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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A voz de Dae'Anna numa América que parece em guerra civil

Por: Francisco Sena Santos

 

“It’s okay, mommy, don’t be scared, I’m right here with you.” Nós, portugueses, estamos cheios de entusiasmo com as tantas inesquecíveis imagens dos campeões do futebol – já agora, bravos também para as campeãs do atletismo –, mas aquela voz e as imagens de Dae’Anna que com os seus quatro anos de idade tenta com aquelas palavras dar conforto à mãe estremecem os dias de alegrias com os êxitos desportivos domésticos. Daquela voz terna de uma criança negra americana vem uma angústia que consterna o coração.

 

A mãe de Dae’Anna é Diamond, uma mulher com 24 anos que trabalha na cozinha do Hilton. Philando, 32 anos, namorado de Diamond, trabalhava como supervisor na cantina de uma escola. Ao anoitecer da última quarta-feira voltavam a casa depois de terem ido ao supermercado. Dae’Anna ia sentada no banco de trás no automóvel. Num semáforo foram parados por uma patrulha de polícia. E começou o inferno.

 

A voz de Dae’Anna, a menina com missangas cor de rosa enroladas nas tranças que abre esta história, chega-nos de St. Paul, Minnesota, nos EUA, num vídeo que, Diamond, a mãe, captou com o smartphone e difundiu ao vivo através do Facebook quando um dos polícias da patrulha começou a apontar a arma e, com a cabeça inexplicavelmente perdida, entrou a disparar de morte sobre Philando.  Qual foi o pecado de Philando?  Quando o polícia lhe pediu a carta de condução, enquanto a procurava, ele achou que devia dizer que tinha no carro uma arma devidamente licenciada.

 

As imagens num vídeo que se prolonga por 10 minutos colocam-nos, manietados, dentro do carro onde tudo está a acontecer. Diamond consegue ser narradora, meticulosa. Ficamos sentados no lugar de Diamond. Vemos o polícia que através da janela aponta a pistola a Philando e que por quatro vezes dispara sobre ele. Vemos o sangue a alastrar na t-shirt branca de Philando. Sentimos a fúria violenta em volta e dentro daquele carro.

 

É tragicamente necessário referir a cor da pele de uns e de outros. Porque nos remete para uma raiva profunda e difusa, com fundo racial, que volta a explodir e que está a consumir os Estados Unidos da América: Philando, Diamond e Dae são afro-americanos, isto é, são negros e a patrulha policial era composta por homens brancos. Quem devia proteger, despreza e ataca e é inevitável pensarmos que por preconceito racial. O preconceito assenta quase sempre em mentiras, ressentimento e vileza sobre quem não tem culpa.

 

Faz sentido concluir que os EUA são, apesar de Obama, um país em guerra interior. Em 2015, morreram nos Estados Unidos 1146 pessoas abatidas por disparos de polícias e uma altíssima percentagem é constituída por afro-americanos. No que vai de ano já são 561. A desconfiança entre a comunidade negra e as forças policiais é enorme e alimenta o olho por olho dente por dente, em espiral violenta.

 

Mathew Brady, pioneiro da fotografia nos EUA, escreveu que com a invenção das câmaras fotográficas em 1893 estas tornaram-se olho da história. Passaram a proporcionar, acrescenta Susan Sontag, um retrato transparente da realidade. Mostravam e mostram, muitas vezes chocam, mas proporcionando tempo para as analisar. Agora, há algo de novo: o smartphone e qualquer uma das redes sociais permite-nos ver a violência no momento em que está a acontecer. Não há mediação, deixa de haver tempo para ponderar. Ficamos imersos numa realidade para a qual, se não estamos preparados, envenena as emoções.

 

É o que aconteceu na trágica semana passada nos EUA. Menos de 24 horas depois do episódio tremendo em St. Paul, realizou-se em Dallas, a escassas centenas de metros do lugar onde o presidente Kennedy foi assassinado em 1963, uma manifestação contra os abusos policiais sobre negros. Uma televisão mostrava em direto o desfile quando, subitamente, se ouviu um primeiro de vários disparos e os manifestantes desataram a correr sem saber o que estava a acontecer. Parecia cinema de ficção mas é de facto realidade. Foi um franco-atirador, Micah Johnson, afro-americano, antigo combatente americano no Afeganistão que, tomado pelo ódio, matou cinco polícias brancos que controlavam a manifestação dos negros.

 

Na véspera tinham sido reveladas as imagens de um outro episódio brutal, em Baton Rouge, capital do Louisiana, que nos mostram polícias a disparar à queima-roupa sobre um negro, Alton Sterling, 37 anos, quando este já estava imobilizado no chão de um parque de estacionamento.

 

Está assim esta América onde há mais armas de fogo que pessoas. O filósofo Martin Walzer comenta que a violência fez sempre parte da sociedade nos EUA, vem do modo como o país nasceu. Mas nos últimos anos há uma nova vaga que parece associada à convicção de muitos brancos, sobretudo da América interior, de que estão a perder o controlo do país. Isso leva alguns deles, sobretudo entre os mais pobres e os menos instruídos, a reações violentas agravadas pela atmosfera de crise económica. O facto de as minorias de cor tenderem a tornar-se maioria nos EUA está a puxar um clima de guerra civil. A campanha de Donald Trump concorre para essa atmosfera. Instala os medos. É o mesmo que fez McCarthy nos anos 50.

 

Agora já há quem admita que a matança de cinco polícias na cidade que foi teatro do assassino de Kennedy pode redefinir a atual corrida presidencial nos EUA. Também há quem receie neste 2016 um novo 1968, igualmente ano eleitoral, em que muitos americanos sentiram a violência a ficar fora de controlo. Então, no espaço de dois meses, dois vultos no combate pela dignidade e pelos direitos civis na América foram assassinados: o reverendo Martin Luther King em 4 de abril e o candidato presidencial Robert Kennedy em 6 de junho. Era o ano em que a América se confrontava com a derrota no Vietname.

 

A brecha social e económica entre brancos e negros nunca deixou de ser um sério problema doméstico nos EUA. Com explosões de tempos a tempos. Há 25 anos, em março de 1991, Rodney King, taxista negro de Los Angeles, mandado parar por excesso de velocidade, foi barbaramente agredido por polícias de duas patrulhas.  A violência foi filmada por um videoamador que entregou as imagens às principais redes de televisão. O choque foi tal que obrigou a sentar os polícias no banco dos réus. Mas os juízes decidiram absolver os polícias e o resultado foi uma vaga de protestos violentos que deixaram mais de 50 mortos e mais de dois mil feridos. O clima de guerrilha urbana só foi estancado ao fim de uma semana com a intervenção de 13 mil soldados e a declaração de recolher obrigatório.

 

A violência desta última semana causou sete mortes absurdas. Há uma nova era iniciada, a da violência mostrada em direto, sem mediação, nas redes sociais. O risco sério é o de que cada morte puxe mais sangue. Por mais que apeteça não as ver faz falta que se discutam estas imagens destes dias. Pode ser que façam abrir os olhos dos americanos para o terrível efeito dos ódios e das armas de fogo nas mãos de todos. Todos somos espetadores e as consequências são imprevisíveis.

 

A voz aflita da pequena Dae’Anna tem de levar a gente sensata a tentar qualquer solução para que os EUA se livrem da ameaça desta guerra civil.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Os vizinhos espanhóis também acham que vão sofrer sanções europeias por causa do défice mas que a multa será zero. Esta Europa está cada vez menos nossa.

 

Gianni Vattimo sobre a Europa:Não tenho soluções, apenas um pouco de despero”.

 

Vamos passar a ouvir falar de Theresa May. Vai suceder a David Cameron, 26 anos depois de Thatcher,  no lugar de chefe do governo em Londres. Apoiou o “Remain” mas vai conduzir o Brexit”. Dizem que é calma mas imprevisível e ainda não mostrou grande visão política - e é isso o que tanta falta faz.

