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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O 'património' e o 'material' da Pirelli 2016

Por: Márcio Alves Candoso

 

'The day we stop looking, Charlie, is the day we die' (Al Pacino, 'Scent of a Woman')

 

 Fotografia de Barry Lategan para o calendário Pirelli de 1988.

 

Vai-se a ver, e se calhar Annie Leibovitz é que tem razão. Associar uma marca de pneus a imagens de mulheres longe da perfeição física que lhes foi ditada pela reprodução e invenção do tempo, é capaz de ser a ideia redonda que faltava aos cinquentenários calendários 'Pirelli'.

 

Que vemos nós, homens com olhos de homem e mulheres com os mesmos olhos, quando olhamos uma mulher despida? Vemos para além dos olhos, uma virtude esquecida no ético rodapé de uma outra, a que se cuida de ser vivida. Quem vê menos que uma vulva em 'A Origem da Vida', de Gustave Courbert, esquece talvez Joanna Hiffernam, a 'bela irlandesa' que deu voz aos pintores franceses da 'belle époque'.

 

Quando, nos anos 60, a Pirelli acrescentou aos 'gadgets' de sempre – porta-chaves, estiletes monografados - a oferta de um calendário 'com imagens fascinantes, incluindo o nu artístico' (cito), estava a pisar o terreno escorregadio que nesse tempo começou a fazer sentido. O corpo mostrado, da mulher no presente caso, já não era aquela coisa proibida aos fotógrafos, artistas maiores da arte realista. Não ficava apenas bem aos pintores.

 

Eram mulheres mesmo, nuas ou a indiciar pele por vários lados, a proteger os homens de ficarem cegos na escura solidão do imaginário onanista. Já não um terreno típico de camionista ou de soldado deserdado da sorte de casa, tivesse-a tido antes ou apenas sonhada, cujas musas à cabeceira da cama eram as miúdas de cinta estreita, lábios rubros e faces rosadas emolduradas de cabelos 'curly', que se olhavam logo depois das pernas dobradas por debaixo delas, num papel com as pontas retorcidas e preso em paredes de caserna ou camas de cabine com pioneses de ponta plástica.

 

E, no entanto, era a candura que se esvaía. Depois da 'Playboy', da pornografia, havia agora um tempo presente – um calendário, que é em si mesmo o que conta o tempo e dele nos informa em cada dia – que associava mulheres ao mês que entretanto passava.

 

As pioneiras tende em muita estima. Em 1963, várias mulheres dos quatro cantos da raça apareciam associadas aos produtos 'Pirelli' que, em cada parte do globo, mais vendiam. Foi só no ano seguinte que o 'glamour' das fêmeas que se mostravam – ou apenas um bocadinho – começou a permitir aos ditosos consumidores da marca terem em casa algo de belo com que passar o tempo. Há algo de masculino em não ter em Maio o mesmo que se pode ver em Novembro. É um escape, pelo meio do fumo da civilização dos carros novos...

 

De Herb Ritts a Mario Testino, de Helmut Newman logo proibido mas depois mostrado, muitas foram as objectivas que subjectivaram os corpos em luz e sombra de mulheres famosas. Todas lá estiveram - e as que não estavam, queriam. De Kate Moss magra a Cindy Crawford curvilínia, até Julianne Moore lá esteve, em frente a Terry Richardson. A exclusividade dos calendários, associadas ao perfil de 'marketing' da marca, faz com que, em cada ano, não sejam impressos mais que uns escassos milhares. 'Priceless'!

 

 Vanessa Williams fotografada por Anne Leibovitz para o calendário Pirelli 2016.

 

Aprender a olhar, sem desviar os olhos do que é íntimo. Foi isso que, de par em ímpar, nos mostrou a Pirelli nestes mais de cinquenta anos. Com excepção da década em que a imagem não fazia sentido perante a realidade que já não estava escondida, a de 70 e tantos até 80 e poucos. Dizem que foi do petróleo, que fez travar os pneus italianos.

 

Eu digo que foi uma amostra do que apenas no Céu nos é absolutamente permitido. Mas isso sou eu, que cresci nesse tempo semi-desconhecido que complexizou a naturalidade ganha nos exactos tempos que o antecederam. 'The Times They Are a Changin', até que 'Shine on You Crazy Diamond'. Ou mesmo Antonioni, misturando as cores todas das relevantes ancas e peitos no deserto que é vermelho. Até ao tempo 'moderno' em que da 'Playboy' desapareceram as desnudas.

