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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A matemática acaba onde começa a filosofia

Por: Helena Oliveira

 

Quem precisa de filósofos que pensem se à nossa volta se multiplicam “pensadores”e “opinantes”, que oferecem a sua sabedoria a um ritmo vertiginoso? Como serão os líderes e decisores do amanhã que estão a crescer com o telemóvel debaixo da almofada? Das grandes empresas, como a Google, às universidades, como Harvard, há notícias animadoras: a filosofia está de volta, bem como as humanidades em geral depois de anos em que tudo o que contava era tecnologia e matemática. Temos mesmo de voltar a aprender a pensar na era da técnica.

 

 

Na década de 80 do século passado, a poderosa AT&T sofria uma enorme crise de identidade que poderia ter dado cabo da sua reputação e levado o seu fundador, Alexander Graham Bell, o inventor do telégrafo falante, vulgo, telefone, a dar muitas voltas na tumba. Como seria de esperar, e perante as dúvidas sobre o seu futuro, a empresa voltar-se-ia para os consultores de gestão – espécime em franca expansão à época – na tentativa de obter a resposta que poderia ditar o seu futuro: entrar ou não entrar no mercado emergente dos telefones celulares.

 

Utilizando os habituais modelos preditivos matemáticos, os consultores chegariam à conclusão que os telefones móveis serviriam apenas um nicho de mercado e não um em que valesse a pena investir tempo e recursos. Assim, e tal como tinha acontecido com a Digital Equipment Corporation nos anos 60 que, erradamente, tinha também previsto que nunca existiria uma forte procura por computadores pessoais, a AT&T faria um enorme erro de cálculo no que respeita a uma das mais importantes inovações tecnológicas e comerciais dos nossos tempos.

 

Ao confiar exclusivamente na gloriosa exatidão das ciências matemáticas – indispensáveis, sem dúvida, para a construção de um telefone – a gigantesca empresa de telecomunicações esquecer-se-ia do mais fundamental: o que significaria realmente ter um telefone móvel e por que motivo alguém daria dinheiro para o adquirir.

 

Esta história é contada por Ryan Seltzer, ex-consultor de gestão, que deixou o negócio da consultoria num banco em Boston (antes trabalhara na Casa Branca) - para fundar uma empresa de filosofia – a Strategy of Mind – que ajuda agora muitas outras congéneres a responder e a resolver alguns dos mais complexos desafios de gestão, nomeadamente aqueles que começam com a mais básica das questões: o “como”.

 

Serve esta introdução para falar da importância da filosofia – ou, mais especificamente, da sua aparente inutilidade – nos tempos que correm, muito graças à crescente obsessão pelas ciências exatas – nomeadamente as que cabem no famoso acrónimo STEM – para ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas ou “aquilo que está a dar”, mas não só.

 

Sim, é certo que a relevância social das denominadas ciências humanas – sim, pasme-se, também são ciências – deambula perdida nas ruas da amargura, que o seu lugar institucional é mais do que desvalorizado e a sua função pedagógica crescentemente posta em causa. Sobre esta crise que paira sobre todas as áreas do saber que não prestam vassalagem à exatidão, escreve Manuel J. do Carmo Ferreira, Professor Catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa (aposentado),na revista Gaudium Sciendi, da Universidade Católica Portuguesa: “irrelevância como saber, ineficácia como intervenção, desfasamento em relação aos avanços em outras áreas do conhecimento, são os traços maiores de uma prolongada crise de legitimação das Humanidades, a que se vem juntar a insegurança dos que as cultivam quanto à natureza e títulos de afirmação do seu campo disciplinar”.

 

Mas se a prosa sobre a crise das humanidades daria pano para muitas mangas, centremo-nos apenas na Filosofia, cujo lugar na sociedade contemporânea sofre de uma enorme ambiguidade: se, por um lado, existe um desinvestimento claro no seu ensino e aplicação – quem quer trocar um filho proficiente em tecnologia por um que se perca nessa coisa que não serve para nada chamada filosofia? – por outro, e em particular no mundo dos negócios, a filosofia parece estar a transformar-se num mantra repetido por muitos no sentido de que pode ajudar ao tão almejado sucesso, aquela palavrinha que todos usamos sem nunca pensarmos no seu verdadeiro significado.

 

Apesar de, na maioria das vezes, não aparecer em estado “puro”, mas antes transvestida em modas que acabam por ser efémeras, um tonzinho filosófico fica sempre bem, principalmente na poderosa indústria da liderança, que à falta de novas ideias, vai embarcando na onda do coaching, seguida pela vaga do mindfulness – que vai de vento em popa, a propósito – e de outras que tais, “perfeitas” para se lidar com a também chamada era da complexidade e nela triunfar, é claro.

 

Ora, se é complexo, é filosófico e mesmo que se atropelem definições, conceitos e práticas, se juntem alhos com bugalhos, retirados de receitas milenares chinesas, com pozinhos pós-modernos de inteligência emocional, temperados ainda - e porque as especiarias, seja qual for a sua origem, aguçam o espírito - com umas técnicas de relaxação indianas – a filosofia parece estar, em muitos casos, a ser usada como uma espécie de cozinha de fusão. E que vende, a propósito.

 

Mas e por outro lado, esta antiga senhora faz lembrar também aquelas tias velhas e chatas que somos obrigados a convidar para as grandes celebrações: tem um lugar à mesa, mas ninguém lhe dá a devida atenção ou, pior ainda, colocamo-la no lugar mais afastado do centro, para que não sejamos contagiados com o cheiro a bafio que dela emana.

 

Existe ainda uma terceira opção: a tia é velha e chata, mas também é rica e, enquanto herdeiros, podemos sempre descobrir um camafeu, feio, mas valioso, guardado num velho baú que, devidamente vestido com novas roupagens, poderá valer uma boa maquia num qualquer novo mercado zen, devidamente comercializado por um bom leadership coach e ser tema de workshops moderníssimos que tão bem ficam nos nossos currículos.

 

Tudo isto é mais plausível de acontecer do que manifestarmos a convicção de que o mundo não precisa apenas de tecnologias, algoritmos, folhas de excel, estatísticas e afins, mas também de pessoas que saibam pensar de forma crítica, que façam as perguntas certas, que questionem o que não parece passível de ser questionado e que arrisquem em novas teorias e formas de compreender esta época que, tal como todas as outras, não deixa de ter “food for thought”, muito antes pelo contrário.

 

Basta pensarmos em três ou quatro questões bem “modernas” e podemos logo começar pela que dá o mote a este texto. Têm as humanidades um lugar legítimo num mundo em que a ciência e a tecnologia parecem reinar? Será que a inteligência artificial irá comprometer a nossa moralidade? E se a neurociência vier a colocar em causa o nosso livre arbítrio? Deverão as evidências das alterações climáticas alterar a forma como vivemos? Habituar-nos-emos a viver em clima de medo face ao fundamentalismo crescente? Será possível que o extremismo de direita, em franco crescimento na Europa, possa dar origem a um novo holocausto? Deixaremos de raciocinar num mundo em que existem apps que dizem o que devemos comer, o que devemos vestir, quantas horas devemos dormir e por aí adiante?

