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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Leicester é uma lição. Sobre egos a mais e a menos

 

Por: Rute Sousa Vasco 

 

O futebol é feito de mitos e de heróis, não necessariamente por esta ordem. Também é verdade noutros desportos, seja no SuperBowl, na fórmula 1 ou no ténis, mas a popularidade do futebol faz com que o poder de uma boa história seja elevado à máxima potência. E na grande história dos mitos e heróis do futebol, o Leicester é, perdoem a informalidade, um capítulo do caraças. Tem todos os ingredientes: um não-herói (a equipa), um falhado (Ranieri) e todo o favoritismo dos grandes (Chelsea, Manchester United, Manchester City, Arsenal).

 

 

E como se tudo isto não fosse suficiente, ainda conseguiu provocar um dos maiores rombos de sempre nas casas de apostas. Há dez meses era canja para as casas de apostas propor 5000 contra 1 na possibilidade de o Leicester ser campeão e, já agora, do seu treinador, Claudio Ranieri ser dos primeiros a ser despedidos na Liga inglesa. O Leicester foi campeão, Ranieri é agora o “Thinkerman” e tudo isto custou cerca de 15 milhões de dólares às casas de apostas. (só para efeitos comparativos, é de registar que as apostas nas possibilidades do Leicester ser campeão ombreavam, a significativa distância, com as apostas sobre a possibilidade de Bono, vocalista dos U2, ser o próximo Papa ou Kim Kardashian tornar-se presidente dos Estados Unidos, em que se pagava, respectivamente, 1000/1 e 2000/1).

 

O milagre, como lhe chamaram muitos, teve o seu desfecho na 2ª feira, no preciso minuto em que terminou o jogo entre o Chelsea e o Tottenham. Um empate que retirou ao Tottenham a hipótese que ainda lhe restava de adiar o título do Leicester mais uma jornada. Mas isto são os factos. O que realmente torna esta história elegível daqui para a frente como case study para livros sobre superação e liderança, documentários apaixonados para os amantes de futebol e palestras de motivação é, como sempre será, a matéria humana.

 

Muito se escreveu nas últimas semanas sobre Claudio Ranieri. Depois da vitória, multiplicaram-se as referências. No Twitter, vimos inclusive o treinador do Leicester como “The Godfather” ilustrado com a emblemática frase: “Great men are not born great, they grow great - Don Claudio Ranieri”.

Ranieri foi, até ao passado fim de semana, o homem que nunca tinha sido campeão nacional, apesar de ter estado na liderança de tantas e boas equipas. Leicester não era sequer a primeira equipa inglesa que treinava e com a anterior as casas de apostas tinham certamente demonstrado maior confiança, já que era o reputado Chelsea. Mas Ranieri falhou esses campeonatos todos. Com o Chelsea, como com o Atlético de Madrid, como com a Juventus, como com o Monaco e mais alguns. Chegou ao Leicester depois de ter sido despedido de selecionador da Grécia na sequência do não apuramento dos gregos para o Euro2016.

 

O que aconteceu então em Leicester e que torna a história ainda mais extraodinária? A forma mais convincente como o vi explicado foi no artigo escrito pelo Pedro Candeias, no Expresso de sábado passado, dois dias antes de Ranieri se tornar campeão. Intitulado “O homem a quem aconteceu não sei o quê”, o artigo citava Stan Collymore, ex-jogador e agora comentador, que falava sobre o “problema de Ranieri” até chegar ao Leicester: “Ele era ótimo com os miúdos, mas não tinha jeito para os egos.”

 

Não é nada difícil passar este exemplo do balneário para as empresas ou para qualquer ambiente que exija liderança de equipas. E é muito tentador, sobretudo neste clima de excitação em torno de um tomba-gigantes, fazer apenas o elogio dos second-best, dos jogadores anónimos em qualquer equipa, versus as rock stars ou, se quisermos, os tipos verdadeiramente extraordinários (que não são, forçosamente, nas organizações os que assumem a pose de rock star).

