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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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E se as máquinas fizerem "delete" da raça humana?

Por: Helena Oliveira

 

Marvin Minsky, um dos precursores da inteligência artificial (IA), morreu há poucos dias sem realizar o seu sonho: o de dotar as máquinas de consciência e sentimentos. Mas é exatamente esta possibilidade que está a gerar uma onda de ansiedade entre vários reputados cientistas e académicos. E já há quem garanta que, se nada for feito para controlar os progressos na área, as máquinas terão a possibilidade de carregar no botão e fazer um “delete” da raça humana. Paranoia, histeria ou uma boa oportunidade de prevenir o que poderá não ser possível remediar?

 

 

Bastava ter vivido mais alguns dias e Marvin Minsky teria testemunhado o mais recente triunfo na área que ajudou a criar há 60 anos. Desenvolvido pela Google, o Alpha Go cometeu a proeza de ganhar a um campeão humano naquele que é reconhecido como o mais intelectualmente complexo de todos os jogos de mesa, o milenar e chinês Go [sobre o qual até Confucio falou] e uma década antes do que a maioria dos especialistas no assunto previa. Minsky, pioneiro da inteligência artificial, morreu no passado dia 24 de Janeiro, aos 88 anos e, para os que acreditam no além, pode estar neste preciso momento a discutir com Einstein a comprovação científica da existência das ondas gravitacionais que este previra há 100 anos, isto se, e entretanto, nesse além-vida ou além-morte, a barreira da língua não existir. Ainda jovem, Minsky almoçou com o famoso físico alemão, mas o sotaque carregado deste último ao falar a língua de Shakespeare impediu que os dois génios pudessem ter uma experiência intelectual à altura do cérebro de ambos.

 

Universalmente considerado como pioneiro e uma das maiores autoridades mundiais na área da inteligência artificial (IA), Minsky começou por estudar Matemática em Harvard, interessou-se pelo campo da genética, mas seria à possibilidade de reproduzir a inteligência humana numa máquina – uma ideia inicialmente proposta por Alan Turing, de quem era amigo – que viria a dedicar a sua vida. Em 1958, e depois de terminado o seu pós-doutoramento em Matemática, e ainda em Harvard, mudar-se-ia para o MIT onde, juntamente com outro cientista da computação, John McCarthy, fundaria o primeiro laboratório de Inteligência Artificial, sendo também, já em 1986, membro fundador do famoso Media Lab da mesma instituição. Cientista e filósofo, a sua influência nas várias ciências computacionais foi sempre acompanhada pelos mistérios da inteligência e pensamento humanos, processos que, acreditava, não seriam assim tão diferentes quando transpostos para as máquinas.

 

Desde os anos 50 que Minsky trabalhou em “desafios” computacionais para caracterizar os processos psicológicos humanos, ao mesmo tempo que produzia teorias para dotar as máquinas de inteligência. No livro que publicou em meados da década de 80, “The Society of Mind” – e que combinava perspetivas sobre a psicologia do desenvolvimento infantil e a pesquisa da inteligência artificial, – sublinhava a sua crença inabalável de que não existia uma verdadeira diferença entre humanos e máquinas, na medida em que os primeiros eram, afinal, máquinas cujos cérebros eram compostos por muito agentes semi-autónomos, mas não inteligentes e que, para desenvolverem tarefas diferentes, exigiam mecanismos totalmente distintos. Tal como as máquinas. Esta teoria (desenvolvida em conjunto com o também cientista e pedagogo Seymour Papert) revolucionou o pensamento vigente sobre o funcionamento do cérebro e também sobre a aprendizagem humana.

 

Num paper escrito em 1982, Minsky explicava: “Tal como a Evolução alterou a visão do homem no que respeita à Vida, a Inteligência Artificial irá alterar a visão da Mente. À medida que encontramos mais formas de as máquinas se comportarem de uma maneira mais sensível, mais aprenderemos sobre os nossos processos mentais. E, ao longo deste caminho, encontraremos também novas formas de pensar sobre o ‘pensamento’ e sobre o ‘sentimento’. A visão que teremos de ambos alterar-se-á de mistérios opacos para redes complexas, mas ainda sim compreensíveis, para representar e utilizar ideias. Por seu turno, essas ideias irão originar novas máquinas e essas, por sua vez, permitir-nos-ão ter mais ideias. Ninguém pode afirmar até onde tudo isto nos irá levar e existe apenas uma certeza: não há nada, hoje, que nos permita afirmar que existem quaisquer diferenças básicas entre as mentes dos homens e aquelas que poderão existir em possíveis máquinas”.

 

Para o homem que, em outubro passado, foi entrevistado pela Technology Review do MIT e confessou considerar os avanços na inteligência artificial das décadas de 50 e 60 do século passado muito mais empolgantes do que os da atualidade, o que pensaria se soubesse que, dois dias depois da sua morte, a revista Wired pediria ao robot Wordsmith, o bot criado pela Automated Insights e que “redige” notícias “à medida das necessidades dos clientes”, para escrever o seu obituário?

 

A pergunta permanecerá sem resposta, mas são muitas outras as que se colocam face aos progressos da IA nas últimas décadas. Se as máquinas ainda não podem pensar ou sentir tal como Minsky considerava ser possível, a verdade é que o seu trabalho inspirou várias gerações e muitos dos seus alunos são hoje especialistas na área – como Ray Kurzweil, o visionário, inventor e defensor da Singularidade – conceito que defende que o progresso tecnológico irá culminar numa fusão entre a inteligência humana e a das máquinas -, ou Gerald Sussman, reconhecido investigador e professor no MIT ou ainda Patrick Winston, que sucedeu aos destinos do AI Lab depois de Minsky se ter retirado. E também não é de admirar que tanto Stanley Kubrick como Arthur C. Clarke o tenham consultado enquanto congeminavam o argumento de 2001: Odisseia no Espaço.

