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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Madrid nos mata. Outra vez

 

Por: Miguel Morgado

 

No Futebol, Fé e Fado (destino) andam, muitas vezes, de braço dado. 22 anos e um dia depois, três amigos repetem uma visita ao Santiago Bernabéu. Uma incursão a Madrid que mete rituais, carros avariados, política à mistura e uma repetição da história. No fim do dia acrescento ao puzzle o F de Família.

 

 

 

As deslocações ao estrangeiro em jogos para as competições europeias fazem parte do sonho de qualquer adepto de futebol que se preze. Visitar catedrais como São Siro (Milan e Inter), Celtic Park (Celtic), Vicente Calderón (Atlético de Madrid) ou Santiago Bernabéu (Real Madrid) entra nos desejos de quem gosta do jogo do 11 para 11. Seguindo um ritual que é mais ou menos comum nessas viagens, tive o privilégio de ter estado nesses, e noutros, estádios, em lazer e em trabalho. E de ter a companhia de um grupo de amigos mais ou menos fixo. Foi assim, por exemplo, a 13 de setembro de 1994 com Madrid como destino e Santiago Bernabéu como palco. E seria assim, 22 anos e um dia depois, marcando o regresso ao mesmo local onde a felicidade não tem sido regra.

 

Neste espaço de tempo, o carro cresceu, passou de um Citroen AX para um Ford de 7 lugares, o grupo, então de cinco, renovou-se e transformou-se num 6+1, sendo três deles repetentes e o “+1” uma boleia um tanto ou quanto inesperada que surgiu em Elvas e que explico mais à frente.

 

As viagens de hoje em nada se compararam com as do século passado, em que as estradas e o nosso tempo em tudo diferem. Recuemos a 1994. Mochilas preparadas, saída com antecedência de Lisboa, algo que a faculdade facilitava. Cavaco Silva como primeiro ministro. A autoestrada do lado português ligava Almada à Marateca, o resto nasceria para a Expo 98. Da fronteira lusitana até à capital espanhola mais de 400 quilómetros de asfalto, entre obras e limite de velocidade de 90 km/h. O socialista Felipe Gonzalez já então desenhava a ligação mais rápida entre as duas sedes ibéricas de governo.

 

Na altura, em 1994, a visita e estadia na Pension Hostal “Chelo”, na Gran Via, estendeu-se ao longo de três dias desdobrados por um roteiro gastronómico, cultural, entre museus e ensinamentos sobre a história de Espanha - ida ao Valle de los Caídos e ao el Escorial - e a experiência da “movida” numa Espanha mergulhada no desemprego (rondou os 25%). 

 

No que respeita ao futebol, razão primeira da excursão, o Real Madrid então treinado por Jorge Valdano e com artistas como Michel e Laudrup venceu, em jogo da 1ª mão da Taça UEFA, por 1-0 a equipa portuguesa que “calou” a afición madritista. Na formação então treinada por Carlos Queiroz  pontificava um tal de Luís Figo, formado no Sporting Clube de Portugal que viria a vestir a famosa camisola branca e a ser considerado o melhor jogador FIFA.

 

 

24 horas e 1200 km por um jogo de futebol

 

Avancemos agora um pouco mais de duas décadas. Nos preparativos, a pensão “Chelo” (cujo o mesmo quarto de 1994 serviu de porto de abrigo numa outra incursão futebolística a Madrid já neste século) chegou a entrar nos planos para o jogo de abertura da Liga dos Campeões. Questões de fé, família e compromissos profissionais obrigaram a uma viagem relâmpago de 24 horas.

 

Com a fronteira de Badajoz à vista, para abastecer o estômago dita a experiência acumulada que, para primeira refeição do dia, é melhor restringir as ambições ao nosso território. E assim foi feito em Elvas, na fronteira do Caia. E é aqui que entra para a história uma curiosa boleia.

 

Um carro de uns miúdos avariou. Miúdos que como nós tinha um mesmo destino e uma mesma missão: Madrid para ver o Sporting. Um puto de 20 anos sai do carro e vem ter connosco a pedir ajuda (leia-se boleia até Madrid).Os outros amigos seguiam em carro alugado em Elvas e / ou por outras boleias até à capital espanhola. Acrescentámos assim um elemento à comitiva. Com a Estremadura e a companhia de muitas matrículas portuguesas pela frente, entre a habitual discussão sobre o mundo da bola, o rapaz da boleia, após conversa rápida, lá nos conta que é jogador de rugby do CDUL. Já em Madrid, no almoço no “el Lateral”, restaurante na Calle Serrano, o apelido denunciou-o como sendo filho de um Secretário de Estado do anterior governo. Com os seus amigos vindos de Elvas a vaguear pelo Paseo de la Castellana, contas feitas, telemóveis trocados à cautela, informou que o seu regresso, sem data e hora marcada, seria tratado durante o resto do dia. Ou no dia seguinte. Uma normalidade para a idade e que arrancou sorrisos a quem tem idade para ser pai dele. “Ai quem me dera ter outra vez 20 anos....”, ouviu-se.    

 

As desculpas de Ronaldo na repetição da história

 

A cinco horas de distância para ver Ronaldo, Bale, William Carvalho, Adrien e Patrício, entra em campo o ritual de andar, parar, picar, beber, conversar, andar novamente até chegar a Chamartin onde é esperado um controle apertado de segurança na entrada, polícias que mais parecem Robocops, cavalos, cães com açaimes e tudo o mais. Os portugueses, uns mais conhecidos que outros, andam por todo o lado à porta do estádio. Lá dentro, na imensa multidão, sobressai Hermínio Loureiro, ex-secretário de Estado do Desporto (não é por acaso que se diz que política e desporto andam de mão dada).

 

 O arbitro apitou, a bola rolou, o público cantou, o Sporting marcou (primeiro), Gelson encantou, Ronaldo, o tal que andou vestido de verde e branco, marcou mas não festejou (já o tinha feito por duas vezes ao serviço do Manchester United), pediu desculpas, e, no final, o Real Madrid ganhou (2-1). Em jeito de ilustração “jogamos como nunca, perdemos como sempre”, foi a frase que repetidamente se escutou durante o tempo obrigatório de espera nas bancadas.

 

O F de Família falou mais alto

 

Fim de jogo. Dois táxis apanhados até à Calle Serrano, jantar numa cadeia de restaurantes, dose reforçada de cafeína, início de viagem pouco depois da meia-noite e o carro atestado numa saída na E-90. Seguindo a palavra mágica de Badajoz, os assuntos de futebol ficaram para trás e foram substituídos por filhos, trabalho e atualidade, do serviço nacional de saúde, do governo liderado por António Costa à crise política espanhola. A despedida de Espanha é feita num estação de combustível a escassos quilómetros do Caia. No tal local onde a história do carro avariado (algo mais comum do que se pensa) foi por instantes recordada e vivida na primeira pessoa quando a bateria do tal Ford de 7 lugares falhou. Boleia para 6 àquela hora não vinha nada a calhar. Valeu uns cabos salvadores. Safa!   

 

5h30 hora de chegada a Lisboa. Tempo de, mais uma vez, recordar 1994. Tudo porque, nesse ano, numa epopeia ao bom estilo camionista, depois de horas a fio a rolar por estradas nacionais no Citroen AX, uma vontade de começar o dia com uma bela bifana local levou a uma paragem em Vendas Novas. A noticia, às 7h00, de um segundo bloqueio da ponte 25 de abril deixou-nos, felizmente, fora do campo dos “últimos dias” de Cavaco Silva, desviando-nos para a reta do Infantado. Na altura, a inexistência de auto estrada em muito compensou. Hoje, ao invés, o tapete que liga as duas capitais contribuiu para que cumpríssemos o objetivo de tomar o pequeno almoço em casa. E no meu caso particular de celebrar, com um dia de atraso, às primeiras horas da manhã, o 10.º aniversário de uma das minhas filhas. Questões de família falam de facto mais alto.       

publicado às 10:55

O que podemos aprender com a seleção?

Por: António Costa

 

Portugal é campeão europeu de futebol, um destino que estava longe de estar nas estrelas, foi uma vitória improvável de uma equipa em que poucos acreditavam e de um líder – Fernando Santos – que deitou fora o que é a tradição de jogar bem e de ser o campeão moral. Uma equipa eficiente, produtiva e com objetivos definidos, exatamente o que o país precisa de ser.

