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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Isto não é um país, é um campeonato de narrativas

Por: Paulo Ferreira

Nenhum país sobrevive se apenas puder optar entre velhas ilusões e novas privações. Mas é com isso que governo e oposição de direita estão a confrontar o país. 

 

 

Se o povo se alimentasse de narrativas éramos o país mais obeso do mundo. E se as narrativas significassem prosperidade seríamos o farol das civilizações.

 

 

Tudo, hoje, está reduzido a narrativas. Não há confronto de propostas políticas. Há uma guerra de narrativas. Não há governação nem alternativas. Há argumentários que têm como único objectivo sacudir a água do respectivo capote.

 

 

A indigência reinante tem um problema: as narrativas colocam-nos sempre a discutir o passado e não se vê ninguém preocupado com o futuro e com os caminhos que possam resgatar-nos da enrascada permanente em que nos vamos acostumando a viver.

 

 

O mais largo que os agentes políticos conseguem ver são três meses: como vai ser o Orçamento para 2017? Vai ter mais austeridade? Como vai ser apresentado a Bruxelas? Antes ou ao mesmo tempo que entra no Parlamento? E como se convence, de uma assentada, Wolfgang Schauble, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa?

 

 

Certo, certo é que, aconteça o que acontecer, por alturas do Natal teremos em cena duas narrativas alternativas sobre o que entretanto se passar.

 

 

Desde o famosíssimo PEC IV que as narrativas tomaram o centro do palco político. A culpa foi tua. Não, foi tua. A esquerda atirou-nos para o “buraco”. A direita está a escavar o “buraco”. Uns porque chamaram a troika depois de levarem o país à bancarota. Outros porque foram além da troika.

 

 

Não há paciência. Banif, Novo Banco, Caixa Geral de Depósitos, sanções de Bruxelas, crescimento económico, desemprego, investimento, exportações, consumo privado, execução orçamental, défice público, dívida, credibilidade externa, emigração, tudo, mas rigorosamente tudo, está reduzido a longas disputas sobre culpados e graus de culpa.

 

 

Claro que toda a esta discussão é estéril de qualquer proveito para o país. Primeiro porque o rigor dos factos é, por regra, a primeira vítima neste tipo de algazarras. Depois porque a honestidade intelectual de alguns dos principais protagonistas partiu há muito para parte incerta, se é que alguma vez ali habitou.

 

 

E ainda que isto fosse conduzido com o mínimo de elevação, teria apenas o valor de uma autópsia: com o mal irremediavelmente consumado, resta apurar causas. Só para que conste.

 

 

Este ambiente podre tomou conta da prática política porque as coisas estão a correr mal. Correm mal ao governo, herdeiro legítimo da delinquência orçamental socialista. E tudo servirá para justificá-lo. Será culpa da herança, do estado da banca, do Brexit, de Bruxelas, da economia internacional, dos mercados, das agências de rating ou dos empresários que estão contra esta solução política. Será culpa de tudo menos da acção e das opções do próprio governo, claro está.

 

 

Este é mais um projecto de comunicação do que de governação, à procura de criar na generalidade da população uma sensação de melhoria enquanto se esperam eleições.

 

 

Do lado da oposição a prática não é melhor. Tudo também preso a narrativas, uma tentativa de ditar posições apenas para que fiquem registadas em acta. Mas não se vê ali a construção de qualquer alternativa estruturada que vá além do “a culpa é do governo”.

 

 

Nenhum país sobrevive se apenas puder optar entre velhas ilusões e novas privações. Mas é com isso que governo e oposição de direita estão a confrontar o país.

 

 

Isto está a correr mal ao governo mas também à oposição. Mas sobretudo corre mal ao país, que não vê como vamos sair daqui. E não há guionistas que consigam fazer disto uma boa narrativa porque neste campeonato não há vitórias morais.

 

 

 

Outras leituras

 

 

Orban e Trump, ambos muito bem acompanhados um pelo outro. Nada de bom se pode esperar quando o populismo e o radicalismo assumem os comandos.

 

 

Tudo indica que vem aí multa para Portugal, embora relativamente leve. O Governo já anunciou que vai processar a Comissão Europeia. Chegará para mostrar serviço aos parceiros que apoiam o Governo ou o Bloco cumpre a ameaça e propõe formalmente um referendo sobre a Europa?

publicado às 00:35

Assis tem coragem. E tem razão?

Por: António Costa

 

O congresso do PS – ou melhor, das Esquerdas que suportam o governo socialista – já estava rendido a António Costa antes mesmo de começar. Pudera, seis meses depois, a geringonça aguenta-se, o poder está nas mãos dos socialistas, o Estado também, e Costa revele-se o melhor, numa equipa em que é o primeiro-ministro e mais 16 ministros. Francisco Assis assumiu a rutura, sem dissidência, notaram a sua coragem, sim, o menos importante.

 

No congresso de Costa, não rezará a história, nem no primeiro, nem no último discurso do secretário-geral, nem sequer na proposta de revisão da organização do Estado, da descentralização. Ficou a estratégia para unir a Esquerda contra as sanções da União Europeia e para comprometer a Direita, que, nesta matéria, corre o risco de sair sempre mal na fotografia. E a comparação quase mórbida entre a morte de refugiados e os 0,2 décimas de défice. De resto, ficou Assis, e esse sim será recordado quando a realidade económica e financeira do país exigir uma resposta que o governo não poderá dar sem por em causa a sua própria existência.

 

António Costa, aliás, não falou de economia, foi uma espécie de fantasma que pairou sobre o congresso do PS. Simplesmente, porque os números não estão para festas. Preferiu centrar o discurso económico nas críticas à Europa por causa das sanções, sem perceber que é exatamente por causa do modelo de governo que arranjou. Portugal falhou o défice de 2015, acima de tudo o défice estrutural, que derrapou mais de seis décimas, responsabilidade do anterior Governo. Costa teria de apresentar um plano credível, a continuação de uma estratégia de mudanças e não de reversões. Prefere o “o vírus do radicalismo ideológico” anti-europeu, como diz Assis. No fundo, o estilo em relação a Tsipras é diferente, a forma não. E se a economia mantiver a tendência do primeiro trimestre, negativa, não vamos ter apenas um Retificativo, vamos ter a elevação a voz, nós contra eles. É fácil, é popular.

