Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Hillary, a futura, não é a primeira

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo mal amada, Hillary Clinton tem uma boa parte do planeta a torcer pela sua vitória e, se tudo lhe correr bem, será a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos. Mas não é a primeira candidata. Já houve duas, no século XIX. Por acaso mulheres muito mais interessantes. Mas o ser interessante não é, definitivamente, uma qualidade necessária para ter poder de vida ou de morte nuclear sobre o planeta.

 

 

Hillary é detestada por muitos, mal vista por outros tantos, trapalhona, acomodada com os interesses instalados; contudo, nas voltas que a democracia permite, tornou-se uma tábua de salvação para o seu país e para tantos outros países interligados contra ou a favor do Império. Como esposa do 42º Presidente, ficou conhecida por ser publicamente traída. Como secretária de Estado do 44º Presidente, mostrou-se bastante inábil e meteu-se em algumas confusões que ainda a perseguem. Mas, do mal o menos; se for eleita, será a 45ª Presidente dum país onde as mulheres há muito que têm uma presença forte na política, mas sempre na segunda linha.

 

Há 144 anos, em 1872, outra mulher candidatou-se a Presidente: Victoria Woodhull. Ao contrário de Hillary teve uma infância difícil, meteu-se em vários negócios e assumiu posições politicas fortes, muito à frente do seu tempo. A América não estava pronta para ela, e muito menos para um vice-Presidente negro e ex-escravo, Frederick Douglass.

 

Filha ilegítima de uma mãe analfabeta e dum pai vendedor de banha da cobra – literalmente – Victoria nasceu em Homer, Ohio, no chamado Farwest, na época dos assaltos a diligências, corridas ao ouro e aquela truculência que vemos nos filmes de cowboys. Desde miúda que teve de lutar contra todos os preconceitos, estudou formalmente apenas três anos, e aos doze já estava casada com um pseudo-médico alcoólatra que lhe batia. Extremamente inteligente, estudou sozinha e desenvolveu os seus conceitos sociais. Era sufragista (pró voto feminino), igualitária e a favor do “amor livre”. Tinha tudo para ser considerada uma prostituta, que nunca foi, apesar de ter trabalhado como empregada em prostíbulos. O conceito de “amor livre” nesse tempo significava apenas o direito da mulher se divorciar, viver a sua vida com quem quisesse e eventualmente casar novamente. Também era espiritualista e acreditava ser guiada por Demóstenes.

 

No meio de aventuras que dariam um bom filme, chegou a Nova Iorque, onde abriu uma corretora de valores com uma amiga – a primeira no mundo a ser dirigida por mulheres - e posteriormente um jornal para espalhar as suas ideias. Em 1866 casou com um veterano da Guerra Civil. Conheceu e teve contactos tempestuosos com a mais famosa sufragista norte-americana, Susan B. Antony, que era menos radical do que Victoria.

(Tivemos em Portugal, com o habitual atraso de 50 anos, duas figuras parecidas, Angelina Vidal e Carolina Beatriz Ângelo, mas isso é outra história.)

 

Em 1870 esteve na fundação do Partido dos Direitos Iguais (Equal Rights Party), basicamente uma plataforma politica para a emancipação feminina. Mas, entretanto, uma disputa à volta da história do amor livre custar-lhe-ia a candidatura. Um ministro protestante, proeminente em Nova Iorque, opôs-se publicamente ao conceito defendido por Victoria e ela publicou no jornal que o senhor era contra, mas tinha uma amante. Daí resultou um processo judicial, em que foi detida e, embora não condenada, perdeu o período eleitoral. Claro que a coisa cheirava a marosca política, mas o mal estava feito. Contudo, não é de supor que uma candidatura com uma libertária e um ex-escravo, ainda por cima casado com uma branca – na altura a miscigenação era muito mal vista... – tivesse alguma hipótese real.

 

Victoria participou na formação da Primeira Internacional, mas a associação de sindicatos dividiu-se em 1871, quando os alemães, com a aprovação de Marx, expulsaram os ingleses e os americanos. Perdida a oportunidade da presidência, Victoria divorciou-se e foi para Inglaterra com a sua sócia no jornal, Tennie Claflin. O multimilionário William Vanderbilt, cujo pai fora um amigo de sempre e apaixonado por Tennie, deu-lhes uma boa quantia para recomeçar a vida. Mas Victória não queria parar; começou a dar conferências – a mais famosa tinha como tema “O corpo humano, templo de Deus” – e casou com um banqueiro britânico. Ainda publicou um jornal, até se retirar para o campo, em 1901. Uma rica vida, cheia de peripécias.

 

Em 1884 o Partido dos Direitos Iguais concorreu novamente à Presidência, com uma candidata completamente diferente, Belva Ann Lockwood, e outra mulher para vice-presidente, Marietta Stow. Ambas sufragistas e defensoras dos direitos das mulheres, se bem que muito mais conservadoras do que Victoria Woodhull. Belva era advogada – numa época em que poucos juristas formados havia, e muito menos mulheres – e directora dum colégio prestigiado de Washington.

 

Em 1888, o Partido concorreu uma última vez. Inicialmente o vice-presidente era para ser um homem, o líder da União para a Paz Universal, Alfred Love, mas não aceitou a vergonha de ser segundo para uma mulher … Finalmente outro homem, Charles Weld, filho de um casal muito progressista, aceitou fazer uma figura que todos consideravam vexatória.

 

Como as mulheres não tinham direito a voto, as possibilidades da dupla eram muito reduzidas. Ficaram registados apenas 4.200 votos, o que mesmo assim é surpreendente, dado que toda a comunicação social era contra o sufrágio feminino. Até ao fim da vida Belva escreveu sobre as suas bandeiras, paz universal e igualdade de género, alem de continuar a dirigir o colégio.

 

O voto das mulheres foi uma das grandes questões do século XIX e na realidade só se resolveu em meados do século XX – no tempo das nossas mães e avós, não mais cedo. Nos Estados Unidos, vários Estados deram direitos parciais, lentamente, até à emenda da Constituição de 1920 que resolveu o problema definitivamente. Na Europa, o primeiro pais foi a Finlândia, em 1907. Em Portugal, a Constituição de 1911 não previa tal modernidade, porque os constituintes jacobinos achavam que o voto feminino seria influenciado pelos padres ...  Só na Constituição de 1933 é que as mulheres puderem votar e ser votadas.

 

A assim chegamos a Hillary, a grande esperança da eleição do fim do ano, a 8 de Novembro, nos Estados Unidos. Uma mulher que se espera que tenha o apoio maioritário não só das mulheres, mas também dos hispanos, dos negros e, até, de muitos republicanos. O mundo vai assistir de coração na boca e braços virados ao céu.

publicado às 14:09

O que leva a tanto ódio?

Por: Francisco Sena Santos

 

O que é que leva a tanto ódio? Que tempestade de raivas e frustrações pode desestruturar a cabeça de uma criatura ao ponto de a levar a matar a sangue-frio 50 pessoas e ferir outras tantas num tiroteio continuado ao longo de duas horas de atrocidade que teve por alvo minorias sexuais e étnicas? O que é que está a derrapar numa sociedade para suscitar uma tão brutal intolerância? Como é que um homem de 29 anos, desequilibrado homófobo e, supõe-se, militante jiadista auto-radicalizado, pode ter, como teve este matador, acesso fácil a armas de fogo assim letais? O que é que se passa com o sofisticado sistema de informações do FBI para, embora tendo aquela criatura no seu radar, não ter sabido parar a tempo alguém que é um inimigo assim tão perigoso? O que é que se sobrepõe à vontade de um presidente como Obama que o impede de, apesar de sucessivas terríveis matanças, com potencial contagioso, fazer impor um controlo eficaz à venda e posse de armas de fogo? Que papel poderão ter os media nesta tragédia americana? Que efeito poderá ter a carnificina de Orlando na eleição presidencial nos Estados Unidos? São tantas as perguntas, estas e muitas outras, e a tantas faltam respostas claras.

 

Na discoteca Pulse de Orlando, nos EUA, como há sete meses no Bataclan de Paris, as vítimas são pessoas que amam a vida. Foram condenadas à morte, pelos demónios que tomaram conta da cabeça de gente perturbada e infetada por uma onda de ódio que anda no ar. Morreram pelo crime de viverem a vida com paixão. Em Paris, um bando de terroristas movidos pelo fanatismo político-religioso, quis castigar quem se diverte, se diverte a sorrir, a cantar e a dançar a ouvir música. Em Orlando, um desequilibrado motivado por um confuso misto de ideologia religiosa e preconceito, atacou os que se divertem assumindo com orgulho que são homossexuais. O pai do matador conta que ele tinha ficado enfurecido ao ver dois homens a beijarem-se com carinho.

 

A diversidade é uma característica da nossa sociedade ocidental que cresceu capaz de se tornar liberal sobre as escolhas de cada pessoa. A tolerância é um modo fundamental de estar na sociedade que foi construída para nós. Uma mulher com véu, duas mulheres ou dois homens de mãos dadas e que se beijam na boca é uma liberdade que faz parte do modo de vida nesta nossa sociedade ocidental de liberdade. Alguns ainda podem sentir incómodo ao verem o que poderia ser apenas privado, mas o costume tende a tornar-se banal. É um assunto de cada pessoa, livremente. Mas há sociedades, com interpretações retorcidas de religião e ideologia, que ainda vivem num tempo passado em que essa liberdade é tomada como heresia.

 

A chacina deste último fim de semana nos EUA junta três ingredientes que são feridas abertas na sociedade americana: terrorismo, homofobia e posse indiscriminada de armas de fogo. Todos os políticos, quase toda a gente, expressa nestes dias horror pela matança.  Não falta hipocrisia nessa condenação.  

 

Muitos dos que lastimam são os mesmos que bloqueiam qualquer tentativa de controlo da posse e uso de armas de fogo – num país onde qualquer um consegue comprar e ter licença de porte de pistola ou espingarda, o que leva a que, em média, cada americano tenha consigo uma arma letal. São mais de 300 milhões. Supostamente, os americanos possuem armas para se protegerem, mas de facto são dos mais desprotegidos no mundo: no que vai de ano, até ontem, estavam registados nos EUA 5.931 mortos em casos com armas de fogo.