 

Convencermo-nos desta aparente lógica da batata não é, de todo, fácil. Para que serve a epistemologia, a ética ou a filosofia moral, a filosofia política ou a ontologia, senão como palavrões que nem merece a pena googlar? E qual a importância de termos tempo para pensar e questionar, quando vivemos, em continuum, rodeados de tecnologias que nos satisfazem os desejos mais imediatos, nos dão o poder do conhecimento total, que nunca nos deixam sozinhos com os nossos botões e que não nos permitem ter tempos de ociosidade, a pré-condição que iria dar origem aos primeiros pensamentos filosóficos? E, mais ainda: se a filosofia, enquanto disciplina ou prática, deveria responder às inúmeras novas e complexas questões que se colocam à sociedade contemporânea, não foi o seu lugar usurpado pelos incontáveis “opinantes”, “comentadores” e “cronistas”, em conjunto com os milhares de milhões de pessoas que passam a vida a dissecar a nossa realidade e a emitir juízos sobre ela? Serve a filosofia para alguma coisa no século XXI?

 

Em muitas nações ditas desenvolvidas a ideia vigente é que não se deve apostar ou investir nesta que já foi considerada como “o saber mais abrangente”. Mas também existem alguns ventos contrários que pretendem desencalhar este velho “amor pelo saber”. E que estão a empurrar, ainda que lentamente, o universo académico, por um lado, e o da liderança, empresarial mas não só, por outro.

 

Para quê usar a cabeça se temos computadores?

 

 

Em 2014, e já no rescaldo da crise financeira de 2008, o presidente da Irlanda, Michael Higgins, lançou a “Iniciativa de Ética” com o objetivo de desenvolver, a nível nacional, um debate sobre os principais valores que deveriam reger a sociedade irlandesa na altura. A ideia, várias vezes repetida em discursos presidenciais, era a de que se o povo realmente prezava a democracia, deveria evoluir para uma cidadania de pensamento independente e ativo, sendo que recuperar a importância do ensino da filosofia nas escolas constituiria um dos mais preciosos meios para atingir esse fim. Para Higgins e numa interpretação mais ou menos livre das suas ideias, a filosofia seria o mais importante antídoto contra o pensamento de grupo, encarneirado, e o melhor ingrediente para colocar um fim no enjoativo consenso que há muito estava a limitar o livre pensamento.

 

Um ano antes, e logo ali ao lado, o Reino Unido iniciaria um estudo comparado, em 48 escolas do 1º ciclo, com a duração de um ano, no qual 1500 crianças entre os 6 e os 10 anos receberiam aulas de filosofia e outras 1500 não. O estudo, conduzido pela Education Endowment Foundation (EEF), uma organização sem fins lucrativos que visa estreitar o fosso entre os rendimentos familiares (baixos) e o aproveitamento escolar, pretendia testar a eficácia das premissas filosóficas através de um “ensaio clínico aleatório”, exatamente como os que são feitos com os fármacos com potencial de comercialização. Assim, 22 escolas funcionaram como grupo de controlo, enquanto as restantes 26 passaram a ter uma aula de filosofia por semana com a duração de quarenta minutos, no que é denominado como P4C (Philosophy for Children) No total, mais de 3 mil miúdos estiveram envolvidos na experiência e os resultados foram bem além do esperado.

 

O programa, da responsabilidade da Society for the Advancement of Philosofical Enquiry and Refletion (SAPERE), não tem como objetivo concentrar-se no estudo de textos de Platão ou Kant mas, através da leitura de histórias, poemas ou pequenas notícias da imprensa, ou ainda através da visualização de pequenos filmes, estimular as discussões sobre matérias “potencialmente”filosóficas. O objetivo é ajudar as crianças a raciocinar, a formular e a fazer questões, envolvê-las em debates construtivos e apoiá-las no desenvolvimento de argumentos.

 

O “material” pode ser tão díspar quanto a leitura de uma história sobre um miúdo que queria manter uma baleia de estimação na sua banheira ou simplesmente lançar-se uma pergunta, em particular no grupo dos mais velhos (entre os 8 e os 10 anos) que tenha o tal potencial filosófico: “por que motivo os tenistas homens recebem maiores patrocínios do que as suas congéneres femininas?”, “é legítimo privar alguém da sua liberdade?” ou “se pudesses, mandarias acabar com o livre pensamento?”, entre outras inúmeras possibilidades, não esquecendo as mais “óbvias” como “O que é ser humano?”, “se tivesses outro nome, serias uma pessoa diferente?”, “qual a diferença entre dizer uma mentira ou manter um segredo?”, “temos de estar tristes às vezes para podermos estar felizes noutras?”, entre uma panóplia alargada de outras tantas.

 

Os resultados? Não só bons, como inesperados. O mais surpreendente foi o facto de todos os miúdos que participaram nesta iniciação filosófica terem melhorado o seu aproveitamento escolar na matemática e na leitura, tendo em conta que o objetivo inicial nada tinha a ver com melhorias na literacia ou na aritmética. Em média, estes progressos corresponderam ao equivalente a dois meses extra de ensino e foram as crianças provenientes dos agregados mais pobres as que um passo maior deram na sua performance: as suas competências de leitura “avançaram” quatro meses, as de matemática três e as de escrita dois.

 

Também e no geral, todas as crianças participantes demonstraram uma maior confiança para falar em público, melhoraram as suas competências de saber escutar os outros (pares e professores), demonstraram uma paciência muito mais significativa face aos colegas e apresentaram uma melhoria generalizada na sua autoestima. Novas formas de pensamento e raciocínio lógico, em conjunto com uma melhoria significativa nas suas formas de expressão, ordenação de ideias e capacidade de argumentação foram também claramente atingidas.

 

Adicionalmente, estes efeitos benéficos da filosofia duraram dois anos, com o grupo intervencionado a continuar a ter melhores resultados muito tempo depois de as aulas terem terminado, daí que a avaliação final tenha sido apenas publicada em Junho de 2015. O programa foi entretanto adotado por inúmeras escolas em todo Reino Unido, sendo que existem atualmente mais de 3 mil professores formados em P4C e 60 mil crianças a usufruírem deste tipo de experiência. A metodologia utilizada pela SAPERE foi desenvolvida há 35 anos pelo professor norte-americano Matthew Lippman, em New Jersey, e é utilizada, em formatos similares, em mais de 60 países.

 

No fundo, e no que aos mais novos diz respeito e a não ser que haja um cataclismo que desligue a internet, filosofar será cada vez mais difícil. Os alertas multiplicam-se e não é preciso ser-se tecnofóbico para perceber que não é fácil pensar, imaginar ou questionar quando temos o mundo inteiro literalmente na mão e ao nosso dispor ininterruptamente. Quem imagina um adolescente a trocar likes, tweets, instagrams e similares por uma meia hora de silêncio ou de interiorização? Ou o ciberespaço por um espaço físico para pensar? Ou até um chat por uma conversa numa mesa de café, expressando, por exemplo, a tristeza que sente sem se limitar a utilizar uma mera “carinha” triste?

 

Salvo honrosas exceções, a verdade é que cada menos se troca a cuidadosa e morosa gestão do reflexo que se quer partilhar com o mundo, por momentos de autorreflexão. Sabido também é que esta inexistência de espaço e de tempo para se pensar não afeta, como sabemos, só as novas gerações. Em passo mais do que acelerado, tudo o que acontece no mundo é vertiginosamente comentado, opinado, e, é claro, partilhado por cerca de 3,5 mil milhões de pessoas – ou 40% da população mundial que tem acesso à internet. E, destes, um ou dois mil milhões consideram-se, certamente, como filósofos. Se opinam e comentam, logo existem. E assim, para que raio servem os filósofos?

 

Obsoleta e inútil, a quem interessa a filosofia?

