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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A extrema-direita esquiva-se ao velho estigma

 

 

 

 

Por: Francisco Sena Santos

 

“Que percentagem de votos para os populistas?” Esta passou a ser a pergunta recorrente no apuramento de resultados de qualquer eleição europeia. Quando se diz populistas, pensa-se em forças políticas (não apenas de extrema-direita) opostas aos ideais de solidariedade que levaram à criação de uma Europa unida. Agora, foi na aparentemente estável Áustria, um país vital nos campos da arte e do saber – mas que em 1938 abriu os braços a Hitler e que então votou a favor da anexação pelo Terceiro Reich.

 

Neste domingo, na Áustria, os eleitores deram o triunfo à extrema-direita (36,4%) na primeira volta da eleição presidencial que eliminou, com dura derrota, os candidatos dos tradicionais partidos maioritários, o SPO dos social-democratas e o OVP dos conservadores, que entre ambos só conseguiram juntar ao todo 22% dos votos. O declínio destes partidos oficialistas tem em contraponto a escalada dos extremistas ultranacionalistas do FPO e o crescimento dos verdes. Toda a coligação xenófoba europeia exulta com estes resultados austríacos, vê-se no twitter como se congratulam o holandês Gereret Wilders ou a francesa Marine Le Pen.

 

A Europa festeja o seu dia em cada 9 de maio. Desta vez, quando o que se vê na Áustria como nos governos da Polónia e da Hungria, também em outros países, é uma não-Europa, será melhor que a celebração seja mobilizada para debates sobre como podemos enfrentar as ameaças e retomar a coesão em torno dos valores essenciais da Europa.

 

São várias as crises com as quais a Europa se confronta, sendo que duas são principais. Uma é a crise gerada por movimentos humanos – centenas de milhar de refugiados de guerra e de migrantes económicos – que tentam entrar no continente europeu pelo sul. A outra crise é política, em grande parte dos países europeus, onde os partidos convencionais do centro-esquerda ou do centro-direita, estão a ser desafiados por partidos contra o sistema. Muitos deles, com discurso de intolerância, que tem terreno fértil quando a vida é o desemprego e a ausência de futuro nesta Europa que está politicamente débil.

 

Os partidos tradicionais começaram a ficar tolhidos pela submissão ou falta de alternativas às impostas receitas da austeridade. Depois, deixaram-se cair no prato envenenado de não desmontarem preconceitos e medos em torno de refugiados e migrantes. Deixaram que se instalasse o temor de ameaça civilizacional com a chegada maciça de muçulmanos, eslavos e outros.

 

Na Áustria, os partidos clássicos, juntos em grande coligação de bloco central no governo em Viena, perante a pressão contínua da extrema-direita, assente na questão dos refugiados, perderam a cabeça e tentaram passar a ser eles a encabeçar a onda populista: fecharam fronteiras e chegaram ao absurdo de fazer construir um muro anti-imigrantes na fronteira entre Itália e o Tirol austríaco. O muro, obviamente, não trava nada a não ser a confiança, é apenas um lastimável símbolo. O governo de Viena travestiu a sua acção com o discurso da extrema-direita, esqueceu que a cópia fica sempre abaixo do original, chegou às eleições presidenciais e foi estrondosamente derrotado. Pela primeira vez na história da Áustria os candidatos dos grandes partidos que antes costumavam superar juntos a fasquia de 80% dos votos, agora, ficam excluídos da ronda decisiva da eleição. A escolha dos austríacos, em 22 de maio, vai ser entre o ultra-direitista Norbert Hofer (36,4% dos votos), um pistoleiro candidato anti-imigrantes e eurocéptico (diz-se “um protector da Áustria, quer que o país não seja segurança social para estrangeiros” e defende o direito de cada austríaco a armar-se) e o veterano economista ecologista Alexander van der Bellen (20,4%).

 

O que está a acontecer na Áustria, tal como em outros países europeus, merece ser ponderado. Há um dado relevante: pesquisas mostram que o voto na extrema-direita tem grande base nos eleitores jovens. Significa que o estigma que marcou a extrema-direita nas gerações das décadas seguintes à Segunda Grande Guerra está agora a ficar esbatido. Para isso contribui o facto de o discurso desses partidos extremistas se ter modernizado e ter descolado de seduções pelo nazismo ou pelo fascismo. Os eleitores jovens, revoltados com a incapacidade dos partidos tradicionais, escolhem votar fora do sistema. É a expressão da contestação ao fracasso de quem tem governado. Há quem opte por votar na esquerda do leque político (Podemos em Espanha, BE em Portugal, Die Grunen/Os Verdes na Áustria e na Alemanha), mas o movimento na Europa central e de leste vira-se sobretudo para a direita extrema. É uma onda nacionalista, intolerante, egoísta, contrária aos valores fundadores da Europa. Por isso, há que enfrentar esta nova realidade que se instala. Há uma atmosfera que assustadoramente faz lembrar o que lemos sobre a Europa no começo dos anos 30 do século XX.

