Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Demagogia é…

Por: Pedro Rolo Duarte

Quando era adolescente, havia nos jornais (e nos pacotes de açúcar?) uns casais de bonecos com um ar vagamente pateta que acompanhavam frases - igualmente tolas, na maioria dos casos - sob o genérico “Amor é…”.

 

Nas últimas semanas lembrei-me deste casalinho, mas por motivos um pouco mais sérios. Por exemplo, a polémica a respeito das novas taxas de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), que levou, no limite, a líder centrista Assunção Cristas a afirmar, no Facebook, que “O sol já paga imposto! Parece inacreditável, mas é mesmo verdade: as casas com boas vistas ou exposição solar, independente da localização ou do rendimento do proprietário, passam a ter o IMI agravado”. A ignorância da deputada já vinha a queimar mato nas redes sociais, com todo o estilo de gozos, críticas, e um coro indignado e revoltado.

 

Pois bem…

 

Demagogia é… vir dizer que “O Sol Já paga imposto”, quando a lei que agora se discute é de 2007 (por acaso também de um governo socialista, o de José Sócrates…), tem 13 itens sobre “qualidade e conforto”, e a única novidade que o actual governo introduziu foi reajustar (bem ou mal, é outra discussão…) as taxas, aumentando nuns casos, diminuindo noutros…

 

Demagogia é… virem os proprietários que vendem e arrendam casas por valores que variam conforme a exposição solar ou a vista, a varanda ou a localização, indignarem-se agora com um imposto que avalia os imóveis da mesma forma que eles próprios os avaliam. Para os donos, o preço pode subir porque os seus apartamentos têm vista - para serem taxados, não gostam da ideia. Dois pesos, duas medidas.

 

Mas há mais: é que nestas semanas também se tem falado muito das viagens a França, por ocasião do Euro 2016, que a GALP pagou a alguns membros do Governo, e que pôs meio mundo a exigir a demissão dos “beneficiados”. Sem dúvidas o afirmo: no lugar do Secretário de Estado Rocha Andrade, que é politicamente responsável por um conflito de milhões que a petrolífera deverá ao fisco, nem hesitava na demissão. Mas já sabemos que na política nem todos seguem o mesmo código de conduta ético e moral…

 

De qualquer forma…

 

Demagogia é… Fazer deste caso uma bandeira da moral e dos bons costumes, quando quase todos os jornalistas, directores de jornais, administradores, editores, em lugares relacionados com as empresas que têm orçamentos para estes convites, ou que são anunciantes dos meios, passam a vida nos camarotes dos estádios de futebol em jogos cujos bilhetes não são “low cost”, em viagens pagas a todos os cantos do mundo, nas zonas VIP dos Festivais de Verão, em almoços e “eventos” recheados com presentes de toda a espécie.

 

Demagogia é… Os mesmos políticos que pedem agora cabeças a rolar no Governo, terem, no passado, quando governavam, aceitado o mesmo tipo de convites, viajado a expensas de empresas e grupos de empresários. Muitos deles, agora em companhias privadas (com quem antes se relacionaram enquanto governantes), continuam a sentar-se nos camarotes reservados.

 

E sem querer dramatizar o que é, em si, um drama maior, demagogia também é associar a calamidade dos incêndios a um Governo ou a um ministro. Ninguém, no seu perfeito juízo, quer ver Portugal a arder. O tema não devia servir de arma de arremesso político. Além de demagógico, é infeliz. O momento é de unir, não de dividir.

 

A carinha apatetada dos bonecos do “Amor é…” é a mesma que qualquer um de nós pode fazer perante estes “escândalos”, e este drama maior. Ainda que, como no amor, por detrás destas aparentes patetices, estejam assuntos muito sérios que ajudam a explicar o verdadeiro estado da Nação.

 

Talvez possa rematar assim: “Demagogia é… amar o próximo quando é conveniente. E dizer que nunca se amou quando a conveniência se torna muito inconveniente”.

 

 

Para ouvir esta semana…

 

E talvez ler também: aqui pode saber tudo o que há para saber sobre a morte, aos 81 anos, de Marianne Ihlen, a mulher que inspirou canções de Leonard Choen como a clássica "So Long, Marianne”. As canções, os links, os testemunhos, um excelente trabalho de rádio com extensão digital…

 

A “Mojo” é talvez a mais interessante revista sobre música pop/rock que se publica na Europa - por ser simultaneamente actual sem esquecer o passado. Isto, se ainda considerarmos que o Reino Unido pertence à Europa…

 

“Brexists” à parte, a “Mojo” está viva e recomenda-se, no meio do pandemónio de falências e insolvências que assola o mundo dos media. Neste mês de Agosto, está à venda a sexta edição de uma das suas marcas laterais: a “Mojo’60", uma revista trimestral sobre a música dos anos 60. A capa desta edição é dedicada a Jimi Hendrix, do Verão de 1966 até ao final de 1967. Uma revista nostálgica, mas cheia de boa música…

 

As eleições nos EUA também chegam à música - a revista Rolling Stone revela esta semana um video com uma versão de "Born in the USA”, de Bruce Springsteen, interpretada pelos Arcade Fire em Ontário, no WayHome Festival. Ainda que seja no Canadá, a revista interpreta o facto como um sinal de oposição à eleição de Donald Trump. Seja ou não, vale a pena ouvir…

 

 

publicado às 10:10

Desta vez, Trump escolheu como inimigos aqueles que a América nunca questiona

Por: José Couto Nogueira 

 

Os últimos dias têm sido dramáticos para o superlativo Donald Trump. Não admira, pois o candidato republicano, sempre pronto a atacar, desta vez meteu-se com um grupo sagrado para toda a sociedade americana: os veteranos de guerra.

 

 

Mesmo os liberais, os democratas e todos os perigosos esquerdistas que polulam nos Estados Unidos – segundo a opinião de Trump e os noticiários da Fox – respeitam os homens e mulheres das Forças Armadas que combateram nas guerras ou nos conflitos armados em que o país tem estado continuamente envolvido. Até os pacifistas, que acham a opção pela carreira militar uma péssima ideia, consideram que os militares que deram o corpo às balas transformaram a má escolha num acto que merece respeito. Quanto aos que morreram em combate, esses são os heróis, e as suas famílias recebem uma deferência muito especial. Nunca está em discussão a justeza ou justificativa dos conflitos; quem combate faz parte dos “nossos rapazes”, daqueles que se voluntariaram para o “último dos sacrifícios”.

Se é assim para os liberais, imagina-se como será para os conservadores, fundamentalistas, militaristas e de direita; os militares são a nata, a glória, os melhores dos melhores.

 

Tudo isto para mostrar a extensão da calamidade que foi a atitude de Trump, num país que possui uma enorme e poderosa máquina militar, com mais de um milhão e meio de voluntários (não há serviço militar obrigatório).

 

Tudo começou quando, no palco da Convenção do Partido Democrata,  se apresentou um casal, Khizr e Ghazala Khan, cujo filho, o Capitão Humayun Khan, morreu em combate no Afeganistão em 2004 e recebeu o “Purple Heart” e a “Bronze Star”. Os Khan vieram dar testemunho de que se pode ser muçulmano e patriota, uma tese defendida pelo Partido Democrata, em oposição à tese trumpista/republicana de que todos os muçulmanos são terroristas ou, pelo menos, suspeitos.

 

Humanayun veio dos Emirados Árabes com os pais quando tinha dois anos e é o mais graduado dos 14 militares muçulmanos mortos em combate na década seguinte ao ataque às torres gémeas. O pai, Khizr, falou do orgulho que a família sente pelo filho e terminou com a afirmação que o tinha levado ali: “Se fosse pelo Sr. Trump, o meu filho nunca teria vindo para América.”