 

Ao mesmo tempo, muitos dos que agora condenam mais esta matança são os mesmos que apoiam uma plataforma política que propaga o clima de medo e ódio anti-islâmico e anti-gay que progride nos EUA e que são combustível para perturbados lobos solitários como o matador na discoteca Pulse de Orlando.

 

A tragédia de Orlando é um crime praticado por um perturbado que se deixou tomar pelo ódio homofóbico e pelo clima de hostilidade que está instalado na América em campanha. A consumação do crime foi facilitada pela legislação americana que permite que uma criatura vulnerável tenha acesso a máquinas de guerra como esta idêntica à que serviu para matar 14 pessoas em San Bernardino (dezembro de 2015), também para matar 26 pessoas na escola de Sandy Hook e 12 num cinema de Aurora (estes dois massacres em 2012). Agora, mais 49 na matança homofóbica em Orlando.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O único debate entre todos os que podem vir a entrar para o governo de Espanha mostrou um derrotado (Pedro Sanchez) e nenhum vencedor. É facto que quem resiste (Mariano Rajoy) pode safar-se, mas não será fácil. Será que as eleições de 26 de junho não vão servir para resolver o governo de Espanha?

 

As sondagens britânicas estão a apontar cada vez mais para o divórcio. Faltam nove dias para o referendo.

 

A Espanha perde para Itália o título anual de melhor restaurante do mundo nos óscares da gastronomia: a Osteria Francescana, em Modena, arrebata o topo do pódio ao catalão Celler de Can Roca.

 

Hoje é um dia para a seleção portuguesa de futebol e o talento de Cristiano Ronaldo mas não apenas o dele.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

 

 

publicado às 09:33

A estranha mania das armas

Por: José Couto Nogueira

 

É inegável, o bicho Homem gosta de armas. Mesmo quando não precisa nem tem uma boa desculpa para as guardar em casa ou trazer a tiracolo. Na Suécia, um pais civilizado e pacífico, 31,8 por cento das famílias tem pelo menos uma arma. Dito de uma maneira mais contundente, um terço da população sueca tem a possibilidade de dar uns tiros nos outros dois terços. Na Finlândia, mesmo ali ao lado em geografia, civilização e paz, um cidadão só pode ter um máximo de cinco armas, mas 12,8 por cento têm-nas.

 

Na verdade, os países que consideramos mais pacatos e menos temperamentais, são aqueles em que a posse de armas é mais livre. Na Suíça, que não entra em guerra desde o século XVI e teve as últimas escaramuças civis em 1802, todos os homens em idade militar têm uma arma de guerra em casa e 29% possuem uma licença adicional de porte.

 

Mas também há países que não relacionamos habitualmente com desenvolvimento e boas maneiras onde o armamento é deixado ao critério de cada um. No Panamá não há quaisquer restrições de porte, à vista ou debaixo do casaco, assim como em Timor, que tem mais restrições no que toca ao casaco.

 

Mesmo países médios, digamos assim, isto é, considerados normais numa escala ambígua de progresso e bom senso civil, o desnecessário porte ou posse de armas é bastante liberal. A França, por exemplo, ou o Canadá, onde 23,8 por cento dos lares estão defendidos.

 

Toda esta conversa para chegar ao cerne da questão: o problema das armas não são as armas, é a cultura que as carrega. Isto porque ainda ontem, na Florida, um maluco arranjou umas desculpas para matar cinquenta pessoas e ferir outras cinquenta, e lá veio o coro habitual sobre a tara norte-americana de andar toda a gente armada. Pois claro, um país onde qualquer um pode comprar uma metralhadora ou um lança granadas, têm de acontecer estas coisas – e acontecem, num ritmo alucinante. Para não mencionar os tiroteios diários, a violência policial, as polícias de choque que andam em carros blindados e com protecção pessoal igual à do Afeganistão. Ou o facto da população encarcerada ser a maior do mundo, em termos percentuais.

 

Por acaso ninguém se lembra dos países estatisticamente mais perigosos da face da terra, como a Federação Russa, o Paquistão, Brasil, ou El Salvador (não forçosamente por esta ordem).

 

Veja-se qual a situação legal nos Estados Unidos. O porte de arma é permitido pela Segunda Emenda da Constituição, que data de 1791. Filosoficamente, faz parte do conceito individualista de que qualquer homem tem direito a possuir o que quiser, incluindo armas para se defender. Historicamente, tem a ver com a luta pela independência contra os ingleses e a conquista de território aos donos anteriores, os índios. Os tempos mudaram, já não há colonialistas em ingleses a vencer, porque desistiram, nem indígenas a abater, porque ou morreram ou se aculturaram. Mas o princípio ficou e não são só os malditos fabricantes de armamento que o defendem; são também os cidadãos, como o provam incontáveis sondagens e eleições de governantes pró-armas. Dos 50 Estados norte-americanos, 30 permitem porte de arma (escondida) e quatro não têm restrições à compra: Arizona, Geórgia, Kentucky e Wyoming. Em apenas três, há grandes restrições: California, Connecticut e New York. Até 1934, a legislação nem separava as armas automáticas (vulgo metralhadoras) das outras. A partir de 1986, uma lei assinada por Reagan proíbe a venda de automáticas, mas permite as semi-automáticas (aquelas que é preciso apertar no gatilho a cada tiro, mas não é preciso armar a culatra). Contudo são legais os calibres que nós aqui consideramos de guerra (7.62mm e 9mm). Um tiro de 9mm derruba um homem só pelo impacto a um quilómetro de distância.

 

O argumento a favor de andar toda a gente armada é sobejamente conhecido e apregoado pelos seus defensores e pelo lóbi dos fabricantes: se for difícil ou quase impossível os homens de bem comprar uma arma, as armas ficam todas nas mãos dos bandidos, que não terão problema em encontrá-las. Quando foi o massacre na escola de Sandy Hook, a NRA (National Rifle Association) afirmou que a solução era os professores terem pistolas nas aulas, para proteger os alunos. É possível imaginar um maior contra-senso?

 

O Presidente Obama, que é contra as armas, tentou duas leis restritivas; na primeira, obrigava o comprador a identificar-se e apresentar registo criminal; na segunda, tornava obrigatório um dispositivo electrónico com o qual a arma reconhecia o dono, isto é, só disparava se fosse ele a premir o gatilho. Nenhum das leis passou no Congresso, para alegria geral dos mais de 200 milhões de americanos que se calcula que têm armas – no país das estatísticas, esta não existe... mas sabe-se que há 317 milhões de habitantes e 357 milhões de armas.

 

Todavia não é o número de armas nem a facilidade em obtê-las que dá aos Estados Unidos esta reputação de violência. É, em grande parte, o factor mediático; morre um miúdo abatido pela polícia em Pleasantville e a notícia sai no mundo inteiro, enquanto são assassinadas 160 pessoas por dia no Brasil ou mais ainda na Nigéria e nem chega aos noticiários nacionais. Por outro lado, é o motivo. As mortes no Brasil ou na Nigéria tem motivos tipificados: assalto, vingança. Nos Estados Unidos a maioria das mortes só encontram razões do foro patológico. O “lone wolf” (atirador solitário) que sobe à torre da igreja para atirar a eito para a praça, ou o “serial killer” são fenómenos tipicamente norte-americanos, nunca vistos na Suíça ou na Suécia. Do mesmo modo que, por exemplo, a violação de menores na maioria dos países ocorre entre pessoas que se cruzaram por acaso, e em Portugal acontece dentro do círculo familiar. Cada cultura tem os seus demónios próprios, os seus infernos profundos.

 

Do mesmo modo, todo o planeta sabe quem é Omar Mateen, o americano descendente de afegãos que se deu ao trabalho de percorrer 200km para matar 50 inocentes em Orlando, mas ninguém conhece, ou quer saber quem foi, o bombista suicida que no mesmo dia fez explodir mais de 100 inocentes em Bagdade. Omar tinha as suas desprezíveis razões, todas misturadas numa amálgama maldita: radicalismo religioso, homofobia, frustração pessoal, fanatismo místico. E, também, o tal factor cultural do país onde nasceu.

 

Conclusão? Não há conclusões. As armas não vão acabar, nem nunca será difícil obtê-las. O Homem, também parece que não muda. Mata porque acredita em algo superior ou, pior ainda, porque não acredita em si próprio.

 

 

 

publicado às 08:25

Libertários, o terceiro partido norte-americano. Sim, é natural que não tenha ouvido falar

Por: José Couto Nogueira

 

As pessoas raramente ou nunca se lembram de que o Partido Democrata e o Partido Republicano não são os únicos partidos existentes nos Estados Unidos. Costumam até dizer que o país tem um modelo bi-partidário, como acontece notoriamente na Grã-Bretanha, com os Conservadores e os Trabalhistas. No entanto os americanos, tal como os ingleses, têm um sistema democrático em que qualquer grupo de pessoas pode formar um partido político e concorrer a todas as eleições – municipais, estaduais e federais.

 

garyjohnson.jpg

Os libertários são liderados por Gary Johnson, que já foi Governador do Estado do Novo México

 

 

Na verdade, existem nos Estados Unidos dezenas de partidos, inclusive um Partido Comunista, o Partido Nazista e o Partido das Panteras Negras. A maioria só tem dimensões estaduais, ou em apenas alguns estados. Cinco partidos, além dos dois grandes, ganharam lugares em assembleias estaduais: Partido Progressista do Vermont, Partido das Famílias Trabalhadoras, Partido Conservador de Nova Iorque, Partido da Independência de Nova Iorque e Partido Libertário.

 

Ora bem, se existe a possibilidade de haver outros partidos, porque é que só dois tem projecção nacional e probabilidade real de governar o país? Boa pergunta. E a resposta é simples; por uma razão institucional e outra prática. Institucionalmente, o sistema eleitoral está organizado de maneira que torna extremamente difícil concorrer ao nível nacional. Não que fosse essa a intenção dos autores da Constituição; na verdade, a sua maior preocupação era criar um sistema equitativo que desse iguais oportunidades a todos os cidadãos. Mas o documento foi escrito em 1777; é a mais antiga constituição e a única que não sofreu grandes alterações. Ora, em 1777 ainda nem sequer tinha havido a Revolução Francesa e portanto não havia experiência nenhuma de construir um sistema de “garantias e equilíbrios” (“checks and balances”). Daí o complicadíssimo sistema com primárias, delegados e diferentes pesos para as mesmas medidas. Com a experiência das centenas de constituições que entretanto foram feitas pelo mundo, poderia ser aperfeiçoado, mas os americanos são particularmente avessos a qualquer alteração.