 

As primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS levam-nos à festa do futebol: esta é hondurenha, esta é de uma bíblia francesa para o futebol, e há as madrilenas do As e da Marca. E há este extra do Expresso.

publicado às 09:44

Então isto não é uma guerra?

Por: Francisco Sena Santos

 

A guerra em curso ainda não entrou na Península Ibérica (desde a tremenda matança nos comboios suburbanos de Madrid, em março de 2004) mas estamos todos na linha de mira. Eles, os terroristas, escolhem lugares que estão no percurso da nossa satisfação: esplanadas, restaurantes, bares, geladarias, teatros, discotecas, hotéis, museus. E, naturalmente, também aeroportos. A estratégia passa por atacar-nos, de modo brutal, abominável, em lugares que estão ligados ao nosso prazer.

 

Do Bataclan de Paris à Holey Artisan Bakery de Dacca ou à mais antiga geladaria de Bagdad. Passando pelos aeroportos de Bruxelas e de Istambul, por hotéis em capitais africanas ou paragens de autocarros na Turquia. E tantos outros lugares que elegem para o seu teatro de horror. O autoproclamado “califado islâmico” está a mudar o modo de vida no mundo, aquele que invadiu e ocupou, e aquele que ameaça com os seus inúmeros grupúsculos, alguns rivais entre si, mas unidos no propósito de nos massacrar – eles dizem: castigar. Serão apenas umas centenas de assassinos, muitos deles que optam por imolar-se propondo-se como mártires, mas que devastam milhares de vidas e ameaçam com o seu terrorismo difuso milhões de pessoas. O papa Francisco, pessoa de palavras bem pesadas, já avisou que está em curso uma nova guerra mundial, dita de baixa intensidade.

 

É notório o atual recuo territorial do “califado” que também se apresenta como “estado islâmico”(EI). Já perdeu metade do território que controlava há dois anos no Iraque e na Síria. Um bastião, Falluja, a 56 quilómetros de Bagdad, foi recuperado há uma semana pelas forças governamentais iraquianas apoiadas pela aviação dos EUA. As tropas regulares estão em evidente reconquista. Um dia, talvez não muito distante, será a libertação da segunda cidade principal no Iraque, Mosul, e também de Raqqa, a cidade na Síria que se tornou o posto de comando do EI. A noção de “estado” na ideia de “estado islâmico”, embora nunca tenha existido Estado propriamente dito, está em colapso. Tal como a ambição de “califado”. O problema trágico é que o fim do território controlado pelo “EI” não significa o fim do “EI”. Porque o “EI” passou a existir em células terroristas dispersas pelo mundo. E o seu ideário trata de conquistar adeptos e combatentes entre os revoltados contra a ordem política, socioeconómica ou religiosa instalada. Admite-se que haja pelo mundo umas centenas de terroristas em células adormecidas, a que se juntam milhares de “foreign fighters” (julga-se que uns 30 a 40 mil) nos campos de treino do EI.  Têm agora menos território mas aparecem até mais perigosos a atacar-nos pelo mundo através de ataques suicidas.

 

A última semana foi de atroz violência do terrorismo islâmico associado ao “califado”: 42 mortos no ataque suicida no principal aeroporto de Istambul; 20 num restaurante de Dacca; 213 vidas dizimadas numa casa de gelados  e na área em volta em Bagdad. A estas vítimas acrescentam-se centenas de feridos. Ontem à noite o ataque foi em Medina, junto à Mesquita do Profeta, e em outras duas cidades sauditas.

 

Tudo se precipitou com a chamada, feita em 21 de maio, por um porta-voz do EI, Mohammed al-Adani, para um Ramadão de sangue. Ele chamou os seus seguidores à matança de civis, proclamando que “ninguém está inocente”. Desde então os ataques sucedem-se com alta intensidade. Basta percorrer o diário das notícias que já quase nem aparecem como notícia: explosão de carros-bomba em Bagdad, Falluja, Kerbala e Bassora, no Iraque; massacre de civis e militares em Deir ez-Zour, na Síria, e em Sirte, na Líbia. E mais, muito mais: 11 mortos em ataques, em 6 e em 21 de junho, na Jordânia; 20 civis mortos no ataque que em 24 de junho destruiu pelo fogo uma aldeia de Kot, no Afeganistão; 43 militares massacrados na caserna de Mukalla, no Iraque; sete civis mortos no ataque, em 27 de junho, à aldeia cristã de Al-Qaa, no Líbano. Depois houve, na passada terça-feira, o massacre no aeroporto Ataturk de Istambul e, neste fim de semana, as matanças em Dacca e em Bagdad.

 

Fixemo-nos no último ano e meio: primeiro foi a matança no Charlie Hebdo, em Paris. Depois passaram ao Magrebe: massacres no Museu do Bardo e na praia de Sousse, na Tunísia. Veio o ataque múltiplo de novembro, em Paris. E o terror nos aeroportos de Bruxelas e de Istambul. Pelo meio, muito mais chacinas cruéis, na Síria, no Iraque, no Paquistão, na Líbia, no Iémene, no Egito, no Líbano, na Jordânia, na Nigéria, no Mali e nas Filipinas. Houve o ataque a um café em Sydney. Também a matança, é certo que ainda por esclarecer, na Pulse, uma discoteca de Orlando, nos EUA.

 

Então isto não é uma guerra? O “EI” pode estar a ser eliminado dos mapas geográficos mas os seus terroristas ameaçam-nos cada vez mais, já não escondidos no imenso deserto, mas instalados, como lobos solitários ou em minúsculas células, a escaparem invisíveis aos serviços de intelligence, nas nossas cidades. Nas cidades europeias, nas cidades do mundo e nos lugares procurados por viajantes e turistas.

 

Como responder a esta ameaça geral é a necessária prioridade para quem define as políticas. É também um desafio para o jornalismo: como lidar com este espetáculo da crueldade terrorista? As imagens que nos são mostradas são quase sempre pornografia do horror. É facto que precisamos de saber para entender, mas talvez não precisemos de ver os detalhes obscenos do terror. Há o desafio de definir a fronteira entre o jornalismo que mostra o que importa para entendermos o que está em causa, e a exibição da orgia de sangue que até funciona como marketing (as vítimas como troféu) nas estratégias de comunicação e recrutamento dos terroristas.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Tanta gente que admiramos e que desapareceu nestes dias: Abbas Kiarostami, artista eclético,  cineasta que realizou filmes plenos de poesia, filosofia e política; Elie Wiesel, farol insubstituível, símbolo mundial da dignidade, lega-nos o dever de perpetuar a memória do Holocausto;  Michael Cimino, o cineasta que mostrou com O Caçador a tormenta da América incapaz de conviver com a síndrome da derrota no Vietname; Michel Rocard, o ideólogo reformista que tentou mas não conseguiu reformar o socialismo democrático.

 

A sonda Juno já está na órbita de Júpiter. A NASA vai trazer para a Ciência notícias do maior planeta do nosso sistema solar.

 

O Brexit tornou-se Brexodus, está a dar cabo dos seus falcões: depois de Boris Johnson, agora a renúncia de Nigel Farage. O referendo britânico derruba mesmo todos os líderes políticos britânicos: Cameron caiu, Farage demitiu-se, Corbyn está na corda-bamba. Depois do Brexit, como votarão os holandeses se houver referendo Nexit?

 

Duas entrevistas no El País, para ler e reler: Koolhaas e Steiner.

 

O museu em Chaves projetado por Siza Vieira para mostrar Nadir Afonso.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta. Mas também há o futebol, com o mercado de transferências a voltar aos portugueses, na véspera do salto para a final do Euro 2016.

publicado às 08:04

A crise está a explodir. Alguém tem a audácia de um plano estimulante para reanimar a Europa?