 

Os portugueses são românticos, e também no futebol. Foi por isso que aos primeiros jogos, a relação entre os adeptos e a equipa era de puro interesse, sem qualquer amor. Portugal não tinha os melhores jogadores – bem, tinha um, Ronaldo, que não estava no seu melhor -, foi por isso construindo uma equipa. Jogo a jogo, Portugal jogou para ganhar, jogou até para empatar, porque pôs em primeiro lugar os objetivos e não a estética.  À medida que o campeonato avançava – foram sete jogos sem perder um único -, a equipa reconstruiu-se em função das suas próprias fragilidades, mas sempre com uma prioridade, a de chegar à final do Europeu.

 

O futebol é mesmo uma das atividades, muito poucas, em que Portugal aparece à frente dos rankings internacionais, já era, e mesmo assim a seleção nunca tinha ganho uma grande competição. Uma final europeia, duas meias-finais e dois quartos-de-final nos últimos 12 anos só servem para perceber que, no momento da decisão, os portugueses falhavam. Por várias razões, por incapacidade para sofrer, por inexperiência, por falta de foco, por ineficiência nos momentos certos, por correr muito e correr mal. Não é isto, também, do que padece a economia portuguesa?

 

Os rankings internacionais mostram, por exemplo, que Portugal é dos países em que os trabalhadores trabalham mais horas e são menos produtivos do que outros, até do que outros portugueses que estão noutros ambientes laborais. Quando analisamos o percurso desta seleção, a capacidade de sacrifício, a compreensão do que era a sua realidade e os seus meios, a definição de objetivos e de metas claras e a fixação de um plano de trabalho, percebemos que a economia portuguesa seria mais produtiva se aplicasse estes princípios de forma consistente e metódica.

 

As crónicas do dia seguinte – o novo dia desportivo da Nação, 10 de julho – sublinham o que é hoje claro para todos. Portugal não tinha os melhores jogadores, mas foi a melhor equipa, com carácter, mesmo e sobretudo quando todas as probabilidades apontavam no sentido contrário, logo aos 8 min quando Ronaldo foi afastado do jogo mais importante da sua carreira. Quando o que todos apelidavam de pior jogador da equipa se supera e marca o golo decisivo. A crueldade é bela, como escreve o jornal espanhol El Mundo.

 

E seria uma injustiça, neste dia, não recordar o que foram os últimos anos na Federação Portuguesa de Futebol, o planeamento, a preparação, as condições para as seleções mais jovens, até a nova casa das seleções, no Jamor. Faz tudo parte de uma forma de preparar uma equipa que deveria ter seguidores. É isto que podemos aprender com a seleção.

 

 

As escolhas

As primeiras escolhas, claro, só podem ser desportivas.  E se as vitórias são importantes, ganhar em França, aos franceses, tem alguma coisa de poético. Especialmente para os emigrantes, tantas centenas de milhar, de primeira, segunda e até já terceira geração, uma ‘gaiola dourada’ tão bem retratada no filme de Ruben Alves. Como pode ler em www.publico.pt.

 

É claro, a vida não é feita apenas de futebol, e hoje há uma primeira reunião do Eurogrupo, os ministros das Finanças do euro, que vão discutir eventuais sanções a Portugal e Espanha. Amanhã será a vez do Ecofin, o encontro dos ministros das finanças da União Europeia. Caberá agora a António Costa fazer de Fernando Santos, se quiser e souber.

 

Tenham uma boa semana.

 

publicado às 12:34

Todos diferentes, todos bons rapazes portugueses!

Por: Márcio Alves Candoso

 

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Vamos falar de futebol. Um português nascido no Brasil corta uma jogada perigosa da equipa adversária na sua grande-área. A bola é recolhida por um preto da Musgueira, que avança no terreno até ter a noção do melhor passe. Manda o esférico para um mulato da Amadora, que a mete num menino branco e pobre da Madeira. Este remata à baliza, mas o guarda-redes contrário só tem tempo de a defender para um espaço vazio. Nesse mesmo sítio, surge um cigano e marca golo.

 

A ocorrência é verídica. Aconteceu na semana passada, aos 117 minutos de um jogo que, normalmente, só dura 90, e chegou e sobrou para que a selecção nacional de Portugal derrotasse a perigosa Croácia. Esta é a história de 23 rapazes, entre os 18 anos e os trinta e muitos, que têm em comum vestir a camisola das quinas e a cruz da Federação Portuguesa de Futebol. Falam todos português, ainda que um ou outro o conjugue malzinho. Nas suas origens, está um país pequenino, que andou pelo mundo inteiro, muito coeso na sua diferença. São todos portugueses. A nenhum lhe passará pela cabeça meter uma bomba no Rossio. Agnósticos, ateus ou cristãos, não importa. Um tem antepassados judeus. Todos filhos da cultura lusitana.

 

Há gente de todo o lado. Rui Patrício é de Marrazes (Leiria), e divide a baliza com Anthony Lopes, que nasceu nos arredores de Lyon (França) e Eduardo, um trasmontano de Mirandela. Na defesa, Cédric Soares é o actual lateral direito. Veio da Alemanha, nascido mesmo ao lado da fronteira com a Suíça, mas chegou a Portugal – zona de Lisboa - com apenas dois anos, trazido pelos pais emigrantes. Divide o lugar com Vieirinha, um rapaz de Guimarães. À excepção do guarda-redes titular, que actua no Sporting, jogam todos no estrangeiro.

 

No meio da defesa está um mestiço que fala à Norte. E nem podia ser de outra maneira, já que Bruno Alves nasceu e foi criado na Póvoa de Varzim. É filho da antiga glória local, o brasileiro Washington. Tem estado no banco, dando o lugar a Ricardo Carvalho, o mais velho da selecção, que começou a carreira na sua terra natal – Amarante. Parece ter perdido a titularidade, por sua vez, para José da Fonte, um seu vizinho de Penafiel. Já Pepe – mais exactamente Képler Laveran Lima Ferreira – veio de Alagoas (Brasil) com 18 anos, para tentar a sua sorte no Marítimo. Depois de Deco, foi o segundo brasileiro a envergar a camisola da selecção nacional; mas, ao contrário do ‘mágico’, cedo aprendeu o hino que canta sempre antes do jogo começar.

 

No lado esquerdo da defesa, um açoriano mestiço e um branco nascido em França dividem o lugar. Eliseu nasceu num bairro de Angra do Heroísmo (Terceira), filho de pais cabo-verdianos, e é o primeiro jogador do arquipélago a tornar-se campeão nacional desde que Mário Jorge e Mário Lino o fizeram nas décadas de 50 e 70. Mas, ao contrário dos seus conterrâneos, não veste a camisola do Sporting – é benfiquista desde pequenino. Para encontrar um benfiquista açoriano campeão, é preciso recuar até aos anos 40, altura em que o faialense Joaquim Teixeira envergou a camisola do ’Glorioso’ e da selecção. Açoriano e benfiquista era o Mário Bettencourt Resendes, saudoso campeão de jornalismo; outras ‘guerras’...

 

Raphael Guerreiro – é mesmo assim, com ‘ph’ – nasceu canhoto perto de St.Denis, no nordeste de Paris. Jogar no Stade de France, se Portugal chegar à final, será para ele quase um regresso a casa, depois de ter passado os anos mais recentes na Bretanha e de agora rumar a Dortmund, na Alemanha. O pai emigrante também foi jogador de futebol. Gostava de actuar no Benfica, mas para já ainda não foi possível.

 

No meio-campo, a parte mais defensiva – a chamada ‘posição seis’ - é dividida entre dois rapazes de Sintra. Danilo Pereira veio de Bissau (Guiné) e William Carvalho tem ascendência angolana. Mais à frente aprece Adrien Sébastian Pérrouchet Silva, nascido em Angoulême e criado em Arcos de Valdevez. A 650 quilómetros de distância da terra minhota, nasceu João Moutinho,’marafado’ de Portimão. Já Rafael Silva, mais conhecido por Rafa, é um dos dois únicos lisboetas de gema a actuar na selecção.

 

No Porto, mais concretamente em Pedras Rubras, nasceu João Mário, que havia de tomar o avião para Lisboa para representar o Sporting. É de família angolana - os pais são de Luanda – e tem dois irmãos na alta roda do futebol – o bracarense Wilson Eduardo e o jogador de futsal do Belenenses, Hugo Eduardo. Seu vizinho de nascimento é André Gomes – Grijó, Gaia -, que cedo rumou ao Benfica de agora actua no Valência de Espanha.