 

A razão prática são os fundos necessários para fazer uma campanha a nível nacional. Só mesmo milionários como Ross Perrot ou Donald Trump é que têm capital para estourar em semelhante aventura. Aliás nem é preciso elaborar muito sobre isto, uma vez que todos conhecemos os esforços constantes que os partidos fazem, nos Estados Unidos e em todos os países democráticos, para angariar fundos para as campanhas. Esforços e desonestidades, muitas vezes descobertas e raramente criminalizadas, diga-se de passagem.

 

Então, além dos democratas e dos republicanos, qual é o maior partido norte-americano? Estranhamente, um dos mais recentes, fundado em 1972: o Partido Libertário. Em termos eleitorais, tem vindo a subir lentamente, e nas eleições presidenciais de 2012 obteve 1.275.821 votos, quase um por cento do total. O candidato era, e será também nesta eleição, Gary Johnson, um empresário da construção civil com ar circunspecto, que contrasta bastante com as figuras alternativas da maioria dos filiados.

 

O Partido Libertário, como o nome indica, tem uma agenda de total liberdade e zero interferência do Estado na vida das pessoas. Numa altura em que, tanto nos Estados Unidos como na Europa, existe um enorme cansaço e desilusão com as soluções políticas tradicionais e com a ineficiência e incompetência dos governos, é natural que as propostas de menor intervenção ganhem eleitores. De certo modo, e com o sinal contrário, é essa a razão do sucesso de Bernie Sanders e sobretudo de Trump; são candidatos anti-sistema.

 

As propostas do Partido Libertário são, no mínimo, radicais. É a favor do porte de arma pelos cidadãos – armas de qualquer calibre, inclusive nucleares. Também propõe legalização sem restrições de todos os imigrantes, da prostituição e do uso de drogas. Eliminação de toda a fiscalização prévia e inspecções, quer seja de alimentos, seguranças do consumidor, veículos automóveis ou práticas empresariais (“no pre-emptive regulation”). Impostos, só directos, ou seja, taxas de utilização. Acaba o IRS, IRC, valor acrescentado ou quaisquer outros impostos indirectos. Na saúde e na educação, cada um trata de si e fé na Humanidade (o partido é agnóstico). Finalmente, nenhuma ajuda ou intervenção no estrangeiro; o pais só reagiria se fosse atacado no seu território, para o que teria umas forças armadas mínimas, decerto reforçadas com os tanques, caças e bombas nucleares que os cidadãos guardariam no quintal.

 

Pode parecer que uma agenda surreal como esta, e que ainda por cima desagrada tanto a conservadores como progressistas, liberais e socialistas, não teria quaisquer hipóteses fora dos mais radicais campus universitários. Contudo, mais de um milhão de votos não são poucos votos. E as posições concretas defendidas por Gary Johnson, que já foi Governador do Estado do Novo México, incluem oposição às guerras do Afeganistão, Iraque e Síria e cortes monumentais nos orçamentos do Estado. Há muitos eleitores que se revêem no simpático senhor que ficou em terceiro lugar nas últimas presidenciais.

 

 

 

publicado às 08:28

Match Point

Por: Francisco Sena Santos

 

O protagonista de Match Point, numa frase definidora deste filme (Woody Allen, 2005), enquadra o efeito do acaso no instante decisivo: “Numa partida de ténis há momentos em que a bola roça a borda da rede e numa fração de segundo tanto pode seguir para a frente como cair para trás; com um pouco de sorte, segue em frente e ganhas, sem essa ponta de sorte não passa e perdes”. Analisando resultados eleitorais e sondagens pelo mundo, fica-se com a sensação de que estamos nessa fração de segundo de indefinição.

 

Há muita curiosidade sobre como será o que vem a seguir neste tempo em que por todo o lado prospera o voto anti-establishment da opinião pública que, exasperada com anos de más políticas, arrisca dar força a entidades que fazem do protesto a sua arma mais forte. Reino Unido, Itália, Espanha e Estados Unidos são arenas para alguns dos próximos confrontos que podem redimensionar a paisagem política.

 

Nos Estados Unidos, Hillary Clinton vai conquistar hoje na Califórnia os votos que lhe garantem a investidura como candidata presidencial do Partido Democrata. Mas o rival republicano, Donald Trump nunca pareceu tão capaz de conseguir chegar ao match point de novembro e ter a sorte do lado dele. Há quem compare Trump com Reagan: quando anunciaram a candidatura, as hipóteses de êxito pareciam nulas, levavam a sorrir. Depois, com algum sobressalto, disse-se que era impensável vê-los na presidência dos EUA. A seguir, instalou-se a possibilidade forte. E Reagan até foi um presidente que entrou para a história: apertou a mão a Gorbachev em Moscovo e, depois de ameaçar disparar os mísseis, presidiu ao fim da “Guerra Fria”. Mas a semelhança entre ambos, para além da filiação no Partido Republicano, parece-me ser a origem nos palcos do espetáculo, e nada mais. No essencial, são diferentes: Reagan sorria sempre e falava com otimismo da América como farol da humanidade, usava como lema “a cidade que ilumina o mundo”; Trump escolhe o desdém, despreza imigrantes e até quer um muro para barrar acessos à fortaleza América. Mesmo assim, segundo as sondagens, se o match point fosse jogado hoje, Trump, o demagogo, até poderia ser o vencedor. Há mais de 50 milhões de pessoas dispostas a entregar-lhe o comando dos Estados Unidos. 

 

Em Itália, o primeiro round das eleições municipais mostrou uma tão grande irritação dos eleitores com os partidos tradicionais que o castigo eleitoral leva um movimento antipolítica, o 5 Estrelas (M5S), fundado pelo comediante Beppe Grillo, a aparecer favorito para, no dia 19, lhes conquistar a liderança em cidades como Roma ou Turim (o caderno eleitoral do M5S privilegia a atitude à competência). No caso de Roma, a campanha M5E contra a corrupção político-administrativa do município mal-governado, leva a que a sua jovem candidata Virginia Raggi tenha prometida uma vitória de cinco estrelas. Em outras cidades, como Milão, Turim ou Bolonha tudo está em aberto para o match point daqui a duas semanas. Sendo que o partido de Berlusconi está estilhaçado e o do primeiro-ministro Renzi muito amachucado.

 

Em Espanha, o match point joga-se uma semana depois, no dia 26, com a repetição das eleições gerais, após seis meses de impasse e governo interino. A campanha já está a ser áspera e renhida. O eleitorado que nas últimas quatro décadas votou bipolarizado entre PP e PSOE está agora a rasgar com essa tradição: em todas as sondagens nenhum partido chega aos 30%, o PP ronda uns insuficientes 28% e o Podemos, partido saído do protesto nas ruas em 2011, com inflexibilidade esquerdista, surge a seguir a apenas três pontos percentuais. O histórico PSOE aparece asfixiado na terceira posição com apenas 20%. Tudo pode acontecer, incluindo mais impasse para ser conseguida uma maioria nesta Espanha com 20% de desemprego.

 

Pelo meio, entre o voto italiano e o espanhol, na quinta-feira dessa crucial semana política, há o referendo britânico, reconhecido como transcendente. Ninguém sabe o que vai acontecer, se vai dar Brexit (o Reino Unido a sair da União Europeia) ou Bremain (a permanecer). As sondagens mostram os dois campos ombro a ombro, agora com um pulso de vantagem dos que querem sair. Vale ter em conta um estudo de opinião publicado pelo Financial Times: as pessoas com menos instrução e menos rendimentos são maioritariamente pelo voto Brexit; os mais jovens, os que têm mais estudos e melhores rendimentos são pela permanência. Outra diferença é notória entre votantes citadinos (maioritariamente pela continuidade na Europa) e rurais (contra). Estudos feitos nos EUA revelam tendências que colocam os grupos que votam Trump com estratificação que, apesar de complexa, se assemelha à dos que optam pelo Brexit no Reino Unido. Será legítimo concluir que os menos instruídos e os mais apertados em rendimentos são mais propensos ao discurso dito populista? Parece. O que está evidente é que temos pela frente ao dobrar da esquina várias situações de match point político. Com risco de minas por despoletar no terreno do jogo. E com o problema de os eleitores votarem mais por motivação negativa que por entusiasmo ou sequer adesão. Falta magia nestes jogos.

 

VALE VER OU OUVIR:

 

Como já estão a ser (energéticos, animados) os escritórios do futuro.

 

Viagem fotográfica ao século XIX.

 

Um olhar da vizinhança sobre nove outros museus em Lisboa. E o Jardim das Delícias no verão de Madrid.

 

Como lidamos com a informação que nos chega?

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

publicado às 08:20

"Os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso"

Por: Isabel Tavares

 

De malas feitas para os Estados Unidos onde regressa à Universidade do Illinois, Nuno Garoupa prepara-se para acompanhar de perto as eleições americanas. 

 

 

Falemos então de outra corrida, as eleições nos Estados Unidos…

Que também são outro argumento bom para voltar, se Trump ganhar os Estados Unidos fecham, não entra mais ninguém [risos].

 

Acredita que ele ganhe?

Não. Quer dizer, não acredito que ele ganhe, mas já esteve mais longe. Neste momento penso que não ganha, mas depende de um conjunto de factores – por exemplo, de haver mais problemas legais com Hillary [conta privada que usava para enviar e receber emails enquanto secretária de Estado e está a ser investigada pelo FBI e pelo congresso], dos desenvolvimento no terrorismo e na imigração  –, que não dependem dos candidatos. Tudo isto favorece Trump.

 

Se Trump ganhar, como é que isso deixa os Estados Unidos?

