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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Alguém consegue fazer a chave espanhola?

Por: Sena Santos

Na Utopia, escrita há 500 anos, Thomas More descreve a organização política e social de uma ilha composta por 54 cidades onde funciona a igualdade entre todos. A ilha está dotada de um governo central cuja principal missão é a de repartir com equidade os recursos. Na Utopia não há pobres nem ricos, vive-se em igualdade material. O modelo concebido por Thomas More – certamente como contra-modelo de outra ilha, a Inglaterra do século XVI -  tem o pecado da uniformização, da submissão do indivíduo ao bem comum e, a par de ampla liberdade religiosa, muitas restrições nos costumes.

 

 

Thomas More ganhou lugar em dois panteões, em Moscovo e no Vaticano: Lenine proclamou-o percursor do comunismo e mandou dedicar-lhe um obelisco, ao lado dos de Marx e Engels; a Igreja Católica declarou-o em 1935 santo mártir (tinha sido esquartejado por se recusar a reconhecer Henrique VIII como chefe da igreja de Inglaterra) e, no ano 2000, João Paulo II designou-o patrono dos estadistas e políticos.

 

 

O livro, requisitório contra as injustiças sociais e políticas da Inglaterra de então, não é um tratado de filosofia política, mas a ideia de utopia passou à posteridade como ideia de ideal. Aparece nos dicionários como um sonho ou uma quimera.

 

 

Muita gente na Espanha dos últimos anos acreditou na utopia de uma sociedade melhor. Foi evidente o renovado interesse de novas gerações pela participação política e isso traduziu-se na criação de novos partidos resultantes dessas movimentações profundas na sociedade. Muitos eleitores, à esquerda como à direita ou ao centro, fartos de um sistema desgastado, acreditaram ser possível que a condução do país fosse tarefa para os melhores, gente capaz de visão com amplos horizontes, generosidade, tenacidade e valentia, como requer a tarefa de governar um país, neste caso a Espanha.

 

 

O que há para tratar em Espanha tem muito a ver com o que também importa em Portugal. A economia. A educação. O financiamento da saúde e das pensões. A salvaguarda de um Estado de bem-estar sustentável. O apoio à criação de emprego e à promoção do conhecimento e da cultura. Tanto mais. No caso espanhol há o imbróglio das autonomias, com especial tensão no caso da Catalunha, onde a escalada independentista está a ter como resposta, não a procura de harmonias mas o agravamento do conflito entre Madrid e Barcelona.

 

 

Os espanhóis votaram e decidiram pôr fim à ordem anterior, assente em dois partidos, o PSOE e o PP. Escolheram um parlamento mais plural, fragmentado, sem a hegemonia dos dois grandes partidos.  Naturalmente, esperavam que os políticos conseguissem fazer acordos e pactos, concretizando em ação a vontade dos eleitores. Os eleitores espanhóis votaram em 20 de dezembro, mas os políticos não souberam ter audácia para acordar um governo. Foi preciso voltar a votos em 26 de junho. Mas o impasse continuou, são políticos mas não conseguem entender-se, estão incapazes de imaginação para um compromisso plural no labirinto parlamentar.

 

 

Um dos novos partidos, o Ciudadanos, ainda deu uma mão ao PP de Rajoy e, acrescentado o voto de uma deputada das Canárias, chegaram assim a somar 170 lugares no parlamento de Espanha. Mas a maioria é aos 176, por isso fracassaram. Agora o Ciudadanos até já rasgou o acordo que celebrou com o PP. É facto que há uma maioria absoluta nas Cortes de Espanha, mas é de recusa: está formada pelo PSOE, pelo Podemos e por mais seis partidos nacionalistas: juntam 180 votos, ultrapassam portanto a maioria absoluta, mas só estão unidos para a recusa de um governo PP, não para formar uma plataforma de governo, porque o PSOE não se entende nem com o Podemos nem com os independentistas catalães, e o Ciudadanos ainda menos.