 

 

VALE LER:

 

A Europa observada pelo historiador Ian Kershaw: “O que tínhamos por estável agora treme”.

 

Zona nuclear de exclusão: 30 anos depois, o que resta de Tchernobil? A lição da catástrofe está aprendida?

 

Os destinos europeus mais em conta para uma escapadela estão a leste. Mas também vemos que o mapa da Trivago coloca Lisboa com preços razoáveis.

 

Que porção de alimentos devemos comer? Convém controlar este desejo.

 

Hoje há um mini-Tuesday nos EUA: cinco estados a votos em primárias. A santa aliança republicana contra Trump pode funcionar? Pouco provável.

 

À espera do regresso de Twin Peaks.

 

As primeiras páginas do Brasil no SAPO Jornais mostram como o impeachment de Dilma avança imparável. Mas a vaga está para continuar.

publicado às 08:35

Este país também pode ser para os mais velhos?

Por: Francisco Sena Santos

 

A campanha presidencial em curso nos Estados Unidos da América sugere uma questão: como é que em Portugal estamos a lidar com os nossos mais velhos? Seria possível, numa sociedade como a nossa, tão deslumbrada com o culto de quem é jovem e telegénico, como fica evidenciado no sistema mediático, termos um político que no alto dos seus 74 anos seja um ídolo dos jovens? Acontece na América, com Bernie Sanders.


Este homem, candidato à sucessão de Obama na Casa Branca, aparece como um Dom Quixote frente aos moinhos de vento das elites da finança de Wall Street e da política de Washington. A mensagem dele é poderosa para jovens que perderam a esperança de ter esperança e assenta num ingrediente genuinamente americano: “está nas nossas mãos conseguirmos”.

 

Numa América desde sempre alérgica a qualquer influência marxista e onde falar de socialismo remete para a velha União Soviética, Bernie Sanders assume-se socialista. É facto que está sempre a explicar que entende o socialismo como um modelo social-democrata como o que funcionou nos países escandinavos. Mas ousa propor uma “revolução política” com medidas radicais na América onde prolifera a injustiça social: cuidados de saúde garantidos para todos, estudos superiores gratuitos, investimento maciço na criação de emprego decente, progressividade fiscal e aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. Fica, no entanto em silêncio sobre o divisivo tema da posse por quase todos de armas de fogo.


Bernie Sanders, com a cara cheia de rugas, óculos espessos, cabelo branco, velho leão solitário da esquerda americana, surge nesta campanha americana como ícone do progressismo democrático contemporâneo: ele faz a ponte entre a contra-cultura dos anos 60 e 70 do século XX e os novos movimentos de protesto nascidos com a agitação de Occupy Wall Street. Discursa com grande ferocidade moral. Não deixa de ser agreste com os jornalistas quando estes lhe colocam perguntas que ele considera frívolas. É aclamado pelos apoiantes – que vestem t-shirts onde se lê I love you Bernie, A future to believe in ou Feel the Bern - como se fosse uma estrela rock.


A eleição presidencial nos Estados Unidos decide-se no próximo 8 de novembro. Até ao verão, os dois grandes partidos políticos dos EUA, o Democrata e o Republicano, apuram em primárias, em cada um dos 50 estados, a escolha do seu candidato para a finalíssima em novembro.


É bem provável que o lado republicano (o que se coloca mais à direita, o partido que foi de Reagan e é dos Bush) chegue à convenção marcada para 18 a 21 de julho, em Cleveland, sem que algum dos aspirantes (Trump, Cruz, Rubio, Bush ou outros) se imponha à partida. Adivinha-se que ninguém tenha maioria absoluta de delegados. A ser assim, será uma convenção republicana aberta de resultado muito incerto, como não acontece há décadas.

 

Há que não menosprezar Donald Trump, o candidato multimilionário com os seus 70 anos disfarçados pela maquilhagem. Ele é, tal como Sanders, um candidato contra o sistema. Ambos estão a divertir-se nesta campanha. E o insurgente Trump, apesar do seu machismo e da rudeza do seu discurso populista e xenófobo, nem será entre os candidatos republicanos o que poderia provocar maior caos se fosse eleito. Os outros não expõem tanto o ridículo mas cultivam mais a divisão.