 

O puto da selecção é uma obra do bairro da Musgueira, em Lisboa. Mas como tantos dos seus companheiros de infância, nasceu filho de africanos – uma cabo-verdiana e um são tomense. Renato Sanches acaba de ser vendido ao Bayern. Já Ederzinho António Macedo Lopes – cujo diminutivo é Éder – veio da Guiné com tenra idade para a zona centro do país. Distinguiu-se na Académica.

 

Sobram os três ases deste baralho de naipes coloridos. São também os mais conhecidos, neste desporto onde quem vai à frente e marca mais golos é menino querido das multidões. Luís Carlos Almeida da Cunha – mais conhecido por Nani – nasceu na Amadora e começou no Massamá, terra de descendentes africanos e de primeiros-ministros migrantes. Os pais são cabo-verdianos, onde nasceram igualmente os seus irmãos.

 

Já Ricardo Quaresma é mais que uma mistura, é várias. A mãe é uma angolana morena e o pai – de que há pouca memória – é cigano. Nascido e criado em Lisboa, é sobrinho-neto do grande Artur Quaresma, que foi campeão no Belenenses. O ’Harry Potter’ – nome que lhe vem da magia que faz com os dois pés – joga agora na Turquia.

 

Deixei para o fim o menino pobre que fez o passe para o golo no jogo contra a Croácia, e que no desafio com a Hungria tinha já marcado dois, um do tipo ‘mostra lá outra vez, que eu até troquei os olhos’ e outro de cabeça. A ‘primeira exportação da Madeira’ - bate a banana, segundo a mãe dele – está cotado como o melhor jogador do mundo. É também o desportista mais bem pago do planeta, e já bateu quase todos os recordes que há para bater. Hoje tem pela frente o recorde de Platini, o jogador que até hoje marcou mais golos em campeonatos da Europa de futebol. Falta-lhe um para igualar, com dois passa a ser o maior. Chama-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

 

Vêm de todo o lado. Não têm em comum a raça. Têm a raça portuguesa. E agora venha de lá a Polónia!

 

PS – Já que falamos de pessoas unidas na diferença, aqui fica uma anedota que os polacos contam. Uma vez, durante a II Guerra Mundial, as SS alemãs invadiram uma pequena vila polaca e fizeram refém toda a população. Um jovem conseguiu fugir à vigilância nazi, mas pouco depois tinha as SS no seu encalço. Um dos soldados apontou a arma com intenção de abater o rapaz. Mas do Céu chegou a voz de Deus. ‘- Pára, não podes fazer isso, esse rapaz vai ser Papa!’, falou lá do alto Deus. O soldado tremeu, baixou a arma e perguntou:’ – Senhor, e eu?’.. ‘- Tem calma tu vais a seguir!’…

publicado às 12:42

Os eleitores britânicos e os espanhóis vão a penaltis

Por: Francisco Sena Santos

 

O primeiro campeonato europeu de futebol de seleções, realizado em 1960, foi um quase fiasco, por escassa mobilização. A ideia de juntar os países europeus e apurar os melhores foi de um francês, Henri Delaunay. Nessa década já tinha sido criada, impulsionada por políticos da França, Alemanha Ocidental, Itália e os três países Benelux, a CECA, embrião da CEE que gerou a atual União Europeia.

 

Foi um quebra-cabeças juntar seleções para aquele primeiro Euro com a bola: os ingleses, que se tomam por pátria do futebol, ficaram ciumentos com a iniciativa francesa e não quiseram entrar. Alemães (ao tempo a RFA) e italianos, entre outros, também não. Inscreveram-se 17 países para a fase de qualificação, mas a Espanha renunciou, por ordem política do ditador Franco, que recusou o passaporte para a seleção jogar o apuramento em Moscovo com a comunista União Soviética. Nesse 1960, concorreram ao Euro as seleções de 17 países. Agora, foram 53. A Europa da CEE começou por ter seis países-membros e agora a União Europeia tem 28. A Europa do futebol cresceu, tornou-se pujante e gera paixões, a Europa política também cresceu mas definha como ideal e crescem os desapegos.

 

Se perguntarmos por aí, em inquérito de resposta instantânea, o nome de suecos famosos, o mais provável é que o futebolista Ibrahimovic seja o mais nomeado, muito mais que Ingmar Bergman, August Strindberg ou até Alfred Nobel. Talvez alguns se lembrem de Henning Mankell, mestre do policial e amante de Moçambique. Vão aparecer mais nomes suecos do futebol, como o do treinador Eriksson, mas ninguém saberá que um tal Stefan Lofven é o primeiro-ministro em Estocolmo. Há uns tempos, nas décadas de 70 e 80, toda a gente responderia logo Olof Palme, o político paradigma da social-democracia progressista, solidária e tolerante. Palme assumia-se utópico: “Não podemos viver sem utopias”, disse numa visita a Portugal pouco tempo antes de ter sido assassinado. Nessa viagem a Lisboa, Palme explicou numa entrevista à então RDP que “a política tem de ser feita num diálogo contínuo entre realidade e sonho, porque sem sonho a nossa ética e ideologia desaparecem”. Esse último quarto do século XX foi um tempo de expansão e até de sonho com o ideal de uma Europa luminosa, atraente para todos. Entrámos no século XXI e a coisa começou a correr mal. Houve a infâmia do 11 de setembro que desencadeou guerras e terrorismos que nunca mais pararam, houve os golpes financeiros de 2007, a Europa cresceu e arranjou uma moeda sem estar consistentemente preparada para estas duas coisas, veio a atual geração de dirigentes europeus, veio a austeridade e os cortes sociais, e estamos nisto, sem faísca, sem entusiasmo político, uma Europa frustrante – embora com potencial de ideias e energia para ser radiosa, assim a saibam estimular.

 

Chegámos a um momento em que as eleições e referendos em cada país são um confronto entre sistema e anti-sistema ou partidos tradicionais e forças anti-política. Neste último domingo, em Itália, candidatas de um movimento, o Cinco Estrelas (M5E), que se assume contra o sistema político, conquistaram a presidência de cidades como Roma ou Turim. É facto que Virginia Raggi, eleita em Roma com 67% dos votos, não pode ser etiquetada de populista (rótulo habitualmente atribuído ao M5E do comediante Beppe Grillo, com tendência para propor soluções primárias), é uma política que fez uma campanha afável a prometer “a legalidade, a honestidade e a transparência”, e a propor “uma revolução gentil” que faça “mudar a velha política dos partidos”. Tem na agenda desmontar as redes mafiosas que controlam os serviços, recuperar o civismo, fazer a revolução da normalidade. Ela não apelou ao extremismo da plebe, tratou de juntar uma equipa plural de gente reconhecida como competente em diferentes domínios da gestão de uma cidade, e assim triunfou. Pode ser um bom exemplo de regresso da política com boa chama. Fica para se ver.

 

Estamos numa semana que toda a gente vê determinante para o futuro da Europa. Já depois de amanhã é o referendo britânico sobre o isolacionismo ou a permanência europeia, três dias depois, no domingo, é a repetição de eleições em Espanha. Num caso como noutro, há tendência para o desempate entre os blocos que se confrontam ser feito nos penaltis, ou seja, o resultado só com o apuramento dos últimos votos.

 

 A campanha para a escolha britânica foi deprimente e atingiu níveis impensáveis de divisão, radicalização e até de loucura. O desafio naval entre Neil Farage e Bob Geldof no rio Tamisa pareceu uma cena de Monty Python num filme em que, como em toda a campanha, as duas partes (brexit e pro-UE) exploraram o medo dos cidadãos. Foram usados panfletos xenófobos alertando para a possível invasão do Reino Unido por milhões de turcos e acrescentados mapas sobre alta criminalidade na Turquia. Foi evocada a resistência britânica a Napoleão e a Hitler por entre proclamações de combate aos refugiados como os invasores de agora. Na campanha “remain” também não faltaram  ameaças, desde o colapso da libra ao risco de os reformados perderem os passes e as pensões. Todos abusaram, todos foram demasiado longe na exploração do medo dos votantes.