 

 

Apesar de, em muitos casos, a filosofia parecer ter sido arrumada numa gaveta poucas vezes aberta, em 2010, o The New York Times resolveu tirá-la do armário académico onde vivia encafuada e partilhou-a com o resto do mundo: apesar de classificada como uma mera coluna de opinião, o espaço The Stone – definido como um fórum para filósofos contemporâneos e outros pensadores, tem vindo a atrair milhões de leitores interessados em questões tão contemporâneas como intemporais.

 

Tópicos universais como os mistérios da consciência ou da moralidade, são misturados com questões da atualidade tão díspares quanto a ética na utilização de drones, o controle de armas, as desigualdades de género, a crise dos refugiados, ou seja, com as questões sociais, culturais ou políticas do nosso tempo, naquilo que parece ser uma receita de sucesso que, afinal, até “dá likes” e partilhas.

 

E foi tão grande o êxito deste “espaço para pensadores” que a coluna semanal deu origem ao livro, publicado em janeiro deste ano, The Stone Reader: Modern Philosophy in 133 Arguments , o qual, de acordo com os seus editores, coloca uma significativa parte do total do discurso da filosofia moderna ao dispor dos leitores. O livro é dividido em quatro grandes secções – Filosofia, Ciência, Religião e Moralidade, e Sociedade e a sua introdução começa da seguinte forma: “O que é um filósofo? E, mais importante do que isso, quem é que realmente se importa com isso?”.

 

Num tom bem-humorado, Peter Capatano, editor do NYTimes e responsável pela edição dos ensaios publicados na The Stone, explica que a primeira pergunta - o que é um filósofo? – foi, exatamente, o tema do ensaio de lançamento da dita coluna em 2010. E qual não foi o seu espanto, e dos ensaístas que para ela iriam contribuir na altura, quando se aperceberam que o artigo tinha sido o mais lido de todos na edição online do jornal nesse dia.

 

Nesta mesma introdução, Capatano não se esquece de sublinhar a ideia de que a filosofia é considerada como supérflua e obsoleta por um conjunto substancial de pessoas, numa espécie de movimento “anti-intelectuais” que vigora nos quatro cantos do mundo, e muito em particular nos Estados Unidos. Mas rejeita liminarmente a ideia – dando como exemplo o sucesso da coluna em causa – de que a filosofia seja inútil, não tendo medo de responder à segunda questão formulada: “há muita gente que se importa, sem dúvida”, escreve. E é esta “muita gente” que poderá ajudar a ressuscitar o valor que a disciplina teve ao longo de grande parte da história da Humanidade.

 

De Harvard aos “cursos que obrigam a pensar” para CEOs

 

 

Essa ressurreição está também a ganhar raízes nos templos do saber da atualidade. Vejamos o exemplo da mais americana das universidades, onde os alunos chegam com planos de carreira bem definidos, na sua maior parte assentes em racionalidades inabaláveis, mas onde uma cadeira denominada Teoria Política e Ética Chinesa Clássica reúne o maior número de alunos inscritos, só suplantada pelas de “Princípios de Economia” e “Introdução às Ciências Computacionais” (aqui tinha mesmo de ser, mas mesmo assim não é nada mau ocupar o 3ª lugar do pódio).

 

Sim, estamos a falar de Harvard e de como um professor, Michael Puett, foi obrigado a mudar de anfiteatro – para o maior do famoso campus universitário – para poder albergar todos os alunos que, em particular desde 2007 (o 2º ano em que cadeira foi ministrada), procuram resolutamente a sua aula. A disciplina – que tem como base a relevância dos textos clássicos chineses para a atualidade – deu origem ao livro The Path: What Chinese Philosophers Can Teach Us About the Good Life, lançado no passado mês de Abril e já comprado por editoras em 25 países, incluindo a própria China, onde vai ser publicado ainda este ano.

 

O segredo de Puett parece residir na introdução de ingredientes frescos numa receita antiga. O professor pede aos alunos que leiam os textos originais de Confúcio, como o famoso Analectos, também conhecido como Diálogos de Confúcio ou o Mencius, da autoria do filósofo chinês com o mesmo nome (julga-se) ou ainda o Dao de Jing, comummente traduzido como” O Livro do Caminho e da Virtude” (uma das mais conhecidas e importantes obras da literatura chinesa), confrontando-os depois com questões similares – mas “modernas” – que seguramente devem ter dado cabo da cabeça dos eruditos chineses há vários séculos.

 

Mas não só. De seguida, Puett sugere aos seus alunos que ponham em prática, nas suas próprias vidas, os ensinamentos apreendidos, sendo que os que predominam são, na verdade, ideias simples que não perdem, de todo, atualidade. De acordo com as palavras do próprio Puett, e numa entrevista que deu, em 2013, à revista The Atlantic, o professor afirma que, face há 20 anos – quando começou a dar aulas – os alunos da atualidade sentem-se “esmagados” por um caminho específico que têm de percorrer no sentido de objetivos de carreira muito concretos, sendo que estes, na maioria das vezes, resultam de imposições externas (seja da pressão dos pais, por exemplo, ou mesmo da sociedade que predetermina que cursos é que “estão a dar”).

 

O que Puett observa é que, cada vez mais, os estudantes orientam todo o seu percurso escolar, e até as suas atividades extracurriculares, de acordo com planos e objetivos de carreira predefinidos e “demasiado” programados. Assim, são muitos os estudantes que juram que ao perceberem que o coração e a mente, maioritariamente separados na visão do mundo ocidental, estão profundamente relacionados entre si e que não podem ser encarados isoladamente – uma das principais “lições” que Puett tenta transmitir nas suas aulas – contribuiu mesmo para mudar as suas vidas, existindo até alguns que – sim, parece loucura, mas é verdade – que trocaram as tais ciências exatas e o que está a dar por cursos em áreas das obsoletas humanidades. Será está a prova da famosa citação que é atribuída a Confúcio e que reza “escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”?

 

Harvard não é a única universidade que está a descobrir as delícias da filosofia aplicada a outras áreas do conhecimento. Outras famosas universidades estão a ir pelo mesmo caminho e o mesmo acontece, em particular, com as escolas de negócios. E é aqui que entra, mais uma vez, o fator negócio, mas um que pelo menos ajuda a desenvolver neurónios e a transformar a gestão em mais do que uma obsessão pelos resultados que figuram nos seus relatórios trimestrais. Retomando a história que deu início a este texto, o fundador da empresa de filosofia Strategy of Mind, Ryan Seltzer, assegura que são cada vez mais as empresas que estão a (re)conhecer a prosperidade de outras suas congéneres que estão a apostar em doses similares de “matemática e filosofia”. Claro que o ex-consultor poderia estar apenas a vender os seus serviços, mas abundam os exemplos de várias organizações que comprovam a sua teoria (e o seu modelo de negócio).

 

Damon Horowitz é um dos casos mais clássicos quando se fala destas estranhas decisões em que executivos bem-sucedidos e, muitas vezes, provenientes exatamente de empresas de tecnologia, decidem experimentar os caminhos incertos da filosofia. E a verdade é que o reconhecido empreendedor resolveu abandonar o seu principescamente pago lugar no mundo tecnológico para tirar um doutoramento em filosofia (a sua formação académica anterior incluía uma um mestrado tirado no MIT Media Lab e estudos em ciências da computação em Stanford, onde agora dá aulas de… filosofia).

