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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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No dia em que NY dá fôlego a Hillary e Trump: vamos ter saudades de Obama

 
Por: Francisco Sena Santos
 

 Daqui a precisamente nove meses Obama estará no último dia como presidente dos Estados Unidos. Na manhã seguinte, 20 de janeiro, toma posse o sucessor, provavelmente a experiente, belicosa e fria Hillary Clinton: nenhum aparelho político na eleição tem o poderio da Clinton Machine, que compensa a incapacidade da candidata para mostrar entusiasmo, paixão ou apenas calor.

Mas porque Hillary tem a debilidade de representar, em tempo de vontades de mudança, a expressão da continuidade dos lóbis do “establishment”, ainda não se pode excluir a hipótese de o presidente vir a ser Donald Trump, o xenófobo turbilhão populista que cavalga sobre os instintos dos eleitores e que explora a crise dos partidos políticos americanos. A alternativa Bernie Sanders é muito remota, as suas possibilidades eleitorais são ínfimas ou nulas, embora a sua influência sobre a política dos EUA vá permanecer como fermento para mudanças. Seja como for, vamos ter saudades da presidência Obama.


Antes de Obama, os EUA eram um país que gerava hostilidade em meio mundo pelo modo autoritário e guerreiro como impunha a todos o seu poderio. A eleição de Obama, no final de 2007, desencadeou uma onda de euforia e instalou uma atmosfera de desanuviamento geral, portanto de esperança. O mundo mudou a perceção que tinha dos EUA. O Nobel da Paz até terá sido atribuído antes de desempenhos que o justificassem, mas traduziu o clima novo trazido pela eleição na América de um presidente negro com um consistente programa de mudança – infelizmente, apesar do simbolismo da eleição, não há progresso substancial em direcção à igualdade racial.
 
Mas, decorridos sete anos de presidência Obama, a última página da Guerra Fria está fechada com os acordos que puseram fim a meio século de hostilidade com Cuba. O acordo nuclear com o Irão mostra como vale negociar com os inimigos de ontem para conseguir compromissos para amanhã. A promessa de retirar os soldados do Iraque e do Afeganistão está cumprida. Obama foi propulsor da drástica redução de emissões de CO2 causadoras das alterações climáticas: as energias renováveis triplicaram.
 
Obama herdou um país com economia dramaticamente derrotada, mas que agora voltou a ligar os motores, embora a avançar ainda devagarinho. Com a energia mais barata, a maioria dos americanos vive melhor. A criação de emprego é pujante, com mais um milhão de postos de trabalho, e o desemprego está nos 4,9% e em queda consistente. A indústria automóvel ressuscitou, convertida aos novos tempos. Uma conquista extraordinária: 20 milhões de adultos que não tinham acesso a quaisquer cuidados de saúde passaram a estar protegidos com o Obamacare. Foi instalada uma perspectiva mais humana para com os imigrantes ilegais. Muita da mudança ambicionada por Obama esbarra na tenaz oposição do congresso com entrincheirada maioria republicana.

Ao mesmo tempo, a presidência Obama soma vários fracassos. As matanças em território americano sucedem-se. Vimos as lágrimas de revolta do presidente, mas ele não conseguiu impor a limitação às armas de fogo que todos têm. Obama prometeu defender intransigentemente as liberdades civis mas Edward Snowden é perseguido pelas revelações inconvenientes para o aparelho de poder na América. Obama também ainda não conseguiu fechar o campo prisional de Guantanamo. As acusações de tortura praticada por agentes dos serviços secretos americanos ficaram sem consequência. A maioria dos responsáveis pelo crash financeiro de 2007/08 escapa a sérios ajustes de contas. Obama, com o discurso no Cairo, impulsionou as “primaveras árabes”, mas o Egito é um desastre. A Síria é uma catástrofe  que agrava a tragédia dos refugiados. Obama apostou numa evolução digna, finalmente, para a questão palestiniana, mas não conseguiu. A ameaça terrorista está fora de controlo.
 
São muitas decepções, até porque as expectativas eram tantas, mas essa frustração não impede que Obama seja o presidente que tirou os EUA da grande depressão e que reconciliou meio mundo com a América. Foi eleito com o lema “Yes, he can”, talvez fique como “Yes, he tried”. Ele quis, tentou e o que conseguiu é bastante para deixar boa memória. Abriu caminhos, catapultou para o progresso. Mas a aspiração era a de que fosse muito mais.

Fica-se de pé atrás ante o que vem a seguir às eleições de novembro: Hillary ou Donald? A batalha preliminar (as primárias) tem hoje capital em Nova Iorque, com o voto de 5,8 milhões de eleitores democratas e 2,7 milhões de republicanos. Hillary Clinton e Donald Trump têm a promessa de vitórias que os deixem mais perto da nomeação para a final de novembro. Mas Sanders não vai deixar de pressionar Hillary, e Trump ainda vai ter batalhas com epílogo incerto.
 
Uma perspetiva curiosa: como o turbilhão de Trump pode vir a custar aos republicanos a perda do controlo do Congresso.


TAMBÉM A TER EM CONTA:

Os Pulitzer de 2016 premeiam os fotojornalistas do NYT e da Reuters que mostram o drama dos refugiados na Europa.
 

“Nos desenhos daquelas crianças (refugiadas) até o sol chora”. O Papa, com a visita ao campo de refugiados em Lesbos, um “cárcere a céu aberto”, deu um safanão aos dirigentes políticos egoístas que blindam as fronteiras. O Papa, com coragem, denunciou ao mundo como tantas crianças que fugiram da guerra estão ali, detidas em contentores dentro de cancelas e arames farpados, sem escola e sem possibilidade de brincar. Tal como mulheres grávidas e tantos anciãos. É uma indecência europeia. Causa fúria e vergonha. Ainda bem que há gestos como os deste Papa.
 
 
Viver por dentro a vida no Irão em tempos de abertura.
 
 
O Arco do Triunfo, de Palmira, recriado em Trafalgar Square.
 
 
30 novos museus de audazes arquitetos.
 
Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta. Parece decidido que Dilma vai cair. O processo foi conduzido no parlamento por Eduardo Cunha, um acusador sob forte suspeita. O Brasil está longe de dar certo.
publicado às 08:08

Os levantados da Nuit Debout em Paris estão a dizer-nos qualquer coisa que faz pensar

 Por: Francisco Sena Santos

Os cidadãos que se classificaram de indignados, e que há faz agora cinco anos acamparam na Puerta del Sol de Madrid e noutras praças de Espanha, desencadearam o estilhaçar da ordem partidária espanhola, como agora fica evidenciado com o impasse pós-eleições. Depois dos indignados espanhóis, surgiram os Occupy Wall Street e outros movimentos de gente predisposta a mostrar o seu descontentamento e protesto com a prática dos governantes. Agora, é em Paris, com o movimento Nuit Debout (noite em pé), apesar do frio, da chuva e da repressão, a ocupar a Place de la République para uma espécie de Woodstock da palavra em sucessivas noites de discussão e luta.

 

Esta praça grande de Paris, habituada a acolher manifestações, está a ser palco para uma nova ágora ou assembleia popular permanente, onde todos tomam a palavra e se fazem ouvir ao lado do altar laico da república francesa, a estátua em bronze da Marianne, que mostra um ramo de oliveira na mão direita e que apoia a mão esquerda na carta dos direitos do homem. Naquelas intervenções, eles descarregam as muitas desilusões, fúrias, combates e alguns dos sonhos. São sobretudo jovens mas também alguns não tão jovens. Algumas bandeiras vermelhas desfraldadas confirmam a cor do protesto, que no entanto incomoda quase todos os partidos. Jogam com as palavras gréve (greve, claro) e rêve (sonho) e proclamam, em atmosfera que evoca o Maio de 68, rêve générale (sonho geral) e préavis de rêve (pré-aviso de sonho).

 

O movimento nasceu no dia 31 de março, com uma manifestação contra leis do trabalho anunciadas pelo debilitado governo socialista de Hollande e Valls. Desde então, discutem tudo todas as noites. Instalaram uma espécie da aldeia dentro da praça, com enfermaria, gabinete de assistência jurídica, cozinha e, atentos aos novos códigos da comunicação, até instalaram a RadioDebout, que transmite tudo online. Denunciam “as violências praticadas pelo Estado”: apontam como principal a falta de emprego. Também se levantam contra o neoliberalismo, contra a indignidade para com os refugiados, contra a xenofobia e vários outros males. Objetivo mais proclamado por estes contestatários, em grande parte estudantes universitários e liceais: reinventar o modo de fazer política e desenhar projectos de esperança a partir do espaço público. São uma frente anti-resignação com o sonho ou a ilusão de poder mudar o mundo. Possivelmente, alguns destes noctâmbulos pouco terão de idealistas, mas a maioria move-se pelo sonho.

