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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Portugueses e franceses: mas qu‘est-ce qu‘il se passe com os nossos íntimos vizinhos

 Por: Bruno Lorvão *

 

Somos campeões europeus de futebol há uma semana, e desde há dois dias que sofremos em francês com Nice. Esta é uma reflexão sobre portugueses e franceses, o que os une e o que os separa. Entre o conto de fadas e o filme de terror, há uma realidade feita de cumplicidade, oportunidade e algumas desinteligências.

 

 

Maus perdedores, arrogantes, condescendentes. Os qualificativos para depreciar este grande, e histórico, vizinho que é a França inundam a teia portuguesa. Como que para acrescentar valor à nossa sofrida, mas merecida, vitória, queremos acreditar que o desleal adversário nada fez para realçar e felicitar o talento dos nossos jogadores. Neste papel de David contra Golias, somos os pequenos lusos, mas bons, que derrubaram o vilão, muito vilão, gaulês. O franco-português que eu sou, fã incondicional da equipa das Quinas, não pode aceitar tão simples conto de fadas. Venho então pedir a todos os portugueses, que consideram que o adversário da final foi mal perdedor, muito bem, que sejam, por sua vez, bom ganhadores.

 

Deste simples evento desportivo sobressai por todos os lados a relação complexa, e cheia de complexos, que une os dois países. Os 1,200.000 portugueses, luso-descendentes, franco-portugueses que habitam o território francês são a prova evidente desta relação.

 

Não contesto que o olhar dos franceses sobre nós está repleto de caricaturas, como a da Linda de Suza e da sua mala de cartão, do português pedreiro e da portuguesa porteira, assim como a nossa alimentação que se limita a comer bacalhau ao pequeno almoço, almoço e jantar. É verdade que muitos dos nossos compatriotas foram recebidos em bairros de lata nos anos 60 e 70 e que foi com imenso espírito de sacrifício e humildade, longe de casa, que conseguiram oferecer uma vida aos filhos nascidos no país de exílio. Mas seria injusto limitar a nossa relação mútua a simplificações, alguns dirão mesmo racismo.

É necessário ir além do folclore.

 

Para dizer a verdade, o povo francês, na sua grande maioria, gosta de nós. Gosta de nós, por uma variedade de razões, e ficariam surpreendidos ao descobrir quão bem nos conhecem alguns franceses. A imagem de um povo trabalhador que é transmitida por uma comunidade coesa, a portuguesa, contribui muito para este sentimento positivo, mas este não se limita à presença dos imigrantes. Paris é, por exemplo e sem qualquer dúvida, o centro nevrálgico da produção de cinema português. Sem o público francês, autores como Manoel de Oliveira ou João César Monteiro nunca teriam conseguido a obra cinematográfica única que os define. Nos circuitos literários, Pessoa, Saramago, Lobo Antunes são lidos como autores de talento e de valor universal. O mesmo se passa com a música da esfera lusófona. Melhor, não é raro ouvir em França pessoas que pensam em emigrar para Portugal, e não falo só de reformados. Porto, Lisboa, a Costa Vicentina, o Alentejo são destinos que encantaram muito dos franceses que por ali passaram. Finalmente, e longe de ser um detalhe, não diria todos, mas quase todos os franceses tem um amigo português, e isto não engana.

 

Estes amigos luso-descendentes, filhos de pedreiros e porteiras, são hoje o orgulho da mãe e do pai. Formaram-se e hoje são engenheiros, banqueiros, mas também padeiros no pais do pão, políticos, ou mesmo pedreiros à frente de PME com êxito. A França ofereceu a estes filhos de imigrantes o que os pais não conseguiram em casa. Um exemplo, nascido em Cascais, emigrado aos 3 anos, o jornalista de investigação Paulo Moreira, uma referência na profissão, é a prova vigente que, no final a França, foi generosa com os filhos da nossa nação, e soube aproveitar os talentos dos recém-chegados.

 

 

Tocamos aqui num tema menos confortável da relação do português de Portugal com a França e, mais especificamente, com os imigrantes que por lá se instalaram, os “ça-vas” e os “avecs”. Estas mulheres e homens, filhas e filhos de portugueses fazem parte do mal-entendido que existe entre os dois povos. Todos os anos durante o mês de agosto, visitam a pátria das suas origens, têm como nome Céline ou Adrien, têm um português aproximativo, cheio de francesismos, falam alto, e ocupam de maneira brutal o espaço que deixaram os pais quando deram “o salto”. E isto incomoda.

 

Eles rememoram-nos, com muito desconforto, que a nação lusitana apesar da sua extraordinária e genuína Historia não soube reter as gerações futuras. E é sempre mais confortável pensar que por lá, onde criaram uma nova vida, voltaram menos portugueses e mal educados e arrogantes … como os franceses, claro. A França, sem querer, participa desta relação cheia de mágoa inter-portugueses. O lema escolhido pela Federação Portuguesa de Futebol para apoiar a seleção, “Não somos 11, somos 11 milhões”, é o exemplo mais notável da desconfortável relação de Portugal com os seus emigrantes que pelo mundo se encontram. Não há margem para dúvida que, bem feitas as contas, somos bem mais do que 11 milhões.

 

Durante mais de um mês, à frente da sede da seleção em Marcoussis, milhares de portugueses, filhos de portugueses, netos de portugueses e até mesmo amigos de portugueses foram apoiar os nossos 23 guerreiros. Para este povo bi-nacional, a equipa das Quinas é o eixo central da relação que os une a Portugal e que lhes dá orgulho de ser português em França. O pequeno Mathis, que foi reconfortar o adolescente francês destroçado pela derrota dos “bleus”, é o simbolo mais forte desta identidade mestiça que nasceu da nossa intíma história recente. Este pequeno luso-descendente francófono e seguidor da seleção é um belo exemplo do que une os dois países.