 

O atual diretor de engenharia e filósofo in-house (este cargo não é inventado, existe mesmo) da Google proferiu uma interessante talk em Stanford, em 2011, intitulada “Por que motivo deve trocar o seu emprego na área da tecnologia e matricular-se num doutoramento em Humanidades”, a qual explora o valor das humanidades – no geral, e da filosofia no particular – num mundo que está continuamente a ser inundado por novas tecnologias. O seu caso está longe de ser único e, em particular, nas grandes empresas em que a tecnologia e a inovação constituem os principais ativos.

 

O que pode ser facilmente explicado por Fareed Zakaria, um colunista do The Washington Post e autor de In Defense of a Liberal Education. Como escreve, “uma educação alargada ajuda a estimular o pensamento crítico e a criatividade e a exposição a uma variabilidade de áreas produz não só boas sinergias, como uma útil ‘fertilização cruzada’”. Afirmando que tanto a ciência como a tecnologia constituem componentes cruciais no mundo empresarial, o jornalista confere, contudo, exatamente o mesmo valor ao Inglês e à Filosofia, e recorda que num dos inesquecíveis discursos de Steve Jobs, o fundador da empresa da maçã explicava que “está no ADN da Apple o facto de a tecnologia nunca ser suficiente – mas, ao invés, ser o seu casamento com as artes liberais e com as humanidades que produz os resultados que fazem cantar os nossos corações”.

 

No mesmo livro, Zakaria defende ainda que a inovação não é, de todo, uma mera questão técnica, “mas antes a forma de compreender como funcionam as pessoas e a sociedade, o que precisam e o que desejam”, algo que, na verdade, esteve também sempre presente na Apple, cujo enorme sucesso em muito se deveu, entre várias outras coisas, à brilhante antecipação dos desejos dos seus clientes.

 

 

Mark Zuckerberg é outro exemplo de como a tecnologia precisa, indiscutivelmente, do saber produzido pelas ciências não exatas. O fundador do Facebook foi, também, um estudante clássico das artes liberais e simultaneamente um apaixonado pelos computadores. A antiguidade grega sempre foi um dos seus principais interesses e a psicologia a área que escolheu para se licenciar. E não é preciso ser-se muito inteligentes para perceber o quão ligadas estão as inovações do Facebook ao campo da psicologia. E é o próprio Zuckerberg que afirma que o Facebook “tem tanto de tecnologia como tem de psicologia e sociologia”.

 

Zakaria cita também um outro estudo sobre o futuro do trabalho, desenvolvido por dois académicos de Oxford e que concluiu que para os trabalhadores evitarem a “computorização” dos seus empregos, terão de adquirir, cada vez mais, competências sociais e criativas”. Para o autor, o que este exemplo significa verdadeiramente é que, e sem retirar valor às ciências exatas e ao inevitável trabalho com as máquinas (que é, sem dúvida, o futuro do trabalho), as mais valiosas competências serão aquelas “unicamente humanas” ou as que os computadores nunca conseguirão imitar (pelo menos assim se espera).

 

Mas e de volta à filosofia e ao valor do “tempo para pensar”, um artigo publicado na revista The Economist ajuda a melhorar a perspetiva no que a esta necessidade no mundo dos negócios diz respeito. Intitulado Philosopher kings: Business leaders would benefit from studying great writers, defende a criação de “retiros para pensar” em substituição das inúmeras modas a que os CEOs vão aderindo, sempre com o objetivo de melhorar as suas capacidades de gestão e liderança (desde as “provas” em ambientes hostis, aos passeios em plena natureza e já contando com os cursos de mindfulness, que o artigo refere como “bons para relaxar, mas maus porque esvaziam a mente”).

 

No mesmo artigo fica expressa a ideia de que é surpreendente o número de CEOs bem-sucedidos que estudaram filosofia, de que é exemplo Reid Hoffman, um dos fundadores do LinkedIn, que optou também por tirar uma pós-graduação em filosofia em Oxford ou o já falado Horowitz, mas também de como Bill Gates, enquanto geria a Microsoft, tinha por hábito isolar-se uma semana no campo para “meditar sobre um assunto importante” ou de como Jack Welch, enquanto CEO da General Electric, reservava religiosamente uma hora do seu dia para pensar, sem recurso a qualquer tipo de distração.

 

Adicionalmente, Peter Thiel, um reconhecido investidor de Silicon Valley apostou recentemente também em conferências para as quais são convidados pensadores de renome numa tentativa de “melhorar o mundo” e David Brendel, filósofo e psiquiatra, é um dos “gurus” mais procurados por estes executivos de topo para prestar aconselhamento sobre liderança, para além de escrever assiduamente na Harvard Business Review sobre como a filosofia pode ajudar a se ser não só um melhor gestor, como um melhor líder. Curioso – ou não – é também o facto de Brendel ser igualmente um dos co-fundadores da Strategy of Mind acima mencionada.

 

Como afirma também o filósofo in-house da Google, “os líderes do pensamento da nossa indústria não são aqueles que subiram, passo a passo, mas de forma monótona, a escada da carreira, mas os que correram riscos e desenvolverem perspetivas únicas”.

 

Ou seja, aqueles que se deram ao trabalho de pensar, questionar e criar.

 

 

 

publicado às 13:38

Tudo, mas mesmo tudo, o que sempre quis saber sobre o Pokémon Go (desde há uma semana...)

Por: Pedro Fonseca

 

A que se deve o delírio com este jogo de realidade aumentada, acessível em dispositivos móveis e que chegou na passada sexta-feira a Portugal? E porque está a atrair milhões de fãs, a ser usado por políticos, a preocupar as autoridades, a ser elogiado e criticado por entidades médicas e até a ser motivo de teorias da conspiração? E tudo isto quando surgiu de uma mentira de 1 de Abril...

 

 

 

O Pokémon Go é a conjugação perfeita, aquilo que os tecnólogos gostam de apelidar de "killer app": uma aplicação que, sem que as empresas criadoras percebam porquê ou o antecipem, se transforma num inesperado e lucrativo sucesso pela adesão dos utilizadores. O jogo alia a realidade aumentada nos smartphones com acesso ao sistema de localização GPS à captura de personagens virtuais, marcados pela nostalgia de uma existência de 20 anos, num jogo gratuito.

 

COMO FUNCIONA?

Diferente da realidade virtual, que leva os jogadores para mundos virtuais através de um capacete visual, a realidade aumentada coloca entidades (ou informações) virtuais sobre paisagens reais. Exemplos do potencial desta tecnologia têm sido publicitados por empresas como a Magic Leap.

Já o Pokémon Go usa a localização por GPS do smartphone e o relógio para "perceber" onde está o utilizador e a que hora, fazendo então aparecer Pokémons no dispositivo, ao qual se tem de atirar uma PokéBall para o capturar. O mesmo local de manhã pode revelar um Pokémon, enquanto à tarde ou noite pode mostrar um outro para ser capturado.

Os personagens têm de ser apanhados nesses locais para se subir de nível e ganhar mais poderes - sozinho ou numa das três equipas Mystic, Instinct ou Valor -, para completar o Pokédex (há outras vertentes, como a pertença a "gyms", que incentivam acções colectivas, por exemplo).

Ao capturar os diferentes personagens, os utilizadores podem partilhar as imagens dos mesmos em locais reais, propiciando outros a lá se deslocarem para conseguirem apanhar personagens que ainda não tenham.

Os Pokémons contam agora com mais de 720 personagens, mas neste jogo apenas estão disponíveis os 151 originais, de Charizard a Rattata.

O objectivo do jogo é apanhar todos eles - ou "catch ’em all", como está generalizado em inglês.

 

 

O QUE SE PASSA EM PORTUGAL?

