Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

A guerra que vem do deserto para as cidades. E que vai ser longa.

Bruxelas está a sentir, por causa do terrorismo, a ameaça de viver em semiliberdade. Temos de ponderar se esse é um preço que estaremos dispostos a pagar pela nossa segurança. Seja como for, há que combater quem ataca a nossa liberdade.

No dia de abril de 2013, quando uma criatura nos seus 40 e poucos anos, com ares de inflamado guerreiro religioso, que usa o nome de Abu Bakr al Baghdadi, se autoproclamou emir e anunciou a criação de um “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”(EI), poucos o terão levado a sério. Muitos até teremos troçado quando ele falou da reconquista do Mediterrâneo, com a intenção de tomar tudo até ao Al-Andalus, portanto com o atual Algarve incluído. O Al-Andalus tinha em Silves, na Taifa de Silves, no século XI, o seu emirato mais ocidental.  

 

Lembro-me de nessa ocasião da proclamação do EI ter lido um livro fascinante sobre o nosso passado árabe há dez séculos. O livro é escrito por uma investigadora em estudos islâmicos, Pilar Lirola, e tem por título Al Mutamid, El Esplendor del Reino de Sevilla (edição do Instituto de Cultura e Artes de Sevilha, de 2012). Trata a figura desse monarca, Al Mutamid, que se tornou um mito, não apenas por conseguir a extensão dos seus domínios, herdados do Califado de Córdova, de Múrcia até Silves, mas sobretudo por converter a sua corte em magnete para sábios, literatos, músicos e, especialmente, poetas. Ele, Al Mutamid, para além de guerreiro que a lenda diz ter sido fino com a espada, também era poeta, chegou a viver em Silves e até lhe dedicou um poema. Eram tempos de esplendor árabe no que é hoje o Algarve. Os relatos sugerem o culto de valores e prazeres muito opostos ao deste tal Baghdadi de agora.

 

Sabemos de Baghdadi que este clérigo guerreiro fez nome em 2010 pelo modo como enfrentou as tropas dos Estados Unidos no Iraque. Era a época em que a Al Qaeda começava a dissolver-se em múltiplos grupos e grupúsculos cujo nome parece ter sido cozinhado numa sopa de letras do terrorismo. Baghdadi tinha chefiado um braço iraquiano da Al Qaeda, mas, como descreve Rania Abouzeid na grande reportagem The Jihad Next Door, os planos dele eram muito mais ambiciosos: emergir como terrorista global em nome do califado e partir do controlo do Iraque e da Síria para fazer realidade a utopia de um vasto estado islâmico.

 

Baghdadi capitalizou, a partir de 2011, a queda das tiranias militares do Médio Oriente (derrube de Saddam e de Kadafi, debilidade de Assad), que instalava a anarquia no vazio de poder. Armado com um exército aguerrido consumou, em maio de 2014, a conquista de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque (milhão e meio de habitantes). No mês seguinte tomou Raqqa, na Síria. O mundo compreendeu então, brusca e brutalmente, que a ameaça do EI é mesmo para levar a sério. Estava criado um santuário terrorista num território com tamanho grande como o das ilhas britânicas. A fúria do EI passou a mover-se por um terço do Iraque, talvez mais de metade da Síria e chegou aos confins da Turquia. A Líbia, fogueira de instabilidade, parece à mercê. O EI controla um território com cerca de seis milhões de pessoas que submete à sua doutrina.

 

A campanha mediática é essencial para o êxito de Baghdadi. Ele é hábil a usar tecnologias sofisticadas do século XXI, explora as redes sociais para propagar o seu desejo de nossa regressão arcaica e a sede que tem de poder e de mal. Conquista adesões e amedronta os inimigos ao difundir através da internet as suas atrocidades, sequestros, execuções e decapitações. A ofensiva do líder do EI desenvolve-se em torno de três eixos: para além da comunicação com vídeos eficazes, o controlo do território com abundantes poços de petróleo que lhe asseguram financiamento farto e a progressiva expansão do desafio jiadista para novas frentes, da Nigéria à Tunísia, do Paquistão ao Mali, da Argélia ao Líbano, do Iémen ao Egito ou Somália. E avança no desafio mais perverso, o de incutir o medo em nós, que na Europa nos julgávamos fora da ameaça terrorista. Os últimos dez dias em Paris e Bruxelas despertaram-nos para Bamako e outros lugares onde milícias jiadistas repetem matanças. Milhares de mortos e centenas de escolas fechadas pelo terrorismo na África Central - e nós quase nem ligamos a essas notícias.