 

A resposta de Trump não se fez esperar; numa entrevista radiofónica insinuou que a esposa, Ghazala, tinha ficado calada durante o discurso do marido “porque se calhar não tinha licença para falar”. No dia seguinte, uma carta assinada pelas famílias de onze mortos em combate considerou as considerações de Trump “repugnantes” e “moralmente ofensivas”. Ghazala Khan disse à ABC News que estava angustiada de mais para dizer alguma coisa: “(Perder um filho) é o maior sacrifício que se pode fazer por um país; Trump não sabe o que é um sacrifício desses”.

 

Donald, que tem por hábito ter sempre a última palavra, não desarmou: “Acho o Capitão Khan um herói, mas fui atacado com malícia, e nunca deixo de responder. E tenho feito muitos sacrifícios por este país”. Quais, perguntou o entrevistador. “Sempre trabalhei muito, criei dezenas de milhares de empregos, construí grandes estruturas”.

 

Hillary Clinton não podia perder esta deixa e não perdeu: “Donald Trump não é um candidato normal. Não está emocionalmente preparado".

 

Que os democratas aproveitem a crise provocada pela reacção de Trump, não surpreende. Mas as redes sociais começaram a fazer troça e, num outro sinal de debilidade, John McCain, ele próprio um veterano, Paul Ryan e outras eminências do partido criticaram a falta de sensibilidade do candidato.

 

Simultaneamente, Trump disse que não apoiaria Ryan para continuar a representar a maioria (republicana) do Senado, ao mesmo tempo que o seu vice-Presidente, Mike Pence, dizia precisamente o contrário.

 

Ainda não satisfeito, Trump veio dizer, na última entrevista até à data, que a acusação de falta de respeito por um soldado americano abatido era apenas um truque dos democratas para distrair de temas mais pertinentes para a campanha presidencial. E reforçou pelo Twitter: “Esta história não é sobre o Sr. Kahn, que anda a dar entrevistas em toda a parte, mas sim sobre o TERRORISMO ISLÂMICO RADICAL e os Estados Unidos estarem alerta!”.

 

Parece impossível a quem observa esta nova polémica que ninguém na campanha de Trump lhe tenha dito que quanto mais falar no assunto, pior. Aliás, nem era preciso dizer-lhe: nas sondagens de sexta feira estava dez pontos percentuais atrás de Hillary. 

publicado às 13:50

Uma eleição que mexe com todos nós: uma América cosmopolita, otimista e tolerante?

Por: Sena Santos

Daqui até novembro vai ocorrer-nos muitas vezes que deveríamos poder participar e votar nas eleições principais nos Estados Unidos da América. Faria sentido não ficarmos à margem na escolha daqueles cujas decisões afetam o nosso modo de vida, por exemplo ao avançarem para guerras e invasões que desencadeiam trágicas consequências, como ficou despoletado no Iraque.

 

Se os europeus também votassem a presidência dos EUA, apesar da vaga populista que por aí anda, Hillary Clinton teria assegurado que em novembro ficaria Madam President e nós ficaríamos menos inquietos. Mas nós não temos esse voto e, tal como as coisas estão, não se pode excluir um cenário de President Trump na Casa Branca de Washington. Perturba imaginar o planeta liderado por gente como Trump, Putin e Erdogan – só faltaria juntar Marine Le Pen, mas é de confiar que os franceses não lhe entreguem o poder nas presidenciais de maio do ano que vem. O que é que explica a adesão de tantos americanos à campanha de Trump?

 

 

Um livro agora publicado, Hillbilly Elegy: A Memoir of A Family and Culture in Crisis, escrita autobiográfica de J.D. Vance, ajuda-nos a entender. Ele explica-nos, e consegue fazê-lo com humor, o declínio do sonho americano num lugar da América lá de dentro. Através da história de uma tradicional família branca cujos avós desceram da pobre pacatez rural na cordilheira dos Apalches para o trabalho nas então, a meio do século XX, pujantes fábricas do Rust Belt, a cintura da ferrugem nas periferias urbanas do Ohio. Viveram a ilusão de um futuro próspero mas, com a recessão dos anos 80, essa indústria colapsou, muitas fábricas fecharam e as comunidades fragmentaram-se. Tudo viria a agravar-se muito no começo deste século e com a depressão de 2007. O desemprego disparou, as falências sucederam-se, a frustração de quase todos atirou muitos para o limbo. Até a religião tradicional perdeu a influência que tinha e muitos procuraram refúgio em drogas. O que o livro nos mostra é como irrompeu e cresceu essa decadência social e a crise cultural e psicológica que afeta milhões de pessoas assim desenraizadas. É o drama da falta de dinheiro mas, ainda mais, a sensação de impotência de uma vasta população branca alarmada com o declínio do sonho e o assalto do pesadelo.

 

 

Trump, “The Donald”, aposta nesta gente branca frustrada para com o voto dela conseguir a eleição em novembro. Estrela da tele-realidade, conseguiu fazer quebrar a coluna vertebral do Partido Republicano. Explora os medos das pessoas, exacerba sentimentos identitários nesta América onde a população branca está a tornar-se minoria e um país que funciona com a força de trabalho dos imigrantes. Trump usa uma estratégia de comunicação assente na manipulação dos factos e da verdade. Atiça o descontentamento populista.

 

 

As mentiras de Trump são evidentes mas há uma grande massa de eleitores que parece não querer reconhecê-las. Por exemplo: Trump denuncia um problema de imigração ilegal tão grave que o leva a querer colocar um muro para barrar a entrada nos EUA de “gente violenta” oriunda do México e de outros países da América Latina. No entanto, de facto, como atesta a Customs and Protection Border Agency, a imigração ilegal nos EUA está no nível mais reduzido desde os anos 1960. Baixa continuamente desde 2008 e a razão está bem à vista: a crise económica que cortou as esperanças e as oportunidades.

 

 

Trump também explora a sensação de insegurança física, perante roubos, violações e assassinatos. Mas os números oficiais do FBI mostram a queda forte da criminalidade violenta em todo o país, fica por um terço dos níveis registados nos anos 1970. O fenómeno que cresce nos EUA é o das atrocidades em massa, com dimensão de facto alarmante: só no ano passado, 372 casos em que o número de mortos em cada incidente foi superior a quatro. É uma tragédia para a qual contribui a facilidade de acesso a armas de fogo nos EUA. Mas esse é um problema para o qual “The Donald” não aponta soluções.

 

 

O rendimento da classe média dos EUA está estagnado ou em retrocesso há uma década. Mas Trump também não mostra soluções para inverter esse quadro preocupante que se repercute na Europa. Parece evidente que a economia americana e o emprego melhorou nestes anos de Obama, mas ao egomaníaco Trump só interessa a desgraça.

 

 

Viu-se na semana passada, na Convenção Republicana, em Cleveland, como Trump, em vez de propor esperança (como incitava Reagan, como tentou Obama, ambos sempre com mensagens aspiracionais positivas), explora o máximo negativismo político, o desdém e o ódio. O ódio a Hillary, o rancor contra o “establishment” que diz ser representado por Hillary. Especialista em designações de desprezo, Trump rebatizou-a “Crooked Hillary”, ou seja, “Hillary a Desonesta”. Trump quer transformar os medos, as frustrações e os ódios em votos.   