 

Um dia, não tinha eu mais de cinco anos, estava escondido numa esquina a ver os maiores de idade a trocarem cartas de mulheres nuas. Achei prevertido, antes de ter percebido o bem - e o mal - que lhe está associado. Depois senti-me livre no peito de uma mulher, muito mais tarde. Sinto-me ferido quando Leibovitz, do alto do seu 'amén' ao politicamente correcto, me quer convencer que mulher não é o material corpo que me passa pelos olhos, entre Março e Setembro. Na roda de um calendário 'Pirelli' pervertido, porque dele não emana desde logo o sonho, o património imaterial da Humanidade.

 

 

publicado às 16:37

A luta pela vida: fotografia de duas raposas vence Wildlife Photographer of the Year 2015

A imagem é sangrenta e bela: duas raposas na sua luta pela vida, na região subártica de Cape Churchill, no Canadá. "Conto de Duas Raposas" foi a vencedora escolhida pelo júri internacional, que distinguiu o fotógrafo Don Gutoski como Wildlife Photographer of the Year 2015.

Conto de duas raposas, Don Gutoski

Conto de duas raposas, de Don Gutoski - vencedor do concurso Wildlife Photographer 2015

 

A imagem de Gutoski foi escolhida entre mais de 42 mil enviadas de 96 países e vai estar no centro da exposição que abre hoje ao público no Museu de História Natural de Londres. Esta exposição comemora a extraordinária riqueza da vida no nosso planeta, com o objectivo de inspirar pessoas do mundo inteiro a valorizar e conservar o mundo natural. Depois de Londres, a exposição segue para outras cidades britânicas e internacionais; a agenda e os locais não estão ainda disponíveis no site oficial. Enquanto esperamos para saber se virá até Portugal, conheça a história das imagens vencedoras e veja, mais abaixo, a galeria dos vencedores.

 

Conto de duas raposas: uma fábula do aquecimento global

Cape Churchill, no Canadá, é uma região onde se encontram os territórios da raposa vermelha e da raposa do Ártico, mais ao norte. "Os guias de Churchill tinham ouvido dizer que de vez em quando as duas espécies lutavam, mas nenhuma das pessoas com quem falámos tinha alguma vez presenciado esse comportamento.", diz Don, o fotógrafo. "Primeiro vi a raposa vermelha, que estava a caçar e a interagir com uma presa, e quando me aproximei percebi que a presa era uma raposa do Ártico. Quando cheguei suficientemente perto para captar o acontecimento, a luta já tinha terminado e o vencedor estava a comer. Tirei uma série de fotografias, até a raposa vermelha se ter saciado e ter recolhido os restos para esconder até à próxima refeição."

 

Kathy Moran, editora da National Geographic e membro do júri do prémio, acrescenta: "Num impacto imediato, esta fotografia parece mostrar a raposa vermelha a despir o seu casaco de inverno. O que podia ser uma interacção simples entre predador e presa foi visto pelo júri como um exemplo flagrante das alterações climáticas, com as raposas vermelhas a entrar no território das raposas do Ártico. No fundo, a imagem funciona a vários níveis. É visualmente violenta, capta um comportamento e, no que toca à capacidade de contar uma história, é a fotografia mais poderosa que já vi."

 

Os combatentes do Ártico

A exibição dos combatentes, Ondrej Pelánek

A exibição dos combatentes, de Ondrej Pelánek, vencedor na categoria Jovem Fotógrafo 2015

 

Ondrej Pelánek, de 14 anos, originário da República Checa, ganhou o prémio de Jovem Fotógrafo 2015 com a sua "Luta de combatentes". Os combatentes são aves limícolas conhecidas pelo seu comportamento agressivo quando estão a cortejar. A fotografia foi tirada na tundra de Varanger, Noruega. "Ao longe, para lá do círculo polar ártico, vimos combatentes a lutar", diz Ondrej. "Tirei esta fotografia à meia-noite, quando o meu pai estava a dormir. Estava demasiado excitado, portanto tinha ficado acordado." Kathy Moran acrescenta: "Esta é uma fotografia complexa, com várias camadas que criam um belo efeito, um olhar surpreendente e sofisticado que chamou rapidamente a atenção do júri. Há muitas fotografias boas de combatentes a prepararem-se para se exibir, mas poucas que captem o seu comportamento com tanta intensidade e graciosidade. O fotógrafo conseguiu apanhar um momento que regista uma acção poderosa, mas mostra-a como uma dança delicada. Há quem passe anos de carreira a tentar fazer uma imagem assim. O facto de ter vindo de um concorrente tão jovem é entusiasmante."