 

 

Voltando ao tema da final do Euro 2016. Tenho que admitir que os franceses reagiram com alguma (eufemismo) má fé depois da derrota contra Portugal. Não nos esqueçamos, no entanto, que o mesmo nos aconteceu há 12 anos. A seleção então chefiada por Luis Figo e Rui Costa tinha um dos melhores estilos de jogo daqueles anos. Os gregos chegaram com um implacável pragmatismo e “roubaram-nos” o nosso Euro. Foi exatamente a nossa tática este ano e deu resultado. Não tínhamos habituados os franceses ao nosso lado “germano-pragmático”. Para eles, a equipa de Portugal era a representante europeia do futebol samba. Perder contra um Portugal calculista fica-lhes na garganta. Mas isto são conversas de bola. Nada de grave.

 

Desde de domingo, tenho recebido dezenas de mensagens, dos meus tais amigos franceses, que me felicitaram pela vitória portuguesa, realçando o facto de ainda não termos nenhum título e que esta “anormalidade” tinha sido emendada. Por esta e outras razões, em cima assinaladas, deixemos aos nossos íntimos vizinhos gauleses “engolir” a derrota caseira e tudo voltará ao normal.

 

 

* Bruno Lorvão é português, realizador, e vive em França há 20 anos.

publicado às 10:09

O dia em que a Turquia sonhou e a França chorou

Por: Márcio Alves Candoso

 

O jornalismo é uma actividade perigosa. Porque se pode ser preso ou atingido num país que não preza a liberdade de expressão ou ser apanhado pelas balas numa frente de guerra? Também. Mas há outro perigo, muito mais presente, embora felizmente bem menos grave. Chama-se realidade e, na semana que passou, a Turquia e a França lembraram-nos do que isso significa.

 

 

Sexta-feira, final da tarde. Nas redacções ultimam-se os preparativos de fecho de jornais. Nas rádios e televisões confirmam-se os convidados e o alinhamento noticioso é, em todo o lado, aquele que é óbvio. Atentados em Nice matam dezenas de pessoas e ferem centenas. Mais uma vez a França de luto e o terrorismo a bater à porta.

 

Sexta-feira, princípio da noite. Um grupo não identificado de militares anuncia um golpe de Estado na Turquia. Um comunicado lido pelas forças revoltosas na televisão pública, acusa o presidente Recyp Erdogan de perverter a democracia e de inverter o - velho de quase cem anos - secularismo da lei e do poder público.

 

Alguns jornais já não vão a tempo de mudar as primeiras páginas. Resta o on-line que todos praticam há vários anos. As televisões têm mais sorte. Os convidados são, quase todos, peritos em ambos os assuntos. Terrorismo e Turquia, temas parecidos. É só dar a volta ao texto - primeiro a Turquia, porque está a acontecer, e logo depois Nice, com os corpos e os choros ainda bem quentes na rua.

 

Ana Santiago e Ricardo Nunes foram apanhados numa quase lua-de-mel em Istambul - de facto, foram assistir a um casamento de amigos locais que já não vai realizar-se, pelo menos na data aprazada. Desde sexta-feira à noite mudaram um bocado de vida. Metidos num bairro ’fancy’ da zona asiática da cidade, vão dando conta dos tiros que ouvem e dos helicópteros que os sobrevoam. Os amigos, nas redes sociais, vão-lhes pedindo que contem ao mundo o que mundo quer saber mas desconhece. O que é que se passa?

 

Ricardo desdobra-se a falar para as televisões e jornais. Ana conhece bem umas boas dúzias de jornalistas, já que trabalha há anos na área da comunicação - agora na ‘Start Up Lisboa’, uma incubadora de empresas. Dizem o que vêem e sobretudo o que os amigos turcos, em casa de quem estão hospedados, lhes contam. Estes, ocidentalizados, muçulmanos pouco ou nada praticantes, têm receio. "Os meus amigos turcos estão em choque, ninguém esperava isto. Não gostam do governo, mas também não confiam nos outros. Eles nem sabem quem são os outros", desabafou Ana Santiago, horas depois de iniciado o golpe.

 

Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro

 

Do lado de cá, já se fala em cravos e em revolução. "Que sorte que tens, estás a viver um 25 de Abril", exclama um amigo. Ana nem idade tem para se lembrar desse dia. "Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro. Na rua ouvem-se buzinas, que vêm de longe e orações/preces/exortações das mesquitas", escreveu no FaceBook pouco depois. Deitaram-se por volta das seis da manhã…

 

Mais do que um contra-golpe de grande eficácia, é agora seguro que, para além de algumas traições de última hora, quem parou os rebeldes foram os imãs das mesquitas e os líderes dos partidos tradicionalistas - Erdogan está longe de ser o chefe dos radicais islâmicos no país. O golpe final veio das potências ocidentais e da Rússia. Quer Barack Obama quer Vladimir Putin sustentaram que salvar a democracia na Turquia era apoiar o governo estabelecido contra os revoltosos. Quanto à parte do Exército e da Força Aérea que se sublevou, é evidente que deixou de lutar quando viu milhares de pessoas a barrar os carros de combate e a rodear os soldados de infantaria. O ’25 de Abril’ acabava ali. O povo não apoiou nenhum Salgueiro Maia, antes marchou contra ele. Se é que havia um Salgueiro Maia…

 

"Os secularistas são ainda muitos, vê-se na rua. Mas poucos em força, acho que pouco afeiçoados à política e à luta", refere Ana Santiago em declarações ao SAPO24. "Essa é a mágoa deles, sentem que falharam", sustenta a portuguesa. Durante a tarde, passeando pelas ruas calmas da parte europeia de Istambul, "parece algo entre a Avenida de Roma e o Parque das Nações, gente a passear, carros de bebés… não há mais polícia do que é costume", revela-nos.