 

A sociedade de entretenimento coletivo em que estamos até costuma explorar estes protestos mas, desta vez, no turbilhão das notícias, não lhes está a dar grande atenção. Talvez seja um erro. Estes indignados de Paris refletem o grande mal-estar social num país que vale 20% da economia europeia. Eles representam uma convergência de combates: pelo direito ao trabalho, à educação, à habitação, à saúde, contra a corrupção. Seguem um calendário que inventaram e que prolonga o mês em que tudo começou: estão esta terça-feira no dia 43 de março. Até quando vão continuar levantados todas as noites? Eles são uma vanguarda que pode desaparecer de uma noite para a outra, mas a chama parece longe de se apagar. Têm o mérito de exprimir uma necessidade de mudança.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

A Áustria começou a levantar um muro preventivo para barrar a entrada de refugiados. Acontece dois dias depois de, uma vez mais, a morte ter cortado o percurso a refugiados: uma mulher e quatro crianças naufragaram quando tentavam atravessar o mar Egeu na esperança de chegar à Grécia. Com a intenção de sacudir a indiferença do mundo para o destino trágico dos que tentam fugir da barbárie, o papa Francisco vai no sábado ao encontro dos refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia. Ele já avisou que esta tragédia parece “minar as bases do espírito humanista que a Europa tanto gosta de apregoar”.  Esta reportagem ajuda-nos a saber algo mais sobre quem são estas pessoas que fogem da guerra.

 

A grande reportagem literária de Gay Talese está de volta, agora com o Motel do Voyeur. É a história de um homem que comprou um hotel no Colorado e remodelou-o de modo a poder espiar, a partir de um falso tecto, as práticas sexuais dos clientes.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, com o estado das coisas na política brasileira.

publicado às 08:01

O jornalismo abre brechas na indústria da camuflagem de dinheiro. E agora, o que vão fazer os políticos?

Por: Francisco Sena Santos

Estamos perante a evidência de como a imprensa, com o jornalismo de investigação, é vital para promover a transparência nas sociedades contemporâneas. Recebemos nestes dias enormes boas notícias para os cidadãos comuns: a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), com o trabalho em comum de 107 empresas de media em 77 países, está a revelar um sistema industrial de fabrico de esconderijos jurídicos para camuflar património, isto é: para esconder riqueza, para subtrair uma gigantesca massa recursos aos cidadãos que com os seus impostos sustentam o Estado e o equilíbrio na sociedade. Está denunciada, com nomes e mecanismos, uma indústria que prospera há décadas em prejuízo dos cidadãos. Abriga-se sob o nome de offshore.

 

 A palavra inglesa offshore traduz-se em português por "longe da costa". Significa algo que está lá longe num mar alto que não se vê da margem. É esse o secretismo e a opacidade que distingue os paraísos fiscais, lugares cuja função é atrair capital e que em troca da oferta ao património ali acostado dão a promessa de escapadela aos radares fiscais. Há momentos em que o segredo é furado. É o que acontece agora com os “Documentos do Panamá”, nome que evoca o título de uma ficção de John le Carré, mas que de facto é um extraordinário triunfo do jornalismo de investigação ao colocar no conhecimento dos cidadãos a prática de complexas operações financeiras que visam a fuga à tributação fiscal. Ficam revelados grandes fluxos de dinheiro camuflado no sistema financeiro global.


O recurso aos offshores, ainda que seja na sua essência uma prática moralmente deplorável, não é por si só ilegal. Não há que estigmatizar quem tem a sorte de possuir fortuna e a quer proteger. Há quem (que percentagem?), tendo o património num offshore, cumpra a devida declaração para efeitos fiscais. O problema começa quando essa promoção do património se serve da opacidade das sociedades financeiras para o ocultar ao fisco e, assim, subtrai recursos devidos solidariamente à sociedade.


Está mostrado como muitos super-ricos e poderosos têm acesso a esses territórios onde conseguem dissimular a sua identidade de donos da fortuna e assim escapam aos deveres de solidariedade representados pela contribuição fiscal. Enquanto os remediados pagam os impostos que sustentam a educação, a saúde, a segurança, a cultura e tudo o mais que é vital para o funcionamento do Estado.


É um estratagema, assente em sofisticadas estruturas confidenciais, que torna os ricos mais ricos e que deixa os outros menos abonados ou mais pobres. Tudo se agrava quando nessas águas turvas dos offshores se misturam dinheiro limpo com dinheiro sujo. É terreno fértil para todas as atividades fraudulentas de colarinho branco.


Vivemos um tempo que é de grande iniquidade. Ao mesmo tempo que os super-ricos camuflam património nos paraísos fiscais, grandes empresas encaminham os seus lucros para países onde a fiscalidade é atenuada. Assim, os Estados, portanto os cidadãos, ficam privados de milhares de milhões em recursos. É o resultado da iniquidade no sistema fiscal internacional.


Nos últimos anos, assiste-se ao derrube do segredo bancário. Mas o sistema financeiro protege-se nos offshores. Os líderes das grandes potências, no G7, no G8, no G20, já várias vezes discutiram o problema dos paraísos fiscais, uma das causas da crise financeira internacional.  Mas pouco mudou. Será por pressão do sistema financeiro internacional? Será porque alguns deles, como agora se vislumbra (Putin e Xi Jinping, através e amigos ou familiares, aparecem entre os 128 responsáveis políticos postos em causa na lista dos “Documentos do Panamá”), estão entre os seus clientes?


A evasão ou o ardil fiscal empobrecem os Estados, o vigor da economia e os serviços a todos os cidadãos. Há um ano e meio ficámos a conhecer o escândalo “Luxleaks”. Quase nada aconteceu. Agora, com os “Documentos do Panamá” que nos mostram como a existência de paraísos fiscais contribui para institucionalizar a injustiça, será que, daqui a uns dias, quando outra notícia substituir a atenção sobre este escândalo, tudo vai ficar na mesma? O jornalismo de investigação está a fazer a sua parte. E a política? Vai ter de contar com o dado novo de uma sociedade civil que já não está alheia.



TAMBÉM A TER EM CONTA:

Está dado um passo triste numa perigosa direção da União Europeia. Começou a expulsão de refugiados. É um negócio indecente entre a Europa e a Turquia. Mesmo assim, no dia em que foram deportados os primeiros 202 refugiados, chegaram à Grécia mais 339.

 

A Polónia volta à batalha em torno do aborto. 

 

Zaha Hadid arquitetava deste modo sublime.

Há reviravoltas que parecem incríveis mas que acontecem: o Leicester, em um ano, passou de último a primeiro no futebol da Premier League inglesa. Em 5 de abril de 2015, era 20º e último na classificação, a 7 pontos da zona de salvação.  Hoje, 5 de abril de 2016, a seis jornadas do final do campeonato, o Leicester é o primeiro da classificação da Premier League, com 7 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Tottenham. A equipa é praticamente a mesma, mas mudou o treinador, agora o italiano Claudio Ranieri.

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, do Público, que dá a palavra a um preso político, Luaty Beirão.

publicado às 06:49

Lula já foi o herói. Agora, aparece cabeça do polvo. Tudo se reduz a isto?

Por: Francisco Sena Santos

O Brasil segue e há-de seguir, como canta Jorge Ben, um país tropical, bonito por natureza. A canção garante que o Brasil também é abençoado por deus. Vemos múltiplos autocolantes a reclamarem que deus é brasileiro. Esta parte, porém, está por demonstrar, a menos que remeta para um deus em fase cruel, como a do Antigo Testamento. É que cada semana brasileira está mais dramática que a anterior, com o país arrastado pela enxurrada de uma crise que é moral, ética, política, social, económica e que, como se não bastasse, também tem uma emergência de saúde pública, com o vírus Zika contra o qual continua a não haver vacina.

 

O Brasil continua lindo nas músicas, o futebol não vai tanto assim, mas a política e os políticos vão ladeira abaixo na maré cada vez maior de protestos impulsionados pela parceria entre Ministério Público, Polícia Federal e a grande imprensa (com o grupo Globo na primeira linha) na denúncia da suja corrupção e lavagem de dinheiro pelo poder político do PT, o Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma.