 

 

Assim, com a Espanha política encalhada há já nove meses, num fracasso que ninguém assume – cada um atira a responsabilidade para o outro - já está no ar a hipótese de novas eleições, as terceiras, um ano depois das primeiras, outra vez em cima do natal. É como se estivessem a esgotar os eleitores: votam, em repetições eleitorais, até ficar conseguido o arranjo que interessa.

 

 

Como alternativa a essa hipótese de terceiras eleições está em curso um jogo de pressões que passa pelas eleições autonómicas, marcadas para 25 de setembro, no País Basco e na Galiza.

 

 

No País Basco, o Partido Nacionalista Basco (PNV), com 27 dos 75 deputados autonómicos, governa através de acordos com o PSOE (16 deputados). Se o PSOE retroceder perante o provável crescimento da esquerda mais à esquerda (Unidos Podemos e Bildu), o PNV pode vir a precisar do PP para governar. Seria o bingo para Rajoy: dá apoio ao PNV no País Basco e exige em troca o voto dos 5 deputados PNV em Madrid.

 

 

O voto na Galiza também conta para o jogo nacional. A maioria absoluta no parlamento de Santiago de Compostela é atingida com 38 deputados e o PP governa com 41. A confirmação ou perda da maioria absoluta em 25 de setembro concorre para a legitimidade de Rajoy. O presidente do governo há nove meses em funções espera que esta conjunção permita fazer quebrar a intransigência do socialista Sanchez.

 

 

Rajoy parece de braços cruzados à espera do que possa vir a acontecer. Seja como for, sem a coragem de um amplo acordo político, a governabilidade de Espanha fica muito precária, em incertezas constantes.

 

 

Dos políticos espera-se que saibam mover-se e encontrar caminhos para transformar a realidade para melhor. Quando passam nove meses e não são capazes de avançar e explorar por entre a realidade e a utopia, fica-se a olhar para eles com desconfiança. O país que tinha alimentado a ilusão entra na desilusão por estarem a ser barradas as saídas e ninguém ousa fazer uma chave.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O land de Mecklenburg lá no Leste da Alemanha parece um território insignificante. Sucede que é por lá que está a terra natal da chanceler Merkel, e que foi lá que, pela primeira vez na história da Alemanha unificada, um partido populista e xenófobo, o AfD, suplantou a poderosa democracia-cristã da CDU. As frustrações e ressentimentos estão a levar a este crescendo de forças populistas. Os eleitores castigam Merkel por há um ano ela ter tomado a corajosa decisão de abrir portas aos refugiados. Merkel pode perder eleições mas colocou-se como estadista à altura da história.

 

 

Que futuro pode ter a Esquerda? Oportuna reflexão aberta pelo Guardian.

 

 

Estamos habituados a ouvir falar em “Estado de direito”. O presidente das Filipinas, Duterte, declarou o país “Estado de não direito”. A inquietação com este vale-tudo que sacrifica as liberdades fundamentais generaliza-se. Leia-se o alerta no NYT e a denúncia de um fundador da Human Rights Watch.

 

 

 As capas de duas revistas escolhidas no Sapo Jornais: a Veja vê a morte do PT, o L’Espresso confia na boa reconstrução após o terramoto no centro de Itália – mas reclama que não deixem a máfia meter mãos na obra.

publicado às 09:44

A viver no “buraco” é que nós estamos bem

Por: Paulo Ferreira

 

Entretidos em discussões rascas e estéreis entre blocos partidários já perdemos o fio ao essencial (admitindo bondosamente que alguma vez o tivemos): como saímos desta enrrascada que se vai arrastando, uma vezes melhor e outras pior, mas sem que haja uma estratégia entendível que garanta o mínimo dos padrões europeus aos nossos filhos e netos?

 

Portugal e Espanha estão no mesmo barco das sanções europeias. Com números diferentes, é certo, mas sujeitos ao mesmo procedimento e à mesma pressão de Bruxelas para que tomem mais medidas para garantir a descida do défice do Estado.

 

Mas o alarido em Espanha tem sido incomparavelmente menor do que aquele que o tema tem suscitado em Portugal. Basta ver o tratamento e destaque que os principais órgãos de comunicação social espanhós têm dedicado ao assunto para perceber isso.