 

Francisco Assis olha para o passado, para o que o PS de Costa cedeu para montar a geringonça, e para o futuro, que governo é que o país precisa.

 

É preciso dizer que os primeiros seis meses de governação não mostraram assim tantas cedências deste PS ao BE e PCP, porque falam a mesma linguagem económica, ou quase. Quem controla quem? Mesmo na Europa, quando Costa diz-se europeísta, garante que o défice vai ficar abaixo dos 3% e, ao mesmo tempo, critica a austeridade europeia. Costa está confortável ao lado de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, e isso transparece.

 

Já sobre o futuro, a história é outra. Um governo com esta composição parlamentar, e a precisar dela para viver, não pode fazer o que o país precisa. Costa é pragmático, respira política, e apesar das suas convicções, fará as cedências que forem necessárias para segurar o governo. O ponto é outro, Portugal parou, e o investimento reflete isso mesmo. Quem pode investir, não acredita, lê os sinais, lê as medidas, e foge. A culpa, esta, não é da Europa.

 

Assis é um homem de coragem, sim, mais importante ainda, é um homem sozinho com (a nossa) razão.

 

As escolhas

 

Os suíços foram a votos, não para escolher um governo ou um presidente, mas para votarem em referendo. O quê? A atribuição de um Rendimento Básico Incondicional, uma espécie de rendimento mínimo, e a redução dos salários dos gestores públicos ao nível dos salários dos ministros. Em Portugal, se tal fosse referendado, a maioria seguramente apoiaria tais leis. Na Suíça, foram os dois chumbados. E com uma votação esmagadora. É uma lição. No primeiro caso, por mais bondosa que seja a intenção, os rendimentos incondicionais dão os incentivos errados à sociedade e os mais desfavorecidos têm de ser apoiados, não podem ficar para trás, mas de outra forma, a começar no regresso ao mercado de trabalho. No segundo, os gestores públicos têm de ser remunerados em linha com as práticas do privado, sob pena de sobrarem os piores a gerir os dinheiros públicos.  

 

A CGD é um dos ‘berbicachos’ do setor financeiro em Portugal, precisa de muito dinheiro, mais de quatro mil milhões de euros, e a Comissão Europeia exige regras para esse investimento público, comparáveis às que são impostas aos privados. Como não podia deixar de ser, apesar da retórica política que ocupou o espaço mediático. Em entrevista à TSF, a comissária da concorrência garante que essa decisão europeia não será política. Vamos lá ver então quanto é que isso (nos) vai custar.

 

Tenham uma boa semana

publicado às 09:25

Primeiro estranha-se. Depois entranha-se?

 

 Por: Paulo Ferreira

 

As coisas são como são e a absoluta falta de manobra dos governos nacionais está nos caminhos em que esses governos - passados e presentes - se foram metendo, hipotecando a soberania durante muitos e duros anos.

 

O ritual é conhecido. As certezas absolutas das campanhas eleitorais e dos programas partidários passam rapidamenta a dúvidas quando se chega ao poder para acabarem em impossibilidades práticas.

 

Como a realidade é mais rígida do que as intenções e a possibilidade de se moldar o contexto da governação é mínima, são a prática e o discurso político que se vão alterando.

 

É a isto que estamos a assistir nos primeiros seis meses deste governo. Porque há Bruxelas e metas a cumprir. Porque há dívida para continuar a fazer e agências de rating decisivas na fixação de juros. Porque estamos dependentes da vontade de investidores. Porque há um contexto económico externo que não controlamos e não está fácil. Porque a matemática não é dada a caprichos nem ilusões.

 

Querendo, podemos espreitar o que se está a passar na Grécia e conferir com as intenções iniciais do Syriza para perceber como uma coisa está nos antípodas da outra. Depois de um referendo que recusava mais austeridade e de uma eleições que renovaram o mandato de Alexis Tsipras para o aplicar, tudo está a ser feito ao contrário. E não é, certamente, por falta de vontade política do governo grego em fazer diferente que o novo pacote de austeridade prevê cortes de 5,4 mil milhões de despesa do Estado, com uma reforma do sistema de pensões semelhante ao de governos anteriores, com cortes avantajados nos pagamentos aos reformados. O Syriza pode ser acusado de muita coisa mas entre elas não está o “radicalismo ideológico de direita” ou o “neoliberalismo”.

 

É esta a realidade que o Governo português começa a conhecer, depois das ilusões de campanha eleitoral e do primeiro esboço orçamental que Bruxelas mandou para trás.

 

Entre os compromissos europeus e as reivindicações do Bloco de Esquerda e do PCP ou as ilusões de muitos socialistas, valem mais os primeiros, como é evidente. O equilibrismo contabilístico é notório na tentativa de os cumprir, escondendo, ao mesmo tempo, que não há um rumo tão diferente como o que, bem ou mal, seguíamos nos últimos anos.

 

A conjuntura dá sinais de não querer ajudar. As exportações caem, o desemprego não há maneira de descer, a dívida sobe. Não se trata de responsabilizar este governo, que com seis meses de funções ainda não teve tempo para fazer o certo ou o errado de forma notória. Mas é preciso ter a noção que a realidade é quase sempre mais madastra do que as ilusões programáticas e ideológicas.

 

Neste contexto difícil e de equilíbrios frágeis, não deixa de ser interessante assitir ao caminho de adaptação que os discursos políticos estão a fazer. A fundação de um novo modelo para o crescimento económico já ficou para trás e agora só se fala na recuperação de rendimentos. Porque se devolveram salários à função pública mais depressa do que estava previsto e porque se aumentou o salário mínimo, esta é a bandeira que pode ser empunhada. É coisa pouca para a enorme ambição que se apresentava há seis meses, até porque a devolução à função pública é feita com o aumento de impostos sobre o consumo e o aumento do ordenado mínimo terá um custo de mais desemprego.

 

As coisas são como são e a absoluta falta de manobra dos governos nacionais está nos caminhos em que esses governos - passados e presentes - se foram metendo, hipotecando a soberania durante muitos e duros anos.