 

A estratégia de informação e comunicação meticulosamente desenvolvida ao longo dos últimos 19 meses por aqueles três pilares, com a sucessão de manchetes sobre escândalos envolvendo políticos e empresários, está a golpear, de forma que parece não permitir salvação, a cúpula do PT. O clamor popular, com o povo na rua de modo maciço, está a gritar: basta de vocês! O alvo em fundo neste Brasil fraturado, é Lula, o inimigo de classe.

 

Toda a gente já ouviu que no Brasil (como em outros países, claro), para fazer aprovar uma lei no parlamento, é preciso comprar o voto de deputados caciques. Deputados vendem o voto a quem pagar mais. Lula e amigos avançaram por esse caminho. Foram apanhados pela armadilha e são denunciados por muitos que são useiros e vezeiros nessa prática de submundo. Agora, chega para muitos, uma ocasião de ouro para ajustes de contas, desforra eleitoral e reversão do quadro político iniciado em 2003, com a eleição de Lula com 52 milhões de votos, correspondendo a 61,27% do eleitorado brasileiro.

 

Em 2009, no final de uma das pomposas cimeiras do influente G20, o presidente Obama, ao cumprimentar o presidente brasileiro, comentou: “Este é o homem, o político mais popular ao cimo da Terra”. O então presidente do Brasil, um Lula da Silva ex-operário metalúrgico que mal arranhava a fala em inglês, mas com 27 doutoramentos honoris causa de prestigiadas universidades europeias e americanas, era o símbolo mais poderoso da grande mudança ocorrida na América do Sul após o fim da Guerra Fria e com o avanço da globalização. Lula seguiu pelo caminho de reformas iniciado por um presidente com grande mérito, Fernando Henrique Cardoso, e ousou mexer profundamente na estrutura da sociedade brasileira, com demasiados muito pobres.


Nos oito anos da sua presidência (2003/2011), Lula tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza. Fez funcionar o plano Fome Zero, que deu alimento a quem não tinha como comer. O salário mínimo subiu 77%. A energia eléctrica chegou finalmente a áreas rurais habitadas por milhões de pessoas. O analfabetismo recuou imenso. Foi uma década de vertiginoso crescimento económico, de remoção de algumas das antigas injustiças sociais e de aumento do prestígio internacional do Brasil com a diplomacia de Brasília a liderar a fundação, com a Rússia, Índia e China, do grupo BRIC de novas potências.

 

Esse Brasil, inspirador e que parecia feliz, beneficiava de um ciclo económico altamente favorável, quer com a expansão da exploração do petróleo num tempo de barril caro, quer com as exportações agrícolas. Mas esse Brasil potência internacional que passou a reivindicar lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU e que investia milhões na construção de estádios de futebol para o Mundial de 2014 e para os Jogos Olímpicos deste ano, continuava a ser um país com serviços do Terceiro Mundo em setores fundamentais como a saúde, a escola ou os transportes. Foi contra este estado de coisas que começou a disparar há três anos a rebelião das classes médias urbanas – que tinham, em grande parte, ficado de fora das melhorias no tempo de Lula. As “passeatas” sucederam-se, depois houve alguma trégua. Mas a crise económica, que baixou o rendimento das exportações, a que se juntou a depressão com a enorme queda do preço do petróleo, mostrou logo a seguir como o Brasil é um país com pés de barro, com o desenvolvimento sustentado por alicerces frágeis em terrenos movediços e com a classe política habituada a viver na entranhada corrupção que envolve gente do governo e da oposição – tem sido sempre assim no Brasil.


E, no meio de tudo isto, surgiu um justiceiro: chama-se Sérgio Moro, tem 44 anos, é juiz federal e comanda a operação baptizada de Lava Jato, que está a abalar o mundo político e de negócios no Brasil. A popularidade de Moro, com estatuto de herói nacional, está a preencher o vazio político. Moro investiga a trama corrupta de subornos e lavagem de dinheiro. Começou a desmontar o polvo pela petrolífera pública Petrobrás. O fio da meada está a levar a investigação para dentro de ministérios e empresas, e a revelar a corrupção endémica. A impunidade dos mais poderosos acabou. Está em curso no Brasil uma operação “Mãos Limpas” idêntica à que António di Pietro conduziu - antes de, com controvérsia, se assumir político - na Itália dos anos 80 e 90.


Há quem se inquiete com dúvidas sobre a arbitrariedade dos investigadores e a sua hostilidade ao PT – a justiça estará na mão de forças políticas? Há quem também questione a assumida parcialidade dos mais poderosos grupos de media no Brasil.


Seja como for, a presidência de Dilma está bloqueada e a destituição parece no caminho. A economia em implosão. O povão, dividido, em ebulição. Quase toda a classe política está ameaçada. Lula, agora perseguido, depois de ter sido ídolo popular e presidente carismático está na corda-bamba – mas não se pode subestimar o seu instinto político e capacidade para lutar. Há, para Lula, depois de tantos formidáveis êxitos, um fracasso inquestionável: não conseguiu, por não querer ou não o deixarem, resolver o problema da corrupção institucionalizada que põe tanta gente a embolsar dinheiro ilegal.

 

O Brasil está agora extremado, muito bate-boca, muita emoção a puxar fúrias. Provavelmente, vem aí a punição das negociatas na era de Lula. Mas isso não basta para resolver a corrupção entranhada no sistema político. Já tinha sido assim com Collor de Mello, que em 1989 tinha ganho a Lula (53%/47%), mas que três anos depois foi derrubado num “impeachment” por corrupção e lavagem de dinheiro. O problema brasileiro continua a estar no sistema político profundamente inquinado.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Após cinco anos de guerra, há agora uma pontinha de esperança para a Síria? The New York Times vê a trégua iniciada em 27 de fevereiro mais consistente que o imaginado. Os refugiados são gente que está a sobreviver assim.

Achtung, sim, mas dizer-se que o populismo anti-imigração e anti-refugiados se impôs nas eleições estaduais alemãs será exagerar a realidade. Os mais votados, avisa-nos The Guardian, foram políticos que são pela Europa e por uma solução europeia para a crise dos refugiados. Mas a xenofobia e a islamofobia, com a sua linguagem racista, são patologias que passaram a infetar a Alemanha de agora.

Esta outra terça-feira é dia chave no apuramento de candidatos presidenciais nos EUA, com primárias em cinco grandes estados (Florida, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Illinois). A fragilidade de Hillary Clinton é o seu défice de credibilidade - não entra no eleitorado “sub 35”. Donald Trump aparece como um palhaço – mas a fúria dos cidadãos contra o establishment pode causar surpresas.

 

Para que serve um jornal? Este ponto de vista no Jot Down.


Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta do JN, esta do Público e esta do DN. Faz-nos falta este sorriso que passa otimismo. 

publicado às 07:09

O sultão que fecha os jornais adversos

Por: Francisco Sena Santos

O governo turco que ontem esteve em Bruxelas a fazer-se caro, com exigências políticas e financeiras no bazar montado na cimeira da Europa – que tem estado bloqueada pela crise dos refugiados – é o mesmo que se dá mal com as liberdades, em especial a de informação.

 

No fim de semana, assaltou e pôs à sua ordem o controlo editorial do Zaman, o jornal diário com maior tiragem (770 mil exemplares por dia) na Turquia. Em 26 de novembro, o regime no poder na Turquia tinha mandado prender o director e o chefe de redação do histórico Cumhuriyet (este nome significa em turco "A República"), o jornal diário mais antigo na Turquia. Uma hostilidade que em ambos os casos resulta da publicação de notícias que desagradam ao governo turco que, autoritário, recorreu à polícia e aos tribunais para pôr aqueles jornais sob sua tutela, pretendendo que os jornalistas procedam como funcionários que seguem as instruções do poder. Há uma semana, tinha tocado à IMCTV, único canal nacional de televisão a reportar o ponto de vista não-governamental sobre as questões com os curdos: foi fechado, sem qualquer possibilidade de retomar as emissões.

 

Can Dundar é o director do Cumhuriyet. Em 26 de novembro passado estava a fechar a primeira página quando a polícia entrou pela redacção. Os agentes anunciaram que cumpriam uma ordem judicial e levaram para a prisão tanto o director, Can Dundar, como o chefe de redacção, Erdem Gul. Ambos foram encarcerados em regime de isolamento na prisão de Silivri, na periferia de Istambul.