O jogo foi lançado oficialmente em Portugal na sexta-feira, 15 de Julho, mas já havia jogadores por cá a usá-lo, criticando a falta de personagens disponíveis. No sábado seguinte, um total de 26 países tinha acesso ao jogo e, tal como tinha sucedido com o lançamento nos EUA, a 6 de Julho, os servidores da Nantic para o seu acesso falharam na Europa e também nos EUA. O grupo de hacking PoodleCorp assumiu a responsabilidade pelo feito mas a criadora do jogo não comentou o assunto.

Lançado gratuitamente para os dispositivos da Apple (iOS 8) e Android (versões superiores à 4.4), chegou a Portugal, Espanha e Itália após ter sido lançado dias antes no mercado europeu no Reino Unido e Alemanha. Neste país e antevendo o seu sucesso, John Legere, director-geral da T-Mobile, anunciou na sua conta pessoal de Twitter que a operadora telefónica vai disponibilizar acesso gratuito a dados ao jogo, durante um ano e a partir de 19 de Julho.

O atraso na generalização internacional do jogo nas lojas de aplicações da Apple e da Google provocou a criação de software infectado com "malware", sucedendo-se os alertas para o "download" do jogo ser feito apenas nas lojas oficiais dessas plataformas.

Em Portugal, a Nintendo salientou em comunicado como "milhares de portugueses saíram à rua para procurar personagens como Pikachu, Charmander ou Bulbasaur nos sítios mais improváveis", como "igrejas, praias, restaurantes" ou "instalações de arte públicas, marcos históricos e monumentos", quando ainda não estava disponível de forma oficial.

Em paralelo, o site de ofertas e leilões OLX anunciou já existir a disponibilidade para Portugal - nomeadamente Lisboa - de serviços de táxi para apanhar os Pokémons. Um dos anúncios que já tinha mais de 2500 visualizações dizia: "se quiserem apanhar pokemons rapidamente, por 30€ por hora levo-vos a qualquer parte da zona de Lisboa. Se quiserem podem trazer amigos e dividem a tarifa".

 

Em paralelo, o site de ofertas e leilões OLX anunciou já existir a disponibilidade para Portugal - nomeadamente Lisboa - de serviços de táxi para apanhar os Pokémons.

 

QUAIS AS ORIGENS?

Lançado em 1996 por Satoshi Tajiri para a consola portátil GameBoy, da Nintendo, o jogo original do Pokémon vendeu mais de 280 milhões de cópias nas últimas duas décadas. Dois anos depois, os personagens foram lançados nos Estados Unidos, dando origem ao seu sucesso ocidental, em jogo de cartas e série televisiva, entre outras oportunidades comerciais.

Agora, o Pokémon Go é uma surpresa, em todas as frentes. "É um fenómeno social", mais do que um jogo, sintetizava a TechTimes. E é igualmente um fenómeno porque surgiu de uma mentira a 1 de Abril de 2014 nos Google Maps, denominada "Pokémon Challenge".

A piada de 1 de Abril obteve retorno, porque o CEO da The Pokémon Company, Tsunekazu Ishihara, já era jogador do Ingress (e antecedente tecnológico do Pokémon Go) e facilitou as conversações para se avançar no desenvolvimento do jogo. Mas será mesmo assim ou a empresa estava apenas a antecipar o jogo, com o apoio da Google?

 

 

QUEM SÃO OS "CULPADOS" PELO POKÉMON GO?

Apesar dos personagens terem sido criados na Nintendo, a versão móvel do jogo não é desta empresa japonesa. A responsável do sucesso dá pelo nome de Nantic e é um "spin off" da Google, com o marketing assegurado pela detentora dos direitos das personagens, a The Pókemon Company (cujos accionistas se distribuem igualmente pela Nintendo e as empresas de jogos Game Freaks e a Creatures).

O Pokémon Go foi lançado em versão de teste no final de Março passado no Japão, anunciado pela Nantic como a sua nova plataforma de “Real World Gaming”. Em Abril, os utilizadores da Austrália e da Nova Zelândia puderam testá-lo, seguindo-se em Maio os Estados Unidos.

Os registos de sucesso do jogo sucederam-se após o lançamento oficial a 6 de Julho: uma semana após ficar disponível nos Estados Unidos, ultrapassou o número de utilizadores da rede social Twitter, do Tinder (aplicação de ligação entre pessoas com os mesmos gostos) e até as horas gastas no Facebook. Segundo o SurveyMonkey, é o jogo de telemóvel mais popular de sempre nos EUA, com mais de 21 milhões de utilizadores diários activos, ultrapassando a saga "Candy Crush".

A Wikipedia revelou que o artigo sobre o Pokémon Go se tornou no mais popular, com um "tráfego de mais de 10 mil por cento", com mais de cinco milhões de visitas até 14 de Julho, tendo sido editado 900 vezes por cerca de 400 utilizadores.

 

uma semana após ficar disponível nos Estados Unidos, ultrapassou o número de utilizadores da rede social Twitter, do Tinder (aplicação de ligação entre pessoas com os mesmos gostos) e até as horas gastas no Facebook

 

 

ONDE ESTÁ O DINHEIRO?

Apesar do sucesso bolsista da Nintendo - as suas acções subiram mais de 20% e, segundo a Bloomberg, a empresa teve o seu melhor momento financeiro desde 1983, quando lançou a consola NES -, ela não será a empresa a obter mais dinheiro com o jogo.

O analista David Gibson, da Macquarie Capital Securities, acredita que "em cada 100 unidades" na App Store da Apple, a distribuição de lucros será igualitariamente de 30 para a Apple, para a Niantic, para a The Pókemon Company e apenas 10 para a Nintendo - uma empresa que passou ao lado da geração de smartphones para apostar nas suas consolas.

 

 

O QUE É A UNITY TECHONOLOGIES?

Qualquer jogo tem como base de software um chamado "motor de jogo", com capacidades gráficas e técnicas que o distinguem doutros softwares e agilizam o desenvolvimento de jogos. Em resumo, vários jogos podem usar o mesmo motor de jogo de uma empresa e esta lucra com essa adopção.

A Unity desenvolveu um motor de jogo para plataformas móveis e diz que o seu software está a ser usado em mais de 300 dos mil jogos móveis líderes e em 90% dos jogos de realidade virtual da Samsung ou do Facebook.

É também esse motor que o Pokémon Go usa e, segundo o New York Times e seguindo o sucesso do jogo nos Estados Unidos, a empresa conseguiu arrecadar na semana passada 181 milhões de dólares de investidores como a DFJ Growth, China Investment Corporation, FreeS Fund, Thrive Capital, WestSummit Capital e Max Levchin. No total, a empresa foi valorizada em 1,5 mil milhões de dólares.

Mas, perguntam os investidores e o público em geral, como se ganha dinheiro num jogo gratuito? Este integra a possibilidade de aquisições em determinadas lojas, bem como a compra da moeda PokéCoin, que pode ser usada para obter "power-ups" e outros itens. Só as microtransacções (para se obterem troféus) geraram numa semana um total de 14,4 milhões de dólares.

 

 

O QUE É A NIANTIC?

A Niantic Labs é uma empresa criada no ambiente Google, que se autonomizou em Outubro de 2015, com a Google, Nintendo e The Pokémon Company a investirem cada uma até 30 milhões de dólares na ronda inicial de investimento (20 milhões no arranque e 10 milhões posteriores, dependendo da empresa "atingir certas metas").

O Pokémon Go surge nessa empresa que há mais de três anos lançou um jogo semelhante (Ingress) e conseguiu desde então 11 milhões de "downloads", mas não revela o número de jogadores activos.