 

 

Hillary tem nesta semana uma oportunidade essencial para combater essa tormenta de Trump na América ultra-polarizada. Depois de na semana passada o palco ter sido para Trump na Convenção Republicana, em Cleveland, agora são os quatro dias de Convenção Democrata, em Filadélfia. É a oportunidade para fazer pontes e lançar compromissos poderosos de esperança cultural e política. Não vai ser fácil a Hillary conseguir galvanizar o eleitorado. Mas é vital que seja capaz de entusiasmar com uma visão cosmopolita, otimista e tolerante da América. 

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Erdogan está imparável a sufocar a democracia. Bem avisa Baltasar Garzón. O sultanato turco é o último dos desastres que área balcânica e mediterrânea atravessa.

 

 

Um novo capítulo na história da aviação: o Solar Impulse completou a volta ao mundo sem recurso a combustível fóssil.

 

 

O telemóvel e a internet podem ajudar a melhorar a vida em África?

 

 

Uma primeira página escolhida hoje. Bons mergulhos!

publicado às 08:24

Um circo romano nos EUA

Por: Pedro Rolo Duarte

Às vezes pergunto-me: que mais pode a candidatura de Donald Trump fazer, a começar no próprio candidato, para demonstrar que não quer governar um país, mas quer montar um circo romano em Washington? A esta pergunta, espanto dos espantos, responde o “povo” com apoios, aplausos, uma Convenção rendida ao populismo tragicamente funcional, e uma sequência de dias em que raramente passam 24 horas sem que haja mais um escândalo, mais uma surpresa, mais qualquer coisa que nos deixa boquiabertos ou incrédulos.

 

 

Sou sincero: incrédulo, já não. Tudo é possível naquele mundo onde, depois de um discurso da barbie Melania Trump cheio de frases “roubadas” a Michelle Obama, vem uma colaboradora do marido, Meredith McIver, pedir desculpa pelo erro cometido. Terá sido ela a escrever o discurso, a partir de “pensamentos” da mulher do candidato - e como não confirmou a origem das frases, tomou-as como originais… É extraordinária a forma como tudo isto passa incólume e Trump, sem hesitações, não aceita a demissão da “autora” e afirma que “as pessoas cometem erros inocentes”…

 

 

É isto que os americanos estão a aprender a aceitar como possível e normal, para não dizer desejável. A mentira, a xenofobia, o racismo, o populismo, o plágio, todo este conjunto ideológico e ético, que na Europa crescemos aprendendo a rejeitar e a combater, é agora arma de propaganda barata para que o cidadão americano comum, seguramente na mais profunda ignorância sobre as consequências de tal opção, se deixe levar e acredite que resolve os problemas do seu país.

 

 

Os Estados Unidos da América conseguem, neste começo de século XXI, juntar o melhor e o pior sem distinção nem razão. O país das oportunidades e da meritocracia, o país onde todos têm oportunidade, o país que descobre-inventa-fabrica-vende, o país onde errar faz parte do caminho e não é argumento de exclusão, o país multicultural que nasceu e cresceu justamente por causa dessa miscigenação - esse mesmo, é o país onde a erva daninha de um Donald Trump tem terra fecunda para crescer sem que pareça haver quem lhe faça frente. Dizem que é o preço a pagar pela democracia - eu acho que são apenas juros de agiotas…

 

 

A Casa Branca tem tido inquilinos perigosos e pouco confiáveis - o apelido Bush seria suficiente… -, mas nunca esteve tão perto do abismo como em 2016, com este homem que começou por ser um “fait-divers” e é hoje um caso sério. Muito sério.

 

 

Se a História das ultimas décadas nos tem provado que a globalização não é apenas uma palavra para encher a boca dos economistas e gestores, a caminhada de Donald Trump até à Presidência dos EUA não é um problema apenas “deles”. É de todos nós. No período negro que temos vivido, entre crises profundas e terrorismo extremo, um homem destes a mandar na América não é ameaça menos grave. Sérgio Godinho bem disse que “Isto anda tudo ligado”. Há forma de desligar? Parece tarde demais.

 

 

Leituras na rede a não perder (porque a morte dos blogues foi noticia claramente exagerada…)

 

Luís Naves é um credenciado jornalista do Diário de Notícias, além de escritor com romances publicados. Ligado ao blog Delito de Opinião, tem escrito, sob a “tag” “cadernos contemporâneos”, alguns posts tão enxutos quanto valiosos. Assinalando os 80 anos da Guerra Civil Espanhola, aqui vos deixo um exemplo desse minucioso, delicado e excelente trabalho de jornalismo e memória. Que tanta falta nos faz…

 

 

“Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada?”. Presta. O que escreve Eugénia de Vasconcellos (e pode ser lido em livro, por exemplo em “Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”) é um dos valores acrescentados do blog Escrever é Triste, onde se junta um generoso numero de excelentes autores, de Manuel S. Fonseca a Pedro Bidarra, de Henrique Monteiro a Diogo Leote. Recomendo todos, mas sublinho o meu gosto especial pela escrita de Eugénia.

 

 

Já há um livro que carimba o blog e lhe prolonga o nome: “Por Falar Noutra Coisa”, de Guilherme Duarte, é um dos fenómenos de sucesso que marca os tempos actuais no mundo dos blogues. Entre o humor e o sarcasmo, entre a critica e o gozo puro, Guilherme vai a todas, da política à vida comum, das tendências às suas manias pessoais. No começo pode provocar alguma comichão, mas depois percebe-se o autor e a coisa passa…

publicado às 11:16

Uma selfie de Paul Ryan diz mais que mil palavras de Trump

Por: José Couto Nogueira

  

A questão do racismo sempre foi uma questão nos Estados Unidos. (Não quer dizer que não seja noutros países, mas cada um tem a sua maneira de não saber lidar com ela.) Nos EUA o problema nem cresce nem decresce – rola como uma onda, com altos e baixos. Ultimamente, a onda está em alta. Porque a polícia anda a matar muitos negros, o que é terrível. Porque o candidato republicano é, entre outras inconveniências, racista, o que não é menos grave. E agora, por um pormenor que poderia ter passado despercebido mas que, por causa das outras causas, explodiu como fogo de artifício nas redes sociais, na comunicação, em toda a parte. Do que se trata? Uma selfie.

 

 

Uma simples selfie publicada por Paul Ryan, o republicano que, por vias da maioria do partido é o Presidente da Câmara dos Representantes. Ryan está em Cleveland, para a Convenção partidária que irá certamente eleger Donald Trump como a aposta do partido à Presidência. Resolveu fazer uma grande selfie, à frente de dezenas de “pagens” (os chamados “interns”, jovens que prestam serviço nos gabinetes dos representantes e senadores.) Todos sorridentes, felizes e bem vestidos – e todos brancos. É verdade, entre os pagens republicanos, rapazes e raparigas, não há sequer um tom mais escuro, muito menos um negro.

 

O Estados Unidos têm um Presidente negro, como todo o planeta sabe. Têm membros do Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) negros, ministros negros e uma boa parte dos cargos de topo no executivo são exercidos por negros. Mas são todos democratas. O Partido Democrata não é historicamente o partido do integracionismo, ao contrário do que muita gente supõe por causa da presidência de John F. Kennedy, altura em que supostamente todos os racismos foram legalmente eliminados. Historicamente, basta lembrar que o Presidente Abraham Lincoln, que se meteu numa guerra civil para libertar os escravos, era republicano. Mas, o Partido Democrata é o partido das liberdades, várias, favorável aos imigrantes de todas as cores e, em geral, menos discriminatório nas questões ditas fracturantes.