No campo dos democratas, Hillary Clinton partiu superfavorita: no verão passado, as sondagens davam-lhe mais de 60% das intenções de voto enquanto Bernie Sanders não chegava aos 10%. As primárias começaram neste fevereiro e Bernie Sanders tornou-se a surpresa: empatou com Hillary no Iowa e impôs-se com enorme margem (20%!) no New Hampshire. Sabia-se que Sanders estaria em casa neste pequeno estado próspero no nordeste, mas não se esperava um triunfo tão claro. Uma vitória assim robusta pode fazer embalar o apoio a Sanders, permitir-lhe ampliar a emoção em torno da candidatura e mexer com as previsões favoráveis a Hillary nas próximas duas primárias, no Nevada e na Carolina do Sul. Mas é improvável que Sanders possa resistir ao aparelho de Hillary na “super terça-feira” 1 de março, com 12 eleições primárias. Sabe-se que Hillary tem de há muito vantagem no voto negro e hispânico. Então, a mulher do ex-presidente Bill Clinton tenderá a descolar e a impor-se na corrida do lado democrata.

 

Tudo ainda pode acontecer, com Bernie a beneficiar de novas formas de mobilização política e de financiamento participativo, mas é pouco provável que sequer consiga aguentar até ao verão um ombro a ombro com Hillary. No entanto, o efeito Bernie Sanders pode ser devastador para a candidata: mostrou como ela tem falta de idealismo mobilizador. Ele, Bernie, aparece como uma pessoa autêntica, imagem que não cola à figura de Hillary, uma acrobata política, uma política de um sistema que gera uma grande vaga de hostilidade.


No meio de toda esta indefinição, pode ainda vir a surgir Michael Bloomberg, o multimilionário liberal, ex-mayor de Nova Iorque, a apresentar-se como o independente, moderado, que consegue atrair e juntar pedaços da América exasperada que não se revê em nenhum dos candidatos. Pode vir a tentar impor-se como o centro de uma América moderna.


Tudo está em aberto nesta eleição do sucessor de Obama. É possível que o impacto da crise de 2008-2009 sobre o imaginário de uma parte da América esteja a abrir uma brecha no ciclo político. Por agora, a estrela é Bernie Sanders.


Voltando ao princípio: seria possível, no actual sistema social português, um homem com 74 anos e que se assume veterano conseguir desencadear uma onda emocional com assim vasta mobilização dos sub-30?

Também a ter em conta

A morte de Antonin Scalia, o falcão mais ultra-conservador entre os nove juízes no Supremo Tribunal dos Estados Unidos abre uma batalha política em que Obama tenta virar a balança do Supremo a favor do lado progressista. Scalia chegou ao Supremo, com nomeação vitalícia, por Reagan, em 1986. Até agora o Supremo americano, comparável a um tribunal constitucional, tinha quatro juízes conservadores, quatro progressistas e um, Anthony Kennedy, cujo voto oscilava entre os dois campos. A escolha pode mudar a decisão política nos Estados Unidos.

O papa Francisco em Chiapas, diante de 100 mil indígenas, pede-lhes perdão pelo modo como são “sistematicamente excluídos da sociedade” e “expostos à cultura que tenta suprimir-lhes a cultura”.

A praia da Salema, no Algarve, entre as melhores do mundo na lista do The Guardian.

Uma primeira página escolhida hoje entre as reproduzidas pelo SAPO JORNAIS. E também esta. E como será a vida futura de tantos milhões de crianças e adolescentes sírios que cresceram a testemunhar a devastação e a fugir ao inferno?

publicado às 07:57

O PS no meio da ponte

Por: Paulo Ferreira

 

 A minha primeira intenção era ter escrito esta crónica na terça-feira à noite. O tema do momento, incontornável, é a situação política. Depois da declaração de Cavaco Silva - mensagem: entendam-se lá todos no Parlamento menos com o PCP e o Bloco de Esquerda - importava saber qual a posição dos socialistas, que reuniram nesta noite a Comissão Política Nacional.

 

À medida que iam chegando ao Largo do Rato ouvia-se de tudo da boca dos dirigentes do partido. Há quem defenda que António Costa devia demitir-se (António Galamba); quem queira a realização de eleições primárias e um congresso a seguir às eleições presidenciais (Álvaro Beleza); quem considere que à esquerda não há “capacidade de diálogo nenhuma” (Vera Jardim); e quem ache que o PS deve empenhar-se “numa negociação séria com o BE e o PCP” no sentido de se “comprometer seriamente numa maioria absoluta de esquerda” (João Soares).

