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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Já vimos um filme parecido com este

Por: Paulo Ferreira

 A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário.

 

Sabem aquela sensação de “déjà vu”? Tudo isto não vos faz lembrar nada? Já vimos um filme com um desenvolvimento de enredo muito semelhante a este.

 

Os alertas cada vez mais frequentes e mais ruidosos vindos de fora. São analistas de bancos internacionais, agências de rating, instituições internacionais como a Comissão Europeia ou o FMI e alguns responsáveis europeus. Uns alertam para os riscos de aumento da dívida pública, tornando-a ainda mais insustentável. Outros falam da necessidade de tomar medidas para que o défice orçamental deste ano se cumpra. Todos apontam o optimismo do cenário macroeconómico em que tudo isto está assente.

 

Bastou que um deles tenha sido Wolfgang Schauble, o ministro das Finanças alemão que adoramos odiar, para que a atenção se fixasse no mensageiro e nas suas maquiavélicas intenções e não na mensagem. E esta devia fazer-nos parar para pensar e verificar contas.

 

Já vimos um filme parecido com este, onde o optimismo e a confiança do governo destoava cada vez mais do que estava à volta. Diz-se que a contas estão certas, que não são necessárias mais medidas, que está tudo a correr conforme previsto.

 

Também já vimos no passado que o primeiro-ministro fica cada vez mais isolado nesse papel. O próprio ministro das Finanças fez o alerta, em entrevista ao Público, para a necessidade de corrigir previsões macroeconómicas para este ano. Mas António Costa apressou-se a dizer que “os dados estão lançados e dão contas certas”. Não se sabe quem fez estas contas, se haverá um ministro-sombra das Finanças no próprio Governo que saiba o que mais ninguém parece saber. O que parece evidente é que a uma degradação do cenário económico costuma corresponder uma necessidade de revisão das contas públicas.

 

Outro dado que não é novo é o recurso a imprevistos externos para justificar derrapagens internas. Como se dentro de casa estivessemos a fazer tudo com segurança, consistência e executando um plano com poucos riscos. Nesta matéria, o Brexit ameaça ser o novo “o mundo mudou”. Servirá para justificar tudo e mais alguma coisa.

 

Já vimos um filme parecido com este, onde a cada mês os dados da execução orçamental são festejados e apresentados como prova inequívoca e definitiva de que tudo está no trilho certo. Gostava muito que fosse verdade mas as variações intra-anuais de despesas e receitas não permitem comparações directas. As análises mais detalhadas que foram feitas sugerem mais cautela sobre o andamento das contas públicas. Do outro filme sabemos que as boas execuções orçamentais mensais resultaram invariavelmente em desastres no fim de ano. O mesmo se passava com as emissões de dívida pública, que eram “vitórias” regulares. Como se viu.

 

O filme que vimos no passado não acabou bem, como sabemos. Agora, estamos ainda a tempo de rever o guião, produzindo um daqueles surpreendentes “volte face”. Porque nada é pior do que entrar para ver uma comédia-romântica bem disposta em que tudo só pode acabar bem e sair da sala depois de um desfecho de tragédia.

 

A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. O Brexit é um caminho desconhecido, com impactos económicos e financeiros imprevisíveis. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário, esperando que seja o mundo a adaptar-se às nossas contas e não o contrário.

 

Já vimos um filme parecido com este. Esperemos que o desfecho seja radicalmente diferente.

 

Outras leituras

  • Mas há coisas que correm bem, como o turismo. Vamos ver se conseguimos não estragar esta parte?

 

  • Se as forças armadas não conseguem recrutar candidatos num país onde a taxa de desemprego jovem é de 30%, atingindo mais de 100 mil pessoas que até aos 25 anos querem um emprego e não o têm, então a resposta só pode ser uma: as forças armadas estão a fazer alguma coisa de errado.

 

 

publicado às 09:39

Saia da Europa, mas não me convide

Por: José Couto Nogueira

 

No Brasil vendem-se umas t-shirts que têm estampado: “Vá ao teatro” em letras garrafais, e depois por baixo, em pequenino: “Mas não me convide!”. Certamente que, no Reino Unido, uma adaptação desta ideia faria sucesso, sobretudo entre os políticos insulares: “Brexit. But don’t invite me”. Com o anúncio feito ontem por Nigel Farage, de que se retira da arena inglesa, parece não sobrar nenhum dos promotores do referendo para conduzir o país para uma solução tranquila.

 

 

A sequência de eventos é de deixar qualquer um estupefacto. David Cameron, afirmando que foi derrotado no referendo que ele próprio convocou, demite-se da direcção do Partido Conservador e de primeiro-ministro. O que ele não quer é tomar conta dum processo inédito e certamente penoso e complicado. Pela lei inglesa, os conservadores continuam a governar até às próximas eleições, em 2020. Portanto terão de escolher outro. Boris Johnson, pois claro, e que até é a favor do Brexit. Mas Johnson vem logo dizer que não concorre, porque também não quer ser o responsável por aquilo que defendeu.

 

Um pensamento que vem logo à cabeça é que o Monty Pyton fez escola. Ou que previram o futuro. Há uma cena num filme deles – “A vida de Brian” ?, “O cálice sagrado” ?– que poderia muito naturalmente ser invertida para a realidade britânica actual. Uma praça cheia de populares esfarrapados. Os líderes revolucionários, em cima dum palanque improvisado, gritam: “Vamos atacar o castelo!”. A multidão em uníssono responde: “Vamos, vamos! Todos ao castelo!” Desata tudo numa correria em direcção ao castelo, a brandir foices e enxadas, enquanto os organizadores do motim se abraçam, dão palmadas nas costas, e depois seguem para o pub para beber uma merecida cerveja. O trabalho deles está feito, a turba que se desenrasque.

 

E entre os líderes que incitaram a populaça a atacar o castelo, temos o mais truculento e reaccionário, Nigel Farage. Eleito para o Parlamento Europeu, notabilizou-se por insultar os colegas regularmente e acusar a União Europeia de ser uma espécie de entidade nazista. Uma vez disse na cara de van Rampuy, então presidente do Conselho Europeu, que ele tinha o carisma de um esfregão de cozinha. Doutra, afirmou peremptoriamente que a União foi criada para impedir os impulsos imperialistas dos alemães e que afinal falhou redondamente. Agora, já depois do Brexit, voltou ao hemiciclo de Bruxelas para dizer que os parlamentares à sua volta nunca tinham trabalhado um dia na vida.