Em termos práticos, os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso, que em princípio será republicano, porque uma larga faixa do partido republicano não o apoia. Até que ponto Trump vai usar isso para ter uma espécie de guerra constante com o congresso ou vai ser um presidente sentado à espera de ver o que acontece, isso é o que se verá. Mas não acredito que as consequências da eleição de Trump sejam tão terríveis como as pessoas pensam.

 

E do ponto de vista externo?

Do ponto de vista externo é uma má imagem e vai alterar a ideia dos Estados Unidos como país aberto, até com vocação imperial, para um país muito mais fechado e voltado para dentro, porque é isso que Trump defende: voltar a um certo isolacionismo, fechar fronteiras.

 

Afirmou que o que estava a abrir espaço para partidos extremistas, na União Europeia, era a perda de soberania. E nos EUA?

Nos Estados Unidos há dois problemas graves desse ponto de vista: a dependência da China - o país está altamente endividado e a China comprou uma parte muito substancial dessa dívida soberana -, e uma espécie de problema imperial - desde a guerra do Iraque, o império alargou-se de tal maneira que não é sustentável economicamente, há que fazer escolhas, coisa que a presidência Obama foi adiando. O que Trump está a fazer é cavalgar uma onda populista em que a solução é fazer uma guerra comercial à China, quando isso não vai resolver o problema, só vai agravá-lo. Mas uma larga faixa do eleitorado, nomeadamente uma classe económica média-baixa, está farta de não ver uma solução e tem agora alguém que lhe diz o que sempre quis ouvir.

 

Passando para outra guerra comercial, o TTIP – Transatlantic Trade and Investment Partnership [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento] avança?

Do lado americano, se tivermos uma presidência de Trump vejo muito poucas condições para o acordo avançar. Do lado europeu, acredito que vamos ter em 2017 uma viragem à direita em vários países, nomeadamente em França e na Alemanha, o que vai complicar a sua aplicação. O horizonte político para este tratado não é o mais adequado, veio numa época frágil. Porque há uma coisa que é evidente nestes acordos, e sabemos isso na zona europeia, é que há perdedores e vencedores. Que é bom para todos, não é verdade.

publicado às 02:42

Nuno Garoupa: «Os partidos políticos têm pavor do Ministério Público»

Por: Isabel Tavares

 

 

Saiu da presidência da Fundação Francisco Manuel dos Santos antes do previsto para dar lugar a Jaime Gama e, em Agosto, regressa ao Estados Unidos, à Universidade do Illinois. Antes de deixar Portugal, Nuno Garoupa fala do trauma do PSD e diz que só uma pessoa poderá substituir Passos Coelho e ganhar as eleições - e não é Maria Luís Albuquerque. Professor catedrático – a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado -, aponta o dedo ao Ministério Público. Fala da necessidade de reformar os reguladores e critica uma sociedade pouco exigente. Trump também entrou na conversa: «não acredito que as consequências da sua eleição sejam tão terríveis como as pessoas pensam».

 

Foi dar aulas para os EUA em 2007. Agora que regressa, acha que Portugal está diferente?

O que mais me surpreende é o facto de estarmos estagnados há 15 anos e parece que estamos sempre a começar do zero. Há uma tendência para fazer reset permanente e o país não é capaz de reflectir sobre isso. De quatro em quatro anos, ou de dois em dois (não sei quando é que os governos caem), volta ao princípio. Isso impressiona-me. A sensação que tenho é que o país está à espera de qualquer coisa, mas não sabe de quê. É assustador.

 

Qualquer coisa vinda de onde?

De fora. De dentro já se aceitou que não tem volta a dar. Admito que, dependendo dos lados ideológicos, as expectativas sobre o que pode vir sejam diferentes.

 

Acredita que virá alguma coisa?

Não vai acontecer. Já tivemos dois grandes momentos: o do esforço de adesão à União Europeia e o de adesão ao euro, em que a ideia era que a Europa ia pôr isto na ordem - e não pôs -, e a grande expectativa criada com o Memorando da troika – que não se fez e não mudou nada.

 

Entretanto, a troika “saiu”, mudou o governo, mudou o presidente da República. Consegue adivinhar o que aí vem?

Estamos numa transição, mas não sabemos para onde. Não é claro que esta maioria seja sustentável durante muitos anos, mas também não são claros os actuais alinhamentos à direita. Mudando de estratégia e de liderança o PSD pode repor uma situação política semelhante à que existia antes de 2011. Quanto ao presidente da República, ainda é muito cedo para tirarmos ilações. Tem sido uma presidência de afectos, mas a verdade é que o presidente ainda não foi confrontado com nenhuma situação complicada, em que tenha de desagradar a algumas franjas do eleitorado. E isso vai acontecer.

 

Qual poderá ser o tema da discórdia?

Desde a questão económica – a qualquer momento podemos ter problemas orçamentais ou problemas sérios de resgate da banca -, a uma crise política. Isso vai forçar o presidente a intervir, a favorecer ou a desfavorecer. Além disso há os temas fracturantes; penso que a estratégia do Bloco de Esquerda tem de ser apresentar durante a próxima sessão legislativa uma ou duas leis para se distinguir do Partido Socialista.

 

O governo Zapatero, em Espanha, teve muito mais questões fracturantes, não sei como o BE não foi ainda buscar ali a lista inteira de temas para tentar fazer aqui a mesma coisa.

 

Em que temas se poderá distinguir?

O tema do cartão da cidadania não era fracturante, por isso morreu, mas pode ser o do terceiro género. O governo Zapatero, em Espanha, teve muito mais questões fracturantes, não sei como o BE não foi ainda buscar ali a lista inteira de temas para tentar fazer aqui a mesma coisa. Mas é tudo uma questão de criatividade. Se essa legislação for aprovada na Assembleia da República por uma maioria de esquerda, isso vai acabar nas mãos do presidente da República e a sua decisão vai desagradar a um ou a outro. Por mais popular que seja, o seu eleitorado natural é à direita e, nessa altura, vamos ver como Marcelo se comporta por comparação com Cavaco, que tinha o condão de ficar mal com todos.

 

Sobre o resgate da banca, as comissões de inquérito valem de alguma coisa? Em que medida?

Valem no sentido de trazer alguma informação a público, não toda. Aliás, uma das questões em que a comissão de inquérito do Banif é um bocadinho escandalosa é que a informação não é toda pública quando, de facto, se o Banif foi intervencionado e depois vendido, o contribuinte que pagou tem o direito de exigir acesso à informação toda. Dito isto, estas comissões acabam por não servir para nada, porque estão em função de maiorias políticas.

 

(...) já queimámos 50 ou 60 mil milhões na banca. Esse dinheiro desapareceu e o facto de o sistema judicial não conseguir responsabilizar alguém, é um mistério.

 

Os resultados são, por isso, condicionados?

É evidente que a conclusão final da comissão parlamentar de inquérito do Banif vai ser completamente diferente da do BES, porque a maioria politica é diferente. Além disso, não há consequências. A verdade é que nesta questão da banca levamos mais de dez anos disto, desde o início do caso BPN, e não ainda não há uma condenação. Como é que possível? Porque há um dado objectivo: já queimámos 50 ou 60 mil milhões na banca. Esse dinheiro desapareceu e o facto de o sistema judicial não conseguir responsabilizar alguém, é um mistério.

 

Pergunto-lhe a si, que é professor catedrático, o que falha?

É evidente que temos um problema sério com o nosso sistema judicial. E que não é só uma questão de leis, de falta de legislação, do enriquecimento ilícito. Temos um problema com a prática da própria investigação. Independentemente das considerações que possamos fazer, se ao fim de dez anos o Ministério Público não consegue ter nenhuma condenação, devíamos estar a discutir o funcionamento do Ministério Público. Mas é uma discussão a que toda a gente foge.

 

Porquê?

Porque os partidos políticos têm pavor do Ministério Público. Porque têm medo que no momento em que se abrir uma discussão sobre como mudar o Ministério Público, além das acusações de estarem a tentar interferir politicamente, que vão ser imediatas, surjam algumas capas complicadas no Correio da Manhã.

 

Para si, onde está o problema?

Acredito que é um problema sério de funcionamento. Há um problema de recursos, o Ministério Público não está dimensionado para os recursos limitados que tem, e há questões que têm a ver com legislação: continuo a defender que devíamos ter o princípio da oportunidade, como os americanos ou os espanhóis e outros países europeus, plea bargaining, a denúncia premiada e toda uma série de instrumentos que não há porque um conjunto de sábios portugueses acha que não deve estar na nossa legislação.

 

 

Há casos complexos, mas existem outros sem grande complexidade cuja decisão está presa há anos. Os juízes não têm de dar satisfações sobre o seu trabalho?

O Ministério Público reclama independência e autonomia para fazer as investigações e a gestão processual, mas, depois, não presta contas a ninguém – o Conselho Superior do Ministério Público é uma entropia. Voltando à banca, se em dez anos não há uma condenação, tem de se prestar contas disso, mas, como se nota, quer as nossas instituições políticas, quer a sociedade não forçam essa discussão. Além disso, há uma série de situações e vários processos mediáticos, entre eles o do ex-primeiro-ministro, que se arrastam em nome de uma complexidade que não existe. Ou sabem de onde vem o dinheiro, ou não. Se não sabem, acabou. É diferente de um caso como o BES/GES, que só no Panamá tem 51 veículos, o que demora e exige capital humano, Não sei quantos procuradores têm formação para olhar para 51 veículos e perceber como aquilo funciona.

 

Todos percebemos que, quando há uma aranha de 51 veículos, um leigo olha e não entende.

 

Essa é outra questão, o Ministério Público está preparado para estes casos?

Voltamos ao princípio: como é que ao fim de dez anos não há uma unidade dentro do Ministério Público com formação nesta área? Todos percebemos que, quando há uma aranha de 51 veículos, um leigo olha e não entende. Mas há especialistas que sabem. Porque é que o Ministério Público não pôs um, três, cinco procuradores a ter formação? A agravar, temos uma lei de prescrição extraordinariamente favorável aos arguidos. Há ainda a questão da coordenação com o Banco de Portugal, com as agências de regulação, com as Finanças, que faz com que o Ministério Público se queixe de que está à espera que a outra instituição faça a investigação da parte tributária ou da parte regulatória.