 

Neste caso, a diferença entre os dois países é simples: ao contrário do que aconteceu por cá, em Espanha não houve mudança de governo e o primeiro-ministro que falhou as metas nos últimos anos é o mesmo que agora está a lidar com as consequências (embora agora em governo de gestão).

 

A partidarização da discussão política em Portugal atinge a náusea por diversas vezes e este caso é um bom exemplo disso, com infantis trocas de acusações sobre quem é o culpado ou quem fez ou não fez o que devia para evitar as sanções.

 

Muito provavelmente, as eventuais penalizações de Bruxelas serão mais simbólicas do que financeiramente efectivas. Nesse sentido, elas terão mais importância para o ordenamento europeu do que para as contas de cada país. A Comissão Europeia está a tentar dar o sinal de que acabou a violação impune de regras, prática seguida em década e meia de limites ultrapassados sem penalizações aos faltosos. A partir daqui, só faltará que todos os países em situações semelhantes mereçam o mesmo tratamento.

 

A reprimenda oficial de Bruxelas pode, de facto, ser mais um prego no caixão da credibilidade do país junto dos mercados, dos analistas, das agências de rating e dos investidores. No fundo, junto de todos aqueles de que dependemos para financiar os défices e o cumprimento das obrigações da dívida.

 

Isto e as associadas condições de competitividade que o país tem ou não tem deviam preocupar-nos bem mais do que as brigas entre o PSD e o PS, que são apenas para consumo interno da opinião pública e mercado eletoral, ou entre o Governo e a Comissão Europeia sobre a necessidade de se avançar com mais medidas este ano que garantam o cumprimento das metas.

 

Neste caso, estamos perante o clássico braço-de-ferro mediático que terá sempre um desfecho, cedo ou tarde. Foi assim com a Grécia mas também com o esboço do orçamento português deste ano, que Bruxelas recusou e obrigou a rever. Com mais ou menos ilusão na execução orçamental, esse momento da verdade chegará sempre. Se não for agora será com a apresentação do orçamento de 2017, daqui a três meses.

 

Entretidos nestas discussões rascas e estéreis entre blocos partidários e com merecidos intervalos lúdicos pelo meio, já perdemos o fio ao essencial (admitindo bondosamente que alguma vez o tivemos): como saímos desta enrrascada que se vai arrastando, uma vezes melhor e outras pior, mas sem que haja uma estratégia entendível que garanta o mínimo dos padrões europeus aos nossos filhos e netos?

 

O mercado caseiro é curto e sempre o será, por mais rendimentos que se reponham mesmo sem que se faça a pergunta sobre como se pagam essas reposições.

 

O investimento, sobretudo estrangeiro e criador de novos projectos e empregos, não aparece. Não é a mesma coisa vender empresas instaladas a chineses ou angolanos ou atrair esses ou outros para construirem de raíz a fábrica, o centro de investigação e desenvolvimento ou o entreposto comercial e logístico para a Europa.

 

A Segurança Social é uma bomba relógio com que continuamos a brincar sem que haja um entendimento mínimo sobre o que fazer. Alegram-nos os 30 ou 40 cêntimos de aumento das pensões mínimas quando o debate devia ser sobre como vão ser pagas todas as pensões na próxima década e nas seguintes.

 

Da racionalização do Estado e da despesa pública deixou de se falar porque se acha que essa é uma conversa dos loucos ortodoxos de Bruxelas ou de alegados neo-liberais. É um erro. A racionalização do Estado não é um fim, é um meio. A margem de manobra fiscal que pode ser dada para atrair investimento virá dessa racionalização. Ninguém consegue pensar e executar uma estratégia se passa os dias focado no desenrascanço e na urgência do pagamento das contas que vão chegar amanhã.

 

É deprimente ir percebendo que não aprendemos com os erros nem nos inspiramos com exemplos que podemos ir buscar a muitos outros países. O mais clássico, salvaguardando as devidas diferenças estruturais, é a Irlanda. Foi resgatada como nós. Cresceu 26% no ano passado  quando contabilizado o fluxo de investimento estrangeiro. Mas mesmo descontando esse efeito atípico, o crescimento foi de 7,8% em 2015. Porque tem um IRC muito baixo e boas condições de competitividade? Claro. Mas são eles que estão errados ou seremos nós?