 

O “Estado Islâmico” de Baghdadi, embora, como escreve Luis Bassets, não possa ser reconhecido como um Estado nem deva ser considerado islâmico, deseja uma sociedade retornada a um passado asfixiante. Prevalece a leitura anacrónica do Corão desgraçadamente instalada no século XVIII por Mohamed Wahab, o teólogo saudita que aplicou o dogma da sharia e introduziu um islão rígido e integrista. É uma versão que tem praça forte na Arábia Saudita. Vem a propósito olhar para a construção desta sociedade e deste país. Tudo muito bem relatado em vários livros, por exemplo The Rise, Corruption and Coming Fall of the House of Saud ou A Brutal Friendship, ambos de Said K. Aburish (livros publicados por St. Martin’s, NY).  

 

Neste caso da Arábia Saudita tudo começa com Abdelaziz Ibn Saud (1876-1953), definido por Aburish como “um déspota tão brilhante quanto diabólico”. É o chefe que em 1932 fundou, a partir de uma tribo guerreira que esmagou as rivais, um país que, em consonância com a realidade daquele poder, adota o nome da família: Arábia Saudita. Os reis sauditas costumam procriar com fartura – o fundador da dinastia, o tal Ibn Saud teve 44 filhos das 22 esposas oficiais - e assim preservam a continuidade do clã, embora por entre golpes palacianos.

 

A família Saud dirige, geração após geração, os ministérios e empresas principais não só no país como em muito do Ocidente mais rico. A fortuna jorra do dinheiro do petróleo que permite a uma tribo do Médio Oriente ter-se tornado um colosso de riqueza. Imagina-se que Baghdadi aspirará a um destino semelhante para o seu califado. Os sauditas têm gozado a complacência ocidental perante os fundamentalismos supostamente puritanos daquela sociedade que, entre outros abusos, submete as mulheres. Espera-se que a Baghdadi lhe seja barrado o caminho. Obviamente não basta, nem de perto nem de longe, para nos livrar da ameaça terrorista. Mas é um bom avanço para travar uma guerra que veio do deserto para as cidades e que tende a ser longa. Desconstruir a jiad obriga a estabilizar muitas vidas. Vai dar-nos um trabalhão para defender a nossa liberdade plena.

 

Também a ter em conta:

 

A multiplicação do perigo jiadista reforça o alto risco da visita de cinco dias, já a partir de amanhã, do Papa a três países de África: Quénia, Uganda e República Centro-Africana. Neste tempo de incertezas vale ouvir a palavra de um Papa que é um pastor revolucionário.

 

Na Argentina, um novo partido surge e chega ao poder. O liberal Macri está eleito presidente e as forças de oposição na América Latina, da Venezuela ao Brasil rejubilam com a viragem à direita. Estará a começar uma reviravolta conservadora no continente?

 

Há cinco equipas treinadas por portugueses que estão bem colocadas para entrarem no seleto clube das 16 melhores na Champions do futebol europeu. Mérito para André Villas-Boas, Marco Silva, Rui Vitória, José Mourinho e Nuno Espírito Santo.

 

Que guerra será esta? A escolha de hoje entre as primeiras páginas no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:03

Que forças temos para enfrentar esta ameaça?

Por: Francisco Sena Santos

 

 Os bárbaros do “Estado Islâmico” (EI), de facto um bando de criminosos que se autoproclama califado e que controla um território com o tamanho das ilhas britânicas, não gostam que a gente se divirta, ria e cante e dance em bares. Era só o que faltava cedermos, seja na mais romântica capital europeia ou onde quer que seja, perante a sua ameaça. Mas também é necessário que os Estados democráticos estejam fortes e competentes para defender os seus cidadãos, ou seja, para nos defender.

 

Armaram-nos uma guerra, é um facto. Também é inquestionável que há que ir lá onde eles estão e destruir-lhes as bases para esse poder terrorista. Mas, mais ainda do que bombardeamentos, são necessários 007 que saibam infiltrar-se no inimigo, antecipar as ações terroristas em preparação e desmontar a cadeia do terrorismo. Esta é uma cadeia com muitos elos e demasiadas ambiguidades.

