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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

A culpa é mesmo de Bruxelas?

Por: António Costa

 

Há hoje na Europa comunitária uma espécie de sentimento anti-Bruxelas, que se materializou, ironicamente, num referendo no país mais protegido das imposições da União Europeia do ponto de vista político e económico-financeiro. Se calhar, porque, na realidade, os responsáveis da crise da União Europeia estão, em primeiro lugar, nas capitais dos seus 28 estados-membros.

 

É fácil responsabilizar a União Europeia, os burocratas de Bruxelas e as instituições europeias pela estagnação do projeto político que começou, lá atrás, com a comunidade do carvão e do aço. A seguir, aparecem na lista dos mais procurados por esta crise a chanceler Merkel e os sucessivos presidentes da Comissão Europeia. Serão mesmo os culpados disto tudo?

 

A União Europeia, mesmo com a lógica da bicicleta que tem sempre de estar em movimento, foi o suporte da paz e do desenvolvimento económico da Europa nos últimos 40 anos. A cada novo passo, foi inclusiva, cresceu, mas manteve os compromissos iniciais de promoção da recuperação dos que estavam mais atrasados. Com muito dinheiro, suportado pelos orçamentos nacionais e pelas transferências entre países, com outro pressuposto relevante: os líderes e os cidadãos dos países menos desenvolvidos fariam o que fosse necessário para prepararem os seus respetivos países para as novas exigências de um mercado único, primeiro, e de uma moeda única, depois. É claro que o resto do mundo não estava parado e isso era, em si mesmo, uma outra dificuldade, esta externa, para a construção da União Europeia e do euro.

 

Mesmo nos países que mais beneficiaram da União Europeia e do euro, como Portugal, há uma clara falta de memória, seletiva, sim, sobre a história desde 1986. Os fundos comunitários, um mercado único para as empresas e pessoas, a redução brutal dos juros cobrados ao país porque assumimos o compromisso do euro. O que fizemos com essas vantagens, particularmente a partir de 1995? Pouco e mal. É por isso incompreensível, por exemplo, um espírito tão pouco crítico ao período 1995/2001, com o Governo de António Guterres, provavelmente o pior desde a entrada na CEE em 1986.

 

A Comissão Europeia e algumas das suas direções-gerais ganharam uma vida própria, para lá do voto dos eleitores europeus, especialmente à medida que o grupo cresceu e passou a ser mais difícil consensualizar posições. Do diálogo e da diplomacia, passamos para o voto dos mais fortes, que aliás se acentuou desde a crise financeira de 2007/2008. Os principais líderes europeus e a própria comissão cometerem erros, sim, uns de comunicação, outros de substancia. Mas, na verdade, sempre para corrigirem os pecados originais de um projeto político que ganhou expressão monetária e uma moeda única e que, eles próprios, foram impossíveis de gerir por razões de política interna de cada país. O pedido de resgate em 2011 é disso um exemplo, está longe de ser o único.

 

Os cidadãos da União Europeia estão desiludidos, e quando há momentos de decisão, como foi o caso do referendo no Reino Unido, o discurso político não ajuda. Pelo contrário, mostra todos os dias que ninguém sabe muito bem qual é o passo seguinte, ninguém (nos) apresenta novos desenvolvimentos que mobilizem, apenas a ideia de que as alternativas são piores. Não é fácil, assim, destruir a força crescente dos movimentos nacionalistas à Esquerda e à Direita, como se vê por essa Europa fora, que se alimentam das crises, do desemprego, da pobreza.

 

A bicicleta europeia não pode continuar a andar como se nada fosse, mas convém que os governos dos países da União Europeia façam um mea culpa, assumam as suas responsabilidades, porque é claramente aí que estão as respostas. A transferência de responsabilidade para Bruxelas é popular, e dá votos internamente, só que não corresponde à verdade da história. E dificulta ainda mais o que vem aí a seguir.

 

A crise financeira e económica desde 2008 e o que se seguiu nos anos seguintes mostra que nem todos os países, nem todos os governos, nem todos os cidadãos estão preparados para as exigências de uma moeda única. Pelo contrário, há um desgaste social enorme. E também mostra que estamos a chegar ao limite das possibilidades dos governos que têm de convencer as respetivas populações a pagarem, com os seus impostos, o que é necessário para manter uma moeda única nos termos em que ela existe hoje.

 

Os resultados das eleições espanholas, sem serem definitivos é totalmente clarificadores, são um bom augúrio, porque os discursos fáceis anti-Europa não ganharam, perderam até votos. Por isso, no meio desta turbulência e de mares nunca dantes navegados, nem tudo está perdido.

 

 

As escolhas

 

Os ingleses decidiram sair da União Europeia, bem, nem todos, mas os suficientes para uma vitória do Brexit. Depois do colapso dos mercados na sexta-feira, e quando anda tudo à procura de respostas, desde logo no próprio Reino (ainda) Unido, o ministro das finanças inglês, defensor do ‘remain’, garantiu hoje que o país está preparado para viver fora do espaço comunitáriowww.bbc.com. Estará mesmo ou, como em outros países, a Democracia popular vai ser ultrapassada pela Democracia representativa?

 

Ronaldo não desiste, especialmente quando perde, e na seleção até perde muito. Messi desistiu porque perdeu. A dias de mais uma final, e quando sabemos que estamos longe de ser favoritos, esta diferença é uma lição para o país. Os resultados podem ser acompanhados aqui, em 24.sapo.pt.

 

Tenham uma boa semana e Portugal Allez

 

 

 

 

 

publicado às 11:32

"Os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso"

Por: Isabel Tavares

 

De malas feitas para os Estados Unidos onde regressa à Universidade do Illinois, Nuno Garoupa prepara-se para acompanhar de perto as eleições americanas. 

 

 

Falemos então de outra corrida, as eleições nos Estados Unidos…

Que também são outro argumento bom para voltar, se Trump ganhar os Estados Unidos fecham, não entra mais ninguém [risos].

 

Acredita que ele ganhe?

Não. Quer dizer, não acredito que ele ganhe, mas já esteve mais longe. Neste momento penso que não ganha, mas depende de um conjunto de factores – por exemplo, de haver mais problemas legais com Hillary [conta privada que usava para enviar e receber emails enquanto secretária de Estado e está a ser investigada pelo FBI e pelo congresso], dos desenvolvimento no terrorismo e na imigração  –, que não dependem dos candidatos. Tudo isto favorece Trump.

 

Se Trump ganhar, como é que isso deixa os Estados Unidos?

Em termos práticos, os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso, que em princípio será republicano, porque uma larga faixa do partido republicano não o apoia. Até que ponto Trump vai usar isso para ter uma espécie de guerra constante com o congresso ou vai ser um presidente sentado à espera de ver o que acontece, isso é o que se verá. Mas não acredito que as consequências da eleição de Trump sejam tão terríveis como as pessoas pensam.

 

E do ponto de vista externo?

Do ponto de vista externo é uma má imagem e vai alterar a ideia dos Estados Unidos como país aberto, até com vocação imperial, para um país muito mais fechado e voltado para dentro, porque é isso que Trump defende: voltar a um certo isolacionismo, fechar fronteiras.

 

Afirmou que o que estava a abrir espaço para partidos extremistas, na União Europeia, era a perda de soberania. E nos EUA?