 

Estas duas imagens foram escolhidas entre os 18 vencedores de categorias individuais, que mostram aspectos excepcionais da natureza - de exemplos de comportamentos extraordinários de animais, a paisagens sublimes. O concurso é organizado pelo Museu de História Natural de Londres e o júri é constituído por um painel de profissionais da indústria. As imagens são propostas por fotógrafos amadores e profissionais e escolhidas com base na sua criatividade, valor artístico e complexidade técnica. A partir de dezembro de 2015 já vai ser possível submeter propostas de imagens para o concurso de 2016, no site do museu.

 

As imagens vencedoras

 

 

 

publicado às 14:11

Todas as fotografias do mundo na ponta do selfie stick

Por: Paulo Rascão

ellen selfie

 

Na época vitoriana ninguém pensava sair à rua sem chapéu. Hoje é quase impossível cruzarmo-nos com alguém sem telemóvel, aquele objecto que serve para as pessoas falarem a quilómetros de distância, sem ligações físicas, nem fios. É importante relembrar a função do aparelho porque, nos longínquos anos 90, a nova forma de comunicar foi recebida com previsões pouco animadoras e uma das razões para tal era que as pessoas não teriam tanto assunto para falar que justificasse andarem sempre com um telefone atrás. A história veio provar  que este pressuposto estava errado, ainda que certo. 

 

Hoje fazer chamadas é apenas uma das coisas que se pode fazer com um telemóvel e não arrisco muito se disser que nem é a mais importante. As mensagens escritas, primeiro, e as fotografias, depois, ganharam terreno a olhos vistos face à comunicação por voz. Só dentro do serviço whatsapp, o número de mensagens trocadas num só dia equivale, em volume, a dezenas de exemplares de toda a obra que Platão escreveu durante a longa vida que teve. O filósofo grego, pilar da cultura e pensamento occidental, não poderia conceber tamanha "produção intelectual"  quando, no seu jardim, fazia Aristóteles e outros pensarem no sentido da vida. O que diria então Nicéphore Niépce, o primeiro dos fotógrafos, que na vertigem do tempo conseguiu apressadamente ser o primeiro a registar e, sobretudo a preservar com sucesso, a primeira fotografia (foto do grego luz e grafia escrita ou registo) ou melhor dizendo a primeira heliografia (helio do grego sol). 

 

Só tinha passado pouco mais de um quarto do novo século XIX quando Niépce, que vivia em Chalon-sur-Saône, uma cidade muito simpática a cerca de 300 kms de Paris, escolheu como cenário da primeira fotografia histórica a vista da janela mais alta da sua casa. O  breve "clique"  demorou apenas oito horas, e desde logo resolveu um problema que ainda hoje atormenta fotógrafos de arquitetura ou paisagem: na primeira fotografia de todas, as duas fachadas opostas dos prédios estão igualmente iluminadas, o que só veio dar razão ao velho Galileu, e alegria aos dois vizinhos do fotógrafo primordial. O movimento da terra não tremeu a fotografia, mas fez o sol iluminar os dois lados da imagem. Ficámos também a saber com isto que os dados de geo-referenciação que hoje os telemóveis colocam como tag nas fotografias já lá estavam na primeiríssima com outra exatidão. Hoje sabemos sem sombra de dúvidas e justamente pelas sombras da imagem que a janela estaria a virada para norte.

 

Hoje em oito horas fazem-se milhões de novas fotografias. Com os sensores digitais modernos e uma técnica parecida à utilizada pelo pai da fotografia, estão na moda os timelapses, como podemos ver no genérico da série House of Cards. A técnica usada tem mais parecenças que diferenças, trata-se de uma câmara num tripé várias horas a apontar para o mesmo sítio, com a diferença que se vão fazendo vários disparos de forma intervalada e, já agora, também se vê a luz a mudar.