 

Esta guerra tem no lado inimigo, para além dos soldados, os guerrilheiros urbanos, adormecidos, que são matadores à espera de ordem para atacar, e que estão no meio de nós. A monstruosa chacina da noite de 13 de novembro está a mostrar como o bairro de Molenbeek, em Bruxelas – fica a uns minutos da Grand Place – aparece como um viveiro de terroristas. É um bairro que tem quarteirões tranquilos e outros com má reputação, droga, delinquência, islamismo radical, que não é seguro percorrer. Vivem hoje em Molenbeek umas 100 mil pessoas, grande parte formada por segundas e terceiras gerações de emigrantes de África e do Médio Oriente. A taxa de desemprego está acima dos 30%, sendo que ultrapassa os 40% para os jovens. É gente que vive no limbo, estigmatizada.

 

Sabe-se que há ali, camufladas, várias mesquitas com imãs fanáticos que alimentam a propaganda contra o modo de vida dos europeus, a quem chamam cruzados. São imãs fundamentalistas que facilitam nesses santuários o recrutamento dos que são educados para nos destruir, inclusive através do sacrifício kamikaze. Não esqueçamos que muitos comunicados do “EI” terminam com a proclamação “vocês vão perder porque nós amamos a morte mais do que vocês amam a vida”. Progressivamente, o espaço público, em França como na Bélgica e em Inglaterra, foi sendo ocupado por franjas do Islão em deriva sectária, gente que foi puxada para um modelo de sociedade ao mesmo tempo retrógrado e violento.

 

Fica evidente que a par da chamada intelligence, espécie de 007 infiltrados entre os que estão em deriva radical no meio de nós, é vital, para responder a este muito complexo desafio, a ação política e cultural. Não só para explorar hipóteses eficientes de integração e convivência mas também para valorização do nosso agora tão desqualificado sistema democrático. 

 

A desvalorização quotidiana da vida política, aqui como em quase toda a Europa, é destrutiva. Faz o jogo do inimigo. Falta-nos quem apareça com audácia à altura das aspirações, é uma queixa que todos repetimos. Bem andou o presidente François Hollande ao proclamar, ontem, no discurso de resistência e de guerra perante o Congresso, em Versalhes, que, nas atuais circunstâncias “le pacte de sécurité l’ emporte sur le pacte de stabilité”, ou seja: o pacto de segurança dos cidadãos sobrepõe-se ao pacto europeu de estabilidade. Aí está uma recomendação essencial aos dirigentes políticos europeus: quando estamos, como está assumido, em estado de guerra, os apertados constrangimentos impostos às finanças públicas dos países europeus não podem ser a prioridade. Estamos perante conflitos até aqui desconhecidos, é preciso que haja a sabedoria para alargar a malha nos orçamentos, e com sensatez viabilizar os recursos necessários. Que a Europa aprenda a ser, de facto, uma união, solidária.

 

Meteram-nos numa guerra que é, ao mesmo tempo, militar, cultural, teológica, ideológica, psicológica e económica. Evidentemente, como tantos especialistas têm repetido, é preciso fazer rebentar os fluxos financeiros que alimentam os vários anéis da cadeia do terrorismo. Fechar-lhes a torneira do dinheiro do petróleo e bloquear o circuito do armamento. Quantos dos investidores nos mercados financeiros internacionais serão também financiadores deste terrorismo?

 

Também é uma guerra de propaganda. Os terroristas do “EI” dominam com eficiência um vasto território virtual na internet. Usam fortemente a liberdade das redes sociais para fazer campanha contra a liberdade. Como se faz a contrainsurreição? Anonymous promete meter-se na primeira linha.

 

O que temos pela frente é uma guerra longa perante um inimigo que está numa lógica política com vista ao nosso extermínio. E é de prever que o necessário combate iniciado aos terroristas que ocuparam o vazio no Iraque e na Síria e ali montaram bases para o alargamento do califado do terror vá exacerbar os jiadistas que estão entre nós.

 

É precisa vontade otimista para enfrentar a imprevisibilidade de um quadro geral que, tal como está, puxa para o pessimismo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

José Manuel Rosendo é um grande repórter das guerras do nosso tempo. Esta reportagem é essencial para, com rigor, sem efeitos especiais, compreendermos a complexidade do que está a acontecer no norte da Síria onde os curdos peshmergas mostram como é possível bater o inimigo. Não fosse a contínua ambiguidade de Erdogan (ele é mais hostil ao IS ou aos curdos?) e talvez os terroristas já tivessem menos espaço.

 

A poesia de Adonis, poeta sírio com passaporte libanês, é um fogo-de-artifício de ideias filosóficas e profecias, com escrita puríssima. Ele tem sido várias vezes citado para o Nobel e é reconhecido como o grande poeta árabe vivo. Vale ler esta entrevista.