Nos Estados Unidos há dois problemas graves desse ponto de vista: a dependência da China - o país está altamente endividado e a China comprou uma parte muito substancial dessa dívida soberana -, e uma espécie de problema imperial - desde a guerra do Iraque, o império alargou-se de tal maneira que não é sustentável economicamente, há que fazer escolhas, coisa que a presidência Obama foi adiando. O que Trump está a fazer é cavalgar uma onda populista em que a solução é fazer uma guerra comercial à China, quando isso não vai resolver o problema, só vai agravá-lo. Mas uma larga faixa do eleitorado, nomeadamente uma classe económica média-baixa, está farta de não ver uma solução e tem agora alguém que lhe diz o que sempre quis ouvir.

 

Passando para outra guerra comercial, o TTIP – Transatlantic Trade and Investment Partnership [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento] avança?

Do lado americano, se tivermos uma presidência de Trump vejo muito poucas condições para o acordo avançar. Do lado europeu, acredito que vamos ter em 2017 uma viragem à direita em vários países, nomeadamente em França e na Alemanha, o que vai complicar a sua aplicação. O horizonte político para este tratado não é o mais adequado, veio numa época frágil. Porque há uma coisa que é evidente nestes acordos, e sabemos isso na zona europeia, é que há perdedores e vencedores. Que é bom para todos, não é verdade.

publicado às 02:42

Perante "The Donald", venha a Madam President, ainda que lhe falte faísca

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Donald, o impetuoso, abrutalhado, exuberante, misógino e multimilionário, candidato do bullying político que despreza os valores da solidariedade e a sabedoria sensata, ou Hillary, a velha raposa que representa a casta do fatigado sistema tradicional de governação, qual dos dois, o anti-político ou a política do costume, vai conseguir fingir melhor e conquistar a presidência dos Estados Unidos da América? O “Election Day” é já daqui a 180 dias e a campanha para a escolha do sucessor de Obama vai ser um concurso de impopularidade: quem consegue menos hostilidade do eleitorado, quem assusta menos?

 

É de prever que Hillary Clinton vá aparecer nos próximos meses reenvernizada com cores progressistas para tentar captar o eleitorado progressista, liberal e vagamente social-democrata que Bernie Sanders soube mobilizar e sacudir do ceticismo. O marketing de  "The Donald" vai optar pelo “Trump paz e amor” a ver se constrói uma postura presidencial e amacia as resistências tanto no fragmentado campo republicano como no decisivo eleitorado oscilante. Ela e ele vão ter de mudar ou maquilhar o discurso para tentarem conseguir a eleição em 8 de novembro.


Vender “The Donald” como uma boa pessoa é uma tarefa que parece quase impossível. Que imagem é que ele mostrou nos últimos meses? Racista (“Build the Wall”). Isolacionista (“America First”).  Sexista (“Women, you have to treat them like shit”, comentário nos anos 90 ao New York Magazine). É definido por vários outros adjectivos, todo negativos: hipócrita, narcisista, histriónico, autoritário, prevaricador, ridículo, islamofóbico. Há quem o resuma numa palavra: bimbo. Mas poderoso. O léxico e a sintaxe do candidato são rudimentares mas a mensagem simplista dele é eficaz, galvaniza muita classe média e baixa, branca, atingida pelo grande sismo das guerras bushistas e pela grande recessão pós-2007. Um eleitorado enfurecido ou obcecado com a suposta perda da grandeza americana. Donald Trump entra por esses eleitores com o discurso representado pelo slogan ”Make America great again”.  Mobiliza muitos empreendedores frustrados. Seduz a América que gosta da força bruta.


Ele, “The Donald”, pode vir a ser presidente dos EUA? Não é o mais provável mas não deixa de ser uma possibilidade que nem sequer é remota. Como as coisas estão, já nem espantaria se no topo da Casa Branca aparecesse daqui a um ano o anúncio luminoso com letras maiúsculas “THE TRUMP PRESIDENCY”. Quando Reagan surgiu na política, quantos acreditavam que o cowboy do cinema chegasse a presidente? Quando Donald Trump apareceu nas primárias republicanas quantos não se riram? Ele entrou a ganhar primárias, umas após outras, disse-se então que o fenómeno Trump acabaria por estoirar. Não implodiu e vai discutir a eleição com Hillary.  O impensável afinal pode acontecer.


As sondagens mostram tendência para, depois de Obama, a América ter uma Madam President. Mas a “Clinton Fatigue” pode ser fatal para Hillary. Há uma grande revolta contra o sistema que ela representa. Hillary é, reconhecidamente, pouco entusiasmante em campanha, com discursos banais e monótonos, e o seu perfil político substancialmente no centro moderado conservador não entra pelo eleitorado que com Sanders, o visionário que promete utopias e propõe o reformismo da velha (boa) Europa, passou a acreditar na política. Há gente de Sanders tão hostil a Hillary que admite preferir Trump.


Hillary também sabe que aqueles muitos que na direita republicana se mostram recalcitrantes ou hostis a “The Donald” ainda podem tender para uma rendição de conveniência ao nacional-narcisismo do candidato que oferece como programa político a sua “mágica capacidade para ganhar”. Ele pode ainda conseguir unificar depois de ter dividido. É que os republicanos temem que o Great Old Party, desagregado nestas Primárias, fique varrido do poder, não só continuando fora da presidência mas também sem a maioria que tem mantido no Senado e na Câmara dos Representantes.


A América promete ao seu povo felicidade. Está na Declaração de Independência. É um dos três “inalienáveis direitos” – os outros são o direito à vida (bastante mal tratado numa sociedade onde todos têm uma arma) e à liberdade.


Donald Trump na presidência dos EUA pode ser uma ameaça à felicidade e estabilidade americana e mundial? Muitos peritos pensam que sim. Ele quer desfazer o acordo nuclear que Obama promoveu com o Irão. Fecha a porta a qualquer refugiado. Quer políticas sem concessões aos clandestinos. Despreza o protecionismo frente ao comércio global. Promete, com o seu populismo económico, obrigar as farmacêuticas a baixar o preço dos medicamentos mas põe o Estado a gastar muito menos em Segurança Social. A reforma fiscal dos estrategas trumpistas implica enorme baixa das receitas fiscais (reduz o imposto sobre as empresas dos atuais 35% para o máximo de 15%), portanto grandes cortes na função do Estado e disparo da dívida americana. Ele faz graçolas com o aquecimento global e despreza o acordo sobre o clima. A guerra comercial que promete à China, a quebra de alianças com o Japão e a Coreia do Sul, a par do menor envolvimento na NATO, a acontecerem, representariam um mundo em turbulência com a América cada vez mais fechada sobre si própria. Não é um bom mapa para o futuro. É por isso que, já foi dito, vamos ter saudades de Obama. É por isso que, apesar da falta de faísca, venha Madam President.


Todos precisamos de uma América generosamente envolvida com o que Alexis de Tocqueville abordou em 1840 no famoso livro Democracy in America: a “paixão democrática”.



TAMBÉM A TER EM CONTA:


A hashtag  #YesWeKhan está no topo por estes dias: Londres, a capital mais cosmopolita da Europa, ao escolher para mayor o muçulmano, feminista e ativista dos Direitos Humanos Sadiq Aman Khan, demonstra que a verdadeira Europa, aquela que se levantou das ruínas da Segunda Grande Guerra existe e resiste contra os nacionalismos, a xenofobia e outras discriminações. O filho do motorista paquistanês é o mayor da capital britânica. Boa resposta ao apelo lançado pelo Papa para uma Europa rejuvenescida onde se “construam pontes e não muros”. Às vezes a política traz boas notícias. Mas os problemas de fundo permanecem.