 

Em compensação, o Partido Republicano, por albergar as forças políticas e sociais mais conservadoras, há décadas que tem uma certa dificuldade em ser visto como equitativo nestas questões, mesmo quando teve um secretério-geral negro. Desde os Bush, pai e filho, que o partido tem vindo a puxar à direita e a ficar mais radical. Os dez candidatos a candidatos presidenciais para a próxima eleição eram todos extremamente conservadores – a única coisa que variava era a religiosidade maior ou menor. Trump, que nem sequer era um militante dedicado com uma folha de serviços que se visse (Trump só se dedica a ele próprio) acabou por afastar todos os outros, inclusive Paul Ryan, com um discurso que, aqui na Europa, nem o UKIP ou o Front Nacional se atrevem.

 

Na política, os lugares eleitos obedecem forçosamente a uma série de critérios, e hoje em dia a imagem será dos mais importantes. Desde o candidato a vereador municipal até ao presidente, passando pelas assembleias e governadores dos Estados, tentam sempre apelar a um eleitorado o mais abrangente possível, mesmo que o façam desastradamente. Quer isto dizer que ser negro, ou hispano, ou asiático, pode ser uma vantagem para ir buscar essas minorias que, em muitos círculos eleitorais, afinal são maiorias.

Captura de ecrã 2016-07-19, às 12.13.01.png

Agora, quando se trata de lugares que não são eleitos, ou seja, todos os cargos de gabinete e administrativos, já estas restrições não são tão importantes, e aí é que se vê quem é o quê. No caso dos pagens do Capitólio, como são normalmente chamados, trata-se de pessoas invisíveis. São jovens, escolhidos por influências e contactos pessoais, que assim começam a sua carreira política ou de funcionários públicos. Nunca ninguém se lembraria se verificar se respeitam os equilíbrios considerados politicamente correctos de cor ou de género. Durante muito tempo eram sempre rapazes, mas essa barreira foi ultrapassada há décadas. Pelos vistos a barreira da cor, no que diz respeito ao Partido Republicano, não foi. E esta infeliz grande selfie de Paul Ryan mostra exactamente isso.

 

Resta perguntar: terá isto alguma influência nas eleições, quer dentro do Partido, quer nas Presidenciais? Provavelmente, não. No fundo já toda a gente sabe como está o Grand Old Party. É só ver a escolha de um candidato que quer fazer um muro entre os Estados Unidos e o México, expulsar todos os muçulmanos e recusar vistos aos filhos de hispanos nascidos no país. (Se alguma destas propostas é exequível, não parece preocupar os republicanos por ora).

 

Muito mais efeito nas eleições terão os constantes assassinatos de cidadãos negros pela polícia, um pouco por todo o país. Contudo, a selfie de Paul Ryan ficará para a História por representar numa só imagem milhões de opiniões.

publicado às 12:06

A voz de Dae'Anna numa América que parece em guerra civil

Por: Francisco Sena Santos

 

“It’s okay, mommy, don’t be scared, I’m right here with you.” Nós, portugueses, estamos cheios de entusiasmo com as tantas inesquecíveis imagens dos campeões do futebol – já agora, bravos também para as campeãs do atletismo –, mas aquela voz e as imagens de Dae’Anna que com os seus quatro anos de idade tenta com aquelas palavras dar conforto à mãe estremecem os dias de alegrias com os êxitos desportivos domésticos. Daquela voz terna de uma criança negra americana vem uma angústia que consterna o coração.

 

A mãe de Dae’Anna é Diamond, uma mulher com 24 anos que trabalha na cozinha do Hilton. Philando, 32 anos, namorado de Diamond, trabalhava como supervisor na cantina de uma escola. Ao anoitecer da última quarta-feira voltavam a casa depois de terem ido ao supermercado. Dae’Anna ia sentada no banco de trás no automóvel. Num semáforo foram parados por uma patrulha de polícia. E começou o inferno.

 

A voz de Dae’Anna, a menina com missangas cor de rosa enroladas nas tranças que abre esta história, chega-nos de St. Paul, Minnesota, nos EUA, num vídeo que, Diamond, a mãe, captou com o smartphone e difundiu ao vivo através do Facebook quando um dos polícias da patrulha começou a apontar a arma e, com a cabeça inexplicavelmente perdida, entrou a disparar de morte sobre Philando.  Qual foi o pecado de Philando?  Quando o polícia lhe pediu a carta de condução, enquanto a procurava, ele achou que devia dizer que tinha no carro uma arma devidamente licenciada.

 

As imagens num vídeo que se prolonga por 10 minutos colocam-nos, manietados, dentro do carro onde tudo está a acontecer. Diamond consegue ser narradora, meticulosa. Ficamos sentados no lugar de Diamond. Vemos o polícia que através da janela aponta a pistola a Philando e que por quatro vezes dispara sobre ele. Vemos o sangue a alastrar na t-shirt branca de Philando. Sentimos a fúria violenta em volta e dentro daquele carro.

 

É tragicamente necessário referir a cor da pele de uns e de outros. Porque nos remete para uma raiva profunda e difusa, com fundo racial, que volta a explodir e que está a consumir os Estados Unidos da América: Philando, Diamond e Dae são afro-americanos, isto é, são negros e a patrulha policial era composta por homens brancos. Quem devia proteger, despreza e ataca e é inevitável pensarmos que por preconceito racial. O preconceito assenta quase sempre em mentiras, ressentimento e vileza sobre quem não tem culpa.

 

Faz sentido concluir que os EUA são, apesar de Obama, um país em guerra interior. Em 2015, morreram nos Estados Unidos 1146 pessoas abatidas por disparos de polícias e uma altíssima percentagem é constituída por afro-americanos. No que vai de ano já são 561. A desconfiança entre a comunidade negra e as forças policiais é enorme e alimenta o olho por olho dente por dente, em espiral violenta.

 

Mathew Brady, pioneiro da fotografia nos EUA, escreveu que com a invenção das câmaras fotográficas em 1893 estas tornaram-se olho da história. Passaram a proporcionar, acrescenta Susan Sontag, um retrato transparente da realidade. Mostravam e mostram, muitas vezes chocam, mas proporcionando tempo para as analisar. Agora, há algo de novo: o smartphone e qualquer uma das redes sociais permite-nos ver a violência no momento em que está a acontecer. Não há mediação, deixa de haver tempo para ponderar. Ficamos imersos numa realidade para a qual, se não estamos preparados, envenena as emoções.

 

É o que aconteceu na trágica semana passada nos EUA. Menos de 24 horas depois do episódio tremendo em St. Paul, realizou-se em Dallas, a escassas centenas de metros do lugar onde o presidente Kennedy foi assassinado em 1963, uma manifestação contra os abusos policiais sobre negros. Uma televisão mostrava em direto o desfile quando, subitamente, se ouviu um primeiro de vários disparos e os manifestantes desataram a correr sem saber o que estava a acontecer. Parecia cinema de ficção mas é de facto realidade. Foi um franco-atirador, Micah Johnson, afro-americano, antigo combatente americano no Afeganistão que, tomado pelo ódio, matou cinco polícias brancos que controlavam a manifestação dos negros.

 

Na véspera tinham sido reveladas as imagens de um outro episódio brutal, em Baton Rouge, capital do Louisiana, que nos mostram polícias a disparar à queima-roupa sobre um negro, Alton Sterling, 37 anos, quando este já estava imobilizado no chão de um parque de estacionamento.