 

É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma

 

Na velha cidade, ali mesmo no centro histórico asiático, ao lado da torre de Gálata, Ana e Ricardo vêem estranhas confluências de culturas. "Mulheres de mini-saia e lenço na cabeça, dizem-me que é de propósito, uma espécie de ‘statement’ (afirmação)", conta Ana Santiago. "E uma de preto, cabeça coberta, a fumar", aduz a mesma fonte. "É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma".

 

Mas todo este ‘melting pot’ poderá ter os dias contados. "Ergodan só vai sair mais forte disto tudo porque quem está na rua são apoiantes dele", sustenta Ana. "Os meus amigos não gostam deste presidente, mas também não sabem quem está do outro lado e se podem confiar. Desde o início disto (golpe), nunca os ouvi contentes por estarem a tentar derrubar o presidente", revela. "Acima de tudo estão confusos e com receio do futuro… Temem que a liberdade já não dure muito". "Os meus amigos sentem-se culpados e tristes, por nada terem feito até hoje para combater o que temem. «Eu falhei», diz-me o meu querido S." (nome retirado por razões de segurança). É esta a tristeza de gente normal que Ana traz de Istambul. "Mas não vi burkas", relata.

 

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"Se de agora em diante as mulheres não tomarem parte da vida social da nação, jamais conseguiremos atingir o nosso desenvolvimento completo. Permaneceremos irremediavelmente atrasados, incapazes de sermos tratados de igual para igual pelas civilizações do Ocidente". Palavras do ‘pai da Pátria’, Kamel Ataturk, proferidas em 1927. Há uma foto do próprio, rodeado de mulheres de cabeça descoberta e blusa de botão aberto. Data de 1931.

 

"Democracia, liberdade, primado da lei… para nós, estas palavras já não têm nenhum valor. Quem ficar do nosso lado na luta contra o terrorismo são nossos amigos. Quem ficar do lado contrário são nossos inimigos". Palavras de Recyp Erdogan, proferidas na manhã de sábado, após a vitória sobre o golpe. Os ‘terroristas’ a que se refere são os nacionalistas curdos do PKK. Do Daesh, dizem as más-línguas e algumas imagens dispersas que nunca os hostilizou. Horas antes do discurso, o presidente turco pedia asilo político em Itália e na Alemanha. Diz-se que lhe foi recusado, e que terá tentado o Irão. Ninguém confirma. Mas já de madrugada a sorte da batalha virou. E ele ficou.

 

Na noite de sábado, pouco restava da revolta. Em Ancara, a capital do país, Paulo Pedroso, ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social, atarefava-se no aeroporto para arranjar bilhete de volta. Está a trabalhar num projecto da União Europeia em conjunto com a Turquia. O barulho à sua volta impediu-o de atender a primeira chamada. Respondeu à segunda.

 

"Acabo de atravessar Ancara de táxi. Apenas em frente ao Parlamento há vestígios sérios do enfrentamento. A avenida Ataturk está parcialmente cortada em vários sítios. Num dos sentidos os carros circulavam pelo passeio. O túnel perto do Parlamento está obstruído por camionetas do município. Na minha zona residencial todo o dia esteve tudo calmíssimo", assegurou ao SAPO24. "A mercearia do bairro, o barbeiro, tudo estava normal", afirmou.

 

fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo

 

Os apoios ao Governo, vindos de largas camadas da população, ainda tinham vestígios à hora tardia em que conversámos. "Assim do género do fim das manifestações, pessoas dispersas pelas ruas, algumas embrulhadas em bandeiras turcas, outras agitando bandeirinhas nacionais", descreveu o ex-governante. Tropa na rua nem vê-la, polícia mais que muita, "mas aqui é sempre assim desde o último atentado", adiantou.

 

Enquanto mais de 2000 juízes - a Turquia é um país grande e populoso… - eram demitidos e presos, e dos cerca de ‘meio milhar’ de soldados oficialmente envolvidos na revolta mais de três mil eram detidos, as especulações sobre a ‘culpa’ da revolta e a culpa do seu fracasso são mais que muitas. Para Paulo Pedroso, para além da versão oficial de envolvimento de Fethulah Gullen – um antigo aliado de Erdogan que se auto-exilou da Turquia – "fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo".

 

A mesma fonte dá conta de outra versão, "um golpe militar à egípcia, de militares laicos". O que até faria sentido com a oposição do Egipto, ainda ontem no Conselho de Segurança da ONU, a um voto de confiança no regime de Erdogan. Militares "enganados, que esperavam uma grande mobilização, popular que não ocorreu", é também outra hipótese credível. Mas no fundo está sempre o mesmo problema: "A mobilização através das mesquitas (de oposição à revolta) foi muito intensa", explica Paulo Pedroso.

 

A 2260 quilómetros de Istambul - e mais uns quantos de Ancara -, há flores na rua, na Promenade des Anglais. Um soldado de Alá ou um simples louco - ou uma clara mistura de ambas as doenças – puxou da sua profissão para matar pessoas. Ao volante e aos ziguezagues com um camião de entregas – a sua ocupação definida -, por uma das artérias mais conhecidas do planeta Terra, foi matando os ‘enfants de la patrie’ que encontrava pela frente, alguns mesmo crianças, que comemoravam a dia nacional de França. Por alguma razão desconhecida, todos os tiros disparados pela polícia e que pontificavam o pára-brisas do veículo, estavam do lado errado e tardaram em atingi-lo. No caminho para o paraíso, matou pelo menos 84 cidadãos, e deixou entre a vida e a morte mais de 50. Pelo menos uma das vítimas era uma muçulmana.