 

A campanha cada vez mais agressiva foi estancada na passada quinta-feira com o chocante terrível assassinato da inspiradora deputada Jo Cox cujo apaixonante serviço público em trabalho solidário ficámos a conhecer. Não é ainda legítimo declarar o crime com motivação política, mas vários indícios sugerem essa probabilidade, com execução nas mãos de um perturbado seduzido por ideias de extrema-direita. Mas a campanha de violência verbal terá inflamado ódios que podem levar uma criatura mentalmente distorcida a um crime assim.  Esta tragédia terá servido para despertar a Inglaterra – como antes era conhecida – e fazê-la parar e repensar. O eleitorado líquido, como diria Bauman, flutuando na fronteira entre a abstenção e o voto de protesto, estará a juntar o coração à cabeça, e a emoção a puxá-lo para o lado da permanência britânica na Europa. Isso explicará a neutralização dos seis pontos percentuais de avanço que o “Brexit” tinha há uma semana. O mais provável é que tudo fique resolvido nos penaltis.

 

Em Espanha, no domingo, a mesma tendência para que seja preciso esperar pela decisiva contagem dos últimos votos. O que se joga nesta eleição é a modificação profunda do sistema de representação política: será que um movimento nascido na rua com o protesto dos “indignados” vai tornar-se chave para a formação do próximo governo de Espanha? Os partidos tradicionais estão a ficar obsoletos e a deixar de carburar para os eleitores? Há que esperar pela noite de domingo. Vivemos dias que podem ativar um dominó com consequências inimagináveis.

 

Na noite do próximo domingo já estarão apuradas seis das oito seleções que jogarão os quartos de final do Euro 2016. Há 56 anos, no primeiro campeonato, a final foi jogada pelas seleções de dois países que já não existem: a União Soviética que se impôs (2-1) no prolongamento à Jugoslávia. Agora, seria bonito ver na final, num país, a França, que quando foi preciso recebeu tantos emigrantes portugueses, a seleção de outro país, Portugal, que está a ser um raro bom exemplo europeu no dever de acolhimento dos refugiados. A Inglaterra (tal como Gales e a Irlanda do Norte) começou este Euro dentro da União Europeia, mas não é certo que no final continue a fazer parte da Europa política. Culturalmente, não há separação possível, ainda que a história europeia tenha como pilares a velha Grécia, o Império Romano, o Renascimento e o Iluminismo. Também a matriz cristã.   

 

A TER EM CONTA:

 

As cidades governadas por mulheres: Madrid, Barcelona, Paris, Turim, Roma, Colónia, Varsóvia e Estocolmo são algumas das cidades europeias com poder feminino.

 

O "pactómetro" proposto por La Vanguardia: como formar uma maioria de governo em Espanha?

 

A guerra continua no Iraque. A batalha por Falluja gerou dezenas de milhar de refugiados. Trinta mil só nestes últimos dias. O "EI" perde território, mas pode ser apenas um recuo estratégico.

 

A música tem mesmo poderes mágicos e leva à dança: um violinista embalava uma rua de Trieste com a música que é banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie”; uma palestiniana, Rima Baransi, que estuda dança em Berlim, ia a passar com a família em férias, e foi assim. Com grande beleza.

 

Pela estrada fora, outra vez, sempre, na América.

 

As primeiras páginas britânicas a dois dias do referendo. The Guardian e The Daily Telegraph puxam a sua escolha para o topo.

 

O ocaso da Oi na primeira página do Estadão.

publicado às 09:44

O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

Amanhã é dia de Taça e joga o Braga. Marcelo, o invasor de campo, é agora Marcelo, o presidente

Por: Miguel Morgado

 

Marcelo Rebelo de Sousa é um assumido adepto do Sporting de Braga e presenciou ao vivo todas as finais da Taça de Portugal em que o clube participou. Cinco até agora. Primeiro enquanto aluno, depois membro do governo, professor universitário, comentador político na televisão e, finalmente, estará no Jamor, no Estádio Nacional, na sexta final, pela primeira vez na pele de Presidente da República. Ele que já se transfigurou e foi um “invasor de campo” na sua estreia da prova “a doer”.

 

 

Pois é. Marcelo, o aluno, viu o Braga ganhar a única taça da sua história. Foi precisamente há 50 anos. Em 1966, então, com a idade de 17, ainda sem “pêra e bigode”, com “cachecol ao peito”, “frenético”, dando asas à inesperada alegria por causa do golo de Perrichon, saiu “disparado” das bancadas do Estádio Nacional e tentou, com uma “dinâmica” diferente dos dias de hoje, saltar para o campo para se juntar à festa bracarense. Mas a polícia não foi da mesma opinião e não deixou. Resultado? Levou “uma marretadazinha patriótica, suave e doce”, recorda Marcelo, comentador, em entrevista ao site da Federação Portuguesa de Futebol que recuperamos aqui nas vésperas da final do ano passado, com Sporting Clube de Portugal.

 

Domingo, o agora Chefe de Estado partilhará o palco com os artistas do tapete verde. Dita a tradição que o Hino Nacional seja escutado após o anúncio da sua presença. Dita igualmente o protocolo que Marcelo Rebelo de Sousa se sente na Tribuna presidencial e siga a tradição de, a partir do mais nobre lugar do Estádio, distribua medalhas por todos e entregue a Taça de Portugal só a uns, podendo nessa altura, finalmente, tocar no “caneco” que outrora lhe escapou ao toque aquando da tentativa de invasão.

 

Entre o protocolo e tradições, resta saber se tudo será “by the book” ou se, ao invés, Marcelo poderá surpreender, ou talvez não, e dar, antes do apito inicial, um mergulho à mata do Jamor, porque é ali que está a raiz e a razão da disputa da final da Taça de Portugal no Estádio Nacional, neste campo que é neutro e de todos. Se Marcelo dança em Moçambique ou assiste a inaugurações de “Padarias Portuguesas”, porque não vê-lo, em segurança, entre os seus e ao lado de todos os outros, vestindo a pele de presidente adepto, presidente dos Portugueses e adepto fanático do Braga, juntos na mesma pessoa fazendo pontes entre ambos.

 

Um especialista em finais e algumas histórias de várias delas

 

Os presidentes da República portuguesa assistem aos jogos e assumem, em regra, a despesa das entregas dos troféus e dos cumprimentos aos vencedores e vencidos. Há uns que não gostavam (Mário Soares), outros que sim (Jorge Sampaio) e outros a quem os jogadores não passaram cartão (em 2013 alguns dos craques do Benfica, de Jorge Jesus, não reconheceram e não cumprimentaram o presidente Cavaco Silva, na final perdida frente ao Vitória de Guimarães, de Rui Vitória). Já Marcelo diz-se especialista em finais.

 

Domingo a bola é redonda e são 11 contra 11. Sobre o estado de espírito do presidente da República terão a palavra o Futebol Clube do Porto e Sporting de Braga. Os dois clubes já por duas vezes se defrontaram numa final, uma no Estádio das Antas (1978) e outra no Jamor, dez anos depois. Seguiram-se outras finais bracarenses cujo resultado conheceu sempre o mesmo desfecho: a derrota. E na viagem pelo tempo há uma final que é sempre recordada. Na época 1981-1982, Quinito, treinador dos Arsenalistas, entra em campo vestido de fraque, mas o traje pouco ou nada adiantou, pois viria a ser o Sporting a fazer a festa. 

 

Falar da Taça de Portugal que hoje ganha o nome de Taça de Portugal Placard é falar, entre muitas outras, da final da contestação ao Estado Novo, em 1969, no Benfica-Académica, mas é também recordar a partida da consternação do “very light” e da morte de um adepto sportinguista no jogo com o eterno rival, em 1996. Ou do ano em que Manuela Ferreira Leite, assistiu à entrega da Taça a João Pinto, capitão do FC Porto, que venceu na finalíssima o Sporting, debaixo de uma chuva de garrafas de plástico. Houve finais em que a política falou mais alto: em junho de 1974, mês e meio depois do 25 de abril, antes do jogo, o hino nacional foi precedido do Grândola, Vila Morena.