 

Está assim esta América onde há mais armas de fogo que pessoas. O filósofo Martin Walzer comenta que a violência fez sempre parte da sociedade nos EUA, vem do modo como o país nasceu. Mas nos últimos anos há uma nova vaga que parece associada à convicção de muitos brancos, sobretudo da América interior, de que estão a perder o controlo do país. Isso leva alguns deles, sobretudo entre os mais pobres e os menos instruídos, a reações violentas agravadas pela atmosfera de crise económica. O facto de as minorias de cor tenderem a tornar-se maioria nos EUA está a puxar um clima de guerra civil. A campanha de Donald Trump concorre para essa atmosfera. Instala os medos. É o mesmo que fez McCarthy nos anos 50.

 

Agora já há quem admita que a matança de cinco polícias na cidade que foi teatro do assassino de Kennedy pode redefinir a atual corrida presidencial nos EUA. Também há quem receie neste 2016 um novo 1968, igualmente ano eleitoral, em que muitos americanos sentiram a violência a ficar fora de controlo. Então, no espaço de dois meses, dois vultos no combate pela dignidade e pelos direitos civis na América foram assassinados: o reverendo Martin Luther King em 4 de abril e o candidato presidencial Robert Kennedy em 6 de junho. Era o ano em que a América se confrontava com a derrota no Vietname.

 

A brecha social e económica entre brancos e negros nunca deixou de ser um sério problema doméstico nos EUA. Com explosões de tempos a tempos. Há 25 anos, em março de 1991, Rodney King, taxista negro de Los Angeles, mandado parar por excesso de velocidade, foi barbaramente agredido por polícias de duas patrulhas.  A violência foi filmada por um videoamador que entregou as imagens às principais redes de televisão. O choque foi tal que obrigou a sentar os polícias no banco dos réus. Mas os juízes decidiram absolver os polícias e o resultado foi uma vaga de protestos violentos que deixaram mais de 50 mortos e mais de dois mil feridos. O clima de guerrilha urbana só foi estancado ao fim de uma semana com a intervenção de 13 mil soldados e a declaração de recolher obrigatório.

 

A violência desta última semana causou sete mortes absurdas. Há uma nova era iniciada, a da violência mostrada em direto, sem mediação, nas redes sociais. O risco sério é o de que cada morte puxe mais sangue. Por mais que apeteça não as ver faz falta que se discutam estas imagens destes dias. Pode ser que façam abrir os olhos dos americanos para o terrível efeito dos ódios e das armas de fogo nas mãos de todos. Todos somos espetadores e as consequências são imprevisíveis.

 

A voz aflita da pequena Dae’Anna tem de levar a gente sensata a tentar qualquer solução para que os EUA se livrem da ameaça desta guerra civil.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Os vizinhos espanhóis também acham que vão sofrer sanções europeias por causa do défice mas que a multa será zero. Esta Europa está cada vez menos nossa.

 

Gianni Vattimo sobre a Europa:Não tenho soluções, apenas um pouco de despero”.

 

Vamos passar a ouvir falar de Theresa May. Vai suceder a David Cameron, 26 anos depois de Thatcher,  no lugar de chefe do governo em Londres. Apoiou o “Remain” mas vai conduzir o Brexit”. Dizem que é calma mas imprevisível e ainda não mostrou grande visão política - e é isso o que tanta falta faz.

 

As primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS levam-nos à festa do futebol: esta é hondurenha, esta é de uma bíblia francesa para o futebol, e há as madrilenas do As e da Marca. E há este extra do Expresso.

publicado às 09:44

Perante "The Donald", venha a Madam President, ainda que lhe falte faísca

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Donald, o impetuoso, abrutalhado, exuberante, misógino e multimilionário, candidato do bullying político que despreza os valores da solidariedade e a sabedoria sensata, ou Hillary, a velha raposa que representa a casta do fatigado sistema tradicional de governação, qual dos dois, o anti-político ou a política do costume, vai conseguir fingir melhor e conquistar a presidência dos Estados Unidos da América? O “Election Day” é já daqui a 180 dias e a campanha para a escolha do sucessor de Obama vai ser um concurso de impopularidade: quem consegue menos hostilidade do eleitorado, quem assusta menos?

 

É de prever que Hillary Clinton vá aparecer nos próximos meses reenvernizada com cores progressistas para tentar captar o eleitorado progressista, liberal e vagamente social-democrata que Bernie Sanders soube mobilizar e sacudir do ceticismo. O marketing de  "The Donald" vai optar pelo “Trump paz e amor” a ver se constrói uma postura presidencial e amacia as resistências tanto no fragmentado campo republicano como no decisivo eleitorado oscilante. Ela e ele vão ter de mudar ou maquilhar o discurso para tentarem conseguir a eleição em 8 de novembro.


Vender “The Donald” como uma boa pessoa é uma tarefa que parece quase impossível. Que imagem é que ele mostrou nos últimos meses? Racista (“Build the Wall”). Isolacionista (“America First”).  Sexista (“Women, you have to treat them like shit”, comentário nos anos 90 ao New York Magazine). É definido por vários outros adjectivos, todo negativos: hipócrita, narcisista, histriónico, autoritário, prevaricador, ridículo, islamofóbico. Há quem o resuma numa palavra: bimbo. Mas poderoso. O léxico e a sintaxe do candidato são rudimentares mas a mensagem simplista dele é eficaz, galvaniza muita classe média e baixa, branca, atingida pelo grande sismo das guerras bushistas e pela grande recessão pós-2007. Um eleitorado enfurecido ou obcecado com a suposta perda da grandeza americana. Donald Trump entra por esses eleitores com o discurso representado pelo slogan ”Make America great again”.  Mobiliza muitos empreendedores frustrados. Seduz a América que gosta da força bruta.


Ele, “The Donald”, pode vir a ser presidente dos EUA? Não é o mais provável mas não deixa de ser uma possibilidade que nem sequer é remota. Como as coisas estão, já nem espantaria se no topo da Casa Branca aparecesse daqui a um ano o anúncio luminoso com letras maiúsculas “THE TRUMP PRESIDENCY”. Quando Reagan surgiu na política, quantos acreditavam que o cowboy do cinema chegasse a presidente? Quando Donald Trump apareceu nas primárias republicanas quantos não se riram? Ele entrou a ganhar primárias, umas após outras, disse-se então que o fenómeno Trump acabaria por estoirar. Não implodiu e vai discutir a eleição com Hillary.  O impensável afinal pode acontecer.


As sondagens mostram tendência para, depois de Obama, a América ter uma Madam President. Mas a “Clinton Fatigue” pode ser fatal para Hillary. Há uma grande revolta contra o sistema que ela representa. Hillary é, reconhecidamente, pouco entusiasmante em campanha, com discursos banais e monótonos, e o seu perfil político substancialmente no centro moderado conservador não entra pelo eleitorado que com Sanders, o visionário que promete utopias e propõe o reformismo da velha (boa) Europa, passou a acreditar na política. Há gente de Sanders tão hostil a Hillary que admite preferir Trump.


Hillary também sabe que aqueles muitos que na direita republicana se mostram recalcitrantes ou hostis a “The Donald” ainda podem tender para uma rendição de conveniência ao nacional-narcisismo do candidato que oferece como programa político a sua “mágica capacidade para ganhar”. Ele pode ainda conseguir unificar depois de ter dividido. É que os republicanos temem que o Great Old Party, desagregado nestas Primárias, fique varrido do poder, não só continuando fora da presidência mas também sem a maioria que tem mantido no Senado e na Câmara dos Representantes.


A América promete ao seu povo felicidade. Está na Declaração de Independência. É um dos três “inalienáveis direitos” – os outros são o direito à vida (bastante mal tratado numa sociedade onde todos têm uma arma) e à liberdade.