 

Em Portugal, grande parte dos casos transforma-se em megaprocessos. É prático ou útil?

Esta estratégia do Ministério Público é chocante. Em Espanha, o ex-vice-presidente do governo do PP, Rodrigo Rato, que já tinha deduzida a acusação em dois processos, vai a tribunal enquanto outros processos, todos relacionados, continuam a correr. É acusado de gestão danosa num processo, de uso fraudulento de cartões de crédito noutro, de fraude fiscal noutro, mas cada um vai a julgamento na sua fase. A estratégia de querer levar a pessoa a tribunal por tudo ao mesmo tempo faz com que tudo prescreva e acabe por não ser condenação por nada.

 

Quem pode mudar isso?

Terá de ser sempre um acordo entre os partidos. Não há outra forma de mexer no Ministério Público, porque se for uma tentativa de quem está no governo, quem está na oposição vai fazer o discurso habitual de que estão a interferir.

 

O facto de a Assembleia da República ter uma maioria de deputados advogados, é positivo ou negativo?

Isso até poderia ajudar, porque percebem o problema do ponto de vista jurídico e poderiam fazer a ponte entre o que a sociedade observa e a forma como o problema se resolve. Mas falta vontade, há medo de mexer no Ministério Público.

 

Encontrar uma solução é da conveniência dos escritórios de advogados?

Aí temos um problema: também não conseguimos regular o lobbying. Já tivemos tentativas, Pedro Lomba primeiro e agora o governo de António Costa disse que estava entre as reformas a fazer. Mas não é um problema fácil de resolver se os próprios deputados não forem exigentes e aquilo a que temos vindo a assistir é que não há exigência nenhuma.

 

 

Uma das propostas que circula, é que os advogados passem a apresentar ao parlamento a declaração de interesses, incluindo as sociedades de que são sócios ou clientes. É um passo no bom caminho?

Há muitas formas de fugir a isso, desde logo o advogado dizer que não é sócio, apenas associado ou consultor. Isto pode ir ao limite de se começarem a criar veículos para não se perceber quem é cliente de quem. E quando rebentar um escândalo em que se descubra que o advogado X é o tal, ele vai dizer que cumpriu a lei. Estas questões não se resolvem com legislação mais dura, resolvem-se com comportamento éticos.

 

A contratação pelo governo e entidades do Estado de advogados e escritórios de advogados quando têm os seus próprios gabinetes jurídicos faz sentido? Há até pareceres de uns contra os de outros…

No caso particular de Diogo Lacerda Machado, não vejo grande diferença com a contratação que Passos Coelho fez de António Borges, além do valor e do formato do contrato. São pessoas que não estão a tempo completo no Estado, acumulam com actividade privada, mas representam o Estado em processos muito complicados. Evidentemente que se criam todo o tipo de questões de conflito de interesses, de confidencialidade, de defesa dos interesses do Estado. Mas isto radica em várias questões: o Estado, nesta altura, já não tem os melhores recursos humanos na área do mundo jurídico.

 

Porquê?

Porque deixou desfazer-se deles nos últimos 20 anos. Podemos ter a teoria da conspiração, dizer que isso foi feito para favorecer os escritórios. Não sei se foi feito conscientemente, até acredito que não, com muita incompetência e laxismo pelo meio. Mas se o Estado deixar de contratar pareceres tem um problema, porque não tem arsenal jurídico para ganhar processos, para estar bem representado em negociações. Por outro lado, as sociedades de advogados estão numa zona cinzenta, fazem advocacia, mas também fazem lobbying, que não está regulado. Misturam-se as duas coisas e criou-se a palavra facilitador. É muito difícil desmanchar isto, porque é uma prática de negócio instalada.

 

Nos últimos anos, e é escandaloso, já não é só legislação complexa que vai para os escritórios de advogados, são as portarias ministeriais, o que é inconcebível.

 

Os escritórios podem, ou devem poder fazer tudo?

O Estado começou por dizer que há legislação de tal maneira complexa que é melhor pedir a especialistas. Até aí, todos de acordo, os códigos, no tempo do Estado Novo, também foram feitos por ilustres catedráticos de direito penal ou de direito civil. Mas essa legislação hoje é dada aos escritórios sem qualquer obrigação de, por exemplo, estes não exercerem advocacia nessa área durante dois ou três ou quatro anos e começámos a ver que enquanto o sétimo andar faz a legislação, o oitavo já está a aceitar os clientes. Não pode. Nos últimos anos, e é escandaloso, já não é só legislação complexa que vai para os escritórios de advogados, são as portarias ministeriais, o que é inconcebível.

 

Como contrariar esta tendência?

Defendi algumas medidas numa sessão em que estava o actual primeiro-ministro, que espero que tenha ouvido e faça alguma coisa. Uma das primeiras, seria o Estado criar uma unidade central que faz a adjudicação e que começa a filtrar e a dizer o que pode ou não ser feito fora: portarias não, alterações à Lei-orgânica não… Há escritórios a fazer leis orgânicas, que são para ser feitas pelos serviços jurídicos dos ministérios. E a unidade central, se for bem estruturada, também está em condições de negociar os honorários com as sociedades de advogados de maneira mais favorável ao Estado, em vez de serem os vários ministérios, secretarias de Estado, câmaras e governos regionais cada um por si. É por isso que vamos ao portal dos contratos públicos [Portal BASE] e ficamos espantadíssimos com os valores brutais. Mas isto são tudo paliativos.

 

O Banco de Portugal tem os seus serviços jurídicos cheios de gente, fazer as resoluções bancárias nos escritórios de advogados é uma coisa que não se percebe.

 

E a resolução do problema?

A resolução é complicada. O Estado teria de fazer um investimento a dez anos e recuperar quadros jurídicos que acabassem com esta situação. Devo dizer que ter escritórios de advogados praticamente montados nas instituições do Estado não é uma situação comum noutros países europeus. O Banco de Portugal, por exemplo, fazer outsourcing das sociedades de advogados da sua própria litigância, é uma situação que não acontece nos outros países da Europa. O Banco de Portugal tem os seus serviços jurídicos cheios de gente, fazer as resoluções bancárias nos escritórios de advogados é uma coisa que não se percebe. No entanto, não passou pela cabeça de ninguém dizer que os escritórios que fazem resolução bancária estão inibidos de praticar direito bancário durante os próximos cinco anos. Há aqui um conjunto de conflitos de interesse que são óbvios, mas de difícil resolução.

 

Falou em ética. E quando não há ética, ou quando a sua ética é diferente da minha?

Podemos fazer leis mais estreitas em relação aos períodos de nojo, por exemplo, mas se as pessoas quiserem dar a volta à lei continuam a fazê-lo. O problema é que a sociedade portuguesa não é muito exigente. Não vale a pena falar em nomes populares, mas há várias pessoas que publicamente se fazem facilitadores e continuam aí sem qualquer problema social, já nem digo legal ou de outra natureza, em vez de ficarem afastadas durante anos.

 

Provavelmente, Maria Luís estava errada, como esteve Maria de Belém, como esteve Manuela Ferreira Leite

 

Falta-nos maturidade?

Quando se colocou a discussão de Maria Luís Albuquerque ir para a Arrow Global, um dos argumentos do PSD e da direita mediática foi que havia o caso de Maria de Belém na Espírito Santo Saúde e de Manuela Ferreira Leite no Santander. Ou seja, o argumento não foi se pode ou não e por que motivo, mas sim é aceitável porque outro já fez. Isto é um argumento de recreio, da mãe a quem os filhos respondem «o meu irmão bateu-me primeiro». Provavelmente, Maria Luís estava errada, como esteve Maria de Belém, como esteve Manuela Ferreira Leite e esta dinâmica reflecte alguma falta de maturidade da nossa sociedade nestes assuntos.

 

Premiar e punir, os portugueses têm dificuldade em tomar decisões?

Penso que sim, com consequências que, a prazo, podem ser complicadas. Se olharmos para Itália ou para Espanha, e falo nestes países porque têm muitas parecenças com Portugal, há um antes e um depois. No caso italiano há o antes e o depois de 1992 e, apesar de haver muita corrupção, há muita gente punida. Em Espanha, há um antes e um depois de 1996, também com muita corrupção, mas muita gente punida. O nosso problema é que ainda estamos no antes e não há meio de chegar ao depois. Mesmo os processos mediáticos são estranhíssimos porque, em geral, ao contrário do caso italiano e espanhol, são processo pessoais, nunca são partidários.

 

quero perceber como é que um primeiro-ministro pode, segundo o Ministério Público, estar envolvido em branqueamento de capitais e em corrupção sem que isso envolva outros altos cargos do partido

 

Como se alguém pudesse agir sozinho o tempo todo?

Nunca está em causa o financiamento dos partidos, por exemplo. Em relação ao processo do ex-primeiro-ministro, estou com algum interesse em ver como é que vai acabar, porque quero perceber como é que um primeiro-ministro pode, segundo o Ministério Público, estar envolvido em branqueamento de capitais e em corrupção sem que isso envolva outros altos cargos do partido. Isso não foi possível no Partido Popular Espanhol, não foi possível no PSOE, não foi possível em partidos italianos. Em Portugal acontece. O nosso sistema está a dar os primeiros passos, fazem-se acusações a pessoas, mas nunca se põe em causa mais nada e isso mostra, mais uma vez, que não há exigência da sociedade.

 

Ninguém viu…

Ninguém viu, ninguém sabia. Dou um exemplo que descreve o país político: nas suas memórias, o professor Cavaco conta que no princípio dos anos 90, na comissão política do PSD, era Dias Loureiro secretário-geral, quando se falava de financiamentos ele [Cavaco] saía da sala. Ou seja, saiu da sala, não há responsabilidade. E isto é ainda em 2016 a forma de pensar: saí da sala, não vi nada, não sei nada, não sou responsável. Mas toda a gente sabe que alguma coisa se passa ali, toda a gente desconfia.

 

um conjunto de elites que começa a ter um problema (...) como fazem vida meramente partidária, não estão integradas nos grupos mais inovadores da sociedade e, por isso, não há ideias

 

Ainda há elites em Portugal?