 

Qual é o crime de que são acusados? Tornaram público um “segredo de Estado”. Os factos são estes: em janeiro de 2014, o Cumhuriyet noticiou que militares e agentes dos serviços secretos turcos tinham escoltado camiões que enviavam armas para rebeldes islâmicos dentro da Síria, designadamente para gente ligada ao auto-proclamado califado islâmico. O governo turco negou que o carregamento fosse de armas, disse que era apenas “ajuda humanitária” para o povo sírio. O presidente turco, Erdogan, ameaçou o Cumhuriyet, avisando que o jornal “iria pagar caro pelo que fez”. Em novembro passado, o jornal conseguiu acesso a um vídeo interno dos serviços secretos que mostrava, de modo indesmentível, que o carregamento que estava a ser conduzido para a Síria era mesmo de armas e munições. Em editorial, Can Dundar escreveu: “O Estado – nas costas dos cidadãos e do Parlamento – cometeu um acto ilegal ao traficar armas por meios ilícitos para um país em guerra civil. Se o Estado comete um acto ilegal, a imprensa não pode ficar mera espectadora que faz que não vê. Tem o dever de contar à população – cuja segurança está ameaçada – que tem o direito a saber tudo o que está a acontecer”.

 

Nesse mesmo dia, um juiz fez a vontade ao presidente Erdogan e ao seu governo, e colocou o jornal sob custódia e mandou prender o director e o chefe de redacção. A acusação invocou ter havido espionagem e violação de segredos de Estado. Can Dundar pediu para lhe levarem para ler na cadeia um exemplar do Quixote, de Cervantes. Sublinhou uma frase de um cristão prisioneiro: “Nunca me desamparou a esperança de ter liberdade”. O ataque ao director e ao chefe de redacção foi denunciado por muitas organizações internacionais. Mas muita imprensa turca fiel ao poder de ocasião acusou Dundar e Erdem de traição à pátria.

 

O chefe da oposição turca, porém, culpou o presidente Erdogan por estar a fazer da Turquia “um estado canalha”. Vai para duas semanas, em 25 de fevereiro, o Tribunal Constitucional turco ordenou a libertação imediata dos dois jornalistas, considerando que “o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado”. Mas a acusação a Dundar e Erdem subsiste e mantem-se a reclamação de condenação a prisão perpétua, em julgamento marcado para 25 deste março.

 

Outro caso: na última sexta-feira, o governo turco decidiu chamar a si a condução do Zaman, o jornal mais lido na Turquia, e que desenvolvia uma linha editorial crítica do sistema de poder político encabeçado pelo presidente Erdogan. O jornal é privado, mas o governo, através de um tribunal de Istambul – tem havido sempre uma justiça colaborante -, como que o nacionalizou e nomeou uma administração judicial que por sua vez designou novos diretores, chefes e chefinhos, para o controlar.

 

Na noite da passada sexta-feira, Ishan Yilmaz, colunista do Zaman, ainda conseguiu descrever a Turquia em “pesadelo orwelliano” num artigo publicado na edição digital em língua inglesa com uma pergunta: “Será que a Turquia pode voltar à democracia?” A edição em papel do jornal de sábado ainda foi preparada pela direção legítima, apesar de oficialmente derrubada. Na manchete, lia-se, em turco, sobre um fundo a negro, “dia de vergonha para a imprensa livre”. No editorial era denunciada a “violação da liberdade de imprensa”. Nessa mesma madrugada a polícia assaltou a redacção do Zaman.

 

A edição de domingo já foi feita sob tutela e com a polícia dentro da redacção. A primeira página foi encabeçada com Erdogan a inaugurar a nova ponte sobre o Bósforo. A nova gerência proibiu reuniões de jornalistas e até as idas à casa de banho passaram a ser controladas. Os jornalistas deixaram de ter acesso aos servidores da internet no jornal. Na rua, cerca de duas mil pessoas que protestavam contra a tomada do jornal pelo poder governamental foram reprimidas pelos agentes, que usaram canhões de água e gás lacrimogéneo.


Assim vai a Turquia, submetida à vontade do chefe, o novo sultão, Erdogan. As vozes discordantes do poder são amordaçadas. A respiração de uma imprensa que faça contra-poder, primordial para a cidadania, está asfixiada. Provavelmente, os verdadeiros sultões do império otomano seriam menos intolerantes.

 

A Turquia é um país cheio de fascínio mas enrolado em múltiplas contradições. A promessa de coexistência harmoniosa entre a cultura islâmica e a democracia ocidental colapsou. O país que é importante aliado da NATO, tem a democracia doente: o estado de direito, a imprensa livre, a liberdade de expressão, a separação de poderes, os direitos das mulheres e das minorias (como a da enorme minoria curda), tudo está em causa nesta Turquia onde o autoritarismo ultranacionalista conservador islâmico do regime de Erdogan barra os valores humanos universais. The New York Times alerta, em editorial, para a "desintegração da democracia na Turquia".

 

Nas redacções, o clima de medo e intimidação leva à auto-censura.

 

Que lástima se a União Europeia sacrificar os valores a troco de interesses de curto-prazono caso, despachando para a Turquia o acolhimento aos refugiados, um assunto que está a causar ainda mais mossa à unidade europeia que a grande crise financeira iniciada em 2007. Não é tolerável fechar os olhos perante ataques à liberdade. Seria cometer um acto de inaceitável cumplicidade.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Marcelo promete ser um presidente de afetos e próximo das pessoas. Vai certamente desenvolver consensos e simpatias, ao estilo de Mário Soares que, ao longo do primeiro mandato presidencial, de 1986 para 1991, ampliou em vinte pontos a percentagem de votos (de 50,7% para 70,3%). Mestre na comunicação e na arte de criar empatia, Marcelo vai explorar o estado de graça que o rodeia. Fica para o jornalismo o desafio de, apesar do envolvimento da onda afetiva gerada, cultivar na observação a dose de distanciamento que permite a necessária curiosidade crítica.

 

O terrorismo do chamado califado islâmico avança pelo Norte de África. Nova violenta vaga de ataques na Tunísia.

 

Michael Bloomberg renuncia à hipótese de candidatura presidencial nos EUA. Quer evitar facilitar a vida a Trump. Boas notícias para Hillary.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta, do The Guardian, que mostra como a Geração Y está a ser sacrificada. E esta do El País, que nos conduz ao risco de dupla discriminação que correm as mulheres refugiadas. 

publicado às 07:14

Hillary tem um plano para travar o voo de Trump? House of Cards na Casa Branca?

Por: Francisco Sena Santos

 

A festa dos Óscares celebra com pompa a excelência no cinema de Hollywood, mas também uma monocultura dos Estados Unidos da América. As estrelas e os heróis continuam sempre a ser de cor branca, ainda que desta vez o anfitrião tenha sido um negro. A diversidade com os não-brancos fica nas sobras do guião. Ação e fantasia têm a primazia. Este entretenimento populista e o quadro racial encaixa em pleno na atmosfera que envolve um demagogo populista, Donald Trump, candidato a suceder a Obama na Casa Branca. Estaremos preparados para conviver com a ideia de um mitómano que dispara slogans ameaçadores em hipérbole ultranacionalista e o lema 'Make America Great Again' vir a ser o próximo presidente dos EUA? A possibilidade de Donald vir a ser eleito tornou-se real.


Há um ano, tudo encaminhava para Hillary Clinton vir a ser eleita “Madam President”, em marcha triunfal. Ninguém ousava imaginar que o socialista Bernie Sanders pudesse causar alguma mossa às aspirações da senadora para conseguir a nomeação em glória como candidata dos Democratas. E não se via no campo republicano alguém com envergadura para o desafio. Erro grosseiro na análise. Faltou ter em conta que a maioria dos cidadãos nos EUA de hoje continua sob o trauma profundo da crise de 2008 e culpa as elites da política por essa devastação que é vista como traição ao povo.


É facto que Sanders já esgotou as possibilidades competitivas. Repetiu brilharetes nos prólogos eleitorais nos pequenos estados brancos do nordeste, mas encalhou quando a votação chegou aos estados mais a sul, onde o peso negro é relevante. Viu-se na Carolina do Sul como os afroamericanos catapultam Hillary como herdeira de Obama. Vai ser também certamente assim nos apuramentos desta “super terça-feira” da corrida presidencial americana.