 

Niépce não era fotógrafo, não só por a fotografia não ter sido inventada ainda, mas porque o seu interesse recaía sobre a litografia, uma técnica que, na altura, já era quase centenária (foi inventada em 1796 por um alemão, Alois Senefelder, um actor e escritor de teatro que queria encontrar uma forma fazer cópias dos seus textos). 

 

Senefelder soube usar  esta técnica muito bem. A litografia ou litogravura (lito do grego pedra) consiste em "desenhar" ou gravar numa matriz de pedra calcária, com um lápis gorduroso. As partes da pedra que têm gordura "agarram" a tinta; nas outras, a tinta escorre, e depois basta calcar um papel, por exemplo, em cima da pedra e o desenho será transferido. Uma aplicação prática da velha máxima de que água e azeite não se misturam. Anos mais tarde isto seria muito inspirador para os senhores da Polaroid, pois a técnica das fotografias instantâneas, que hoje temos dificuldade em continuar a justificar face ao digital, é justamente obtidas por transferência.

 

A história da fotografia é consistente desde o início. Niépce não era dotado de grande mão para o desenho, pelo que precisava de encontrar uma forma de passar para a pedra as imagens, sem depender da habilidade com o lápis . Começou assim a explorar materiais foto-sensíveis, que já se conheciam há muito. Desde a antiguidade que se limpam as pratas de tempos a tempos, porque ficam escuras. Mas só em 1727, um professor de anatomia, Johann Heinrich, provou que os sais de prata escureciam com a luz e não devido ao tempo ou ao calor, desmistificando assim a razão pela qual as empregadas limpavam melhor as pratas no Inverno do que no Verão. Mais sol a entrar pela janela e lá vai a baixela ficar escura em menos tempo. 

 

A solução passou pela utilização de betume judaico; uma espécie de petróleo ou alcatrão que se encontra em estado natural em poças, e que era já utilizado, reza a História, desde os tempos biblícos (Deus mandara a Noé: "Faz para ti uma arca de madeira (...) e a betumarás, por dentro e por fora, com betume. "  Génesis 6, 14). O betume judaíco ou alcatrão é um isolante, impermeabilizante, combustível, e também é sensível à luz. Espalhando este betume numa placa, e colocando em cima uma gravura tornada translúcida depois de embebida em oleo, consegue-se a magia da imagem gravada.

 

O francês Niépce conseguiu passar imagens da gravura para a chapa de cobre através de uma exposição solar demorada, em 1822. Mas isto ainda não era uma fotografia, seria um fotograma, técnica que consiste em obter imagens colocando objectos em cima de superfícies sensibilizadas (papéis fotográficos) e expondo à luz. Durante o movimento surrealista do século XX, o artista Man Ray iria usar exaustivamente esta técnica chamando-lhe inclusivamente Rayogramas.

 

Mas, para ter fotografias, faltava a câmara escura (do latim camera obscura) que, já agora, também já era conhecida há muito, pelo menos desde os tempos de Aristóteles. Se tivermos uma casa ou um tenda toda escura com apenas um pequeno buraco para passar a luz, a imagem do que está fora iluminado irá ver-se projectada invertida na parede oposta à entrada de luz. A câmara obscura era usada para a cartografia ou por pintores. Leonardo Da Vinci usava-a, por exemplo, para desenhar. No século XVI, a câmara é descrita em pormenor num manual pelo italiano Giambattista della Porta e foi amplamente utilizada pelos pintores do renascimento. 

 

A combinação da câmara obscura com os materiais sensíveis à luz também não era exactamente uma invenção de Niépce. Muitos antes dele, no século XVIII, já usavam "snapchats" digamos "avant la lettre". Conseguiam registar  imagens, só não conseguiam que elas durassem … exactamente na premissa do moderníssimo Snapchat, ou se vê agora ou não se vê mais. E as imagens não duravam, porque não era conhecida a forma de fazer com que um material sensível à luz, necessário para captar as imagens, deixasse de ser justamente sensivel à luz depois da captura. O que inevitavelmente acontecia era que a imagem, quando vista à luz, ia desaparecendo, enegrecendo por completo. Irónico que quase 200 anos depois uns tipos tenham ficado ricos por inventarem uma forma de mandar mensagens com imagens que desaparecem depois de serem vistas.