Havemos de ter sempre elites, o que temos é umas elites muito depauperadas economicamente e um conjunto de elites que começa a ter um problema – não quero dizer que as elites políticas estão mal preparadas -, que se nota mais à direita do que à esquerda, que é o profundo fosso entre as lideranças partidárias e as elites nas outras áreas do saber. Há 30 anos as pessoas tinham carreiras empresarias, académicas, na cultura ou outras. Havia uma fluidez entre as várias elites que hoje não há. Hoje, como fazem vida meramente partidária, não estão integradas nos grupos mais inovadores da sociedade e, por isso, não há ideias. Não havendo ideias, temos powerpoints de dez folhas sobre a reforma do Estado em que a única coisa que se apresenta são cortes.

 

Não vê ideias à direita. E à esquerda?

A esquerda sempre teve uma atitude diferente. Na minha opinião, tem outro tipo de elites. Também tem as académicas, um pouco à volta do ISCTE, do ISEG, mas sempre teve outro tipo de recrutamento.

 

Para pensar reformas como o cartão da cidadania?

O Bloco de Esquerda e o Partido Socialista são a mesma coisa. O Bloco de Esquerda apoia este governo, portanto, tem um problema: porque é que alguém da esquerda não comunista vai votar no BE em vez de votar António Costa nas próximas eleições? E tem de arranjar argumentos, encontrar questões fracturantes. O cartão da cidadania não lhes correu bem porque é um disparate autêntico. O cartaz de Jesus Cristo também não correu bem, foi outro disparate.

 

O Bloco não tem câmaras, não tem sindicatos, não tem associações, precisa de viver da Comunicação Social. Para isso, precisa de ideias chamativas. Nesse aspecto, é o siamês do CDS.

 

Hão de chegar lá?

Têm de chegar lá. Só o discurso de 'nós somos a favor da renegociação da dívida' não chega para distinguir o BE do PS. A partir de certa altura tem de haver outras propostas para ir buscar eleitorado. O Bloco é um partido especial, as pessoas comparam-no com o Podemos, mas não tem nada a ver. O Podemos é um partido que, tirando Pablo Iglesias e duas ou três pessoas à sua volta, só tem gente vinda de movimentos sociais, de rua, ocupas, antiglobalização, com raízes em áreas sociais importantes e com expressão eleitoral. O Bloco de Esquerda é um partido de elites, fundamentalmente de intelectuais e de académicos, talvez com excepção de Catarina Martins, que é actriz. Isso cria um problema ao BE, que é não ter uma base eleitoral fixa, como tem o Partido Comunista. Bem pode dizer-se que o PC precisa de uma cara feminina, mais bonita ou mais feia, mas tem ali 400 mil votos fixos – as presidenciais não correram bem, mas quando chegarem as legislativas a máquina do PC vai trabalhar a sério, o aparelho vai funcionar. O Bloco não tem câmaras, não tem sindicatos, não tem associações, precisa de viver da Comunicação Social. Para isso, precisa de ideias chamativas. Nesse aspecto, é o siamês do CDS.

 

A história do CDS não é famosa…

Não sei. Portas pegou num partido de 8% e transformou-o num partido de 12% com quatro ou cinco ministros e vários secretários de Estado. O CDS, de cima a baixo, está cheio de lugares no Estado. Para eles foi bem-sucedido. Outra coisa é a mensagem ter ficado pelo caminho, aí o Bloco tem o mesmo problema. A minha ideia é que o Bloco pretende chegar aos 15% nas próximas eleições para poder negociar uma coligação formal de governo com o PS. Nesse caso, o PC não será preciso para nada.

 

(...) o meu prognóstico é que se Passos aguentar até lá, pode morrer na noite das autárquicas, porque vai ter uma situação muito complicada em Lisboa e no Porto, em Sintra, na Amadora, em Gaia, tudo grandes concelhos

 

 

Temos que assumir que as agências de regulação não servem para nada e que, para fazerem o que fazem, mais valia serem direcções gerais

 

Voltando um pouco atrás, quais deviam ser as reformas estruturais do Estado, além da justiça?

Devíamos fazer reformas muito sérias na área da regulação. Temos que assumir que as agências de regulação não servem para nada e que, para fazerem o que fazem, mais valia serem direcções gerais, porque ao menos poupávamos em salários. É preciso pensar para que servem, porque temos uma série de fracassos em sectores das agências de regulação. E, para discutir isto, temos de saber qual é o papel do Estado na economia. Depois, há a questão da reforma do Estado, a reforma da administração pública, das carreiras da administração pública e dos departamentos do Estado, do seu funcionamento.

 

Isso inclui reformar o poder local?

Seria importante pensar a questão das autarquias, fundir e diminuir o número de câmaras. E devíamos deixar-nos de bairrismos e de regionalismos bacocos e pensar que a legislação que governa a Câmara de Lisboa não pode ser a mesma que governa a Câmara de Redondo, porque uma câmara que tem 700 mil habitantes não pode estar sujeita às mesmas leis que uma câmara que tem 3 mil habitantes. Concebo até processos que criem autarquias diferenciadas: municípios de primeira e municípios de segunda. Se é feito com regiões pelo meio, não sei, mas tem de se fazer a discussão e avançar. O mapa de autarquias que temos hoje é do século IX, não faz sentido.

 

Falou na regionalização, é a favor ou contra?

Esta questão liga-se à do discurso politicamente correcto sobre a desertificação do interior. Podíamos pôr a pergunta ao contrário: a despovoação é um problema porquê? O que estamos a fazer agora é investir recursos para fixar populações que não se fixaram, que estão envelhecidas. O conjunto de infra-estrututras disponibilizado à população do interior é muito melhor do que era há 20 anos, mas todas aquelas populações não produzem riqueza para pagar esses equipamentos. Mas alguém vai ter de os pagar. Esta é a discussão que temos de ter, em vez de continuar a fazer paliativos e a discutir subsídios e isenções fiscais. É preciso pensar em qual é o problema e como o queremos resolver.

 

Isso vai bater em outras questões, como a da mobilidade ou até da educação.

Sim, o distrito de Lisboa tem uma taxa de desemprego razoável, o distrito de Leiria está entre os que têm o mais baixo desemprego. Em alguns sectores do distrito de Leiria falta mão-de-obra, mas as pessoas não se deslocam de Lisboa para Leiria, que está a hora e meia de distância. A mobilidade vai entroncar na questão da casa própria, no facto de se ter financiado e beneficiado a aquisição de casa própria – agora as pessoas têm hipotecas e ainda por cima não sabem se as casas valem isso.

 

Os assuntos não são discutidos de forma integrada…

O que acontece é que os partidos políticos, quando estão na oposição, não estudam estas questões. Chegam ao poder, fazem uns grandes anúncios e depois é que começam a estudar. Quando chegam ao fim da legislatura, foi tudo avulso. Agora, temos o país parado a discutir as escolas e os contratos de associação, que se referem apenas a 3% do ensino privado. Parece uma batalha final sobre o ensino público e privado.

 

Sobre desempenho, sobre se os contratos de associação ajudam ou não a equidade, se é verdade que isto favorece as classes médias/altas ou integra as baixas, zero.

 

A questão não é importante?

Cada um muda de lado conforme os interesses. Em 2013, quando os contratos de associação foram discutidos, no tempo de Nuno Crato, era a esquerda que dizia que era o fim do ensino público e a direita que argumentava que era um número mínimo de escolas. Agora, a direita diz que está a ser posto em causa o ensino e o PS e a esquerda dizem que é um número mínimo de escolas. Não há um debate coeso e consequente. Há o relatório do Tribunal de Contas, o relatório da OCDE, existe supostamente um estudo do Ministério da Educação e não há mais nada. E, o que há, tem a ver com custos. Sobre desempenho, sobre se os contratos de associação ajudam ou não a equidade, se é verdade que isto favorece as classes médias/altas ou integra as baixas, zero. É tudo discussão preconceito. Mas é assim na saúde, na segurança social…

 

A FFMS tem tido uma importância crescente na produção de estudos e no lançamento de debates públicos. Deixa a presidência da fundação antes da data prevista. Porquê?

O mandato são cinco anos, terminava em 2019, mas colocou-se a questão de a Universidade querer o meu regresso e essa é a minha carreira prioritária. Mas penso que já fiz o que tinha a fazer, a fundação arrumou a casa e está em boas condições de começar um novo ciclo.

 

Uma fundação não costuma ter tantos presidentes como a esta já teve até aqui…

Esta fundação também é um tanto ou quanto peculiar.

 

É especial de corrida?

Vamos pôr assim, nos múltiplos sentidos de especial de corrida.

 

Ver também:

 

"Só há uma pessoa dentro do PSD que pode ter um projecto e uma dinâmica ganhadora a prazo: Carlos Moedas"

 

"Os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso"

publicado às 02:06

Como a América irá por ordem no mundo (se Trump for presidente)

Por: José Couto Nogueira

 

Existe, indubitavelmente, a possibilidade de Donald Trump ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. Embora abundem as paródias sobre “o Donald” (como lhe chamam os desafectos), e apesar de os seus comícios serem cada vez mais tumultuados, com cenas de pancadaria e demonstrações inequívocas de racismo, não há como ignorar que Trump tem ganho sistematicamente as primárias do seu partido e, não acontecendo um milagre, ou uma catástrofe, será o candidato republicano às presidenciais de Novembro.

 

Mesmo que os comentadores – e uma maioria do eleitorado, segundo as últimas sondagens – considerem a vitória improvável, a realidade é que pode acontecer. Entretanto, Trump, entre uma piadola machista e um comentário racista, tem vindo a aperfeiçoar o discurso, isto é, a apresentar o que será a sua politica como Presidente. Na sexta feira passada deu uma longa entrevista telefónica ao “New York Times” em que expôs de modo mais coerente qual será a sua postura na arena mundial. Pode ter dito coisas surpreendentes, mas não fez declarações disparatadas. Ou seja, temos agora uma noção mais próxima do que acontecerá no mundo em que Mr. Trump será Mr. President.

