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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A nossa taça e as medalhas deles

Por: Pedro Rolo Duarte

 O Presidente da Republica condecorou ontem os cinco atletas medalhados no Campeonato Europeu de Atletismo que, azar dos azares, decorreu em simultâneo com a fase final do Europeu de Futebol - e por isso perdeu a batalha pelo mediatismo e a notoriedade que os tempos actuais promovem, mesmo quando querem ser imparciais. Houve logo quem se insurgisse contra a injustiça de que sofriam os atletas de Amesterdão face aos atletas de Paris - ignorando que a diferença não resulta do desmerecimento pelos feitos conquistados, mas “apenas” da capacidade que o futebol tem de juntar um tão gigantesco número de seguidores.

 

É um fenómeno de massas transversal, incontrolável, em muitos momentos até incompreensível - e que por isso mexe com milhões de pessoas, o que explica que mexa com milhões de euros. Deixo aos sociólogos explicações mais detalhadas para o impacto de uma bola a rolar por entre 22 homens… Mas é esse fenómeno, e esse impacto, que obriga os media a ir atrás dele, forçando a uma união nacional que acaba por colocar ao mesmo nível a imprensa desportiva, a generalista de referência, a popular, as redes sociais, as rádios, as televisões. Todos ficam estranhamente parecidos num momento como este - e todos procuram espelhar de forma verdadeira e próxima o sentimento dos portugueses.

 

Na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa fez exactamente o mesmo que a maioria dos media: só quando acordou da bebedeira colectiva da Taça de Campeões Europeus em mãos portuguesas olhou à volta - e viu que havia mais mundo para lá de uma bola de futebol e de uma selecção vitoriosa. Nesse mundo por ver estavam outros heróis nacionais, como estavam noticias de tragédias, sanções e demais “ninharias”…

 

Tentou remediar os estragos com mais comendas. Não vai conseguir. Os estragos não foram feitos por ele. São a consequência de um tempo em que os factos se esmagam uns aos outros por força do envolvimento popular que têm, do dinheiro que envolvem, e da forma como emocionalmente afectam aqueles que os sentem como seus. E tudo isto é uma pescadinha de rabo na boca. Nunca acaba. É sempre bonito ouvir Fernando Santos ou Ronaldo dizerem que a Taça é de todos os portugueses, e confirmar nas manifestações populares esse sentimento de propriedade - mas todos sabemos que constitui uma enorme falácia. A Taça é daqueles jogadores, daquela equipa técnica, e de quem os patrocinou. Foram eles que jogaram, deram o litro, se magoaram, acertaram, erraram, e no fim ganharam. Também são eles que ganham vencimentos milionários, que são disputados por clubes de todo o mundo, e que vivem num universo exclusivo e muito particular. Nós, comuns espectadores, apenas caucionamos e justificamos todo aquele aparato.

 

Neste quadro, por maior que seja o talento dos atletas de Amesterdão (e quem diz os atletas pode dizer os arquitectos, os bailarinos, os cantores, os escritores…), não há comenda ou elogio que esbata o abismo entre o mundo dos milhões e o outro - o que vive daquilo de que realmente é feita a vida. E é por isso que dizemos que a Taça é nossa, ao mesmo tempo que sentimos que as medalhas do atletismo são da Sara Moreira, da Patrícia Mamona, da Dulce Félix, da Jéssica Augusto e do Tsanko Arnaudo.

 

Paixão, dedicação, entrega, orgulho. Somos todos iguais - mas é mesmo verdade que uns são mais iguais do que outros. Como se costuma dizer, “sem desmerecer”…

 

Coisas boas de uma semana histórica

Sendo embora parte interessada - os ingleses aspiravam ir à final deste Europeu… -, nem por isso a BBC deixou de resumir exemplarmente, em e minutos, o evoluir do campeonato do começo até à taça nas mãos de Ronaldo. Vale a pena ver o apuro, o bom gosto e a qualidade deste trabalho final da estação britânica.