 

Pois bem, Farage, o campeão do Brexit, acaba de afirmar que, cumprido o seu objectivo de vida, se retira da política. No Reino Unido não tem qualquer cargo público – perdeu a eleição para deputado, em 2015 - portanto sair ou ficar não faz diferença. Mas acrescentou que continuará a ir regularmente ao Parlamento Europeu achincalhar os colegas e “vigiar com olhos de águia” o cumprimento da separação.

 

O Partido Conservador terá de fazer eleições internas. Os seus 150 mil filiados escolherão dois entre cinco candidatos e depois os deputados do partido optarão por um deles. Espera-se que o processo esteja concluído até 9 de Setembro. Então quem são essas cinco vítimas da dislexia nacional, numa altura em que o pedido de novo referendo tem cinco milhões de assinaturas?

 

Theresa May, a Ministra da Administração Interna (Home Secretary) era contra o Brexit, mas já disse que aceita o resultado. Muito conservadora, tem uma linha dura quanto a imigração, segurança social e segurança. Seria a hipótese mais drástica em termos de forçar as ideias relacionadas com o Brexit. Disse que não aceitará contribuir para o orçamento da UE, o que torna a sua posição negocial insustentável à partida.

 

Michal Gove, o Ministro da Justiça. Como ele próprio declarou, com humor britânico, não tem carisma nenhum. Não acrescentou, mas poderia tê-lo feito, que é uma combinação da simpatia de Shaüble com o bom humor de Jeroen Dijsselbloem. O Partido só o escolherá se estiver mesmo decidido a desaparecer do mapa politico.

 

Os outros três são praticamente desconhecidos do eleitorado: Andrea Leadsom, actual Ministra da Energia e Mudanças Climáticas, Stephen Crabb, Ministro do Trabalho e Pensões, e Liam Fox, Ministro da Defesa. Ou seja, cinco desconhecidos – por ora, uma vez que um deles será o próximo primeiro ministro. Têm em comum uma linha dura quanto a imigração, o que poderá dificultar muito as negociações com a UE; a livre circulação de pessoas será certamente um exigência básica para qualquer acordo.

 

Depois há o Partido Trabalhista, dirigido pelo homem invisível,Jeremy Corbyn. Sabia-se que era favorável ao Brexit, num partido que é contra, e talvez por isso mal se viu durante a campanha. No Governo-sombra trabalhista as demissões são ao molhe.

 

Para a Europa que fica na União, e que sofreu um abalo telúrico com consequências inimagináveis, quanto mais cedo o Reino Unido sair, melhor. Mas quem tem de tomar a decisão são os ingleses, e só eles, invocando o famigerado artigo 50° do Tratado de Lisboa. Um líder que ainda ninguém sabe quem é, decidirá quando fazê-lo, e isso deixa os europeístas furiosos. O menino que já não quer brincar é que decide quando a brincadeira acaba, onde já se viu?

 

Entretanto há outros acontecimentos europeus que podem influenciar a decisão britânica e que serão influenciados por ela, numa interdependência diabólica. Por exemplo, como lembra Wolfgang Münchau, editor do “Financial Times”, as eleições francesas são em 2017 e Marine le Pen é a favor do Frexit – saída da União Europeia e do euro. François Hollande, caso concorra, quer que o Reino Unido pague as despesas do Brexit. Em 2017, os ingleses podem não ter ainda activado o artigo 50º e terão toda a vantagem em esperar pelos resultados franceses antes de o fazer.

(Por falar nele, Münchau é alemão. Arranjará visto para continuar a dirigir o FT?)

 

Enquanto isto, e mesmo sem artigo 50º, os ingleses já estão a pagar a sua decisão: muitos pedidos de cidadania (dos imigrantes que o podem fazer), muitas saídas das ilhas (dos britânicos que querem e podem), desvalorização da libra, deslocalização de bancos e serviços financeiros (entre 50 a 70 mil postos de trabalho), baixa do rating, clivagens territoriais e geracionais, racismo sem precedentes.

 

Toda a gente prevê o fim da Europa, mas ninguém consegue prever como será. No Continente, a questão são os maus líderes: Merkel, Juncker, Draghi, Schulz, Schäuble, Hollande, Renzi, Groysman, Orbán, e tantos, tantos, que seria tedioso enumerar.

Na ilha, o problema é a falta deles.

publicado às 01:07

Não é como acaba. É como começa.

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não, não é um engano. A frase-talismã da selecção portuguesa virada do avesso é perfeita para retratar aquilo a que estamos a assistir por estes dias na Europa das nações. A sucessão de declarações infelizes, a falta de vontade para o consenso, as velhas intrigas e rivalidades postas a nu. Começa assim, começou sempre assim. É uma espécie de semente danada à qual anos de história em comum não chegaram para pôr cobro e a que anos de história de suposta união deram a ilusão de tudo estar sanado. Não está.

 

Com a particularidade de que hoje o Velho Continente está, efectivamente, velho, e que o mundo se tornou, efectivamente, plano. Todos estamos com todos em todo o lado – mas somos cada vez mais desiguais. Com resquícios da Europa aristocrática da 1ª Guerra Mundial e com mais do que resquícios da Europa desagregada e deprimida da 2ª Guerra Mundial.

 

Façamos uma breve e não exaustiva revisão da matéria dada na última semana do curso Como destruir a Europa em 28 capítulos (agora já são 27).

 

Na terça-feira, dia 28 de Junho, o Parlamento Europeu viveu uma das suas sessões mais animadas de sempre. Foi votada a resolução que pede a saída imediata do Reino Unido da União Europeia. Nigel Farage exibiu a proa ufana de vencedor (perdoem-lhe, que a ignorância é mesmo atrevida) e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, perguntou-lhe, sem meias medidas, "o que estão aqui a fazer?". "Estão em negação de que a vossa moeda está a falhar, o vosso projecto político falhou", retorquiu Nigel Farage.


Houve vaias e houve palmas e teria sido divertido se não fosse trágico.

 

Na quarta-feira, dia 29, o nosso velho conhecido ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, atirou para o ar que Portugal deve pedir um novo programa de resgate. Não parece próprio de um alemão não saber exactamente o que quer dizer e menos ainda corrigir-se em poucos minutos, mas foi o que aconteceu. Schäuble voltou atrás e declarou que o Governo português pode não precisar de voltar a pedir ajuda desde que cumpra as regras. Tudo isto acontece enquanto o grande banco alemão, Deutsche Bank, mete água por vários buracos. Diz o FMI: “o Deustche Bank é a instituição financeira com maior risco no mundo enquanto fonte potencial de choques externos ao sistema financeiro”. O que dá a toda a cena europeia aquela ambiente acolhedor de orquestra do Titanic que não pára de tocar.