 

Um só infiltrado entre centenas de milhar de refugiados sírios não pode ser argumento para que a Europa renuncie à sua matriz de terra generosa de acolhimento. Já havia muitos europeus a clamarem que é levantando muros e fechando fronteiras que se estanca a ofensiva dos terroristas. Um passaporte sírio, afinal falso, em um dos kamikaze de Paris e a revelação de que ele passou pela Grécia a declarar-se refugiado está a servir de munição para esses que querem barricar-nos. Como recomenda o ex-primeiro-ministro centrista italiano Enrico Letta não nos enganemos sobre quem são os inimigos: os refugiados são vítimas dos terroristas, não são os terroristas.

 

O julgamento dos 17 ativistas angolanos é também um exame ao regime angolano. A imprensa internacional não vai estar distraída. Como se vê aqui.

 

Uma primeira página escolhida hoje entre as mostradas no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:20

E os refugiados?

Por: António Costa

 

 Deixemos a política doméstica por momentos. Já passaram mais de 48 horas sobre os horrendos atentados de Paris, os piores em solo francês desde a 2ª guerra mundial. Não é o tempo suficiente para conclusões sobre o estado de guerra em que todos nós, os ocidentais, vivemos, provavelmente sem nos darmos disso conta, mas já é possível identificar focos de risco. Há vários: onde é que o radicalismo jiadista e o islamismo se tocam, como é que o Ocidente responde ao terrorismo do Estado Islâmico, a política de segurança, por exemplo. Há um que, por estes dias, nos toca mais: os refugiados.

Era inevitável que o longo braço armado do jiadismo chegasse ao mesmo tempo que a Europa é invadida por refugiados que também fogem a este terror sob a forma de perseguição, violação, bombas, suicídios e medo. Medo é, talvez, a palavra mais forte, aquela que está por detrás de todas estas ações que, nos últimos anos, já tingiram vários continentes. E de mãos dadas com o medo está uma forma de vida que os jiadistas nos querem impor.

Ainda se sabe pouco sobre a extensão da rede que montou e executou os atentados de Paris – deixemos a contagem das vítimas para depois, já vai nas 129, isto já é suficientemente duro para nos atormentarmos a cada minuto que passa, e apoiemos as famílias dos que partiram – mas há suspeitas de que um dos terroristas teria passaporte europeu ‘arranjado’ na entrada de refugiados na Europa. Devemos, por isso, olhar duas vezes para cada um dos refugiados que já está na Europa ou para cada um que ainda quer entrar? Não e não e não.

Em primeiro lugar, há europeus seduzidos pelo Estado Islâmico, uma coisa absolutamente incompreensível, à qual temos de dar, e ter, uma resposta. Há franceses nestes atentados, com vida e mundo ocidental, portanto. Nem todos são muçulmanos que nasceram e viveram no médio oriente.

Depois, é fácil dizer que os refugiados são os menores dos culpados, claro; o mais difícil é fazer, como sempre. Há uma condição essencial para que os europeus, a maioria, pelo menos, mantenha os braços abertos aos refugiados. As autoridades europeias têm de garantir que a entrada é organizada e que os que entram são de facto identificados e registados. Em condições dignas e humanas. É a única solução, a que defende os refugiados da desconfiança dos europeus, e dos que querem aproveitar a sua entrada para se infiltrarem na Europa para executarem atentados.

É claro que a linha que separa uma estratégia securitária do respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos refugiados é muito ténue, mas não é possível fugir a isto, a esta escolha. No equilíbrio entre segurança e liberdade individual, onde está a virtude? Não há uma resposta única, nem fácil, mas tem de ser dada, porque a outra vai ser pior, e será sempre no sentido de fecharmos as fronteiras a quem foge do terrorismo, de nos isolarmos, como se isso resolvesse o problema. Não resolverá, claro, mas a consequência imediata, de defesa, será essa, se os europeus não se sentirem seguros nos seus próprios países.

 

As escolhas

 

O mundo está a olhar para Paris, e para os atentados, enquanto em Lisboa domina a política, e não se pode dizer que seja a alta política. Cavaco Silva tem uma visita de dois dias à Madeira – pode acompanhar as últimas aqui no Sapo24 - e isso indica que não está com pressa para ouvir António Costa. Na verdade, já saberá o que o líder do PS lhe vai dizer, e o (não) acordo que lhe vai levar. O silêncio do Presidente é também uma forma de falar e de aumentar a pressão sobre os socialistas, mas também sobre o BE e do PCP. E se exigir mesmo um acordo, Catarina vai aproximar-se, mas dificilmente Jerónimo dará mais do que já deu. E depois?

 

publicado às 10:46

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D