 

Mas e afinal, e em plena adolescência do século XXI, estão os humanos mais perto de dotar as máquinas de “consciência” ou estarão as máquinas, num futuro não muito distante, prestes a ultrapassar a inteligência dos humanos e a preparem-se, tal como temem muitos profetas da tecnodesgraça, fazer um “delete” da raça humana?

 

“A natureza darwiniana brutal da evolução tecnológica”

 

 Quando Isaac Asimov começou a escrever sobre robots na década de 40 do século passado, desenvolveu três regras para os ditos, sendo a número um aquela que clama que “um robot não pode causar mal a um ser humano ou, por inação, permitir que um humano sofra algum mal”. Provado que está que a realidade, em muitos casos, já ultrapassou a ficção científica, são muitos os cientistas, académicos, filósofos, empreendedores, especialistas em tecnologia e outros observadores do progresso acelerado que pauta as áreas da ciência e da tecnologia que têm vindo a alertar para uma ausência de controlo em todos estes avanços.

 

E, em alguns casos e sem histeria, é possível dar-lhes razão. Por exemplo, em Julho de 2015, na International Joint Conference on Artificial Intelligence, um conjunto de especialistas da área, entre os quais os (re)conhecidos Stephen Hawking, Elon Musk, Steve Wozniak ou Noam Chomsky, divulgariam uma carta aberta contra as denominadas “armas autónomas” que, graças à inteligência artificial, conseguem selecionar e atingir alvos sem qualquer intervenção humana. No documento que mais tarde viria a ser subscrito por mais de 14 mil outros cientistas de várias áreas, alertava-se para a inevitabilidade, caso não se faça nada, de este tipo de armas se transformar nas “Kalashnikovs de amanhã”. É que, ao contrário das armas nucleares, a produção deste tipo de armamento não exige custos elevados nem materiais difíceis de obter, sendo fácil a sua produção massificada. E, para os subscritores desta carta, é apenas uma questão de tempo até que as mesmas comecem “a aparecer no mercado negro e nas mãos de terroristas, de ditadores que desejam controlar melhor as suas populações, da senhores da guerra que pretendam perpetrar limpezas étnicas, etc.”.

 

Esta carta aberta, disponível no Future of Life Institute, é apenas uma das várias manifestações de apreensão que começa a ter cada vez mais adeptos no que respeita aos perigos e ameaças que se escondem por trás dos avanços na IA. E, apesar de, na generalidade, nem o mundo científico nem o mundo académico estarem convencidos que a inteligência artificial é uma ameaça iminente, a verdade é que alguns dos seus respeitados especialistas têm vindo a debater o assunto não só nos seus círculos internos, mas também e obviamente nos media e a apelar para que alguma coisa seja feita para que não chegue o dia em que poderá ser tarde demais para os humanos controlarem as máquinas.

 

Com menos ou mais histeria, e apesar de não existirem ainda máquinas – ao que se sabe – que estejam “no controlo”, também sabemos que a inteligência artificial faz parte integrante do nosso quotidiano, mesmo que tal facto não ocupe lugar ou preocupação alguma nas nossas mentes. Como escreve o repórter do Washington Times, Joel Achenbach, em The Resistance: Digital Dissent in the Age of Machines, “os computadores já pilotam aviões sozinhos, os carros sem condutor estão praticamente ao nosso dispor, os algoritmos antecipam as nossas necessidades e decidem que tipo de anúncios é que deveremos ver, as máquinas já criam peças jornalísticas e conseguem reconhecer o nosso rosto no meio de uma multidão”. Tudo isto em (con)fusão com a engenharia genética – basta estar atento aos media e vemos que a terapia de edição de genes, entre outros avanços inimagináveis, começa a ser notícia, e com a nanotecnologia (os bots de que fala Ray Kurzweil nos seus livros sobre a Era da Singularidade e que podem coexistir no interior do corpo humano e serem programados para tarefas específicas) a dar cartas em inúmeras áreas. E a lista poderia continuar.

 

Por outro lado, e apesar de o sonho de Minsky de dotar as máquinas de consciência ou sentimentos ainda não se ter verificado, também é verdade que a evolução tecnológica aparenta ser uma corrida rápida e sem limites preestabelecidos. Como escreve Tom Chatfield, num interessante artigo do The Guardian, intitulado “O que significa ser humano na era da tecnologia”, a nossa interdependência com as máquinas é um facto consumado e há que reconhecer “a natureza darwiniana brutal da evolução tecnológica”. Chatfield alerta também para o facto de “apesar de as nossas máquinas ainda não estarem ‘vivas’, as pressões evolucionárias que as rodeiam são tão intensas quanto as que existem na natureza, mas com uma dose muito menor dos seus constrangimentos”. E, a este propósito cita o filósofo Daniel Dennett, entre outros [que apesar de considerarem que a Singularidade, enquanto o “momento fatal em que a IA irá ultrapassar a inteligência dos seus criadores e tomar conta do mundo” está ainda a muitos séculos de distância, mas mais vale prevenir que remediar], que afirma que a lógica de atualização e aperfeiçoamento constante vai muito além de áreas como as finanças, a indústria do armamento ou a da produção. “Se se provar que um algoritmo pode produzir diagnósticos mais consistentemente rigorosos do que um médico, então a recusa em utilizá-lo será, em simultâneo, não ética e legalmente questionável”. A verdade é que neste momento, e apesar da frustração manifestada por Minsky face aos verdadeiros - ou questionáveis – avanços na inteligência artificial, são muito poucas as áreas de “esforço humano” que permanecem intocáveis em termos tecnológicos.