 

Um outro francês, Louis-Jacques-Mandé Daguerre, fazia grandes cenários para teatro, pintados numa papel translúcido e criava alterações de ambientes com jogos de luzes e cor, fabricando atmosferas dramáticas para as peças de teatro e os musicais. Era, portanto, um artista multimédia, e como os de hoje, interessou-se pela fotografia. Daguerre acreditava que os tempos de exposição para obter uma imagem teriam de ser mais curtos, caso contrário não se poderia obter imagens verdadeiras da natureza. Propôs-se então encurtar o tempo, numa primeira fase para meia hora, usando outros materiais e assente num novo conceito que acompanhou a fotografia durante todos os anos até ao digital. De onde vem o termo "revelar"? Daqui. Daguerre não foi o primeiro a inventar a fotografia, mas foi o primeiro a revelá-la. 

 

A sua grande invenção foi o conceito de imagem latente. O que é isto? Daguerre descobriu que, uma vez que o material sensível recebesse uma determinada quantidade de luz, a imagem ficaria formada ainda que invisível, daí latente; depois, quimicamente, poder-se-ia intensificar essa imagem para a tornar visível. Os iões de prata expostos à luz e depois "revelados" cumpriram a função desejada, e um frasco de mercúrio mal fechado num armário completou o resto da descoberta. Os vapores de mercúrio sobre a chapa escureciam as partes expostas à luz. Mas isto não chegava. Daguerre gastou mais dois anos da sua vida com o mesmo problema de Niépce: como encontrar forma  impedir que as partes claras da imagem não continuassem a escurecer gradualmente até a imagem se sumir na escuridão?. 

 

Em 1837, Daguerre encontra a solução num lixiviante utilizado na indústria dos curtumes, o hipossulfito de sódio, e em 1839, com o processo afinado e completo, Daguerre e o filho de Niépce vendem os direitos da invenção ao governo francês, em troca de uma pensão vitalícia. O daguerreótipo torna-se então o primeiro processo fotográfico generalizado e espalha-se rapidamente pelo mundo. No mesmo ano, assim que o daguerreótipo é conhecido em Inglaterra, William Henry Fox Talbot, um inglês, apresenta na Academia das Ciências um processo denominado calótipo que apresentava vantagens face ao de Daguerre. Baseava-se num negativo e permitia várias cópias em papel, enquanto o daguerreótipo era apenas uma prova única positiva uma chapa de cobre.

 

Mais uma nota de paralelismo estes primórdios e os nossos tempos. Durante o segundo e terceiro quartel do séc XIX, o daguerreótipo foi amplamente utilizado, muito embora fotógrafos e inventores continuassem à procura de outro processo que resolvesse alguns problemas do processo francês. Os daguerreótipos geralmente eram guardados em estojos que cabiam na palma da mão e, para se ver a imagem, abria-se a protecção e era necessário encontrar uma posição em que a chapa não fizesse o efeito espelhado. Algo que nos faz lembrar a forma como hoje se vêem fotografias num iphone ao sol.

 

Ao início, a técnica inglesa não teve a repercussão da inventada em França, mas em duas ou três décadas a situação inverteu-se e, durante todo o século XX, a técnica fotográfica tem por base a invenção de Talbot. É ainda no ano 39 do século XIX que Robert Cornelius, do outro lado do Atlântico, em Filadelfia, na tentativa de experimentar e aperfeiçoar o daguerrotipo, e provavelmente  na falta de uma cobaia melhor, senta-se em frente da câmara e faz a primeira selfie ficando imóvel cerca de um minuto. Algo que tinha sido um desafio para a Ellen DeGeneres, na cerimónia dos Óscares de 2014.

 

Hoje todos fotografam tudo e sobretudo fotografam-se a si mesmos. Se o chapéu vitoriano se tornou a câmara do telemóvel, talvez o sefie stick esteja a tentar impor-se como a bengala daquela época ...

 

 

Paulo Rascão é fotógrafo e foi por causa da paixão pela imagem e pela iluminação que se tornou também produtor de vídeo e realizador. É autor e realizador do The Next Big Idea, em exibição na SIC Notícias desde 2012, e há mais de 10 anos que produz filmes e documentários. Fez o curso de cinematografia no King’s College, em Londres, e frequentou a licenciatura em Filosofia da Universidade Católica que tenciona concluir um destes dias.

 

publicado às 10:09

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