 

As afirmações mais inesperadas foram certamente sobre a questão da dependência petrolífera dos Estados Unidos em relação aos países produtores, especialmente a Arábia Saudita. “Se não fosse a protecção norte-americana, acho que a Arábia Saudita já teria desaparecido”, afirmou. Portanto a sua ideia é fazer-se pagar por essa protecção, invertendo a equação: ou os sauditas entram com tropas na luta contra o Califado Islâmico, ou os Estados Unidos deixam de lhes comprar petróleo. Além disso, quer ser reembolsado pelas despesas militares na zona, uma vez que a instabilidade provocada pelos radicais afecta sobretudo os estados produtores.

 

Esta forma economicista de fazer prevalecer o domínio norte-americano, aplica-a ele também a outras situações. Por exemplo, está disposto a permitir que o Japão e a Coreia do Sul construam os seus arsenais nucleares próprios, em vez de dependerem dos EUA; e exigirá pagamento para a manutenção das suas forças militares nos dois países.

 

Ou pagam, ou defendem-se sozinhos

 

Diz Trump que o poder americano se diluiu em muitos tratados – com é o caso da defesa do Japão – que constituem uma enorme despesa e que terão de ser renegociados em condições económicas mais vantajosas. Apesar de não definir objectivos estratégicos, quer reequacionar os actuais mediante uma espécie de chantagem: ou os parceiros pagam, ou se defendem sozinhos. Também é o caso da NATO, que é quase totalmente subsidiada pelos Estados Unidos, não só em forças militares disponíveis como em equipamento e outras despesas. Para ele, a NATO como está não faz sentido, pois uma guerra tradicional não se apresenta no horizonte; deveria reconverter-se como força anti-terrorista.

 

Estes pontos de vista representam uma mudança de 180 graus na politica histórica dos Estados Unidos. Não se percebe até que ponto Trump tem a noção das dificuldades internas que teria para levar a cabo tal mudança.

 

Quanto ao expansionismo territorial chinês – a China presentemente disputa algumas ilhas do pacífico – também pretende combatê-lo através de sanções económicas. Os chineses dependem maioritariamente do mercado norte-americano e basta uma ameaça de que esse mercado se restrinja para provocar uma crise de grandes proporções na China.

 

Estas politicas não só são originais – caso sejam possíveis – com divergem completamente das posturas republicanas tradicionais. É o próprio Trump que salienta: “Não sou internacionalista como Bush pai, nem pretendo espalhar democracia pelo mundo, como Bush filho. A minha politica é A América Primeiro.” Acrescenta que não é isolacionista, mas quer que os parceiros paguem a sua colaboração, com tropas ou fundos. A colaboração dependeria mais da atitude dos outros – amistosa ou hostil – do que dos interesses estratégicos deles.

 

De toda a entrevista, esta talvez tenha sido a afirmação mais sentido:, Trump revelou que agirá de modo imprevisível, porque a previsibilidade dos americanos tem facilitado a vida aos adversários dos americanos. Por exemplo, agiria em relação aos chineses, concretamente às suas pretensões sobre as ilhas do Mar do Sul da China, ameaçando como um aumento de tarifas alfandegárias, ou mesmo proibição de importar certos produtos, mas sem lhes fazer ver quais seriam as suas linhas vermelhas. Em termos de imprevisibilidade, é pouco.

 

Os Estados Unidos, diz Trump, atingiram a sua maior grandeza no princípio do século XX, quando o Presidente era outro republicano pouco convencional, Theodore Roosevelt. E os seus heróis são dois generais da II Guerra Mundial, George Patton e Douglas MacArthur – embora, surpreendentemente, não esteja de acordo com a decisão de MacArthur de bombardear atomicamente o Japão. Foi essa a outra grande surpresa da entrevista: Trump não é a favor de ofensivas nucleares e afirma que nunca será o primeiro a usar a bomba atómica.

 

O Donald já está a pensar à escala global

 

Também não é a favor de colocar tropas no terreno. Diz que prefere ameaçar do que fazer, e que seria essa a sua postura em relação, por exemplo, à Arábia Saudita. (O que não faz muito sentido, tanto porque lá se vai a imprevisibilidade como volta a necessidade de bombardear...) A sua preferência por militares também se aplica aos conselheiros que eventualmente escolherá: dois generais e um almirante, todos reformados.

 

Quanto à delicada situação dos Estados Unidos terem espiado toda a gente, inclusive dirigentes europeus, Trump evitou uma resposta conclusiva; acha normal que se espie os aliados, pois eles certamente farão o mesmo, mas não concorda que os serviços de espionagem tenham bisbilhotado o telemóvel de Ângela Merkel. A propósito, afirmou que a chanceler tinha feito muito mal em autorizar a entrada dos refugiados. Segundo ele, a Europa e os estados do Golfo deviam pagar para que se criassem áreas seguras dentro da Síria onde os refugiados viveriam até a situação se normalizar.

 

Sobre um tema que é sempre essencial a qualquer candidato presidencial, a situação de Israel e de Gaza, preferiu não se pronunciar. Terá que fazê-lo num futuro próximo mas é evidente que, enquanto puder, evitará o assunto. Apenas disse que é a favor da solução Dois Estados, desde que os palestinianos reconheçam a existência de Israel.

 

Nesta altura do campeonato, Trump demonstra uma postura precisamente contrária ao que diz, ou seja, isolacionista. Exactamente como Bush filho, antes do 11 de Setembro ter virado a política americana de cabeça para baixo. Além disso, em geral, Trump apresentou soluções que não parecem muito bem pensadas; seria difícil prescindir do petróleo do Golfo, ou sequer fazer bluff com a Arábia Saudita nesse ponto, por exemplo. Assim como seria difícil estabelecer barreiras alfandegárias para os produtos chineses, pois vai contra toda a politica de livre comércio que os americanos sempre defenderam. Muitas das decisões apresentadas por Trump – se não todas – teriam de passar pelo legislativo, e nada lhe garante que o Congresso aprove alterações tão radicais.

 

De qualquer modo, o Donald já está a pensar à escala global. Nessa escala, a maioria pensa que um Presidente Trump seria uma catástrofe de proporções bíblicas. Mas não é o globo que irá tomar essa decisão, chegado Novembro.

 

 

 

publicado às 16:30

E se Trump ganha?

Por: José Couto Nogueira

 

 

O Presidente dos Estados Unidos da América é considerado, com alguma razão, o Homem Mais Poderoso do Mundo. O que poderá acontecer se um megalómano ocupar o lugar?

 

Num ponto concordam os “anti-imperialistas” e os pró-americanos: o Presidente do “Império” e Comandante em Chefe das suas forças armadas tem poderes que se estendem do Pólo Norte ao Sul, e do Alaska à Austrália, passando pelos orientes (Próximo e Médio) e, fatalmente, pela Europa. Também tem influência, já agora, no padrão de vida de 322 milhões de norte-americanos.

 

Portanto não surpreende que as eleições para este cargo superlativo, marcadas para 8 de Novembro, suscitem interesse e ansiedade em todo o mundo. E também não surpreende que uma grande maioria de habitantes desse mundo esteja de cabelos em pé com a perspectiva de que ganhe um homem de estranhos cabelos cor de laranja e ainda mais estranhas ideias quanto ao que fará com o planeta.

 

No complexo sistema constitucional do país, a eleição do presidente é feita indirectamente por um Colégio Eleitoral de 538 representantes dos Estados. Para ser candidato a presidente também é preciso ser escolhido pelos delegados do seu partido, num processo semelhante: os delegados dum estado votam todos no candidato escolhido pelos eleitores do partido nesse estado.

 

Isto é importante para perceber como está a situação nesta altura, princípio de Março. Para conseguir a nomeação pelo Partido Republicano é necessário o voto de 1.237 delegados. Estas eleições, ditas “primárias” são feitas estado a estado, em datas diferentes, o que permite ir avaliando as possibilidades dos candidatos. Trump tem, até agora, 316 delegados, enquanto os senadores pelo Texas, Ted Cruz, tem 226, e o pela Flórida, Marco Rubio, tem 106. Os observadores consideram as próximas primárias de 15 de Março como a última oportunidade para parar Trump. Uma vitória de Rubio em seu Estado natal, a Flórida, levantaria questões sobre a força de Trump, assim como uma vitória de John Kasich, governador de Ohio.

 

Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

O Partido Republicano está muito dividido, e não apenas porque há vários candidatos, mas também porque os seus próceres – os senhores que tradicionalmente determinam quem vai enfrentar o democrata – têm sérias dúvidas de que Trump consiga vencer Hilary Clinton na eleição de Novembro. Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

Por outro lado, Trump tem uma agenda própria, errática, sem as preocupações estratégicas que os velhos republicanos consideram indispensáveis para ser viável. Por exemplo, Mitt Romney e John McCain já vieram publicamente afirmar que ele não é aceitável. Em termos simplistas, é muito mais à direita do que o conjunto do partido, ao mesmo tempo que tem propostas consideradas sacrílegas e delirantes pela filosofia republicana tradicional. A declaração mais recente (há declarações novas todos os dias) foi a aceitação do apoio dos grupos suprematistas brancos – as organizações que defendem a superioridade da raça ariana e querem eliminar (fisicamente ou por expulsão) todos os negros, hispânicos, muçulmanos e demais minorias. Estes grupos não só são moralmente inaceitáveis como politicamente inviáveis – ou seja, o apoio deles é uma espécie de beijo da morte para qualquer candidato. Mas é indiscutível que Trump tem muitos apoiantes e que, se nada se fizer, ganhará a candidatura.

 

Para nós, europeus, que temos outros problemas, receios e preconceitos, é difícil perceber porque Trump faz tanto sucesso. Dizer que os americanos são estúpidos, racistas, imperialistas, etc. é uma opinião ideológica que não explica nada. A opção por Trump tem a ver com angústias profundas da sociedade americana que se têm agudizado nos últimos anos a um nível quase paranóico.

 

Os conservadores – chamemos assim ao conjunto muito díspar de pessoas que consideram que os valores e a qualidade de vida estão seriamente ameaçados – sentem que o país já não lhes pertence. Aquele país ideal, que talvez nunca tenha existido mas sempre foi uma possibilidade, em que os imigrantes eram servis e invisíveis, o trabalho abundante, a diferença entre ricos e pobres ultrapassável – qualquer pobre poderia vir a ser rico – a homossexualidade não tinha direito de cidade e a criminalidade estava contida, esse país está a desmoronar.