Por: Francisco Sena Santos

 

Nos anos 80 e 90, até mesmo na viragem para este século XXI, a União Europeia era vivida como uma ideia visionária e um sentimento político que entusiasmava pela sua cultura que tem como valores primários a liberdade e a solidariedade.  A presidência europeia de Delors (1985/95) e a evolução do continente no tempo da queda dos muros eram a turbina para esse sentimento de esperança. Havia a ilusão de estar em construção uma união de povos assente na procura de coesão e progresso num longo e consolidado pós-guerra em que já ninguém pensava nas guerras, sonhava-se o futuro com a Europa de Schengen e de Erasmus sem fronteiras.

 

Mas começaram a aparecer desconfianças, que foram crescendo à medida que nos adentrávamos neste século. A crise financeira de 2007 marcou a viragem. Ficou instalada no poder uma geração de dirigentes que reduziu o estimulante processo de integração europeia à obstinada defesa do euro e dos interesses dos mercados financeiros. Onde antes florescia o sentimento europeísta passou a crescer a desilusão ou a fúria e o antieuropeísmo avança como ressentimento robusto.

 

Quando a ambição de caminhos imaginativos de progresso para a Europa foi derrubada nem sequer ficou a sensatez. A condução europeia, cada vez mais distante e burocrática, levou a que se instalasse um sentimento dominante de perda. Entrou um tempo de precariedade difusa, trágica. Os que mandam na Europa impuseram as receitas da austeridade, a classe média baixou drasticamente o seu poder de compra, os pobres ficaram mais desamparados, o número de pessoas excluídas aumentou. Quebraram-se os vínculos que tinham unido os europeus na ilusão de uma União em busca da coesão. Os dirigentes europeus foram incapazes de propor uma discussão estratégica plural, democrática, na procura de soluções. Imperou a política de Berlim e com ela Bruxelas, a executora, desligou-se das pessoas, dos cidadãos.

 

Com o assédio do temor de cada vez mais pobreza e insegurança, perdida a confiança nas lideranças tradicionais, um número sempre crescente de cidadãos foi-se agarrando ao que lhe ia aparecendo com promessas de mudança. Entrámos no tempo das mensagens negativas, a explorar as inseguranças. Os media também tratam de fazer negócio com a decomposição que se instala. É assim que os britânicos – deve dizer-se: os ingleses – votaram pelo rompimento com a União Europeia. É uma escolha que mobiliza mais populismos e mais xenofobia, da Holanda aos Balcãs, passando pela França e pelos países que querem escapar à ameaça da Rússia pos-soviética de Putin, Hungria, Polónia, Bulgária e os outros.

 

Uma questão essencial tem de ser esta: vai prevalecer a devastadora impotência e o contágio negativo da última década europeia ou vai ser possível, finalmente, um rasgo para que a Europa volte a poder propor futuro?

 

Lê-se e ouve-se de muitos dos políticos europeus que chegou o tempo para relançar o ideal europeu. Mas até parece que eles estão, tal como os sumidos dirigentes ingleses que ganharam o Brexit, sem saber como lidar com o que têm pela frente. Falam de reaproximação com os cidadãos, mas não se vislumbra qualquer ideia concreta para concretizarem as intenções.

 

Será que algum líder tem coragem e é capaz de ousar um golpe visionário de fantasia e inteligência que livre os europeus do assédio constante da crise, dos tecnicismos, dos medos, das exclusões, dos muros e que volte a estimular o ideal da União Europeia? Se alguém o conseguir, ainda bem que houve este sobressalto do Brexit para despertar esse rasgo que acabe com a traição em curso a um projeto político que nasceu como união de paz e concórdia. Vale lembrar sempre que a Europa se uniu para que não se repitam massacres gigantescos como os das Grandes Guerras da primeira metade do século XX. Por agora, o que se vê, é, como advertiu o Papa, uma Europa em risco de balcanização. Com o reino britânico desunido, dividido em duas metades, a sair da União Europeia, portanto a legitimar que Escócia e Irlanda do Norte avancem para a independência, com inevitável dominó na Catalunha, eventualmente no País Basco e em outras ambições soberanistas. A crise está a explodir à nossa frente. Aparecerá alguma liderança audaz, corajosa? Alguém capaz de voltar a fazer crescer o encanto com a Europa?

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Do lado americano, notícias de sensatez do eleitorado: Donald Trump em queda livre nas sondagens. Os eleitores dos EUA estão a abrir os olhos para o risco do voto populista e um salto para o desconhecido?

 

Afinal Mariano Rajoy nem precisou de ir a penaltis, ganhou no prolongamento mas vai ter de fazer política para conseguir um acordo, não apenas de poder como também de estabilidade, para o novo governo de Espanha. O PSOE perde, mas resiste ao tsunami anunciado. Saem derrotados os novos movimentos (Podemos e Ciudadans) e as sondagens que deram grande fiasco até mesmo na noite das eleições.

 

A Islândia é um país com apenas 330 mil habitantes e uma escassa centena de futebolistas profissionais mas conseguiu eliminar do Euro16 os criadores do futebol. Antes já tinham posto fora a Holanda. Até onde vai este fabuloso destino islandês? A Espanha que entrou bicampeã  mas agora reconhece fim de ciclo e há jornais, como o Superdeporte, que chegam a ser cruéis com o selecionador que antes levou a Espanha ao triunfo. Seja como for, o futebol é para ser uma festa, ninguém ganha com azedumes. Já agora: a seleção portuguesa que seja capaz de ganhar mas, sobretudo, apetece que seja capaz de encantar com o jogo, como às vezes faz.

 

As primeiras páginas escolhidas hoje são as do futebol.

publicado às 07:30

Os eleitores britânicos e os espanhóis vão a penaltis

Por: Francisco Sena Santos

 

O primeiro campeonato europeu de futebol de seleções, realizado em 1960, foi um quase fiasco, por escassa mobilização. A ideia de juntar os países europeus e apurar os melhores foi de um francês, Henri Delaunay. Nessa década já tinha sido criada, impulsionada por políticos da França, Alemanha Ocidental, Itália e os três países Benelux, a CECA, embrião da CEE que gerou a atual União Europeia.

 

Foi um quebra-cabeças juntar seleções para aquele primeiro Euro com a bola: os ingleses, que se tomam por pátria do futebol, ficaram ciumentos com a iniciativa francesa e não quiseram entrar. Alemães (ao tempo a RFA) e italianos, entre outros, também não. Inscreveram-se 17 países para a fase de qualificação, mas a Espanha renunciou, por ordem política do ditador Franco, que recusou o passaporte para a seleção jogar o apuramento em Moscovo com a comunista União Soviética. Nesse 1960, concorreram ao Euro as seleções de 17 países. Agora, foram 53. A Europa da CEE começou por ter seis países-membros e agora a União Europeia tem 28. A Europa do futebol cresceu, tornou-se pujante e gera paixões, a Europa política também cresceu mas definha como ideal e crescem os desapegos.

 

Se perguntarmos por aí, em inquérito de resposta instantânea, o nome de suecos famosos, o mais provável é que o futebolista Ibrahimovic seja o mais nomeado, muito mais que Ingmar Bergman, August Strindberg ou até Alfred Nobel. Talvez alguns se lembrem de Henning Mankell, mestre do policial e amante de Moçambique. Vão aparecer mais nomes suecos do futebol, como o do treinador Eriksson, mas ninguém saberá que um tal Stefan Lofven é o primeiro-ministro em Estocolmo. Há uns tempos, nas décadas de 70 e 80, toda a gente responderia logo Olof Palme, o político paradigma da social-democracia progressista, solidária e tolerante. Palme assumia-se utópico: “Não podemos viver sem utopias”, disse numa visita a Portugal pouco tempo antes de ter sido assassinado. Nessa viagem a Lisboa, Palme explicou numa entrevista à então RDP que “a política tem de ser feita num diálogo contínuo entre realidade e sonho, porque sem sonho a nossa ética e ideologia desaparecem”. Esse último quarto do século XX foi um tempo de expansão e até de sonho com o ideal de uma Europa luminosa, atraente para todos. Entrámos no século XXI e a coisa começou a correr mal. Houve a infâmia do 11 de setembro que desencadeou guerras e terrorismos que nunca mais pararam, houve os golpes financeiros de 2007, a Europa cresceu e arranjou uma moeda sem estar consistentemente preparada para estas duas coisas, veio a atual geração de dirigentes europeus, veio a austeridade e os cortes sociais, e estamos nisto, sem faísca, sem entusiasmo político, uma Europa frustrante – embora com potencial de ideias e energia para ser radiosa, assim a saibam estimular.