 

E parece ser este esforço de antecipação aos perigos que deles podem emergir que move figuras incontornáveis como Stephen Hawking, por exemplo, a darem a cara por movimentos que, apesar de não serem contra os progressos da AI, estão preocupados com as inúmeras questões éticas que lhes estão inerentes, em conjunto com a necessidade de existir algum tipo de “autoridade” que lhes imponha limites e controlos apropriados, seja lá o que isto queira dizer.

 

Max Tegmark, professor de física no MIT, tem vindo a encabeçar um destes movimentos. Como conta Joel Aschenbach no seu livro acima referido, Tegmark é um de vários cientistas que acredita que a inteligência artificial poderá vir a ser o melhor ou o pior que pode acontecer à raça humana.

 

Em 2014, Tegmark reuniu em sua casa 33 cientistas para discutirem as ameaças existenciais originárias dos avanços da IA, tendo de seguida persuadido várias personalidades do mundo da ciência, da tecnologia e do entretenimento para fundarem o já acima referido Future of Life Institute (FLI). A missão desta organização sem fins lucrativos visa catalisar e apoiar pesquisas e iniciativas que salvaguardem a vida [humana], ao mesmo tempo que espera contribuir para o desenvolvimento de visões otimistas para o futuro, incluindo formas positivas para a humanidade se manter no seu próprio caminho tendo em conta as novas tecnologias e respetivos desafios.

 

O próprio Hawking consta do quadro de fundadores do FLI e, dado o seu mediatismo, foi a figura estrategicamente escolhida para afirmar, numa entrevista à BBC, que a IA, se não eficazmente controlada, poderia ditar o fim da raça humana. Tegmark escolheu também para companheiros desta cruzada o laureado com o Nobel da Física Francis Wilczek, o famoso investigador em IA Stuart Russel, o ator Morgan Freeman, o fundador do Skype Jaan Tallinn e também Elon Musk que, por sua vez, é também o fundador de outra iniciativa sem fins lucrativos, a OpenAI que, em conjunto com muitos insiders de Silicon Valley, cientistas e engenheiros, pretende manter a inteligência artificial como uma “extensão das vontades humanas”, assente na premissa de que é tão difícil imaginar o quanto esta pode beneficiar a sociedade, como o quão perigosa a mesma pode vir a ser se construída ou usada de forma incorreta. De sublinhar também que Musk é um dos maiores investidores, em conjunto com Mark Zuckerberg do Facebook e o actor Ashton Kuchner, de uma empresa cujo principal objectivo é construir um robot que pense como uma pessoa, através de uma rede neural capaz de replicar a parte do cérebro que controla a visão, os movimentos do corpo e a linguagem. Todavia, é também da sua autoria a frase que reza que “com a inteligência artificial, poderemos estar a convocar o demónio”.

 

Superinteligência, superestupidez ou Xanax precisa-se?

 

 

Se, à luz da lógica e da inversão do ditado que afirma “casa roubada, trancas à porta”, estas iniciativas e movimentos parecem fazer sentido, também é verdade que os progressos ditados pela inteligência artificial constituem terreno fértil para muita imaginação e fundamentalismo. Que o diga o filósofo sueco Nick Bostrom, professor em Oxford e amigo e aliado intelectual de Tegmark, autor do livro “Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies”. Bostrom é inigualável no que respeita a divisar cenários apocalípticos e, como refere Aschenbach, na sua mente “a extinção humana poderá ser só o início”. Se assim for, na verdade, não teremos muito com que nos preocupar, visto já termos entretanto desaparecido. Mas se existem muitos tecnoprofetas da desgraça - como existem outros tantos que passam a sua vida a tentar acertar no dia do juízo final – o que mais impressiona em Bostrom, fundador da Humanity +, uma organização internacional que defende a utilização ética da tecnologia para a expansão das capacidades humanas e também do Institute for Ethics & Emerging Technologies, é o facto de ser um académico mundialmente respeitado.

Muito resumidamente, a história que conta no seu mais recente livro tem como premissa uma determinada máquina (programada para fazer clips) que vai ganhando inteligência e poder contínuos sem nunca desenvolver quaisquer valores humanos, e que acaba por transformar, quando atinge a sua superinteligência, toda a Terra - inclusive a raça humana – em … clips. Sim, está na hora do leitor sorrir e convencer-se que Bostrom é completamente lunático. Mas bastará ler o resumo do livro disponível na Internet ou pesquisar um pouco mais acerca de Bostrom para, pelo menos, lhe dar algum crédito. Crente que chegará a altura, mais ou cedo mais tarde, em que os “cérebros das máquinas” ultrapassarão os dos humanos em termos de intelecto, gerando-se a tal superinteligência, será esta a poder substituir os humanos como forma de vida dominante na Terra. Máquinas suficientemente inteligentes poderão aperfeiçoar as suas capacidades de uma forma muito mais rápida comparativamente às dos cientistas humanos. E, como escreve “tal como o destino dos gorilas depende agora mais dos humanos do que das suas próprias ações, o mesmo acontecerá com o destino da humanidade futura, a qual dependerá das ações das máquinas superinteligentes”.

Apesar do tom catastrófico assumido por Bostrom nos seus livros, papers e nas inúmeras conferências que profere no mundo académico e científico, o filósofo é a favor da criação desta superinteligência, mas apenas se a mesma for alvo de uma cuidada e apertada vigilância, com salvaguardas suficientes que assegurem que estas máquinas não escaparão ao controlo humano e que não colocarão em perigo a existência futura da humanidade.