Hoje, dia 1 de julho, a Eslováquia assume pela primeira vez a presidência da União Europeia. Na segunda-feira, dia 27 de junho, o partido eslovaco de extrema-direita LSNS lançou uma campanha para recolher assinaturas para um referendo que consulte o povo sobre a saída do país da União Europeia. É o mesmo partido que obteve 8% nas eleições legislativas de Março e que, segundo podemos ler no Público de hoje, tem um líder, Marian Kotleba, governador da região de Banská Bystrica, que chama "parasitas" aos ciganos. Já o primeiro-ministro, Robert Fico, fez a sua campanha de reeleição tendo como lema “nem um único imigrante muçulmano”. Hoje discursa ao lado de Juncker sobre os desafios da Europa e nos próximos seis meses a presidência eslovaca continuará a ter a crise dos refugiados como um dos grandes temas da agenda europeia.


É caso para usar a frase-cliché da época balnear de 2016, entre adolescentes e não só: está tranquilo, está favorável.


Também hoje, dia 1 de julho, chegou a notícia que confirma a repetição das eleições presidenciais na Áustria, na sequência de uma decisão sem precedentes do Tribunal Constitucional em resposta ao recurso apresentado pelo partido FPO do candidato de extrema-direita, Norbert Hofer. O ecologista Alexander Van der Bellen venceu as eleições de 22 de Maio por 30.863 votos de diferença em relação a Hofer. Agora, em resposta à alegada existência de irregularidades, os austríacos vão ser chamados de novo a votar. "Se as eleições forem canceladas será uma desgraça", tinha dito ao semanário Österreich o ministro do Interior, Wolfgang Sobotka.


Há uma semana estávamos sob o efeito do choque Brexit. Uma semana depois, como podemos ver, a Europa tem um menu muito mais diversificado de problemas para nos oferecer, distrair e entreter. E de acidente democrático em acidente democrático, cá vamos andando e acreditando que a história não se repete.


Dizia Frank Underwoord que as eleições, e de certa forma a democracia, são sobrevalorizadas. Mas claro que isto é só na ficção.


Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

E o Facebook baralha e volta a dar de novo. Depois do namoro, em 2015, às marcas de media, nomeadamente com a sedução dos instant articles (conteúdos jornalísticos publicados directamente nas páginas do Facebook), o gigante das redes sociais anuncia agora uma mudança de algoritmo de forma a dar mais importância nos murais dos utilizadores aos posts publicados por família e amigos em detrimento dos que são partilhados directamente pelos meios de comunicação social. Se atendermos ao volume, cadência e irrelevância seguidas por algumas estratégias de social media, não podemos propriamente levar-lhes a mal. E já agora, ajuda a que nos lembremos que o Facebook é uma empresa privada que define as suas próprias regras.

Quando falarmos de futuro, vamos lembrar-nos dele. Alvin Toffler, o autor de livros como Choque do Futuro e A Terceira Vaga (entre tantas outras coisas que fez na vida) morreu ontem aos 87 anos. Obrigada ao futurólogo que primeiro quis ser poeta.

Hoje, sexta-feira, é dia de dizer adeus a dançar aos Buraka Som Sistema. O concerto é gratuito e tem lugar junto à Torre de Belém, às 22h00. Se gosta, não perca; se não conhece, tem aqui provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo a banda que assume ter ajudado a criar “uma identidade musical nova para Lisboa”.

 

 

 

publicado às 15:02

Uma ilusão a menos

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Oito dias depois, passado o choque inicial, as cabeças arrefecem e os comentários sobre o resultado do referendo no Reino Unido vão mudando de tom. No começo, parecia uma maré alta em tempos de marés vivas - e a histeria atravessava os que defendiam o brexit tanto quanto os que julgavam essencial a permanência do país na União Europeia. O cataclismo foi garantido de ambos os lados.

 

Agora, a “vitória” começa a ser distribuída por toda a gente: os que defendiam a saída da União continuam satisfeitos com o resultado do referendo, mas perderam a pressa na saída; os que viam no abandono britânico o terramoto que iria matar a Europa unida começam a vislumbrar no triste resultado algumas oportunidades. Repensar a Europa. Refundar a Europa. Corrigir a Europa.

 

Para quem, como eu, chegou à maioridade quando o processo de adesão à (então) CEE começou - e atravessou os anos 80 e 90 assistindo ao milagre da multiplicação das auto-estradas, ao enriquecimento de meio-mundo, ao “desenvolvimento” traduzido em multibancos, vias verdes e centros comerciais, ao fim dos tormentos nas fronteiras e à chegada, impante, de uma nova moeda -, o momento que vivemos, qualquer que seja o desenlace, é igual ao sinal de trânsito que nos indica “estrada sem saída”. É o fim desse aparente paraíso em que os mesmos países que, menos de 50 anos antes, se confrontavam impiedosamente numa guerra insana e esmagadora, estavam agora juntos e estáveis à procura de um crescimento sustentável e de um ambiente próspero para os seus cidadãos, em democracia e liberdade.

 

Foi esta ideia que alimentou a minha adesão ao projecto europeu. Como se, por fim, olhássemos uns para os outros e percebêssemos que pertencíamos a uma mesma raiz, mesmo que com crescimentos e ideias diferentes.

 

Afinal, não é bem assim. Ainda há quem ache que há seres humanos de primeira e de segunda, ainda há quem queira defender o seu território com medo de “invasões bárbaras”, ainda há quem não tenha percebido que, num mundo globalizado, quanto mais nos fechamos,  mais ameaçados estaremos (como ainda há dois dias se viu em Istambul)…

 

O resultado do referendo no Reino Unido foi mais decepcionante do que se tivesse ocorrido, com igual resultado, em qualquer outro terreno europeu - justamente porque o país reclama para si uma democracia com História, e uma certa arrogância política e cultural. Que não se traduz na resposta à pergunta mais básica de todas. A que define o futuro, independentemente das contingências do presente.

 

 

Uma semana quente…

 

Depois do referendo britânico, vieram as eleições espanholas - com menos respostas do que as desejadas, e mais surpresas do que as esperadas. Seguia-as por aqui, com dinamismo e muita informação, apesar da colagem obvia ao PP…

 

… Mas ainda sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, a mais resumida e clara soma de consequências encontrei-a, online, no Financial Times

 

Menos de dois minutos: um excelente video produzido pela revista The Economist sobre a felicidade na Europa. Em semana de ressaca do brexit, vale a pena…

publicado às 08:38

A crise está a explodir. Alguém tem a audácia de um plano estimulante para reanimar a Europa?