 

A questão precisava mesmo de algumas horas para ser clarificada e o melhor era esperar pelo final da reunião para saber o que ia decidir o secretário-geral: o PS está disponível para um entendimento com o PSD/CDS ou a única coisa que tem a fazer é desejar boa sorte a Pedro Passos Coelho e Paulo Portas e recomendar-lhes que vão pela sombra?

 

Crónica adiada para esta manhã de quarta-feira, à espera de um sinal que, afinal, não veio.

 

António Costa vai conversar com todos, à direita e à esquerda, como se estivesse ele próprio a formar um governo. Li aqui: “Segundo Costa, da Comissão Política Nacional do PS resultou ‘um mandato claro para as negociações que haverá pela frente". 'O mandato que temos é para falar com o conjunto das forças políticas. Neste quadro parlamentar que é novo e que exige de todos um grande sentido de responsabilidade para o país, vamos avaliar e tentar encontrar boas soluções programáticas para o país', completou o líder socialista.” Mais: “‘É sabido que há muitos meses, entre as deliberações do PS, está a recusa do conceito de arco da governação - um conceito que, negativamente, tenta delimitar quem são as forças políticas que podem participar em soluções governativas", referiu.

 

O PS conversa, naturalmente, com quem entende e quando entende. Mas duvido que prolongar e aumentar a ambiguidade sobre o posicionamento estratégico do partido seja o caminho mais aconselhável para iniciar a recuperação da pesada derrota de domingo.

 

No último ano o PS foi a favor e contra a reestruturação da dívida, contra e a favor do Tratado Orçamental, entusiasta e crítico do Syriza.

 

Agora, o que o PS nos diz é que está disponível para participar em soluções governativas que vão da preparação para a saída do euro (PCP), uma exigência de perdão de 60% da dívida (Bloco de Esquerda), a nacionalização da banca e dos principais sectores do país (PCP e BE), até toda a austeridade necessária para continuarmos no euro (PSD e CDS), privatização e concessão mesmo de sectores estratégicos (PSD e CDS) e pagar a dívida até ao último tostão, custe o que custar (PSD e CDS).

 

Entre estes dois mundos radicalmente opostos o coração do líder do PS não balança mais para um dos lados? Nem um bocadinho só?

 

Esta ideia de que o PS está igualmente disponível para cada coisa e o seu oposto em temas fundamentais pode ter a sua piada como simulacro de diálogo, de abertura a uma pluralidade de soluções e de pontos de vista. Mas dá pouca tranquilidade aos cidadãos que, de forma expressiva no domingo, continuaram a defender o quadro institucional de compromisso europeu a que o país aderiu há 30 anos.

 

O país assimilou, com boas razões para isso, que o PS está muito mais próximo do PSD do que do PCP ou do Bloco de Esquerda naquilo que são as opções fundamentais.

 

Entre o PS e o PSD há caminhos diferentes para chegar ao mesmo sítio. Entre o PS e os partidos à sua esquerda há caminhos diferentes para chegar a sítios diferentes.

 

 

Esperar que os partidos de esquerda possam entender-se para fazer um governo estável só porque são todos de esquerda é como achar possível uma fusão entre Benfica, FCPorto e Sporting só porque gostam todos de futebol. É impossível: o que os separa é muito mais forte do que as paixões que os podiam unir.

 

António Costa já tinha, aparentemente, resolvido essa questão, e bem, no discurso da noite eleitoral, quando rejeitou a ideia de que é possível passar por cima dos resultados eleitorais para construir uma “frente de esquerda”. Reabrir o tema e prolongar a indefinição cavará ainda mais o fosso entre o PS e o seu eleitorado tradicional.

 

Vamos mesmo brincar aos governos?

 

  • A China e as economias emergentes estão a desacelerar. A Alemanha espirra. E nós corremos o risco de apanhar nova gripe. 

 

 

 

publicado às 10:23

Não peçam votos, peçam likes. Não queiram eleitores, arranjem fãs

Por: Rute Sousa Vasco

 

Votar é tão século XX. O mais importante hoje é ser popular e o resgate da democracia é bem capaz de precisar de uma ajuda dos famosos. As celebridades, afinal, sabem bem quão importante é manter os fãs satisfeitos. A nossa vida é um grande concurso de talentos.