Houve também jogos improváveis e cujo vencedor já não existe (Estrela da Amadora derrotou, em 1990, o Farense) ou cujo vencido também já desapareceu do mapa (Campomaiorense na final frente ao Beira Mar, numa final que teve a particulariedade de ser antecedida por uma oferta generosa do filho do Comendador Nabeiro – bifanas, imperiais, cafés Delta e música para todos os adeptos presentes no Jamor). Numa competição dominada pelos grandes, cinco equipas da 2ª divisão conseguiram chegar às finais: Setúbal, Estoril, Farense, Leixões (este da 2.ª B) e Desportivo de Chaves, mas nenhuma ganhou. Entre as curiosidades mais recentes destacamos a presença (2008), nas bancadas, de Jorge Jesus, assistindo a uma final leonina, talvez antecipando então que viria a caminhar com aquela gente.

 

O presidente adepto na festa do povo

 

A Taça de Portugal começa muito antes de se levantar o troféu, nas matas, epicentro de pic-nics, com couratos e bifanas, cervejas e vinho, sardinhas assadas e tudo o mais que sirva para fumegar. A Taça no Jamor é a festa de um povo que se espalha pelo imenso pulmão verde de Oeiras, com adeptos de barrigas mais ou menos proeminentes, a chutarem a bola mostrando, a quem passa, a razão de não estarem no palco principal, ou outros que preferem mesmo o desporto de levar o copo à boca. Ali, tudo se partilha, não há públicos nem privados. Comem todos do mesmo. É a essência do ser português. Por isso, não se admire de ver Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente adepto por lá. Antes de subir à Tribuna e cantar o Hino. Aguardaremos então pelo apito inicial e, já agora, depois pelo final para ver como e a quem fará a entrega da Taça de Portugal. 

publicado às 11:44

Leicester é uma lição. Sobre egos a mais e a menos

 

Por: Rute Sousa Vasco 

 

O futebol é feito de mitos e de heróis, não necessariamente por esta ordem. Também é verdade noutros desportos, seja no SuperBowl, na fórmula 1 ou no ténis, mas a popularidade do futebol faz com que o poder de uma boa história seja elevado à máxima potência. E na grande história dos mitos e heróis do futebol, o Leicester é, perdoem a informalidade, um capítulo do caraças. Tem todos os ingredientes: um não-herói (a equipa), um falhado (Ranieri) e todo o favoritismo dos grandes (Chelsea, Manchester United, Manchester City, Arsenal).

 

 

E como se tudo isto não fosse suficiente, ainda conseguiu provocar um dos maiores rombos de sempre nas casas de apostas. Há dez meses era canja para as casas de apostas propor 5000 contra 1 na possibilidade de o Leicester ser campeão e, já agora, do seu treinador, Claudio Ranieri ser dos primeiros a ser despedidos na Liga inglesa. O Leicester foi campeão, Ranieri é agora o “Thinkerman” e tudo isto custou cerca de 15 milhões de dólares às casas de apostas. (só para efeitos comparativos, é de registar que as apostas nas possibilidades do Leicester ser campeão ombreavam, a significativa distância, com as apostas sobre a possibilidade de Bono, vocalista dos U2, ser o próximo Papa ou Kim Kardashian tornar-se presidente dos Estados Unidos, em que se pagava, respectivamente, 1000/1 e 2000/1).

 

O milagre, como lhe chamaram muitos, teve o seu desfecho na 2ª feira, no preciso minuto em que terminou o jogo entre o Chelsea e o Tottenham. Um empate que retirou ao Tottenham a hipótese que ainda lhe restava de adiar o título do Leicester mais uma jornada. Mas isto são os factos. O que realmente torna esta história elegível daqui para a frente como case study para livros sobre superação e liderança, documentários apaixonados para os amantes de futebol e palestras de motivação é, como sempre será, a matéria humana.

 

Muito se escreveu nas últimas semanas sobre Claudio Ranieri. Depois da vitória, multiplicaram-se as referências. No Twitter, vimos inclusive o treinador do Leicester como “The Godfather” ilustrado com a emblemática frase: “Great men are not born great, they grow great - Don Claudio Ranieri”.

Ranieri foi, até ao passado fim de semana, o homem que nunca tinha sido campeão nacional, apesar de ter estado na liderança de tantas e boas equipas. Leicester não era sequer a primeira equipa inglesa que treinava e com a anterior as casas de apostas tinham certamente demonstrado maior confiança, já que era o reputado Chelsea. Mas Ranieri falhou esses campeonatos todos. Com o Chelsea, como com o Atlético de Madrid, como com a Juventus, como com o Monaco e mais alguns. Chegou ao Leicester depois de ter sido despedido de selecionador da Grécia na sequência do não apuramento dos gregos para o Euro2016.

 

O que aconteceu então em Leicester e que torna a história ainda mais extraodinária? A forma mais convincente como o vi explicado foi no artigo escrito pelo Pedro Candeias, no Expresso de sábado passado, dois dias antes de Ranieri se tornar campeão. Intitulado “O homem a quem aconteceu não sei o quê”, o artigo citava Stan Collymore, ex-jogador e agora comentador, que falava sobre o “problema de Ranieri” até chegar ao Leicester: “Ele era ótimo com os miúdos, mas não tinha jeito para os egos.”

 

Não é nada difícil passar este exemplo do balneário para as empresas ou para qualquer ambiente que exija liderança de equipas. E é muito tentador, sobretudo neste clima de excitação em torno de um tomba-gigantes, fazer apenas o elogio dos second-best, dos jogadores anónimos em qualquer equipa, versus as rock stars ou, se quisermos, os tipos verdadeiramente extraordinários (que não são, forçosamente, nas organizações os que assumem a pose de rock star).

Mas, apesar da enorme simpatia que esta história me desperta, tenho as maiores reservas que as suas lições de liderança sejam lineares como parecem. Pelo contrário, tendo a achar que a história-de-encantar do Leicester encerra, na realidade, verdades aparentemente opostas, mas só aparentemente.

 

É verdade que num ambiente de baixas expectativas, sem confronto com egos poderosos, o desafio da superação é bem mais convincente. Tudo a favor (coisa que as casas de apostas não perceberam). Se quisermos, essa é também uma das razões porque tantas pessoas hoje preferem sair de grandes empresas e iniciar o seu próprio negócio ou projecto profissional, sem confrontos diários com os egos corporativos ou as hierarquias à moda antiga que ainda subsistem. É uma boa razão para quem sai e uma má razão para quem fica.

Mas, liderar uma equipa de underdogs – de não-favoritos - por si só não faz de Ranieri um líder carismático, como agora provavelmente muitos verão, mesmo que dê imenso jeito para colorir ainda mais uma história que é, efectivamente, arrebatadora. No fim do dia, ganha-se e perde-se por causa das pessoas. E é óbvio que um grande jogador que não tem sentido de equipa, serve de pouco ou nada e provavelmente até prejudica. É igualmente verdade que qualquer pessoa prefere não ter de lidar com egos gigantescos, ainda por cima quando alguns são só mesmo ego e nada mais. É um desafio para treinadores como para CEOs, como para um chefe-cirurgião ou um professor na sala de aula. Líder, que é uma palavra de que não gosto especialmente, é alguém capaz de unir várias pessoas em torno de um objetivo comum. E um líder que só se consegue afirmar se não tiver de conviver e liderar outros tão bons ou melhores que ele dificilmente será grande.

 

Gosto muito da filosofia – foi assim que ele lhe chamou – de Ranieri no que respeita a não se intimidar com rock stars. ("All the time I said to my players I don't care about the name on the badge or the name of the opponents”.] É um excelente princípio para enfrentar adversários. E pode ser uma excelente maneira de lidar com as “estrelas” de qualquer balneário. Mas, nesta semana,Ranieri também repetiu e insistiu que não quer ‘big names’ no Leicester. E isso já me desencanta porque no futebol como em qualquer outra coisa faz falta e dá um gozo enorme ver os Cristianos Ronaldos que por aí andam.

 

Nas empresas portuguesas, a quem é apontado sistematicamente um défice de gestão, o caso Ranieri podia ser um bom pretexto para discutir como se motivam pessoas, sejam elas underdogs, rock stars ou simplesmente medianas. E como se faz com que todas juntas resultem efectivamente numa equipa. Se conseguíssemos mais vezes que isto acontecesse, provavelmente a vida das empresas corria melhor. Provavelmente, a vida do país corria melhor. Mas, suspeito, que tal como provavelmente aconteceu a Ranieri, muitas vezes não se ganham campeonatos apenas por problemas de egos. De quem lidera, sobretudo.