 

E prometo que esta será a última citação deste texto. É um comunicado difundido pelo alegado ‘estado islâmico’, alguns dias antes de Mohamed Bouhlel, tunisino com autorização de residência e trabalho em França, ter dado à chave de ignição da camionete da morte. "Se não tiverem engenhos explosivos ou balas para matarem infiéis americanos e infiéis franceses, ou os seus aliados, esmaguem as cabeças deles com pedras, chacinem-nos com uma faca, atirem o vosso carro contra eles, atirem-nos de um sítio qualquer, sufoquem-nos ou envenenem-nos".

 

Bouhlel era um homem que "cuidava dos seus filhos". Palavra de vizinhos.

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publicado às 10:06

Os levantados da Nuit Debout em Paris estão a dizer-nos qualquer coisa que faz pensar

 Por: Francisco Sena Santos

Os cidadãos que se classificaram de indignados, e que há faz agora cinco anos acamparam na Puerta del Sol de Madrid e noutras praças de Espanha, desencadearam o estilhaçar da ordem partidária espanhola, como agora fica evidenciado com o impasse pós-eleições. Depois dos indignados espanhóis, surgiram os Occupy Wall Street e outros movimentos de gente predisposta a mostrar o seu descontentamento e protesto com a prática dos governantes. Agora, é em Paris, com o movimento Nuit Debout (noite em pé), apesar do frio, da chuva e da repressão, a ocupar a Place de la République para uma espécie de Woodstock da palavra em sucessivas noites de discussão e luta.

 

Esta praça grande de Paris, habituada a acolher manifestações, está a ser palco para uma nova ágora ou assembleia popular permanente, onde todos tomam a palavra e se fazem ouvir ao lado do altar laico da república francesa, a estátua em bronze da Marianne, que mostra um ramo de oliveira na mão direita e que apoia a mão esquerda na carta dos direitos do homem. Naquelas intervenções, eles descarregam as muitas desilusões, fúrias, combates e alguns dos sonhos. São sobretudo jovens mas também alguns não tão jovens. Algumas bandeiras vermelhas desfraldadas confirmam a cor do protesto, que no entanto incomoda quase todos os partidos. Jogam com as palavras gréve (greve, claro) e rêve (sonho) e proclamam, em atmosfera que evoca o Maio de 68, rêve générale (sonho geral) e préavis de rêve (pré-aviso de sonho).

 

O movimento nasceu no dia 31 de março, com uma manifestação contra leis do trabalho anunciadas pelo debilitado governo socialista de Hollande e Valls. Desde então, discutem tudo todas as noites. Instalaram uma espécie da aldeia dentro da praça, com enfermaria, gabinete de assistência jurídica, cozinha e, atentos aos novos códigos da comunicação, até instalaram a RadioDebout, que transmite tudo online. Denunciam “as violências praticadas pelo Estado”: apontam como principal a falta de emprego. Também se levantam contra o neoliberalismo, contra a indignidade para com os refugiados, contra a xenofobia e vários outros males. Objetivo mais proclamado por estes contestatários, em grande parte estudantes universitários e liceais: reinventar o modo de fazer política e desenhar projectos de esperança a partir do espaço público. São uma frente anti-resignação com o sonho ou a ilusão de poder mudar o mundo. Possivelmente, alguns destes noctâmbulos pouco terão de idealistas, mas a maioria move-se pelo sonho.

 

A sociedade de entretenimento coletivo em que estamos até costuma explorar estes protestos mas, desta vez, no turbilhão das notícias, não lhes está a dar grande atenção. Talvez seja um erro. Estes indignados de Paris refletem o grande mal-estar social num país que vale 20% da economia europeia. Eles representam uma convergência de combates: pelo direito ao trabalho, à educação, à habitação, à saúde, contra a corrupção. Seguem um calendário que inventaram e que prolonga o mês em que tudo começou: estão esta terça-feira no dia 43 de março. Até quando vão continuar levantados todas as noites? Eles são uma vanguarda que pode desaparecer de uma noite para a outra, mas a chama parece longe de se apagar. Têm o mérito de exprimir uma necessidade de mudança.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

A Áustria começou a levantar um muro preventivo para barrar a entrada de refugiados. Acontece dois dias depois de, uma vez mais, a morte ter cortado o percurso a refugiados: uma mulher e quatro crianças naufragaram quando tentavam atravessar o mar Egeu na esperança de chegar à Grécia. Com a intenção de sacudir a indiferença do mundo para o destino trágico dos que tentam fugir da barbárie, o papa Francisco vai no sábado ao encontro dos refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia. Ele já avisou que esta tragédia parece “minar as bases do espírito humanista que a Europa tanto gosta de apregoar”.  Esta reportagem ajuda-nos a saber algo mais sobre quem são estas pessoas que fogem da guerra.

 

A grande reportagem literária de Gay Talese está de volta, agora com o Motel do Voyeur. É a história de um homem que comprou um hotel no Colorado e remodelou-o de modo a poder espiar, a partir de um falso tecto, as práticas sexuais dos clientes.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, com o estado das coisas na política brasileira.

publicado às 08:01

"People Have the Power". E temos um problema Le Pen para tratar

Por: Francisco Sena Santos

 

Marine Le Pen está lançada para daqui a 16 meses ser eleita presidente da República francesa? Este cenário perturbador pelo veneno xenófobo e pelo retrocesso civilizacional populista e autoritário que representa não é o mais provável, mas pode ainda impor-se como realidade e, a ser assim, dar um safanão fatal ao que resta do ideal solidário e multicultural da União Europeia.

