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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Agora, é preciso governar

Por: António Costa

 

 A coligação ganhou as eleições, o PS perdeu. É este o ponto de partida que precisa de ser aceite por todos – e pelos vistos nem todos o aceitam – para ser possível a formação de um governo que tem de ter no Parlamento as condições de governabilidade equiparadas àquelas que os portugueses lhe deram nos votos. Para garantir que o novo governo acaba o que o anterior começou.

 

Nesta campanha eleitoral, falou-se muito de promessas – António Costa, então, prometeu tudo a todos – e falou-se pouco ou mesmo nada das reformas estruturais que o país continua por fazer, a começar pela do Estado que ficou na gaveta de Portas.

 

Hoje, com uma vitória clara da coligação - os portugueses, afinal, aprenderam mesmo a lição - é preciso ultrapassar a discussão partidária. A não-demissão de António Costa e as vitórias morais dos que reclamaram uma maioria de esquerda, ao género do golpe de Estado parlamentar, não ajudam a focar o país naquilo que, a partir de agora, é preciso pôr na agenda das prioridades. Ainda ontem, antes do discurso de não-derrota de Costa, os cenários estrambólicos em cima da mesa davam para tudo, e antecipavam o caos.

 

O Governo vai ter de aprender a negociar mais do que aquilo que fez nos últimos quatro anos, Passos vai ter de mostrar a habilidade política que demonstrou a negociar com Portas nas negociações e nos compromissos com a oposição, leia-se, com o PS. Com António Costa, que perdeu uma oportunidade para sair com dignidade e agora vai embrulhar-se em guerras internas imprevisíveis.

 

Da confusão do discurso final de Costa – uma síntese da confusão que foi a sua própria campanha – só se salvou a ideia de que o PS não estará disponível para assaltar o poder a todo o custo, para fazer alianças com aqueles que não querem o regime político e económico e social em que vivemos. Do mal, o menos. Seria o desastre para o PS, a sua ‘pasokização’, mas seria ainda pior para o país. E isso permitiu também olhar para o dia seguinte com uma ideia de maior estabilidade face àquela que se temia. Ou de menor instabilidade. Pelo menos, a coligação tem um prazo de validade até ao orçamento de 2017. Depois, logo se verá.

 

O Governo tem agora de tomar posse, primeiro, levar o seu programa ao Parlamento, depois, e garantir que fecha o ano de 2015 com um défice inferior a 3%. Uma condição essencial para, logo depois, apresentar o primeiro orçamento da nova legislatura. Os mercados, isto é, os investidores, estão aí, estão a olhar para o que o novo Governo, e o novo Parlamento, vai fazer. A olhar para o défice e para a dívida pública, que resistem, para a estabilidade do sistema financeiro, que continua periclitante, para a competitividade, que tarda. E nós continuamos a precisar deles.

 

E hoje é dia 5 de Outubro, dia da República, um dia que não vai contar com o seu máximo representante, o Presidente. Cavaco Silva diz que precisa de pensar, os portugueses também já estão a pensar, mas no próximo inquilino em Belém. Quem pode ser? A sondagem da TVI/TSF e Público dão a vitória esmagadora a Marcelo Rebelo de Sousa. Mas o 5 de Outubro é do povo, e pode ser acompanhado aqui, em 24.sapo.pt.

 

 

publicado às 09:48

O mail de um eleitor

Por: Pedro Rolo Duarte

 

 Façam de conta que recebi este mail:

“Caro Pedro,

Não nos conhecemos e, talvez por isso, achei que podia desabafar consigo. É como na psicoterapia: terminada a sessão, esqueço-me do terapeuta e ele esquece-se de mim e passa ao seguinte. Tome o meu desabafo assim, apenas como o testemunho de um eleitor comum, cidadão comum, perante um jornalista.

Para vos dizer, e tomo o Pedro como mensageiro para a sua classe, que vocês, jornalistas, não têm feito um bom trabalho. Falo por mim. Quando a pré-campanha começou eu não sabia em quem votar, nem tinha a certeza de ir votar. O voto em branco era o mais provável. Passei as passas do Algarve nos últimos quatro anos, mas ainda não me esqueci do PS nos anos anteriores. Esta memória bastaria para o tal voto em branco.

 

Mas é pior. Não me revejo nos grandes partidos, que sistematicamente me enganam desde 1975. Não me revejo nos pequenos, por não lhes dar crédito ou não terem tempo de antena suficiente para me convencer. O sistema está montado para funcionar neste vácuo… Nunca os pequenos serão grandes, nunca os grandes deixarão de o ser. Vocês, jornalistas, contribuem para que este estado se perpetue… Uma vez mais, nesta campanha, seguiram a lógica do grande espectáculo e do pequeno soundbyte.