Segundo um comunicado da empresa, o capital obtido no ano passado será investido "para continuar o desenvolvimento do Pokémon Go, para fazer evoluir e crescer o Ingress" e "a sua próspera comunidade global".

Sendo um jogo também gratuito, a Niantic ganha no Ingress pela venda de itens e pode igualmente monetizar o enorme conjunto de dados pessoais que consegue agregar.  Os clientes deste jogo incluem a rede de farmácias Duane Reade, os cafés Jamba Juice, a empresa de aluguer de carros Zipcar e, no Japão, o Mitsubishi Bank, em Tóquio.

Com exemplos como estes, há oportunidades comerciais no Pokémon Go em que empresas, restaurantes, museus ou outro tipo de locais públicos se tornam PokeStops, onde se podem recolher troféus - incluindo personagens raras ou personalizadas.

Esse aproveitamento comercial ocorreu com a L’nizio Pizza Bar em Queens (Nova Iorque), que pagou 10 dólares para ter Pokémons no local e, segundo o proprietário Tom Lattanzio, o negócio aumentou 75%. Em São Francisco, uma casa de chá oferece um chá na compra de um outro a jogadores, enquanto em Harrisonburg (Virginia) um bar dá 10% de desconto a jogadores.

John Hanke, o CEO da Nantic, disse ao Financial Times que "localizações patrocinadas" serão um novo fluxo de receitas, a par das aquisições directas na aplicação. Atul Goyal, analista da consultora Jefferies, apontava que a "monetização" do jogo passa por "publicidade paga ou negócios pagos que encoragem os jogadores a ir a um determinado edifício ou loja. É uma enorme oportunidade".

 

 

QUAIS OS RISCOS E OS PROBLEMAS

Sendo um fenómeno social de tão larga e rápida dimensão, as críticas sucederam-se, nomeadamente quanto à privacidade dos utilizadores (eles não só conseguem "capturar" os Pokémon como partilham a sua localização no jogo e nas redes sociais). Os perigos são evidentes.

Por usar a localização por GPS, a Niantic foi novamente criticada, tal como tinha sucedido pelas autoridades militares norte-americanas, em 2014, quando os jogadores do Ingress tentavam entrar em bases militares para reclamar os prémios do jogo. Agora, são proprietários de locais a queixarem-se da intrusão por - erradamente ou não - o jogo considerar que são PokeStops.

Inicialmente, a Niantic cometeu vários erros na gestão das contas pessoais para inscrição no jogo. Nas contas do iPhone, o acesso era ilimitado a todas as funcionalidades, enquanto na Google existia o acesso total à conta pessoal. Este acesso permitia - como sucede indesejavelmente noutras aplicações - ver emails ou enviar novas mensagens, aceder a documentos no Google Drive ou fotografias no Google Photos, endereço IP, a página Web onde se esteve antes de aceder ao jogo ou outros.

Claro que se podia criar uma conta personalizada em pokemon.com, mas esta esteve inacessível durante dias.

A Nantic já alterou essa política de acesso a dados pessoais, que era também potencialmente perigosa para ela: quem acedesse ilegalmente *a sua base de dados (por "hacking"), colocava-a em problemas legais.

Os termos de serviço foram igualmente criticados pela The Consumerist, que descobriu ser difícil processar a empresa num tribunal normal.

Segundo o acordo assinado pelos jogadores quando se registam, a empresa impede acções conjuntas (vários utilizadores não se podem juntar para a levar a tribunal por um mesmo motivo) e as "disputas legais têm de ser geridas - numa base individual", fora dos tribunais e em modelo arbitral privado. Em resumo, mesmo que milhares de queixosos tenham o mesmo problema contra a empresa, cada um terá de se apresentar por si próprio. Isto permite que cada julgado arbitral possa decidir de forma diferenciada.

Qual é a alternativa? A empresa concede 30 dias após a assinatura inicial dos termos de serviço na sua activação para o jogador se desligar deste tipo de litigação, bastando enviar um email para termsofservice@nianticlabs.com com o assunto “Arbitration Opt-out Notice” e uma declaração a declarar o "opt out" deste modelo.

 

Uma das entidades financiadoras foi a In-Q-Tel, empresa de investimento tecnológico ligada à CIA, neste caso, através da National Geospatial-Intelligence Agency (NGA), cuja missão é "uma combinação única de agência de 'intelligence' e de apoio a combate”

 

E TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO?

O Pokémon Go está igualmente a ser visto como uma "conspiração" de vigilância governamental, por dar acesso à localização pessoal, videocâmara (funcionalidades sem as quais o jogo não funciona) e o referido acesso a dados das contas pessoais, como dizia a publicação online Gawker.

A base eram igualmente os termos de serviço em que a Nantic explicava poder divulgar qualquer informação pessoal (ou de criança autorizada a jogar) que "está na nossa posse ou controlo ao governo ou agentes das autoridades ou entidades privadas".

A acusação visava igualmente a origem da empresa.

A Niantic foi criada por John Hanke, fundador do site Keyhole em 2001, especializado em visualização de dados geo-referenciados. O site foi adquirido pela Google em 2004 e veio a dar origem ao Google Earth no ano seguinte e a desenvolvimentos dos Google Maps - um conhecimento que lhes permitiu desenvolver este Pokémon Go.

Uma das entidades financiadoras foi a In-Q-Tel, empresa de investimento tecnológico ligada à CIA, neste caso, através da National Geospatial-Intelligence Agency (NGA), cuja missão é "uma combinação única de agência de 'intelligence' e de apoio a combate”. A Niantic ainda não clarificou se partilhava os dados dos utilizadores com as empresas associadas, nomeadamente a The Pokémon Company.

Mas um jogo como o Pokémon Go permite saber onde estão milhões de utilizadores em simultâneo, o ambiente em redor - por fotos ou vídeos - e para onde se podem mover de seguida, através de uma proposta do Pokémon Go para recolher um troféu raro num dado local. E permite assim  acumular uma gigantesca base de dados de imagens de locais, impossível de obter com as (muitas delas desligadas) videocâmaras nas ruas. Quando as autoridades precisarem de aceder a um dado local, em termos históricos, a Niantic tem isso guardado.

 

MAS É TUDO NEGATIVO?

Não.

Segundo John Hanke, o CEO da Niantic, o jogo "foi concebido para fazer andar, prometendo os Pokémon como prémios, em vez de colocar alguma pressão" no jogador. É para "ver o mundo com novos olhos", "fazer a sua vida melhor de uma pequena forma" e "dar às pessoas uma razão para estarem juntas".

O Pokémon Go está a estimular relações pessoais positivas e a levar as pessoas a saírem de casa, contrariando uma crítica tantas vezes feita aos videojogos sedentários.

Como mostrava uma piada, com um cão extenuado no chão, que se questionava como é que o dono já o tinha levado à rua nove vezes nesse dia: "o que raio é o Pokémon?", inquiria o animal.

Esta é uma das razões pela qual o jogo está a ser defendido: as pessoas (nomeadamente crianças) deslocam-se para fora de casa, fazem exercício físico, conhecem novos locais - incluindo sítios históricos para os quais não estariam motivados a conhecer anteriormente - e é mesmo um potencial para ultrapassar problemas de agorafobia.

Uma jornalista do Wall Street Journal descreveu como, na cidade de Nova Iorque, conhecida pela sua dificuldade em gerar empatia com pessoas na rua, o jogo está a ser uma plataforma de relacionamentos. As pessoas conhecem e falam com outros jogadores sobre onde obter personagens que faltam para a sua galeria de Pokémons.