 

 

O eleitorado francês, exasperado com os dirigentes políticos do costume, gente - de Sarkozy a Hollande, passando por vários outros - que lhe cobra sempre mais impostos mas é impotente para resolver problemas essenciais da vida, está puxado para as direitas e dividido em três fatias cujo peso é semelhante: as esquerdas (o PS de Hollande e diversos pequenos partidos), a direita (os republicanos de Sarkozy cuja liderança também é disputada por Juppé e Fillon) e a extrema-direita (a Frente Nacional do clã Le Pen). Aliás, até o mapa territorial da França também está dividido em três equivalentes faixas verticais, tal como na bandeira: a parte atlântica ocidental, de Hendaia e Bordéus a Rennes e Brest é socialista, o meio vota na direita tradicional e a França do lado leste, de Lille e Calais, a norte, Marselha e Nice, no sul mediterrânico, virou-se para a Frente Nacional (FN).

 

Muita esquerda francesa vê a FN como um partido fascista. Jean Marie Le Pen, fundador, em 1972, da FN tinha no centro do seu programa a ideologia fascista e a nostalgia da França colonial. Chegou a 22% dos votos na eleição presidencial de 2002, quando a esquerda se sentiu obrigada a votar Chirac para barrar o risco de Le Pen na presidência da República.

 

A FN evoluiu como partido comandado por um clã familiar e já mete três gerações Le Pen: para além de Jean Marie, Marine que é a filha, e Marion, a neta de Jean Marie e sobrinha de Marine. Ambas cultivam o extremismo de direita com rosto feminino, mas corrigiram o rumo traçado pelo velho Le Pen: a ideologia com etiqueta de fascista evoluiu para a opção ultranacionalista com discurso ferozmente anti-sistema. Marine, em 2011, fez-se eleger para suceder ao pai na liderança da FN. Apontou para a conquista do poder com um projeto social e uma conceção identitária que tinha desaparecido das elites políticas francesas. Para tornar clara a distanciação das ideias mais odiosas do pai abriu-lhe guerra e expulsou-o da FN por causa de declarações anti-semitas.

 

A liderança de Marine Le Pen explora a incapacidade das elites políticas para evitar a desagregação social e económica que mina a sociedade francesa. Cultiva a angústia de uma nação que se julgava farol do mundo e que agora sente ter deixado de iluminar. Denuncia com impacto a exclusão que cresce nas periferias urbanas e as reformas sucessivamente falhadas. Coloca-se como a porta-voz dos desprotegidos pelo sistema e é assim que capta muito voto operário. Também muitos eleitores com menos de 35 anos, poucos estudos e nenhum emprego. Atrai para o seu discurso os que estão perdedores com a globalização. Usa a crise financeira para fustigar a eurocracia e denunciar os malefícios do euro. Aproveita a crise dos refugiados para reclamar o fecho de fronteiras.

 

Tal como praticava o pai, Marine Le Pen usa os medos como carburante eleitoral da FN. A barbárie jiadista da noite de 13 de novembro foi para o clã Le Pen um bingo: serviu-lhe para inflamar o discurso de rejeição da Europa multicultural e estigmatização do “outro”, no caso os muçulmanos. Explora o “nós” contra os “outros” e reclama um Estado forte, protetor, com autoridade. Apresenta-se como a dirigente política que não trai o povo.

 

É com este discurso que a FN saiu das eleições deste domingo como o partido mais votado em seis das 13 grandes regiões que formam o território francês e em posição de força para garantir, com duas Le Pen, no próximo domingo o governo de pelo menos duas das regiões: a tia Marine no Norte-Pas de Calais-Picardia, região com tradição operária na França que faz fronteira com a Bélgica, e a sobrinha Marion (faz 26 anos depois de amanhã) a governar a Provença-Alpes-Côte d’ Azur, a França de Cannes e Saint-Tropez, Nice e Marselha, Arles e Orange.

 

Até aqui, a ausência de responsabilidades governativas reforçou consideravelmente a eficácia do discurso populista da FN. E agora? Para já, provavelmente, a prova da gestão do poder. Depois, a presidência da República, com eleição em abril de 2017, é a ambição seguinte para Marine Le Pen. Na eleição de 2012, Hollande (10 milhões de votos na primeira volta, 18 milhões na segunda) bateu Sarkozy por um milhão e 200 mil votos. No aquecimento para a eleição presidencial de 2017, este retornado Sarkozy não está a conseguir galvanizar a direita e parece indiscutível que não vai buscar um só voto às esquerdas, portanto parece condenado a voltar a perder. O socialista Hollande cresceu nas últimas semanas como homem de Estado, mesmo assim está muito longe de 50% do eleitorado francês – mas no dia decisivo poderá receber votos centristas caso a finalíssima seja, como é previsível, com a líder da Frente Nacional.

 

Marine Le Pen tem uma base de 30% do eleitorado e mostra habilidade para conquistar votos em todas as áreas do descontentamento com o sistema, o que a coloca no tal cenário de possibilidade de eleição. É nesta triangulação que Alain Juppé, um centrista com simpatias no centro-esquerda, talvez seja o adversário mais temido por Marine Le Pen. Porque o moderado, afável e experiente Juppé terá a adesão da direita tradicional e captará o voto útil da esquerda para evitar o cenário de Marine Le Pen, presidente da República francesa. O voto da França vai decidir daqui a 16 meses. A aspirante que se declara inspirada pela heroína Joana d’ Arc não é favorita mas convém não estarmos desprevenidos para a hipótese.

 

Também a ter em conta:

 

Os EUA também têm em campanha eleitoral uma agressiva versão americana de Le Pen a explorar os medos: o republicano Donald Trump quer fechar a porta dos Estados Unidos a toda imigração muçulmana.

 

Há já 95 anos, desde 1920, que o New York Times não usava a sua poderosa primeira página para, com evidência gráfica, através de um editorial, tomar posição sobre uma questão crucial. Fê-lo no passado sábado, depois de uma nova matança (San Bernardino), com o texto que tem por título “A epidemia das armas”, em que dá máxima expressão “à frustração e angústia” pela incapacidade dos EUA para enfrentar a praga das armas que qualquer pessoa pode ter e que matam com eficiência brutal. A necessária limitação de acesso é um muro que a melhor América continua a não conseguir derrubar.