 

Porém, acrescentaram-lhe um pequeno/grande elemento, que fez toda a diferença: as sondagens diárias, em várias frentes, e com resultados nem sempre semelhantes. Esta inovação da “corrida diária” ía dando comigo em doido: por ver a coligação governamental subir, ponderava um voto útil; por ver o PS subir, ponderava o voto em branco; por ver os pequenos partidos ganharem alguma dimensão, ponderava escolher um deles. Os meus dias transformaram-se num inferno de duvidas, num mar de interrogações, acima de tudo numa insanável certeza de que qualquer voto é, na verdade, um voto no escuro.

 

E é assim que chego a esta quinta-feira. No escuro. Sem saber de quem desconfio menos, sem saber quem me vai enganar melhor, sem saber que raio de valor tem o meu voto (até podem mais votos e menos deputados dar um governo diferente…).

 

Caro Pedro: eu sei que é mais fácil e tentador matar o mensageiro do que procurar a origem da mensagem. Há séculos que assim é. Mas sem querer ser injusto, deixe-me que lhe diga: na próxima segunda-feira, além dos berbicachos que o Prof. Cavaco Silva vai ter de resolver, talvez vocês, jornalistas, devessem obrigar-se a um trabalho de casa. Olhar para o trabalho feito e pensar um pouco sobre ele. Perceber até que ponto se deixam enredar nestas teias que os partidos tecem para se manterem à tona da água.

 

Só para acabar: eu até acho que o nosso jornalismo é livre e tem um razoável módico de independência. Mas não deixo de sentir que, por falta de dinheiro ou vontade, alinha mais vezes do que devia na tal “espuma dos dias” que nos deixa assim, às escuras, nos momentos cruciais."

 

Pronto. Imaginem que recebi um mail assim.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana…

 

As eleições na Catalunha: gosto de ler as reportagens e análises da revista The Atlantic.

 

Ainda que seja um leitor da original norte-americana, não deixo de sugerir que leiam a Esquire espanhola - um bom exemplo de uma revista que não cede à tentação dos modismos actuais. De qualquer forma, a chegada ao numero 1000 da revista mãe merece a nossa atenção. E uma saúde!

 

Os jornais espanhóis não param de experimentar mudanças, tentar conquistar leitores, não desistir da “guerra” do papel. Agora foi a vez do El Mundo, que desde há poucas semanas renovou a sua oferta editorial de domingo com dois novos suplementos (“Zen”, cujo nome diz tudo; e “Papel”, dedicado à reportagem), e a renovação de mais um (A economia no “Mercados”). Resultados a ver nos próximos meses…

 

publicado às 10:52

Ganhar é muito bonito, mas...

Por: Paulo Ferreira

 

Aos políticos em campanha exigimos, e bem, que sejam claros e verdadeiros, que não se escondam atrás da retórica para evitar dizer ao que vêm, que não prometam o que não podem ou não fazem questão de cumprir, que nos digam como e para que querem governar.

 

Pedimos as contas que medem o impacto orçamental das medidas que propõem e queremos saber com que cenário macroeconómico estão a trabalhar. Nalguns casos, até queremos saber que ministro das Finanças é que têm na cabeça e com as eleições presidenciais logo ao virar da esquina, estamos todos curiosos para saber quem vão apoiar nessa corrida.

 

Mas, estranhamente, conseguimos viver muito bem sem um dado fundamental: se ganharem sem maioria parlamentar, como pensam governar o país? Avançam para uma governação equilibrista de mínimo múltiplo comum, procurando apoios lei a lei e contando com abstenções calculistas ou interesseiras? Recusam esta luta diária pela sobrevivência e entregam o assunto ao Presidente da República? Ou vão procurar uma aliança estável com outras bancadas parlamentares? Quais?

 

A questão da governabilidade coloca-se nesta eleição mais do que nunca

 

Primeiro, porque as sondagens teimam em apontar para uma indefinição quanto ao vencedor. Há um ano os cenários eram sobre o tamanho da vitória do PS e se conseguiria ou não chegar à maioria absoluta. Neste momento, a grande surpresa será que alguém consiga aproximar-se dessa maioria absoluta.

 

Depois porque, mais do que em qualquer outro momento das duas últimas décadas, a situação do país não está para instabilidades nem incertezas políticas. Os juros baixos com que o Estado se tem financiado nos últimos meses podem acabar rapidamente se entrarmos num impasse governativo.