 

Hillary vai hoje ganhar grande vantagem - mesmo que Sanders triunfe no Massachussets -  na contabilidade de delegados para a convenção Democrata, a decorrer entre 25 e 28 de julho, em Filadélfia. Hillary é a inevitável candidata dos Democratas. Mas a excitação progressista inicial em torno de Sanders mostrou como falta a Hillary a fibra vital para gerar uma onda maciça de entusiasmo capaz de envolver os eleitores. Já começou a ver-se que Hillary consegue captar a simpatia da América multirracial - e nenhum Democrata entra na Casa Branca sem o voto dos negros e dos latinos. Mas este voto não chega. Ela precisa de ser capaz de reinventar-se e gerar uma até agora inexistente mobilização emocional para enfrentar o republicano Donald Trump na escolha final, em 8 de novembro.


Trump, há uns meses, parecia um candidato efémero. O seu discurso excessivo, impróprio para tantos, com promessas de banir os muçulmanos, deportar imigrantes e levantar um muro na fronteira com o México, mais outros insultos e gaffes, teria destruído qualquer político tradicional. Mas ele está a revelar a astúcia de um animal político a explorar o enorme descontentamento e até raiva dos eleitores contra os políticos. Trump (tal como Sanders, este no campo oposto, o dos Democratas) apresenta-se em guerra declarada aos aparelhos tradicionais do poder, tanto o político como o financeiro, e assim vai ao encontro do instinto dos muitos que estão em fúria contra o circo político de Washington.


Como é que a América chegou a isto, como é que esta personagem que aparece sem credenciais respeitáveis se impõe assim? O multimilionário Donald Trump, patrão do grande Casino de Atlantic City e dono de vários dos luxuosos arranha-céus de Nova Iorque, entrou pela casa dos americanos nos últimos 10 anos como animador de um programa de tele-realidade na NBC, “The Apprentice”.

 

Armado com essa notoriedade que cultivou entre as massas mais populares, entrou pelos terrenos da política, sempre a denunciar a incapacidade das instituições (o Presidente, o Congresso, o Governo os tribunais, os partidos) para responder às necessidades das pessoas. Passou a explorar o poder das redes sociais. Obama já o tinha feito, com grande eficácia, nas campanhas de 2008 e 2012, para expor, detalhadamente, a sua visão política sobre os principais assuntos. Trump usa os mesmos canais mas para propagar slogans. As mensagens são sempre redutoras: cavalga a xenofobia e diaboliza os imigrantes muçulmanos e hispânicos, rejeita o liberalismo da globalização, quer construir o muro físico com o México e comercial com a China. Elogia a autoridade de Putin e ataca a diplomacia americana que ao favorecer a queda dos ditadores do Médio Oriente deixou que se instalasse o caos. Está farto de ser apanhado em contradições, mas isso não parece interessar aos apoiantes seduzidos pela mensagem "Make America Great Again".


Um grande número de republicanos não esconde a sua inquietação com esta personagem. Não se reconhecem em Trump e procuram consensos para que o candidato do partido que foi de Lincoln e de Eisenhower, também de Reagan ou dos Bush, possa ser alguém mais apresentável. O problema é que uma das alternativas, o texano Ted Cruz (vai hoje triunfar nas primárias do Texas) no altar da extrema-direita religiosa é ainda menos de fiar. A elite do aparelho republicano tem um “golden boy”, Marco Rubio, mas os eleitores não lhe ligam grande coisa. É assim que Donald Trump está a impor-se como inevitável candidato republicano. Ainda não é. Ainda não atingirá nesta “super tuesday” a maioria de delegados para a Convenção Nacional Republicana, que vai acontecer entre 18 e 21 de julho em Cleveland. Mas é muito provável que no final deste mês de março já tenha essa maioria.

 

Agora, parece já ser tarde para travar Trump no palco republicano.


Assim, salvo qualquer improvável reviravolta (não é de excluir que apareça um candidato que se apresente como independente, fala-se de Bloomberg), em 8 de novembro, os eleitores dos Estados Unidos da América vão escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump para suceder a Barack Obama na presidência. Se os europeus também votassem nesta eleição, mesmo considerando os ventos xenófobos que por aqui se agitam, Hillary teria a presidência na mão. Tal como é, uma escolha só dos americanos, o desfecho deste confronto entre a política tradicional e a rebeldia populista tem desfecho imprevisível num eleitorado irritado.

 

Talvez valha, entretanto, pormos os olhos nos golpes do malvado “presidente” Frank Underwood que esta semana volta aos ecrãs do mundo ocidental em nova temporada da série House of Cards. O tempo está para personagens de ficção.

 

Também a ter em conta:

 

Há na Índia quem esteja a levantar-se contra degradantes primitivas práticas de casta.

 

A Espanha, perante todas as contradições, vai conseguir arranjar um governo? Vai precisar de repetir eleições no final de junho? As eleições desfazem o impasse?

 

As eleições iranianas, com o êxito dos moderados do presidente Rohani, são uma vitória para Obama e uma derrota para Netanyahu. 

 

Primeiras páginas escolhidas nesta "super terça feira": esta The Wall Street Journal, esta do The New York Times e esta do Libération. Também esta do NRC de Amesterdão que vê Washington em pânico com o cenário real deste Donald na Casa Branca.

 

E agrava-se todos os dias a tragédia dos refugiados. Veja-se aqui, como é em Calais.  E aqui, uma amostra de como está a ser nos Balcãs.

publicado às 09:20

Eco precioso para entender e "ouver" o mundo

Por: Francisco Sena Santos

Eco. Três letras. Vinha a calhar dobrar o “c” para ganhar a grafia italiana, ecco: eis, aqui está! Eco, Umberto Eco é o sábio que nos enquadra o mundo em que vivemos e que nos ajuda a compreender muito do que ficou para trás. Soube não se fechar numa torre de marfim da sabedoria, escolheu meter-se com gozo no centro da arena da actualidade. Mestre nos estudos sobre a comunicação e, ao mesmo tempo, grande comunicador, Eco faz-nos entender a relação entre as coisas, os mecanismos da comunicação de massa.

 

Uma vez, há já bastantes anos, coincidindo com uma cimeira europeia que decorreu no Castello Sforzesco, em Milão – Bettino Craxi era o anfitrião e Mário Soares liderava a delegação portuguesa – uma livraria milanesa acolhia ao fim da tarde um debate no qual participava Umberto Eco.  Obviamente, foi irresistível a tentação para, por umas duas horas, trocar a cimeira político-económica que tinha sido o motivo da deslocação em reportagem para ir escutar e ver (ouver, como diz José Duarte) o mestre que se tinha tornado best-seller mundial com o apaixonante romance O Nome da Rosa.


Foi para mim (por mais que resista a falar na primeira pessoa, neste caso, é inevitável) uma experiência inesquecível, ainda que encavalitado sobre o corrimão de uma escada num equilíbrio que mal dava para acompanhar o essencial da sessão por entre tanta gente apinhada. Foi uma ocasião única.

Impressionante o modo como, a partir de cada palavra que era colocada pela jornalista da RAI que conduzia a discussão, aquele homem, erudito, divertido, cheio de humor, contava uma história e mais outra e mais outra, cruzando filosofia, literatura, ciência, religião, misticismo, política, jornais, revistas, televisão publicidade, design e até futebol. Com espírito fascinante, interrelacionando tudo. Várias vezes repetiu: estudem, é preciso que estudem para afastar a estupidez. Estudem a História para poderem compreender o tempo contemporâneo. E lá vinha a seguir mais um sorriso, um olhar para um lado e para outro, e uma outra história. Naquele fim de tarde ele parecia querer falar sobre significados em slogans políticos.


Eu tinha ido para aquela sessão cheio de curiosidade mas à espera de encontrar no professor famoso um homem distante, arrogante, talvez pedante. A impressão que ficou foi a mais oposta. É certo que não foi especialmente amável quando na porta de saída tentei colocar-lhe duas perguntas – respondeu, já com o chapéu de aba larga na cabeça, que estava atrasado, de facto a sessão tinha-se prolongado pelo dobro do tempo previsto - mas, perante aquela espantosa energia intelectual, aquele gosto de partilhar saber que gera cumplicidade, teria de sair daquela sessão fascinado por aquele jogo de inteligência conduzido por um sábio divertido.