 

Não termino sem a lição mais óbvia que o caso Ranieri poderá deixar e que provavelmente mais falta faz a quem por ela procura. Ranieri foi o homem que nunca foi campeão com grandes equipas e que acabou campeão à frente de uma equipa pequena. Nunca saberemos se não aconteceu mais cedo por falta de capacidade ou mera infelicidade, mas sabemos que chegou o dia em que, com as pessoas certas e no momento certo, a vitória lhe sorriu. E isso, seja como for, será sempre uma inspiração para todas as vezes que se tenta e se falha.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

 

O Netflix estreou ontem a sua primeira produção europeia. "Marseille", conta com Gérard Depardieu e Benoît Magimel e não quer ser o novo "House of Cards", mas sim outra coisa. Vamos ver o quê.

 

 

E Marselha foi sempre uma terra de segundas oportunidades, escreve a BBC ao contar esta história de uma sinagoga que está a ser vendida a uma organização muçulmana que aí pretende fazer uma mesquita. Vale a pena ler.

 

 

Este artigo teve uma 2ª edição às 14h30 para inserir link do The Telegraph com informação mais detalhada sobre as apostas referentes às possibilidades de o Leicester ganhar o campeonato inglês.

publicado às 11:48

O mundo sabe que ... é um Sporting-Benfica

Por: Miguel Morgado 

 

 

Sporting-Benfica. O derby é muito mais que um jogo. É o duelo das nossas vidas. Une amigos e famílias. Mas também os divide. Atravessa gerações, de pais para filhos, de netos para avós. Uns estreiam-se no clássico pelas mãos dos familiares. Outros, não. No meu caso, um tenent-coronel foi o meu bilhete de entrada. Tudo porque o meu pai, que me levava a todo o lado, nunca me levou à tal partida. Já eu, com quatro filhos, dois do Sporting, uma do Benfica e outro ainda sem idade para escolhas, levei o mais velho, pela primeira vez, no ano passado. E repito neste sábado. Caro leitor, embarque comigo nesta viagem às raízes de uma paixão por um jogo especial. Talvez encontre semelhanças com o que se passa lá em casa.  

  

Spooooooortiiiinnnnng. Benfiiiiiicaaa. Cada vez que se aproxima o derby dos derbies uma voz começa a ecoar na minha cabeça. Já lá vão pelo menos, citando de memória, 34 ou 35 anos. Quase tantos quantos os tais jogos especiais a que assisti. A memória puxa as cores. Verdes, brancas e vermelhas. Os olhos atentam os cachecóis ao ar e as bandeiras ao vento. Os ouvidos escutam os tambores a rufar, as buzinas a apitar e as gargantas a cantar. As palmas batem umas nas outras. O corpo vibra com o estádio a transbordar de paixão. Uns experimentam o sabor da vitória. Outros, a azia da derrota.

 

Qualquer criança, a quem desde tenra idade seja injetada a paixão do futebol, sonha, um dia, estrear-se naquilo que é muito mais que um jogo. Seja pela mão do seu pai, pelo braço do seu avô, guiado pelo irmão mais velho ou por um tio afastado. O mesmo é válido para qualquer progenitor ou ascendente familiar. Os elos familiares, as cumplicidades, para muitos, começam nestes palcos. Lado a lado. De braço dado. De pé e sentados. Com sol ou chuva, de dia e de noite. Gritando, saltando, chorando, rindo, festejando e esquecendo. Avós, pais, filhos, netos, primos e tios - e acrescento, amigos, juntos naquela que é a segunda família.

 

Não fui exceção. Ou antes, fui. O meu pai, adepto do Sporting, uma clubite que herdou, ensinou-me que o Sporting-Benfica é muito mais que um simples jogo, levou-me e ao meu irmão a ver muitos jogos - dezenas deles ! -  percorreu connosco Portugal e além fronteiras. Tudo para ver o Sporting. Tudo, à excepção de um Sporting-Benfica ou Benfica-Sporting. Aquele jogo. O tal jogo. Estranho, dizem todos a quem conto isto.

Tem uma explicação, como tudo na vida. Perante o derby, o meu impôs-se uma tática anos a fio: abstrair-se do mundo. Ia trabalhar, folheava os livros nas livrarias do velhinho Centro Comercial Alvalade, Apolo 70 ou Arco Íris, em Lisboa. Mais recentemente, refugia-se no cinema. Simplesmente, não consegue ver. Os meus 44 anos ainda não me permitem encontrar explicação para esta espécie de hara-kiri. Não sei se o leitor compreende. Ele lá saberá o porquê. Adiante.

 

O meu primeiro derby

 

Ora, sem o empurrão do meu pai, com o meu avô materno adepto do Torreense, já sem a presença do meu avô paterno, o meu primeiro jogo do século foi na companhia de... um tenente-coronel que vivia no mesmo prédio onde morávamos. Foi a ele que o meu pai decidiu confiar os dois filhos, a alguém que, pelas insígnias ao ombro, impunha respeito. E ordem. E assim foi. Corria o ano de 1982, nos melhores lugares do estádio, na central, debaixo da pala do velho José de Alvalade, com os anéis olímpicos a servirem de auréola em cima da minha cabeça que vi aquele jogo. Com tanta gente respeitável (e velha) ao nosso lado, eu e o meu irmão comportamo-nos como verdadeiros meninos de coros, rapazes que mais pareciam ter saído do Colégio Militar. O Sporting venceu por 3-1. Jordão meteu os golos na baliza de Bento que acabou expulso por agressão ao capitão Manuel Fernandes. O máximo do vernáculo utilizado foi um “Buuuuu... fora o árbitro. O árbitro é ladrão. O árbitro é ladrão”.

 

Passaram uns anos, ganhei “asas” e vocabulário e comecei a ir ver os Sportings-Benficas com amigos. Mudei de lugar. Deixei de ver a bola sentado e passei a vê-la à distância, atrás das balizas, entre cabeças de gente que se acotovelava à minha frente. Com amigos, muitos dos quais ainda hoje me acompanham. O derby começava logo no início da semana. Nos bancos da escola e nas antecipações lá em casa. Antecipado que estava este fim de semana desde que era conhecido o calendário oficial da época, nesse dia, nada, mas mesmo nada, me poderia desviar da romaria a Alvalade. Uma caminhada que começava sempre à hora do pequeno almoço. Fosse a que horas fosse o encontro. Íamos para as concentrações. Juntava-me àquela família chamada “A Tribo do Futebol”. Saia de casa a gritar. Tinha voz até as cordas vocais me permitirem. A horas de distância do apito inicial, puxava dos pulmões um reforço para aguentar, metia pastilhas de mentol pela boca abaixo e resistia com as forças que quem corre maratonas.

 

O dia seguinte era (e muitas das vezes ainda continua a ser) preenchido com algumas horas de silêncio para recuperar a voz e outras tantas para mergulhar nas páginas do jornal desportivo publicado no dia seguinte. O resumo televisivo dos 90 minutos era momento de prime time lá em casa. Hoje, tudo é diferente. Já não se cola o ouvido ao rádio para saber se é penalty. No próprio estádio não desgrudamos os olhos do smartphone enquanto não escalpelizarmos as três repetições do lance. É golo. É grande penalidade. Tem de ser expulso.

 

Nestes jogos que já valeram dois pontos, valem três, nem mais ponto nem menos ponto, há derrotas, há empates e há vitórias. Umas mais expressivas que outras. Da adolescência recordo, em especial, alguns jogos. A tal tarde-noite de dezembro dos 7-1, em 1986. Aquela, num ano em que o Benfica terminaria campeão, serviu de consolo, numa espécie de troféu de caça, para quem torce pelos rapazes de verde e branco. Mais um pulo na história e na estatística e entra a célebre vitória do Benfica por 3-6. Recordo-o não tanto pelo passo de gigante que as águias viriam a dar rumo ao título, mas porque era dia da minha festa de anos. Tudo programado a seguir ao jogo. Restaurante marcado para mais de 40 pessoas. No final, sem recurso a telefonemas, emails, whatsapps, facebooks, faxes, pombos-correio ou outra forma, uma fibra óptica ligou a mente de todos os convidados e cada qual foi para casa. Uns a rirem. Outros a chorarem. Desconheço o estado de espírito do dono do restaurante. A viagem no tempo termina em 1999, ano de quebra do jejum leonino, em que um egípcio de nome Sabry gelou Alvalade e adiou por uma semana o festejo do título.  