 

Por fim, porque a realização da eleição presidencial no início do próximo ano cria um longo período em que os instrumentos constitucionais à disposição do actual e futuro inquilino de Belém são muito reduzidos. Cavaco já não pode dissolver o Parlamento por estar no último semestre de mandato e o seu sucessor também não pode fazê-lo durante os primeiros seis meses de exercício do cargo.

 

O que é estranho é que perante esta potencial tempestade perfeita, vamos convivendo bem com o absoluto silêncio dos principais candidatos em relação às suas soluções de governo.

 

Contentamo-nos com os chavões estafados do género “não ponho outra hipótese que não seja vencer as eleições” ou “não comento cenários”. Como se a possibilidade de uma derrota fosse uma anormalidade democrática ou um programa eleitoral não fosse, no essencial, um trabalho de cenários.

 

Argumenta-se que falar sobre uma política de alianças pós-eleitorais pode ser desmobilizador dos exércitos partidários e eleitorais. A sério? Vá lá, já nem o menos astuto dos treinadores de futebol utiliza essa psicologia de algibeira. Vamos assumir de uma vez por todas que os eleitores não são criancinhas nem mentecaptos? E que até podem valorizar o realismo e modéstia que significam a admissão de uma derrota?

 

É fundamental perceber como vão Pedro Passos Coelho ou António Costa governar preferencialmente se ganharem sem maioria absoluta. Como vão fazer aprovar o próximo Orçamento do Estado? Como vai passar o programa do Governo no Parlamento?

 

Ou, em caso de derrota, se estão dispostos a viabilizar um governo do adversário e sujeito a que “linhas vermelhas” que recusam ultrapassar.

 

Sobre estas questões essenciais - relevantes também para aferir do sentido de Estado dos protagonistas - pouco ou nada sabemos. Sabemos apenas que António Costa não viabilizará um Orçamento do próximo ano do PSD/CDS, caso a coligação vença. E de Passos conhecemos há muito a sua intenção de procurar entendimentos para a reforma da Segurança Social.

 

Mas e o resto? Ganhando sem maioria como pretende governar o PS? Vai procurar entendimentos com o PCP e o Bloco de Esquerda? Ou, apesar de dizer o contrário - a tal psicologia básica do “só admito ganhar com maioria” -, vai procurar apoio ao partido que lhe está mais próximo, o PSD? Vai antes tentar entender-se com o CDS?

 

E Passos e Portas? Chamam o PS para uma trégua? Ou governam sem maioria, já que um entendimento com os partidos mais à esquerda nem teoricamente parece possível?

 

Algumas desta soluções estão tão distantes entre elas como o dia da noite. E, no entanto, são cenários verosímeis para a noite do dia 4 de Outubro.

 

Mas é na mais absoluta cegueira em relação às alianças preferenciais das duas maiores candidaturas que os eleitores vão decidir o seu voto. É lamentável, porque este é um dado essencial no contexto em que esta eleição está a decorrer.

 

E, com elevada probabilidade, na noite do dia 4 de Outubro não estaremos apenas a discutir quem ganhou e porque ganhou. Mais importante do que isso será perceber o que vai o vencedor fazer com aquela vitória.

 

Para além da campanha

 

Com a inauguração das "tracking pools" - inquéritos regulares repetidos junto da mesma amostra de pessoas para tentar aferir a evolução da opinião do universo - as sondagens estão a ser um dos protagonistas incontornáveis desta eleição. E, já se sabe, são um teste do algodão à honestidade intelectual de muita gente: se elas fornecem resultados a favor, são instrumentos sérios de avaliação do sentimento dos eleitores; se apontam para resultados desfavoráveis, são mal feitas, com amostras pequenas e tecnicamente incomptentes. À margem da espuma eleitoral é obrigatória a leitura do artigo de Pedro Magalhães, sobre a forma como tomamos o pulso à opinião pública

 

Os políticos sabem como é: a reputação demora uma vida a fazer-se mas perde-se num dia. A Volkswagen é o mais recente exemplo disso mesmo, depois de ter feito batota na medição das emissões poluentes dos seus automóveis. As multas vão ser caras mas pior do que isso é o rombo na imagem de uma das marcas automóveis mais consistentes. As culpas já estão assumidas. Agora vamos ver se temos aqui um "case study" na gestão da crise. 