 

Anúncios do fim da austeridade e da fundação de uma nova ordem económica europeia vamos tendo de forma abundante. Primeiro foi Françoise Hollande. Depois Alexis Tsipras e Varoufakis. Agora António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Todos com condições políticas internas para fazerem as mudanças que defendiam e defendem. Todos, afinal, sem condições para fazer grande coisa e para demonstrarem que há alternativas.

 

Dir-se-á que é preciso que novos tempos como este alastrem a outros países, a outros governos, para que a mudança seja possível. Nomeadamante, acrescento eu, à Alemanha, Holanda, Áustria ou Finlândia.

 

Nesse cenário há uma pergunta que sobra: quem, então, será o garante de estabilidade e credibilidade que vai permitir continuar a pedir dinheiro emprestado, a financiar resgates ou a transferir pacotes de fundos comunitários?

 

 

Outras leituras

 

  • O Brasil é um bom caso para se estudar o que pode acontecer a um país rico em recursos quando as instituições e as elites políticas não funcionam. A crise seguirá, com ou sem Dilma.

 

publicado às 11:01

Projecto de governação ou de comunicação?

 

Por: Paulo Ferreira

As declarações de fim de austeridade, de renegociação de metas orçamentais, de projectos de reestruturação da dívida, de um “novo ciclo”, um “tempo novo”, de umas verdades que Bruxelas ia ter que ouvir e afins deram origem, afinal, a um Orçamento do Estado e a um PEC que cumpre as metas impostas pela Comissão Europeia.

 

 

As generalizações são potencialmente injustas e esta que vou fazer não será uma excepção. Fechado o processo orçamental deste ano e conhecido o Programa de Estabilidade e Crescimento que temos pela frente, estou convencido que a solução governativa PS+3 é mais um projecto de comunicação do que um projecto de governação.

 

Anuncio já alguns dos potenciais injustiçados. Acredito na nova geração Simplex e nos bons resultados que dali podem sair. Maria Manuel Leitão Marques já mostrou o que pode fazer quando liderou a primeira geração, no primeiro governo de José Sócrates. É verdade que se deve fazer muito mais do que passar da burocracia do papel para a burocracia electrónica, mas esta, pelo menos, tornou a vida menos pesada para cidadãos e empresas que não podem escapar-lhe.

 

Também acredito nas ideias e na capacidade de execução da área do Ministério da Economia que está entregue a João Vasconcelos. O país precisa de um choque de empreendedorismo, precisa de muita gente que testa, falha e volta a tentar sem estar à espera do subsídio ou do negócio rentista acertado nos salões de hotel.

 

O secretário de Estado da Indústria já mostrou do que é capaz no contributo que deu para colocar Lisboa e, com ela, o país no mapa global das “startups”. Ainda esta terça-feira a BBC falava disso. E esta publicidade positiva não tem preço.

 

Haverá outras áreas da governação promissoras e capazes de entregar bons resultados mas refiro-me, na generalização, ao essencial da política orçamental e económica. Aquilo que estamos a observar em Portugal é, salvaguardando as devidas proporções, semelhante ao que se passou na Grécia do Syriza: muitas ameaças, muitas promessas de um “tempo novo” para depois acabar tudo pior ou, quanto muito, quase igual. As proporções são diferentes porque o ponto de partida é muito diferente - cá com um único resgate e uma saída limpa e lá com uma sucessão de empréstimos e de doses de austeridade - e o radicalismo das promessas políticas foram também muito diversas - não temos por cá um Varoufakis e Mário Centeno está mais próximo da via da responsabilidade orçamental do que muitos suspeitariam ou gostariam.

 

Descontando a diferente intensidade, o que se está a passar é semelhante. As declarações de fim de austeridade, de renegociação de metas orçamentais, de projectos de reestruturação da dívida, de um “novo ciclo”, um “tempo novo”, de umas verdades que Bruxelas ia ter que ouvir e afins deram origem, afinal, a um Orçamento do Estado para este ano que cumpre as metas impostas pela Comissão Europeia.

 

Entre o esboço orçamental e o documento que está em vigor vão umas léguas de diferença. E, não tenhamos dúvidas, mais medidas de contenção serão implementadas se e quando a derrapagem acontecer ao longo do ano. O decreto de execução orçamental, que dá plenos poderes ao ministro das Finanças - parece decalcado dos que levaram a assinatura de Vítor Gaspar -, é disso um sinal que não engana.

 

Mais gritante ainda é o PEC. As trajectórias que são agora apontadas pelo governo até ao final da década estão muito próximas das que constavam do PEC elaborado há um ano pelo governo PSD/CDS, diabolizadas por toda a esquerda por representarem, diziam, um prazer pela austeridade, o radicalismo ideológico e a falta de sonho e por materializarem a errada visão de que “não há alternativa”. Afinal, olhando para este PEC, parece que não há mesmo alternativa.

 

Compare-se este documento com o plano inicial do PS, elaborado há um ano pela equipa de economistas liderada por Mário Centeno, e veja-se como essa alternativa não passou de um documento bem intencionado. Mas nada disto impede que o governo mantenha e vá repetindo as suas mensagens.

 

Que a sua política alternativa valoriza mais o crescimento quando, afinal, o que é previsto para o aumento do PIB não difere do que há um ano previa o anterior governo e a generalidade das agências internacionais e muito distante do que então era garantido.

Que a austeridade é passado mas, baralhando e voltando a dar, se sobem alguns impostos para aliviar outros e se faz contenção de despesa em áreas sociais como a Educação e a Saúde para aumentar mais depressa os funcionários públicos.

Que a prioridade é o emprego mas este teima em não aparecer e se mantêm as regras apertadas de admissões na função pública.

Que o investimento é uma aposta mas as previsões, sobretudo para este ano e para o próximo, são uma miragem do que eram nos planos eleitorais.

 

Pode dizer-se que a culpa é de Bruxelas, que não permite grandes desvios da sua cartilha. Ainda que seja verdade, não era o PS quem prometia que iria à Comissão defender aquilo que pensava serem os interesses do país, contra a linha do aluno obediente? Aguarda-se então uma efectiva mudança de política económica, assente no crescimento, no investimento e na criação de emprego e despojada de austeridade. Os números agora apresentados não a confirmam e, para já, só temos palavras cada vez mais afastadas da realidade.

 

 

Outras leituras

- Espanha vai novamente para eleições. Conclusão: “geringonça” não consta do dicionário de castelhano. 