 

Aquilo a que eles chamam de “valores” – as religiões cristãs, a família nuclear, a ascensão pelo mérito – estão a perder-se. No mundo, a América é desafiada pela China e achincalhada pela Rússia, e não consegue ganhar nenhuma guerra em que se mete; em casa, a criminalidade e a pobreza aumentam a olhos vistos, até o Presidente é negro e o Estado cada vez mais policial. Há uma sombra sinistra que se espalha pelo céu azul dos valores certos e estabelecidos, como que a anunciar o Armagedão.

 

Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia

 

Portanto, um homem que tem instintos básicos para identificar todos os perigos e fulminar todos os demónios, com instinto mediático e sem medo de dizer o que pensa, parece o redentor que vai afastar as dúvidas, o relativismo moral e os marginais que estão a destruir o país. Um homem que vai expulsar os indesejáveis que atulham o mercado de trabalho, falar de cima para baixo aos chinocas e comunistóides, e pulverizar os terroristas islâmicos que os querem matar a todos, violar as mulheres e obrigá-los a uma religião infame.

 

A outra variável que perturba os velhos republicanos é a falta de candidatos credíveis. Tanto Marco Rubio como Ted Cruz, os dois que ainda restam na corrida, são fracos. Têm os valores certos, mas não convencem. Rubio é um cristão devoto, quase medieval, com um discurso desactualizado que nem consegue ser percebido pela população urbana. Além disso já mudou de ideias em questões fundamentais, como a imigração, conforme pensa no que o eleitorado quer. Ted Cruz é detestado pelos seus colegas senadores, que o vêem como um manipulador barato cuja palavra não vale um caracol. Ou seja, por mais perigoso e impalatável que Trump seja, o establishement republicano não preparou a tempo nenhum outro candidato com massa crítica e ideias aceitáveis que lhe possa fazer frente.

 

Finalmente, há que levar em conta que os grandes financiadores do Partido Republicano são os irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos Estados Unidos (petróleo, produtos químicos, plásticos, etc), e Sheldon Adelson, dono de casinos no Nevada e em Macau. Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia. Embora Trump seja demasiado obsceno para os seus pontos de vista, certamente que preferem por os seus milhões nele perante o perigo doutro mandato democrata. Os republicanos mais moderados não se podem permitir a contrariar Koch e Adelson, que contam com mais de 50 por cento do financiamento do partido.

 

Pois é, o Partido Republicano está numa encruzilhada. O que quer dizer que os Estados Unidos também estão, uma vez que o equilíbrio entre os dois partidos tradicionais tem sido, há duzentos anos, o equilíbrio do sistema político. Se perder vergonhosamente, haverá uma hegemonia excessiva dos democratas, o que não é bom – os democratas também não são nenhuns santos, mas isso é outra conversa. Se ganhar, a terceira Guerra Mundial será uma possibilidade mais séria, para não falar nas iniquidades que ocorrerão nos Estados Unidos.

 

Então, se os Estados Unidos estão numa encruzilhada, o que será de nós, europeus, que também não estamos a saber governar-nos?

 

Num mundo ideal, todo o planeta poderia votar para a presidência norte-americana, já que lhe sofre as consequências.

 

O que vale é que a colonização da Lua está em andamento.

 

 

publicado às 10:22

Este país também pode ser para os mais velhos?

Por: Francisco Sena Santos

 

A campanha presidencial em curso nos Estados Unidos da América sugere uma questão: como é que em Portugal estamos a lidar com os nossos mais velhos? Seria possível, numa sociedade como a nossa, tão deslumbrada com o culto de quem é jovem e telegénico, como fica evidenciado no sistema mediático, termos um político que no alto dos seus 74 anos seja um ídolo dos jovens? Acontece na América, com Bernie Sanders.


Este homem, candidato à sucessão de Obama na Casa Branca, aparece como um Dom Quixote frente aos moinhos de vento das elites da finança de Wall Street e da política de Washington. A mensagem dele é poderosa para jovens que perderam a esperança de ter esperança e assenta num ingrediente genuinamente americano: “está nas nossas mãos conseguirmos”.

 

Numa América desde sempre alérgica a qualquer influência marxista e onde falar de socialismo remete para a velha União Soviética, Bernie Sanders assume-se socialista. É facto que está sempre a explicar que entende o socialismo como um modelo social-democrata como o que funcionou nos países escandinavos. Mas ousa propor uma “revolução política” com medidas radicais na América onde prolifera a injustiça social: cuidados de saúde garantidos para todos, estudos superiores gratuitos, investimento maciço na criação de emprego decente, progressividade fiscal e aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. Fica, no entanto em silêncio sobre o divisivo tema da posse por quase todos de armas de fogo.


Bernie Sanders, com a cara cheia de rugas, óculos espessos, cabelo branco, velho leão solitário da esquerda americana, surge nesta campanha americana como ícone do progressismo democrático contemporâneo: ele faz a ponte entre a contra-cultura dos anos 60 e 70 do século XX e os novos movimentos de protesto nascidos com a agitação de Occupy Wall Street. Discursa com grande ferocidade moral. Não deixa de ser agreste com os jornalistas quando estes lhe colocam perguntas que ele considera frívolas. É aclamado pelos apoiantes – que vestem t-shirts onde se lê I love you Bernie, A future to believe in ou Feel the Bern - como se fosse uma estrela rock.


A eleição presidencial nos Estados Unidos decide-se no próximo 8 de novembro. Até ao verão, os dois grandes partidos políticos dos EUA, o Democrata e o Republicano, apuram em primárias, em cada um dos 50 estados, a escolha do seu candidato para a finalíssima em novembro.


É bem provável que o lado republicano (o que se coloca mais à direita, o partido que foi de Reagan e é dos Bush) chegue à convenção marcada para 18 a 21 de julho, em Cleveland, sem que algum dos aspirantes (Trump, Cruz, Rubio, Bush ou outros) se imponha à partida. Adivinha-se que ninguém tenha maioria absoluta de delegados. A ser assim, será uma convenção republicana aberta de resultado muito incerto, como não acontece há décadas.

 

Há que não menosprezar Donald Trump, o candidato multimilionário com os seus 70 anos disfarçados pela maquilhagem. Ele é, tal como Sanders, um candidato contra o sistema. Ambos estão a divertir-se nesta campanha. E o insurgente Trump, apesar do seu machismo e da rudeza do seu discurso populista e xenófobo, nem será entre os candidatos republicanos o que poderia provocar maior caos se fosse eleito. Os outros não expõem tanto o ridículo mas cultivam mais a divisão.


No campo dos democratas, Hillary Clinton partiu superfavorita: no verão passado, as sondagens davam-lhe mais de 60% das intenções de voto enquanto Bernie Sanders não chegava aos 10%. As primárias começaram neste fevereiro e Bernie Sanders tornou-se a surpresa: empatou com Hillary no Iowa e impôs-se com enorme margem (20%!) no New Hampshire. Sabia-se que Sanders estaria em casa neste pequeno estado próspero no nordeste, mas não se esperava um triunfo tão claro. Uma vitória assim robusta pode fazer embalar o apoio a Sanders, permitir-lhe ampliar a emoção em torno da candidatura e mexer com as previsões favoráveis a Hillary nas próximas duas primárias, no Nevada e na Carolina do Sul. Mas é improvável que Sanders possa resistir ao aparelho de Hillary na “super terça-feira” 1 de março, com 12 eleições primárias. Sabe-se que Hillary tem de há muito vantagem no voto negro e hispânico. Então, a mulher do ex-presidente Bill Clinton tenderá a descolar e a impor-se na corrida do lado democrata.

 

Tudo ainda pode acontecer, com Bernie a beneficiar de novas formas de mobilização política e de financiamento participativo, mas é pouco provável que sequer consiga aguentar até ao verão um ombro a ombro com Hillary. No entanto, o efeito Bernie Sanders pode ser devastador para a candidata: mostrou como ela tem falta de idealismo mobilizador. Ele, Bernie, aparece como uma pessoa autêntica, imagem que não cola à figura de Hillary, uma acrobata política, uma política de um sistema que gera uma grande vaga de hostilidade.


No meio de toda esta indefinição, pode ainda vir a surgir Michael Bloomberg, o multimilionário liberal, ex-mayor de Nova Iorque, a apresentar-se como o independente, moderado, que consegue atrair e juntar pedaços da América exasperada que não se revê em nenhum dos candidatos. Pode vir a tentar impor-se como o centro de uma América moderna.


Tudo está em aberto nesta eleição do sucessor de Obama. É possível que o impacto da crise de 2008-2009 sobre o imaginário de uma parte da América esteja a abrir uma brecha no ciclo político. Por agora, a estrela é Bernie Sanders.


Voltando ao princípio: seria possível, no actual sistema social português, um homem com 74 anos e que se assume veterano conseguir desencadear uma onda emocional com assim vasta mobilização dos sub-30?

Também a ter em conta

A morte de Antonin Scalia, o falcão mais ultra-conservador entre os nove juízes no Supremo Tribunal dos Estados Unidos abre uma batalha política em que Obama tenta virar a balança do Supremo a favor do lado progressista. Scalia chegou ao Supremo, com nomeação vitalícia, por Reagan, em 1986. Até agora o Supremo americano, comparável a um tribunal constitucional, tinha quatro juízes conservadores, quatro progressistas e um, Anthony Kennedy, cujo voto oscilava entre os dois campos. A escolha pode mudar a decisão política nos Estados Unidos.

O papa Francisco em Chiapas, diante de 100 mil indígenas, pede-lhes perdão pelo modo como são “sistematicamente excluídos da sociedade” e “expostos à cultura que tenta suprimir-lhes a cultura”.

A praia da Salema, no Algarve, entre as melhores do mundo na lista do The Guardian.

Uma primeira página escolhida hoje entre as reproduzidas pelo SAPO JORNAIS. E também esta. E como será a vida futura de tantos milhões de crianças e adolescentes sírios que cresceram a testemunhar a devastação e a fugir ao inferno?

publicado às 07:57

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D