 

Chegámos a um momento em que as eleições e referendos em cada país são um confronto entre sistema e anti-sistema ou partidos tradicionais e forças anti-política. Neste último domingo, em Itália, candidatas de um movimento, o Cinco Estrelas (M5E), que se assume contra o sistema político, conquistaram a presidência de cidades como Roma ou Turim. É facto que Virginia Raggi, eleita em Roma com 67% dos votos, não pode ser etiquetada de populista (rótulo habitualmente atribuído ao M5E do comediante Beppe Grillo, com tendência para propor soluções primárias), é uma política que fez uma campanha afável a prometer “a legalidade, a honestidade e a transparência”, e a propor “uma revolução gentil” que faça “mudar a velha política dos partidos”. Tem na agenda desmontar as redes mafiosas que controlam os serviços, recuperar o civismo, fazer a revolução da normalidade. Ela não apelou ao extremismo da plebe, tratou de juntar uma equipa plural de gente reconhecida como competente em diferentes domínios da gestão de uma cidade, e assim triunfou. Pode ser um bom exemplo de regresso da política com boa chama. Fica para se ver.

 

Estamos numa semana que toda a gente vê determinante para o futuro da Europa. Já depois de amanhã é o referendo britânico sobre o isolacionismo ou a permanência europeia, três dias depois, no domingo, é a repetição de eleições em Espanha. Num caso como noutro, há tendência para o desempate entre os blocos que se confrontam ser feito nos penaltis, ou seja, o resultado só com o apuramento dos últimos votos.

 

 A campanha para a escolha britânica foi deprimente e atingiu níveis impensáveis de divisão, radicalização e até de loucura. O desafio naval entre Neil Farage e Bob Geldof no rio Tamisa pareceu uma cena de Monty Python num filme em que, como em toda a campanha, as duas partes (brexit e pro-UE) exploraram o medo dos cidadãos. Foram usados panfletos xenófobos alertando para a possível invasão do Reino Unido por milhões de turcos e acrescentados mapas sobre alta criminalidade na Turquia. Foi evocada a resistência britânica a Napoleão e a Hitler por entre proclamações de combate aos refugiados como os invasores de agora. Na campanha “remain” também não faltaram  ameaças, desde o colapso da libra ao risco de os reformados perderem os passes e as pensões. Todos abusaram, todos foram demasiado longe na exploração do medo dos votantes.

 

A campanha cada vez mais agressiva foi estancada na passada quinta-feira com o chocante terrível assassinato da inspiradora deputada Jo Cox cujo apaixonante serviço público em trabalho solidário ficámos a conhecer. Não é ainda legítimo declarar o crime com motivação política, mas vários indícios sugerem essa probabilidade, com execução nas mãos de um perturbado seduzido por ideias de extrema-direita. Mas a campanha de violência verbal terá inflamado ódios que podem levar uma criatura mentalmente distorcida a um crime assim.  Esta tragédia terá servido para despertar a Inglaterra – como antes era conhecida – e fazê-la parar e repensar. O eleitorado líquido, como diria Bauman, flutuando na fronteira entre a abstenção e o voto de protesto, estará a juntar o coração à cabeça, e a emoção a puxá-lo para o lado da permanência britânica na Europa. Isso explicará a neutralização dos seis pontos percentuais de avanço que o “Brexit” tinha há uma semana. O mais provável é que tudo fique resolvido nos penaltis.

 

Em Espanha, no domingo, a mesma tendência para que seja preciso esperar pela decisiva contagem dos últimos votos. O que se joga nesta eleição é a modificação profunda do sistema de representação política: será que um movimento nascido na rua com o protesto dos “indignados” vai tornar-se chave para a formação do próximo governo de Espanha? Os partidos tradicionais estão a ficar obsoletos e a deixar de carburar para os eleitores? Há que esperar pela noite de domingo. Vivemos dias que podem ativar um dominó com consequências inimagináveis.

 

Na noite do próximo domingo já estarão apuradas seis das oito seleções que jogarão os quartos de final do Euro 2016. Há 56 anos, no primeiro campeonato, a final foi jogada pelas seleções de dois países que já não existem: a União Soviética que se impôs (2-1) no prolongamento à Jugoslávia. Agora, seria bonito ver na final, num país, a França, que quando foi preciso recebeu tantos emigrantes portugueses, a seleção de outro país, Portugal, que está a ser um raro bom exemplo europeu no dever de acolhimento dos refugiados. A Inglaterra (tal como Gales e a Irlanda do Norte) começou este Euro dentro da União Europeia, mas não é certo que no final continue a fazer parte da Europa política. Culturalmente, não há separação possível, ainda que a história europeia tenha como pilares a velha Grécia, o Império Romano, o Renascimento e o Iluminismo. Também a matriz cristã.   

 

A TER EM CONTA:

 

As cidades governadas por mulheres: Madrid, Barcelona, Paris, Turim, Roma, Colónia, Varsóvia e Estocolmo são algumas das cidades europeias com poder feminino.

 

O "pactómetro" proposto por La Vanguardia: como formar uma maioria de governo em Espanha?

 

A guerra continua no Iraque. A batalha por Falluja gerou dezenas de milhar de refugiados. Trinta mil só nestes últimos dias. O "EI" perde território, mas pode ser apenas um recuo estratégico.

 

A música tem mesmo poderes mágicos e leva à dança: um violinista embalava uma rua de Trieste com a música que é banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie”; uma palestiniana, Rima Baransi, que estuda dança em Berlim, ia a passar com a família em férias, e foi assim. Com grande beleza.

 

Pela estrada fora, outra vez, sempre, na América.

 

As primeiras páginas britânicas a dois dias do referendo. The Guardian e The Daily Telegraph puxam a sua escolha para o topo.

 

O ocaso da Oi na primeira página do Estadão.

publicado às 09:44

O que leva a tanto ódio?

Por: Francisco Sena Santos

 

O que é que leva a tanto ódio? Que tempestade de raivas e frustrações pode desestruturar a cabeça de uma criatura ao ponto de a levar a matar a sangue-frio 50 pessoas e ferir outras tantas num tiroteio continuado ao longo de duas horas de atrocidade que teve por alvo minorias sexuais e étnicas? O que é que está a derrapar numa sociedade para suscitar uma tão brutal intolerância? Como é que um homem de 29 anos, desequilibrado homófobo e, supõe-se, militante jiadista auto-radicalizado, pode ter, como teve este matador, acesso fácil a armas de fogo assim letais? O que é que se passa com o sofisticado sistema de informações do FBI para, embora tendo aquela criatura no seu radar, não ter sabido parar a tempo alguém que é um inimigo assim tão perigoso? O que é que se sobrepõe à vontade de um presidente como Obama que o impede de, apesar de sucessivas terríveis matanças, com potencial contagioso, fazer impor um controlo eficaz à venda e posse de armas de fogo? Que papel poderão ter os media nesta tragédia americana? Que efeito poderá ter a carnificina de Orlando na eleição presidencial nos Estados Unidos? São tantas as perguntas, estas e muitas outras, e a tantas faltam respostas claras.

 

Na discoteca Pulse de Orlando, nos EUA, como há sete meses no Bataclan de Paris, as vítimas são pessoas que amam a vida. Foram condenadas à morte, pelos demónios que tomaram conta da cabeça de gente perturbada e infetada por uma onda de ódio que anda no ar. Morreram pelo crime de viverem a vida com paixão. Em Paris, um bando de terroristas movidos pelo fanatismo político-religioso, quis castigar quem se diverte, se diverte a sorrir, a cantar e a dançar a ouvir música. Em Orlando, um desequilibrado motivado por um confuso misto de ideologia religiosa e preconceito, atacou os que se divertem assumindo com orgulho que são homossexuais. O pai do matador conta que ele tinha ficado enfurecido ao ver dois homens a beijarem-se com carinho.