 

No balanço do Euro 2016, uma das questões que fica em aberto: será melhor ou pior um campeonato com mais equipas, ou seja, com os 24 países que entraram na competição deste ano? O jornal francês Liberation encontrou argumentos contra e a favor e pô-los lado a lado. É ler e pensar…

 

Já tem alguns meses, mas é dos mais sarcásticos videos da equipa da “Porta dos Fundos” sobre o universo do futebol, das transferencias de jogadores, e até das formas como se encaram os diversos países e clubes, Benfica incluído… Riam com eles!

 

publicado às 10:36

O que podemos aprender com a seleção?

Por: António Costa

 

Portugal é campeão europeu de futebol, um destino que estava longe de estar nas estrelas, foi uma vitória improvável de uma equipa em que poucos acreditavam e de um líder – Fernando Santos – que deitou fora o que é a tradição de jogar bem e de ser o campeão moral. Uma equipa eficiente, produtiva e com objetivos definidos, exatamente o que o país precisa de ser.

 

Os portugueses são românticos, e também no futebol. Foi por isso que aos primeiros jogos, a relação entre os adeptos e a equipa era de puro interesse, sem qualquer amor. Portugal não tinha os melhores jogadores – bem, tinha um, Ronaldo, que não estava no seu melhor -, foi por isso construindo uma equipa. Jogo a jogo, Portugal jogou para ganhar, jogou até para empatar, porque pôs em primeiro lugar os objetivos e não a estética.  À medida que o campeonato avançava – foram sete jogos sem perder um único -, a equipa reconstruiu-se em função das suas próprias fragilidades, mas sempre com uma prioridade, a de chegar à final do Europeu.

 

O futebol é mesmo uma das atividades, muito poucas, em que Portugal aparece à frente dos rankings internacionais, já era, e mesmo assim a seleção nunca tinha ganho uma grande competição. Uma final europeia, duas meias-finais e dois quartos-de-final nos últimos 12 anos só servem para perceber que, no momento da decisão, os portugueses falhavam. Por várias razões, por incapacidade para sofrer, por inexperiência, por falta de foco, por ineficiência nos momentos certos, por correr muito e correr mal. Não é isto, também, do que padece a economia portuguesa?

 

Os rankings internacionais mostram, por exemplo, que Portugal é dos países em que os trabalhadores trabalham mais horas e são menos produtivos do que outros, até do que outros portugueses que estão noutros ambientes laborais. Quando analisamos o percurso desta seleção, a capacidade de sacrifício, a compreensão do que era a sua realidade e os seus meios, a definição de objetivos e de metas claras e a fixação de um plano de trabalho, percebemos que a economia portuguesa seria mais produtiva se aplicasse estes princípios de forma consistente e metódica.

 

As crónicas do dia seguinte – o novo dia desportivo da Nação, 10 de julho – sublinham o que é hoje claro para todos. Portugal não tinha os melhores jogadores, mas foi a melhor equipa, com carácter, mesmo e sobretudo quando todas as probabilidades apontavam no sentido contrário, logo aos 8 min quando Ronaldo foi afastado do jogo mais importante da sua carreira. Quando o que todos apelidavam de pior jogador da equipa se supera e marca o golo decisivo. A crueldade é bela, como escreve o jornal espanhol El Mundo.

 

E seria uma injustiça, neste dia, não recordar o que foram os últimos anos na Federação Portuguesa de Futebol, o planeamento, a preparação, as condições para as seleções mais jovens, até a nova casa das seleções, no Jamor. Faz tudo parte de uma forma de preparar uma equipa que deveria ter seguidores. É isto que podemos aprender com a seleção.

 

 

As escolhas

As primeiras escolhas, claro, só podem ser desportivas.  E se as vitórias são importantes, ganhar em França, aos franceses, tem alguma coisa de poético. Especialmente para os emigrantes, tantas centenas de milhar, de primeira, segunda e até já terceira geração, uma ‘gaiola dourada’ tão bem retratada no filme de Ruben Alves. Como pode ler em www.publico.pt.