 

A vitória eleitoral da oposição na Venezuela promete devolver os direitos civis aos que têm sido injustamente perseguidos por motivo político. O “chavismo” tem os dias contados?

 

People Have the Power cantado em uníssono, ontem à noite em Bercy. Os Eagles of Death Metal voltaram a um palco de Paris, três semanas depois da matança no Bataclan, agora ao lado dos U2. Com uma mensagem de futuro proclamada por Bono: “L’ amour, plus fort que la peur”.

 

Ele está sempre na primeira página do As e da Marca que todos os dias podemos encontrar no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:07

Uma sexta-feira como outra qualquer

Por: Rute Sousa Vasco

 

 “Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra.”

 

A notícia foi divulgada há exactamente uma semana. O astronauta Thomas Pesquet vai transportar para o espaço, no próximo ano, o texto do eventual acordo sobre as alterações climáticas que saia da cimeira de Paris, em dezembro. Agora é preciso é que haja acordo, porque esse ainda não é certo. Mas, se os líderes dos principais países poluidores conseguirem entender-se e comprometer-se, o presidente francês, Francois Hollande, entregará a Thomas Pesquet a prova do compromisso que ele levará consigo rumo à Estação Espacial Internacional, em novembro de 2016. “O ambiente é algo que sempre esteve próximo do meu coração. Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra”, realçou o francês, de 37 anos.

 

Fez também ontem uma semana que o Argentina-Brasil, da terceira jornada da qualificação sul-americana para o Mundial de Futebol de 2018, foi adiado para o dia seguinte. Choveu forte e feio em Buenos Aires e não houve outra hipótese que não cancelar o jogo.

 

Bem longe dali, e 24 horas depois, o partido de Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento da Birmânia. Foi um dia histórico! Apesar de um quarto dos assentos estar reservado aos militares, o partido da Nobel da Paz ultrapassou a barreira que lhe permite eleger o Presidente e formar governo. Foram as primeiras eleições livres na Birmânia em mais de 25 anos.

 

Isto aconteceu a 13 de novembro de 2015, um dia em que, aliás, aconteceu muita coisa. A Universidade de Coimbra, por exemplo, anunciou neste dia que conta atualmente com 3.769 estudantes de mais de 80 nacionalidades em regime de mobilidade e através do estatuto de estudante internacional. Também na mesma data, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve foi selecionado para um projeto europeu que pretende promover o aumento da aquacultura até 2020. E o Campo Arqueológico de Mértola, no Alentejo, recebeu o prémio deste ano das Academias Pontifícias do Vaticano, dedicado aos primeiros séculos do Cristianismo, pelas campanhas arqueológicas dos últimos anos e pelos "extraordinários resultados obtidos".

 

No dia a seguir, 14 de novembro de 2015, soubémos que o arquiteto Eduardo Souto de Moura criou um projeto para construir um auditório junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que, a ser aprovado, deverá tornar-se a grande obra do prémio Pritzker na capital do país. Que boa notícia para Lisboa.

 

E soubemos também que um conjunto de marcas de mobiliário, iluminação e decoração portuguesas se juntou para criar uma forma inovadora de promover os seus produtos no mercado britânico. Alugou um apartamento residencial que transformou em espaço de exposição em Londres, o Covet London. Aí estão marcas como as do grupo Menina Design, Boca do Lobo, DelightFULL, BRABBU, Koket, Maison Valentina e Luxxu. Que boa ideia...

 

Em Évora, arrancou um projeto-piloto, o Programa “Mais”, com o objectivo de promover o emprego partilhado de técnicos entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o recrutamento de profissionais desempregados para estas entidades. A iniciativa é da UNITATE – Associação de Desenvolvimento da Economia Social, uma IPSS sediada em Vila Viçosa (Évora), mas de cariz nacional, e dirige-se, nesta fase inicial, às 80 associadas da União Distrital das IPSS de Évora.

 

Quem passou por Lisboa foi Laurie Anderson que veio ao Lisbon & Estoril Film Festival estrear o seu último filme, Heart of a dog. Um filme sobre "liberdade e medo", num mundo criado por palavras. "Pediram-me para fazer um filme sobre a minha filosofia de vida. Disse logo que eu não a tenho e se tivesse não a punha num filme para toda a gente ver. Mas acabei por fazer uma coleção de histórias e, no final, é a minha filosofia de vida. Traiu-me.", contou. Ao longo de pouco mais de uma hora, Heart of a dog gira em torno de Lollabela, a cadela de Laurie Anderson.

 

O tenista português João Sousa subiu esta semana ao 33.º lugar do 'ranking' mundial de ténis, a melhor posição de sempre de um tenista português. E está confidante que "a época de 2016 vai ser ainda melhor".

 

No dia 16 de novembro, começaram os "Dias do Desassossego", uma iniciativa promovida, em Lisboa, pela Casa Fernando Pessoa e pela Fundação José Saramago para celebrar o livro e a leitura, com música, cinema e debates.

 

Mais coisas que aconteceram esta semana. Os 2.500 bilhetes que o Benfica tinha disponíveis para o jogo de sábado com o Sporting para a da Taça de Portugal esgotaram poucas horas depois de terem sido colocados à venda. No próximo dia 21, dez dos melhores pianistas nacionais e internacionais vão estar juntos em palco num concerto no centro cultural de Viana do Castelo, a maior sala de espetáculos do Alto Minho. E a revista médica The Lancet HIV revelou que um medicamento utilizado para tratar o alcoolismo associado a outras substâncias poderá contribuir para eliminar o vírus da sida em seropositivos (uma notícia conhecida no mesmo dia em que o ator Charlie Sheen contou no programa de televisão Today que é portador do vírus da sida).