 

 

Outras leituras

  • Um exemplo do desleixo reinante. O mandato de Carlos Tavares na presidência da CMVM terminou há dez meses. Mas os governos não quiseram, não conseguiram ou não acharam prioritário até agora escolher e nomear um sucessor. Além do desrespeito pessoal, o que fica é o absoluto desprezo pelas instituições e pelo seu regular funcionamento, pelas condições dadas para definir e executar estratégias. Uma vergonha.
  • António Guterres na ONU seria, provavelmente, a pessoa certa no lugar certo. Menos bem remunerado, certamente, mas muito mais prestigiante do que um lugar no Goldman Sachs.

 

 

publicado às 11:45

O passado é sempre imprevisível

Por: Rute Sousa Vasco

Só mesmo os desatentos podem pensar que afinal está tudo na mesma. Nesta segunda-feira, dia 13 de junho, Espanha assistiu ao debate entre os quatro principais candidatos às eleições de 26 de junho. Rajoy, Sánchez, Rivera e Iglesias. Um debate que contou com uma audiência de 10 milhões de pessoas e que, de acordo com os analistas, se tornou tanto mais relevante quanto maior é percentagem de indecisos, 32,4%, segundo o El Pais.

 

O debate visto pelos olhos de uma portuguesa, esta portuguesa, teve várias notas dignas de registo.

 

A primeira, mesmo que seja do timbre espanhol, é a capacidade de chamar os bois pelos nomes e de não temer o confronto. Assim se ouviu, a título de exemplo, que Rajoy, líder do PP, enviou SMS de conforto ao tesoureiro do seu partido, figura central numa investigação de financiamentos ilegais e alegado detentor de contas paralelas de milhões de euros em bancos na Suíça; assim se ouviu que Iglesias, líder do Podemos e crítico do enfeudamento dos partidos à banca, obteve financiamento da Venezuela de Hugo Chávez. As palavras são ditas, sílaba a sílaba. A indignação, que tão precioso apanágio é da classe política, manifesta-se, mas fica dito e registado.

 

A segunda nota é a forma como os números se tornaram a mais potente arma de arremesso. Foi um debate cheio de números: do défice, do desemprego, das pensões, do investimento. Todos os candidatos os tinham e todos os manejaram a seu bel-proveito. É evidente a forma como estes anos da crise europeia nos afectaram a todos – e Espanha, mesmo sem troika, não é excepção. Hoje é fundamental fazer a pergunta: como quero que seja usado o dinheiro dos meus impostos? Os cidadãos estão, finalmente, a perceber que o dinheiro do Estado é o seu dinheiro e que por isso não só têm uma palavra a dizer como contas a pedir a quem gere. A parte perigosa desta evolução de cidadania é o seu excesso, nomeadamente nas mãos de políticos e gabinetes experientes na arte do excel. Um número em si mesmo não contém uma verdade absoluta. Muitos números jogados para cima das pessoas podem simplesmente tornar qualquer verdade invisível.

 

A terceira nota é a naturalidade com que Espanha já assimilou uma efectiva mudança de moldura política. No debate a quatro estiveram dois nomes impensáveis há cinco anos: Rivera, dos Ciudadanos, e Iglesias, do Podemos. Lado a lado com os líderes vamos chamar-lhes clássicos, Rajoy, pelo PP, e Pedro Sánchez, pelo PSOE. Não foi por acaso que alguns dos momentos mais agudos do debate foram protagonizados, respectivamente, por Rajoy/Rivera e Sánchez/Iglesias. Em Espanha, não se discute apenas uma eleição. Discute-se a evolução da espécie – lá como, aliás, no resto do mundo.