 

É claro, a vida não é feita apenas de futebol, e hoje há uma primeira reunião do Eurogrupo, os ministros das Finanças do euro, que vão discutir eventuais sanções a Portugal e Espanha. Amanhã será a vez do Ecofin, o encontro dos ministros das finanças da União Europeia. Caberá agora a António Costa fazer de Fernando Santos, se quiser e souber.

 

Tenham uma boa semana.

 

publicado às 12:34

Todos diferentes, todos bons rapazes portugueses!

Por: Márcio Alves Candoso

 

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Vamos falar de futebol. Um português nascido no Brasil corta uma jogada perigosa da equipa adversária na sua grande-área. A bola é recolhida por um preto da Musgueira, que avança no terreno até ter a noção do melhor passe. Manda o esférico para um mulato da Amadora, que a mete num menino branco e pobre da Madeira. Este remata à baliza, mas o guarda-redes contrário só tem tempo de a defender para um espaço vazio. Nesse mesmo sítio, surge um cigano e marca golo.

 

A ocorrência é verídica. Aconteceu na semana passada, aos 117 minutos de um jogo que, normalmente, só dura 90, e chegou e sobrou para que a selecção nacional de Portugal derrotasse a perigosa Croácia. Esta é a história de 23 rapazes, entre os 18 anos e os trinta e muitos, que têm em comum vestir a camisola das quinas e a cruz da Federação Portuguesa de Futebol. Falam todos português, ainda que um ou outro o conjugue malzinho. Nas suas origens, está um país pequenino, que andou pelo mundo inteiro, muito coeso na sua diferença. São todos portugueses. A nenhum lhe passará pela cabeça meter uma bomba no Rossio. Agnósticos, ateus ou cristãos, não importa. Um tem antepassados judeus. Todos filhos da cultura lusitana.

 

Há gente de todo o lado. Rui Patrício é de Marrazes (Leiria), e divide a baliza com Anthony Lopes, que nasceu nos arredores de Lyon (França) e Eduardo, um trasmontano de Mirandela. Na defesa, Cédric Soares é o actual lateral direito. Veio da Alemanha, nascido mesmo ao lado da fronteira com a Suíça, mas chegou a Portugal – zona de Lisboa - com apenas dois anos, trazido pelos pais emigrantes. Divide o lugar com Vieirinha, um rapaz de Guimarães. À excepção do guarda-redes titular, que actua no Sporting, jogam todos no estrangeiro.

 

No meio da defesa está um mestiço que fala à Norte. E nem podia ser de outra maneira, já que Bruno Alves nasceu e foi criado na Póvoa de Varzim. É filho da antiga glória local, o brasileiro Washington. Tem estado no banco, dando o lugar a Ricardo Carvalho, o mais velho da selecção, que começou a carreira na sua terra natal – Amarante. Parece ter perdido a titularidade, por sua vez, para José da Fonte, um seu vizinho de Penafiel. Já Pepe – mais exactamente Képler Laveran Lima Ferreira – veio de Alagoas (Brasil) com 18 anos, para tentar a sua sorte no Marítimo. Depois de Deco, foi o segundo brasileiro a envergar a camisola da selecção nacional; mas, ao contrário do ‘mágico’, cedo aprendeu o hino que canta sempre antes do jogo começar.

 

No lado esquerdo da defesa, um açoriano mestiço e um branco nascido em França dividem o lugar. Eliseu nasceu num bairro de Angra do Heroísmo (Terceira), filho de pais cabo-verdianos, e é o primeiro jogador do arquipélago a tornar-se campeão nacional desde que Mário Jorge e Mário Lino o fizeram nas décadas de 50 e 70. Mas, ao contrário dos seus conterrâneos, não veste a camisola do Sporting – é benfiquista desde pequenino. Para encontrar um benfiquista açoriano campeão, é preciso recuar até aos anos 40, altura em que o faialense Joaquim Teixeira envergou a camisola do ’Glorioso’ e da selecção. Açoriano e benfiquista era o Mário Bettencourt Resendes, saudoso campeão de jornalismo; outras ‘guerras’...