 

- Já se percebeu que o BCE teve um papel fundamental no desfecho da liquidação e venda do Banif. Agora ficamos a saber que esse protagonismo não pode ser verificado ou questionado. Algo de muito errado se passa quando há poderes públicos que não podem ser sindicados.

publicado às 00:32

Andamos todos aos papéis

Por: Rute Sousa Vasco

 

A culpa é dos papéis. Os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos.

 

Maria Luís Albuquerque garante que só soube que o Estado podia ter de gastar 2,2 milhões de euros no Banif a 12 de novembro de 2015. Diz ela que foi isto que disse ao seu successor, Mário Centeno, ainda que continuasse completamente imbuída da esperança de “uma venda vantajosa do banco”.

 

Mário Centeno garante que soube dos graves problemas do Banif exactamente um mês antes, a 12 de outubro, oito dias depois das eleições ganhas pelo PSD/CDS. E, nessa altura, Maria Luís terá comunicado a gravidade da situação e duas soluções possíveis, a resolução ou a liquidação. Segundo Centeno, além dele, António Costa e Passos Coelho também participaram na mesma conversa.

 

Tenham conversado todos em outubro, tenha Maria Luís Albuquerque apenas em novembro tomado consciência do cenário de resolução do Banif, o facto é que em dezembro estavam três soluções em cima da mesa: a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, uma nova recapitalização pública, ou a criação de um "banco de transição", para ganhar tempo e vender depois melhor.

 

A 15 de Dezembro, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, e António Varela, responsável pela supervisão do Banco de Portugal, foram para Frankfurt para uma reunião do Banco Central Europeu (BCE). Segundo António Varela contou aos deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, pela parte que lhe tocava ia convencido de um cenário de ‘banco de transição’ – a tal solução para poder vender melhor.

 

Só que aqui entram os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos. E os nossos papéis são emails trocados entre o BCE, a Comissão Europeia, o Governo português e o Banco de Portugal e não deixam margem para grandes lapsos de memória ou estados de alma. A Comissão Europeia informou as pessoas que achamos que mandam em Portugal que não autorizava a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, nem a uma recapitalização do banco. E António Varela até podia estar, como Maria Luís, esperançoso, numa solução para o Banif que passasse por criar um banco de transição. A esperança é a última a morrer – mas que não seja por falta de informação.

 

E António Varela, o português que representa a supervisão dos bancos portugueses no BCE, já tinha sido devidamente informado, ainda antes da reunião de Frankfurt começar, que o Banco Central Europeu estava “inteiramente contra”. Disse-lho, por email, José Ramalho, seu colega no Banco de Portugal e em inglês: o Banif é para vender “with all means available”. Na realidade, a expressão não é sequer dele – recebeu-a de Jukka Vesala, o director-geral finlandês da supervisão no BCE que deu instruções de como tudo se deveria passar.

 

E é assim que três dias depois, 19 de dezembro, Danièle Nouy, presidente do Conselho de Supervisão do BCE, apresenta ao Governo português o ‘comprador’ do Banif, um noivo que encanta especialmente a matriarca Comissão Europeia, educado, competente e com futuro promissor como se pretende. A alegria pela escolha é tanta que nem vale a pena olhar para outros noivos: "A Comissão Europeia foi muito clara neste aspecto, por isso, recomendo que nem percam tempo a tentar fazer passar essas propostas.", disse Nouy ao nosso primeiro-ministro António Costa, segundo relato do jornal Público.

 

E assim foi como na história da Carochinha e do João Ratão. Lá caímos no caldeirão, sem honra nem glória, com um dote para lá de generoso pago pela família da noiva encalhada (que somos todos nós) mas deixando pessoas da Finlândia, França, Alemanha, Bruxelas felizes com a boda. Na Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, João Almeida, deputado do CDS, resumiu assim: "o processo acabou com a imposição de um comprador único: o Santander. (…) O banco foi entregue. Desculpem, mas não consigo dizer vendido." 

 

Este é o relato de uma história que alguns deputados se têm esforçado por apurar e que vários jornalistas, com destaque para o trabalho do Público, têm procurado não apenas esclarecer como também manter viva. Porquê manter viva? Porque é difícil reter a atenção das pessoas, mobilizar a vontade das pessoas, interessar as pessoas por serem parte da solução – e não apenas por se indignarem com as soluções que lhes são impostas. Valdemar Cruz, jornalista do Expresso, perguntava esta semana isso mesmo, a propósito dos Panama Papers ou de outro escândalo qualquer.

 

Este escândalo, da banca, do Banif, da opacidade da democracia europeia, do dinheiro que alguém decide em nosso nome usar, é um escândalo nosso. Não é apenas nosso – mas este, do Banif, como antes do BES, como antes do BPN, como antes do BPP, é mesmo nosso. É o nosso dinheiro, são os nossos votos, é, no limite, o nosso orgulho ou a falta dele.

 

Esta semana, Pedro Passos Coelho disse numa entrevista à Antena 1, que, em 2011, o Banco de Portugal estimava que os bancos portugueses precisavam de 40 a 50 mil milhões de euros. Três vezes mais do que os 12 mil milhões previstos no memorando assinado com a Troika.

 

Esperem, talvez seja melhor assim: 50 mil milhões é um terço de toda a riqueza produzida em Portugal.

 

Ou ainda: são cinco vezes as despesas com a saúde em Portugal.

 

Ou seis vezes as despesas com a educação.

 

Isto é o nosso problema – depois deste, vem o inferno que são os outros, a Europa, e esse é um problema de 500 milhões de europeus.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões:

 

Como se preparam para o mundo do trabalho os jovens que não querem ir para a universidade? Um estudo realizado na Grã-Bretanha demonstra que há uma cultura de desigualdade que penaliza os jovens que não querem estudar mais e que limita a mobilidade social. Um problema que não é só britânico.