Donald Trump na presidência dos EUA pode ser uma ameaça à felicidade e estabilidade americana e mundial? Muitos peritos pensam que sim. Ele quer desfazer o acordo nuclear que Obama promoveu com o Irão. Fecha a porta a qualquer refugiado. Quer políticas sem concessões aos clandestinos. Despreza o protecionismo frente ao comércio global. Promete, com o seu populismo económico, obrigar as farmacêuticas a baixar o preço dos medicamentos mas põe o Estado a gastar muito menos em Segurança Social. A reforma fiscal dos estrategas trumpistas implica enorme baixa das receitas fiscais (reduz o imposto sobre as empresas dos atuais 35% para o máximo de 15%), portanto grandes cortes na função do Estado e disparo da dívida americana. Ele faz graçolas com o aquecimento global e despreza o acordo sobre o clima. A guerra comercial que promete à China, a quebra de alianças com o Japão e a Coreia do Sul, a par do menor envolvimento na NATO, a acontecerem, representariam um mundo em turbulência com a América cada vez mais fechada sobre si própria. Não é um bom mapa para o futuro. É por isso que, já foi dito, vamos ter saudades de Obama. É por isso que, apesar da falta de faísca, venha Madam President.


Todos precisamos de uma América generosamente envolvida com o que Alexis de Tocqueville abordou em 1840 no famoso livro Democracy in America: a “paixão democrática”.



TAMBÉM A TER EM CONTA:


A hashtag  #YesWeKhan está no topo por estes dias: Londres, a capital mais cosmopolita da Europa, ao escolher para mayor o muçulmano, feminista e ativista dos Direitos Humanos Sadiq Aman Khan, demonstra que a verdadeira Europa, aquela que se levantou das ruínas da Segunda Grande Guerra existe e resiste contra os nacionalismos, a xenofobia e outras discriminações. O filho do motorista paquistanês é o mayor da capital britânica. Boa resposta ao apelo lançado pelo Papa para uma Europa rejuvenescida onde se “construam pontes e não muros”. Às vezes a política traz boas notícias. Mas os problemas de fundo permanecem.

 

Um encontro sobre o futuro da transformação digital em curso.

 

O dia contado em imagens escolhidas por La Vanguardia.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, que mostra como a política do Brasil está no circo.

 

 

publicado às 08:25

TTIP. Fixe esta sigla e saiba o que propõe porque vai mudar a vida de milhões

Por: José Couto Nogueira

 

De vez em quando, surgem na comunicação social notícias sobre o tal tratado entre a Europa e os Estados Unidos que, segundo alguns, seria mais um passo positivo para as maravilhas da globalização, segundo outros, trata-se da machadada final nos benefícios dos trabalhadores e consumidores europeus.

 

 

Na semana passada dois acontecimentos trouxeram o TTIP - sigla inglesa do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento - de novo para a ribalta. A visita do Presidente Obama à Europa, declaradamente para acelerar as negociações, e o vazamento pelo Greenpeace das cláusulas que estão a ser secretamente negociadas. O debate tem sido contaminado com posturas ideológicas que, embora esclarecendo muitos pormenores, também obscurecem a compreensão das suas características. É uma boa altura para esclarecer o que está em jogo.

 

As negociações entre entre a Comissão Europeia e o Governo dos Estados Unidos começaram em Julho de 2013 e estão na terceira ronda. O objectivo é um tratado de livre-comércio entre os EUA e a UE, conhecido na Europa como TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), nos Estados Unidos como TAFTA (Transatlantic Free-Trade Agreement) e em Portugal como APT (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) ou simplesmente Tratado Transatlântico.

 

As projecções indicam que o acordo vá acrescentar à economia da União Europeia cerca de 120 mil milhões de euros, à dos EUA cerca de 90 mil milhões e ao resto do mundo mais 100 mil milhões. Ou seja, o maior tratado comercial alguma vez feito, com um valor de metade do PIB mundial e um terço do fluxo de negócios à escala planetária. Afecta todos os sectores da economia, desde a agricultura aos serviços (com a estranha exclusão, por exigência francesa, da indústria musical e cinematográfica).

O objectivo é remover todos e quaisquer obstáculos às transacções, físicas e comerciais, entre a Europa e os Estados Unidos, e proteger os investimentos à escala internacional.

 

Em termos gerais, o TTIP tem sido criticado pelas esquerdas, pelos ambientalistas e pelos movimentos anti-globalização. Num ponto há que lhes dar razão prévia: o tratado tem sido negociado em segredo, o que não só é pouco democrático como suspeito. Afinal de contas, se se trata de um grande benefício para todos, porquê ocultar as diligências das partes? O argumento das entidades envolvidas é que, não estando todos os pormenores decididos, a sua publicação só iria levantar alarmes e falsas questões.

 

Mas apesar do secretismo, alguns pormenores têm chegado ao público, provocando reacções bastante violentas na Alemanha e em França, países onde a opinião pública segue as peripécias com mais interesse. O vazamento dos termos do tratado, obtido pela Greenpeace esta semana, revela aspectos de facto preocupantes, mesmo excluindo as opiniões politicas de quem analisa. Contudo, os defensores do TTIP já vieram afirmar que o leak da Greenpeace é falso. Segundo esses opinadores, a oposição ao tratado é meramente ideológica e vem da parte da extrema-esquerda proteccionista, e dos grupos antiglobalização e "altermundialistas” que são sempre contra

o comércio internacional.

 

Poderá ser. Mas o facto é que, para além do já mencionado secretismo, que leva naturalmente aos piores receios, sabem-se pormenores do tratado que levantam sérias dúvidas quanto às suas vantagens. Para começar, os sistemas de saúde e as condições de trabalho ficam ameaçados, assim como a regulação financeira e a protecção ambiental. Uma alínea perturbadora permitiria às empresas multinacionais processar os governos em tribunais especiais para eliminar restrições ao investimento. Outra alínea refere-se à liberalização das restrições aos produtos transgénicos e à imposição de patentes nos vegetais geneticamente modificados, abrindo caminho para o monopólio das sementes agrícolas por parte de grandes empresas como a Monsanto, a Syngenta ou a Bayer.

Em termos gerais, a UE tem normas mais restritivas do que os EUA quanto ao processamento de alimentos e inclusão de químicos e pesticidas, ou mesmo segurança dos veículos. Tudo isso seria eliminado.

 

O tratado pretende impor medidas restritivas na Internet, de modo a proteger as empresas de críticas, e liberaliza a utilização dos dados pessoais para efeitos comerciais. Esses dados podem ser adquiridos por bancos, seguradoras e outras empresas de modo a organizarem as suas carteiras de clientes, excluindo aqueles que eventualmente possam não interessar.

Quanto aos famigerados transgénicos, seriam abolidas as referências nos rótulos. É o caso, por exemplo, da “ractopamina”, uma droga usada para acelerar o crescimento de animais. Nos EUA, 80% dos porcos e 30% das vacas são criados assim, e o documento visa o “reconhecimento mútuo” bem como a intenção expressa de “ não criar barreiras injustificadas” ao comércio deste químico e dos animais assim criados. Advoga ainda a remoção das verificações e inspecções sobre a comida importada, pretendendo confiar apenas na palavra dos exportadores.

 

Passa a ser permitida também a extracção de petróleo pelo método chamado Fracking, um processo de injecção de fluido para dentro do solo a uma elevada pressão, a fim de fracturar a rocha de xisto para libertar o gás natural do seu interior. O Algarve é uma das áreas em consideração.