 

Raphael Guerreiro – é mesmo assim, com ‘ph’ – nasceu canhoto perto de St.Denis, no nordeste de Paris. Jogar no Stade de France, se Portugal chegar à final, será para ele quase um regresso a casa, depois de ter passado os anos mais recentes na Bretanha e de agora rumar a Dortmund, na Alemanha. O pai emigrante também foi jogador de futebol. Gostava de actuar no Benfica, mas para já ainda não foi possível.

 

No meio-campo, a parte mais defensiva – a chamada ‘posição seis’ - é dividida entre dois rapazes de Sintra. Danilo Pereira veio de Bissau (Guiné) e William Carvalho tem ascendência angolana. Mais à frente aprece Adrien Sébastian Pérrouchet Silva, nascido em Angoulême e criado em Arcos de Valdevez. A 650 quilómetros de distância da terra minhota, nasceu João Moutinho,’marafado’ de Portimão. Já Rafael Silva, mais conhecido por Rafa, é um dos dois únicos lisboetas de gema a actuar na selecção.

 

No Porto, mais concretamente em Pedras Rubras, nasceu João Mário, que havia de tomar o avião para Lisboa para representar o Sporting. É de família angolana - os pais são de Luanda – e tem dois irmãos na alta roda do futebol – o bracarense Wilson Eduardo e o jogador de futsal do Belenenses, Hugo Eduardo. Seu vizinho de nascimento é André Gomes – Grijó, Gaia -, que cedo rumou ao Benfica de agora actua no Valência de Espanha.

 

O puto da selecção é uma obra do bairro da Musgueira, em Lisboa. Mas como tantos dos seus companheiros de infância, nasceu filho de africanos – uma cabo-verdiana e um são tomense. Renato Sanches acaba de ser vendido ao Bayern. Já Ederzinho António Macedo Lopes – cujo diminutivo é Éder – veio da Guiné com tenra idade para a zona centro do país. Distinguiu-se na Académica.

 

Sobram os três ases deste baralho de naipes coloridos. São também os mais conhecidos, neste desporto onde quem vai à frente e marca mais golos é menino querido das multidões. Luís Carlos Almeida da Cunha – mais conhecido por Nani – nasceu na Amadora e começou no Massamá, terra de descendentes africanos e de primeiros-ministros migrantes. Os pais são cabo-verdianos, onde nasceram igualmente os seus irmãos.

 

Já Ricardo Quaresma é mais que uma mistura, é várias. A mãe é uma angolana morena e o pai – de que há pouca memória – é cigano. Nascido e criado em Lisboa, é sobrinho-neto do grande Artur Quaresma, que foi campeão no Belenenses. O ’Harry Potter’ – nome que lhe vem da magia que faz com os dois pés – joga agora na Turquia.

 

Deixei para o fim o menino pobre que fez o passe para o golo no jogo contra a Croácia, e que no desafio com a Hungria tinha já marcado dois, um do tipo ‘mostra lá outra vez, que eu até troquei os olhos’ e outro de cabeça. A ‘primeira exportação da Madeira’ - bate a banana, segundo a mãe dele – está cotado como o melhor jogador do mundo. É também o desportista mais bem pago do planeta, e já bateu quase todos os recordes que há para bater. Hoje tem pela frente o recorde de Platini, o jogador que até hoje marcou mais golos em campeonatos da Europa de futebol. Falta-lhe um para igualar, com dois passa a ser o maior. Chama-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

 

Vêm de todo o lado. Não têm em comum a raça. Têm a raça portuguesa. E agora venha de lá a Polónia!