 

A diversidade é uma característica da nossa sociedade ocidental que cresceu capaz de se tornar liberal sobre as escolhas de cada pessoa. A tolerância é um modo fundamental de estar na sociedade que foi construída para nós. Uma mulher com véu, duas mulheres ou dois homens de mãos dadas e que se beijam na boca é uma liberdade que faz parte do modo de vida nesta nossa sociedade ocidental de liberdade. Alguns ainda podem sentir incómodo ao verem o que poderia ser apenas privado, mas o costume tende a tornar-se banal. É um assunto de cada pessoa, livremente. Mas há sociedades, com interpretações retorcidas de religião e ideologia, que ainda vivem num tempo passado em que essa liberdade é tomada como heresia.

 

A chacina deste último fim de semana nos EUA junta três ingredientes que são feridas abertas na sociedade americana: terrorismo, homofobia e posse indiscriminada de armas de fogo. Todos os políticos, quase toda a gente, expressa nestes dias horror pela matança.  Não falta hipocrisia nessa condenação.  

 

Muitos dos que lastimam são os mesmos que bloqueiam qualquer tentativa de controlo da posse e uso de armas de fogo – num país onde qualquer um consegue comprar e ter licença de porte de pistola ou espingarda, o que leva a que, em média, cada americano tenha consigo uma arma letal. São mais de 300 milhões. Supostamente, os americanos possuem armas para se protegerem, mas de facto são dos mais desprotegidos no mundo: no que vai de ano, até ontem, estavam registados nos EUA 5.931 mortos em casos com armas de fogo.

 

Ao mesmo tempo, muitos dos que agora condenam mais esta matança são os mesmos que apoiam uma plataforma política que propaga o clima de medo e ódio anti-islâmico e anti-gay que progride nos EUA e que são combustível para perturbados lobos solitários como o matador na discoteca Pulse de Orlando.

 

A tragédia de Orlando é um crime praticado por um perturbado que se deixou tomar pelo ódio homofóbico e pelo clima de hostilidade que está instalado na América em campanha. A consumação do crime foi facilitada pela legislação americana que permite que uma criatura vulnerável tenha acesso a máquinas de guerra como esta idêntica à que serviu para matar 14 pessoas em San Bernardino (dezembro de 2015), também para matar 26 pessoas na escola de Sandy Hook e 12 num cinema de Aurora (estes dois massacres em 2012). Agora, mais 49 na matança homofóbica em Orlando.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O único debate entre todos os que podem vir a entrar para o governo de Espanha mostrou um derrotado (Pedro Sanchez) e nenhum vencedor. É facto que quem resiste (Mariano Rajoy) pode safar-se, mas não será fácil. Será que as eleições de 26 de junho não vão servir para resolver o governo de Espanha?

 

As sondagens britânicas estão a apontar cada vez mais para o divórcio. Faltam nove dias para o referendo.

 

A Espanha perde para Itália o título anual de melhor restaurante do mundo nos óscares da gastronomia: a Osteria Francescana, em Modena, arrebata o topo do pódio ao catalão Celler de Can Roca.

 

Hoje é um dia para a seleção portuguesa de futebol e o talento de Cristiano Ronaldo mas não apenas o dele.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

 

 

publicado às 09:33

Match Point

Por: Francisco Sena Santos

 

O protagonista de Match Point, numa frase definidora deste filme (Woody Allen, 2005), enquadra o efeito do acaso no instante decisivo: “Numa partida de ténis há momentos em que a bola roça a borda da rede e numa fração de segundo tanto pode seguir para a frente como cair para trás; com um pouco de sorte, segue em frente e ganhas, sem essa ponta de sorte não passa e perdes”. Analisando resultados eleitorais e sondagens pelo mundo, fica-se com a sensação de que estamos nessa fração de segundo de indefinição.

 

Há muita curiosidade sobre como será o que vem a seguir neste tempo em que por todo o lado prospera o voto anti-establishment da opinião pública que, exasperada com anos de más políticas, arrisca dar força a entidades que fazem do protesto a sua arma mais forte. Reino Unido, Itália, Espanha e Estados Unidos são arenas para alguns dos próximos confrontos que podem redimensionar a paisagem política.

 

Nos Estados Unidos, Hillary Clinton vai conquistar hoje na Califórnia os votos que lhe garantem a investidura como candidata presidencial do Partido Democrata. Mas o rival republicano, Donald Trump nunca pareceu tão capaz de conseguir chegar ao match point de novembro e ter a sorte do lado dele. Há quem compare Trump com Reagan: quando anunciaram a candidatura, as hipóteses de êxito pareciam nulas, levavam a sorrir. Depois, com algum sobressalto, disse-se que era impensável vê-los na presidência dos EUA. A seguir, instalou-se a possibilidade forte. E Reagan até foi um presidente que entrou para a história: apertou a mão a Gorbachev em Moscovo e, depois de ameaçar disparar os mísseis, presidiu ao fim da “Guerra Fria”. Mas a semelhança entre ambos, para além da filiação no Partido Republicano, parece-me ser a origem nos palcos do espetáculo, e nada mais. No essencial, são diferentes: Reagan sorria sempre e falava com otimismo da América como farol da humanidade, usava como lema “a cidade que ilumina o mundo”; Trump escolhe o desdém, despreza imigrantes e até quer um muro para barrar acessos à fortaleza América. Mesmo assim, segundo as sondagens, se o match point fosse jogado hoje, Trump, o demagogo, até poderia ser o vencedor. Há mais de 50 milhões de pessoas dispostas a entregar-lhe o comando dos Estados Unidos. 

 

Em Itália, o primeiro round das eleições municipais mostrou uma tão grande irritação dos eleitores com os partidos tradicionais que o castigo eleitoral leva um movimento antipolítica, o 5 Estrelas (M5S), fundado pelo comediante Beppe Grillo, a aparecer favorito para, no dia 19, lhes conquistar a liderança em cidades como Roma ou Turim (o caderno eleitoral do M5S privilegia a atitude à competência). No caso de Roma, a campanha M5E contra a corrupção político-administrativa do município mal-governado, leva a que a sua jovem candidata Virginia Raggi tenha prometida uma vitória de cinco estrelas. Em outras cidades, como Milão, Turim ou Bolonha tudo está em aberto para o match point daqui a duas semanas. Sendo que o partido de Berlusconi está estilhaçado e o do primeiro-ministro Renzi muito amachucado.

 

Em Espanha, o match point joga-se uma semana depois, no dia 26, com a repetição das eleições gerais, após seis meses de impasse e governo interino. A campanha já está a ser áspera e renhida. O eleitorado que nas últimas quatro décadas votou bipolarizado entre PP e PSOE está agora a rasgar com essa tradição: em todas as sondagens nenhum partido chega aos 30%, o PP ronda uns insuficientes 28% e o Podemos, partido saído do protesto nas ruas em 2011, com inflexibilidade esquerdista, surge a seguir a apenas três pontos percentuais. O histórico PSOE aparece asfixiado na terceira posição com apenas 20%. Tudo pode acontecer, incluindo mais impasse para ser conseguida uma maioria nesta Espanha com 20% de desemprego.