Bostrom é considerado como um dos expoentes máximos em termos de “ansiedade” face ao futuro da tecnologia. Mas e como refere o jornalista do Washington Post que acompanha esta área, esta “ansiedade” parece estar a ganhar cada vez mais adeptos, sendo similar à paranoia que se instalou nos anos 50 do século passado, quando óvnis e extraterrestres povoavam o imaginário humano e as telas de Hollywood. E dá um exemplo de um dos cenários imaginados por Bostrom: “imagine que os engenheiros humanos programam as máquinas para, e seguindo a regra de Asimov, não magoarem nunca os seus ‘criadores’. Mas vá ainda mais longe e imagine que as máquinas decidem que a melhor forma de obedecerem ao comando ‘não-magoar-os-humanos’ será através de uma prevenção ‘radical’ que passará por acabar com o nascimento de qualquer um deles”.

Apesar de o filósofo sueco não afirmar que isto vai acontecer (fazê-lo seria o mesmo que assumir uma completa insanidade) e de concordar que, graças às tecnologias, somos todos testemunhas de alterações radicais no que respeita à população humana e à prosperidade económica, na sua visão “a existência moderna é uma anomalia, criada em grande parte pela tecnologia, visto que as nossas ferramentas conseguiram esmagar, subitamente, as restrições da natureza”. Ou, como defende também, “estamos no comando agora ou pelo menos parecemos estar”. Por enquanto.

Bostrom, que pertence também ao quadro de fundadores do Future of Life Institute não está, de todo, sozinho, nesta cruzada e, tal como Hawking surpreendeu o mundo ao afirmar que “a IA pode vir a ser o maior erro cometido na nossa História”, os resultados que se seguiram a uma conferência, organizada por Tegmark para discutir as potenciais ameaças da IA, são dignos de reflexão: em pouco tempo, e em conjunto com os 10 milhões de dólares oferecidos por Elon Musk para financiar a pesquisa do FLI, 300 equipas de investigadores enviaram propostas para diminuir os potenciais riscos da inteligência artificial.

Claro que entre a comunidade científica as opiniões são muito divergentes. Por exemplo, Boriz Katz, também ele investigador em IA no MIT, afirma que, ao contrário do que defende Bostrom, “o que estamos a fazer hoje é produzir entidades super-estúpidas que cometem erros”, afirma. “As máquinas são perigosas porque lhes estamos a dar demasiado poder, poder esse que serve para agirem como resposta a inputs sensoriais. Mas o problema é que estas regras não estão a ser convenientemente pensadas, o que resulta em que, por vezes, a máquina aja da forma errada”, acrescenta, assegurando ainda que isto acontece, mas nada tem a ver com a possibilidade de as máquinas nos quererem matar.

Aleluia, diremos nós, respirando de alívio. Mas, se voltarmos às visões da dupla Tegmark e Bostrom, que acreditam piamente que “a inteligência humana ocupa apenas um espaço minúsculo no grande esquema das coisas” e que será a nossa inteligência que nos permitirá “go galactic ou intergalactic”, Bostrom está convencido que será a IA a abrir portas a um conjunto alargado de possibilidades e capacidades e “que permitirá a colonização espacial ilimitada, o upload de mentes humanas nos computadores e também civilizações intergalácticas com mentes de dimensão planetária que viverão ao longo de milhares de milhões de anos”.

E, mais uma vez, este Bostrom é louco? É tão alegadamente louco que sublinha também que “se não excluímos a hipótese de que uma máquina possa criar uma simulação da existência humana, teremos de assumir que é extremamente provável que já estejamos a viver no interior dessa mesma simulação”. Se o filósofo é fã da trilogia Matrix, não sabemos. Mas a verdade é que ele não nega a possibilidade de ele próprio estar já numa máquina com esta natureza.

Quanto a Einstein e depois dos 100 anos que tiveram de passar para que a sua teoria fosse comprovada, foi também visionário quando afirmou que “se está a tornar assustadoramente obvio que a nossa tecnologia tenha ultrapassado a nossa humanidade”. Ao que Minsky provavelmente responderia com uma frase que também o tornou famoso: “nenhum computador foi ainda concebido para ter consciência daquilo que está a fazer; mas, e na maior parte do tempo, o mesmo acontece com os humanos”.

 

 

 

publicado às 11:17

Carinhos vendem-se - e não, não é o que está a pensar

Por: Helena Oliveira

 

O negócio dos mimos – sem cariz sexual – vai bem e recomenda-se. São já várias as empresas que apresentam um portefólio de serviços que incluem a oferta de carinho, abraços, aconchegos e outras emoções similares aos que vivem demasiado sozinhos para os terem de borla. Bizarro? À primeira vista, talvez. Mas se tivermos em linha de conta que a solidão faz, comprovadamente, mal à saúde, talvez seja mais fácil aceitar o que estes profissionais do amor platónico têm para oferecer

 

 

E se de repente um desconhecido lhe cobrasse um dólar por minuto para o abraçar? E, mais inimaginável ainda, se você aceitasse cobrar por esse serviço. Serviço? Sim, leu bem, o negócio da venda de mimos, afagos e aconchegos não vai mal e o que é verdadeiramente uma estratégia inovadora e, quiçá, competitiva, é o facto de não incluir, de todo, no seu modelo de negócio, qualquer conotação sexual.

 

“O toque tem o poder de nos confortar quando estamos tristes, de nos curar quando estamos doentes, de nos encorajar quando nos sentimos perdidos e acima de tudo o resto, de nos fazer aceitar que não estamos sozinhos”. 

Samantha Hess, fundadora da CuddleUpToMe

 

 Samantha Hess, da Cuddle Up To Me.