 

PS – Já que falamos de pessoas unidas na diferença, aqui fica uma anedota que os polacos contam. Uma vez, durante a II Guerra Mundial, as SS alemãs invadiram uma pequena vila polaca e fizeram refém toda a população. Um jovem conseguiu fugir à vigilância nazi, mas pouco depois tinha as SS no seu encalço. Um dos soldados apontou a arma com intenção de abater o rapaz. Mas do Céu chegou a voz de Deus. ‘- Pára, não podes fazer isso, esse rapaz vai ser Papa!’, falou lá do alto Deus. O soldado tremeu, baixou a arma e perguntou:’ – Senhor, e eu?’.. ‘- Tem calma tu vais a seguir!’…

publicado às 12:42

Todos diferentes, todos bons rapazes portugueses!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Vamos falar de futebol. Um português nascido no Brasil corta uma jogada perigosa da equipa adversária na sua grande-área. A bola é recolhida por um preto da Musgueira, que avança no terreno até ter a noção do melhor passe. Manda o esférico para um mulato da Amadora, que a mete num menino branco e pobre da Madeira. Este remata à baliza, mas o guarda-redes contrário só tem tempo de a defender para um espaço vazio. Nesse mesmo sítio, surge um cigano e marca golo.

A ocorrência é verídica. Aconteceu na semana passada, aos 117 minutos de um jogo que, normalmente, só dura 90, e chegou e sobrou para que a selecção nacional de Portugal derrotasse a perigosa Croácia. Esta é a história de 23 rapazes, entre os 18 anos e os trinta e muitos, que têm em comum vestir a camisola das quinas e a cruz da Federação Portuguesa de Futebol. Falam todos português, ainda que um ou outro o conjugue malzinho. Nas suas origens, está um país pequenino, que andou pelo mundo inteiro, muito coeso na sua diferença. São todos portugueses. A nenhum lhe passará pela cabeça meter uma bomba no Rossio. Agnósticos, ateus ou cristãos, não importa. Um tem antepassados judeus. Todos filhos da cultura lusitana.

 

Há gente de todo o lado. Rui Patrício é de Marrazes (Leiria), e divide a baliza com Anthony Lopes, que nasceu nos arredores de Lyon (França) e Eduardo, um trasmontano de Mirandela. Na defesa, Cédric Soares é o actual lateral direito. Veio da Alemanha, nascido mesmo ao lado da fronteira com a Suíça, mas chegou a Portugal – zona de Lisboa - com apenas dois anos, trazido pelos pais emigrantes. Divide o lugar com Vieirinha, um rapaz de Guimarães. À excepção do guarda-redes titular, que actua no Sporting, jogam todos no estrangeiro.

 

No meio da defesa está um mestiço que fala à Norte. E nem podia ser de outra maneira, já que Bruno Alves nasceu e foi criado na Póvoa de Varzim. É filho da antiga glória local, o brasileiro Washington. Tem estado no banco, dando o lugar a Ricardo Carvalho, o mais velho da selecção, que começou a carreira na sua terra natal – Amarante. Parece ter perdido a titularidade, por sua vez, para José da Fonte, um seu vizinho de Penafiel. Já Pepe – mais exactamente Képler Laveran Lima Ferreira – veio de Alagoas (Brasil) com 18 anos, para tentar a sua sorte no Marítimo. Depois de Deco, foi o segundo brasileiro a envergar a camisola da selecção nacional; mas, ao contrário do ‘mágico’, cedo aprendeu o hino que canta sempre antes do jogo começar.

 

No lado esquerdo da defesa, um açoriano mestiço e um branco nascido em França dividem o lugar. Eliseu nasceu num bairro de Angra do Heroísmo (Terceira), filho de pais cabo-verdianos, e é o primeiro jogador do arquipélago a tornar-se campeão nacional desde que Mário Jorge e Mário Lino o fizeram nas décadas de 50 e 70. Mas, ao contrário dos seus conterrâneos, não veste a camisola do Sporting – é benfiquista desde pequenino. Para encontrar um benfiquista açoriano campeão, é preciso recuar até aos anos 40, altura em que o faialense Joaquim Teixeira envergou a camisola do ’Glorioso’ e da selecção. Açoriano e benfiquista era o Mário Bettencourt Resendes, saudoso campeão de jornalismo; outras ‘guerras’...