 

De resto, a vida em Espanha sigue corriendo. A noite de Madrid continua animada, o Museu do Prado tem polícias armados com metralhadoras à porta e, mesmo nos hóteis mais estrelados, continua a ser difícil encontrar espanhóis a falar inglês (aliás, esta é uma proposta de Pedro Sanchez, o ensino obrigatório do inglês … Espanha, em 2016). É também a Espanha que ao sábado e domingo continua a ter jornais que fazem justiça ao ideário de ‘leitura de fim de semana’. Sabe bem um café prolongado com muitas páginas para desfolhar num El Pais ou El Mundo, mesmo que seja só ao fim de semana.

 

Há cinco anos, a Porta do Sol em Madrid era um acampamento de Indignados. O Podemos nasceu deste movimento. Há uma semana, alguma Espanha, nomeadamente a mais conservadora, indignava-se porque o líder do Podemos decidira reintroduzir a palavra ‘pátria’ no debate politico (com o slogan La patria eres tú). De quem é a pátria afinal, nestes tempos perigosos, em que voltamos a debater conceitos que são velhos conhecidos e nem sempre por boas razões?

 

Muitos diziam que nada ia mudar, tudo iria passar. Cinco anos é muito pouco tempo. Mas quando se olha para trás e se recordam algumas análises, é tentador recordar que não só a História é escrita pelos vencedores, como, para quem pode impor a ‘sua’ História, o passado é sempre imprevisível – ou pode ser aquilo que se quiser.

  

Tenham um bom fim de semana

  

Outras sugestões de leitura:

 

Por estes dias e até setembro, ir a Madrid e não ver a exposição dos 500 anos de Bosch no Museu do Prado é como ir a Roma e não ver o Papa. Recomenda-se a exposição, atenção às marcações prévias (é boa ideia fazê-las) e já agora fiquem também com um texto de opinião que fala do PSOE e do Jardim das Delícias.

 

Menos jornalistas, mais redes sociais, menos receita, mais bloqueadores de publicidade. Como estamos a consumir as notícias, que regras aceitamos por boas, como se paga a informação, são algumas das questões fundamentais no sector dos media hoje. A ler o último relatório do Reuters Institute.

publicado às 11:47

António Costa, árbitro ou jogador?

Por: António Costa

 

António Costa meteu as mãos na massa. Leia-se: o primeiro-ministro é um dos participantes ativos na nova configuração do sistema bancário nacional, no futuro do Novo Banco, do BPI e do Millennium bcp, o que nos faz recordar outros tempos, não tão distantes, em que a intervenção do Governo na ‘coisa privada’ deu péssimos resultados. Porquê? Porque está a fazê-lo da pior forma.

 

A discussão já é inevitável - estamos ou não a caminho da ‘espanholização’ da banca portuguesa? Portugal é ou não mais uma província espanhola aos olhos do BCE, que manda no Banco de Portugal? E o que é que isso impacta na economia e nas empresas portuguesas?

 

A resposta à primeira pergunta é afirmativa. A banca portuguesa corre o risco de ficar dividida entre o banco público, a CGA, e bancos comerciais controlados por Espanha. Há o terceiro setor, onde podem encaixar o Montepio e a Caixa Agrícola, e uma espécie de banco, o IFD, mas não têm o mesmo peso nem capacidade para financiar as empresas e a economia em geral. Além disso, as novas regras de supervisão europeia, a própria união bancária, são um incentivo à criação de grandes grupos na Europa, e o BCE prefere, claro, falar e acompanhar meia dúzia de grupos a partir de Madrid para toda a Península Ibérica.

 

Portugal, é preciso dizer, beneficia muito de ter bancos como o Santander, e precisa de instituições com aquela solidez e fôlego financeiro. Sem ‘mas’. Pressionam a concorrência no crédito aos melhores clientes, sim, e até funcionam como fator de melhoria das contas das empresas, por causa de um regime de avaliação de risco mais exigente do que aquele que é realizado por outras instituições. Agora, também é preciso acrescentar que o Santander tem em Espanha – porque é o seu país – uma estratégia de risco mais próxima da que têm hoje em Portugal bancos como a CGA, o Millennium bcp ou até o Novo Banco.