 

Pelo meio, entre o voto italiano e o espanhol, na quinta-feira dessa crucial semana política, há o referendo britânico, reconhecido como transcendente. Ninguém sabe o que vai acontecer, se vai dar Brexit (o Reino Unido a sair da União Europeia) ou Bremain (a permanecer). As sondagens mostram os dois campos ombro a ombro, agora com um pulso de vantagem dos que querem sair. Vale ter em conta um estudo de opinião publicado pelo Financial Times: as pessoas com menos instrução e menos rendimentos são maioritariamente pelo voto Brexit; os mais jovens, os que têm mais estudos e melhores rendimentos são pela permanência. Outra diferença é notória entre votantes citadinos (maioritariamente pela continuidade na Europa) e rurais (contra). Estudos feitos nos EUA revelam tendências que colocam os grupos que votam Trump com estratificação que, apesar de complexa, se assemelha à dos que optam pelo Brexit no Reino Unido. Será legítimo concluir que os menos instruídos e os mais apertados em rendimentos são mais propensos ao discurso dito populista? Parece. O que está evidente é que temos pela frente ao dobrar da esquina várias situações de match point político. Com risco de minas por despoletar no terreno do jogo. E com o problema de os eleitores votarem mais por motivação negativa que por entusiasmo ou sequer adesão. Falta magia nestes jogos.

 

VALE VER OU OUVIR:

 

Como já estão a ser (energéticos, animados) os escritórios do futuro.

 

Viagem fotográfica ao século XIX.

 

Um olhar da vizinhança sobre nove outros museus em Lisboa. E o Jardim das Delícias no verão de Madrid.

 

Como lidamos com a informação que nos chega?

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

publicado às 08:20

O naufrágio à nossa frente

 

Por: Francisco Sena Santos

 

É a imagem lancinante que documenta estes dias. É uma fotografia que nos confronta com o naufrágio. Mostra-nos o casco inclinado da barcaça que se vira e vemos muitas dezenas de figuras minúsculas que tentam algum meio para sobreviver, ou atirando-se ao mar ou agarrando-se à madeira do barco que talvez ainda flutue algum tempo mais. Sabemos que são mulheres, homens e crianças que tentam salvar-se no mar imenso. No Mediterrâneo, a quem os antigos romanos chamavam mare nostrum. Podemos seguir como que anestesiados, sem reagir, perante a perturbadora imagem de um naufrágio assim diariamente replicado?

 

É uma fotografia que documenta a queda a pique de tantas, não sabemos quantas, vidas. Muitas escapam ao naufrágio, outras sucumbem e ficam para sempre em lugares de fossa comum, localizados de modo vago como “ao largo da costa líbia”.  A história lembra o modo como Virgílio, há 20 séculos, descreveu o naufrágio da frota troiana de Eneias perante a fúria desencadeada pela poderosa e vingativa deusa Juno. No caso mostrado nesta imagem de agora, um bravo grupo da Guarda Costeira italiana conseguiu evitar a hecatombe e salvar a maior parte destas vidas. Também há gente valente de Portugal nestas operações de socorro. Mas não chega, os naufrágios fatais sucedem-se, todos os dias. O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados reportou, a partir do testemunho de sobreviventes, cerca de 700 vidas perdidas só em três dos muitos naufrágios da última semana.

 Sabe-se que há muitos milhares de africanos que, frustrados na terra onde nasceram, dispostos a arriscar, estão nas margens da costa sul do Mediterrâneo na esperança de embarcar. Tendem a ser milhões. Muitos nem terão a noção das escassas perspetivas e dos perigos. São migrantes económicos, não preenchem as condições para serem considerados refugiados e assim obterem acolhimento. Mas são levados a ousar a sorte e estão à mercê da indústria contemporânea do tráfico de seres humanos.

 

No começo do outono, aquela fotografia do pequeno Aylan, vestido e calçado mas inerte pela morte na beira-mar de uma praia na Turquia, conseguiu acender a opinião pública europeia para a tragédia dos refugiados e impôs o debate político. Houve então muitas palavras, comoção de circunstância, mas por pouco, demasiado pouco tempo. A crise dos refugiados segue por tratar.

 

Agora, esta imagem da barcaça que se afunda volta a pôr diante dos nossos olhos um drama que resulta de uma das questões essenciais do nosso tempo, a da emergência migratória: os milhões de pessoas que estão num continente com 30 milhões de quilómetros-quadrados e que aspiram chegar à Europa. É preciso saber reagir e encontrar soluções humanas. Quais? Não sei. É uma tarefa para os políticos. Eles são eleitos com o encargo de encontrarem soluções para os problemas. Sendo que, continuando a desviar o olhar, continuando alheios ao sofrimento dos outros, continuando sem saber resolver com humanidade, continuando a silenciar este abandono, estamos todos a naufragar.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O Prémio Camões vai este ano para o brasileiro de origem libanesa Raduan Nassar, pela “força poética da sua prosa”.  O escritor, que gosta de se dedicar à agricultura, não cultiva aparecer ou protagonizar entrevistas mas levantou a voz contra o afastamento de Dilma. É também autor de explosivos contos eróticos em que “a fricção dos discursos é tão ou mais erótica que a das peles”.

 

Agora é o Ministro da Transparência, apanhado em escutas: em sete dias já caíram dois ministros do governo transitório brasileiro que há 17 dias substitui o de Dilma.

 

Estão a começar as Festas de Lisboa. O programa está aqui.

 

Três primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta.

 

publicado às 08:16

Olhamos lá para fora e quase tudo parece turvo. Pode melhorar?

Por: Francisco Sena Santos

 

Ken Loach, a um mês de celebrar 80 anos, acaba de levar a Palma de Ouro do festival de Cannes. É premiado por fazer cinema político sobre a solidariedade que desejamos e sobre valores que cultivamos mas que não estamos a ter acarinhados na Europa. Olhamos em volta e tudo parece confuso, turvo. Da Áustria acaba de nos chegar mais uma sacudidela: é por um triz, por apenas 31 mil votos, meia casa em qualquer dos estádios das equipas que em Portugal ganham campeonatos de futebol, que não se consumou a primeira eleição na União Europeia, desde a Segunda Guerra Mundial, de um chefe de Estado que é xenófobo e que se declara contra os ideais de um modo de pensar europeu.

 

Quando pensamos em Europa que imagens é que aparecem na nossa cabeça? Certamente algo como um sistema de boas relações, lugar homogéneo de liberdade, com afinidades político-económico-culturais, onde a vida democrática comum e a prática de um modelo social de solidariedade são protegidas. Foi com estes ideais que foram lançadas ajudas generosas para regiões menos desenvolvidas na Europa mais pobre. Foi com esse altruísmo que nasceu o programa Erasmus para a livre circulação de estudantes. E Schengen para nos livrar das burocracias de fronteiras. Até a (percebemos agora que muito mal preparada) moeda comum. Nesta Europa até já deixámos de evocar o valor supremo de ser terra de paz, tão fora do nosso presente estão os sofrimentos das grandes guerras. Provavelmente, faz-nos falta essa memória como fio que liga o passado ao presente e que dá alicerce ao futuro. Na entrada neste século XXI sonhava-se com uma Europa de prosperidade que fosse muito mais do que a soma dos distintos interesses nacionais. O que temos hoje é o oposto a isso tudo, em vez de solidariedade e estímulo crescem o egoísmo e o ressentimento. E as ameaças. E a xenofobia como um veneno que alastra com feroz vontade de exclusão. A par do desemprego, das incertezas e do medo. É um tempo de desencanto com esta tão heterogénea Europa e de persistente ausência de respostas eficazes à crise.

 

A Áustria, embora partida ao meio, esquivou-se esta semana à eleição de um presidente originário de um partido com herança pós-nazi e totalmente contra os valores fundadores da Europa. Mas na Polónia já governa uma direita tão anti-europeísta quanto contra os estrangeiros do sul. Na Hungria e na Eslováquia avançam idênticos nacional-conservadorismos. Em todos estes países e em outros mais a liberdade está a ser condicionada. Crescem os populismos em todos os cinco países escandinavos. Tal como na Holanda e na Itália. Em França, daqui a um ano, talvez o moderado Juppé, um cavalheiro de salão, consiga, provavelmente também por poucos votos, travar a chegada de Marine Le Pen à presidência.