 

Somos capazes de não ter reparado em várias destas notícias. Estas são as notícias da nossa normalidade.

 

Do direito que conquistámos – porque não foi sempre nosso e não é ainda um direito de todos – de usufruir simplesmente da normalidade. De sair de casa para ir trabalhar, trocar dois dedos de conversa no café da esquina, meter óculos escuros porque faz este fantástico sol de novembro e encontrar um lugar no metro onde possamos ler durante alguns minutos o livro que nos acompanha. Trabalhar, pensar em fazer coisas novas, combinar ‘comes e bebes’ com amigos, ir ao cinema ou simplesmente passear pela cidade.

Tudo isto sem termos de pensar duas vezes.

Isto é ser feliz sem saber.

Isto é aquilo de que não podemos abrir mão. Isto é aquilo que temos de reivindicar para quem não tem ainda. Apesar do medo. Apesar do horror. Apesar.

Todos os dias têm de ser uma sexta feira como outra qualquer. Em Lisboa, em Paris, em Beirute, em Lagos ou em Damasco.

 

Outras coisas sobre o direito à normalidade.

 

Normalidade é também igualdade. A igualdade dos géneros, nomeadamente no que respeita a salário igual para trabalho igual, ainda está longe e é preciso acelerar bastante o passo.

 

O que não é normal é que já se tenham passado 20 anos desde que este filme estreou. O Toy Story já tem 20 anos. O miúdo já está mesmo na faculdade. Mas que bom continua a ser sentarmo-nos no sofá e rever o filme.

publicado às 10:42

Saint Denis

Por: Márcio Alves Candoso

 

"Na catedral dos franceses, ouço as balas repicar. Não se coroa Jeanne D'Arc. Prende-se quem me quer matar".

 

Há oito anos e alguns meses - era princípio de Verão - estive em Paris, por razões profissionais. Já o fizera várias vezes, e pelo menos duas mais, antes e depois, como turista.

 

Se lembro agora essa viagem é porque foi nessa altura que visitei a Catedral de Saint-Denis, nos arredores de Paris. Essa mesmo onde, reza a história bem ou mal contada, Joana D'Arc foi nomeada paladina de uma parte de França, na Guerra dos Cem Anos.

 

Num dia qualquer que não recordo - mas não será difícil situá-lo, já que ao mesmo tempo se disputavam as meias-finais de Rolland Garros, a alguns quilómetros de distância - fui convidado a assistir a um concerto que se realizava na referida catedral.

 

O maestro era Claudio Abbado, dirigindo a Orchestre National de France. O programa era uma chatice qualquer que não recordo, e a sonorização era um engodo terrível, feita de propósito para passar em directo na televisão, estragando todo o efeito que se espera obter quando se está numa catedral daquelas dimensões e época arquitectónica. Parecia que estava no Centro Cultural de Belém...

 

Às tantas saí. Não se sai a meio de um concerto gravado para a televisão. Mas eu não fico onde não gosto de ficar, onde sinto que estou a ser enganado e a ser usado como cenário. Um padre da Opus Dei deu-me uma reprimenda. Arrependeu-se logo de seguida, e esteve à beira de cumprir uma mortificação não ritual e infligida. Iconoclastias minhas...

 

Cá fora - não sei se conhecem - há um grande largo. A toda a volta de um dos símbolos de França, onde estão sepultados reis de mais de um milénio de história, onde as rainhas eram coroadas, numa devoção só interrompida durante a parte selvática da Revolução, estamos em território estrangeiro. Na praça de dimensões olímpicas, fazem-se os 'zidanes' e 'benzemas' do futuro, atrás de uma bola de couro velho.

 

A toda a volta, o kebab, as tajines e o couscous convivem com a Coca-Cola e a Kronenbourg, o cheiro a canela distingue-se e conjuga-se com o açafrão. Uma mulher de véu está parada ao lado de um homem que desfia o rosário que não é rosário, é misbaha, tão perto de mim na invocação de Deus.

 

Sentei-me sozinho na esplanada. Na Tunísia, uma década antes, senti-me mais à vontade. Mais em casa. Ali, o ambiente era hostil, até na cara do patrão da casa. Apeteceu-me voltar para dentro da grande abadia de França. Fui, meia refeição comida, procurar abrigo junto do brasileiro que conduzia o 'mini-bus' que nos tinha trazido, a mim e a mais alguns convidados, desde o hotel de 'charme' do Faubourg de Saint-Honoré até àquele lugar fora de portas.

 

Não me apetecia esperar, e pensei regressar mais cedo à noite de Paris daquele fim-de-semana festivo. Havia qualquer coisa na Pigalle e no Trocadero que eu não queria perder. Perguntei se havia metropolitano para o centro. Haver havia, mas não era aconselhável. De fato e gravata, botões de punho de ouro e lapis-lazuli, sozinho, branquela como vim ao mundo... 'É melhor não, 'monsieur''!

 

Fiquei-me pelo brasileiro, que falava que nem um brasileiro. Recentemente solteiro, lembro-me que se queixava que em Paris não havia uma única casa de passe de jeito... Pensei para comigo: quem precisa disso quando se vive em pleno território da liberdade?

 

Quando acordei do bom sono de terça-feira, Saint Denis apareceu-me no écrã, sem Stade de France que lá fica na memória destes dias. E não havia Claudio Abbado nem bolas de couro velho, e não cheirava a açafrão ou canela. Havia polícias e bombas suicidas. Não me admirei nem um segundo. Lembrei-me apenas que devo ter feito bem em não ter apanhado o metro, nem sequer aquele último de Truffaut, teatro de vida da resistência francesa à ocupação, a outra, a da II Guerra.