Mas, apesar da enorme simpatia que esta história me desperta, tenho as maiores reservas que as suas lições de liderança sejam lineares como parecem. Pelo contrário, tendo a achar que a história-de-encantar do Leicester encerra, na realidade, verdades aparentemente opostas, mas só aparentemente.

 

É verdade que num ambiente de baixas expectativas, sem confronto com egos poderosos, o desafio da superação é bem mais convincente. Tudo a favor (coisa que as casas de apostas não perceberam). Se quisermos, essa é também uma das razões porque tantas pessoas hoje preferem sair de grandes empresas e iniciar o seu próprio negócio ou projecto profissional, sem confrontos diários com os egos corporativos ou as hierarquias à moda antiga que ainda subsistem. É uma boa razão para quem sai e uma má razão para quem fica.

Mas, liderar uma equipa de underdogs – de não-favoritos - por si só não faz de Ranieri um líder carismático, como agora provavelmente muitos verão, mesmo que dê imenso jeito para colorir ainda mais uma história que é, efectivamente, arrebatadora. No fim do dia, ganha-se e perde-se por causa das pessoas. E é óbvio que um grande jogador que não tem sentido de equipa, serve de pouco ou nada e provavelmente até prejudica. É igualmente verdade que qualquer pessoa prefere não ter de lidar com egos gigantescos, ainda por cima quando alguns são só mesmo ego e nada mais. É um desafio para treinadores como para CEOs, como para um chefe-cirurgião ou um professor na sala de aula. Líder, que é uma palavra de que não gosto especialmente, é alguém capaz de unir várias pessoas em torno de um objetivo comum. E um líder que só se consegue afirmar se não tiver de conviver e liderar outros tão bons ou melhores que ele dificilmente será grande.

 

Gosto muito da filosofia – foi assim que ele lhe chamou – de Ranieri no que respeita a não se intimidar com rock stars. ("All the time I said to my players I don't care about the name on the badge or the name of the opponents”.] É um excelente princípio para enfrentar adversários. E pode ser uma excelente maneira de lidar com as “estrelas” de qualquer balneário. Mas, nesta semana,Ranieri também repetiu e insistiu que não quer ‘big names’ no Leicester. E isso já me desencanta porque no futebol como em qualquer outra coisa faz falta e dá um gozo enorme ver os Cristianos Ronaldos que por aí andam.

 

Nas empresas portuguesas, a quem é apontado sistematicamente um défice de gestão, o caso Ranieri podia ser um bom pretexto para discutir como se motivam pessoas, sejam elas underdogs, rock stars ou simplesmente medianas. E como se faz com que todas juntas resultem efectivamente numa equipa. Se conseguíssemos mais vezes que isto acontecesse, provavelmente a vida das empresas corria melhor. Provavelmente, a vida do país corria melhor. Mas, suspeito, que tal como provavelmente aconteceu a Ranieri, muitas vezes não se ganham campeonatos apenas por problemas de egos. De quem lidera, sobretudo.

 

Não termino sem a lição mais óbvia que o caso Ranieri poderá deixar e que provavelmente mais falta faz a quem por ela procura. Ranieri foi o homem que nunca foi campeão com grandes equipas e que acabou campeão à frente de uma equipa pequena. Nunca saberemos se não aconteceu mais cedo por falta de capacidade ou mera infelicidade, mas sabemos que chegou o dia em que, com as pessoas certas e no momento certo, a vitória lhe sorriu. E isso, seja como for, será sempre uma inspiração para todas as vezes que se tenta e se falha.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

 

O Netflix estreou ontem a sua primeira produção europeia. "Marseille", conta com Gérard Depardieu e Benoît Magimel e não quer ser o novo "House of Cards", mas sim outra coisa. Vamos ver o quê.

 

 

E Marselha foi sempre uma terra de segundas oportunidades, escreve a BBC ao contar esta história de uma sinagoga que está a ser vendida a uma organização muçulmana que aí pretende fazer uma mesquita. Vale a pena ler.

 

 

Este artigo teve uma 2ª edição às 14h30 para inserir link do The Telegraph com informação mais detalhada sobre as apostas referentes às possibilidades de o Leicester ganhar o campeonato inglês.

publicado às 11:48

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