 

Um encontro sobre o futuro da transformação digital em curso.

 

O dia contado em imagens escolhidas por La Vanguardia.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, que mostra como a política do Brasil está no circo.

 

 

publicado às 08:25

E se Trump ganha?

Por: José Couto Nogueira

 

 

O Presidente dos Estados Unidos da América é considerado, com alguma razão, o Homem Mais Poderoso do Mundo. O que poderá acontecer se um megalómano ocupar o lugar?

 

Num ponto concordam os “anti-imperialistas” e os pró-americanos: o Presidente do “Império” e Comandante em Chefe das suas forças armadas tem poderes que se estendem do Pólo Norte ao Sul, e do Alaska à Austrália, passando pelos orientes (Próximo e Médio) e, fatalmente, pela Europa. Também tem influência, já agora, no padrão de vida de 322 milhões de norte-americanos.

 

Portanto não surpreende que as eleições para este cargo superlativo, marcadas para 8 de Novembro, suscitem interesse e ansiedade em todo o mundo. E também não surpreende que uma grande maioria de habitantes desse mundo esteja de cabelos em pé com a perspectiva de que ganhe um homem de estranhos cabelos cor de laranja e ainda mais estranhas ideias quanto ao que fará com o planeta.

 

No complexo sistema constitucional do país, a eleição do presidente é feita indirectamente por um Colégio Eleitoral de 538 representantes dos Estados. Para ser candidato a presidente também é preciso ser escolhido pelos delegados do seu partido, num processo semelhante: os delegados dum estado votam todos no candidato escolhido pelos eleitores do partido nesse estado.

 

Isto é importante para perceber como está a situação nesta altura, princípio de Março. Para conseguir a nomeação pelo Partido Republicano é necessário o voto de 1.237 delegados. Estas eleições, ditas “primárias” são feitas estado a estado, em datas diferentes, o que permite ir avaliando as possibilidades dos candidatos. Trump tem, até agora, 316 delegados, enquanto os senadores pelo Texas, Ted Cruz, tem 226, e o pela Flórida, Marco Rubio, tem 106. Os observadores consideram as próximas primárias de 15 de Março como a última oportunidade para parar Trump. Uma vitória de Rubio em seu Estado natal, a Flórida, levantaria questões sobre a força de Trump, assim como uma vitória de John Kasich, governador de Ohio.

 

Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

O Partido Republicano está muito dividido, e não apenas porque há vários candidatos, mas também porque os seus próceres – os senhores que tradicionalmente determinam quem vai enfrentar o democrata – têm sérias dúvidas de que Trump consiga vencer Hilary Clinton na eleição de Novembro. Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

Por outro lado, Trump tem uma agenda própria, errática, sem as preocupações estratégicas que os velhos republicanos consideram indispensáveis para ser viável. Por exemplo, Mitt Romney e John McCain já vieram publicamente afirmar que ele não é aceitável. Em termos simplistas, é muito mais à direita do que o conjunto do partido, ao mesmo tempo que tem propostas consideradas sacrílegas e delirantes pela filosofia republicana tradicional. A declaração mais recente (há declarações novas todos os dias) foi a aceitação do apoio dos grupos suprematistas brancos – as organizações que defendem a superioridade da raça ariana e querem eliminar (fisicamente ou por expulsão) todos os negros, hispânicos, muçulmanos e demais minorias. Estes grupos não só são moralmente inaceitáveis como politicamente inviáveis – ou seja, o apoio deles é uma espécie de beijo da morte para qualquer candidato. Mas é indiscutível que Trump tem muitos apoiantes e que, se nada se fizer, ganhará a candidatura.

 

Para nós, europeus, que temos outros problemas, receios e preconceitos, é difícil perceber porque Trump faz tanto sucesso. Dizer que os americanos são estúpidos, racistas, imperialistas, etc. é uma opinião ideológica que não explica nada. A opção por Trump tem a ver com angústias profundas da sociedade americana que se têm agudizado nos últimos anos a um nível quase paranóico.

 

Os conservadores – chamemos assim ao conjunto muito díspar de pessoas que consideram que os valores e a qualidade de vida estão seriamente ameaçados – sentem que o país já não lhes pertence. Aquele país ideal, que talvez nunca tenha existido mas sempre foi uma possibilidade, em que os imigrantes eram servis e invisíveis, o trabalho abundante, a diferença entre ricos e pobres ultrapassável – qualquer pobre poderia vir a ser rico – a homossexualidade não tinha direito de cidade e a criminalidade estava contida, esse país está a desmoronar.

 

Aquilo a que eles chamam de “valores” – as religiões cristãs, a família nuclear, a ascensão pelo mérito – estão a perder-se. No mundo, a América é desafiada pela China e achincalhada pela Rússia, e não consegue ganhar nenhuma guerra em que se mete; em casa, a criminalidade e a pobreza aumentam a olhos vistos, até o Presidente é negro e o Estado cada vez mais policial. Há uma sombra sinistra que se espalha pelo céu azul dos valores certos e estabelecidos, como que a anunciar o Armagedão.

 

Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia

 

Portanto, um homem que tem instintos básicos para identificar todos os perigos e fulminar todos os demónios, com instinto mediático e sem medo de dizer o que pensa, parece o redentor que vai afastar as dúvidas, o relativismo moral e os marginais que estão a destruir o país. Um homem que vai expulsar os indesejáveis que atulham o mercado de trabalho, falar de cima para baixo aos chinocas e comunistóides, e pulverizar os terroristas islâmicos que os querem matar a todos, violar as mulheres e obrigá-los a uma religião infame.

 

A outra variável que perturba os velhos republicanos é a falta de candidatos credíveis. Tanto Marco Rubio como Ted Cruz, os dois que ainda restam na corrida, são fracos. Têm os valores certos, mas não convencem. Rubio é um cristão devoto, quase medieval, com um discurso desactualizado que nem consegue ser percebido pela população urbana. Além disso já mudou de ideias em questões fundamentais, como a imigração, conforme pensa no que o eleitorado quer. Ted Cruz é detestado pelos seus colegas senadores, que o vêem como um manipulador barato cuja palavra não vale um caracol. Ou seja, por mais perigoso e impalatável que Trump seja, o establishement republicano não preparou a tempo nenhum outro candidato com massa crítica e ideias aceitáveis que lhe possa fazer frente.

 

Finalmente, há que levar em conta que os grandes financiadores do Partido Republicano são os irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos Estados Unidos (petróleo, produtos químicos, plásticos, etc), e Sheldon Adelson, dono de casinos no Nevada e em Macau. Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia. Embora Trump seja demasiado obsceno para os seus pontos de vista, certamente que preferem por os seus milhões nele perante o perigo doutro mandato democrata. Os republicanos mais moderados não se podem permitir a contrariar Koch e Adelson, que contam com mais de 50 por cento do financiamento do partido.

 

Pois é, o Partido Republicano está numa encruzilhada. O que quer dizer que os Estados Unidos também estão, uma vez que o equilíbrio entre os dois partidos tradicionais tem sido, há duzentos anos, o equilíbrio do sistema político. Se perder vergonhosamente, haverá uma hegemonia excessiva dos democratas, o que não é bom – os democratas também não são nenhuns santos, mas isso é outra conversa. Se ganhar, a terceira Guerra Mundial será uma possibilidade mais séria, para não falar nas iniquidades que ocorrerão nos Estados Unidos.