Por: Francisco Sena Santos

 

Nos anos 80 e 90, até mesmo na viragem para este século XXI, a União Europeia era vivida como uma ideia visionária e um sentimento político que entusiasmava pela sua cultura que tem como valores primários a liberdade e a solidariedade.  A presidência europeia de Delors (1985/95) e a evolução do continente no tempo da queda dos muros eram a turbina para esse sentimento de esperança. Havia a ilusão de estar em construção uma união de povos assente na procura de coesão e progresso num longo e consolidado pós-guerra em que já ninguém pensava nas guerras, sonhava-se o futuro com a Europa de Schengen e de Erasmus sem fronteiras.

 

Mas começaram a aparecer desconfianças, que foram crescendo à medida que nos adentrávamos neste século. A crise financeira de 2007 marcou a viragem. Ficou instalada no poder uma geração de dirigentes que reduziu o estimulante processo de integração europeia à obstinada defesa do euro e dos interesses dos mercados financeiros. Onde antes florescia o sentimento europeísta passou a crescer a desilusão ou a fúria e o antieuropeísmo avança como ressentimento robusto.

 

Quando a ambição de caminhos imaginativos de progresso para a Europa foi derrubada nem sequer ficou a sensatez. A condução europeia, cada vez mais distante e burocrática, levou a que se instalasse um sentimento dominante de perda. Entrou um tempo de precariedade difusa, trágica. Os que mandam na Europa impuseram as receitas da austeridade, a classe média baixou drasticamente o seu poder de compra, os pobres ficaram mais desamparados, o número de pessoas excluídas aumentou. Quebraram-se os vínculos que tinham unido os europeus na ilusão de uma União em busca da coesão. Os dirigentes europeus foram incapazes de propor uma discussão estratégica plural, democrática, na procura de soluções. Imperou a política de Berlim e com ela Bruxelas, a executora, desligou-se das pessoas, dos cidadãos.

 

Com o assédio do temor de cada vez mais pobreza e insegurança, perdida a confiança nas lideranças tradicionais, um número sempre crescente de cidadãos foi-se agarrando ao que lhe ia aparecendo com promessas de mudança. Entrámos no tempo das mensagens negativas, a explorar as inseguranças. Os media também tratam de fazer negócio com a decomposição que se instala. É assim que os britânicos – deve dizer-se: os ingleses – votaram pelo rompimento com a União Europeia. É uma escolha que mobiliza mais populismos e mais xenofobia, da Holanda aos Balcãs, passando pela França e pelos países que querem escapar à ameaça da Rússia pos-soviética de Putin, Hungria, Polónia, Bulgária e os outros.

 

Uma questão essencial tem de ser esta: vai prevalecer a devastadora impotência e o contágio negativo da última década europeia ou vai ser possível, finalmente, um rasgo para que a Europa volte a poder propor futuro?

 

Lê-se e ouve-se de muitos dos políticos europeus que chegou o tempo para relançar o ideal europeu. Mas até parece que eles estão, tal como os sumidos dirigentes ingleses que ganharam o Brexit, sem saber como lidar com o que têm pela frente. Falam de reaproximação com os cidadãos, mas não se vislumbra qualquer ideia concreta para concretizarem as intenções.

 

Será que algum líder tem coragem e é capaz de ousar um golpe visionário de fantasia e inteligência que livre os europeus do assédio constante da crise, dos tecnicismos, dos medos, das exclusões, dos muros e que volte a estimular o ideal da União Europeia? Se alguém o conseguir, ainda bem que houve este sobressalto do Brexit para despertar esse rasgo que acabe com a traição em curso a um projeto político que nasceu como união de paz e concórdia. Vale lembrar sempre que a Europa se uniu para que não se repitam massacres gigantescos como os das Grandes Guerras da primeira metade do século XX. Por agora, o que se vê, é, como advertiu o Papa, uma Europa em risco de balcanização. Com o reino britânico desunido, dividido em duas metades, a sair da União Europeia, portanto a legitimar que Escócia e Irlanda do Norte avancem para a independência, com inevitável dominó na Catalunha, eventualmente no País Basco e em outras ambições soberanistas. A crise está a explodir à nossa frente. Aparecerá alguma liderança audaz, corajosa? Alguém capaz de voltar a fazer crescer o encanto com a Europa?

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Do lado americano, notícias de sensatez do eleitorado: Donald Trump em queda livre nas sondagens. Os eleitores dos EUA estão a abrir os olhos para o risco do voto populista e um salto para o desconhecido?

 

Afinal Mariano Rajoy nem precisou de ir a penaltis, ganhou no prolongamento mas vai ter de fazer política para conseguir um acordo, não apenas de poder como também de estabilidade, para o novo governo de Espanha. O PSOE perde, mas resiste ao tsunami anunciado. Saem derrotados os novos movimentos (Podemos e Ciudadans) e as sondagens que deram grande fiasco até mesmo na noite das eleições.

 

A Islândia é um país com apenas 330 mil habitantes e uma escassa centena de futebolistas profissionais mas conseguiu eliminar do Euro16 os criadores do futebol. Antes já tinham posto fora a Holanda. Até onde vai este fabuloso destino islandês? A Espanha que entrou bicampeã  mas agora reconhece fim de ciclo e há jornais, como o Superdeporte, que chegam a ser cruéis com o selecionador que antes levou a Espanha ao triunfo. Seja como for, o futebol é para ser uma festa, ninguém ganha com azedumes. Já agora: a seleção portuguesa que seja capaz de ganhar mas, sobretudo, apetece que seja capaz de encantar com o jogo, como às vezes faz.

 

As primeiras páginas escolhidas hoje são as do futebol.

publicado às 07:30

A culpa é mesmo de Bruxelas?

Por: António Costa

 

Há hoje na Europa comunitária uma espécie de sentimento anti-Bruxelas, que se materializou, ironicamente, num referendo no país mais protegido das imposições da União Europeia do ponto de vista político e económico-financeiro. Se calhar, porque, na realidade, os responsáveis da crise da União Europeia estão, em primeiro lugar, nas capitais dos seus 28 estados-membros.

 

É fácil responsabilizar a União Europeia, os burocratas de Bruxelas e as instituições europeias pela estagnação do projeto político que começou, lá atrás, com a comunidade do carvão e do aço. A seguir, aparecem na lista dos mais procurados por esta crise a chanceler Merkel e os sucessivos presidentes da Comissão Europeia. Serão mesmo os culpados disto tudo?