 

A cobertura do grande tema da semana, os Panama Papers, levou o jornal Guardian a um novo recorde de audiência mediante uma cobertura intensa. Só na segunda-feira, dia 4 de abril, primeiro dia das revelações trazidas a público pelo consórcio internacional de jornalistas, o jornal inglês registou 10,4 milhões de visitantes únicos face a uma média de 8,5 milhões.

publicado às 11:23

As marcas de 90 dias de governo

Por: António Costa

 

O ministro Augusto Santos Silva anunciou-nos que o Governo está empenhado em ganhar um novo mandato em 2019, coisa que, na verdade, não precisava de ter feito, porque se há coisa que fica clara deste Orçamento do Estado para 2016 e dos três meses de governação é isso mesmo. Se não há primeiro-ministro que se lixe para as eleições, e não há, há primeiros-ministros que só pensam nas eleições.

 

Ao fim dos primeiros 90 dias de governo – mais acelerados do que costumam ser, por responsabilidade alheia e, sobretudo, culpa própria – já é possível definir as marcas que estão para ficar. António Costa bem se esforça por dizer que a principal caraterística é a que cumpre o prometido, o que é quase verdade. Prometeu beneficiar a função pública, e cumpriu, prometeu descer a sobretaxa de IRS (os mais pobres já não pagam IRS, diga-se) e cumpriu parcialmente, prometeu beneficiar os donos dos restaurantes e vai cumprir, prometeu descer a TSU dos trabalhadores com salários até 600 euros e... não cumpriu. Mas como as promessas não podem ser um fim em si mesmo, especialmente quando Costa foi além das suas próprias promessas eleitorais, sobram outras marcas destes 90 dias.

 

A primeira é mesmo a que Santos Silva nos anunciava. António Costa está a governar para as eleições, só não está a governar para 2019, mas para este ano ou, no máximo, o próximo. Como sucede em qualquer campanha eleitoral, só existe o líder, tudo é feito e centrado no nome e na capacidade política de quem manda. Para já, pelo menos, é uma vantagem. O Governo não tem estrelas, tem valores seguros como Santos Silva e Vieira da Silva, tem surpresas – para quem não os conhece – como Pedro Marques ou Adalberto Campos Fernandes, e as estrelas académicas que se apresentavam, Mário Centeno, Manuel Caldeira Cabral e Tiago Brandão Rodrigues, são na verdade as desilusões.

 

António Costa, é preciso reconhecer, conseguiu dar vida à geringonça, passou os testes sucessivos a custo, sobretudo o externo e as negociações com Bruxelas. Foi obrigado a mudar a lógica do orçamento – e foi isso que a Moody’s elogiou, já agora – e mesmo assim conseguiu ter os votos do BE e do PCP. O primeiro, como já se percebeu, quer o poder e vai atuar em conformidade, como se prova pela reação às reações a um cartaz tão estúpido como errado. O segundo será mais difícil de contentar, como se percebe pelos sinais públicos e notórios, até pelas posições da CGTP. Mas Costa conseguiu.

 

O ritmo da vida política portuguesa não vai abrandar, pelo contrário. Os efeitos de uma estratégia orçamental e económica contraditória, misturados com um contexto internacional de crise e estagnação generalizado, só podem dar maus resultados em Portugal. Não só ao nível das contas públicas, como do crescimento e emprego e das contas externas. E é por isso que o Plano B de Mário Centeno será mesmo para executar e em simultâneo o Governo tem de apresentar o PEC até 2019.

 

Até lá, vamos continuar a ter política, e muita, não necessariamente da boa.

 

As escolhas

 

O jornalismo foi premiado nos óscares, numa noite de surpresas a abrir e a fechar. O Óscar para o filme “O caso Spotlight” – uma investigação jornalística nos EUA aos abusos sexuais de crianças por parte de padres em Boston – é uma distinção a um certo cinema e a um certo jornalismo, ambos em crise. Leia aqui em www.sapo24.pt todas as histórias, e claro, os melhores vestidos do ‘red carpet’.

 

Tenha uma boa semana

publicado às 09:39

Impostos: Você é concorrente. Venha daí jogar

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não sou fã de concursos, nunca acreditei na sorte ao jogo e talvez por isso não senti qualquer emoção forte quando, a 6 de fevereiro de 2014, o Governo de Passos Coelho aprovou a criação de um sorteio chamado “Fatura da Sorte” com a finalidade de “valorizar e premiar a cidadania fiscal dos contribuintes”.

 

Mais tarde, nesse mesmo dia, o então ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, anunciou que o sorteio fiscal iria ser televisionado e iria ter como prémio um automóvel.

 

Nesta altura, além do meu descrédito no jogo, recordo ter ficado um bocadinho mais amarrotada no meu orgulho enquanto cidadã de um Estado que gere a sua cidadania fiscal na base do jogo, da sorte e da televisão.

 

A verdade é que quem sabe, sabe. Um prémio que passa por juntar cupões por cada dez euros de facturas pedidas e que, no final, promete um carro de topo de gama tocou fundo aos portugueses. É a versão sorte aos impostos no campeonato da sorte ao jogo. E o afã com que, a partir dessa data, vi os cidadãos-contribuintes em cafés, mercearias, cabeleireiros – esses grandes evasores fiscais, com dinheiro nas mais conceituadas off-shores – a solicitar uma factura por aquelas transação de 0,60 cêntimos provou-me que não percebo nada dessa alavanca que move o sentimento de cidadania do povo. Afinal todos queremos ser excêntricos e custa tão pouco, basta uma factura e quem sabe até vou de carrinho dali a uns dias.

 

Parece que não é uma atitude lá muito europeia, mas também, caramba, se não devemos ser carneiros da Europa para umas coisas, também podemos manter as nossas idiossinacrasias noutras. Segundo um estudo da consultora PricewaterhouseCoopers (PwC), divulgado em Abril de 2014, na zona euro apenas a Eslováquia contava também com um sorteio fiscal para estimular a cidadania, atribuindo prémios em dinheiro e automóveis. E com resultados motivadores para os cofres do Estado: nos dois primeiros meses da lotaria, a Eslováquia tinha arrecadado receitas adicionais de IVA na ordem dos 130 milhões. Fora da zona euro, outros países como o Brasil, a Argentina, a Colômbia, Porto Rico ou Taiwan adoptaram soluções idênticas à “Fatura da Sorte” de Portugal.

 

Por cá, segundo dados do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, citado pelo DN em dezembro do ano passado, a coisa também correu bem. Entre 2013 e 2014, o número de faturas comunicadas ao fisco aumentou 12,3% (passando de 4,28 mil milhões para 4,80 mil milhões) e as faturas com NIF (as relevantes para o sorteio) subiram 36,3 %, ultrapassando 635 milhões.