 

Então, se os Estados Unidos estão numa encruzilhada, o que será de nós, europeus, que também não estamos a saber governar-nos?

 

Num mundo ideal, todo o planeta poderia votar para a presidência norte-americana, já que lhe sofre as consequências.

 

O que vale é que a colonização da Lua está em andamento.

 

 

publicado às 10:22

Hillary tem um plano para travar o voo de Trump? House of Cards na Casa Branca?

Por: Francisco Sena Santos

 

A festa dos Óscares celebra com pompa a excelência no cinema de Hollywood, mas também uma monocultura dos Estados Unidos da América. As estrelas e os heróis continuam sempre a ser de cor branca, ainda que desta vez o anfitrião tenha sido um negro. A diversidade com os não-brancos fica nas sobras do guião. Ação e fantasia têm a primazia. Este entretenimento populista e o quadro racial encaixa em pleno na atmosfera que envolve um demagogo populista, Donald Trump, candidato a suceder a Obama na Casa Branca. Estaremos preparados para conviver com a ideia de um mitómano que dispara slogans ameaçadores em hipérbole ultranacionalista e o lema 'Make America Great Again' vir a ser o próximo presidente dos EUA? A possibilidade de Donald vir a ser eleito tornou-se real.


Há um ano, tudo encaminhava para Hillary Clinton vir a ser eleita “Madam President”, em marcha triunfal. Ninguém ousava imaginar que o socialista Bernie Sanders pudesse causar alguma mossa às aspirações da senadora para conseguir a nomeação em glória como candidata dos Democratas. E não se via no campo republicano alguém com envergadura para o desafio. Erro grosseiro na análise. Faltou ter em conta que a maioria dos cidadãos nos EUA de hoje continua sob o trauma profundo da crise de 2008 e culpa as elites da política por essa devastação que é vista como traição ao povo.


É facto que Sanders já esgotou as possibilidades competitivas. Repetiu brilharetes nos prólogos eleitorais nos pequenos estados brancos do nordeste, mas encalhou quando a votação chegou aos estados mais a sul, onde o peso negro é relevante. Viu-se na Carolina do Sul como os afroamericanos catapultam Hillary como herdeira de Obama. Vai ser também certamente assim nos apuramentos desta “super terça-feira” da corrida presidencial americana.

 

Hillary vai hoje ganhar grande vantagem - mesmo que Sanders triunfe no Massachussets -  na contabilidade de delegados para a convenção Democrata, a decorrer entre 25 e 28 de julho, em Filadélfia. Hillary é a inevitável candidata dos Democratas. Mas a excitação progressista inicial em torno de Sanders mostrou como falta a Hillary a fibra vital para gerar uma onda maciça de entusiasmo capaz de envolver os eleitores. Já começou a ver-se que Hillary consegue captar a simpatia da América multirracial - e nenhum Democrata entra na Casa Branca sem o voto dos negros e dos latinos. Mas este voto não chega. Ela precisa de ser capaz de reinventar-se e gerar uma até agora inexistente mobilização emocional para enfrentar o republicano Donald Trump na escolha final, em 8 de novembro.


Trump, há uns meses, parecia um candidato efémero. O seu discurso excessivo, impróprio para tantos, com promessas de banir os muçulmanos, deportar imigrantes e levantar um muro na fronteira com o México, mais outros insultos e gaffes, teria destruído qualquer político tradicional. Mas ele está a revelar a astúcia de um animal político a explorar o enorme descontentamento e até raiva dos eleitores contra os políticos. Trump (tal como Sanders, este no campo oposto, o dos Democratas) apresenta-se em guerra declarada aos aparelhos tradicionais do poder, tanto o político como o financeiro, e assim vai ao encontro do instinto dos muitos que estão em fúria contra o circo político de Washington.


Como é que a América chegou a isto, como é que esta personagem que aparece sem credenciais respeitáveis se impõe assim? O multimilionário Donald Trump, patrão do grande Casino de Atlantic City e dono de vários dos luxuosos arranha-céus de Nova Iorque, entrou pela casa dos americanos nos últimos 10 anos como animador de um programa de tele-realidade na NBC, “The Apprentice”.

 

Armado com essa notoriedade que cultivou entre as massas mais populares, entrou pelos terrenos da política, sempre a denunciar a incapacidade das instituições (o Presidente, o Congresso, o Governo os tribunais, os partidos) para responder às necessidades das pessoas. Passou a explorar o poder das redes sociais. Obama já o tinha feito, com grande eficácia, nas campanhas de 2008 e 2012, para expor, detalhadamente, a sua visão política sobre os principais assuntos. Trump usa os mesmos canais mas para propagar slogans. As mensagens são sempre redutoras: cavalga a xenofobia e diaboliza os imigrantes muçulmanos e hispânicos, rejeita o liberalismo da globalização, quer construir o muro físico com o México e comercial com a China. Elogia a autoridade de Putin e ataca a diplomacia americana que ao favorecer a queda dos ditadores do Médio Oriente deixou que se instalasse o caos. Está farto de ser apanhado em contradições, mas isso não parece interessar aos apoiantes seduzidos pela mensagem "Make America Great Again".


Um grande número de republicanos não esconde a sua inquietação com esta personagem. Não se reconhecem em Trump e procuram consensos para que o candidato do partido que foi de Lincoln e de Eisenhower, também de Reagan ou dos Bush, possa ser alguém mais apresentável. O problema é que uma das alternativas, o texano Ted Cruz (vai hoje triunfar nas primárias do Texas) no altar da extrema-direita religiosa é ainda menos de fiar. A elite do aparelho republicano tem um “golden boy”, Marco Rubio, mas os eleitores não lhe ligam grande coisa. É assim que Donald Trump está a impor-se como inevitável candidato republicano. Ainda não é. Ainda não atingirá nesta “super tuesday” a maioria de delegados para a Convenção Nacional Republicana, que vai acontecer entre 18 e 21 de julho em Cleveland. Mas é muito provável que no final deste mês de março já tenha essa maioria.

 

Agora, parece já ser tarde para travar Trump no palco republicano.


Assim, salvo qualquer improvável reviravolta (não é de excluir que apareça um candidato que se apresente como independente, fala-se de Bloomberg), em 8 de novembro, os eleitores dos Estados Unidos da América vão escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump para suceder a Barack Obama na presidência. Se os europeus também votassem nesta eleição, mesmo considerando os ventos xenófobos que por aqui se agitam, Hillary teria a presidência na mão. Tal como é, uma escolha só dos americanos, o desfecho deste confronto entre a política tradicional e a rebeldia populista tem desfecho imprevisível num eleitorado irritado.

 

Talvez valha, entretanto, pormos os olhos nos golpes do malvado “presidente” Frank Underwood que esta semana volta aos ecrãs do mundo ocidental em nova temporada da série House of Cards. O tempo está para personagens de ficção.

 

Também a ter em conta:

 

Há na Índia quem esteja a levantar-se contra degradantes primitivas práticas de casta.

 

A Espanha, perante todas as contradições, vai conseguir arranjar um governo? Vai precisar de repetir eleições no final de junho? As eleições desfazem o impasse?

 

As eleições iranianas, com o êxito dos moderados do presidente Rohani, são uma vitória para Obama e uma derrota para Netanyahu. 

 

Primeiras páginas escolhidas nesta "super terça feira": esta The Wall Street Journal, esta do The New York Times e esta do Libération. Também esta do NRC de Amesterdão que vê Washington em pânico com o cenário real deste Donald na Casa Branca.