 

Para que tal premissa seja cumprida, o cliente assina, como em qualquer acto comercial, um contrato no qual se compromete a respeitar as regras da actividade prestada. Para “venda” existe uma variedade de produtos emocionais oferecidos por prestadores profissionais de mimos e carinhos. Ora leia.

 

“Oferecemos ‘sessões de mimos’ completamente platónicas, integralmente vestidos, com a duração mínima de 15 minutos e máxima de 5 horas. O objectivo de uma sessão é ajudá-lo nos momentos da vida em que ou precisa de doses extras de meiguice, ou quando não consegue ‘extrair’ mais carinho das pessoas que ama. Queremos que saiba que você importa e que aqui pode ser amado sem culpa, vergonha ou julgamento próprios da nossa cultura (…). O custo deste serviço afectuoso é de um dólar por minuto; e os resultados não têm preço”.

 

Esta é a resposta, em tradução livre do inglês, de uma das faqs no site da Cuddle Up To Me, uma empresa fundada por Samantha Hess, “dadora profissional de mimos” [cuddler de cuddles], em finais de 2012, em Portland, no estado de Oregon. A ainda jovem empresa – mas não uma start (me) up - de Hess tem como missão servir como “uma plataforma para se ser amado, compreendido e apreciado”. O mesmo acontece com uma empresa sua concorrente, a Snuggle Buddies, sedeada em New Jersey e que se auto-intitula de “fornecedora de mestres em amor platónico” ou de um novo tipo de terapia que promete “remover” a solidão e os seus sintomas – depressão, ansiedade e stress – através do toque terapêutico. De acordo com o seu fundador, Evan Carp, a empresa conta agora com 125 “mimadores” profissionais e com receitas mensais na ordem dos 16 mil dólares.

 

Se esta é a versão dos tempos modernos do papel das damas de companhia de outrora ou uma contorção da ideia das damas (e cavalheiros) acompanhantes da actualidade, não se sabe ainda. Primeiro há que digerir o pasmo da coisa e manter a mente aberta, que isto de viver no século XXI não é, de todo, fácil.

 

Na verdade, o que o negócio de Hess oferece é a possibilidade de se contratar pessoas que dêem mimo, afectos, carinhos e meiguices por determinado valor por minuto. E se o que à primeira se estranha ou se desdenha ou se condena, pode transformar-se num bom exercício de reflexão. Numa mistura de empreendedorismo – sim, já cá faltava -, sociologia, saúde, neurociência e um pouco de imaginação, o negócio dos carinhos oferece doses extra de oxicotocina – uma molécula extremamente poderosa e benéfica - a clientes solitários que muito provavelmente não sabem que a solidão faz mal à saúde, numa sociedade meio alienada e indiferente, movida a conexões humano-digitais e que conta com um número crescente de solitários. A ideia não é nova, mas tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos à medida que do preconceito se passa para um novo conceito que assegura que é possível oferecer “calor humano” sem qualquer cariz sexual. Tal não impede, como seria de esperar, que os fundadores destes novos empreendimentos recebam, de forma recorrente, mensagens de ódio, e até de morte, pela prestação de tais supostamente estranhos serviços.

 

A este propósito, em Julho de 2014, a revista "The Atlantic" publicou um artigo sobre uma “festa de mimos” que juntou cerca de 20 pessoas em Dallas, na sua maioria de meia-idade, e que em conjunto se divertiram com guerra de almofadas, carícias, abraços, risadas em volta de snacks e conversas soltas e honestas sobre uma das mais básicas necessidades do ser humano: a de receber carinhos. Como se pode ler no artigo, os dados “oficiais” indicam que este tipo de festas teve início há mais de uma década e que de uma primeira experiência bem-sucedida, em Fevereiro de 2004, em Manhattan, surgiu a organização Cuddle Party, a qual dá formação a “facilitadores” deste tipo de eventos (ou workshops, como se pode ler no seu website) em 17 países do mundo. As regras de convivência são simples, mas de cumprimento obrigatório, sendo que estímulos ou possíveis ideias de “manifestações sexuais” são estritamente proibidos.

 

Mais impessoal e com um cariz diferente, mas muito bem-sucedido também, é um outro negócio que também oferece companhia, denominado RentaFriend, que conta com cerca de 530 mil pessoas que, em regime de freelance, podem ser contratadas para acompanhar homens e mulheres que viajam com frequência por motivos profissionais e que optam por ter a companhia de um estranho que a eles se junte para partilhar uma refeição, uma ida ao teatro ou ao futebol, num ambiente de simples camaradagem. O serviço prestado por esta empresa é igualmente procurado por pessoas que chegam a uma cidade pela primeira vez e que, em vez de contratarem um guia turístico, optam por escolher um “local” para fazer de cicerone. Mas, na verdade, o serviço de “aluguer de amigos” serve múltiplos propósitos, seja o de se ter uma companhia agradável quando se é convidado para um casamento ou para uma festa, seja ainda o de alguém que sirva de “incentivo” para que não se falhem as idas ao ginásio. Como seria de esperar, as fotografias e os perfis dos prestadores de companhia estão disponíveis no site em causa, que opera em vários locais do mundo. Mas o serviço de “aluguer de amigos” pouco tem a ver com o que promete o negócio dos mimos.

 

 

Já não mais vale só do que mal acompanhado

 

Por muito “modernos” que nos sintamos, a ideia de se pagar a alguém para oferecer companhia e carinho é passível de causar incredulidade, umas boas risadas ou meros sentimentos de repulsa. Principalmente a quem nunca sentiu o vazio da solidão e os males – físicos e psicológicos - que a mesma encerra.