 

No princípio, a Quercus ainda disse que não era uma medida lá muito sustentável sortear carros de alta cilindrada. E o secretário-geral da Deco criticou um sorteio que considerou uma “versão pimba” do Ministério das Finanças, ou, nas palavras do bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC), uma “visão folclórica” pouco dignificante do acto tributário.

 

Quase 100 carros sorteados depois, os factos ficaram à vista: os portugueses são concorrentes ao grande jogo dos impostos e gostam.

 

Até que esta semana aconteceram duas coisas.

 

O portal E-Fatura onde se validam as facturas registadas soluçou por vários dias e bloqueou na recta final do prazo para validação das facturas de 2015. Depois de umas respostas engasgadas e de muita indignação, o Governo anunciou que prolongava o prazo até dia 22 de fevereiro. E, na mesma semana, foi confirmada a substituição dos carros de topo de gama por certificados de aforro. O valor é o mesmo, o aparato é que não.

 

Destas duas ocorrências, ligadas entre si no espírito de cidadania fiscal, há algumas coisas que dão que pensar.

 

A primeira é que os incentivos começam por definir o tipo de políticos que temos mas, no fim do dia, retratam sempre o povo que estes mesmos políticos servem. E explicam muito da perpetuação de tantos vícios e dogmas da governação em Portugal.

 

A segunda é que quando aceitamos ser contribuintes-jogadores, não podemos mudar as regras quando a consola encrava. É aguentar, como dizia alguém, até voltar a jogar.

 

Para mim, que não gosto de sorteios e não acredito em jogos de sorte e azar, resume-se assim: nem jogadores, nem soldados à força do grande exército fiscal. Basta ir ver o Bruno Nogueira e a Manuela Azevedo no espectáculo “Deixem o Pimba em paz” para perceber que o pimba pode ter muita pinta, ser digno e encher salas. A cidadania também.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Sugestões de leitura

 

Agora que estamos oficialmente em contagem decrescente para os Óscares, o Netflix teima em não nos dar sossego. Este Love é mais uma razão para ficar em casa.

 

É um artigo longo do escritor e ex-ministro da Cultura espanhol, César Antonio Molina, mas vale a leitura. É sobre a esperança.

publicado às 11:04

Um Governo à medida...

Por: António Costa

 

António Costa entrou em São Bento a promover uma viragem na página da austeridade, uma coisa que, como sabemos, nem chegou a ser, a página foi, no limite, virada do avesso com este orçamento e a respetiva errata. Ficou um governo à medida, à medida dos funcionários públicos, dos pensionistas e dos empresários da restauração, e pelos vistos Artur Santos Silva e Fernando Ulrich também querem acrescentar à lista o Caixabank.

 

A notícia – não desmentida – é do Expresso: “O Governo está a equacionar os ‘prós e contras’ de uma eventual alteração da lei que regula a blindagem de estatutos nas sociedades cotadas e as ofertas públicas de aquisição (OPA). Uma revisão da lei do Código de Valores Mobiliários que permitiria, em circunstâncias especiais, deixar cair as limitações estatutárias, nomeadamente a limitação do uso dos direitos de voto (...) A alteração que está a ser estudada pelo Executivo de António Costa facilitaria uma nova oferta pública de aquisição (OPA) do grupo espanhol La Caixa sobre o BPI. E está a ser equacionada, sabe o Expresso, no atual contexto com que se depara o banco liderado por Fernando Ulrich — está em marcha uma proposta da Comissão Executiva para desblindar os estatutos, e já conta com a oposição da Santoro de Isabel dos Santos (18,6%) e do grupo Violas (2,68%)”. É mesmo assim, fica a citação, para não ficarem dúvidas.

 

O Governo está a estudar uma lei à medida de um caso que deveriam ser os acionistas privados a resolver, está a admitir intrometer-se num diferendo privado e, mesmo tratando-se de um banco, se há alguma instituição que tem de ser chamada a envolver-se é o BCE, eventualmente o Banco de Portugal, se e só se o BPI deixar de cumprir os rácios de solvabilidade ou se entrar em situação de rutura de gestão.

 

Este Governo à medida é ainda pior, porque está a admitir entrar num conflito, favorecendo uns acionistas – neste caso, um, o CaixaBank – contra outros, não só Isabel dos Santos, mas também o grupo Violas e, sobretudo, os milhares de pequenos acionistas que serão prejudicados se os catalães tiverem a oportunidade de lançar uma OPA sobre o BPI. Porquê? Porque, caso se verifique mesmo o fim dos direitos de voto no BPI que estão hoje fixados em 20% do capital, o CaixaBank, que tem 44%, seria obrigado a lançar uma oferta, mas a que preço? O Conselho de Administração do BPI, ainda há um ano, fixou como mínimo os 2,25 euros por ação, muito acima da OPA entretanto lançada pelos catalães, que foi de 1,325 euros por ação.

 

Como é evidente para todos, incluindo Santos Silva e Ulrich, e também para o Governo, uma OPA agora seria lançada ao preço mínimo obrigatório, isto é, abaixo de um euro, tendo em conta que está, agora, em torno dos nove cêntimos. Pelos vistos, quem está a estudar tais soluções não está preocupado com as perdas que se perspetivariam no caso de uma OPA. Percebe-se, não é o seu dinheiro que está em causa.

 

Os acionistas do BPI têm de encontrar uma solução para um divórcio anunciado. Definitivamente, os catalães, os angolanos e os portugueses não falam a mesma língua, e, neste caso, o que parece óbvio hoje é que o Caixabank não está disposto a pagar pelo que quer, prefere os bastidores, a secretaria, e quer que o Governo alinhe numa estratégia à medida, para ficar com o BPI ‘de borla’.

 

Esta é a árvore. A floresta é ainda pior. O mercado de capitais português já quase não existe, o PSI20 já é PSI17 e as perspetivas são para diminuir. Então, qual é a melhor forma de acelerar uma morte lenta? Um governo à medida de um grande acionista contra todos os outros. Depois do que sucedeu no Novo Banco com os obrigacionistas seniores, não (nos) faltava mais nada. Só mesmo enviar uma nota às agências de rating para garantir que não lhes escapa nada.