 

E agrava-se todos os dias a tragédia dos refugiados. Veja-se aqui, como é em Calais.  E aqui, uma amostra de como está a ser nos Balcãs.

publicado às 09:20

30 anos de Cavaco Silva, um momento #3: A 'trisneta' do Cavaco

Por: Diana Ralha

 

Cavaco está entranhado no estranho apelido com que assino este texto. Um notável Ralha integrou, aos 66 anos de idade, o XI Governo Constitucional, ficando conhecido como “avô do Cavaquismo”. Isso, então, faz de mim… trisneta de Cavaco.

 

Não foi fácil ser neta do “avô do Cavaquismo”, até porque o meu avô, tutelando a pasta do Ensino Superior, também foi “avô” de uma das maiores polémicas no acesso ao ensino superior: a criação da Prova Geral de Acesso (pêgêá para os amigos).

 

Cavaco trespassa a minha infância e adolescência (o neto primogénito lixou-se com a pêgêá e eu fiquei conotada com a “geração rasca” do Vicente Jorge Silva, pelos jovens maganos que decidiram baixar as calças em São Bento, e mostrar os seus atributos traseiros às provas globais no ensino secundário) e, agora, na idade adulta e com as dores de crescimento, volta a aparecer-me: num inventário de uma herança, numa sentida nota de pesar e condolências do Estado Português pela morte do avô do Cavaquismo.

Estive escalada como jornalista do diário PÚBLICO na campanha das eleições presidenciais de 22 de Janeiro de 2006, que abriram a porta de Belém a Cavaco, e apresentaram um PS fracturado às eleições, com as candidaturas de Manuel Alegre e Mário Soares (onde é que já vimos isto?).

 

Garanti com orgulho e dedicação a segunda divisão da cobertura mediática desta campanha e, na grande noite eleitoral, relatei os miseráveis resultados obtidos pelo agora proscrito (mas eternamente genial) Garcia Pereira, que se ficou pelos 0,2 por cento, se não estou em erro.

 

Mas não é desse domingo que eu me lembro.

 

Sete dias depois de Cavaco ter sido eleito, nevou em Lisboa. Cinquenta anos depois do último relato, Lisboa cobriu-se de neve.

 

Não consigo reproduzir em palavras como o meu coração duplicou de tamanho quando o carro que ainda hoje conduzo, disparou um alarme pela quebra abrupta de temperatura e avisou, premonitório: “Perigo. Neve”. E depois começou a cair, branca e leve, como no poema, e cobriu tudo. Eu e a minha mãe aos pulos, abraçadas, meia hora de magia pura, a vê-la cair dos céus.

 

Para mim, Cavaco em Belém ficou sempre associado a neve em Lisboa numa manhã de Janeiro.

 

Não imagino que fenómeno climatérico extremo se segue, agora, dez anos depois, com a sua saída. 

 

Diana Ralha é consultora de comunicação, mãe de quatro filhos, autora do blog A Familia Numerosa (e ‘trisneta’ do Cavaquismo)

 

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#2: Era uma vez o Cavaco, por Márcio Candoso

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

publicado às 18:27

30 anos de Cavaco Silva, um momento #2: Era uma vez o Cavaco

por: Márcio Alves Candoso 

 

Aqui fala um antigo jornalista, que nasceu para a profissão quando Cavaco Silva já era primeiro-ministro. E para que fique desde já claro, não se gaba desse facto ou rejubila com a pessoa em título. Cavaco é tudo o que de mau o 25 de Abril nos trouxe em termos políticos. Traz ao de cima, e ao palácio do povo, os defeitos típicos do português, como outrora Salazar, num outro contexto.

 

Urbano me confesso, amante da cultura, da vida boa e sem complexos. Do trabalho quando é de trabalho que se trata, da fruição da praça pública, até nos seus exageros, quando é isso que mais interessa. Rio-me. Cavaco não entende a piada.

Cavaco dá aos portugueses aquela sensação de sofrimento 'necessário' que tanto mal faz à nossa existência e realização pessoal e colectiva. Por outro lado, desculpa os videirinhos e os chicos-espertos, que se locupletam com o erário público, a troco de obra marrana e sem critério. E finalmente alcandora à mó-de-cima os brutos. Cavaco é 'bullying' para os nossos afectos.

 

O homem, como a todos os que temos memória dos nevoeiros e chuvas dos mais recentes 35 anos, passou por mim. Nunca votei nele, nem sozinho nem acompanhado. Onde aparecia, afastava-me o 'x' no boletim. Fala aqui, também, um social-democrata convicto, coisa que ele nunca foi na vida.

 

Não vou falar do Citroën, nem da Figueira da Foz. Nem das aulas com Glória de Matos para aprender a conjugar as sílabas e a soletrar as lábio-dentais, essa equação linguística que resiste a qualquer Excel. Nem tão pouco das más companhias, das privatizações macacas, do bolo-rei e das cagarras.

 

A primeira vez que vi Cavaco Silva ao vivo ia eu a subir a Avenida de Roma e ele descia-a. Em carro aberto, ele mais sua Maria, agradecia os aplausos da multidão de classe média, que abanava bandeiras na rua e nas janelas, muitas delas do CDS que ele ajudou a matar. Pagaram caro as 'tias' e os tonsurados com a visão do homem 'providencial'.

 

Lembro-me que andava às compras de umas botas ou sapatos. A multidão quase me engolia, naqueles idos de 87. Por sorte, passou de carro, pelo lado livre da avenida, o meu ex-comandante de pelotão da tropa. Como bom camarada e comandante militar, disse-me: 'Anda, dou-te boleia, ainda és engolido por isto'. E lá me escapei da laranjada perfumada a incenso e birras. 

 

É o mesmo homem que, passados uns anos, na campanha presidencial que o opôs a Sampaio, se meteu no carro à pressa em Espinho – a minha terra – sem cumprir a agenda que o devia levar ao bairro piscatório, por razões de 'segurança', disseram-me. Teve medo, claro, de que uma peixeira lhe assestasse com um chicharro no frontespício. Para um político é inglório.

 

Três dias depois, Jorge Sampaio cumpria a pé o quilómetro e meio que está de permeio entre o largo da câmara e o bairro, não sem que antes o mandatário distrital do futuro presidente rosnasse umas palavras de reprovação, pegasse ao volante do seu SAAB 900 e rumasse, de carro, ao mesmo lugar que o candidato. Chamava-se Carlos Candal, e era mais ás da caneta do que andarilho. Adiante.

 

Sofri, como qualquer jornalista, os anos de chumbo impostos por um homem que não prezava – e não preza – a liberdade. Encontrei Cavaco já estava eu em Lisboa, de microfone em punho, a ouvi-lo já não me lembro a que propósito, ia sua excelência a entrar no mal amanhado de madeiras e alumínios Centro Cultural de Belém. O segurança empurrou-me. Bateu-me no microfone dos 'erres'. Era um armário bem maior que este homem maneirinho.

 

Desequilibrado mas ainda armado de microfone, retirei os olhos do protagonista e fixei-me no bacamarte. Tanto ou tão pouco, que o próprio Cavaco teve de intervir, com aquele sorriso esquálido que sempre o acompanha, dizendo-me 'mas vamos entrando, que lá dentro falo consigo'. Não falou nada, e o segurança desviou os olhos. Confesso que sempre fui maior de alma que de braços e punhos, mas estive quase a pegar-me com o armário. O gajo riu do meu corajoso topete.