 

A família entra em campo

 

Estamos a poucas horas de mais um jogo. Com quatro filhos lá em casa, dois rapazes e duas raparigas, os mais velhos são do Sporting, a número três na hierarquia decidiu pegar os irmãos (e resto da família) pelos cornos e assumiu-se como benfiquista. O outro, o benjamim, ainda não tem voto na matéria, embora, na privacidade das brincadeiras de todos os eles, seja uma verdadeira bola disputada entre quem está em minoria e os outros.

 

No ano passado, foi ano de estreia do rapaz mais velho na ida ao clássico dos clássicos. Confidencio que esteve para não ir. Tudo porque naqueles castigos de impulso que impomos, sobre os quais nem sabemos o porquê de o ter feito e que lá bem no intímo sabemos que não iremos cumprir, o tal castigo separava-o de entrar pela minha mão no jogo das nossas vidas. Com as lágrimas a caírem em jato pela cara, a palavra “vamos embora” serviu de aspirador daquelas cataratas do Niagara. Poderia ter outro castigo. Comer sopa de brócolos, peixe cozido todos os dias da semana seguinte, eu sei lá, qualquer coisa menos impedi-lo de ir à bola ver o tal jogo. E assim fomos e regressamos com um empate (1-1).

 

Este ano, o derby já começou. Já foi falado e falado lá em casa. Discute-se na rua. Nos cafés, nas escolas, nos transportes públicos e no local de trabalho. Programas televisivos e de rádio dedicam horas e horas aos 90 minutos de sábado. As redes sociais elevam o tom e estão a “bombar”, como diria o nosso ex-primeiro-ministro.

 

Eu vou. O meu filho de 11 anos também vai. O meu irmão leva a filha. Ah... o meu pai, que nunca entrou neste filme, vai ao cinema na companhia da mulher que, por acaso, é benfiquista. Já todos nós antecipamos o resultado. O meu filho confidenciou-me que, independentemente do desfecho final, vai entrar em casa a cantar a música “o mundo sabe que...” aos ouvidos da irmã, que é afeta do rival.

 

A ver vamos se não enfia a viola no saco.  

 

 

Nota do SAPO24

 

Conte-nos também as suas memórias do derby. Quando foi a primeira vez, qual o jogo que nunca esqueceu, como vai viver o derby de amanhã. Envie-nos a sua história para conteudos@mail.sapo.pt e as melhores serão publicadas aqui. 

 

(actualização a 7 de Março 2016, 11h00)

As outras memórias do derby podem ser lidas aqui.

 

publicado às 19:25

Um “ai o Carrillo” nas chinesices de Inverno

Por: Miguel Morgado

 

Entre referências a cabras, perus e galinhas chegou ao fim a longa novela peruana com Carrillo como personagem principal. Trocou o Sporting pelo Benfica. O presidente dos leões desvalorizou a perda do ativo e disparou nas redes sociais. Entretanto, a janela do mercado de inverno fechou na Europa mas a porta continua aberta, até ao final do mês, na China. Que entra no Ano do Macaco a gastar milhões. Por cá, há import-export com esse país grande que começa a gastar à sua dimensão. Na Liga e nos clubes. De lá vieram patrocínios. E para lá foi um “avioncito” e veio um “Pirata”. Antes, Jorge Mendes já tinha entrado em cena ao lado do Cirque du Soleil.  

Por razões profissionais, assisti à vinda de André Carrillo para o Sporting. Na altura questionei-me sobre a razão de, além do empresário (Elio Casaretto), acompanharem o jovem internacional peruano mais três figuras que se intitularam de diretor para o futebol, de marketing e ainda um cujo pelouro não ficou na memória. Hoje sei o porquê dessa, então, forte ligação de todos ao jogador que saiu do Allianza Lima para Portugal. A expectativa era que valesse ouro. E comissões. E valeu mesmo. Mas só para alguns. De fora destas contas ficou o clube que o trouxe.   

 

Janeiro é o mês conhecido como a “janela de Inverno” no mercado de transferências do futebol europeu. E é também um mês em que jogadores em fim de contrato podem assinar, livremente, por outro clube. Ora foi o que sucedeu com André Carrilo, internacional peruano de 24 anos que ainda veste as cores do Sporting Clube de Portugal mas que na próxima época muda-se para o eterno rival, Sport Lisboa e Benfica.

 

A mudança foi o ponto final numa novela que se arrastava, pelo menos, desde a temporada passada. Falamos da renovação do contrato de Carrillo com os leões. Pelo meio ouvia-se falar de meia Europa atenta e do piscar de olhos de Benfica e Porto a este diamante.

 

No longo duelo de vontades entre o presidente Bruno de Carvalho e o agente do jogador, Elio Casaretto, o jogador foi “encostado”, após uns pontapés na bola durante quatro jogos e mesmo depois de Jorge Jesus ter dito que este “daria milhões” ao clube. Como se viu, não deu e, por agora, os leões perderam financeiramente, já que nada retiram deste ativo (o Sporting pondera exigir em tribunal uma compensação financeira). Mas ao invés, deu - e muito - a ganhar ao agente e ao jogador, que além do prémio de assinatura receberá um ordenado muito superior ao que auferia pelas bandas de Alvalade. E poderá dar ao novo clube, caso o jogador dê o salto para outros palcos de cofres recheados.

 

Desportivamente, o Sporting sai, por enquanto, ileso. É líder, ex aequo com o Benfica. Mas aqui, meus senhores, é no final que as contas são feitas. E Carrillo, de águia ao peito, até pode receber as faixas de campeão pela equipa... liderada por JJ, o tal que saiu em sentido inverso. Ou então, se o Benfica conquistar o "tri", o peruano poderá dar no Seixal mais um passo na sua afirmação, podendo, no futuro, dar o retorno desportivo e financeiro de que dele se espera.

 

O fungagá da bicharada nas redes sociais

 

Com o peculiar estilo que carateriza o presidente do Sporting, a saída sem compensação de Carrillo não poderia passar sem polémica. E uma boa “peixeirada” das antigas. Ainda para mais para a equipa que viu arquivado o processo dos vouchers. Nas redes sociais (where else), numa mini-entrevista feita a si próprio, Bruno de Carvalho, escreveu dirigindo-se a Casaretto: «Permita-me, caro agente sem jogadores, um conselho: volte lá para o seu rebanho de cabras que no final do processo eu, como sempre fiz em todos os assuntos, explicarei a todos e de forma detalhada toda esta novela peruana.». Ou seja, BdC, “mandou” o empresário pastar cabras, deixando antever que será, nesta história, o último a rir. Mas faltou-lhe por agora, e não no futuro, fazer uma pergunta e dar a respetiva resposta. Explicar porque é que, com quase três anos de mandato e muitas renovações feitas, esta lhe escapou. Um próximo capítulo a seguir no Facebook.

 

Mas a bicharada virtual não se reduziu a cabras. A fábula do Bruno meteu ainda perus e galinhas numa resposta ao presidente Sindicato dos Jogadores Profissionais do Peru. Resumindo, o presidente dos leões (Rei da Selva) rugiu bem alto um “ai o Carrillo” em todas as direções. O jogador ainda hoje “jogaria na rua” se não fosse o clube que o projetou, o empresário não ganharia um “tostão” sem essa promoção e, em resposta a uma provocação de Casaretto sobre onde estaria BdC se não fosse o Sporting, retorquiu dizendo que o clube a que preside “estaria falido”. E à tal saída a custo zero, entre prémios de assinatura e comissões, diz que se devem acrescentar um número e muitas casas decimais.  

 

Com a Europa de janela fechada, a China assalta o mercado com milhões

 

O mercado de Inverno da bola europeia fechou sem grandes movimentações internas. Mas fora do espaço europeu, mexeu. E muito. A China é grande, quer ser grande e começa a gastar à sua dimensão no futebol. Neste mercado de inverno europeu, seis das cinco contratações mais caras envolveram clubes chineses: Alex Teixeira (50 M€), Jackson Martinez (42M€), Ramires (28 M€), Elkerson (18,5M€) e Gervinho (18M€). Estes e mais outros, tudo somado, até à data, ultrapassam os 300 milhões de euros. O mercado só fecha no final do mês. Um mês em que se inicia o novo ano. O Ano do Macaco que, dizem, será propenso ao risco e às mudanças. E gastos.