A Nantic também pensou nos truques dos potenciais sedentários. Por exemplo, os personagens não podem ser capturados quando se conduz um veículo a mais de 30 quilómetros por hora. Mas há sempre quem consiga usar a tecnologia contra as novas propostas tecnológicas: a revista Forbes explicava como se podia usar um drone para aceder aos Gyms e PokéStops sem "abandonar a vizinhança do frigorífico e do confortável sofá".

Para quem o faz, a possibilidade de se defrontar com casos estranhos ou proporcionar relatos de situações bizarras sucedem-se.

publicado às 08:34

E se a Apple deixar os governos saber tudo sobre o seu iPhone?

 Por: José Couto Nogueira

 

Segurança nacional ou privacidade do cidadão? É a pergunta que se impõe na disputa que opõe a Apple ao FBI. O debate que está a decorrer nos Estados Unidos pode afectar os utilizadores de telemóveis (e, por extensão, de qualquer equipamento ligado à rede) em todo o mundo. Sim, isto tem a ver consigo e vai querer saber porquê.

 

 

A questão do acesso do Estado aos dados pessoais do cidadão – através dos organismos policiais, fiscalizadores e de contra-espionagem - tem sido discutida desde que a Internet se popularizou. Contudo, quando Edward Snowden revelou publicamente a magnitude da intromissão do governo norte-americano nas comunicações, a discussão deixou de ser académica, ou técnica, e passou para a esfera judicial.

 

Que o governo chinês espie os seus cidadãos com um exército de inspectores, é um facto histórico; que o governo norte-coreano não o faça simplesmente porque ninguém na Coreia do Norte tem Internet, é sabido; que certas ditaduras tentem atabalhoadamente fazê-lo, não surpreende; agora que nos países ocidentais, onde o cidadão é protegido por uma série de garantias, possa acontecer, é inaceitável.

 

Acontece à socapa? Provavelmente. Mas, mesmo assim, é muito diferente do que ser legal e aceite. E, se ocorre nos Estados Unidos, onde é escrito praticamente todo o software usado nos computadores, pode acontecer em qualquer país. No caso dos telemóveis, que é onde se concentra esta guerra judicial, basta lembrar que os dois sistemas operacionais usados planetariamente são o IOS da Apple e o Android da Google, empresas sediadas na Califórnia.

 

Tudo mudou em 2013, com as revelações de Snowden. Anteriormente, as empresas de comunicações, ou de equipamento de comunicações, cooperavam com as autoridades quando os tribunais assim o mandavam. Mas Snowden provou que as agências de segurança nacional espiolhavam não só os utentes, mas também as próprias empresas. Daí que a Apple tenha criado um sistema operacional que é impossível de descodificar, mesmo pela própria Apple. O software para fazê-lo simplesmente não existe. E há a tese de que o software tem a protecção de direitos de autor como qualquer outro texto. Escrevê-lo por ordem judicial, na opinião de alguns especialistas, seria o mesmo que condicionar um autor na sua liberdade de expressão.

 

Qual é a password?

 

Tecnicamente, não se trata de decifrar a encriptação, mas sim de descobrir a palavra-passe. O sistema IOS está feito de maneira que ao fim de dez tentativas com palavras-passe erradas, todos os dados da memória do smartphone são apagados. O caso específico refere-se ao iPhone utilizado por um dos terroristas que mataram 14 pessoas em San Bernardino, na Califórnia. O FBI quer que a Apple escreva um programa capaz de ultrapassar a segurança do aparelho. Apenas isso.

 

A Apple tem vários argumentos para não o fazer. Primeiro, não quer piratear (hack) a sua própria tecnologia. Segundo, se o fizer está a colocar em risco a privacidade de todos os utilizadores; uma vez criado, não se sabe onde o programa irá parar. O FBI e outros departamentos de segurança do governo ficam em roda livre para fazê-lo quando quiserem. Mais ainda, os governos de outros países podem exigir o mesmo, e excluir a empresa dos seus países se não o fizer – a China vem logo à cabeça.

 

O FBI diz que a Apple está a exagerar, uma vez que lhe pede que a própria empresa desbloqueie apenas um telemóvel e não todos os que fabricou. E que se trata de um caso de segurança nacional, para descobrir os cúmplices dos dois terroristas, antes que cometam mais atentados.

 

As opiniões dividem-se. Bill Gates começou por apoiar Tim Cook, o presidente da Apple, mas depois voltou atrás e acha que o FBI tem razão. Não que a opinião dele valha mais do que institucionalmente, uma vez que a Microsoft tem muito pouca penetração no mercado de smartphones. Mas Sundar Pichai, o director da Google, dona do Android, que compete com o IOS pelo domínio do mundo (sobretudo através da Samsung), apoia a Apple, e esse apoio tem muito peso. Mark Zuckerberg também acha que Tim Cook tem razão. E o Facebook na última contagem (ontem?), tinha mil e seiscentos milhões de utilizadores.

 

Zuckerberg aliás, tem tido muitos problemas com vários governos por questões de privacidade. O último caso foi, recentemente, com a Índia, onde as autoridades queriam proibir o Facebook, alegando que partilhava indevidamente informações privadas – mas na realidade o que preocupa o governo indiano, como todos os governos, é a possibilidade das redes sociais difundirem informações quase instantaneamente, sem controle.

 

Os cidadãos, a acreditar numa sondagem do Pew Research Center, estão a favor do Governo. 51% acham que a Apple devia ceder e só 38% acham que não devia. Mas os cidadãos, apesar dos mais interessados, serão os últimos a decidir, nesta disputa de gigantes, que certamente irá enriquecer grandes escritórios de advocacia.

 

Amigos, precisam-se!

 

A 16 de Fevereiro, um juiz federal decretou que a Apple tinha de fazer o que o FBI pedia até sábado, 26. Mas sábado passou e a empresa não o fez. Aliás, fez: pediu a dispensa do juiz, pois considera que a decisão viola os direitos da Primeira e Quinta emendas da Constituição. Se viola ou não, outro tribunal o decidirá. Entretanto, o decreto do juiz baseou-se numa lei de 1789, há muito esquecida, e que se aplicava a correio em papel.

 

Nesta terça, dia 1 de Março, a Comissão para Assuntos Judiciários da Câmara de Representantes debruça-se sobre o assunto. O director do FBI e o principal advogado da Apple são testemunhas. O assunto interessa a todas as empresas do biosistema das comunicações, que seguem atentamente o processo. Pierre Louette, ex-director da Orange francesa, diz que há muito tempo que estes problemas se levantam, mas que agora terá finalmente de se decidir alguma coisa, e “as empresas de comunicações vão precisar de ter muitos amigos”.

 

Amigos são sempre úteis, mas o que a Apple agora precisa é de advogados. E dos bons. Quanto aos utilizadores de todo o mundo, que já são espiolhados a torto e a direito, no fundo a preocupação é mais familiar do que civil. Quer dizer, que a Autoridade Tributária investigue pela calada, não há nada a fazer; agora, se lá em casa tiverem acesso aos dados do telemóvel, isso é que é o diabo... 

publicado às 10:12

O que é que o Nuno Melo está a fazer no meio disto?

 Por: Márcio Alves Candoso (jornalista)

 

Na sua revisitação anual ao universo dos 'cliques' em causa própria, o Grande Google da Ocidental Praia Lusitana – mas podem tratá-lo apenas por 'Google', se forem lá de casa – elaborou um 'ranking' temático dos temas e pessoas, ou assim, que mais curiosidade causaram nos frequentadores internéticos que utilizaram aquele motor de busca.