 

Passado uns tempos, chegou Guterres. Para os jornalistas, foi como se de repente passasse a chuva e chegasse o sol. Desanuviou a relação com os media, e bem me lembro de ter a mim próprio imposto cuidado, para não começar a gostar demasiado do nosso novo Primeiro. Porque primeiro está a isenção informativa.

 

Um dia, dou de caras com o tal segurança. Bom profissional, tinha passado de Cavaco para Guterres. Mas já não estava ao lado do chefe do Governo. Estava nas escadas do CCB, sentado, cabisbaixo, a fumar um cigarro. Quase tive pena dele.

 

Enfrentei-o. 'Então, já não tem nada que fazer? Lembra-se de mim?' Ele aquiesceu com um gesto afirmativo e um sorriso. Não se mexeu da posição de sentado. Mas foi dizendo: 'Este não quer que andemos ao pé dele'. Não sei se suspirou de alívio ou de piedade por si próprio.

 

Isto foi logo depois do dia 10 de Junho de 1995, quando Cavaco foi entrevistado na Rádio Renascença, com a qual andava de candeias às avessas, ao tempo. A culpa primordial não era minha, que não tinha estatuto para tanto. Mas lá que ajudei à festa, ajudei, tendo como principais comentadores de economia – o meu pelouro na RR – Alfredo de Sousa e João Salgueiro, que não se ensaiavam nada de lhe dar porrada política com critério...

 

Foi nesse dia que o José Luís Ramos Pinheiro, então director da estação, se saiu com a pergunta que cito quase de cor – porque eu estava lá, no estúdio. 'Neste dia de Camões, de Portugal e das Comunidades, o senhor primeiro-ministro ainda se lembra de quantos cantos têm 'Os Lusíadas''?

 

Cavaco Silva mudou de cor, coçou-se um pouco na cadeira e atirou as 'culpas' da sua falta de ensino para a senhora que lhe faz companhia: 'Sabe, lá em casa essas coisas de português é com a minha mulher', respondeu. Mas não sabia.

 

Foi este o homem que representou Portugal.

 

  

Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:

 

#1: As lições de uma ponte, por Pedro Rolo Duarte

#3: A 'trisneta' do Cavaco, por Diana Ralha

#4: A primeira noite de Cavaco SIlva no ecrã, por Francisco Sena Santos

#5: Cavaco Silva em cinco actos, por Pedro Fonseca

#6: Um caso muito interessante, por José Couto Nogueira

 

publicado às 18:25

O salto espanhol no quase desconhecido. Ou como a Espanha pode tornar-se um imenso Portugal

Por: Francisco Sena Santos

 

A vontade que os cidadãos têm de mudança impôs, no espaço de 75 dias, a reviravolta no mapa político ibérico. Portugal, em 4 de outubro, e Espanha, em 20 de dezembro, colocam a península como um laboratório de experiências políticas inovadoras para a esquerda europeia. Os espanhóis, que se mobilizaram para votar (assinalável afluência de 73%), deram quase nove milhões de votos a partidos emergentes: 5,2 milhões a Podemos, 3,5 milhões a Ciudadanos. Estes dois partidos recolheram um terço dos votos entrados nas urnas espanholas e colocaram a Espanha dentro de um labirinto à procura de novas saídas políticas.

 

As eleições espanholas deste domingo apontam-nos 10 constatações relevantes:

 

1. A esquerda recuperou muito da representação que em 2011 tinha perdido para a direita. Há quatro anos, o PP alcançou 186 deputados e ficou com a folga de 10 eleitos dentro da maioria absoluta (176), perante 110 deputados do PSOE. Agora, as duas partes políticas aparecem quase igualadas: o somatório da metade direita, formada por PP e Ciudadanos, vale 163 deputados, 10,7 milhões de votos e 42,65% dos sufrágios, enquanto a metade à esquerda, com PSOE, Podemos e Esquerda Unida soma 161 deputados, 11,6 milhões de votos e 46,34% de todos os votos. A direita está a 13 deputados da maioria absoluta e a esquerda a 15. A direita parece mais perto mas a esquerda tem cenários mais plausíveis, à cabeça com os reforçados partidos nacionalistas da Catalunha e do País Basco.

 

2. Para além do ajuste que empata esquerda e direita, verifica-se que o princípio de vasos comunicantes funciona dentro de cada bloco ideológico na transferência de voto dos partidos tradicionais para os emergentes: o colapso de votos sofrido pelos dois partidos que eram hegemónicos é acompanhado pela poderosa subida dos novos partidos: o PP perde 63 deputados mas Ciudadanos surge com 40; o PSOE cai 20 deputados mas Podemos irrompe com 69.

 

3. Podemos, o partido nascido há dois anos e meio a partir do movimento de cidadãos indignados, é o grande ganhador nestas eleições: parte do nada em 2011 para captar agora 20,7% dos votos e, com 69 deputados, irromper no parlamento com a força de um vendaval. Quase metade do voto à esquerda em Espanha preferiu Podemos ao PSOE. Podemos é o primeiro partido na Catalunha e o segundo em Madrid, Valencia, Galiza, País Basco, Navarra e Baleares.

 

4. Ciudadanos também é um ganhador mas sofre a decepção de falhar a ambição de aparecer como alternativa. As sondagens chegaram a colocar este partido liberal no segundo lugar das preferências espanholas tornam modesta a representação em quarto lugar, com apenas 13,9% dos votos e 40 deputados. Ciudadanos perde o duelo com o rival Podemos e não consegue encostar-se ao PSOE. Albert Rivera fracassa ao não conseguir ter nas mãos a chave da governabilidade. Muito abaixo das expectativas.

 

5. O PP é o partido mais votado mas tem uma vitória tão curta que faz dele um perdedor. Após quatro anos de governação, apesar da propagandeada retoma da economia mas que não chega para vencer o desemprego e tirar muitos da pobreza, o PP cai de 44,05 para 28,71 por cento. Teve 10,8 milhões de votos em 2011, somou agora 7,2 milhões. Ao perder 3,6 milhões de votos e 15 pontos percentuais sofreu um descalabro mais devastador que o da coligação PSD/PP em Portugal, que nos mesmos quatro anos perdeu 12 pontos percentuais. Valência, governada pela esquerda, agora deu o primeiro lugar a Rajoy que também ganhou no feudo madrileno.

 

6. O PSOE baixa mas aguenta-se e ganha às sondagens. Perde milhão e meio de votos ao receber apenas 5,5 milhões de sufrágios, mas as sondagens anunciavam risco de maior descalabro. Beneficia da baixa expectativa em volta do momento do partido e da sua liderança. Pedro Sanchez também beneficia da posição privilegiada de – tal como aconteceu com António Costa, em Portugal – ser o único líder que pode proporcionar ao PP um pacto para governar (parceria que o PSOE parece excluir) e ao mesmo tempo poder liderar uma convergência de esquerdas e nacionalistas para formar governo em Madrid (cenário que tem algumas possibilidades de vir a ganhar impulso). O PSOE confirma-se como partido dominante na Andaluzia, mas é terceira força na Catalunha e quarta em Madrid.

 

7. Os independentistas catalães entram de rompante nas Cortes de Espanha: passam de 3 para 17 deputados. A radical Esquerda Republicana (ERC) passa de 3 para 9 deputados e os centristas dos Democratas Liberais (em guerra política total com o PP) somam 8. São 17 deputados dispostos a negociar soluções com a esquerda (mas o PSOE é inflexível com os independentistas) e que barrarão o caminho à direita.