 

O discurso que se impõe na agenda política europeia e que ganha votos é o de revolta contra o sistema que governou a tempestade de arrazadora potência desta última década. Os males já vinham de antes, mas a crise económica que não passa, a prevalência da ideologia financeira e dos interesses económicos e a globalização mal governada fez desmoronar as traves que suportavam o sonho ou a ilusão europeia. As classes médias que antes se sentiam atraídas pelo ideal europeu, agora já não têm aquela vontade de Europa. Tantos britânicos querem deixá-la. Tantos europeus estão a preferir o seu país entrincheirado frente aos mandatos de Bruxelas. Estão furiosos deste presente e têm medo do futuro, pensam que se protegem ao levantar barreiras.

 

Talvez o referendo sobre o Brexit, daqui a um mês, possa ajudar a um relançamento cultural e político da Europa. Talvez a Alemanha e a França e os outros consigam perceber que é preciso mudar bruscamente de rumo para salvar a União Europeia tal como ela foi sonhada. Talvez ainda possamos sair deste purgatório e evitar o inferno.

 

Faz pensar: em toda a Europa, apenas Portugal e Espanha, porventura em remoto efeito de vacina de Salazar e Franco, permanecem impenetráveis pela vaga populista que avança por esta Europa. Mas metade da Áustria, embora sem ter ganho a presidência, ufana-se pela enorme votação por um sistema que também é o proclamado por Trump nos EUA, e que continua a conquistar apoios entre quem está farto do que tem sido isto tudo.

 

O realizador Ken Loach, no filme agora premiado em Cannes, conta o drama de um viúvo com saúde precária perante a revoltante burocracia do sistema britânico de segurança social, mas um homem que não deixa de ter forças para ser solidário com uma mãe a quem fecham as portas. No palco de Cannes, quando falou ao receber a Palma de Ouro, Ken Loach denunciou “as políticas neoliberais que atiraram milhões de pessoas para a pobreza, conduzindo-nos para a catástrofe”.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Ficam a nu as maroscas políticas brasileiras. Ao 10º dia, um ministro do novo governo interino no Brasil é obrigado a demitir-se após a revelação de uma gravação feita em março em que, para tentar safar-se, conspirava contra Dilma. A história está assim, assim e assim em primeiras páginas de hoje trazidas pelo SAPO JORNAIS.

 

O perigo do discurso único: preocupação no Brasil com a falta de diversidade de pensamento e ausência de contraditório nos principais media. A discussão conduzida, há já vai para um ano, por Alberto Dines. 

 

Continua a ser de alto risco fazer jornalismo na Colômbia. A correspondente do El Mundo, Salud Hernandez-Mora, está desaparecida. Suspeita-se de sequestro.

 

De “Lay Lady Lay” a “Shadows in the Night”: Bob Dylan celebra 75 anos e escolhe cantar Frank Sinatra. E segue pela estrada fora.

 

Qual é a estrela rock que os historiadores do futuro vão lembrar?

publicado às 08:41

As notícias fazem mal à saúde?

 

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Rolf Dobelli (1966, Lucerna, Suiça), formado em filosofia, saltou para a fama na Alemanha com livros de leitura simples sobre bom desempenho no trabalho. 'The Art of Thinking Clearly' vendeu mais de 500 mil exemplares e está traduzido em 30 países, entre os quais Portugal, onde está disponível como 'A Arte de Pensar com Clareza' (Almedina, 2013). Dobelli gerou controvérsia quando publicou um artigo em que argumenta que a leitura, escuta ou visão das notícias que nos são constantemente servidas faz mal à saúde: perturba o estado emocional, afecta a capacidade de concentração, diminui a reflexão e a criatividade. Ele chega a sustentar que “o excesso de notícias está para o cérebro assim como o açúcar para o corpo”. Fala de abuso tóxico, que desgasta a memória breve e o potencial de pensamento com o consumo de informações que não tem qualquer utilidade prática. Denuncia o gasto inútil de energias que fazem falta ao bom jogging cerebral e ao pensamento ponderado, o slow thought, como lhe chama.

 

Não imagino que algum jornalista possa concordar com o essencial desta argumentação de Dobelli. Talvez o equívoco esteja no modo como ele põe a questão: não é nas notícias que há problema, poderá haver no modo como elas nos são servidas ou como as consumimos. Um noticiário é suposto ser uma ocasião de informação que acrescenta valor para a análise que nos permite entender o que está à nossa volta, perto e longe. Infelizmente, a prática diária está a mostrar-nos que é muito questionável o conteúdo de muitos noticiários cuja agenda, que produz efeito de contágio, vive da exploração de sentimentos e crimes. As deformações emocionais da realidade desviam o espaço que seria útil para dar a compreender mais do mundo.

 

Há tendência para redução nos jornais do espaço dedicado à análise dos media. Um dos casos que apetece analisar é o de um jornal de excelência, como é The Guardian, fonte de informação global e marca de qualidade consolidada ao longo de 195 anos. The Guardian foi criado em Manchester em 1821, a partir da filantropia da riquíssima família Scott que investiu na publicação de um jornal diário que pudesse noticiar e promover a causa da liberdade e do jornalismo liberal ao abrigo da pressão de interesses políticos ou económicos. Em fundo, The Guardian teve sempre alma liberal, entenda-se: de centro-esquerda. Sempre com grande dedicação às artes e à cultura. Em 1936, para consolidar o futuro do jornal em tempos turbulentos, a família Scott dedicou muito da sua enorme fortuna à criação de um avultado fundo financeiro, o Scott Trust, com dupla finalidade: garantir a independência e a perpetuidade do jornal. O fundo gera rendimentos com a exploração de outros negócios, sendo que o lucro reverte sempre para consolidar a marca Guardian News and Media.

 

É com esses vastos recursos e com a política editorial adoptada que The Guardian se tornou referência global no jornalismo. O facto de em 195 anos ter tido apenas 11 editores atesta a estabilidade do jornal e do grupo. Um dos editores mais marcantes é o visionário jornalista Alan Rusbridger, que dirigiu o jornal por 20 anos, entre 1995 e o verão passado. É com ele que The Guardian se expande para marca global. Rusbridger teve a possibilidade de dedicar muitos milhões de libras de orçamento anual para colocar The Guardian como o terceiro sítio digital de notícias em língua inglesa mais procurados no mundo (os dois primeiros são The New York Times e o popular Daily Mail, de Londres).  

 

Com Rusbridger, The Guardian recebeu em 2014, a meias com The Washington Post, o Pulitzer, o mais relevante prémio internacional de jornalismo, com as revelações de Edward Snowden. Antes, já tinha marcado a agenda informativa com os documentos Wikileaks sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão. Rusbridger apostou o máximo de recursos que conseguiu na edição digital. Investiu milhões para criar um gigante digital nas notícias.

 

Mas o disparo da relevância e influência do jornal é acompanhado por escalada dos prejuízos. As contas de 2015 fecharam com o grupo de imprensa The Guardian News and Media no muito vermelho défice de 45 milhões de libras (60 milhões de euros). O fundo da família Scott caiu, nos primeiros seis meses de 2015, de 838,3 milhões para 740 milhões. A quebra tinha-se tornado contínua nos últimos cinco anos. The Guardian tem 1960 trabalhadores, sendo que 750 pertencem à área editorial. Está em aplicação um plano de contenção de gastos e aumento de receitas. Já implicou a redução de 300 postos de trabalho, entre despedimentos e rescisões amigáveis. A australiana Katharine Viner substitui agora Alan Rusbridger na direcção do jornal.

 

O que é que correu mal num jornal tão bem apresentado e tão influente? Por um lado, a crise económica que trouxe drástica quebra da publicidade. Essa baixa também frustrou as expectativas publicitárias para a edição digital. Mas a questão mais discutida é a gratuitidade da edição digital. Rusbridger foi intransigente a defender que a edição do jornal é sempre totalmente aberta e gratuita. Questão que sobra: sendo o jornalismo de qualidade um produto que requer investimentos substanciais, quem paga? É possível fazer bom jornalismo e não cobrar ao utilizador? Este é o tema essencial.