 

A eleição mais importante para a Europa não é a nossa. É a da Catalunha, que se realiza este domingo. Com os independentistas à frente nas sondagens, a caixa de Pandora pode abrir-se. Não está fácil a vida em Madrid.

publicado às 09:39

Quem vai ganhar no dia 5 de outubro?

Por: António Costa

 

 Há sondagens para vários gostos e preferências, e nenhuma aponta para uma maioria absoluta da coligação ou do PS nas eleições de 4 de outubro, por isso seria de esperar que, a duas semanas das legislativas, o dia seguinte fosse também objeto de discussão. Não é. Até quando o permitiremos?

 

É claro que Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António Costa insistem na estratégia da maioria absoluta, mas no ponto em que estamos, essa retórica só os pode descredibilizar. Aos três. Simplesmente porque ninguém acredita que tal seja possível e, por isso, é tão realista como Luís Filipe Vieira e Rui Vitória anunciarem como prioridade a vitória do Benfica na Champions. Salvo uma hecatombe de um dos lados até ao dia 4, o que já se percebeu é que o dia mais importante é mesmo o de 5. Habituamo-nos a pensar no dia do voto e a ‘desligar’, mas estas eleições prenunciam outra história. E isso deveria obrigar os três líderes – e Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, sim – a dizerem ao que admitem ir.

Até agora, aceitámos candidamente que os três líderes respondam com a fórmula politicamente correta. ‘Não falámos de coligações porque queremos a maioria absoluta’, respondem quase invariavelmente. Costa foi mais longe, mas arrependeu-se, o que fala, por si, da sua consistência. Anunciou que chumbará no Parlamento um Orçamento do Estado da coligação, um orçamento que não conhece, diga-se de passagem. Passos Coelho e Portas, por seu lado, insistem em entendimentos para a Segurança Social, sim, mas percebe-se a milhas que querem dar um ‘abraço do urso’ a Costa.

Na verdade, as diversas sondagens que saíram nas últimas semanas deveriam ser suficientes para os partidos acrescentarem mais alguma coisa ao seu discurso do que o pedido de maiorias absolutas. Nas próximas duas semanas, os cinco líderes com possibilidade de participarem em governos deveriam ser massacrados até aceitarem responder à seguinte questão: se ganharem sem maioria, estão disponíveis para coligações ou para acordos parlamentares? Em que condições? Para ser justo, Catarina Martins já pôs as suas condições nas mãos de Costa. Se não responderem, estaremos na prática a passar um cheque em branco ao vencedor e depois não poderemos exigir nada, e teremos de aceitar qualquer coisa.

Para os eleitores do PS, é igual uma coligação com o Bloco de Esquerda ou com o PP? Será? No dia seguinte a uma derrota, a coligação extingue-se, ‘regressam’ o PSD e o PP, por isso, é possível antecipar várias quadraturas do círculo. Não querem saber o que Passos Coelho e Portas consideram inadmissível? Há linhas vermelhas a traçar de um lado e do outro?

Não haverá maiorias absolutas, o que torna a necessidade de estabilidade política mais premente, e mais difícil de assegurar. Mas a estabilidade política não nasce das árvores, precisa de ser trabalhada, precisa no mínimo de não ser posta em causa antes das eleições.

 

Notas:

Aí está, os gregos voltaram a dar uma vitória a Tsipras. Sim, o Syriza ganhou no início do ano com a promessa de que acabaria com a austeridade, quase levou o país à bancarrota, negociou um novo programa de ajustamento e ganhou outra vez as eleições. É difícil perceber a lógica, mesmo tendo em conta o desastre eleitoral do mais radicais entre os radicais que saíram do Syriza. A semana de negociações vai ser longa, e pode acompanhar aqui, no Financial Times, o que são os obstáculos do novo Governo (site pago).

 

Em tempo de campanha eleitoral, a leitura do livro Os predadores, do jornalista Vítor Matos, é imperdível. Como os políticos se servem do Estado, para si e para os seus, como os partidos tomam conta dos lugares da administração pública, central e local. Os predadores, com a chancela do Clube do Autor, relata a tragédia da nossa Democracia, e como um Estado pesado é sobretudo uma tentação. Leiam antes de votarem no próximo dia 4 de Outubro.

 

E nos Emmys, o que é que aconteceu? Aconteceu HBO, com 43 prémios, 12 dos quais para a Guerra dos Tronos. Na noite da televisão, muitas das séries premiadas passam nos canais portugueses. E pode saber aqui, no Sapo24, a lista dos vencedores.

 

Tenha uma boa semana, eu regresso na próxima segunda-feira.

publicado às 10:50

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