 

A União Europeia, mesmo com a lógica da bicicleta que tem sempre de estar em movimento, foi o suporte da paz e do desenvolvimento económico da Europa nos últimos 40 anos. A cada novo passo, foi inclusiva, cresceu, mas manteve os compromissos iniciais de promoção da recuperação dos que estavam mais atrasados. Com muito dinheiro, suportado pelos orçamentos nacionais e pelas transferências entre países, com outro pressuposto relevante: os líderes e os cidadãos dos países menos desenvolvidos fariam o que fosse necessário para prepararem os seus respetivos países para as novas exigências de um mercado único, primeiro, e de uma moeda única, depois. É claro que o resto do mundo não estava parado e isso era, em si mesmo, uma outra dificuldade, esta externa, para a construção da União Europeia e do euro.

 

Mesmo nos países que mais beneficiaram da União Europeia e do euro, como Portugal, há uma clara falta de memória, seletiva, sim, sobre a história desde 1986. Os fundos comunitários, um mercado único para as empresas e pessoas, a redução brutal dos juros cobrados ao país porque assumimos o compromisso do euro. O que fizemos com essas vantagens, particularmente a partir de 1995? Pouco e mal. É por isso incompreensível, por exemplo, um espírito tão pouco crítico ao período 1995/2001, com o Governo de António Guterres, provavelmente o pior desde a entrada na CEE em 1986.

 

A Comissão Europeia e algumas das suas direções-gerais ganharam uma vida própria, para lá do voto dos eleitores europeus, especialmente à medida que o grupo cresceu e passou a ser mais difícil consensualizar posições. Do diálogo e da diplomacia, passamos para o voto dos mais fortes, que aliás se acentuou desde a crise financeira de 2007/2008. Os principais líderes europeus e a própria comissão cometerem erros, sim, uns de comunicação, outros de substancia. Mas, na verdade, sempre para corrigirem os pecados originais de um projeto político que ganhou expressão monetária e uma moeda única e que, eles próprios, foram impossíveis de gerir por razões de política interna de cada país. O pedido de resgate em 2011 é disso um exemplo, está longe de ser o único.

 

Os cidadãos da União Europeia estão desiludidos, e quando há momentos de decisão, como foi o caso do referendo no Reino Unido, o discurso político não ajuda. Pelo contrário, mostra todos os dias que ninguém sabe muito bem qual é o passo seguinte, ninguém (nos) apresenta novos desenvolvimentos que mobilizem, apenas a ideia de que as alternativas são piores. Não é fácil, assim, destruir a força crescente dos movimentos nacionalistas à Esquerda e à Direita, como se vê por essa Europa fora, que se alimentam das crises, do desemprego, da pobreza.

 

A bicicleta europeia não pode continuar a andar como se nada fosse, mas convém que os governos dos países da União Europeia façam um mea culpa, assumam as suas responsabilidades, porque é claramente aí que estão as respostas. A transferência de responsabilidade para Bruxelas é popular, e dá votos internamente, só que não corresponde à verdade da história. E dificulta ainda mais o que vem aí a seguir.

 

A crise financeira e económica desde 2008 e o que se seguiu nos anos seguintes mostra que nem todos os países, nem todos os governos, nem todos os cidadãos estão preparados para as exigências de uma moeda única. Pelo contrário, há um desgaste social enorme. E também mostra que estamos a chegar ao limite das possibilidades dos governos que têm de convencer as respetivas populações a pagarem, com os seus impostos, o que é necessário para manter uma moeda única nos termos em que ela existe hoje.

 

Os resultados das eleições espanholas, sem serem definitivos é totalmente clarificadores, são um bom augúrio, porque os discursos fáceis anti-Europa não ganharam, perderam até votos. Por isso, no meio desta turbulência e de mares nunca dantes navegados, nem tudo está perdido.

 

 

As escolhas

 

Os ingleses decidiram sair da União Europeia, bem, nem todos, mas os suficientes para uma vitória do Brexit. Depois do colapso dos mercados na sexta-feira, e quando anda tudo à procura de respostas, desde logo no próprio Reino (ainda) Unido, o ministro das finanças inglês, defensor do ‘remain’, garantiu hoje que o país está preparado para viver fora do espaço comunitáriowww.bbc.com. Estará mesmo ou, como em outros países, a Democracia popular vai ser ultrapassada pela Democracia representativa?

 

Ronaldo não desiste, especialmente quando perde, e na seleção até perde muito. Messi desistiu porque perdeu. A dias de mais uma final, e quando sabemos que estamos longe de ser favoritos, esta diferença é uma lição para o país. Os resultados podem ser acompanhados aqui, em 24.sapo.pt.

 

Tenham uma boa semana e Portugal Allez

 

 

 

 

 

publicado às 11:32

Um dia a Europa foi assim

Por: Rute Sousa Vasco

 

Aconteceram várias coisas naquele ano. O FC Porto foi campeão da Europa de futebol pela primeira vez. O Nelson Piquet foi tricampeão na Fórmula 1. A 24 de Junho, exactamente no dia que hoje se assinala, nasceu Lionel Messi. Também foi o ano em que Carlos Drummond de Andrade nos deixou. E, segundo a ONU, esse foi também o ano internacional dos desabrigados ou sem-abrigo, como preferirem.

 

A British Airways foi privatizada e os U2 lançaram The Joshua Tree. O então presidente da Disney, Michael Eisner, e o que seria o futuro presidente de França, Jacques Chirac, assinaram o acordo para a construção da Disneyland em Paris. Em Inglaterra, a primeira-ministra chamava-se Margaret Thatcher e, a 31 de março desse ano, deu uma entrevista de 45 minutos à televisão soviética.

 

Foi o ano em que Portugal assinou com a China o acordo para a entrega de Macau. Os Simpsons apareceram pela primeira vez como pequena animação num programa de televisão chamado The Tracey Ullman Show.

 

E um miúdo com 18 anos, Mathias Rust, piloto na força áerea da República Federal da Alemanha conseguiu furar o espaço aéreo soviético e aterrar um avião na Praça Vermelha, em Moscovo. Foi preso. Uns dias depois, Ronald Reagan que era presidente dos Estados Unidos, numa visita a Berlim desafiou Mikhail Gorbatchev, que era presidente da União Soviética, a derrubar o muro de Berlim, que era um muro que dividia as duas Europas, ocidental e de leste, desde os anos 60.

 

O Acto Único Europeu foi aprovado pela Comunidade Europeia.

Existiam cinco mil milhões de pessoas no mundo (hoje somos sete mil milhões).

Os Pink Floyd, sem Roger Waters, lançaram o álbum “A momentary lapse of reason”.

 

Os meus amigos geeks talvez não saibam, mas foi também o ano em que Larry Wall criou a linguagem de programação Perl.