 

Raphael Guerreiro – é mesmo assim, com ‘ph’ – nasceu canhoto perto de St.Denis, no nordeste de Paris. Jogar no Stade de France, se Portugal chegar à final, será para ele quase um regresso a casa, depois de ter passado os anos mais recentes na Bretanha e de agora rumar a Dortmund, na Alemanha. O pai emigrante também foi jogador de futebol. Gostava de actuar no Benfica, mas para já ainda não foi possível.

 

No meio-campo, a parte mais defensiva – a chamada ‘posição seis’ - é dividida entre dois rapazes de Sintra. Danilo Pereira veio de Bissau (Guiné) e William Carvalho tem ascendência angolana. Mais à frente aprece Adrien Sébastian Pérrouchet Silva, nascido em Angoulême e criado em Arcos de Valdevez. A 650 quilómetros de distância da terra minhota, nasceu João Moutinho,'marafado' de Portimão. Já Rafael Silva, mais conhecido por Rafa, é um dos dois únicos lisboetas de gema a actuar na selecção.

 

No Porto, mais concretamente em Pedras Rubras, nasceu João Mário, que havia de tomar o avião para Lisboa para representar o Sporting. É de família angolana - os pais são de Luanda – e tem dois irmãos na alta roda do futebol – o bracarense Wilson Eduardo e o jogador de futsal do Belenenses, Hugo Eduardo. Seu vizinho de nascimento é André Gomes – Grijó, Gaia -, que cedo rumou ao Benfica de agora actua no Valência de Espanha.

 

O puto da selecção é uma obra do bairro da Musgueira, em Lisboa. Mas como tantos dos seus companheiros de infância, nasceu filho de africanos – uma cabo-verdiana e um são tomense. Renato Sanches acaba de ser vendido ao Bayern. Já Ederzinho António Macedo Lopes – cujo diminutivo é Éder – veio da Guiné com tenra idade para a zona centro do país. Distinguiu-se na Académica.

Sobram os três ases deste baralho de naipes coloridos. São também os mais conhecidos, neste desporto onde quem vai à frente e marca mais golos é menino querido das multidões. Luís Carlos Almeida da Cunha – mais conhecido por Nani – nasceu na Amadora e começou no Massamá, terra de descendentes africanos e de primeiros-ministros migrantes. Os pais são cabo-verdianos, onde nasceram igualmente os seus irmãos.

 

Já Ricardo Quaresma é mais que uma mistura, é várias. A mãe é uma angolana morena e o pai – de que há pouca memória – é cigano. Nascido e criado em Lisboa, é sobrinho-neto do grande Artur Quaresma, que foi campeão no Belenenses. O 'Harry Potter' – nome que lhe vem da magia que faz com os dois pés – joga agora na Turquia.

 

Deixei para o fim o menino pobre que fez o passe para o golo no jogo contra a Croácia, e que no desafio com a Hungria tinha já marcado dois, um do tipo ‘mostra lá outra vez, que eu até troquei os olhos’ e outro de cabeça. A ‘primeira exportação da Madeira’ - bate a banana, segundo a mãe dele – está cotado como o melhor jogador do mundo. É também o desportista mais bem pago do planeta, e já bateu quase todos os recordes que há para bater. Hoje tem pela frente o recorde de Platini, o jogador que até hoje marcou mais golos em campeonatos da Europa de futebol. Falta-lhe um para igualar, com dois passa a ser o maior. Chama-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

 

Vêm de todo o lado. Não têm em comum a raça. Têm a raça portuguesa. E agora venha de lá a Polónia!

 

P.S. – Uma vez, durante a II Guerra Mundial, as SS alemãs invadiram uma pequena vila polaca e fizeram refém toda a população. Um jovem conseguiu fugir à vigilância nazi, mas pouco depois tinha as SS no seu encalço. Um dos soldados apontou a arma com intenção de abater o rapaz. Mas do Céu chegou a voz de Deus. "Pára, não podes fazer isso, esse rapaz vai ser Papa!", falou lá do alto Deus. O soldado tremeu, baixou a arma e perguntou: "Senhor, e eu?". "Tem calma tu vais a seguir!"…

 

publicado às 12:34

O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

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