 

8. Os bascos escolheram Podemos como a força mais votada, mas só conseguiu eleger cinco deputados, enquanto os centristas PNV com menos votos elegem 6 deputados. Estes seis deputados também podem ser decisivos para o jogo de maiorias em Madrid. A esquerda extremista EH Bildu perde 5 dos 7 deputados que tinha em Madrid, o que também mostra que os vestígios da ETA chegam ao fim. O PSOE segura três deputados e o PP dois no País Basco.

 

9. A coligação comunista Esquerda Unida (IU) fracassa ao cair de 11 para apenas dois deputados, ambos eleitos por Madrid. O líder Alberto Garzón queixa-se da lei eleitoral que leva a que, apesar de com um milhão de votos em toda a Espanha, a IU só eleja dois deputados.

 

10. O voto negativo tende a ser determinante nas novas Cortes de Espanha. Este quadro mete num labirinto a formação do próximo governo em Espanha: o PP é o partido com mais deputados mas enfrenta o muro de 176 votos negativos (90 PSOE+ 69 Podemos + 17 independentistas catalães) que torna inacessível a maioria para governar.

 

É assim que o PSOE está no fulcro das soluções: tanto pode resolver tudo numa grande coligação com o PP (cenário altamente improvável), como pode tentar formar uma coligação de esquerdas com nacionalistas mas, neste caso, há linhas vermelhas que não parecem, por agora, ultrapassáveis. Mas não é de excluir que a Espanha venha a tornar-se, no quadro político, um enorme Portugal. Também não será uma surpresa se os espanhóis voltarem a votos já dentro de alguns meses e com mudanças na liderança dos partidos tradicionais, sobretudo no PP. Por agora, há ilusão, entenda-se ânimo novo, entre muitos que andavam desapegados da discussão de ideias para o governo de Espanha.

 

Para consulta dos resultados eleitorais em Espanha, clicar aqui.

 

Também a ter em conta:

 

Quem responde pelo naufrágio Banif? Para compreendermos o enquadramento do desastre tão anunciado quanto adiado, é útil ponderarmos esta opinião de José Vítor Malheiros. Tal como esta análise de Francisco Louçã e esta de Bagão Félix. Também esta, de Nicolau Santos. A propósito de Nicolau Santos, há que conhecer talentos artísticos do jornalista especializado em economia: “O meu país já não existe” é um apetecível CD de poesia com música jazz e a voz, tal como muita da poesia, dele, Nicolau Santos. Já agora: viva o analista que leva todas as semanas poesia para a sua página de comentário económico no Expresso!

 

A genética dá-nos respostas para a compreensão dos mecanismos da inteligência humana? Será possível intervir para melhorar capacidades? Esta investigação é para ser seguida.

 

Hillary Clinton tem a passadeira colocada para daqui a 11 meses ser eleita presidente dos Estados Unidos da América? A oposição republicana, com postura dominante tão absurda, parece estar a facilitar a caminhada.

 

Um incêndio devastou ontem o edifício centenário da Estação da Luz, em São Paulo, no Brasil, onde estava instalado o excelente Museu da Língua Portuguesa. O arquiteto Pedro Mendes da Rocha, que com o pai, Paulo, projetou todo este espaço cultural já avançou que vai ser possível restaurar tudo. Este tema domina a primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS. É preciso recuperar o Museu da Língua Portuguesa e que bom seria que ele tivesse uma extensão em Lisboa.

publicado às 08:40

"People Have the Power". E temos um problema Le Pen para tratar

Por: Francisco Sena Santos

 

Marine Le Pen está lançada para daqui a 16 meses ser eleita presidente da República francesa? Este cenário perturbador pelo veneno xenófobo e pelo retrocesso civilizacional populista e autoritário que representa não é o mais provável, mas pode ainda impor-se como realidade e, a ser assim, dar um safanão fatal ao que resta do ideal solidário e multicultural da União Europeia.

 

 

O eleitorado francês, exasperado com os dirigentes políticos do costume, gente - de Sarkozy a Hollande, passando por vários outros - que lhe cobra sempre mais impostos mas é impotente para resolver problemas essenciais da vida, está puxado para as direitas e dividido em três fatias cujo peso é semelhante: as esquerdas (o PS de Hollande e diversos pequenos partidos), a direita (os republicanos de Sarkozy cuja liderança também é disputada por Juppé e Fillon) e a extrema-direita (a Frente Nacional do clã Le Pen). Aliás, até o mapa territorial da França também está dividido em três equivalentes faixas verticais, tal como na bandeira: a parte atlântica ocidental, de Hendaia e Bordéus a Rennes e Brest é socialista, o meio vota na direita tradicional e a França do lado leste, de Lille e Calais, a norte, Marselha e Nice, no sul mediterrânico, virou-se para a Frente Nacional (FN).

 

Muita esquerda francesa vê a FN como um partido fascista. Jean Marie Le Pen, fundador, em 1972, da FN tinha no centro do seu programa a ideologia fascista e a nostalgia da França colonial. Chegou a 22% dos votos na eleição presidencial de 2002, quando a esquerda se sentiu obrigada a votar Chirac para barrar o risco de Le Pen na presidência da República.

 

A FN evoluiu como partido comandado por um clã familiar e já mete três gerações Le Pen: para além de Jean Marie, Marine que é a filha, e Marion, a neta de Jean Marie e sobrinha de Marine. Ambas cultivam o extremismo de direita com rosto feminino, mas corrigiram o rumo traçado pelo velho Le Pen: a ideologia com etiqueta de fascista evoluiu para a opção ultranacionalista com discurso ferozmente anti-sistema. Marine, em 2011, fez-se eleger para suceder ao pai na liderança da FN. Apontou para a conquista do poder com um projeto social e uma conceção identitária que tinha desaparecido das elites políticas francesas. Para tornar clara a distanciação das ideias mais odiosas do pai abriu-lhe guerra e expulsou-o da FN por causa de declarações anti-semitas.

 

A liderança de Marine Le Pen explora a incapacidade das elites políticas para evitar a desagregação social e económica que mina a sociedade francesa. Cultiva a angústia de uma nação que se julgava farol do mundo e que agora sente ter deixado de iluminar. Denuncia com impacto a exclusão que cresce nas periferias urbanas e as reformas sucessivamente falhadas. Coloca-se como a porta-voz dos desprotegidos pelo sistema e é assim que capta muito voto operário. Também muitos eleitores com menos de 35 anos, poucos estudos e nenhum emprego. Atrai para o seu discurso os que estão perdedores com a globalização. Usa a crise financeira para fustigar a eurocracia e denunciar os malefícios do euro. Aproveita a crise dos refugiados para reclamar o fecho de fronteiras.

 

Tal como praticava o pai, Marine Le Pen usa os medos como carburante eleitoral da FN. A barbárie jiadista da noite de 13 de novembro foi para o clã Le Pen um bingo: serviu-lhe para inflamar o discurso de rejeição da Europa multicultural e estigmatização do “outro”, no caso os muçulmanos. Explora o “nós” contra os “outros” e reclama um Estado forte, protetor, com autoridade. Apresenta-se como a dirigente política que não trai o povo.