Voltei, porque era essa a tarefa do ofício, à procura da actualidade da ocasião na cimeira política europeia no Castello Sforzesco e a tratar de a cruzar com o que ouvira de Eco. Caminhei a pensar numa das respostas naquela sessão: “Evitem as frases feitas, só os burros usam palavras triviais, descuidadas”.

 

Nesta terça-feira, 23 de fevereiro, a cerimónia fúnebre de Umberto Eco, o mestre dos códigos que gostava de rir dos poderes, o explicador do mundo em que estamos, o semiólogo, filósofo, professor, investigador, crítico, escritor, cronista, estrela mundial de primeira grandeza, decorre precisamente no Castello Sforzesco, em Milão. "La Repubblica" conta que Umberto Eco via aquele castelo da janela de sua casa.
Apetece retomar a leitura das 160 páginas de Número Zero (livro editado em Portugal em maio de 2015 pela Gradiva), um romance pleno de ironia em volta do tema da intriga e da mentira no jornalismo na história recente de Itália (tudo tem âncora em junho de 1992). Ou como um jornal que nunca chega a sair pode servir, não para difundir, mas para encobrir as notícias.


Eco, deveria ser ecco: sim, eis o sábio.


Está prometida para maio a edição de um último livro do sábio Umberto Eco, Pape Satan Aleppe, título escolhido a partir da enigmática abertura do Canto VII do Inferno, na Divina Comédia de Dante. Eco remete-nos, neste livro de crónicas, para a confusão do tempo contemporâneo.


TAMBÉM A TER EM CONTA:


Estão a faltar remos e motores para conduzir o bote da humanidade na direcção certa? É o alerta reforçado por Zygmunt Bauman, o filósofo da modernidade líquida.


O apelo do papa Francisco para uma moratória, em todo este ano, na execução de penas de morte, vai ser ouvido? Falta que não seja apenas moratória. Quando é que o mundo se livra da pena de morte?

Donald Trump (aqui em versão Game of Thrones, Winter is Trumping) está mais perto de ser o nomeado republicano para a final presidencial nos EUA em novembro. É, mesmo assim, menos perigoso para o mundo que Ted Cruz, o pupilo do Tea Party, e que Marco Rubio, o Neo Con. No campo dos democratas, no Nevada, Hillary Clinton ganhou, mas por poucos (sempre é melhor que perder) a Sanders. A próxima terça-feira é decisiva e Bloomberg está à espera de saber se há espaço vazio para ele avançar.

Em quatro anos, três prémios principais do Festival de Berlim para uma nova vaga de cineastas portugueses: depois de João Salaviza e Miguel Gomes (2012), agora Leonor Teles, com A Balada de um Batráquio.

O mexicano Alejandro González Inãrritu vai emparceirar com Ford e Mankiewicz e receber dois Óscares consecutivos (depois de Birdman, agora O Renascido) como melhor realizador?  Este é, finalmente, o ano de Leonardo DiCaprio? Ou o de Edie Redmayne? O de melhor atriz pode ser para outra que não Cate Blanchett? Spotlight, com seis nomeações, que estatuetas vai receber? A festa é já na noite de domingo para segunda e há que seguir tudo, também no SAPO.

Correntes d´Escritas, a partir de hoje, por cinco dias na Povoa de Varzim

José Duarte: 50 anos a fazer Cinco Minutos de Jazz. Eco precioso.

publicado às 07:31

Este país também pode ser para os mais velhos?

Por: Francisco Sena Santos

 

A campanha presidencial em curso nos Estados Unidos da América sugere uma questão: como é que em Portugal estamos a lidar com os nossos mais velhos? Seria possível, numa sociedade como a nossa, tão deslumbrada com o culto de quem é jovem e telegénico, como fica evidenciado no sistema mediático, termos um político que no alto dos seus 74 anos seja um ídolo dos jovens? Acontece na América, com Bernie Sanders.


Este homem, candidato à sucessão de Obama na Casa Branca, aparece como um Dom Quixote frente aos moinhos de vento das elites da finança de Wall Street e da política de Washington. A mensagem dele é poderosa para jovens que perderam a esperança de ter esperança e assenta num ingrediente genuinamente americano: “está nas nossas mãos conseguirmos”.

 

Numa América desde sempre alérgica a qualquer influência marxista e onde falar de socialismo remete para a velha União Soviética, Bernie Sanders assume-se socialista. É facto que está sempre a explicar que entende o socialismo como um modelo social-democrata como o que funcionou nos países escandinavos. Mas ousa propor uma “revolução política” com medidas radicais na América onde prolifera a injustiça social: cuidados de saúde garantidos para todos, estudos superiores gratuitos, investimento maciço na criação de emprego decente, progressividade fiscal e aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. Fica, no entanto em silêncio sobre o divisivo tema da posse por quase todos de armas de fogo.


Bernie Sanders, com a cara cheia de rugas, óculos espessos, cabelo branco, velho leão solitário da esquerda americana, surge nesta campanha americana como ícone do progressismo democrático contemporâneo: ele faz a ponte entre a contra-cultura dos anos 60 e 70 do século XX e os novos movimentos de protesto nascidos com a agitação de Occupy Wall Street. Discursa com grande ferocidade moral. Não deixa de ser agreste com os jornalistas quando estes lhe colocam perguntas que ele considera frívolas. É aclamado pelos apoiantes – que vestem t-shirts onde se lê I love you Bernie, A future to believe in ou Feel the Bern - como se fosse uma estrela rock.


A eleição presidencial nos Estados Unidos decide-se no próximo 8 de novembro. Até ao verão, os dois grandes partidos políticos dos EUA, o Democrata e o Republicano, apuram em primárias, em cada um dos 50 estados, a escolha do seu candidato para a finalíssima em novembro.


É bem provável que o lado republicano (o que se coloca mais à direita, o partido que foi de Reagan e é dos Bush) chegue à convenção marcada para 18 a 21 de julho, em Cleveland, sem que algum dos aspirantes (Trump, Cruz, Rubio, Bush ou outros) se imponha à partida. Adivinha-se que ninguém tenha maioria absoluta de delegados. A ser assim, será uma convenção republicana aberta de resultado muito incerto, como não acontece há décadas.

 

Há que não menosprezar Donald Trump, o candidato multimilionário com os seus 70 anos disfarçados pela maquilhagem. Ele é, tal como Sanders, um candidato contra o sistema. Ambos estão a divertir-se nesta campanha. E o insurgente Trump, apesar do seu machismo e da rudeza do seu discurso populista e xenófobo, nem será entre os candidatos republicanos o que poderia provocar maior caos se fosse eleito. Os outros não expõem tanto o ridículo mas cultivam mais a divisão.


No campo dos democratas, Hillary Clinton partiu superfavorita: no verão passado, as sondagens davam-lhe mais de 60% das intenções de voto enquanto Bernie Sanders não chegava aos 10%. As primárias começaram neste fevereiro e Bernie Sanders tornou-se a surpresa: empatou com Hillary no Iowa e impôs-se com enorme margem (20%!) no New Hampshire. Sabia-se que Sanders estaria em casa neste pequeno estado próspero no nordeste, mas não se esperava um triunfo tão claro. Uma vitória assim robusta pode fazer embalar o apoio a Sanders, permitir-lhe ampliar a emoção em torno da candidatura e mexer com as previsões favoráveis a Hillary nas próximas duas primárias, no Nevada e na Carolina do Sul. Mas é improvável que Sanders possa resistir ao aparelho de Hillary na “super terça-feira” 1 de março, com 12 eleições primárias. Sabe-se que Hillary tem de há muito vantagem no voto negro e hispânico. Então, a mulher do ex-presidente Bill Clinton tenderá a descolar e a impor-se na corrida do lado democrata.

 

Tudo ainda pode acontecer, com Bernie a beneficiar de novas formas de mobilização política e de financiamento participativo, mas é pouco provável que sequer consiga aguentar até ao verão um ombro a ombro com Hillary. No entanto, o efeito Bernie Sanders pode ser devastador para a candidata: mostrou como ela tem falta de idealismo mobilizador. Ele, Bernie, aparece como uma pessoa autêntica, imagem que não cola à figura de Hillary, uma acrobata política, uma política de um sistema que gera uma grande vaga de hostilidade.


No meio de toda esta indefinição, pode ainda vir a surgir Michael Bloomberg, o multimilionário liberal, ex-mayor de Nova Iorque, a apresentar-se como o independente, moderado, que consegue atrair e juntar pedaços da América exasperada que não se revê em nenhum dos candidatos. Pode vir a tentar impor-se como o centro de uma América moderna.


