filhas, uma das quais já no 2º ano (antiga 2ª classe), e todas numa escola privada. Porquê? Em primeiro lugar, e mais importante, pela avaliação que fiz da qualidade do ensino prestado face à oferta de outras escolas, nomeadamente públicas, na minha zona de residência. Pela minha escolha, pago os impostos devidos para que o Estado preste a melhor educação possível e uma igualdade de oportunidades e pago as mensalidades respetivas da escola que as minhas três filhas frequentam. O que gostaria de ter? A liberdade para escolher a melhor escola possível, pública ou privada, sem ter mais custos do que aqueles - enormes – que já resultam dos impostos que pago todos os meses.

 

O ponto é este: o ministro da Educação deveria preocupar-se em garantir que o ponto de partida de todas crianças é o mesmo, mas o que faz só serve para assegurar que quem tem dinheiro pode escolher e quem não tem está condenado à sorte, ou azar, da sua zona de residência. Poderia ser de outra forma? Poderia e deveria, até porque os resultados do modelo que Brandão Rodrigues não só defende como acentua não deram os melhores resultados. Mas Brandão Rodrigues – que não nasceu para ser ministro – está preocupado em ter o apoio de Mário Nogueira, sem perceber que, na verdade, já é um seu ajudante.

 

As escolhas:

O Túnel do Marão é, todo ele, um dicionário político-financeiro de como aqui chegámos e de qual é o ponto de partida possível para consensos. Em primeiro lugar, as contas, uma PPP falhada e suspensa em 2011, quando entrou a troika, que comprometeria os próximos 30 anos. Era fácil e barato para o poder que governava, para José Sócrates. Depois, as vicissitudes de uma obra de infraestrutura relevante para o país, paga diretamente pela Infraestruturas de Portugal. Finalmente, a política. Na inauguração, a história de como Costa e Sócrates não apareceram juntos na fotografia, poder ler aqui, em 24.sapo.pt. Nem sequer numa ‘selfie’. E Passos, que jurou nunca ter estado em inaugurações apesar de tantas provas documentais, não apareceu.

 

Esteja atento aos números. A semana vai ser rica em indicadores económicos, do PIB às exportações, e do primeiro trimestre, isto é, do Governo de Costa, como pode ler aqui, em www.negocios.pt. Será a oportunidade para confirmar, ou não, as previsões mais pessimistas de todas as entidades externas ao Governo. Logo, a necessidade do famoso Plano B.

 

Boa semana

publicado às 10:27

Uma questão de educação (política)

Por: António Costa

 

O governo de António Costa tomou posse há quatro dias e já é claro que uma das marcas da nova governação é mudar o que existe, qualquer que seja a área, sem avaliações e sem qualquer debate público. O fim apressado e até atabalhoado dos exames do 4º ano é o pior dos sinais e uma evidência de um dos principais problemas da gestão da coisa pública, leia-se a descontinuidade das políticas. Ou instabilidade. Lá vamos nós outra vez.

 

Sabemos todos que Nuno Crato tinha as condições para ser o melhor dos ministros e acabou um mandato de quatro anos na Educação – sabe-se lá como é que aguentou toda uma legislatura – de forma penosa. Mudou muito e muitas vezes mal, sobretudo na execução. Porque na política, as ideias, por muito bondosas que sejam, dependem sobretudo da sua eficácia.

 

Tudo isto não justifica a forma como a nova coligação negativa de Esquerda no Parlamento – e que, como já se percebeu, funcionará como uma espécie de conselho de ministros-sombra que impõe medidas ao verdadeiro conselho de ministros – acabou com uma medida que, para lá de todos os alcances, tinha implícita uma ideia de exigência. Nem isso fica.

 

Nenhuma medida de política educativa, como aliás em qualquer política, funciona sozinha. Mas, se todos concordamos que é preciso aumentar a exigência de qualidade do ensino em Portugal, particularmente do primeiro ciclo, os exames do 4º ano eram uma das formas de assegurar essa exigência Não era a melhor? Então, que tal avaliar os efeitos perversos que os críticos deste exame apontavam, como os incentivos que seriam dados ao estudo para o exame e não ao estudo contínuo ao longo do ano?

 

Nada disso, qual avaliação, qual discussão. O Governo ainda não aqueceu o lugar, o ministro das Educação, Tiago Brandão Rodrigues, fora do país há 15 anos, ainda nem saberá o caminho para o seu gabinete e já há mudanças de política educativa. O que se segue? Depois, vê-se. Agora, o que é preciso é mudar o que foi feito. Mesmo que fosse a melhor das medidas, porque as crianças são crianças e não podem ser pressionadas nem nenhuma criança pode ficar para trás (será mesmo o melhor, passar crianças de ano sem a devida preparação?), esta foi a pior forma de a tomar.

 

António Costa quer aparecer como o ‘político bonzinho’, que chegou para pôr fim às maldades de Passos Coelho e Paulo Portas. O político ‘bonzinho’ desta geração e da próxima. É uma narrativa muito pobre, sobretudo porque Portugal saíu de uma situação de bancarrota. É claro que está a pensar nas próximas eleições, no momento certo para deitar abaixo um governo que está pendurado num acordo frágil, para não dizer outra coisa. E isso dependerá das sondagens, que andarão à boleia das medidas positivas, ou melhor, supostamente positivas, e facilitadoras, se é que isso é o que Portugal precisa.

 

Nuno Crato – e o governo de coligação anterior – promoveram também este tipo de contra-reforma, quando decidiram sem procurarem consensos, sim. Mas quando um novo governo entra em funções, dispensava-se esse tipo de reação política, do género ‘tu é que começaste’.

 

Na verdade, é um traço de gestão política. Na economia, na política fiscal, nas causas fraturantes, nas leis laborais, também na educação, aquela área das políticas públicas que deveria ser mais estável e menos sujeita aos ciclos políticos. O que é preciso agora é dar, e ter efeitos positivos, na economia e na imagem do Governo. É mesmo este o novo ciclo do PS?

 

ESCOLHAS

 

Paris é, por estes dias, outra vez, a capital do mundo. Aquela imagem de milhares de sapatos, a alternativa a uma manifestação silenciosa numa cidade sitiada pelo terrorismo, é brutal, e ao mesmo tempo tocante. A destruição do clima, outra forma de terrorismo sem mortes violentas no mundo que queremos deixar às próximas gerações. Os valores. Leiam, e ouçam, a reportagem da Rádio Renascença, ‘Paris. Quando a emergência ferve numa cidade descalça’. E acompanhem aqui, no SAPO24, os desenvolvimentos de uma cimeira sobre alterações climáticas que é mais um teste aos entendimentos mundiais.

 

 

 

publicado às 10:37

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