 

No que toca a Portugal, o Sporting reclama para si um negócio da China. Freddy Montero, “el avioncito”, saiu a troco de 5 milhões de euros para o Tianjin Teda e em sentido inverso veio Hérman Barcos, “el Pirata”. Dias antes, a Liga de Clubes tinha assinado um contrato de patrocínio com a gigante da tecnologia Ledman. Meio milhão de euros por época e outros “bónus” e a Ledman LigaPro arranca no próximo ano, já sem a cláusula de “obrigatoriedade” de inscrição de jogadores chineses nas primeiras 10 equipas na tabela classificativa.

 

 

Para a China, o rectângulo verde onde se joga futebol não se resume ao palco de uma atividade desportiva. É antes de mais o tabuleiro onde se jogará a mais pura das politicas de afirmação de poder e soberania no quadro da geopolítica. “O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo”. A frase é de Xi Jinping, o homem forte da China.

 

Sempre atento, Jorge Mendes já tinha avisado do poderio desta nova superpotência. E não perdeu tempo. Enquanto Sporting e Benfica abrem escolas de formação naquele país - a China pretende abrir durante a próxima década 50 mil escolas de futebol -, o melhor empresário do mundo estabeleceu uma parceria com Guo Guangchang, líder da Fosun, donos do Cirque du Soleil visando trabalhar no desenvolvimento desportivo e comercial do futebol chinês. Para já, já, é dele uma das maiores transferência do ano 2016: Jackson Martinez. O tal que estava sentado no banco de suplentes do Atlético de Madrid. Parece piada de carnaval, mas não é. É que o futebol, apesar de quase possuir um ''mundo próprio'' e de muitas vezes viver imune e à margem de crises, na China, dia a após dia, ganha novos contornos. É só aproveitar.

publicado às 16:39

Os tostões do Tondela no negócio dos milhões

Por: Miguel Morgado

 

O melhor contrato é o MEO, ouve-se a norte. NOS é que conseguimos um acordo histórico, bradou Bruno de Carvalho. A Águia não quer ficar de bico calado e já se fala em cláusula de salvaguarda. Os “Três Grandes” do futebol português venderam jogos, camisolas, publicidade no estádio, televisões dos clubes e sabe-se lá mais o quê. Cada qual reclama que fez o melhor no negócio do século. Tal como no número de sócios e adeptos, a “galinha da vizinha” é sempre inferior à minha, agora transformada no meu contrato é maior que o teu. As operadoras agradecem. Porque o jogo é agora deles. Até 2030. E a “Liga dos Pequenos” está aí: “on sale”.

 

No mundo financeiro português os Bancos caem uns atrás dos outros. Contribuintes e investidores institucionais são chamados a garantir a sua sobrevivência. No mundo da bola, em ano de crise e com falta de liquidez, do banco das presidências das SAD parecem sair soluções miraculosas para o futuro do futebol nacional. Com a ajuda das empresas que começaram por vender telefones, telemóveis e que evoluíram para internet e televisão, a batalha pelo apetitoso conteúdo futebol trouxe para a mesa das negociações números nunca antes vistos: milhões, muitos milhões por jogos de futebol, que a partir de agora podem ser vistos nas múltiplas plataformas: tv’s, computadores, tablets, telemóveis e smartphones.  

O Sport Lisboa e Benfica foi o primeiro a abrir caminho. Luís Filipe Vieira preparava-se para desfilar na passadeira de figura do Ano com o mega-contrato de venda dos direitos televisivos dos jogos (em casa) do clube da Luz e com os direitos da exclusividade da Benfica TV. Um “kit” que deixa de parte as já patrocinadas camisolas e o estádio. As manchetes dos jornais cobriram-se de vermelho de reconhecimento.

 

Com a serenidade que se lhe reconhece, Pinto da Costa calou o vento suão que soprava e disse com pronúncia do norte: é MEO o melhor contrato. Os valores milionários oferecidos pela Altice/PT (dona do MEO) não mentiam e ultrapassam os dos encarnados. Para tal incluiu no pacote, para além dos jogos caseiros dos azuis e brancos e da televisão do clube, Porto Canal, o patrocínio nas camisolas e no estádio durante uma década.

 

Bruno de Carvalho tem dito (e mostrado) que o Sporting Clube de Portugal está na luta. No campo, nas palavras e na(s) exigência(s). Beneficiando de “outras guerras” ou pela audácia de saber esperar, o terceiro a fechar negócio surge como o primeiro em valores. Históricos no bolo final. Que é o que afinal conta para os adeptos. Nem que nesta espécie de Bolo Rei caiba lá muita fruta: as imagens de Slimani, JJ e companhia em Alvalade, a TV, a publicidade estática e virtual do estádio, camisolas, renegociações e sabe-se lá mais o quê. Afinal não estavam mesmo a saldo. NOS é que fizemos o acordo do século, gritam os leões. Será mesmo assim?

 

Uma década de bola numa operadora perto de si

 

Os três contratos não são comparáveis entre si porque em cima da mesa estão pacotes diferentes. Agora, o povo português, pouco sabichão na matemática, gosta muito, no entanto, de puxar pelo tamanho dos números. Avulso, sem interpretações e com muita emoção e pouca razão, o que interessa são os milhões que entram: os 400 de Benfica, os 457 do Porto ou os 515 dos leões (que reduzem-se a 446 milhões se falarmos só de vendas dos direitos televisivos). Juntos somam uma “pipa” de massa: mais de 1300 mil milhões de euros. Uma verba que, no entanto, não chega para a recapitalização do Novo Banco. Mas isso dos bancos foi chão que já deu uvas aos clubes de futebol. Agora é, como se vê, a vez das operadoras de telecomunicações entrarem em campo comprando e lutando pelo melhor conteúdo dos clubes: a bola e os craques.   

 

Sobre o que se assinou pouco ou nada sabemos. Todos os contratos têm cláusulas de confidencialidade. O do Benfica até parece permitir uma renegociação que o pode recolocar na liderança, numa espécie de vitória na secretaria. Da clareza dos números em bruto partimos para a certeza da duração: vão dos 10 aos 12,5 anos, entre imagens dos jogos e venda das televisões e exploração comercial. Uns a contar a partir de janeiro 2016, outros só em 2018. Ou seja até 2026, 2018 e 2030, respectivamente, mais ano ou menos ano, mais euro ou menos euros, os dois players do mercado das telecomunicações são agora também eles, e por muitos anos, os “donos da bola”. Os telespetadores agradecem, assim como os (aflitos) clubes, que ganham a curto prazo, embora desta enorme injeção de dinheiro nada se saiba quer quanto ao “quando”, quer quanto ao “montante” que entra durante o período definido, e se sairá para comprar craques ou pagar as contas. A certeza que existe por agora é que os clubes, à eterna discussão de quem tem mais adeptos, mais títulos ou melhor academia, somam agora uma nova sobre quem “fechou” hoje o mais alto valor neste negócio do século. 

 

A “Liga dos Pequenos” mostra o que vale

 

Fechado que está o assunto dos “Três Grandes” as atenções viram-se para a “Liga dos Pequenos”. A NOS deu ontem, penúltimo dia do ano, o pontapé de saída. Meteu mais oito clubes no pacote. A começar em 2019 e a terminar até dez anos depois. A bola está agora do lado da MEO. Porque o campeonato tem 34 jornadas e porque os “grandes” também jogam fora, o negócio é apetitoso. Pelo que o Tondela ou o União da Madeira ainda podem reclamar que fizeram o negócio de uma vida... medido em tostões.  

 

Hoje operadoras, clubes e telespetadores regozijam de contentamento. Daqui a 10 ou mais anos faz-se o balanço. E... bom, aí é “fazer a conta”, uma frase celebrizada por um ex-primeiro ministro, engenheiro de profissão, mas que se atrapalhou com tanto milhão. Logo se vê, dirão os clubes que vendem uma década de receitas de uma vez só. E, já agora, ninguém sabe como será a evolução do mercado, o das telecomunicações, das transmissões e do futebol. Mas como se diz na gíria, prognósticos só depois... do fim dos contratos. Até lá, caro leitor, toca a sintonizar o clube do seu coração, abram espaço aos artistas e deixem a bola rolar.

publicado às 19:26

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