Tudo está em aberto nesta eleição do sucessor de Obama. É possível que o impacto da crise de 2008-2009 sobre o imaginário de uma parte da América esteja a abrir uma brecha no ciclo político. Por agora, a estrela é Bernie Sanders.


Voltando ao princípio: seria possível, no actual sistema social português, um homem com 74 anos e que se assume veterano conseguir desencadear uma onda emocional com assim vasta mobilização dos sub-30?

Também a ter em conta

A morte de Antonin Scalia, o falcão mais ultra-conservador entre os nove juízes no Supremo Tribunal dos Estados Unidos abre uma batalha política em que Obama tenta virar a balança do Supremo a favor do lado progressista. Scalia chegou ao Supremo, com nomeação vitalícia, por Reagan, em 1986. Até agora o Supremo americano, comparável a um tribunal constitucional, tinha quatro juízes conservadores, quatro progressistas e um, Anthony Kennedy, cujo voto oscilava entre os dois campos. A escolha pode mudar a decisão política nos Estados Unidos.

O papa Francisco em Chiapas, diante de 100 mil indígenas, pede-lhes perdão pelo modo como são “sistematicamente excluídos da sociedade” e “expostos à cultura que tenta suprimir-lhes a cultura”.

A praia da Salema, no Algarve, entre as melhores do mundo na lista do The Guardian.

Uma primeira página escolhida hoje entre as reproduzidas pelo SAPO JORNAIS. E também esta. E como será a vida futura de tantos milhões de crianças e adolescentes sírios que cresceram a testemunhar a devastação e a fugir ao inferno?

publicado às 07:57

A América mostrada por Tarantino e um encontro em Havana que vai para a história da religião

Por: Francisco Sena Santos

Quem são os odiados oito do novo filme de Quentin Tarantino, com esse título? Confundem-se criminosos e representantes da lei, ainda que quase ninguém seja quem diz ser. Todos são racistas, tanto os crápulas brancos como o vingativo major negro veterano da guerra civil. O filme é um western glacial que, embora com acção datada em 1872, nos traz um retrato, com mestria estética tarantiniana, da América de agora. O filme interpela, num jogo subtil, o racismo omnipresente, a brutalidade dos agentes da lei e a generalizada violência instalada. Então como agora.

Tarantino mete as mãos em forma de obra de arte sobre questões e ressentimentos que a América (os EUA) de agora continua a ter em aberto: da obsessão pela pena de morte à paixão pelas armas de fogo que quase todos têm, passando pelo desprezo ou rancor pelos que são de fora, negros ou latinos, tudo sempre por entre mentiras e ameaças.


O filme, em cinco capítulos, põe-nos perante um palco. Tudo se concentra primeiro dentro de uma diligência, depois entre as quatro paredes (como num teatro) do grande salão de uma casa de refúgio (“a retrosaria da Millie”) que é tudo, bar, pensão, posto de abastecimento. Em fundo está a inóspita vasta paisagem gelada do Wyoming, sob incessante tempestade de neve que avança. No início do filme, há uma diligência que conduz um caçador de recompensas e a sua prisioneira, a perigosa foragida Daisy Domergue, que ele tenciona entregar ao carrasco de Red Rock para ser enforcada.

 

No percurso, há dois homens que fazem parar a diligência para pedir boleia que os safe do vendaval: primeiro, um major negro que tinha feito a guerra pelas tropas unionistas e que viaja com uma suposta carta de Lincoln, o presidente abolicionista, depois o meio perdido novo xerife de Red Rock. Conseguem chegar à “retrosaria da Millie”, a pousada de abrigo onde vão ficar até ao fim. Lá dentro está um ambíguo carrasco, um mexicano, um cowboy silencioso e um velho general confederado. Prontamente se percebe que, provavelmente, ninguém vai sai dali. É ali que tudo vai acontecer. É ali que a explosão de desafios e violência, por entre discursos divertidos em atmosfera fatalista, apesar de datada no tempo imediatamente após a guerra civil, nos vai pôr a pensar na América contemporânea. Quase tudo segue vigente.


No filme não há tipos bons. Não será por acaso que os sindicatos de polícia de Nova Iorque apelaram ao boicote a este “Os oito odiados”, de Tarantino. Evidentemente um filme político, no qual não faltam depravadas provocações. Vale ver neste ano em que a América se prepara para o depois de Obama.
 


FRANCISCO E CIRILO: UM ENCONTRO QUE VAI PARA A HISTÓRIA
 
Num tempo em que a unidade europeia balbucia ou sucumbe, vale-nos e exemplo do papa Francisco, o símbolo que mais representa o melhor em liderança nesta época que vivemos. Na sexta-feira vai encontrar-se com o patriarca russo, Cirilo I. É a primeira reunião entre líderes das igrejas cristãs separadas há quase mil anos. O afastamento entre a igreja ortodoxa russa e a igreja católica romana principiou no século IV e consumou-se com o cisma em 1054.

 

O antagonismo, nos tempos recentes, inflamou-se após a queda da União Soviética, quando a igreja ortodoxa se posicionou como pilar da nova identidade russa. O então patriarca Aleixo II, (sussurrava-se que nomeado nos tempos da URSS com a bênção do KGB, onde emergia Putin) fez muralha contra a intenção de João Paulo II, o papa polaco, de visitar a Rússia. Aleixo II morreu no final do ano de 2008 e, dois meses depois, sucedeu-lhe Cirilo I, antigo metropolita de Smolensk, um homem que andou pelo Brasil e pelo Paraguai e com alguma abertura ao diálogo com o Ocidente.

 

Baixou a hostilidade russa com a igreja de Roma. O Vaticano relançou há dois anos esforços de aproximação. A atitude fortemente ecuménica do papa Francisco possibilitou acelerar o encontro agora marcado para a próxima sexta-feira. É um encontro histórico porque provavelmente vai pôr fim a dez séculos de grande separação entre as duas principais igrejas cristãs.


O patriarca russo colocou como condição para o encontro que este não tivesse lugar na Europa – porque a igreja de Moscovo vê os países da União Europeia como cúmplices históricos do Vaticano. Foi escolhida Havana. Cuba, depois de ter sido uma ilha cercada, torna-se um palco internacional.
Depois da cimeira em Havana o papa vai ao México. Vai encontrar-se com gente pobre, com trabalhadores, com indígenas e com crianças hospitalizadas. Vai a Chiapas e a Juárez, a cidade fronteiriça a norte que recupera a vida depois de ter sido uma aterradora fábrica do crime organizado ligado ao narcotráfico (3.115 homicídios em 2010, 2.086 em 2011, contabilidade do El Diario de Juarez). Juárez, com milhão e meio de habitantes, era há cinco anos a cidade mais violenta no mundo. O papa vai apoiar a ressurreição desta cidade.


Ainda neste ano o papa vai encontrar-se com o patriarca Bartolomeu que representa os cristãos ortodoxos do Médio Oriente na sua sede em Constantinopla. Em outubro, cinco séculos depois da Reforma de Martinho Lutero, Francisco vai reunir-se na Suécia com representantes de todas as igrejas luteranas pelo mundo. O papa rompe as barreiras e derruba os muros. Um exemplo.


 
TAMBÉM A TER EM CONTA


Segunda etapa na maratona das primárias presidenciais nos EUA. Depois do Iowa, hoje New Hampshire, o estado com a divisa ´”Live Free or Die” (“Viver livre ou morrer”). Tende a ser uma etapa dura para Hillary Clinton. E, desta vez, eufórica para Donald Trump. Mas é daqui a três semanas, no "Super Tuesday", que as grandes escolhas ficam clarificadas.

 

Vem a calhar esta primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS.

 

E será que devemos alarmar-nos com estas primeiras páginas que avisam haver pânico nas bolsas? Cinco Dias. Expansión. Les Echos. La Repubblica. Financial Times.
 

publicado às 09:27

Glória ao persistente trabalho quotidiano de jornalistas

Por: Francisco Sena Santos

 

Martin Baron tomou posse do cargo de editor do Boston Globe em 2 de junho de 2001. Nesse mesmo dia, este jornalista então com 47 anos de idade e 25 de ofício, reuniu-se, primeiro, com toda a equipa do jornal e, logo a seguir, com cada uma das editorias da redação. O Boston Globe tinha a funcionar desde os anos 70 uma equipa de investigação composta por meia dúzia de jornalistas cuja tarefa era a de, pacientemente, em dedicação exclusiva, procurar e investigar histórias complexas e delicadas que estivessem escondidas. A equipa foi batizada com um nome que corresponde à função de holofote jornalístico: Spotlight.