E no cinema, o Oscar desse ano foi para o filme Platoon – Os bravos do pelotão. Paul Newman ganhou o óscar de melhor actor com o filme The Color of Money e Michael Caine o de melhor actor secundário, tal como Dianne Wiest, em Ana e suas irmãs, de Woody Allen.

 

Este foi o mundo que me foi apresentado em 1987, quando estava a entrar na idade adulta. Tinha coisas erradas. A Thatcher mandava em Inglaterra, o Reagan nos Estados Unidos e havia um homenzinho chamado Ceausescu na Roménia onde aconteciam atrocidades que viríamos a descobrir poucos anos depois. Mas para quem estava a terminar o liceu, havia no ar algo que nos dizia que as coisas iam ficar melhores. Que os bons iam ganhar. Que tínhamos uma grande aventura pela frente.

 

Passaram-se quase 30 anos. E hoje sei que, de alguma forma, estamos a assistir a qualquer coisa de importante para a história dos próximos 30 anos.

 

De forma egoísta e conservadora, desejei que a resposta britânica fosse “ficar” em vez de “sair”. Para que o mundo que é apresentado aos meus filhos que agora chegam à idade adulta fosse mais parecido do que diferente. Para que soubéssemos com o que contávamos (mesmo que não gostássemos disso há muito tempo) e para contarmos com algum contraponto ao eixo-central europeu (Alemanha com França a reboque). Para ‘dar um tempo’ à relação.

 

A verdade é que há muito tempo que não se sente que os bons vão ganhar e que qualquer coisa boa está para acontecer. Vivemos de medo em medo na Europa. Os fantasmas que estávamos a querer expulsar em 1987 regressaram todos, ou quase todos. É uma Europa que não hesita em humilhar os mais fracos, em vergar-se aos mais fortes, sem que se descortine o espírito europeu no discurso sem alma dos tecnocratas de Bruxelas.

 

É também uma Europa que faz justiça à sabedoria popular que diz que quem com ferro mata, com ferro morre. Ainda se lembram do que muitos disseram aquando do referendo na Grécia, há dois anos? Querem democracia? Paguem. Porque, no fim do dia, o projecto europeu é uma grande caixa registadora.

Os gregos não podiam pagar -  os ingleses podem. Vão dizer o quê agora?

 

Boris Johnson e Nigel Farage, dois dos rostos da campanha pelo Brexit, estão longe de ser os Robins dos Bosques da Europa. Pelo contrário.

 

E o apoio "desinteressado" de Putin, Trump e Marine Le Pen ao Brexit mostram, claramente, que uma Europa sem Reino Unido não é uma melhor Europa.

 

Mas às vezes as coisas certas acontecem ou são precipitadas da maneira errada. Escrevo isto e tremo por todas as memórias da história comum europeia, por todas as vezes em que nada disto foi verdade. Depois houve esta ou aquela excepção em que isso pode ter acontecido. Escrevo isto e lembro-me de uma frase do romance "Pai Nosso" da Clara Ferreira Alves em que somos advertidos a prestar atenção a todas as coisas que acontecem pela primeira vez.

 

Ainda assim. 

O Brexit, em si mesmo, pode não ser uma coisa má – é sim garantidamente o início de algo que não sabemos o que vai ser.

É garantidamente o sinal desesperado, porque todos os outros já existiram, de que precisamos de uma nova Europa.

 

(P.S. – E, na política mais caseirinha, para quem duvidava que António Costa era um homem de sorte, as teimas estão tiradas.)

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras sugestões:

 

Este foi um texto escrito pelo Pedro Santos Guerreiro no Expresso, um dia antes do jogo Portugal – Hungria, um dia antes do microfonegate. Um dia antes de um jogo de sofrimento e, de alguma forma, redenção. Porque amanhã, mesmo com Brexit, o Euro2016 continua, aqui fica como recomendação de leitura porque vale a pena.

 

E agora, Espanha. No domingo, realizam-se as eleições que – provavelmente – irão indicar quem ficará à frente dos destinos do país. Num tempo que grande turbulência europeia, são ainda mais importantes. Aqui  é um bom sítio para seguir o que se vai passar no país ao lado.

 

 

 

 

 

publicado às 12:03

O dia de todas as decisões

 Por: Pedro Rolo Duarte

 

Hoje é o dia. Hoje vamos saber se a Grã-Bretanha vai fazer desmoronar a União Europeia - ou se, não a desfazendo, a vai deixar ferida, enquanto o país recupera da explosão programada que criou no reino de vários reinos…

 

As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.

 

Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta “união”, um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o “adepto” e o “sócio”. Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: “This project has been part-financed by the European Community”...

 

… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.

 

O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.

 

Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

 

 

Leituras boas da semana

 

Excelente o artigo de Nora Kelly na revista norte-americana The Atlantic sobre a relação entre Donald Trump e a televisão, e como pensa o putativo candidato resolver a questão…

 

José Milhazes é, indiscutivelmente, o português que melhor conhece a Russia e o que a rodeia. Num excelente artigo publicado há dias no jornal online Observador, explica com clareza as relações entre o país de Putin e os seus vizinhos - ou seja, nós, os europeus…

 

Aconteça o que acontecer com a nossa selecção no próximo sábado, o conselho serve: perdoar, esquecer, prolonga a vida. O artigo vem na insuspeita Time e serve para qualquer resultado: se sairmos vitoriosos, podemos perdoar os erros passados. Se perdermos, é mais saudável esquecer do que ficar a remoer e a culpar os Ronaldos desta vida…

 

publicado às 08:34

Os eleitores britânicos e os espanhóis vão a penaltis

Por: Francisco Sena Santos

 

O primeiro campeonato europeu de futebol de seleções, realizado em 1960, foi um quase fiasco, por escassa mobilização. A ideia de juntar os países europeus e apurar os melhores foi de um francês, Henri Delaunay. Nessa década já tinha sido criada, impulsionada por políticos da França, Alemanha Ocidental, Itália e os três países Benelux, a CECA, embrião da CEE que gerou a atual União Europeia.

 

Foi um quebra-cabeças juntar seleções para aquele primeiro Euro com a bola: os ingleses, que se tomam por pátria do futebol, ficaram ciumentos com a iniciativa francesa e não quiseram entrar. Alemães (ao tempo a RFA) e italianos, entre outros, também não. Inscreveram-se 17 países para a fase de qualificação, mas a Espanha renunciou, por ordem política do ditador Franco, que recusou o passaporte para a seleção jogar o apuramento em Moscovo com a comunista União Soviética. Nesse 1960, concorreram ao Euro as seleções de 17 países. Agora, foram 53. A Europa da CEE começou por ter seis países-membros e agora a União Europeia tem 28. A Europa do futebol cresceu, tornou-se pujante e gera paixões, a Europa política também cresceu mas definha como ideal e crescem os desapegos.