 

O risco de perder muito da qualidade no jornalismo talvez nos leve aquela ameaça de que fala Dobelli. Nunca - é de confiar - será caso para dizer que as notícias fazem mal à saúde. Mas poderemos ter, já estamos a ter, inflação de notícias que são lixo. Portanto, não trazem bem.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

A interrogação do Papa numa entrevista ao La Croix: “Frente ao terrorismo islâmico devemos interrogar-nos sobre o modo como um modelo muito ocidental de democracia foi exportado para países onde havia um poder forte, como o Iraque”.

 

O deserto no Egipto agora é também de turistas. As fotografias de Luca Campigotto, no La Repubblica, mostram-nos “os esplêndidos monumentos restituídos à sua pureza, mas também a desoladora falta dos visitantes que alimentavam a economia do país”.

 

A crise do regime chavista na Venezuela está em escalada imparável. A opinião num jornal da oposição em Caracas. E o relato na CNN. Depois da Argentina e do Brasil, a Venezuela é a próxima viragem política na América Latina cansada de etiquetas esquerdistas..

 

O júri do Man Booker Prize International preferiu a sul-coreana Han Kang a Agualusa, Ferrante e Pamuk. A escolha de 2016 é “The vegetarian”, a história “numa desconcertante miscelânea de beleza e horror” de uma mulher que se torna vegetariana.

 

Um desfile pelo festival de cinema em Cannes. Alguns dos filmes a ver nos próximos meses.

 

A BBC prepara-se para lançar uma plataforma rival da Netflix. É o futuro imediato.

 

 

publicado às 08:29

Perante "The Donald", venha a Madam President, ainda que lhe falte faísca

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Donald, o impetuoso, abrutalhado, exuberante, misógino e multimilionário, candidato do bullying político que despreza os valores da solidariedade e a sabedoria sensata, ou Hillary, a velha raposa que representa a casta do fatigado sistema tradicional de governação, qual dos dois, o anti-político ou a política do costume, vai conseguir fingir melhor e conquistar a presidência dos Estados Unidos da América? O “Election Day” é já daqui a 180 dias e a campanha para a escolha do sucessor de Obama vai ser um concurso de impopularidade: quem consegue menos hostilidade do eleitorado, quem assusta menos?

 

É de prever que Hillary Clinton vá aparecer nos próximos meses reenvernizada com cores progressistas para tentar captar o eleitorado progressista, liberal e vagamente social-democrata que Bernie Sanders soube mobilizar e sacudir do ceticismo. O marketing de  "The Donald" vai optar pelo “Trump paz e amor” a ver se constrói uma postura presidencial e amacia as resistências tanto no fragmentado campo republicano como no decisivo eleitorado oscilante. Ela e ele vão ter de mudar ou maquilhar o discurso para tentarem conseguir a eleição em 8 de novembro.


Vender “The Donald” como uma boa pessoa é uma tarefa que parece quase impossível. Que imagem é que ele mostrou nos últimos meses? Racista (“Build the Wall”). Isolacionista (“America First”).  Sexista (“Women, you have to treat them like shit”, comentário nos anos 90 ao New York Magazine). É definido por vários outros adjectivos, todo negativos: hipócrita, narcisista, histriónico, autoritário, prevaricador, ridículo, islamofóbico. Há quem o resuma numa palavra: bimbo. Mas poderoso. O léxico e a sintaxe do candidato são rudimentares mas a mensagem simplista dele é eficaz, galvaniza muita classe média e baixa, branca, atingida pelo grande sismo das guerras bushistas e pela grande recessão pós-2007. Um eleitorado enfurecido ou obcecado com a suposta perda da grandeza americana. Donald Trump entra por esses eleitores com o discurso representado pelo slogan ”Make America great again”.  Mobiliza muitos empreendedores frustrados. Seduz a América que gosta da força bruta.


Ele, “The Donald”, pode vir a ser presidente dos EUA? Não é o mais provável mas não deixa de ser uma possibilidade que nem sequer é remota. Como as coisas estão, já nem espantaria se no topo da Casa Branca aparecesse daqui a um ano o anúncio luminoso com letras maiúsculas “THE TRUMP PRESIDENCY”. Quando Reagan surgiu na política, quantos acreditavam que o cowboy do cinema chegasse a presidente? Quando Donald Trump apareceu nas primárias republicanas quantos não se riram? Ele entrou a ganhar primárias, umas após outras, disse-se então que o fenómeno Trump acabaria por estoirar. Não implodiu e vai discutir a eleição com Hillary.  O impensável afinal pode acontecer.


As sondagens mostram tendência para, depois de Obama, a América ter uma Madam President. Mas a “Clinton Fatigue” pode ser fatal para Hillary. Há uma grande revolta contra o sistema que ela representa. Hillary é, reconhecidamente, pouco entusiasmante em campanha, com discursos banais e monótonos, e o seu perfil político substancialmente no centro moderado conservador não entra pelo eleitorado que com Sanders, o visionário que promete utopias e propõe o reformismo da velha (boa) Europa, passou a acreditar na política. Há gente de Sanders tão hostil a Hillary que admite preferir Trump.


Hillary também sabe que aqueles muitos que na direita republicana se mostram recalcitrantes ou hostis a “The Donald” ainda podem tender para uma rendição de conveniência ao nacional-narcisismo do candidato que oferece como programa político a sua “mágica capacidade para ganhar”. Ele pode ainda conseguir unificar depois de ter dividido. É que os republicanos temem que o Great Old Party, desagregado nestas Primárias, fique varrido do poder, não só continuando fora da presidência mas também sem a maioria que tem mantido no Senado e na Câmara dos Representantes.


A América promete ao seu povo felicidade. Está na Declaração de Independência. É um dos três “inalienáveis direitos” – os outros são o direito à vida (bastante mal tratado numa sociedade onde todos têm uma arma) e à liberdade.


Donald Trump na presidência dos EUA pode ser uma ameaça à felicidade e estabilidade americana e mundial? Muitos peritos pensam que sim. Ele quer desfazer o acordo nuclear que Obama promoveu com o Irão. Fecha a porta a qualquer refugiado. Quer políticas sem concessões aos clandestinos. Despreza o protecionismo frente ao comércio global. Promete, com o seu populismo económico, obrigar as farmacêuticas a baixar o preço dos medicamentos mas põe o Estado a gastar muito menos em Segurança Social. A reforma fiscal dos estrategas trumpistas implica enorme baixa das receitas fiscais (reduz o imposto sobre as empresas dos atuais 35% para o máximo de 15%), portanto grandes cortes na função do Estado e disparo da dívida americana. Ele faz graçolas com o aquecimento global e despreza o acordo sobre o clima. A guerra comercial que promete à China, a quebra de alianças com o Japão e a Coreia do Sul, a par do menor envolvimento na NATO, a acontecerem, representariam um mundo em turbulência com a América cada vez mais fechada sobre si própria. Não é um bom mapa para o futuro. É por isso que, já foi dito, vamos ter saudades de Obama. É por isso que, apesar da falta de faísca, venha Madam President.


Todos precisamos de uma América generosamente envolvida com o que Alexis de Tocqueville abordou em 1840 no famoso livro Democracy in America: a “paixão democrática”.



TAMBÉM A TER EM CONTA:


A hashtag  #YesWeKhan está no topo por estes dias: Londres, a capital mais cosmopolita da Europa, ao escolher para mayor o muçulmano, feminista e ativista dos Direitos Humanos Sadiq Aman Khan, demonstra que a verdadeira Europa, aquela que se levantou das ruínas da Segunda Grande Guerra existe e resiste contra os nacionalismos, a xenofobia e outras discriminações. O filho do motorista paquistanês é o mayor da capital britânica. Boa resposta ao apelo lançado pelo Papa para uma Europa rejuvenescida onde se “construam pontes e não muros”. Às vezes a política traz boas notícias. Mas os problemas de fundo permanecem.

 

Um encontro sobre o futuro da transformação digital em curso.

 

O dia contado em imagens escolhidas por La Vanguardia.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, que mostra como a política do Brasil está no circo.

 

 

publicado às 08:25

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