 

O editor Martin Baron – ele é conhecido por Marty – tinha chegado a Boston, ido de Miami, na véspera da entrada no Globe, e nas breves consultas prévias ouviu falar de um assunto que os poderes julgavam intocável na muito católica Boston: uns escondidos acordos extra-judiciais com as vítimas de abusos pedófilos praticados por um padre ao longo de três décadas. Na reunião com o grupo Spotlight, Marty propôs que a equipa tratasse de explorar esse caso. Alguém argumentou que isso seria entrar em terrenos proibidos numa cidade onde toda a gente se conhece – Boston passa por ser a maior das pequenas cidades da América – e onde a Igreja Católica é uma instituição toda poderosa.

 

Cada cidade americana tem uma arquidiocese forte e um jornal influente. A tradição ditava que uma instituição, como também é o Boston Globe, não beliscaria qualquer das outras, sobretudo a venerada Igreja Católica, encabeçada em Boston pelo cardeal Bernard Law. Mas Marty insistiu. Contou pormenores da experiência que tinha tido no Miami Herald, na condução da delicada investigação sobre o caso da batalha pela custódia de Elian Gonzalez, um “niño balsero” sobrevivente: ele tinha seis anos de idade quando a barcaça de alumínio em que viajava desde Cuba, juntamente com a mãe e outros dez imigrantes, naufragou já perto da costa dos Estados Unidos. Elián, que foi levado de Havana sem autorização do pai, foi o único sobrevivente, agarrado durante vários dias a um pneumático à deriva no Estreito da Flórida. Foi resgatado por dois pescadores de Miami, e seguiu-se uma batalha legal de sete meses, com inúmeras manipulações, sobre o destino da criança, um caso que chegou ao Congresso em Washington. Marty invocou pormenores desta investigação para incitar a que os repórteres da equipa Spotlight explorassem o caso da pedofilia em volta do altar em Boston.

 

A pesquisa, árdua, determinada, paciente, fora do foco dos holofotes, começou naquele dia 2 de junho de 2001, o ano do 11 de setembro. A equipa de repórteres da unidade Spotlight na redacção do Boston Globe começou a analisar milhares de páginas nos arquivos, a cruzar informação e a preparar e colocar perguntas. Poucas semanas depois, a equipa Spotlight já tinha testemunhos que furavam o muro de silêncio comprometido de vítimas sexualmente abusadas e que apontavam nomes de malditos pederastas.

 

A investigação recolheu testemunhos que reforçavam a convicção, mas faltava a prova de que o topo da arquidiocese encobria o sistema. Ao fim de cinco meses de investigação, a equipa Spotlight tinha matéria de sobra para revelar abusos cometidos dentro da igreja. Havia então certezas sobre a pederastia de treze padres e mais 65 sob suspeita, mas faltavam provas firmes de que o arcebispo sabia de tudo e encobria. Daí que o editor da equipa Spotlight tenha travado a publicação até que a investigação reunisse provas irrefutáveis sobre o encobrimento. A pesquisa continuou, persistente. Por fim teve acesso a cartas de denúncia remetidas ao longo de anos ao cardeal de Boston por familiares de crianças abusadas. Era a prova procurada.

 

Assim, finalmente, em 6 de janeiro de 2002 o Boston Globe abriu as explosivas revelações, com a notícia a que todos se esquivavam, de que a igreja de Boston, envolvendo três cardeais e vários bispos, encobriu os abusos sexuais de crianças por padres, ao longo de 34 anos. A partir desta primeira notícia as revelações sucederam-se em catadupa.  Ao longo desse ano de 2002 o Boston Globe publicou cerca de 600 histórias nos quais mostrou o que aconteceu ao longo de três décadas de encobrimento generalizado.

 

Com base num longo trabalho de escavação jornalística, com análise de documentos, dezenas de entrevistas e confrontos com advogados, hierarquia da igreja e influentes locais, com o decisivo contributo do testemunho de vítimas, de um advogado valente e de um sacerdote marginalizado, a equipa Spotlight demonstrou a prática recorrente de abusos sexuais por parte de 70 padres. Também revelou como as coisas decorriam quando as denúncias das famílias de rapazes abusados (o perfil era quase sempre o mesmo, famílias pobres, pais ausentes) chegavam ao cardeal Law: a arquidiocese de Boston comprava o silêncio dos queixosos e afastava o sacerdote da paróquia, com o pretexto de baixa médica.  

 

Em Setembro desse ano de 2002 o cardeal Law resignou e deixou Boston, recolheu à reserva no Vaticano. Em abril de 2003, esta série de reportagens da equipa Spotlight do Boston Globe foi distinguida com o mais prestigiado prémio americano de jornalismo, o Pulitzer, na categoria Serviço Público. A partir de então foram documentados e denunciados casos de abusos de sacerdotes da Igreja Católica em 105 cidades americanas. Os males do sistema ficaram postos a nu.

 

Há várias lições no conjunto destas histórias: uma, a de que, neste caso, terá sido decisiva a liderança de alguém de fora (Marty Baron, nascido e criado na Flórida, longe de Boston)  para ousar confrontar os poderes fortes da cidade, e fazer o jornalismo mergulhar na investigação da história que não ousavam destapar. Outra lição fundamental, a da paciência ao serviço do rigor: a editoria do Boston Globe teve a inteligência – e o instinto - de persistir na investigação cara de um caso que implicou colocar cinco jornalistas a não fazer outra coisa ao longo de seis meses e sem publicar uma linha que fosse ao longo desses seis meses. Poderia ter cedido à tentação de noticiar suspeitas avulsas mas ainda sem enquadramento verificado, como tantas vezes acontece em Portugal. Prevaleceu a persistência na pesquisa e a intransigência no rigor, a par do dever ético e moral. É um guia prático para o ofício de jornalista. É um triunfo do trabalho do jornalismo e dos direitos civis.

 

Em 2015, esta história protagonizada pela equipa Spotlight do Boston Globe passou a filme, realizado por Tom McCarthy, e agora nos ecrãs. O filme é a reprodução, com a secura da realidade, sem romanticismos nem outros exageros, de uma investigação em busca da verdade dos factos. Todos seguimos a épica cinematográfica de Hollywood, com filmes como O Quarto Poder (1952), Os Homens do Presidente (1976) ou Boa Noite e Boa Sorte (2005). Em Spotlight, não há heróis. O que se celebra é a glória do esforço persistente no trabalho quotidiano de procura da verdade dos factos. Na noite dos Óscares, no próximo dia 28, Marty Baron vai provavelmente estar na plateia do Dolby Kodak Theatre, no Hollywood Boulevard, em Los Angeles, perto da equipa que fez o filme Spotlight para celebrarem esta vitória do sentido do dever. Desde o final de 2012, Marty já não está no Boston Globe.

 

Em 2 de janeiro de 2013 Marty Baron assumiu a liderança editorial do Washington Post, o terceiro maior diário dos EUA – a seguir ao New York Times e ao Wall Street Journal. Fez aposta na edição digital do jornal nesse ano comprado por Jeff Bezos, patrão da Amazon, à mítica família Graham de patrões tradicionais de imprensa. Em outubro passado, o Washington Post passou ao primeiro lugar das visitas online a jornais nos EUA. No Boston Globe, a equipa Spotlight continua a ser cultivada, renovada. São boas notícias.

 

Também a ter em conta

 

A escolha presidencial nos Estados Unidos arrancou no Iowa com várias indicações: nos democratas, Hillary aparece vulnerável, está longe de ter a eleição garantida; nos republicanos, Trump é mesmo uma figura passageira, Ted Cruz impôs-se com o fervor do voto evangélico e da direita cristã mas há que contar com Marco Rubio.

 

Em Espanha, seis semanas depois das eleições subsiste a incerteza: o socialista Sanchez vai conseguir formar governo (numa solução "à portuguesa") ou o rei opta por novas eleições?

 

Passa a faltar-nos José António Salvador. Recomendava os bons vinhos e contava boas histórias.

 

O alerta geral contra o Zika marca as primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO Jornais: esta e esta.E também nesta.

publicado às 09:38

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