 

As escolhas

 

Imperdíveis são os vídeos do primeiro-ministro. E não é pelas melhores razões. António Costa não está satisfeito com a forma como a comunicação social noticia o Orçamento do Estado para 2016 – porque será? – e quer agora falar diretamente aos portugueses. A recriação das conversas de família em versão ‘redes sociais’ é mais do que uma explicação das opções, é uma ação de propaganda sem contraditório. Que deve ver, para saber como é.

 

Não é uma escolha, é mais uma obrigação e uma necessidade... Termina hoje o prazo para validar as suas faturas no sistema E-Fatura. Com os níveis de carga fiscal que já suportamos, se calhar convém não perder a oportunidade de deduzir alguns dos custos que teve ao longo do ano de 2015.

 

As decisões políticas fazem-se, e muito, de economia, já sabíamos. No momento em que o Reino Unido discute e vai referendar a sua permanência na União Europeia, o HSCB admitia mudar a sua sede de Londres para Hong Kong. Mas não passou de uma ideia. O maior banco do mundo vai ‘continuar’ em Londres, um bom trunfo para os defensores do sim à União Europeia.

 

Tenha uma boa semana

publicado às 09:24

Vão de carrinho...

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Houve um tempo em que ter carro era coisa de rico. Reconheço a ideia em filmes dos anos 40 e 50 do século passado, e em muitos romances que recuam a essas décadas. Mas não era nascido na época em que o mundo ocidental considerava o automóvel um objecto de luxo.

 

Quando comecei a ter consciência de mim, na década de 70, o conceito era outro: qualquer um (em rigor, qualquer família…) podia ter o seu automóvel, “devia” ter o seu automóvel, porque havia modelos para todas as bolsas, e a mobilidade individual estava em plena expansão. Era o tempo do Fiat 127, do Opel Corsa, do Citroen AX, do Renault 5 - e a publicidade, que adoro rever (obrigado, You Tube, por existires!), exaltava o lado democrático da acessibilidade, o que me ajudou a crescer sem manias: ter carro era, em si, uma mais-valia - mas a diferença entre um FIAT e um BMW não me impressionava excessivamente…

 

Só voltei a preocupar-me com a questão no começo dos anos 80, quando tirei a carta e me confrontei com o preço dos carros, os seguros, os pneus, as revisões. O automóvel entrou na minha vida como na de toda a geração a que pertenço: indispensável para o trabalho e o namoro, mas uma despesa permanente. Quanto mais pobres, pior: o carro em segunda mão (sempre uma espécie de ovo kinder, nunca se sabia o que lá estava dentro…), os modelos novos baratos (porém cheios de defeitos, que se revelavam ao fim de poucos meses), os seguros muito caros para quem estava em começo de vida. Uma chatice. Quando estava à beira de decidir deixar de ter carro, a década mudou. Chegaram os anos 90.

 

Com eles vieram as modernices nos motores e tabliers, os créditos fáceis, as auto-estradas, e a falsa ideia de que qualquer pessoa, desde que trabalhasse e tivesse um rendimento acima do salário mínimo, podia ter o automóvel dos seus sonhos - desde que os sonhos não subissem a um Aston Martin ou a um Ferrari. Assim se modernizou um parque automóvel (parte boa) de uma população sem dinheiro para o pagar (parte má).

 

A crise, que na década passada decidiu tomar conta das nossas vidas, fez do sonho um tormento. Não foi apenas a impossibilidade repentina de cumprir as prestações e os leasings - foi o Estado a ver no universo automóvel mais um meio de sugar dinheiro para pagar a sua obesidade mórbida: imposto automóvel, portagens, impostos sobre gasolina, circulação, estacionamento pago na via publica. Vale tudo. E esta semana, perante a vergonhaça do Orçamento que chegou a Bruxelas, a resposta não se fez esperar: quem tem automóvel vai pagar mais 19% de impostos (rico ou pobre, tanto faz - coisa de esquerda, não é?!…), a ver se se conseguem arrecadar mais 580 milhões de euros de receita. Parece que vai nascer uma taxa para pagar a circulação entre a garagem do prédio e a rua…

 

Perante mais este atentado a quem vive do trabalho - e usa o carro maioritariamente para esse efeito -, voltei a ponderar deixar de o ter. Estudei percursos, alternativas, transportes públicos disponíveis. Consegui animar-me com a ideia - até me lembrar do pesadelo que vivi no Verão passado, quando achei “genial” a ideia de ir, sempre em transportes públicos, à Praia Grande (a 35 quilómetros de Lisboa), ver o meu filho trabalhar como nadador-salvador. É verdade que cheguei lá. Mas foi às 17:00, depois de três horas de comboios e camionetas. Porquê?

 

Porque o Estado, que decide agora aumentar em 19% os impostos sobre o universo automóvel, é o mesmo que privatiza - e ao fazê-lo, obriga a rentabilizar a quem comprou (isto é, reduzir horários e percursos) - o que era de todos: o transporte público. Com isso, mata as alternativas ao automóvel. Imobiliza os mais pobres, deixa via aberta aos mais ricos.

 

Dispensava com gosto o automóvel, cujo custo mensal é francamente superior ao beneficio que me dá - mas tinha alguma esperança de que uma “maioria de esquerda” cumprisse os desígnios que tradicionalmente lhe reconhecemos, e compensasse esse brutal ataque à classe média com medidas sociais: benefícios e melhorias na rede de transportes públicos. Nem isso sucede.

 

Parecem cheios de vontade de ir de carrinho. Não vai demorar muito tempo.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

Confesso: tenho conta de Twitter, mas não uso nem consulto. De vez em quando recebo uns mails de sedução da plataforma, uma vez por outra leio citações na imprensa de pessoas importantes que publicaram coisas no Twitter. Sempre achei que escrever em cima da hora era o mesmo que escrever mal. Mantenho-me distante. Agora, saltam-me matérias, nos jornais e newsletters, pouco simpáticas sobre o Twitter. E até mesmo sobre alternativas como o Telegram. O que se passa?