 

E se este fenómeno da solidão tem sido, até agora, mais associado a idosos, a verdade é que um pouco por todo o mundo são cada vez mais as pessoas que afirmam sentir-se sós, independentemente da faixa etária a que pertencem. Sendo o Japão o recordista no que respeita ao isolamento, nomeadamente ao que é auto-imposto e que deu origem à síndrome conhecida como “hikikomori” – a qual “ataca” principalmente jovens entre 20 e 30 anos, a residir em casa dos pais e que se afastam voluntariamente da sociedade, vivendo entre as quatro paredes dos seus quartos e apenas ligados à Internet –, são também inúmeros os estudos que apontam para um aumento da solidão na generalidade dos países ocidentais. Partindo sempre da dualidade inerente ao uso das tecnologias - os que defendem que as mesmas provocam alienação versus os que afirmam que, pelo contrário, diminuem a solidão – a verdade é que, face às duas últimas décadas do século passado, estar só, mesmo que acompanhado, assemelha-se a uma espécie de vírus em progressão no mundo em que vivemos.

 

A título de exemplo, num estudo publicado em 2006 pela American Psychological Association, um quarto dos americanos auscultados (em 2004) afirmava não ter ninguém com quem discutir questões importantes, o dobro do número dos que confessavam o mesmo em 1984. Dados mais recentes recolhidos pela Pew Internet, em Novembro de 2009, davam conta de que as redes de discussão dos americanos apresentavam um decréscimo em cerca de um terço face a 1985. E, em 2013, por intermédio de uma pesquisa efectuada pelo Barna Group, 20% dos entrevistados admitiam sentir-se sozinhos contra apenas 12% uma década antes. Dois outros estudos, mais recentes e citados num outro artigo que a "The Atlantic" publicou em Dezembro último, reportam que, nos Estados Unidos, são já cerca de 40% os adultos (e não apenas os seniores) que se sentem socialmente isolados.

 

Se este número crescente de isolamento representa um fenómeno sociológico próprio das sociedades modernas, existirão motivos para que se critique empresas como a Cuddle Up To Me ou a Snuggle Budies – e outras que vão aparecendo entretanto – que no seu portefólio de serviços tentam, por determinado preço, é certo, amenizar os males da solidão?

 

A resposta será variável, decerto, de acordo com os preconceitos de cada um, mas talvez ajude na aceitação desta venda de amor platónico o facto de, comprovadamente, a solidão fazer mal à saúde. Se pagamos a um psicólogo para simplesmente nos ouvir, que mal tão grande advirá de contratarmos alguém para nos abraçar e dar mimos, principalmente se tivermos em mente os efeitos negativos que o isolamento provoca no ser humano?

 

Em Fevereiro de 2014, John Cacciopo, em conjunto com a equipa de psicólogos que lidera na Universidade de Chicago, apresentou um estudo que afirmava que a solidão extrema pode aumentar as probabilidades de morte prematura em 14%. O estudo, que teve uma duração de seis anos, acompanhou mais de duas mil pessoas com 50 ou mais anos, e concluiu que o isolamento está directamente relacionado como problemas de saúde tão díspares como a pressão arterial elevada, mutações de alguns genes e alterações significativas nos padrões de sono. Esta investigação veio apenas confirmar o que outros estudos têm vindo a alertar, como é o caso de a taxa de mortalidade das pessoas solitárias ser comparável à dos fumadores ou duas vezes superior à que advém da obesidade.

 

O isolamento social prejudica ainda o sistema imunitário, aumentando as probabilidades de inflamações, as quais podem conduzir à artrite, à diabetes tipo II e a doenças coronárias. Adicionalmente, o estigma que acompanha a solidão e o facto de esta ser “socialmente incompreendida” contribui para que o ciclo do isolamento se perpetue e que seja crescentemente difícil sair dele.

 

 

A oxitocina e o poder do toque humano

 

 

Para além dos estudos que comprovam, cientificamente, que a solidão faz mal à saúde, são muitos os investigadores, em particular nos últimos anos e graças aos progressos efectuados nas neurociências, que afirmam que o toque tem poderes “curativos”. Na verdade, vários clientes da Cuddle Up To Me e da Snuggle Budies procuram os serviços destas empresas por os considerarem terapêuticos, ajudando-os a lidar com situações passadas de abusos físicos ou de negligência, ou com algum tipo de distúrbio de stress pós-traumático. No entanto, a emergência deste novo tipo de negócios está a servir um conjunto de outras necessidades “modernas”, as quais não entram necessariamente na categoria dos exemplos acima referidos.

Madame Vigée-Lebrun et sa fille, por Louise Élisabeth Vigée Le Brun, 1789 

 

Na Cuddle Up To Me, durante uma sessão um-para-um de “cuddling” – que custa entre 60 a 80 dólares por hora – pode-se abraçar, cantar, ler, fazer jogos, conversar “bem pertinho”, praticar a posição de “colher” – ou mais 50 outras diferentes – devidamente explicadas no livro escrito por Samantha Hess e intitulado Touch: The Power of Human Connection, ou simplesmente receber a atenção de que tanto se precisa. As sessões podem ainda ser customizadas de acordo com as formas que melhores sensações de relaxamento produzem no cliente, como por exemplo “o tipo de amor que uma mãe oferece a um filho”.

 

E, dado que este último é um dos serviços devidamente sublinhados na oferta da empresa, é impossível não nos assaltarem, de novo, as dúvidas face à sua credibilidade. O que nos leva de regresso ao tema da neurociência e da influência que estes “actos emocionais” têm no nosso cérebro e, consequentemente, na nossa saúde.