 

É com este discurso que a FN saiu das eleições deste domingo como o partido mais votado em seis das 13 grandes regiões que formam o território francês e em posição de força para garantir, com duas Le Pen, no próximo domingo o governo de pelo menos duas das regiões: a tia Marine no Norte-Pas de Calais-Picardia, região com tradição operária na França que faz fronteira com a Bélgica, e a sobrinha Marion (faz 26 anos depois de amanhã) a governar a Provença-Alpes-Côte d’ Azur, a França de Cannes e Saint-Tropez, Nice e Marselha, Arles e Orange.

 

Até aqui, a ausência de responsabilidades governativas reforçou consideravelmente a eficácia do discurso populista da FN. E agora? Para já, provavelmente, a prova da gestão do poder. Depois, a presidência da República, com eleição em abril de 2017, é a ambição seguinte para Marine Le Pen. Na eleição de 2012, Hollande (10 milhões de votos na primeira volta, 18 milhões na segunda) bateu Sarkozy por um milhão e 200 mil votos. No aquecimento para a eleição presidencial de 2017, este retornado Sarkozy não está a conseguir galvanizar a direita e parece indiscutível que não vai buscar um só voto às esquerdas, portanto parece condenado a voltar a perder. O socialista Hollande cresceu nas últimas semanas como homem de Estado, mesmo assim está muito longe de 50% do eleitorado francês – mas no dia decisivo poderá receber votos centristas caso a finalíssima seja, como é previsível, com a líder da Frente Nacional.

 

Marine Le Pen tem uma base de 30% do eleitorado e mostra habilidade para conquistar votos em todas as áreas do descontentamento com o sistema, o que a coloca no tal cenário de possibilidade de eleição. É nesta triangulação que Alain Juppé, um centrista com simpatias no centro-esquerda, talvez seja o adversário mais temido por Marine Le Pen. Porque o moderado, afável e experiente Juppé terá a adesão da direita tradicional e captará o voto útil da esquerda para evitar o cenário de Marine Le Pen, presidente da República francesa. O voto da França vai decidir daqui a 16 meses. A aspirante que se declara inspirada pela heroína Joana d’ Arc não é favorita mas convém não estarmos desprevenidos para a hipótese.

 

Também a ter em conta:

 

Os EUA também têm em campanha eleitoral uma agressiva versão americana de Le Pen a explorar os medos: o republicano Donald Trump quer fechar a porta dos Estados Unidos a toda imigração muçulmana.

 

Há já 95 anos, desde 1920, que o New York Times não usava a sua poderosa primeira página para, com evidência gráfica, através de um editorial, tomar posição sobre uma questão crucial. Fê-lo no passado sábado, depois de uma nova matança (San Bernardino), com o texto que tem por título “A epidemia das armas”, em que dá máxima expressão “à frustração e angústia” pela incapacidade dos EUA para enfrentar a praga das armas que qualquer pessoa pode ter e que matam com eficiência brutal. A necessária limitação de acesso é um muro que a melhor América continua a não conseguir derrubar.

 

A vitória eleitoral da oposição na Venezuela promete devolver os direitos civis aos que têm sido injustamente perseguidos por motivo político. O “chavismo” tem os dias contados?

 

People Have the Power cantado em uníssono, ontem à noite em Bercy. Os Eagles of Death Metal voltaram a um palco de Paris, três semanas depois da matança no Bataclan, agora ao lado dos U2. Com uma mensagem de futuro proclamada por Bono: “L’ amour, plus fort que la peur”.

 

Ele está sempre na primeira página do As e da Marca que todos os dias podemos encontrar no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:07

Catarina (ministra) Martins

Por: António Costa

 

Catarina Martins já tem pose de ministra, já fala como ministra, por isso, só falta mesmo ser ministra do mais do que provável governo de coligação de Esquerda, uma nova troika sem um cheque de 78 mil milhões de euros, mas com a responsabilidade de não deitar fora o que foi feito no país nos últimos quatro anos.

 

A líder do Bloco de Esquerda é mesmo a principal novidade deste momento político do país. Tinha sido na campanha eleitoral, foi na noite das eleições e, passado quase um mês das legislativas, continua a ser a que marca o tom. Sem medo de assumir essa responsabilidade, como se percebe da entrevista que concedeu ontem ao DN. Sim, a disponibilidade do PCP para negociar uma participação no Governo é surpreendente, e muda as regras do jogo, mas percebe-se o desconforto de Jerónimo de Sousa, a luta interior, a si e ao próprio partido, entre o desejo de deitar abaixo o governo de Pedro Passos Coelho e o receio de levar o PCP pelo mesmo caminho de outros PC’s europeus que se juntaram aos socialistas.

 

Catarina Martins, não, pelo contrário, quer estar, quer participar, quer impor uma agenda e está a fazê-lo. Porquê? Porque António Costa decidiu que fará tudo o que for necessário para ser primeiro-ministro e por isso precisa de fazer um acordo com o BE, condição necessária para o PCP ser obrigado a alinhar. Vale a pena reler algumas das respostas de Catarina Martins. “O compromisso político que estávamos a fazer permite aos pensionistas recuperar as suas pensões ao longo da legislatura. Se tivessem um governo de direita iam perder com cortes, se fosse governo do PS ficariam congeladas, e o que posso dizer agora é que há acordo para que as pensões vão ser todas descongeladas e as mais baixas terão mesmo um aumento real”.

 

Querem mais? “Depois de estarem fechados todos os pontos políticos naturalmente tem de haver um acordo formal e aí assumiremos as responsabilidades que forem necessárias para que a solução seja a mais forte possível na defesa dos compromissos políticos que estão no acordo”. E não só. “Estamos muito interessados na consolidação das contas públicas porque quando não há o país fica mais dependente de fatores externos e perde soberania”, sim, é uma afirmação de Catarina Martins, poderia ser o ‘novo’ Tsipras. As contas deste acordo de Esquerda, esse, fica prometido para mais tarde, e até nisto, na forma, já age como ministra.

 

Catarina Martins tem o partido nas mãos, talvez até como nunca Francisco Louçã tenha tido como líder histórico do Bloco. Recuperou-o depois da liderança bicéfala que quase acabava com ele. E o BE está mais perto de ser governo do que alguma vez esteve. Claro que, depois, lá vêm também o discurso anti-austeridade básico, como se não fosse necessário equilibrar as contas, as críticas ao Tratado Orçamental, sem perceber que é uma peça fundamental para que uma zona euro funcione, e à necessidade de reestruturação da dívida à grega, que tão bons resultados deu, como se sabe.

 

Se Catarina Martins chegar mesmo ao Governo, isso passa-lhe. Ou nós, portugueses, é que nos vamos passar.

 

Para ver

 

A TVI passou este fim-de-semana uma reportagem de serviço público sobre a caravana Ayalan Kurdi, uma iniciativa voluntária para levar mantimentos de todo o tipo aos refugiados que estavam a chegar à Europa dita civilizada e que tem tido, tantas vezes, uma resposta pouco melhor do que selvagem. Fica a capacidade de mobilização de tantos portugueses, particulares e empresas, que quiseram apenas ajudar. Ficará para sempre o nome de Ayalan Kurdi, o nome do menino curdo de três anos que morreu a fugir de uma guerra e numa travessia que o deveria levar à costa da Turquia. Não chegou vivo, mas a sua imagem chegou ao mundo. E ficou. E expôs as nossas vergonhas. Vejam e revejam a reportagem de Alexandra Borges e Tiago Donato, para nunca se esquecerem dos valores que deveríamos todos ter.

publicado às 09:50

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