 

Foi descrita como ‘assustadora’ e ‘aterradora’ mas, estando ainda em fase de testes, já tem 5000 membros registados e recebe todos os dias 100 pedidos de acesso. Chama-se Peeple e é uma app para avaliar, pontuar, votar em seres humanos. Todo e qualquer ser humano, um ex-namorado, o chefe, o colega de escola ou a vizinha que encontramos no supermercado. Exactamente da mesma forma como se avaliam livros, músicas, carros. Um permanente escrutínio público dos nossos pontos fortes e fracos, como qualquer produto de consumo.

 

Apesar das críticas que choveram sobre o negócio que Julia Cordray e Nicole McCullough vão lançar em meados de Novembro, as duas empreendedoras descrevem o seu produto, simplesmente, como uma ‘app de positivismo para pessoas positivas’. Num vídeo promocional, em que Julia Cordray aparece a explicar a um potencial utilizador o que a Peeple irá fazer, a fundadora diz, positivamente, “nunca disseste às pessoas o quão extraordinário és”.

 

No dia em que estamos à beira das eleições de todas as incertezas em Portugal, apenas um dado parece consensual. É provável que a abstenção continue a aumentar. É provável que o novo governo consiga um mandato suportado por menos votos efectivos. É possível que haja mais pessoas no Facebook e no Twitter a discutir o governo, a oposição, a insuportável política do que pessoas a expressar votos em partidos. É quase inevitável que sejamos liderados por uma minoria de votos expressos, sejam quais forem os cenários de governabilidade. Isto é igualmente assustador e aterrador.

 

Estamos na era dos narcisos. Todos nós, uns (claramente) mais que outros. A popularidade é uma obsessão. Ter likes, ter fãs, ter comentários, ter shares é muito mais importante na vida de cada um do que ir votar – anonimamente – num determinado partido – de pessoas que não se conhece – e … sem nenhuma gratidão. Nem um comentário público – ‘obrigadinha Zé, pelo teu apoio, foi importante para mim, pá!’, nada.

 

Estamos fascinados com rankings, votos, quem sobe e quem desce, com números que traduzem a nossa popularidade, sociabilidade, escalabilidade. A tecnologia materializa, às vezes bem, às vezes menos bem, tão somente isso. As pulsões humanas, aquilo que nos faz correr. Foi por isso que os investidores adoraram a Peeple. Quanto adoraram? Adoraram em 7,6 milhões de dólares. É quanto merece de crédito uma ideia que, basicamente, põe pessoas a dar pontos a outras pessoas e a dizer coisas sobre outras pessoas. Publicamente. Sem que possa ser removido (ainda que possa ser questionado no prazo de 48 horas pós-publicação. Ena!).

 

Este é o novo palco da opinião pública. Estas são as suas ferramentas. Estes são os seus interesses. ‘Facebookizamos’ a nossa existência. Agora ‘Amazonazamos’ as nossas relações com os outros também.

 

Talvez por isso tenha sido tão mais importante fazer tracking polls diárias do que campanhas pró-voto. Tenho muitas dúvidas sobre o contributo para a cidadania de ter umas eleições transformadas num jogo de futebol (quem está a ganhar, quantos há? quantos há?). Tenho bastantes certezas sobre a dificuldade, cada vez maior, de fazer ouvir um discurso sério sobre democracia, eleições, o valor do voto. E é por isso que, ironias à parte, devíamos todos aprender alguma coisa com a tecnologia. Afinal ela só nos mostra o que as pessoas andam – realmente – a pensar e a querer fazer.

E é isso que, com inteligência e sentido de cidadania, talvez ainda possa salvar a democracia.

 

Power to the people.

 

Tenham um bom fim-de-semana!

 

Leituras sugeridas

 

 

E porque falamos de democracia e abstenção, fica a recomendação de leitura do artigo da Marina Costa Lobo, no Público. Diz assim: “A verdade é que no século XXI em Portugal, houve apenas uma eleição em que a abstenção diminuiu: tratou-se da eleição de 2005 – ano da primeira e única maioria absoluta do PS, em que “apenas” 35,7% dos portugueses não votaram, enquanto na eleição anterior, em 2002, esse valor tinha sido 38,5%. Fora 2005, a abstenção tem vindo sempre a subir neste novo século. Em 2009, atingiu 40,32% e em 2011 chegou ainda um pouco mais alto, ficando nos 41,97%.”

 

“É dos teus olhos”, dizemos condescendentes, mas de ego cheio quando alguém nos elogia a beleza. É mesmo dos olhos de quem vê, confirma a ciência. A avaliação da beleza é individual e intransmissível, depende da história de cada um de nós, das suas experências, e não da sua genética. É o resultado do estudo dos psicólogos Laura Germine e Jeremy Wilmer que o El País nos dá a conhecer.

publicado às 09:21

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