 

Como é evidente, o problema de endividamento das empresas portuguesas não deve ser assacado à banca, apesar de tantos erros cometidos ao longo de anos, por boas e más razões. É o que é, e que o programa da troika não resolveu. Esta é uma das raízes do problema, o que faz com que tantas e tantas empresas não tenham acesso ao financiamento, menos ainda ao do Santander, para citar o caso mais óbvio. O problema é que a economia portuguesa é a que é, é esta, não é outra. E não vai mudar de um dia para o outro, nem com um choque de risco da banca espanhola.

 

É por isso desejável que haja concorrência entre acionistas que controlam a banca, é desejável que os diversos bancos, dentro do que deve ser uma política de concessão de crédito rigorosa – com base nos depósitos dos clientes que lhes confiam as suas poupanças – procurem mercados e segmentos diferentes. É o que sucede quando há acionistas que controlam as decisões a partir de Madrid ou a partir de Luanda ou de Pequim. E, desejavelmente, de outras capitais internacionais.

 

A questão de Espanha coloca-se, em primeiro lugar, porque não há capital português e isso não se resolverá com manifestos, por mais bondosos que eles sejam. Também não pode ser o Estado a substituir capital nacional privado, já agora; convém que os governos saibam o que querem fazer com a CGD, o que é difícil de perceber. Portanto, o que estamos aqui a discutir é se é desejável capital estrangeiro além do espanhol na banca portuguesa. É, e muito.

 

Qualquer cidadão perceberá que a autonomia de decisão de um presidente de um banco em Lisboa é diferente se responder a Madrid ou a Luanda, se responder a acionistas espanhóis ou a acionistas de outras paragens, europeias, africanas ou asiáticas. É isso que está em causa, e é isso que um Governo deve definir estrategicamente. Não mais do que isso. Porque, no final do dia, o que conta é o capital, ou é isso que deve contar, e a qualidade da gestão.

 

Quando António Costa abriu a porta a envolver-se diretamente na decisão do Caixabank de controlar o BPI a qualquer preço, ou melhor, sem pagar o devido preço, meteu-se onde não deveria. Ainda há poucas semanas, o Governo admitia legislar à medida dos desejos e necessidades de um acionista espanhol contra um acionista angolano. É esse pecado original, o alinhamento com uns contra os outros, que levou Costa à posição em que está hoje. Não só árbitro, mas jogador.

 

 

ESCOLHAS

 

O mundo não está perdido, apesar do que se lê, vê e ouve. Ainda. Um presidente americano aterra em Cuba ao fim de 88 anos. Barack Obama faz uma visita histórica de três dias com um alcance geopolítico que vai muito além de Cuba e do seu futuro. Com um slogan, o da esperança. Para passar de slogan a realidade, o sucessor de Obama vai ter um papel decisivo. O regime cubano tem mais de 50 anos, o embargo comercial dos EUA a Cuba continua em vigor e há uma parte dos americanos que ainda não está convencida da bondade dos líderes cubanos. Mas Obama fica para a história, que não será a mesma a partir de agora. Acompanhe aqui, no Sapo24, os pormenores desta ‘missão’.

 

E quando a igualdade do género está em tudo, na igualdade de oportunidades e na igualdade das remunerações, surge uma voz, masculina, a assumir uma posição divergente. Citado pela BBC, o número um do ténis mundial, Noval Djokovic, questiona a igualdade de ‘prize money’ nos circuitos masculino e feminino. Porquê? Porque os homens levam mais espetadores aos courts e geram mais publicidade. As reações não se vão fazer esperar mas, antes de respostas precipitadas e emotivas, fica a pergunta: quem ganha mais no mundo da moda, as mulheres ou os homens? Nestes casos, provavelmente, a questão não é de género, desde que homens e mulheres tenham as mesmas condições de partida para mostrarem as suas competências.

 

publicado às 11:10

O salto espanhol no quase desconhecido. Ou como a Espanha pode tornar-se um imenso Portugal

Por: Francisco Sena Santos

 

A vontade que os cidadãos têm de mudança impôs, no espaço de 75 dias, a reviravolta no mapa político ibérico. Portugal, em 4 de outubro, e Espanha, em 20 de dezembro, colocam a península como um laboratório de experiências políticas inovadoras para a esquerda europeia. Os espanhóis, que se mobilizaram para votar (assinalável afluência de 73%), deram quase nove milhões de votos a partidos emergentes: 5,2 milhões a Podemos, 3,5 milhões a Ciudadanos. Estes dois partidos recolheram um terço dos votos entrados nas urnas espanholas e colocaram a Espanha dentro de um labirinto à procura de novas saídas políticas.