Investigadores, profissionais de diversa estirpe e colheita, miúdas de 12 anos e ociosos vários que não sabem jogar às cartas, todo o bicho-careto dá ao rato em cima do Google, aumentado as 'pageviews' do ovo de Colombo inventado por Larry Page.

 

O Google dá-nos as pistas. Queremos saber, por exemplo, quem foram as personalidades internacionais que mais mereceram a atenção dos visitadores de computadores e telemóveis razoavelmente inteligentes. À cabeça, com algum destaque, vem Taylor Swift.

 

E perguntarão vocês, ou talvez não: quem é Taylor Swift? Eu, que sou um desinformado e um bronco a atingir provecta idade, não sabia. E por isso lá aumentei, eu próprio, o destaque da Taylor, não tendo descoberto se a menina sabe alguma coisa de costura (Taylor, estão a ver a piada?... Ok!...)

 

O que descobri, isso sim, é que canta e dança e não é de Paços de Brandão. E que, aos 26 anos, já vendeu 25,5 milhões de discos, o que a coloca no 78º lugar dos artistas com mais sucesso nas platinas de todos os tempos, à frente de Nirvana e ZZ Top e já a morder as canelas de Frank Sinatra ou dos Bee Gees. Costuma namorar em média três meses com actores e cantores igualmente famosos, e quando lhes calça os patins ou eles se esquecem dela escreve uma canção desesperada.

 

O que eu não perdoo aos fãs 'tugas' da menina é que, como homem da informação que sou, fui mesmo ouvir três coisas que ela escreveu e cantou. É uma base do jornalismo: se não sabes, estás calado ou vais tentar saber. Como a primeira hipótese me estava vedada, porque prometi às 'sapas' directoras que ia averiguar desta cena, fui mesmo torturar os ouvidos com aquilo. Há maneiras mais difíceis de ganhar a vida...

 

Não sei se a tal Swift – em português 'rápida', o que dá uma alfaiate rápida, ou seja, pronta-a-vestir, tal como a música que frequenta – descende do grande Jonathan e, se ele a tivesse conhecido, a trataria como gigante ou minorca liliputiana. Mas sei, desde há pedaço, que é amiga íntima de Selena Gomez que – tcharan!! - é a segunda mais visitada na tal lista da Google. Deve ser cunha... Até porque esta segunda já foi namorada de Justin Bieber, de quem a Taylor não gostava, tendo mesmo dito à amiga para o pôr a andar.

 

A lista segue com Kyllie Jenner, que ficou famosa num 'reallity show' da família Kardashian, e que é mesmo meia-irmã da Kim do excelso rabo, e filha daquele atleta campeão olímpico que há tempos resolveu que afinal era gaja, isto já com quase sessenta anos. Tudo muito melhor do que no tempo em que o circo tinha a mulher barbuda...

 

 

Vá lá que a quarta personalidade é a ex-'nossa' namorada Irina Shayk, e eu fiquei mais descansado porque afinal não ando tão a leste do paraíso, já que esta eu conhecia. O 'top five' termina com Ariana Grande, que é assim uma cena parecida com as outras todas.

 

Bebi um descafeínado – as emoções da pesquisa não aconselhavam mais cafeína – e tentei aumentar a minha cultura. Dei de caras com a pesquisa dos 'mais' de 'como ser...'. O que é que as pessoas procuram no Google? Em primeiro lugar, e sem surpesas, 'como ser feliz'.

 

Parece-me bem. A felicidade sempe foi uma ânsia humana, já desde os tempos em que Sísifo a perseguia, se bem que com bastante maldade associada. E se fintou a morte duas vezes seguidas, também teve as suas agruras na vida, acabando a empurrar pedras por uma encosta acima, o que, convenhamos, não é a melhor maneira de uma pessoa se alcandorar à felicidade. Ainda mais quando a parva da pedra insiste em cair pela ribanceira abaixo de cada vez que o pobre Sísifo está quase a alcançar o cume. Apeteceu-me dizer isto para vocês verem que eu também sei umas coisas cultas. E, se não soubesse, tinha bom remédio – ia ver ao Google.

 

Mas se a busca da felicidade é um tema basilar e transversal nas buscas, no que ao género diz respeito, a seguir vem uma coisa que é mais das raparigas, meninas, senhoras e gajas. 'Como ser bonita?'

 

Vendem-se diariamente milhões de revistas, cremes e agulhas que prometem às fêmeas alcançar essa ditosa meta. Se aquilo resulta ou não resulta é que eu já não sei. Eu, por mim, em matéria de beleza feminina 'compro' já feito, e o que eu gosto nelas nem eu sei bem. É assim uma coisa que não se encontra no Google. Mas podem continuar a tentar, mal não deve fazer...

 

Já a rapaziada prefere – e esta é a segunda entrada de busca mais usual, no ano da graça sem grande graça que agora termina – o 'como ser rico'. Aqui apetece cantar a obra-prima de Ellis Regina, a canção 'Como Nossos Pais', já que se percebe que isto não muda. Elas querem ser bonitas para que os ricos casem com elas, eles querem ser ricos para casar com as bonitas. E vai um 'Xanax' para a minha ansiedade reformista e revolucionária...

 

As mulheres, ou as que para lá caminham, querem ainda saber como ser modelo, actriz ou popular. Os peludos – se entretanto não tiverem optado por ser rapados – preferem indagar como ser bom aluno ou 'youtuber'. Boa sorte para todos...

 

Nos jogadores de futebol quase nada a assinalar, já que CR7 comanda seguido de perto e de baixo por Messi. Maxi Pereira, mais a sua polémica transferência, vem a seguir. Iker Casillas mais a sua namorada segue em quarto – com vista para o Douro – e o quinto é um tal de Pablo Osvaldo, que esteve no FC Porto até há pouco tempo, e que para além dos pontapés na bola dá fortes pontapés na vida, tendo adquirido a alcunha de 'bad boy'. Um exemplo para a juventude...

Mas o que me impressionou positivamente foi a lista de personalidades nacionais mais pesquisada. Não pela primeira, que é Maria Zamora, a actriz que morreu de forma inesperada, havendo fortes indícios – e aqui é que está o interesse da coisa – de ter sido assassinada por um ex-namorado que a perseguia. Sofia Ribeiro, a jovem actriz que luta contra um cancro da mama, vem em terceiro; Delfina Cruz, a desditosa actriz que morreu disso, depois de ter sido atropelada, vem em quarto; e a quinta é Joana Amaral Dias, penso eu que por razões visíveis...

 

Mas o que me impressionou foi a segunda entrada mais badalada. Nada menos nada mais do que Nuno Melo, o euro-deputado do CDS, membro da família Melo do Minho, que já nos deu um presidente da Assembleia da República e a mim uma amiga. Não sendo eu grande fã da criatura, sempre é um arejo saber que os portugueses se interessam por uma personalidade política que não se despe em revista nenhuma.

 

Mas a minha alegria foi sol de pouca dura. Não era esse Nuno. Era, sim, e para grande tristeza minha, o malogrado actor Nuno Melo. E isso toca-me bem mais de perto. É que o homem morreu antes de ter conseguido um transplante de fígado.

 

Tinhas razão, Ana Isabel Gomes do 'SAPO' - isto é um bocado deprimente. Um abraço, lá no céu dos homens que nos fizeram rir em vida, ao grande Nuno Melo!

 

 

 

publicado às 17:06

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