  

Na segunda-feira que vem há festa no Cais do Sodré, em Lisboa. Festejam-se três anos de poesia dita, cantada, gritada, sussurrada, no bar O Povo. Já uma vez chamei a este encontro semanal “O milagre das segundas-feiras”: “Num país deprimido e triste, onde parece nada acontecer, e só ter sucesso o mínimo denominador comum, o milagres das segundas-feiras d’O Povo é o sinal mais animador da cidade e uma espécie de prova de vida regular da nossa existência”. A ideia mantém-se. E a vitalidade cresce. Um brinde à poesia n’O Povo e a festa mais do que merecida.

  

Para um americano, talvez não seja a mais clara e interessante das fontes - mas para um europeu, para mais pouco ligado a um processo eleitoral intrincado, confuso, e onde muitas vezes se confundem sondagens com eleições primárias, estados representativos com outros marcadamente democratas ou republicanos, e todo o processo eleitoral parece uma roleta de Las Vegas, a cobertura do britânico The Guardian é talvez a mais completa, transparente e esclarecedora, para a eleição deste ano. É a que leio, é o meu conselho.

 

 

 

publicado às 09:24

O embuste da (falta de) soberania

Por: António Costa

 

António Costa vai entrar na primeira semana do resto da sua vida política como primeiro-ministro, vai tentar convencer Bruxelas – e as agências de rating e os organismos nacionais – da bondade de uma estratégia económica e financeira que tem tudo para correr mal. E ao mesmo tempo recupera – ou deixa que recuperem - o embuste da ‘soberania’, como se fosse isso que estivesse em causa. Não é, antes fosse, porque isso seria muito fácil de resolver.

 

 

É sempre assim. Quando um país não cumpre as suas obrigações, aquelas a que se comprometeu livremente, começa a arranjar bodes expiatórios, culpados, a apontar o dedo a terceiros. Na história da Europa comunitária, são tantos os casos que já se perderam na memória do tempo. Mais recentemente, na zona euro, sempre que um país entrou em risco de falência e em incumprimento, pediu ajuda externa, financiamento e, claro, com isso, chegou um plano de ajustamento difícil para as populações desses países. É neste contexto que surge a ideia de ‘invasão estrangeira’, desrespeito pelos cidadãos que elegem os governos, tecnocracia, ataques à ausência de soberania.

 

 

O equilíbrio entre os governos em funções, os eleitores e os financiadores é sempre difícil, muitas vezes no fio da navalha. E no caso de uma Europa política que tem tantas fragilidades, e muito a fazer se quiser sobreviver ao seu próprio sucesso, ainda mais. É por isso que é fácil misturar, deliberadamente, e de forma populista, os problemas graves de construção de um projeto europeu com ataques às soberanias dos Estados. Há erros da tecnocracia europeia na gestão das crises, sim, sobretudo lentidão nas respostas, sobretudo quando se percebe que é necessário corrigir decisões. Mas há responsabilidades enormes dos Estados, de cada um, considerado individualmente. Veja-se o caso da Grécia: falhou do ponto de vista económico, após sucessivos pacotes de ajuda internacional de centenas de milhar de milhões de euros. À crise económica, juntou-se a crise dos refugiados, que atinge a Grécia mais do que qualquer outro país do euro. E, aqui, os nacionalismos, os excessos de soberania estão a sobrepor-se aos interesses comunitários, aos interesses comuns para manter o passo de um projeto comum, o do euro. A tempestade perfeita.

 

 

Portugal – como os outros países – beneficiou durante anos de pertencer a um projeto comum, a viver debaixo do guarda-chuva europeu e das suas instituições. Claro, como os alunos ‘espertos’, aproveitou todas as boleias, mas pouco fez para saber andar sozinho. E de crise em crise, Portugal foi vivendo, e corrigindo os seus desequilíbrios à força, sobretudo o da balança externa.

 

 

Sim, sabemos o que se passou no passado, especialmente desde o ano de 1995, com a chegada dos governos de Guterres, da austeridade necessária para voltar a cumprir as regras, dos erros cometidos no programa da troika. E o que teríamos de passar se não estivéssemos no euro? A albanização do país. Sabemos disso tudo, António Costa também. E o primeiro-ministro sabe qual é o enquadramento e as metas financeiras a atingir. Mesmo assim, apresenta um orçamento que não cumpre esses objetivos e, depois, claro, o que está em causa é a soberania. Não é. Há muito a fazer na União Europeia, sim, mas haverá sempre mais se os governos responsabilizarem a Europa por aquilo de que ela não é responsável.

 

 

Ninguém na Europa impede António Costa de fazer escolhas, de puxar mais pelo consumo ou pelas exportações, pelo corte de despesa ou aumento de receita. Costa tem de cumprir uma redução do défice global e do défice estrutural, corrigido dos efeitos de medidas temporárias e do ciclo económico. O que faz? Apresenta um orçamento com pressupostos que tornam difícil cumprir a redução do défice global para 2,6% e ‘inventa’ uma contabilização de medidas estruturais como se fossem extraordinárias que permitiria reduzir o défice estrutural em 0,2%. A Comissão Europeia torce o nariz – o menos mau do que pode fazer já esta semana - e o que se discute não é o orçamento, mas a ingerência externa nas decisões do Governo, a soberania. E, ao mesmo tempo, ouvem-se as vozes de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa a brandir a bandeira nacional contra os invasores. Está certo!

 

 

António Costa, como Tsipras, sabe que a partilha de soberania no quadro europeu é melhor, mais vantajosa, do que a independência. Ainda, pelo menos. Podemos sempre abrir essa discussão, talvez fosse a melhor forma de acabar de vez com a estratégia fácil de resolvermos os nossos problemas com a falta de soberania.

 

 

As escolhas

 

 

O setor financeiro tem sido notícia, e não pelas melhores razões. Hoje ao fim da tarde, o presidente do Millennium bcp vai apresentar os resultados de 2015 e, segundo todas as indicações, apresentará lucros pela primeira vez em cinco anos.

 

E a partir de hoje, o NIB morreu, viva o IBAN, na verdade, é o NIB precedido de um código do país. É o international bank account number (IBAN).

 

Finalmente, Zika, o maldito. Afinal, onde nasceu este vírus, transmitido por mosquitos? No SAPO24, conheça a história do Zika, um nome de floresta. Uma viagem às origens do vírus, no Uganda.

 

Boa semana.

publicado às 10:09

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