 

Se perguntarmos por aí, em inquérito de resposta instantânea, o nome de suecos famosos, o mais provável é que o futebolista Ibrahimovic seja o mais nomeado, muito mais que Ingmar Bergman, August Strindberg ou até Alfred Nobel. Talvez alguns se lembrem de Henning Mankell, mestre do policial e amante de Moçambique. Vão aparecer mais nomes suecos do futebol, como o do treinador Eriksson, mas ninguém saberá que um tal Stefan Lofven é o primeiro-ministro em Estocolmo. Há uns tempos, nas décadas de 70 e 80, toda a gente responderia logo Olof Palme, o político paradigma da social-democracia progressista, solidária e tolerante. Palme assumia-se utópico: “Não podemos viver sem utopias”, disse numa visita a Portugal pouco tempo antes de ter sido assassinado. Nessa viagem a Lisboa, Palme explicou numa entrevista à então RDP que “a política tem de ser feita num diálogo contínuo entre realidade e sonho, porque sem sonho a nossa ética e ideologia desaparecem”. Esse último quarto do século XX foi um tempo de expansão e até de sonho com o ideal de uma Europa luminosa, atraente para todos. Entrámos no século XXI e a coisa começou a correr mal. Houve a infâmia do 11 de setembro que desencadeou guerras e terrorismos que nunca mais pararam, houve os golpes financeiros de 2007, a Europa cresceu e arranjou uma moeda sem estar consistentemente preparada para estas duas coisas, veio a atual geração de dirigentes europeus, veio a austeridade e os cortes sociais, e estamos nisto, sem faísca, sem entusiasmo político, uma Europa frustrante – embora com potencial de ideias e energia para ser radiosa, assim a saibam estimular.

 

Chegámos a um momento em que as eleições e referendos em cada país são um confronto entre sistema e anti-sistema ou partidos tradicionais e forças anti-política. Neste último domingo, em Itália, candidatas de um movimento, o Cinco Estrelas (M5E), que se assume contra o sistema político, conquistaram a presidência de cidades como Roma ou Turim. É facto que Virginia Raggi, eleita em Roma com 67% dos votos, não pode ser etiquetada de populista (rótulo habitualmente atribuído ao M5E do comediante Beppe Grillo, com tendência para propor soluções primárias), é uma política que fez uma campanha afável a prometer “a legalidade, a honestidade e a transparência”, e a propor “uma revolução gentil” que faça “mudar a velha política dos partidos”. Tem na agenda desmontar as redes mafiosas que controlam os serviços, recuperar o civismo, fazer a revolução da normalidade. Ela não apelou ao extremismo da plebe, tratou de juntar uma equipa plural de gente reconhecida como competente em diferentes domínios da gestão de uma cidade, e assim triunfou. Pode ser um bom exemplo de regresso da política com boa chama. Fica para se ver.

 

Estamos numa semana que toda a gente vê determinante para o futuro da Europa. Já depois de amanhã é o referendo britânico sobre o isolacionismo ou a permanência europeia, três dias depois, no domingo, é a repetição de eleições em Espanha. Num caso como noutro, há tendência para o desempate entre os blocos que se confrontam ser feito nos penaltis, ou seja, o resultado só com o apuramento dos últimos votos.

 

 A campanha para a escolha britânica foi deprimente e atingiu níveis impensáveis de divisão, radicalização e até de loucura. O desafio naval entre Neil Farage e Bob Geldof no rio Tamisa pareceu uma cena de Monty Python num filme em que, como em toda a campanha, as duas partes (brexit e pro-UE) exploraram o medo dos cidadãos. Foram usados panfletos xenófobos alertando para a possível invasão do Reino Unido por milhões de turcos e acrescentados mapas sobre alta criminalidade na Turquia. Foi evocada a resistência britânica a Napoleão e a Hitler por entre proclamações de combate aos refugiados como os invasores de agora. Na campanha “remain” também não faltaram  ameaças, desde o colapso da libra ao risco de os reformados perderem os passes e as pensões. Todos abusaram, todos foram demasiado longe na exploração do medo dos votantes.

 

A campanha cada vez mais agressiva foi estancada na passada quinta-feira com o chocante terrível assassinato da inspiradora deputada Jo Cox cujo apaixonante serviço público em trabalho solidário ficámos a conhecer. Não é ainda legítimo declarar o crime com motivação política, mas vários indícios sugerem essa probabilidade, com execução nas mãos de um perturbado seduzido por ideias de extrema-direita. Mas a campanha de violência verbal terá inflamado ódios que podem levar uma criatura mentalmente distorcida a um crime assim.  Esta tragédia terá servido para despertar a Inglaterra – como antes era conhecida – e fazê-la parar e repensar. O eleitorado líquido, como diria Bauman, flutuando na fronteira entre a abstenção e o voto de protesto, estará a juntar o coração à cabeça, e a emoção a puxá-lo para o lado da permanência britânica na Europa. Isso explicará a neutralização dos seis pontos percentuais de avanço que o “Brexit” tinha há uma semana. O mais provável é que tudo fique resolvido nos penaltis.

 

Em Espanha, no domingo, a mesma tendência para que seja preciso esperar pela decisiva contagem dos últimos votos. O que se joga nesta eleição é a modificação profunda do sistema de representação política: será que um movimento nascido na rua com o protesto dos “indignados” vai tornar-se chave para a formação do próximo governo de Espanha? Os partidos tradicionais estão a ficar obsoletos e a deixar de carburar para os eleitores? Há que esperar pela noite de domingo. Vivemos dias que podem ativar um dominó com consequências inimagináveis.

 

Na noite do próximo domingo já estarão apuradas seis das oito seleções que jogarão os quartos de final do Euro 2016. Há 56 anos, no primeiro campeonato, a final foi jogada pelas seleções de dois países que já não existem: a União Soviética que se impôs (2-1) no prolongamento à Jugoslávia. Agora, seria bonito ver na final, num país, a França, que quando foi preciso recebeu tantos emigrantes portugueses, a seleção de outro país, Portugal, que está a ser um raro bom exemplo europeu no dever de acolhimento dos refugiados. A Inglaterra (tal como Gales e a Irlanda do Norte) começou este Euro dentro da União Europeia, mas não é certo que no final continue a fazer parte da Europa política. Culturalmente, não há separação possível, ainda que a história europeia tenha como pilares a velha Grécia, o Império Romano, o Renascimento e o Iluminismo. Também a matriz cristã.   