 

Quando experimentamos o bem que sabe uma boa dose de mimos, o nosso cérebro liberta, no geral, endorfinas (a hormona do bem-estar) e dopamina (que ajuda, entre outras funções, a controlar o humor). Mas quando recebemos carinho através do toque humano, em particular, os níveis de oxitocina, a denominada molécula do amor, da generosidade ou da confiança, são libertados em pequenas doses que não só produzem um sentimento de “aconchego” na altura, como perduram ainda durante algum tempo “pós-toque”. Na verdade, a oxitocina é uma hormona produzida pelo hipotálamo que tem como principais funções promover as contracções musculares uterinas, reduzir o sangramento durante o parto, estimular a libertação do leito materno - e os laços criados entre mãe e filho -, desenvolver apego e empatia entre as pessoas e, paradoxalmente, produzir parte do prazer do orgasmo e do medo do desconhecido. Mas os seus efeitos vão tão mais além de todos estes que muitos cientistas a elegem como “a mais extraordinária molécula do mundo” ou ainda como a “rainha das moléculas”.

 

De acordo com experiências recentes, a oxitocina reduz o stress e a tensão arterial, melhora a comunicação entre os casais, aumenta os níveis de felicidade e bem-estar, bem como os sentimentos de confiança, contribuindo igualmente para reforçar as nossas relações sociais e impedir vários problemas psicológicos e fisiológicos (tendo também efeitos negativos, como o aumentar da inveja e da soberba, os quais não se manifestam, contudo, quando recebemos “mimo”). Ou, de forma mais conceptual, a oxitocina, enquanto químico cerebral, é crescentemente considerada como um dos ingredientes principais que faz de nós os humanos que somos.

 

Paul Zak, um cientista e economista citado num dos artigos da "The Atlantic", autor do livro The Moral Molecule: The Source of Love and Prosperity, afirma também que a quantidade de oxitocina que libertamos depende de quão afeiçoados nos sentimos relativamente à pessoa que nos está a dar carinho ou a tocar. “Se o carinho que recebemos dos nossos familiares pode aumentar a libertação da oxicitocina entre 50 a 100%, os níveis libertados quando o mesmo acontece com um estranho não são tão elevados”, afirma também. Todavia, serão suficientes q.b. para aqueles que não tem qualquer hipótese de sentir o toque humano e os benefícios que dele emanam.

 

Numa sociedade em que é difícil admitir a falta de carinho e a solidão, estas novas empresas que se comprometem a satisfazer uma necessidade humana tão básica como o toque podem vir a ter um lugar cativo. E, a acreditar nos relatos que se podem encontrar nos sites das empresas citadas, pagar por um pouco de amor e compreensão não é assim tão bizarro. Afinal, o all you need is love é também uma questão de saúde.

publicado às 16:58

Not lost in translation

E porque há coisas, como as regras básicas da boa educação, que nunca mudam e ainda bem, olá, por favor, obrigado, desculpe e adeus continuam a ser as palavras-passaporte para ser bem recebido em qualquer que seja o destino que escolheu para as suas férias. A tecnologia dá uma ajuda. Para estas e outras coisas.

 

Por: Helena Oliveira

google 2

 

Por mais que confiemos nas tecnologias, não é preciso exagerar na preguiça, armar-se em norte-americano ou espanhol e recusar-se a aprender as palavrinhas mágicas da boa educação na língua local. Aquelas que os nossos pais tanto insistiram que aprendêssemos e que repetíssemos, em especial quando as tias velhas nos ofereciam chocolates em troca de um puxãozinho de bochechas. Mas isso é outra conversa. O que agora nos interessa é a possibilidade de sermos mordidos por uma cobra no meio de uma selva no Vietname sem falar uma palavra do dialeto local ou comermos gato por lebre num restaurante de rua chinês só porque não fazemos a mínima ideia do que consta no menu. Temas que se tornam realmente importantes quando estamos em viagem, como acontece com muitos do que estão ou vão de férias.

 

O universo atual de apps de tradução para viajantes parece tão vasto quanto a própria Torre de Babel e tal como o “confundir de línguas” que deu origem à história bíblica, que os santos nos ajudem a saber escolher aquela que mais jeito nos dará. Ou, em contrapartida, fazer uma pesquisa nos divinos motores de busca e rezar para sabermos separar o trigo do joio. Mergulhemos então nas mais recentes ofertas de destrava línguas tecnológicos, em particular nas guerras-de-scrabble entre os principais concorrentes.

 

Google aposta na tradução visual instantânea…

 

Se é certo que o Verão continua a ser a época por excelência para os turistas zarparem para novas paragens, também é cada vez mais usual viajar-se em qualquer que seja a altura do ano. Mas tanto a Google como, uns dias mais tarde, a Microsoft esperaram pelo pico do Verão para colocarem no mercado as suas mais recentes ofertas em tecnologias de tradução. A primeira expandiu o seu repertório de línguas na sua Translate app em finais de Julho e a segunda lançou uma novinha em folha já em Agosto.

Gratuita, apesar de se aconselhar uma utilização prévia para, numa altura de aflição, não trocarmos alhos por bugalhos e dizermos alguma asneira em búlgaro, a Google app Translate não é instantaneamente nossa amiga, ou friendly como se diz na gíria. Concebida tanto para iOS como para Android, a app da Google acabou de adicionar 20 novas línguas à sua coleção – até agora tinha apenas sete, com o Português incluído nesta primeira fornada – traduzindo agora para checo, dinamarquês, búlgaro, finlandês, turco, ucraniano, indonésio, entre várias outras, com o hindi e o tailandês a funcionarem apenas a partir do “par” inglês. A app Google Translate oferece três formas de tradução de texto: através da escrita, da fala ou apontando a câmara do telefone para um sinal, um livro ou outro objeto que contenha texto, o qual é automaticamente traduzido na língua da sua escolha.