 

Ao nível empresarial, seria permitida e até incentivada a privatização de todos os sectores, inclusive a água. A liberalização abrange não apenas as empresas, mas também concursos, aquisição de bens e serviços por parte do estado e das entidades públicas, sejam centrais regionais ou locais. Assim, as multinacionais vão poder aceder livremente a todas as actividades até agora desempenhadas e/ou da responsabilidade do sector público.

 

Um aspecto complicado da desregulação financeira envolve uma figura jurídica chamada “Investor to State Dispute Settlement”. Concede a um investidor estrangeiro o direito de iniciar o processo de resolução de litígios contra um governo estrangeiro (o “Estado anfitrião”), sempre que a legislação ameace os seus lucros presentes ou futuros, com base no conceito de expropriação directa ou indirecta. O litígio corre em tribunais especiais de que não existe possibilidade de apelo e, em quase todos os casos, termina com elevadas indemnizações pagas pelos estados às grandes companhias.

 

Da parte dos Estados Unidos há grande urgência em fechar este acordo, devido à proximidade de eleições, no final do ano. E os governos europeus, especialmente o alemão, que se considera altamente competitivo a nível internacional, também não vê razões para adiar por muito mais tempo.

 

Resta às opiniões públicas dos países informarem-se de forma a fazerem parte de uma discussão que tem amplas repercusssões na vida de todos. TTIP pode ser uma sigla pouco interessante nos media instantâneos, mas, como se pode ver pelos temas que aborda, é bem mais decisiva que muitas das discussões efémeras.

 

 

publicado às 19:48

No dia em que NY dá fôlego a Hillary e Trump: vamos ter saudades de Obama

 
Por: Francisco Sena Santos
 

 Daqui a precisamente nove meses Obama estará no último dia como presidente dos Estados Unidos. Na manhã seguinte, 20 de janeiro, toma posse o sucessor, provavelmente a experiente, belicosa e fria Hillary Clinton: nenhum aparelho político na eleição tem o poderio da Clinton Machine, que compensa a incapacidade da candidata para mostrar entusiasmo, paixão ou apenas calor.

Mas porque Hillary tem a debilidade de representar, em tempo de vontades de mudança, a expressão da continuidade dos lóbis do “establishment”, ainda não se pode excluir a hipótese de o presidente vir a ser Donald Trump, o xenófobo turbilhão populista que cavalga sobre os instintos dos eleitores e que explora a crise dos partidos políticos americanos. A alternativa Bernie Sanders é muito remota, as suas possibilidades eleitorais são ínfimas ou nulas, embora a sua influência sobre a política dos EUA vá permanecer como fermento para mudanças. Seja como for, vamos ter saudades da presidência Obama.


Antes de Obama, os EUA eram um país que gerava hostilidade em meio mundo pelo modo autoritário e guerreiro como impunha a todos o seu poderio. A eleição de Obama, no final de 2007, desencadeou uma onda de euforia e instalou uma atmosfera de desanuviamento geral, portanto de esperança. O mundo mudou a perceção que tinha dos EUA. O Nobel da Paz até terá sido atribuído antes de desempenhos que o justificassem, mas traduziu o clima novo trazido pela eleição na América de um presidente negro com um consistente programa de mudança – infelizmente, apesar do simbolismo da eleição, não há progresso substancial em direcção à igualdade racial.
 
Mas, decorridos sete anos de presidência Obama, a última página da Guerra Fria está fechada com os acordos que puseram fim a meio século de hostilidade com Cuba. O acordo nuclear com o Irão mostra como vale negociar com os inimigos de ontem para conseguir compromissos para amanhã. A promessa de retirar os soldados do Iraque e do Afeganistão está cumprida. Obama foi propulsor da drástica redução de emissões de CO2 causadoras das alterações climáticas: as energias renováveis triplicaram.
 
Obama herdou um país com economia dramaticamente derrotada, mas que agora voltou a ligar os motores, embora a avançar ainda devagarinho. Com a energia mais barata, a maioria dos americanos vive melhor. A criação de emprego é pujante, com mais um milhão de postos de trabalho, e o desemprego está nos 4,9% e em queda consistente. A indústria automóvel ressuscitou, convertida aos novos tempos. Uma conquista extraordinária: 20 milhões de adultos que não tinham acesso a quaisquer cuidados de saúde passaram a estar protegidos com o Obamacare. Foi instalada uma perspectiva mais humana para com os imigrantes ilegais. Muita da mudança ambicionada por Obama esbarra na tenaz oposição do congresso com entrincheirada maioria republicana.

Ao mesmo tempo, a presidência Obama soma vários fracassos. As matanças em território americano sucedem-se. Vimos as lágrimas de revolta do presidente, mas ele não conseguiu impor a limitação às armas de fogo que todos têm. Obama prometeu defender intransigentemente as liberdades civis mas Edward Snowden é perseguido pelas revelações inconvenientes para o aparelho de poder na América. Obama também ainda não conseguiu fechar o campo prisional de Guantanamo. As acusações de tortura praticada por agentes dos serviços secretos americanos ficaram sem consequência. A maioria dos responsáveis pelo crash financeiro de 2007/08 escapa a sérios ajustes de contas. Obama, com o discurso no Cairo, impulsionou as “primaveras árabes”, mas o Egito é um desastre. A Síria é uma catástrofe  que agrava a tragédia dos refugiados. Obama apostou numa evolução digna, finalmente, para a questão palestiniana, mas não conseguiu. A ameaça terrorista está fora de controlo.
 
São muitas decepções, até porque as expectativas eram tantas, mas essa frustração não impede que Obama seja o presidente que tirou os EUA da grande depressão e que reconciliou meio mundo com a América. Foi eleito com o lema “Yes, he can”, talvez fique como “Yes, he tried”. Ele quis, tentou e o que conseguiu é bastante para deixar boa memória. Abriu caminhos, catapultou para o progresso. Mas a aspiração era a de que fosse muito mais.

Fica-se de pé atrás ante o que vem a seguir às eleições de novembro: Hillary ou Donald? A batalha preliminar (as primárias) tem hoje capital em Nova Iorque, com o voto de 5,8 milhões de eleitores democratas e 2,7 milhões de republicanos. Hillary Clinton e Donald Trump têm a promessa de vitórias que os deixem mais perto da nomeação para a final de novembro. Mas Sanders não vai deixar de pressionar Hillary, e Trump ainda vai ter batalhas com epílogo incerto.
 
Uma perspetiva curiosa: como o turbilhão de Trump pode vir a custar aos republicanos a perda do controlo do Congresso.


TAMBÉM A TER EM CONTA:

Os Pulitzer de 2016 premeiam os fotojornalistas do NYT e da Reuters que mostram o drama dos refugiados na Europa.
 

“Nos desenhos daquelas crianças (refugiadas) até o sol chora”. O Papa, com a visita ao campo de refugiados em Lesbos, um “cárcere a céu aberto”, deu um safanão aos dirigentes políticos egoístas que blindam as fronteiras. O Papa, com coragem, denunciou ao mundo como tantas crianças que fugiram da guerra estão ali, detidas em contentores dentro de cancelas e arames farpados, sem escola e sem possibilidade de brincar. Tal como mulheres grávidas e tantos anciãos. É uma indecência europeia. Causa fúria e vergonha. Ainda bem que há gestos como os deste Papa.
 
 
Viver por dentro a vida no Irão em tempos de abertura.
 
 
O Arco do Triunfo, de Palmira, recriado em Trafalgar Square.
 
 
30 novos museus de audazes arquitetos.
 
Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta. Parece decidido que Dilma vai cair. O processo foi conduzido no parlamento por Eduardo Cunha, um acusador sob forte suspeita. O Brasil está longe de dar certo.
publicado às 08:08

Hillary tem um plano para travar o voo de Trump? House of Cards na Casa Branca?

Por: Francisco Sena Santos

 

A festa dos Óscares celebra com pompa a excelência no cinema de Hollywood, mas também uma monocultura dos Estados Unidos da América. As estrelas e os heróis continuam sempre a ser de cor branca, ainda que desta vez o anfitrião tenha sido um negro. A diversidade com os não-brancos fica nas sobras do guião. Ação e fantasia têm a primazia. Este entretenimento populista e o quadro racial encaixa em pleno na atmosfera que envolve um demagogo populista, Donald Trump, candidato a suceder a Obama na Casa Branca. Estaremos preparados para conviver com a ideia de um mitómano que dispara slogans ameaçadores em hipérbole ultranacionalista e o lema 'Make America Great Again' vir a ser o próximo presidente dos EUA? A possibilidade de Donald vir a ser eleito tornou-se real.


Há um ano, tudo encaminhava para Hillary Clinton vir a ser eleita “Madam President”, em marcha triunfal. Ninguém ousava imaginar que o socialista Bernie Sanders pudesse causar alguma mossa às aspirações da senadora para conseguir a nomeação em glória como candidata dos Democratas. E não se via no campo republicano alguém com envergadura para o desafio. Erro grosseiro na análise. Faltou ter em conta que a maioria dos cidadãos nos EUA de hoje continua sob o trauma profundo da crise de 2008 e culpa as elites da política por essa devastação que é vista como traição ao povo.


É facto que Sanders já esgotou as possibilidades competitivas. Repetiu brilharetes nos prólogos eleitorais nos pequenos estados brancos do nordeste, mas encalhou quando a votação chegou aos estados mais a sul, onde o peso negro é relevante. Viu-se na Carolina do Sul como os afroamericanos catapultam Hillary como herdeira de Obama. Vai ser também certamente assim nos apuramentos desta “super terça-feira” da corrida presidencial americana.

 

Hillary vai hoje ganhar grande vantagem - mesmo que Sanders triunfe no Massachussets -  na contabilidade de delegados para a convenção Democrata, a decorrer entre 25 e 28 de julho, em Filadélfia. Hillary é a inevitável candidata dos Democratas. Mas a excitação progressista inicial em torno de Sanders mostrou como falta a Hillary a fibra vital para gerar uma onda maciça de entusiasmo capaz de envolver os eleitores. Já começou a ver-se que Hillary consegue captar a simpatia da América multirracial - e nenhum Democrata entra na Casa Branca sem o voto dos negros e dos latinos. Mas este voto não chega. Ela precisa de ser capaz de reinventar-se e gerar uma até agora inexistente mobilização emocional para enfrentar o republicano Donald Trump na escolha final, em 8 de novembro.


Trump, há uns meses, parecia um candidato efémero. O seu discurso excessivo, impróprio para tantos, com promessas de banir os muçulmanos, deportar imigrantes e levantar um muro na fronteira com o México, mais outros insultos e gaffes, teria destruído qualquer político tradicional. Mas ele está a revelar a astúcia de um animal político a explorar o enorme descontentamento e até raiva dos eleitores contra os políticos. Trump (tal como Sanders, este no campo oposto, o dos Democratas) apresenta-se em guerra declarada aos aparelhos tradicionais do poder, tanto o político como o financeiro, e assim vai ao encontro do instinto dos muitos que estão em fúria contra o circo político de Washington.


Como é que a América chegou a isto, como é que esta personagem que aparece sem credenciais respeitáveis se impõe assim? O multimilionário Donald Trump, patrão do grande Casino de Atlantic City e dono de vários dos luxuosos arranha-céus de Nova Iorque, entrou pela casa dos americanos nos últimos 10 anos como animador de um programa de tele-realidade na NBC, “The Apprentice”.

 

Armado com essa notoriedade que cultivou entre as massas mais populares, entrou pelos terrenos da política, sempre a denunciar a incapacidade das instituições (o Presidente, o Congresso, o Governo os tribunais, os partidos) para responder às necessidades das pessoas. Passou a explorar o poder das redes sociais. Obama já o tinha feito, com grande eficácia, nas campanhas de 2008 e 2012, para expor, detalhadamente, a sua visão política sobre os principais assuntos. Trump usa os mesmos canais mas para propagar slogans. As mensagens são sempre redutoras: cavalga a xenofobia e diaboliza os imigrantes muçulmanos e hispânicos, rejeita o liberalismo da globalização, quer construir o muro físico com o México e comercial com a China. Elogia a autoridade de Putin e ataca a diplomacia americana que ao favorecer a queda dos ditadores do Médio Oriente deixou que se instalasse o caos. Está farto de ser apanhado em contradições, mas isso não parece interessar aos apoiantes seduzidos pela mensagem "Make America Great Again".


Um grande número de republicanos não esconde a sua inquietação com esta personagem. Não se reconhecem em Trump e procuram consensos para que o candidato do partido que foi de Lincoln e de Eisenhower, também de Reagan ou dos Bush, possa ser alguém mais apresentável. O problema é que uma das alternativas, o texano Ted Cruz (vai hoje triunfar nas primárias do Texas) no altar da extrema-direita religiosa é ainda menos de fiar. A elite do aparelho republicano tem um “golden boy”, Marco Rubio, mas os eleitores não lhe ligam grande coisa. É assim que Donald Trump está a impor-se como inevitável candidato republicano. Ainda não é. Ainda não atingirá nesta “super tuesday” a maioria de delegados para a Convenção Nacional Republicana, que vai acontecer entre 18 e 21 de julho em Cleveland. Mas é muito provável que no final deste mês de março já tenha essa maioria.

 

Agora, parece já ser tarde para travar Trump no palco republicano.


Assim, salvo qualquer improvável reviravolta (não é de excluir que apareça um candidato que se apresente como independente, fala-se de Bloomberg), em 8 de novembro, os eleitores dos Estados Unidos da América vão escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump para suceder a Barack Obama na presidência. Se os europeus também votassem nesta eleição, mesmo considerando os ventos xenófobos que por aqui se agitam, Hillary teria a presidência na mão. Tal como é, uma escolha só dos americanos, o desfecho deste confronto entre a política tradicional e a rebeldia populista tem desfecho imprevisível num eleitorado irritado.

 

Talvez valha, entretanto, pormos os olhos nos golpes do malvado “presidente” Frank Underwood que esta semana volta aos ecrãs do mundo ocidental em nova temporada da série House of Cards. O tempo está para personagens de ficção.

 

Também a ter em conta:

 

Há na Índia quem esteja a levantar-se contra degradantes primitivas práticas de casta.

 

A Espanha, perante todas as contradições, vai conseguir arranjar um governo? Vai precisar de repetir eleições no final de junho? As eleições desfazem o impasse?

 

As eleições iranianas, com o êxito dos moderados do presidente Rohani, são uma vitória para Obama e uma derrota para Netanyahu. 

 

Primeiras páginas escolhidas nesta "super terça feira": esta The Wall Street Journal, esta do The New York Times e esta do Libération. Também esta do NRC de Amesterdão que vê Washington em pânico com o cenário real deste Donald na Casa Branca.

 

E agrava-se todos os dias a tragédia dos refugiados. Veja-se aqui, como é em Calais.  E aqui, uma amostra de como está a ser nos Balcãs.

publicado às 09:20

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D