 

As eleições espanholas deste domingo apontam-nos 10 constatações relevantes:

 

1. A esquerda recuperou muito da representação que em 2011 tinha perdido para a direita. Há quatro anos, o PP alcançou 186 deputados e ficou com a folga de 10 eleitos dentro da maioria absoluta (176), perante 110 deputados do PSOE. Agora, as duas partes políticas aparecem quase igualadas: o somatório da metade direita, formada por PP e Ciudadanos, vale 163 deputados, 10,7 milhões de votos e 42,65% dos sufrágios, enquanto a metade à esquerda, com PSOE, Podemos e Esquerda Unida soma 161 deputados, 11,6 milhões de votos e 46,34% de todos os votos. A direita está a 13 deputados da maioria absoluta e a esquerda a 15. A direita parece mais perto mas a esquerda tem cenários mais plausíveis, à cabeça com os reforçados partidos nacionalistas da Catalunha e do País Basco.

 

2. Para além do ajuste que empata esquerda e direita, verifica-se que o princípio de vasos comunicantes funciona dentro de cada bloco ideológico na transferência de voto dos partidos tradicionais para os emergentes: o colapso de votos sofrido pelos dois partidos que eram hegemónicos é acompanhado pela poderosa subida dos novos partidos: o PP perde 63 deputados mas Ciudadanos surge com 40; o PSOE cai 20 deputados mas Podemos irrompe com 69.

 

3. Podemos, o partido nascido há dois anos e meio a partir do movimento de cidadãos indignados, é o grande ganhador nestas eleições: parte do nada em 2011 para captar agora 20,7% dos votos e, com 69 deputados, irromper no parlamento com a força de um vendaval. Quase metade do voto à esquerda em Espanha preferiu Podemos ao PSOE. Podemos é o primeiro partido na Catalunha e o segundo em Madrid, Valencia, Galiza, País Basco, Navarra e Baleares.

 

4. Ciudadanos também é um ganhador mas sofre a decepção de falhar a ambição de aparecer como alternativa. As sondagens chegaram a colocar este partido liberal no segundo lugar das preferências espanholas tornam modesta a representação em quarto lugar, com apenas 13,9% dos votos e 40 deputados. Ciudadanos perde o duelo com o rival Podemos e não consegue encostar-se ao PSOE. Albert Rivera fracassa ao não conseguir ter nas mãos a chave da governabilidade. Muito abaixo das expectativas.

 

5. O PP é o partido mais votado mas tem uma vitória tão curta que faz dele um perdedor. Após quatro anos de governação, apesar da propagandeada retoma da economia mas que não chega para vencer o desemprego e tirar muitos da pobreza, o PP cai de 44,05 para 28,71 por cento. Teve 10,8 milhões de votos em 2011, somou agora 7,2 milhões. Ao perder 3,6 milhões de votos e 15 pontos percentuais sofreu um descalabro mais devastador que o da coligação PSD/PP em Portugal, que nos mesmos quatro anos perdeu 12 pontos percentuais. Valência, governada pela esquerda, agora deu o primeiro lugar a Rajoy que também ganhou no feudo madrileno.

 

6. O PSOE baixa mas aguenta-se e ganha às sondagens. Perde milhão e meio de votos ao receber apenas 5,5 milhões de sufrágios, mas as sondagens anunciavam risco de maior descalabro. Beneficia da baixa expectativa em volta do momento do partido e da sua liderança. Pedro Sanchez também beneficia da posição privilegiada de – tal como aconteceu com António Costa, em Portugal – ser o único líder que pode proporcionar ao PP um pacto para governar (parceria que o PSOE parece excluir) e ao mesmo tempo poder liderar uma convergência de esquerdas e nacionalistas para formar governo em Madrid (cenário que tem algumas possibilidades de vir a ganhar impulso). O PSOE confirma-se como partido dominante na Andaluzia, mas é terceira força na Catalunha e quarta em Madrid.