 

Junto à Pigalle, ao sul da catedral e a oeste de La République, onde tudo se passou na sexta-feira passada, lembro o Montmartre de Deneuve no filme, quando teve de continuar a ensaiar a peça que o marido judeu deixou a meio, fugindo para a cave do edifício, fugindo da morte certa, fazendo uma pausa na vida. Tem pouco a ver com o tempo que é a nossa nova trova que passa? Tem de ter, creio!

 

Et toi, Jeanne d'Arc, qu'est-ce que tu en penses?

 

Créditos da fotografia: 

Saint-Denis - Basilique - Extérieur façade ouest" by Ordifana75 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons

publicado às 08:28

E agora?

Por: Francisco Sena Santos

 

Tivemos a confirmação de que agora os terroristas matam também em Paris tal como fazem em Bagdad ou em Beirute. Já tinham atacado em Londres e em Copenhaga, como em Ankara ou em Tunes.

 

 

Os jihadistas que executaram, com máxima crueldade, demoradamente, a sangue frio, a carnificina no Bataclan e em outros cinco lugares na noite de barbárie em Paris, gritavam Allahu Akbar, literalmente Deus é Grande em árabe. São guerreiros kamikaze pela expansão de um califado que invoca abusivamente uma religião que nada tem de terrorista. Estes fanáticos que manipulam a religião como ideologia querem fazer vergar e submeter o mundo tolerante que é o nosso e que eles consideram de pecaminosos infiéis.

A motivação destes matadores é certamente a mesma dos que na véspera, em dois atentados, tinha causado a morte de 41 pessoas e ferimentos em mais de 200, em Beirute.

Também a dos assassinos que há dois sábados fizeram abater no Sinai egípcio um Airbus russo com 224 pessoas a bordo.

Ou a dos bombistas que há cinco sábados mataram 99 pessoas frente à gare ferroviária de Ankara.

É o mesmo terrorismo que em 26 de junho matou 38 turistas na praia de Sousse e que em 18 de março também levou 24 vidas no museu do Bardo em Tunes, estes dois ataques na Tunísia.

 

Estes são apenas alguns dos infames atentados que marcam este ano que começou com o ataque em 7 de janeiro ao Charlie-Hebdo. Aqui, o alvo eram os valores da França: a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Alvo específico: a liberdade de expressão, a liberdade de denunciar pelo riso quem cultiva a intolerância. Já tinha sido um ato de guerra que nos fez a quase todos proclamarmos que também somos Charlie.

 

Agora, a frente de guerra amplia o seu alvo: todos passamos a estar na linha de mira desta barbárie. Os massacrados nesta noite de novembro em Paris são sobretudo rapazes e raparigas, jovens que tinham procurado o prazer de uma noite a ouvir música numa célebre sala de espetáculos de Paris, são os também jovens que petiscavam na esplanada de uma pizaria e os não tão jovens clientes de um restaurante asiático na zona da République, uma praça parisiense muito associada a manifestações pela liberdade. Eles tinham saído na noite que parecia amena desta sexta-feira para viver, beber e cantar. De facto, não imaginavam que lhes tinham declarado guerra.

Os passageiros do avião russo abatido há duas semanas no Sinai eram, a maioria, cidadãos russos de São Petersburgo que tinham ido em férias em Charm Al-Cheikh, praia no mar Vermelho.

 

Há um ponto comum a estas duas matanças nas últimas duas semanas: tanto a França como a Rússia iniciaram no final de setembro raids de bombardeamento sobre abrigos e campos de treino, na Síria, dos terroristas que pretendem devastar o Ocidente. Estamos em guerra e o campo de batalha não é apenas nos terrenos do Médio Oriente onde, com fatal precipitação, as potências ocidentais patrocinaram os ditadores em funções. Obviamente, eles mereciam ser combatidos, mas era preciso assegurar que a alternativa não seria uma terra de outros gangues ainda mais nocivos.

Este jihadismo do auto-proclamado califado islâmico está a ocupar esse espaço e tem sabido catequisar e converter jovens europeus para a sua guerra santa contra o Satã ocidental. Ou seja, o inimigo nem precisou de cavalos de Tróia para se infiltrar dentro da Europa. O inimigo nesta guerra também já está dentro da Europa, com passaporte europeu. Quantos serão os jihadistas nascidos, crescidos e residentes em França, à espera de serem ativados para o combate e prontos para o sacrifício em nome do que consideram ser a vontade de um deus? Muitos deles são jovens de segundas e terceiras gerações, descendentes de imigrantes chegados no século passado de África e do Médio Oriente. Tornaram-se combatentes ao serviço da causa terrorista e estão dentro da casa europeia.

 

E agora? Esta é a pergunta que costumava colocar Paulo Cunha e Silva ao juntar gente de múltiplas origens e saberes a quem desafiava para construir pontes que fizessem avançar soluções. Os líderes das maiores potências mundiais reúnem-se em cimeira G-20 este domingo em Antalya, na Turquia, com uma agenda que vai da economia ao clima, mas passando muito pela crise dos refugiados (tantos, tantos em espera de desesperar, da Turquia aos Balcãs, passando pelas ilhas gregas) e a guerra contra o terrorismo. Vão ter de pensar nas duas frentes desta guerra: a que está na Síria e no Iraque e a que está a avançar na Europa. Sendo que, frente ao ódio, importa que triunfe a liberdade, o que implica unidade, clareza e democracia. Os valores da França, liberdade, igualdade e fraternidade são a referência. Os ataques em Paris são ataques à liberdade, ao nosso modo de vida, são ataques a todos nós. Têm por alvo a alma da nossa sociedade.  Apetece clamar Je Suis Français e colocarmo-nos mobilizados ao lado dos cidadãos de um país que nos habituámos a sentir terra de asilo.

publicado às 09:54

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