 

A TER EM CONTA:

 

As cidades governadas por mulheres: Madrid, Barcelona, Paris, Turim, Roma, Colónia, Varsóvia e Estocolmo são algumas das cidades europeias com poder feminino.

 

O "pactómetro" proposto por La Vanguardia: como formar uma maioria de governo em Espanha?

 

A guerra continua no Iraque. A batalha por Falluja gerou dezenas de milhar de refugiados. Trinta mil só nestes últimos dias. O "EI" perde território, mas pode ser apenas um recuo estratégico.

 

A música tem mesmo poderes mágicos e leva à dança: um violinista embalava uma rua de Trieste com a música que é banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie”; uma palestiniana, Rima Baransi, que estuda dança em Berlim, ia a passar com a família em férias, e foi assim. Com grande beleza.

 

Pela estrada fora, outra vez, sempre, na América.

 

As primeiras páginas britânicas a dois dias do referendo. The Guardian e The Daily Telegraph puxam a sua escolha para o topo.

 

O ocaso da Oi na primeira página do Estadão.

publicado às 09:44

Match Point

Por: Francisco Sena Santos

 

O protagonista de Match Point, numa frase definidora deste filme (Woody Allen, 2005), enquadra o efeito do acaso no instante decisivo: “Numa partida de ténis há momentos em que a bola roça a borda da rede e numa fração de segundo tanto pode seguir para a frente como cair para trás; com um pouco de sorte, segue em frente e ganhas, sem essa ponta de sorte não passa e perdes”. Analisando resultados eleitorais e sondagens pelo mundo, fica-se com a sensação de que estamos nessa fração de segundo de indefinição.

 

Há muita curiosidade sobre como será o que vem a seguir neste tempo em que por todo o lado prospera o voto anti-establishment da opinião pública que, exasperada com anos de más políticas, arrisca dar força a entidades que fazem do protesto a sua arma mais forte. Reino Unido, Itália, Espanha e Estados Unidos são arenas para alguns dos próximos confrontos que podem redimensionar a paisagem política.

 

Nos Estados Unidos, Hillary Clinton vai conquistar hoje na Califórnia os votos que lhe garantem a investidura como candidata presidencial do Partido Democrata. Mas o rival republicano, Donald Trump nunca pareceu tão capaz de conseguir chegar ao match point de novembro e ter a sorte do lado dele. Há quem compare Trump com Reagan: quando anunciaram a candidatura, as hipóteses de êxito pareciam nulas, levavam a sorrir. Depois, com algum sobressalto, disse-se que era impensável vê-los na presidência dos EUA. A seguir, instalou-se a possibilidade forte. E Reagan até foi um presidente que entrou para a história: apertou a mão a Gorbachev em Moscovo e, depois de ameaçar disparar os mísseis, presidiu ao fim da “Guerra Fria”. Mas a semelhança entre ambos, para além da filiação no Partido Republicano, parece-me ser a origem nos palcos do espetáculo, e nada mais. No essencial, são diferentes: Reagan sorria sempre e falava com otimismo da América como farol da humanidade, usava como lema “a cidade que ilumina o mundo”; Trump escolhe o desdém, despreza imigrantes e até quer um muro para barrar acessos à fortaleza América. Mesmo assim, segundo as sondagens, se o match point fosse jogado hoje, Trump, o demagogo, até poderia ser o vencedor. Há mais de 50 milhões de pessoas dispostas a entregar-lhe o comando dos Estados Unidos. 

 

Em Itália, o primeiro round das eleições municipais mostrou uma tão grande irritação dos eleitores com os partidos tradicionais que o castigo eleitoral leva um movimento antipolítica, o 5 Estrelas (M5S), fundado pelo comediante Beppe Grillo, a aparecer favorito para, no dia 19, lhes conquistar a liderança em cidades como Roma ou Turim (o caderno eleitoral do M5S privilegia a atitude à competência). No caso de Roma, a campanha M5E contra a corrupção político-administrativa do município mal-governado, leva a que a sua jovem candidata Virginia Raggi tenha prometida uma vitória de cinco estrelas. Em outras cidades, como Milão, Turim ou Bolonha tudo está em aberto para o match point daqui a duas semanas. Sendo que o partido de Berlusconi está estilhaçado e o do primeiro-ministro Renzi muito amachucado.

 

Em Espanha, o match point joga-se uma semana depois, no dia 26, com a repetição das eleições gerais, após seis meses de impasse e governo interino. A campanha já está a ser áspera e renhida. O eleitorado que nas últimas quatro décadas votou bipolarizado entre PP e PSOE está agora a rasgar com essa tradição: em todas as sondagens nenhum partido chega aos 30%, o PP ronda uns insuficientes 28% e o Podemos, partido saído do protesto nas ruas em 2011, com inflexibilidade esquerdista, surge a seguir a apenas três pontos percentuais. O histórico PSOE aparece asfixiado na terceira posição com apenas 20%. Tudo pode acontecer, incluindo mais impasse para ser conseguida uma maioria nesta Espanha com 20% de desemprego.

 

Pelo meio, entre o voto italiano e o espanhol, na quinta-feira dessa crucial semana política, há o referendo britânico, reconhecido como transcendente. Ninguém sabe o que vai acontecer, se vai dar Brexit (o Reino Unido a sair da União Europeia) ou Bremain (a permanecer). As sondagens mostram os dois campos ombro a ombro, agora com um pulso de vantagem dos que querem sair. Vale ter em conta um estudo de opinião publicado pelo Financial Times: as pessoas com menos instrução e menos rendimentos são maioritariamente pelo voto Brexit; os mais jovens, os que têm mais estudos e melhores rendimentos são pela permanência. Outra diferença é notória entre votantes citadinos (maioritariamente pela continuidade na Europa) e rurais (contra). Estudos feitos nos EUA revelam tendências que colocam os grupos que votam Trump com estratificação que, apesar de complexa, se assemelha à dos que optam pelo Brexit no Reino Unido. Será legítimo concluir que os menos instruídos e os mais apertados em rendimentos são mais propensos ao discurso dito populista? Parece. O que está evidente é que temos pela frente ao dobrar da esquina várias situações de match point político. Com risco de minas por despoletar no terreno do jogo. E com o problema de os eleitores votarem mais por motivação negativa que por entusiasmo ou sequer adesão. Falta magia nestes jogos.

 

VALE VER OU OUVIR:

 

Como já estão a ser (energéticos, animados) os escritórios do futuro.

 

Viagem fotográfica ao século XIX.

 

Um olhar da vizinhança sobre nove outros museus em Lisboa. E o Jardim das Delícias no verão de Madrid.

 

Como lidamos com a informação que nos chega?

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

publicado às 08:20

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