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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Amanhã é dia de Taça e joga o Braga. Marcelo, o invasor de campo, é agora Marcelo, o presidente

Por: Miguel Morgado

 

Marcelo Rebelo de Sousa é um assumido adepto do Sporting de Braga e presenciou ao vivo todas as finais da Taça de Portugal em que o clube participou. Cinco até agora. Primeiro enquanto aluno, depois membro do governo, professor universitário, comentador político na televisão e, finalmente, estará no Jamor, no Estádio Nacional, na sexta final, pela primeira vez na pele de Presidente da República. Ele que já se transfigurou e foi um “invasor de campo” na sua estreia da prova “a doer”.

 

 

Pois é. Marcelo, o aluno, viu o Braga ganhar a única taça da sua história. Foi precisamente há 50 anos. Em 1966, então, com a idade de 17, ainda sem “pêra e bigode”, com “cachecol ao peito”, “frenético”, dando asas à inesperada alegria por causa do golo de Perrichon, saiu “disparado” das bancadas do Estádio Nacional e tentou, com uma “dinâmica” diferente dos dias de hoje, saltar para o campo para se juntar à festa bracarense. Mas a polícia não foi da mesma opinião e não deixou. Resultado? Levou “uma marretadazinha patriótica, suave e doce”, recorda Marcelo, comentador, em entrevista ao site da Federação Portuguesa de Futebol que recuperamos aqui nas vésperas da final do ano passado, com Sporting Clube de Portugal.

 

Domingo, o agora Chefe de Estado partilhará o palco com os artistas do tapete verde. Dita a tradição que o Hino Nacional seja escutado após o anúncio da sua presença. Dita igualmente o protocolo que Marcelo Rebelo de Sousa se sente na Tribuna presidencial e siga a tradição de, a partir do mais nobre lugar do Estádio, distribua medalhas por todos e entregue a Taça de Portugal só a uns, podendo nessa altura, finalmente, tocar no “caneco” que outrora lhe escapou ao toque aquando da tentativa de invasão.

 

Entre o protocolo e tradições, resta saber se tudo será “by the book” ou se, ao invés, Marcelo poderá surpreender, ou talvez não, e dar, antes do apito inicial, um mergulho à mata do Jamor, porque é ali que está a raiz e a razão da disputa da final da Taça de Portugal no Estádio Nacional, neste campo que é neutro e de todos. Se Marcelo dança em Moçambique ou assiste a inaugurações de “Padarias Portuguesas”, porque não vê-lo, em segurança, entre os seus e ao lado de todos os outros, vestindo a pele de presidente adepto, presidente dos Portugueses e adepto fanático do Braga, juntos na mesma pessoa fazendo pontes entre ambos.

 

Um especialista em finais e algumas histórias de várias delas

 

Os presidentes da República portuguesa assistem aos jogos e assumem, em regra, a despesa das entregas dos troféus e dos cumprimentos aos vencedores e vencidos. Há uns que não gostavam (Mário Soares), outros que sim (Jorge Sampaio) e outros a quem os jogadores não passaram cartão (em 2013 alguns dos craques do Benfica, de Jorge Jesus, não reconheceram e não cumprimentaram o presidente Cavaco Silva, na final perdida frente ao Vitória de Guimarães, de Rui Vitória). Já Marcelo diz-se especialista em finais.

 

Domingo a bola é redonda e são 11 contra 11. Sobre o estado de espírito do presidente da República terão a palavra o Futebol Clube do Porto e Sporting de Braga. Os dois clubes já por duas vezes se defrontaram numa final, uma no Estádio das Antas (1978) e outra no Jamor, dez anos depois. Seguiram-se outras finais bracarenses cujo resultado conheceu sempre o mesmo desfecho: a derrota. E na viagem pelo tempo há uma final que é sempre recordada. Na época 1981-1982, Quinito, treinador dos Arsenalistas, entra em campo vestido de fraque, mas o traje pouco ou nada adiantou, pois viria a ser o Sporting a fazer a festa. 

 

Falar da Taça de Portugal que hoje ganha o nome de Taça de Portugal Placard é falar, entre muitas outras, da final da contestação ao Estado Novo, em 1969, no Benfica-Académica, mas é também recordar a partida da consternação do “very light” e da morte de um adepto sportinguista no jogo com o eterno rival, em 1996. Ou do ano em que Manuela Ferreira Leite, assistiu à entrega da Taça a João Pinto, capitão do FC Porto, que venceu na finalíssima o Sporting, debaixo de uma chuva de garrafas de plástico. Houve finais em que a política falou mais alto: em junho de 1974, mês e meio depois do 25 de abril, antes do jogo, o hino nacional foi precedido do Grândola, Vila Morena.

Houve também jogos improváveis e cujo vencedor já não existe (Estrela da Amadora derrotou, em 1990, o Farense) ou cujo vencido também já desapareceu do mapa (Campomaiorense na final frente ao Beira Mar, numa final que teve a particulariedade de ser antecedida por uma oferta generosa do filho do Comendador Nabeiro – bifanas, imperiais, cafés Delta e música para todos os adeptos presentes no Jamor). Numa competição dominada pelos grandes, cinco equipas da 2ª divisão conseguiram chegar às finais: Setúbal, Estoril, Farense, Leixões (este da 2.ª B) e Desportivo de Chaves, mas nenhuma ganhou. Entre as curiosidades mais recentes destacamos a presença (2008), nas bancadas, de Jorge Jesus, assistindo a uma final leonina, talvez antecipando então que viria a caminhar com aquela gente.

 

O presidente adepto na festa do povo

 

A Taça de Portugal começa muito antes de se levantar o troféu, nas matas, epicentro de pic-nics, com couratos e bifanas, cervejas e vinho, sardinhas assadas e tudo o mais que sirva para fumegar. A Taça no Jamor é a festa de um povo que se espalha pelo imenso pulmão verde de Oeiras, com adeptos de barrigas mais ou menos proeminentes, a chutarem a bola mostrando, a quem passa, a razão de não estarem no palco principal, ou outros que preferem mesmo o desporto de levar o copo à boca. Ali, tudo se partilha, não há públicos nem privados. Comem todos do mesmo. É a essência do ser português. Por isso, não se admire de ver Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente adepto por lá. Antes de subir à Tribuna e cantar o Hino. Aguardaremos então pelo apito inicial e, já agora, depois pelo final para ver como e a quem fará a entrega da Taça de Portugal. 

publicado às 11:44

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