 

Em segundos, as palavras que para si eram chinês, são traduzidas para a língua que pretende, muito ao estilo da realidade virtual. Não esteja à espera, contudo, que esta funcionalidade seja útil com frases mais extensas ou complicadas. Mas, a dita app pode ser realmente vantajosa em várias ocasiões. Imagine que está a pedir indicações para visitar, uma das 60 ruas que compõem o famoso Grande Bazar em Istambul. Pode falar, escrever ou desenhar com os dedos os caracteres no ecrã do seu smartphone e seja o que for que pretende encontrar “salta-lhe”, ao jeito do velho pop-up, no turco pretendido.

Esta app permite também transliterações [imprescindíveis para alfabetos alternativos], muito úteis, por exemplo, para os que visitam aquele país que tem agora as ilhas à venda (apesar de os portugueses saberem de cor o que significa nai e oxi, não chega) e tem ao seu dispor também um ícone que poderá pressionar para que as palavras sejam pronunciadas em voz alta.

 

Uma outra funcionalidade útil para ocasiões que se repetem - como por exemplo ‘onde posso encontrar o multibanco mais próximo” – pode igualmente ser guardada numa pasta de “favoritos” de fácil acesso a qualquer altura. Depois de iniciado o processo – de escrita ou verbalização na sua língua nativa, seguidamente vista e/ou ouvida na língua de “chegada” – a app apresenta outras opções vantajosas. Por exemplo, se gosta de meter conversa na rua com os locais, pode iniciar uma conversa já traduzida no ecrã do seu telefone com quem quer que seja. A partir daí e se quiser continuar a prosa, seja via escrita ou falada, a app “ouve” e reconhece qualquer que seja a língua em causa e vai traduzindo à medida que a cavaqueira continua.

 

Tal como acontece com várias das suas concorrentes e porque a Internet quando nasce ainda não chega a todos os locais, a ferramenta de tradução visual funciona em modo offline. Mais uma vez, aconselha-se um período de exploração e habituação à mesma antes de se aventurar por línguas jamais navegadas.

 

… e a Microsoft oferece o maior menu de línguas disponíveis com particular aposta nos smartwatches

 

Apesar de já se ter aventurado pelos tortuosos caminhos da tradução online, através do Bing e em conjunto com o programa Skype Translator (que em breve fará também a sua estreia enquanto app de tradução), pela primeira vez a Microsoft resolveu expandir as suas funcionalidades de tradução não só para o mundo dos dispositivos móveis compatíveis com iOS e Android, mas também para os smartwatches.

Lançada a 7 de Agosto último, a Microsoft Translator corre em telemóveis e tablets, mas também no Applewatch e em outros “relógios inteligentes”, se bem que em férias mais inteligente seria não usar relógio. Apesar de não apresentar funcionalidades por demais inovadoras face à concorrência, a app da Microsoft permite escrever ou verbalizar a palavra ou frase que se quer traduzir, mostrando o texto traduzido no ecrã e repetindo-o em voz alta. É também possível copiar e colar texto de e para outras apps e passar à sua tradução. Para já, a Microsoft vai à frente no número de línguas que disponibiliza para texto e voz – 50 – e é com este número redondo que decidiu entrar em território até aqui dominado pela Google.

 

Sem ter a opção da câmara da sua concorrente acima mencionada, o Microsoft Translator oferece benefícios extra aos utilizadores do Apple Watch (será que Steve Jobs estará a sorrir do além?). Tal como qualquer 007 moderno que se preze, o utilizador pode falar diretamente para o seu relógio e obter a tradução instantânea em qualquer uma das 50 línguas disponíveis. A app consegue ainda pronunciar corretamente a frase por si “comunicada” através do mesmo e todas as traduções e definições são sincronizadas entre o relógio e o seu telefone.

Em termos de satisfação e por ser ainda muito recente, não foram ainda muitos os utilizadores que a avaliaram, mas em termos gerais alcança uma pontuação de 4.5 (em 5), exatamente a mesma que é dada por um número significativamente superior de utilizadores que o fizeram na Google Play store. O único senão (porque quanto mais se tem, mais se precisa) é que para algumas línguas, como o hebreu, o tailandês ou o vietnamita, a dita app da Microsoft não oferece a opção “falada”. Não sabemos como é que os pobres viajantes irão conseguir viver sem esta opção, mas a vida é assim. Dura, mesmo em férias.

 

Sem precisar de tradução, uma última e obrigatória sugestão

 

Chama-se Toilet Finder e, para o comum dos mortais, deverá ser a mais importante app de todos os tempos. Tal como o nome indica, esta app ajuda-o a encontrar as casas-de-banho públicas mais próximas seja lá onde estiver e a vontade apertar, oferecendo ainda informações adicionais como, por exemplo, se a mesma tem condições para trocar as fraldas do seu bebé ou acesso para pessoas com deficiência. Com mais de dois milhões de downloads efetuados, a aplicação “onde está a casa-de-banho mais próxima” é um sucesso. Criada pela BeTomorrow, sedeada em Bordéus, esta app conta com a maior base de dados das ditas do mundo inteiro e, desde que foi criada, nunca mais parou de responder às mais urgentes necessidades dos seus utilizadores.

 

Helena Oliveira é editora do Portal VER, tradutora e autora de “Palavras de Steve Jobs” e coordenadora de várias publicações na esfera económica. Gosta de fazer incursões noutros territórios editoriais e, desta curiosidade resultou já o conto infantil “O verdadeiro Pai Natal”. Gosta de ler, e de ler, e de ler, que são basicamente os seus hobbies favoritos. Antropóloga de formação, interessa-se pelo comportamento humano em geral, e pela sua interceção com as tecnologias em particular. O estranho e culturalmente fértil mundo das empresas é, igualmente, uma das suas áreas de preferência.

publicado às 10:00

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