 

7. Os independentistas catalães entram de rompante nas Cortes de Espanha: passam de 3 para 17 deputados. A radical Esquerda Republicana (ERC) passa de 3 para 9 deputados e os centristas dos Democratas Liberais (em guerra política total com o PP) somam 8. São 17 deputados dispostos a negociar soluções com a esquerda (mas o PSOE é inflexível com os independentistas) e que barrarão o caminho à direita.

 

8. Os bascos escolheram Podemos como a força mais votada, mas só conseguiu eleger cinco deputados, enquanto os centristas PNV com menos votos elegem 6 deputados. Estes seis deputados também podem ser decisivos para o jogo de maiorias em Madrid. A esquerda extremista EH Bildu perde 5 dos 7 deputados que tinha em Madrid, o que também mostra que os vestígios da ETA chegam ao fim. O PSOE segura três deputados e o PP dois no País Basco.

 

9. A coligação comunista Esquerda Unida (IU) fracassa ao cair de 11 para apenas dois deputados, ambos eleitos por Madrid. O líder Alberto Garzón queixa-se da lei eleitoral que leva a que, apesar de com um milhão de votos em toda a Espanha, a IU só eleja dois deputados.

 

10. O voto negativo tende a ser determinante nas novas Cortes de Espanha. Este quadro mete num labirinto a formação do próximo governo em Espanha: o PP é o partido com mais deputados mas enfrenta o muro de 176 votos negativos (90 PSOE+ 69 Podemos + 17 independentistas catalães) que torna inacessível a maioria para governar.

 

É assim que o PSOE está no fulcro das soluções: tanto pode resolver tudo numa grande coligação com o PP (cenário altamente improvável), como pode tentar formar uma coligação de esquerdas com nacionalistas mas, neste caso, há linhas vermelhas que não parecem, por agora, ultrapassáveis. Mas não é de excluir que a Espanha venha a tornar-se, no quadro político, um enorme Portugal. Também não será uma surpresa se os espanhóis voltarem a votos já dentro de alguns meses e com mudanças na liderança dos partidos tradicionais, sobretudo no PP. Por agora, há ilusão, entenda-se ânimo novo, entre muitos que andavam desapegados da discussão de ideias para o governo de Espanha.

 

Para consulta dos resultados eleitorais em Espanha, clicar aqui.

 

Também a ter em conta:

 

Quem responde pelo naufrágio Banif? Para compreendermos o enquadramento do desastre tão anunciado quanto adiado, é útil ponderarmos esta opinião de José Vítor Malheiros. Tal como esta análise de Francisco Louçã e esta de Bagão Félix. Também esta, de Nicolau Santos. A propósito de Nicolau Santos, há que conhecer talentos artísticos do jornalista especializado em economia: “O meu país já não existe” é um apetecível CD de poesia com música jazz e a voz, tal como muita da poesia, dele, Nicolau Santos. Já agora: viva o analista que leva todas as semanas poesia para a sua página de comentário económico no Expresso!

 

A genética dá-nos respostas para a compreensão dos mecanismos da inteligência humana? Será possível intervir para melhorar capacidades? Esta investigação é para ser seguida.

 

Hillary Clinton tem a passadeira colocada para daqui a 11 meses ser eleita presidente dos Estados Unidos da América? A oposição republicana, com postura dominante tão absurda, parece estar a facilitar a caminhada.

 

Um incêndio devastou ontem o edifício centenário da Estação da Luz, em São Paulo, no Brasil, onde estava instalado o excelente Museu da Língua Portuguesa. O arquiteto Pedro Mendes da Rocha, que com o pai, Paulo, projetou todo este espaço cultural já avançou que vai ser possível restaurar tudo. Este tema domina a primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS. É preciso recuperar o Museu da Língua Portuguesa e que bom seria que ele tivesse uma extensão em Lisboa.

publicado às 08:40

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